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Foi a neve…

A hora faz descer o sol no horizonte rasgado pelo velho mas imponente castelo, e é a sonhos que me sabe esse primeiro beijo que o nosso querer impõe que não tenha fim. Há um indiscutível brilho de céu no teu olhar, e os teus braços, rocha firme onde eu aporto, acalmam-me a alma que inquieta e incessante te buscou durante uma vida inteira. E pelo sonho, por esse tempo e essa força imensa de tanto desejo, conheço-te como a mim mesmo, e nem soa a novidade, a inédita festa da minha pele entrelaçada na tua. Foi a neve… A neve que faz correr as fontes, e que o inverno um dia fez cobrir a serra, tornou-se assim, mágica e de flores, nesta tarde em que brilha o sol numa estranha e intermitente primavera. E nós… Descobertos cúmplices da terra e do campo, celtas, mouros… hoje somos templários, desbravados cavaleiros que rumam unidos buscando a vida. Na cumplicidade dos lábios e do olhar, tempera-se-nos de beijos a fala, as palavras de uma história que confluiu, fortuna maior de ent...

Os cravos que sorriem à janela

Na casa de primeiro andar da minha avó Francisca, na esquina do lado esquerdo de quem desce a Rua do Poço em direcção ao Rossio, existia uma janela grande de madeira pintada de vermelho, adornada por estes dias de Junho, por uns vasos de barro onde sobressaiam cravos de várias cores. A natureza, que a avó cuidava com mãos como mais ninguém, permitia-lhe dispensar as flores de papel que todos fabricávamos naquela zona da Vila e que se destinavam a celebrar o São Pedro. Quando a visitava, a avó Chica por vezes colhia e oferecia-me uma dessas flores, já depois de eu ter aberto a porta pelo postigo que me permitia o acesso ao trinco e de ter gritado o seu nome enquanto galgava os degraus da escada curva que tinha uma acústica única. Num dia de Junho, no tempo em que os serões da morte se passavam em casa e porque a curvatura da escada impedia a passagem de um caixão, os bombeiros chegaram ao fim da tarde e fizeram passar a avó entre os seus cravos que como sempre brilhavam à janela ...

O “amori”

A partir da afirmação do actor Michael Douglas que relacionou o cancro da garganta de que padece com a excessiva prática de sexo oral, o que desde logo é um claro indício para o tipo de flora microbiana que habita as partes mais íntimas da Mrs. Zeta-Jones, a conversa na roda dos amigos levou-nos para a descoberta das vantagens do amor e de todas as práticas associadas à sua vivência, quer seja no âmbito de uma expressão física ou então de natureza mais metafísica. Talvez por eu ser alentejano e também porque o amor vivido com as cumplicidades da planície tem sempre um sabor “especiali” e com muito tempo para ser devidamente saboreado, sigo o conselho da minha caríssima amiga Célia e sonorizo o tema com o sotaque da minha terra chamando-lhe “Amori”. Registo desde logo a atrapalhação que o tema criou na maioria dos presentes e a dificuldade expressa por muitos em apresentar nem que fosse apenas uma vantagem. Românticos como são, recuso-me a acreditar que tal se deveu ao reconhecimen...

As palavras eternas

Quando cheguei a Lisboa em 1984, cedo descobri o encanto adicional que Junho sempre oferece à capital, sendo como é, e desde logo, o mês das Festas de Santo António: a Feira do Livro. Residindo então no Príncipe Real, habituei-me a sair do metro no Marquês e a diariamente percorrer os pavilhões sempre na expectativa de aproveitar em cada uma das editoras, os preços mais baixos das obras do dia. Sozinho ou acompanhado por alguns colegas, lá atravessava o mar de vendedoras de contrafacção da Lacoste, daquelas que vendiam pólos em que o crocodilo se descolava e tinha de se voltar a colar, e aproveitando a fresca brisa do fim da tarde, via todas as novidades, sentia o sublime gosto de folhear os livros e, de quando em vez, tinha o prazer de me cruzar com escritores com quem trocava algumas palavras durante o breve tempo de um autógrafo. Foi assim que um dia conversei e apertei a mão a um Prémio Nobel da Literatura: José Saramago. Regressava depois a casa por São Mamede com direito a...

Catarina e André

A primavera vestiu-se finalmente da sua verdade, e o sol único e intenso de Lisboa, veio cúmplice unir-se ao “sim” que o amor vos impôs aos lábios na tarde mais quente da cidade. A porta aberta deixa que espreitemos atrás de nós, o Tejo, que assim sob sol intenso, corre incessante e azul, nesse exacto momento em que aos pés da visão de uma Pietá e embalados pelo canto dolente e alentejano ao Bom Pastor, se sela esse amor que o coração há muito tornara já eterno e divino. Sente-se o bulício sobre a ponte que liga as margens, hoje como naquela noite em que Alfama, porto de fado e marca de destino, criou o instante dos vossos olhares cruzados e definitivamente unidos na magia de duas vidas que se fazem uma só. E porque de vida se encheu a tarde, voam rubras pétalas, aromas de rosa por sobre nós e sobre as desenhadas calçadas de Lisboa. O dia, por vós, chamou a festa, e é à vida que brindamos na mesa tão grande e feita de tantas mesas desse mágico banquete de todos os amigos. H...

Cúmplices do futuro

Dimensão de todos os sonhos, morte dos impossíveis e temores, alquimia, magia nascida da mais pura e simples verdade de um olhar. Heróis de todos os tempos, cúmplices do futuro. Renovada e reinventada Terra, solta e desbravada liberdade que o destino tinge de um verde canto que é afinal a cor de toda a nossa esperança. Mestres da verdade na coerência que enche de alma, todas, mesmo até as mais simples palavras. É no colo que se embala o amanhã, amor celebrado a abraços e beijos na herança e garantia de toda a eternidade. E no voar ritmado de um baloiço, no rodopiar persistente de um pião, no vítreo tilintar de um bolso de berlindes, no eixo, na macaca, no escorrega, nos rolamentos, na bola que se chuta e marca golos, no macaquinho do Chinês, nas escondidas, na dança de roda, no mata, na corda, na corrida, no apanha, no gatinhar, nas fadas, nas adivinhas, no lenço, nas princesas, nos cowboys, no canto, na música, na festa… …Do som do seu riso se enfeita o nosso dia e aconte...

Da Alameda à Aula Magna: uma aventura no País do Betão

Um estudo hoje apresentado contabiliza que Portugal recebeu 9 milhões de euros por dia num total de 81 mil milhões de Euros desde que em 1986 aderiu à União Europeia, então Comunidade Económica Europeia. Deste dinheiro, para além de embarcações de pesca destruída, cursos de formação profissional e outros, a maior fatia foi utilizada em obras de betão com destaque para as vias rodoviárias que todas somadas em extensão permitiriam ligar Lisboa a Nova Deli. Se tivermos em conta que no inicio da década de oitenta estivemos nas mãos do Fundo Monetário Internacional e que há dois anos para lá voltámos, poderemos dizer que de pouco valeu este aporte de capital que ocorreu num quarto de século, dinheiro sucessivamente utilizado na construção das fachadas que através de uma ilusão de desenvolvimento foram alimentando as campanhas eleitorais e o perpetuar de uma classe política no assento do poder. O betão é a marca de um certo novo-riquismo bacoco e vaidoso que com raríssimas excepções a...