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É a noite a hora de todas as paixões

É a noite a hora de todas as paixões Suprema mestria do luar Inspiração das estrelas E a arte de quebrar solidões De cruzar destinos Foi demasiada vida na dor de estar só Pareceu infinito Lento Ganhou adjectivo de impossível O árduo caminho até chegar a ti Até que uma noite de verão enleou o meu no teu olhar Magia no alambique de um alquimista E chegaste finalmente Tu A outra A melhor metade de mim Decorámos o instante Demasiado breve Porque para quem muito ama Basta a intensidade de um primeiro olhar O beijo segredou-me “amor” E as minhas mãos entregues às tuas Deram-me a glória E o mundo passou então a ser todo meu O mundo ganho num momento apenas O instante de ser teu Credo e fé Poder e força de todos os deuses do universo E agora Que avance o sonho Que se cumpra no infinito de todos os nossos dias Uma noite O simples momento de um olhar E por ti O mundo O futuro

Presunção e água benta…

A manhã com cheiro a verão e despudorado ar de férias exige um café que complete o despertar, e por isso sigo os passos de muitos dias e entro na pastelaria que fica junto ao meu prédio. A seguir a mim entra uma vizinha de sempre, uma mulher pelos cinquenta e tantos e que desde que a conheço, e já lá vão dezoito anos, terá engordado uma média de um quilo por ano. O tom excessivamente moreno da pele, que evidencia uma recente e intensa exposição ao sol, está associado a uma camada de cremes ao estilo bolo de mil-folhas, e mesmo com a cobertura de tintas de tons garridos, não lhe permitem camuflar estas agruras do tempo no seu invólucro dermo-cosmético. A senhora do café cumprimenta-a: - Olá bom dia. Está boa? A vizinha não se fica por pouco: - Estou boa e sou boa. Aí valente. E sentindo a necessidade de aplausos nesta corajosa demonstração de auto-estima, olha para mim e arrisca atirar-se de um prédio de 40 andares sem cama elástica que lhe ampare a queda: - Não acha ...

Segredos

Bebo da memória O alento que nasce das palavras As poucas que foram ditas E essas Tantas Que numa breve e rara tarde de primavera Intuí no brilho do teu olhar entregue ao meu No silêncio só os olhares cantam E a memória Filha do tempo e fiel irmã do silêncio É o perfeito antídoto para tratar a dor que brota da saudade Somos mártires da razão Enclausurados monges despojados de si Da sua verdade Sombras vagas na escuridão dos claustros vazios de uma tão triste noite Somos eremitas errando pelo silêncio Aparentes cabides Esqueletos de negros hábitos Mas Somos afinal secretos donos de duas almas que se amam E um dia Quando o galo cantar e for manhã Quando o sol tingir de sangue este céu tão negro que agora nos cobre Romperemos o silêncio E seguiremos juntos Matando segredos Rompendo madrugadas

Ginja, brinhol e gargalhadas

Quando a banda filarmónica deu os primeiros acordes no cimo do coreto já quase todos tínhamos dito “presente” e poucos faltavam no Largo dos Capuchos. Cumprir uma tradição? Não. Verdadeiramente a necessidade e o prazer de estarmos juntos nem que só por uma noite. Um verdadeiro atestar de amizade na Área de Serviço dos Afectos. E a tradição é apenas gostarmos muito uns dos outros. No palco decorria um tributo à Daniela Mercury e à Yvette Sangalo com a voz de uma brasileira, produto genérico e muito mais barato do que as duas vozes originais, a encher o ar de um som estridente que é tão pertinente por aqui como o “ouvi um passarinho” nas ruas da Baía. Quim Barreiros, volta. Estás perdoado. Mas nem a “esgazeada” cantora nos calou a voz, para que entre todos os beijos e abraços soltássemos a memória e actualizássemos todos os dados que oferecem a tranquilidade de sabermos que nos outros 364 dias, nas nossas respectivas vidas, todos estamos bem. Também nos rimos muito. De nós...

Sob o fogo do meio-dia

A hora carrega o perfume das manhãs de verão Breve ilusão de uma suave brisa Rendida que está a Terra Inevitável destino do sul À luz À calma Ao braseiro Que de nascente O astro-rei Hora a hora A pouco e pouco Imporá à imensidão feita de Infinitos horizontes Da planície que então brilhará como ouro Sei que chegarás pelo fogo do meio-dia Esse momento em que as árvores são bênçãos Sombras Perfeitos e cúmplices recantos Braços abertos a todos os doces segredos dos amantes Os teus olhos que rimam com o céu Imporão então aos meus a alegria de uma lágrima Ponto final num parágrafo de saudade Amargo fel de dor De tantos tristes dias  De te não ver E o futuro que sempre nos soube a sonho Faz-se agora presente numa imensa festa de amados beijos A eternidade O sol de sermos dois No calor de um perfeito e intenso dia de Alentejo

Amanhecem com morteiros estes dias em que somos felizes

O dia começa sempre com 21 morteiros, estranho número ímpar mas que é salva especial, honra máxima digna de reis e presidentes na festa que nos convoca a todos para um momento de memórias e para o atestar de vida nesse prazer único de estarmos juntos nem que apenas e só por um tão breve par de dias. E ou eu me engano nas contas durante o meu acordar estremunhado ou o homem dos foguetes nunca lança os 21. Mas que importa… Em breve, a banda filarmónica vai passar pelas ruas e, como por magia, à sua frente e aos primeiros acordes, abrem-se as janelas, a par dos sorrisos tão típicos destes dias que os nossos avós nos ensinaram a tornar diferentes e maiores. E nós não resistimos mesmo a torná-los especiais no cumprimento de uma perfeita coerência que mais do que histórica, já tem uma intensa dimensão genética. Como em mais nenhum outro dia do ano, pelo Rossio ou pela Carreira das Nogueiras ou os Pelâmes, faz-se demasiado curto o percurso entre a Praça e os Capuchos. A culpa é d...

Tardes de estio

Caminho feliz com os pés beijando a terra Passos certos no privilégio de um imenso chão de heróis Terra dos meus avós Acrópole e glória por sobre o panteão de todos os medos Sacra herança Altar de um povo simples Gente maior E esta marca única de ser do campo Caminho orgulhoso E a estrada tem a bênção do suor Santo aspergir da terra pelo rosto do Homem Ao ritmo do arado E das sábias e incansáveis mãos que a rasgam buscando o pão Tardes de estio Tardes de Alentejo E a pele assim entregue ao sol Sem medo No tatuar das rugas Marca dos bravos Troféus no rosto de quem jamais saberá desistir Ao longe o canto A voz das mulheres em saias ou canto chão E o compasso da roupa batida forte sobre a pedra mais branca na margem do ribeiro Tardes de estio Tardes de Alentejo Tardes do campo Tardes de mil heróis As tardes desses dias que serão para sempre os meus