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Abraçar-me-ei a ti nos dias em que o tempo se enfeitar de Maio

Abraçar-me-ei a ti nos dias em que o tempo se enfeitar de Maio, tomaremos do campo uma suave e doce rebeldia, e os dois correremos depois por entre papoilas e giesta para chegarmos às cidades que ousámos sonhar, e onde tomaremos as ruas e as praças levando connosco apenas uma só arma: a liberdade. Dar-te-ei beijos como bandeiras erguidas sob o chão tingido pelas cinzas das amarras, detalhes de pó da história que os nossos passos cruzados elevarão e farão perde-se no céu, que jamais deixará a sua coerência em tons de azul. E por entre os gritos da nossa gente em festa, talvez se acenda uma clareira para que nos chegue o toque de uma guitarra entregue ao dedilhar dos Verdes Anos. Verde… o nosso tempo qualquer que ele seja, tingido da esperança e das vontades que colhemos e herdámos do campo nas manhãs de primavera. E dar-te-ei mais um beijo, chamaremos “amor” um ao outro ao mesmo tempo, chamaremos eterno a este querer, e seguiremos depois com a multidão até ao rio. Os nossos ...

Os poetas não compram flores

Não deixo nunca que os sonhos se apaguem na inevitabilidade do tempo; com eles vou moldando o mundo, e às vezes tomo notas desenhando e construindo “os meus mundos”, detalhes de brincar que um dia, mais cedo ou mais tarde, transportarei para a dimensão real que têm os dias. Desenho a face de uma cidade colorida banhada por um rio, o Tejo; e encho-a de árvores, de ruas com chão desenhado a preto e branco, um castelo, paredes vestidas de todas as cores… e gente; uma cidade onde só pelo olhar se intui a banda sonora tecida a toque de guitarra e voz apaixonada de um fado. Lisboa, a cidade onde cada detalhe me conta uma história. O rio cruza-se desde o Terreiro do Paço em direcção ao comboio que ruma a sul e sueste… E na outra face e em tom de férias desenho as planícies que conduzem à foz de um outro rio, o Guadiana; que os rios são apenas distintos pormenores geográficos para o canto e o passo da mesma água. Aqui dispenso a ponte, tenho o barco que me levará sempre com a mão e...

As lembranças de Lear e a busca incessante das palavras certas

Trouxe da tarde uma foto que tirámos junto ao rio, e escrevo olhando-a fixamente à luz das lembranças, buscando arduamente as palavras que melhor desenhem a verdade sobre o sentir a que ela reporta. Às vezes faço uma pausa e fecho os olhos para regressar ao recanto perfeito que arquitectaste em mim. Sento-me e descanso um pouco por lá. Depois regresso à foto e à folha branca. Que bom seria se os dicionários de todas as línguas do universo tomassem das musas o encanto e pudessem ajudar-me… Escrevo, leio e releio, volto a escrever… mas nada se assemelha ao tudo perfeito que os nossos olhos há pouco tão bem disseram um ao outro. A imbatível poesia dos olhares na nudez despojada de quaisquer pudores. Alguém plantou um sofá no cais da estação para que nós nos pudéssemos sentar a partilhar a nossa história. Passámos tantas vezes por aqui e nunca pensámos que um dia o tempo nos faria juntar; o Castelo iluminado ao fundo, o D. Maria no sossego de uma noite sem teatro. "A...

Perspectivas … e o muito que não se vê

Quem assumir que o mar é da cor da água que a onda lhe faz rebentar aos pés algures numa praia, jamais pensará pelo tom alvo da espuma que ele é azul; e quem olhar para uma rosa cingindo-se ao pé verde cravejado de espinhos, viverá para sempre na ignorância do esplendor que a flor oferece a quem a vê e “respira”. Quem olhar para mim todos os dias ao fim da tarde no regresso a casa: mochila às costas, algum ou outro saco de compras, papéis, um assobio a enfeitar os lábios… Assumirá por certo que o homem de barba grisalha que vive no sexto andar, que em dias de jogo sai de casa com a camisola do Benfica devidamente vestida, que escuta a Anne Marie David na canção que venceu a Eurovisão em 1973, e que tem um vaso de coentros à janela; é um solitário com tiques de alguma excentricidade. O teu amor é a festa entrelaçada em todos os segundos que a vida me oferece, e eu sou muito mais… sou precisamente o oposto da solidão que alguém possa vislumbrar nos meus dias. Esta noite eram pr...

Este compromisso que atravessa todas as idades

De repente, apercebo-me, passaram 25 anos sobre o dia em que acabei o curso de Farmácia: 27 de Abril de 1990. Com os muros a caírem na Europa, com Lisboa a ganhar uma cor diferente, e a poesia e a liberdade a ousarem enfeitar as noites do Bairro Alto que nos oferecia as ruas e as “tascas” para podermos pôr palavras nos sonhos e partilhá-los em voz alta; lembro-me bem dos meus 23 anos e dos regressos a casa a pé desde o cimo da Rua Rodrigo da Fonseca e da Farmácia Ronil onde estagiei, até ao Príncipe Real onde morava. Eu e os meus pensamentos numa Lisboa que já era irremediavelmente a minha casa; e um privilégio. Acho que nunca planeei nada de muito concreto por entre o desejo de ser feliz, independente e fiel ao compromisso de nunca me trair a mim próprio nos desejos, nas minhas mais férreas vontades. Custasse o que custasse. E passaram 25 anos… Quase não dei conta; penso-o quando desfruto hoje da vista desde a janela da sala de minha casa, vejo o mar e sinto o conforto de ...

O sol e as palavras que teço para ti

Voltei hoje a sentar-me no recanto de onde te escrevo ao jeito de quem namora, a mesa onde teço palavras e lhes peço que cresçam e voem para que te abracem. Na sexta-feira trouxe um cravo vermelho de uma tertúlia sobre a liberdade, e ontem no campo escolhi duas rosas, também vermelhas, que mais tarde juntei ao cravo numa jarra que está agora à minha frente. As flores olham-me enquanto te escrevo… E entre elas e eu, o homem que procura e escolhe as palavras; entre a liberdade, a paixão e o meu pensamento que te resgata da distância, há uma sintonia perpétua e perfeita. Eu amo-te com o vigor rubro de uma rosa e o teu amor é a expressão suprema da minha liberdade. A paixão conta bem mais para a vida do que o sangue que em mim pulsa e corre… E é repousado nos teus ombros que me encontro, e é nos teus beijos que nada de mim sobra ou falta. Sou eu completo e de verdade, sou eu pleno e coerente, sou eu a respirar o aroma doce da minha liberdade. Toda a noite choveu copiosament...

O post número 1.000 / "E vão buscar-me para ir para casa"

Em 1987 tu já estavas em Lisboa a terminar a faculdade e eu ainda andava por Vila Viçosa a tentar seguir-te os passos. Como era costume nas férias do Natal, eu e a mãe já tínhamos feito o presépio e encomendado as prendas que era difícil arranjar no Alentejo. Eu queria um disco de vinil de um grupo que agora não recordo. Apesar de ter 16 anos, mantinha(o) a curiosidade das crianças de verificar se o meu desejo estava em vias de ser realizado e a existência, no cimo de um guarda-fato, de um volume com as medidas de um LP era bom sinal… Mas surpresa das surpresas, no momento em que me entregaste a prenda, o LP foi facilmente dobrado pelas tuas mãos e eu devo ter feito a maior cara de espanto: lá dentro estava o cartão de sócio do nosso Benfica e umas quadras que ainda hoje guardo onde falavas daquilo que são realmente os nossos desejos. Já sabes que não sei fazer quadras, nem limitar textos a 75 palavras, mas quero que saibas que eu, os pais, e toda a família te apoiamos naquilo qu...