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Os beijos dos amigos são eternos

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O silêncio é o melhor refúgio para espreitar com nitidez todas as lembranças. São nove horas de uma Segunda-feira que vestiu o Tejo de um intenso azul, o instante em que muito provavelmente nos encontraríamos junto ao café: - A Anabela vem hoje muito bonita. - Muito obrigado, mas o Joaquim é um exagerado. - Não sou nada. Os poetas é que não sentem pudor em colocar palavras sobre a verdade. Hoje, aqui na igreja fria, resta-me o silêncio… Conhecemo-nos há oito anos e ficámos a trabalhar lado-a-lado juntamente com o Rui que era bem-disposto e nos fazia rir aos dois. Fomos trabalhando e conversando, descobrindo-nos cúmplices em muita coisa, e sobretudo, nessa forma tão completa de viver o amor pelos nossos pais. E havia sempre uma história bonita da Beatriz, o seu amor maior. - Joaquim, o mundo às vezes parece não nos compreender. - Anabela, o mundo está cheio da banalidade que nunca terá capacidade para entender quem é superior e especial. Às vezes ao fim de sema...

Um pão que só o céu sabe amassar…

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Como é possível acreditar que o campo se apaga, se rende inevitavelmente à solidão na praia vazia e aos pés do mar? Não serão as ondas a festa de um abraço eterno que o querer não desafina nunca? As praias eternas, cais moldados pelas milionésimas partículas de um tempo artífice, casas de água que oferecem generosos recantos à alma dos poetas, grutas profundas onde os sentidos se desatam e desatam todos os nós, até mesmo aqueles que escondem as palavras certas. Comparadas com a alma e o pensamento, as gaivotas são na praia quem menos consegue voar. E as ondas da praia são como as tardes improváveis onde o trigo e o sal se abraçam num pão que só o céu sabe amassar.

Os segredos do mar

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O verão existe para revelar os segredos que durante muito tempo o mar tentou guardar só para si. Um esforço inglório, agora que os vejo nítidos e salgados a espreitarem sílaba a sílaba por detrás do meu copo a que alguém ofereceu o tom fresco do vinho branco com um indisfarçável aroma da fruta madura do pomar. Trouxeram um sofá para a praia e eu sento-me, recosto-me; a areia nos pés, uma escada suave de rochas e algas à minha frente. Parava aqui o tempo, travava o sol para que as ondas que sobem timidamente até aqui persistissem cor de fogo a falar-me de um amor que as águas tomaram por reflexo na margem de um rio. As águas que a foz depois perfumou de sal. Porque sempre à tua volta, eu sei que são redondos todos os meus pensamentos. E também sei que os segredos guardados pelo mar não são mais do palavras nossas que o sol destapa ao fim da tarde no despudor que lhe oferece o verão.

Vila Viçosa

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Acaricia-me com as tuas ruas Beija-me doce com a fonte da praça Sossego suave em todas as luas Leito eterno de laranjas que me abraça Sobre almofada em folha de oliveira Entrego então ao céu, fiel, o coração Com o castelo ali junto à cabeceira E uma prece à Virgem da Conceição

Quem nos fez assim sonhava a liberdade...

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Avançaremos juntos pelas tardes longas de domingo: roupa colorida, os anos oitenta a espreitarem pelo cabelo, viola a tiracolo, o riso entrelaçado às palavras, as mãos rebeldes acariciando a giesta ou os medronhos maduros, a fé à solta e livre nos abraços. Somos imortais cruzando as muralhas semeadas pelo tempo e tomando de cada pedra do caminho a esperança que soletra em prece… Ave Maria. Senhora do sorriso, Mestra Mãe da ousadia das nossas madrugadas… Em Vila Viçosa na hora em que o sol se prepara para fugir para lá do Jardim das Damas, a fachada de cal da igreja da Senhora da Conceição incendeia-se de luz, indiferente às sombras que as muralhas e as árvores tentam em vão impor-lhe ali bem dentro do Castelo. Senhora do sol, Senhora de todas as nossas horas… Quem nos fez assim sonhava a liberdade. Somos imortais como a cal que se incendeia nas tardes do sul.

Os amigos são abraços mas daqueles com sofá…

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Os amigos têm o nome desenhado a canela sobre dias de arroz doce, são o primeiro violino num solo feliz a rasgar o palco que parece vazio; os amigos enfeitam-nos todos os minutos com balões acesos e coloridos, e nas ruas por onde andamos, são hortênsias azuis nas varandas de onde melhor se abraça o mar. Têm olhares que nos oferecem sombra no repouso calmo da tempestade que amainaram, enquanto as suas mãos nos beijam com o aroma do mel e o fulgor da água fresca da melhor fonte. Os amigos são o luar que brilha sobre as noites de Janeiro, o sol das tardes de Março que puxam a primavera, os amigos são o café que fumega por sobre a sonolência com que nos descobre a madrugada. São abraços mas daqueles com sofá para que estejamos sempre cómodos e a gosto. Os amigos são a primeira página de um jornal que relata a nossa sorte, são o não ou o sim numa jogada feita para ganhar, são a bênção de limão sobre os instantes que não sabem a nada, o gelo na água assim-assim, os amigos são pal...

Ofereço à mão o gesto redondo de uma nova caligrafia...

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Ofereço à mão o gesto redondo de uma nova caligrafia como quem polvilha de açúcar todas as coisas que ousamos dizer. Foi o vento que sob o céu azul de verão desenhou o cavalo de nuvens que me levou a galope até ao sopé da montanha onde repousas à minha espera. Enleámos o desejo, demos às mãos um sentido de carícias e deixámo-nos estar naquele abraço que nunca tem tempo de acabar. A sombra da enorme bétula escondeu por momentos o cavalo que segue feliz a brincar por agora com uma bola gigante que o vento lhe ofereceu. Terei de dizer-lhe que não quero voltar ao silêncio. E as palavras que segredamos um ao outro no exíguo espaço do abraço são um mapa, as coordenadas das nossas vontades, confidências expressas em letras que vou desenhando lentamente dando-lhes na forma a coerência doce da essência... com a minha melhor caligrafia.