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A amnésia é o A de Portugal…

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Lado a lado com Pátria, Ousadia, Revolução, Trabalho, União, Genialidade e Liberdade, a Amnésia é, definitivamente o A de Portugal. Será de há muito evidente tal constatação, que até D. João I, algures entre os séculos XIV e XV, recebeu como cognome “O de boa memória”, talvez por ter sido uma honrosa exceção. Numa terra onde a vaidade se engraxa todos os dias pelo resgate claro, e aparentemente lúcido, das virtudes e feitos seletiva e estrategicamente lembrados e hiperbolizados até ao estatuto de heroicos, a amnésia cumpre a missão de degredo da incompetência e da ilicitude, para lá da função de “Deus me valha porque eu até nem tenho pressa”. Sem o pudor, rasgado há muito em conjunto com os “mantos diáfanos da fantasia”, os políticos e gestores passam pelas comissões de inquérito aos negócios ruinosos da banca, não se recordando de nada que os possa comprometer, fazendo de cada “não me lembro”, uma faca de gume afilado até à dignidade dos contribuintes honestos. ...

Renato

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É meio dia em Barcelona e acabei de aterrar vindo de Lisboa. Em muitas visitas, esta é a primeira vez que encontro a cidade coberta por um manto denso de nuvens, e chove copiosamente. Vá lá saber-se porque razão choram as cidades… A foto acima publiquei-a há precisamente um ano, a 9 de junho de 2018, com um texto a que chamei “Quanto tempo existe no espaço de uma hora”, em que relatei a minha ida ao Teatro de Cascais para assistir a uma revista protagonizada pelos “Cascotas”, um grupo sénior onde o meu colega e amigo Renato Borges e a sua queridíssima mulher, a Margarida, tinham lugar de destaque. Tirámos a foto no final do espetáculo. Fomos colegas na Pfizer durante muitos anos, trabalhámos juntos em muitos e grandes projetos, visitámos muitas cidades, mas agora encontrávamo-nos quando eu publicava um livro ou existia algum evento especial, para além, é claro, das noites europeias no nosso Estádio da Luz. O Renato estava algo fragilizado, o Benfica não entusiasmava, e por...

PORTUGAL

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Vivemos entre a quietude e um desassossego quase sempre feito de saudade, e por tanto sonhar-nos caravela, e insistirmos navegar, tornámo-nos naquilo que somos hoje: o próprio mar. Acenamos ao Céu no meio dia de Fátima, escrevemos o futuro nas linhas que o azeite inventa entre nós e o horizonte, nas terras do sul; e a norte, multiplicamos o sol reinventado o chão em degraus de vinho que sobem desde o rio, por onde subimos com fé contrariando a morte. Dirão que somos uma pequena praia e um ínfimo instante no tempo inteiro do universo, mas o nosso espaço é o infinito que o olhar nos apregoa, e a nossa História tem dimensão de eternidade, mesmo cabendo num só poema de Camões ou de Pessoa. Acordamos a alma à noite, sob um xaile de lua, e o fado que se escuta põe na mesma rima, a festa e as dores, porque só somando as duas se dizem os amores. Mudamos o destino com cravos que colhemos da raiz da liberdade, e por uma nova madrugada somos heróis, imprevisíveis, poetas, pedre...

Construir cidades...

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Fosse em casa com peças da Lego, carrinhos miniatura ou casas de cartão, fosse na rua com pedras e areia, nós brincámos a construir cidades por onde depois nunca tínhamos tempo para caminha e “viver”. As mães chamavam-nos para jantar e a brincadeira acabava ali, sendo que no outro dia, algo novo e mais interessante nos esperava para passarmos o tempo. Certo, qualquer que fosse o contexto em que nos encontrávamos nas férias de verão, era matarmos a sede nos bebedouros de mármore, partilhando-os com os pardais e todos os outros pássaros. Na semana que passou fui apresentar o meu livro “As bolachas mágicas da avó Inácia” a cerca de 400 crianças de uma escola em Algés, e uma delas, ao formular uma questão, referiu: - “A minha avó, que é idosa como o Francisco e também gosta de fazer bolachas...” Sorri-me para dentro, porque as crianças não têm filtros e todos aqueles que temos barbas e cabelos brancos... “Se deixasses crescer um pouco mais a barba poderias se...

Morto nos braços de si mesmo...

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Eu nasci para percorrer sozinho todas as cidades do mundo, e no silêncio, rua a rua, vou-me diluindo na imensidão do universo, até à dimensão ínfima que me permite cruzar e entender todos os castelos, até mesmo os da diferença que aparenta ser mais impenetrável e impossível. Em modo pequeno entra-se e entende-se melhor o coração dos outros. Cruzo as ruas de Lyon até à margem do rio Saône e à estátua de um homem que caminha transportando-se a si próprio, morto, nos seus braços. Eu nasci para percorrer sozinho todas as cidades do mundo, e no silêncio, vou sentindo o quanto de mim sobrevive e respira, sentindo ao mesmo tempo o peso daquilo que deixei morrer sem pranto e sem dor, quando me tornei indiferente ao espaço e ao tempo. Quem não se dilui na dimensão do universo, toma o “importante” estatuto de uma montanha de pedra que jamais saberá o que é o amor. E um homem sem amor é um homem que jaz nos braços de si mesmo, mesmo que ainda consiga caminhar.

Ser do Benfica...

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Ser do Benfica é viver esta festa de olharmos para cima, e repararmos que não há nada nem ninguém entre nós o céu. Corremos então num grito pela cidade, e às duas por três, parece até que o Tejo se vestiu de encarnado e pôs papoilas no cabelo para ir passear até ao Marquês. Somos feitos de povo e somos orgulhosamente povo. Os nossos pés moram em Carnide, num bairro de Lisboa, a capital, mas o Homem é do tamanho do horizonte onde a alma o leva, e nós, definitivamente, temos dimensão de infinito num corpo que é do tamanho de Portugal. Não importa quando nascemos, e se o fizemos antes ou depois de alguém, na nossa idade cabe o tempo todo, e no golo de um segundo apenas conseguimos sempre provar a eternidade. Sim, somos lampiões acendidos pela força de lutar, porque mesmo que nos roubem o dia ou a noite, nós reinventaremos sempre um sol e o luar. E sim, por mais que o nosso fado se enleie no devaneio de outras canções, voltaremos sempre à essência do sangue que nos percorr...

Desabafos nas margens de um rio sossegado, com um copo de vinho na mão, e na companhia de um mês de maio que ainda ensaia a primavera…

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A prudência impõe telhados aos beijos, privando-os do céu e do luar. E os telhados, tal qual o chão firme, são os maiores obstáculos para quem ambiciona crescer para lá do presente de um qualquer instante. A vaidade impõe a aparência de capas sobre capas, para que, tal como acontece com as cebolas, alguém acabe a chorar perante o gosto amargo e pobre da essência real de que não cuidámos e que guardamos dentro. A cegueira ideológica, corporativa, religiosa, partidária... mais cedo ou mais tarde acaba por nos reciclar em autoclismos, com a heroicidade e a inteligência do pensamento a serem substituídas por descargas de água sobre os dejetos arremessados por comportamentos imbecis para os quais temos trancados os olhares e o sentido crítico. As operações plásticas disfarçam a idade, mas assaltam-nos a história, roubando-nos a possibilidade de nos rirmos com a vida e a cara toda. As injustiças provocam úlceras quando acumuladas no estômago, os joelhos em reverência, apoiados ...