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A vida é bela

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Nestas manhãs de primavera tenho o aplauso dos pássaros, quando ainda ensonado, abro as portadas de madeira da janela do quarto. Nas manhãs, como em tudo na vida, o sol faz a diferença, e sempre para melhor. Quer falemos do astro rei, quer daquele outro que irradia pelo olhar ou pelas palavras bonitas da gente que gosta de nos mimar. Esta semana “desconfinei” um pouco mais, e que bem me soube o café matinal tomado na pastelaria Tiborna, aqui bem perto de casa, em Vila Viçosa. A máscara não nos esconde o sol, e eu acho até, que à semelhança do que Roberto Benigni idealizou no filme “A vida é bela”, eu e os meus conterrâneos resolvemos assumir que isto não é, afinal, uma guerra, mas antes um imenso jogo entre uma espécie de cowboys, de mascarilha, que no final teremos vencer, por arte e empenho, muito mais que engenho. Não sei se é um modo de estar muito alentejano, mas às vezes parece-me que sim, este de levar a vida pela positiva, e sempre a rir, sem que tal belisque a ...

Fátima e uma noite vazia mas inteira

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Quando era rapaz íamos a Fátima de autocarro, com as amigas e os amigos, mais os pais deles. Na noite que antecedia a partida, as nossas mães mal dormiam porque havia que terminar de fritar os rissóis de pescada, cozer as empadas de galinha, tostar o arroz no forno, para além de cuidar da arrumação de todas as iguarias na geleira. Ao contrário do tempo das nossas mães, que era escasso, o nosso mal se movia, e nós também dormíamos mal, mas era com aquela ansiedade de quem ainda vê longe a manhã. Partíamos antes do sol nascer, e ali por alturas de Ponte de Sôr fazia-se uma paragem técnico sanitária para alívio das bexigas, com o género como critério e a estrada como fronteira. Rezávamos e cantávamos durante a viagem, socorrendo-nos da Playlist que a Zinha tinha elaborado na semana anterior. Também existia sempre alguém que enjoava por força das curvas da estrada, mas como não era doença de perigo, a coisa até servia para distrair. Chegávamos a Fátima... Ficávamos junt...

Frívolas virtudes no país da norma

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Há alguns anos, durante uma conversa sobre as religiões e a sua dimensão cultural, um amigo comentou de forma muito natural, que nós, os católicos, seremos confrontados com maior exigência na hora do juízo final, tão só porque nos foi dado conhecer o “verdadeiro” Deus. Nós já saímos da Idade Média, mas ela insiste em não sair de alguns de nós. Um outro amigo, e numa outra conversa, confessou-me a sua satisfação por ter encontrado uma médica que lhe solucionou o seu problema de saúde, afirmando de forma muito natural: - Ela é Brasileira, mas é muito competente. Já se ela fosse boa a tirar bicas num bar qualquer. E por acaso em Paris, nós, os Portugueses, também estamos identificados como sendo bons a limpar casas de banho. Ainda hoje sou questionado sobre se sei cozinhar, limpar a casa ou passar a ferro, dado que vivo só há trinta e seis anos, e a recorrência da pergunta deve-se apenas ao facto de eu ser homem. “A mulher na sala e na cozinha”, ainda e sempre como no ...

A noite é a pátria das rosas

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A noite é a pátria das rosas, e em Vila Viçosa, quando os sinos se retiram, logo após o bater das dez, só elas se escutam num linguajar com tanto de perfeito como de enigma. “Quando inerte, na paz do cemitério, o meu corpo matar a fome às rosas”. Florbela repousa aqui, neste chão que nos pertence desde o berço, e talvez o canto sem frases e sem véus que se escuta à noite, seja o pão dos poetas, tomado docemente num purpuro banquete de sangue impregnado de verdade. À noite saio para falar com as rosas, e tomo-lhes o prenúncio de maio, no desassombrado espreguiçar das pétalas ao sabor do vento que corre de todos os lados. Não sei o que sou, e talvez jamais o consiga saber, mas nada poderá ser tão verdadeiro a definir-me, quanto este assumido deleite de um homem que sai à noite para falar com as rosas, e tomar-lhes o perfume que emana dos seus mais estranhos vocábulos. Porque ao contrário do catastrofismo crónico da voz dos arautos da sensatez, do cinzentismo do...

A liberdade

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À pergunta sobre onde me encontrava no dia 25 de abril de 1974, responderei que na Escola Masculina de Vila Viçosa. Com quase oito anos e a frequentar a segunda classe, terei por certo feito um ditado ou uma cópia socorrendo-me de algum dos textos do livro único por onde todos aprendíamos. O mesmo livro de há muitos anos, onde todos os homens eram honrados e pobres, as mulheres domésticas de avental, e os rapazes e as raparigas, cada um para seu lado, éramos limpinhos apesar dos remendos na farda. Liberdade? Não entendi então, e com clareza, sobre o tanto que aquela palavra se ouvia numa quinta-feira que amanhecera húmida e algo fria, para um tão avançado abril. Entendi mais parte o valor da palavra e do conceito, à medida que fui crescendo sem deixar de poder ser eu. Tinha muito boas notas, era dos melhores alunos da turma, e era um génio, não por sê-lo de verdade, mas porque muito pouco haveria de esperar do filho de uma modista e de um barbeiro. Ainda se um dos meu...

O livro

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O livro é a viagem solitária de um Homem nu e descalço, por sobre o barro, as estradas e as ruas que a alma lhe pede, existam elas ou não. O livro, inevitavelmente, tem o coração desse Homem a bombear sangue para a gente toda que ele diz, incendiando-a de um despudor que não omite chagas, risos, dores, e outros sentimentos que tais. O livro é o eficaz antídoto da morte, constrói casas, derruba telhados, ressuscita fontes e rios, aproxima-nos do mar, traz areia do deserto, o aroma da savana… Tendo uma impressionante memória, o livro brinca com as horas, empurrando-as ou aproximando-as a seu belo prazer, ao mesmo tempo que destrói a ordem natural de todas as coisas. À exceção do dicionário, que o faz por obrigação, que outro livro abarca em si a noção de impossível? Palácio das antíteses, o livro consegue fazer nascer por entre a morte, põe palavras para acalentar silêncios, e oferece a mais irrequieta mobilidade a quem se dispõe a estar quieto. A maior mentira de um liv...

Novas aventuras do cerco

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É verdade, o cerco continua, e de cada vez que dou título aos meus post sobre o dito, confesso que me sinto a Enid Blyton a batizar os livros da saga de “Os cinco”. Tudo isto porque sou seu fã, e ainda tenho pendente uma visita ao País de Gales em busca dos Rochedos do Demónio, da Quinta Finniston e do Lago Negro. A registar, amigas Margarida, Patrícia e Sónia, mas só depois da Islândia. Para quem está sitiado, como eu estou há mais de um mês, a companhia dos melhores pais do mundo, e um céu que muda a cada repelão de sol ou trovoada, dá-me um ímpeto enorme de aproveitar aquilo que não é um castigo, mas apenas uma oportunidade alternativa de ser feliz. Sim, confesso, sou um indefectível do otimismo. Também sou indefectível da liberdade, achando por isso que ela deva ser celebrada todos os dias na alma e nos gestos, sejam eles diferentes ou iguais. Por ser da fé, também considero que a forma mais eficaz de beijar a Cristo é estar próximo e ser aliado de todos os que no...