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Breves átomos de eternidade

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As memórias são antídotos do deserto E as memórias na genética do amor são rios de água fresca, que, muito generosamente, “ateiam” as raizes das rosas, dissimilando-lhes o perfume, e denunciando-as em sorrisos à superfície do tempo.  Tal qual as memórias com núcleo na fé, e na perspetiva de Deus, dissolvem a distância desde aqui ao Céu, tornando-se átomos, ainda que muito breves, de eternidade. Faz hoje dois anos que a vida me pediu a missão mais difícil: viver sem te ter aqui, ao alcance de um abraço… ou até de uma gargalhada. Reinventar-me, em ser e ânimo, aproveitando para oferecer novas formas às jazidas de saudade que compõem o deserto. Pela sede dos olhos, buscar as embaixadas do céu que se preservam no coração. E de tudo, e sobretudo, das memórias, fazer-me barco, água e rota de boa esperança, ousando dizer-me em versos toscos que anunciam um suave amanhecer. Porque quem ama suplanta a morte, erguendo-se com todos os seus, até aos umbrais das cidades mais ousadas do futuro. ...

Cinquenta e seis

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  Envelhecer é deixarmo-nos adormecer pelo tempo, sonegando a esperança e a festa, aos  amanheceres que vêm ao nosso encontro. P uro desperdício. Muito antes , passa-se pelo “pronto-a-vestir das idades maduras”, e compra-se o traje de virtudes, que tem pospontos sisudos, e onde qualquer laivo de riso, se passa, muito cuidadosamente, a ferro, para que  sobressai a m  as faces  hirtas  e engomadas. A alma amarfanhada  pela doce inquietude dos sonhos,  posta perante um espelho a “gritar” méritos e estatuto. As palavras dilaceradas pelo equânime silêncio que não é sim nem não. A poesia encarcerada numa vivenda humana, com marquises de lata, piscina… mas sem o canto de um r io que nos banhe e incentive à viagem. Os baloiços parados, e arrumados com  a fantasia , na renúncia ao combustível bioenergético, e muito saudável, que sempre nos oferecem as asas. Não me procurem no reflexo dos espelhos, mas nas mil ruas que de mim nascem,  a cada ...

Київ або вічна недосконалість миру (Kiev ou essa eterna imperfeição da paz)

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Em paralelo com a eterna condição da mais perversa imbecilidade do Homem, a paz será sempre um processo em curso, e jamais concluído. Desengane-se quem se senta tranquilo num jardim de acácias, para desfrutar, sossegado, desse bem viver connosco e com o mundo. Mais do que a chegada, num sítio rico de aromas aonde o mar nos embala, a paz é um perpétuo desejo que gera compromisso, e que induz o gesto capaz de tecer o amor, no seu mais apurado detalhe de filigrana. De preferência sem distrações, e, sobretudo, sem a mínima tolerância para com a expressão do seu contrário, por mais gracioso, inofensivo e folclórico que nos pareçam a cega ambição pelo poder, a discriminação, qualquer que seja o motivo, e a castração do livre pensamento. Por mais pateta que nos pareça o ditador. E quem diz a paz, diz a liberdade e a democracia, suas indispensáveis aliadas. Sempre inacabadas, mas nunca impossíveis, porque a utopia é mãe da inação, e nos nossos braços ferve um impulso claro de revolução.  D...

O coração e a pele

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A manhã fria de fevereiro leva-me até ao roupeiro grande, e quando dou conta, subo a Rua de Santo António, em Vila Viçosa, abrigado pelo sobretudo cinzento que herdei do meu pai. As memórias criam a pele que melhor nos protege do inverno. A Zinha e o Manel são do meu tempo, ou melhor, são dos meus tempos todos, porque eu me recordo deles desde quando comecei a guardar lembranças de mim. Os dias pareciam, então, muito maiores, porque nada ficava por fazer, ou por dizer. Às vezes a tropeçarmos nalguma dificuldade que traía a fonética, mas sem deixar de exprimir a vontade dos sentidos, e a sede: -Um copo de “aba”, por favor. Escorregávamos pelas caixas de cartão vazias, guardadas no armazém, com a mesma alegria com que, ao longo de outros tempos, soubemos sorrir sobre a gravidade das deceções, que nos puxaram para o chão frio. Palpámos juntos a nossa primeira neve, perfumámos as mãos nos troncos das mesmas estevas, rezámos as nossas esperanças nos mesmos padre nossos, e algu...

Votar

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Votar é ratificar a opção pela democracia, expressando, em pleno uso dos direitos e deveres de cidadania, a anuência à liberdade. É nesse contexto que irei votar no próximo domingo, com a convicção de que a liberdade e a democracia jamais poderão ser dadas por definitivamente adquiridas, e é a nossa atitude que as alimenta, tal qual uma chuva de vontades sobre a terra fértil. A abstenção, surpreendam-se, é tão virulenta quanto o Covid-19, porque tal como ele, nos poderá condicionar, e nos coloca à mercê das “máscaras” e da vida que não queremos. Faço-o sem esquecer o curriculum de honestidade e competência (ou ausência delas) dos intérpretes / políticos envolvidos, sem qualquer amarra que me prenda cegamente aos meridianos ideológicos, mas sobretudo com base nas minhas convicções. Por exemplo… Revejo-me na Constituição da República Portuguesa e sou um defensor das liberdades adquiridas na revolução de 1974. Defendo um Estado próximo dos cidadãos, e que os inclua, com suport...

A manhã de janeiro

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  O aroma do café ainda a pingar, muito quente, deste o filtro zeloso, e diretamente para a cafeteira, oferece-me à sala um toque inquestionável de conforto e de intimidade. Para lá da vidraça, e desde o lugar onde a ponte desmente o Tejo, abraçando as margens, o sol espreguiça-se, ainda ensonado, traçando o céu com linhas encarnadas, azuis, amarelas… Com mais ou menos nuvens em modo e gesto de prisma, não existe dia que não nos traga a tinta de todas as cores. E escrever, ou rabiscar, o tempo a preto e branco jamais será uma inevitabilidade, mas apenas a opção, aparentemente cómoda, da discrição do sofá cinzento e silencioso situado atrás do biombo. Esta demissão de dizer-se é acompanhada, muitas vezes, e desde o lado de fora, pelo juízo dos demais, pela rotulagem que atribui, de modo completamente cego, defeitos e virtudes, vulgarmente, e levianamente, associados ao grupo social, profissional, à confissão religiosa, etnia, ao ponto eleito do espectro político, ao código p...

As rosas… tal qual a vida

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Aos sábados e domingos de manhã, um pouco antes da missa, gosto de visitar o túmulo do meu pai. Não o faço por qualquer traição ao Céu, se é aqui, nesta terra vermelha do barro de Vila Viçosa, que permanece adormecido o colo, assim como os beijos, dos meus tantos instantes de Céu. Faço-o por fé e fidelidade. Nestas alturas gosto de trazer uma flor que tenhamos num dos vasos da varanda, sem qualquer pretensão, às vezes até muito pequena, mas colhida entre mim e a minha mãe, um pouco antes de eu sair de casa. No fim de semana passado não conseguimos ver aberto um muito promissor botão de rosa, que na manhã de segunda-feira nos brindou, finalmente, com todo o seu esplendor. Como na vida poderá faltar tempo para tudo, mas nunca para cumprir os mais simples detalhes de amor, colhemos o botão, e, de saída para Lisboa, fiz um desvio e fui colocá-lo no túmulo do meu pai. Ainda que por entre uma Ave Maria com pouco fôlego, mas aquilo que se diz, e o modo como se diz, perde sempre para o tanto q...