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Ditados - Versão Século XXI

Integrando-se na onda reformadora que nos atingiu neste começo de milénio, na qual se integra o polémico e mediatizado Acordo Ortográfico, e antes que a Troika nos obrigue a faze-lo, tal como aconteceu com a revisão do número nacional de feriados, o Pomar das Laranjeiras toma a iniciativa de apresentar uma proposta de revisão dos Ditados Populares. A nossa nova realidade impõe claramente este revisitar dos princípios orientadores da nossa cultura e filosofia populares: ü   Político que roube a nação tem mil anos de perdão; ü   A culpa morreu solteira… mas andou amancebada com um político; ü   A eleição faz o ladrão; ü   Burro velho, por Decreto e só como o Relvas aprende línguas; ü   Cada um sabe tudo de si e a Merkel sabe de todos; ü   Contra factos, o político tem sempre argumentos; ü   De boas intenções… está o Parlamento cheio; ü   De doutor e de louco todos temos um pouco… e o Relvas também; ü   Diz o roto ao nu: o ...

Restauro à Espanhola

Há alguns meses, Cecília Gimenez, uma octogenária espanhola, paroquiana activa de uma pequena localidade nos arredores de Saragoça, achando-se com dotes de artista, resolveu “restaurar” um famoso e valioso fresco existente na sua igreja, datado do Século XIX e representando o rosto de Cristo. O resultado do seu trabalho situa-se nos territórios da caricatura e pode dizer-se que a intervenção ainda conseguiu estar muito para lá das bombásticas plásticas da Manuela Moura Guedes. Ontem, ao conhecer os resultados da execução orçamental relativos ao primeiro semestre de 2012, entre deficits, PIB’s e demais instrumentos e escalas de avaliação do estado da nossa economia, lembrei-me da Cecília Gimenez. É um facto de que o país estava a necessitar de uma intervenção e de um restauro, mas os artistas que tomaram em mãos esse trabalho, sobre as ordens e o mecenato da Troika, seguindo uma cartilha teórica e experimental que tem a forma de um memorandum ao estilo das instruções do IKEA (“...

Os boticários

Quando com vinte e quatro anos saí da Faculdade, tive o privilégio de ir exercer a minha profissão para uma Farmácia no centro de Lisboa. Por ser o único homem no universo de muitas mulheres farmacêuticas, soube desde as primeiras entrevistas de que me estariam destinados os Serviços Nocturnos, e assim, de repente, eu, um jovem alentejano “emigrado” na cidade, passei a dispensar saúde por um postigo muito estreito que, apesar disso, garanto-vos, era a melhor janela sobre a noite de Lisboa. Durante quase dois anos, entre caixas de medicamentos mais ou menos urgentes, muitas seringas e muitos apetrechos para garantir o sexo seguro, saboreei esse gosto inesquecível de exercer uma profissão que se insere no âmbito do maior valor reconhecido por todas as pessoas: a saúde. Apesar de ser um especialista na dispensa de fármacos, cedo diagnostiquei entre as receitas, as informações de toma e os trocos, que a solidão dos tristes na noite da grande cidade, é um decisivo catalisador de tod...

Outono

Está renitente o Verão em ir embora, atacando com graus de temperatura a rondar os trinta, mesmo quando o calendário confirma que o Outono já chegou e que só o próximo e longínquo Junho nos devolverá à magia da estação do nosso encontro favorito com as férias e o mar. Mas não se importa o Outono com os graus extra deste encore do Verão, pois do sol faz uso para amadurecer e tornar mais doces os marmelos, e também para nos encher de cor e brilho, os dias da colheita das uvas que são prenúncio de bom vinho quando Novembro nos trouxer as castanhas para juntos brindarmos a S. Martinho. Está chegada a hora de eleger e apostar nos melões a pendurar em rede de ráfia por cima das mesas onde brilharão os tons laranja dos dióspiros maduros, para que atravessando os Santos, os Finados, a Restauração e a Padroeira, nos possam dar o prazer do sabor a Verão na noite da consoada. Em breve se encolherão definitivamente os dias, fechar-se-ão os toldos e os chapéus nas esplanadas dos cafés e do...

De cócoras a perder a guerra

Berlim é uma cidade distendida, repleta de árvores em jardins e praças, de onde emergem em são convívio, os edifícios com história e os edifícios candidatos a entrar na história da arquitectura pela mão dos melhores arquitectos do planeta. O muro, recordado hoje por uma linha em pedra que sobressai do asfalto, caiu há muito quando parecia querer erguer-se na Europa, a esperança de um tempo novo. O táxi avança e o motorista, recrutado agente de propaganda da penitência alemã, concentra a conversa em redor dos monumentos que traduzem o assumir da responsabilidade da sua pátria no extermínio dos judeus, preocupado, obstinado mesmo, em que registemos o arrependimento do seu povo. A penitência, esculpida em pedra pela arte de grandes artistas, uma atracção turística da nova Alemanha. Logo após o Bundestag com a cúpula de Norman Foster, aparece-nos à esquerda a chancelaria com a sua inacreditável forma de uma gigantesca máquina de lavar. O taxista aponta o dedo e afirma: - Aqu...

15 / 09 / 2012

Povo sem cor ou de todas as cores, somos muitos numa maré de gente levantada sem medo, a querer e a lutar forte pelo respeito e defesa da sua dignidade. Heróis sem nome e sem idade. Heróis, filhos e netos, legítimos herdeiros das progenitoras madrugadas de todas as canções da liberdade. Gente de paz mas Homens de firmeza e coração guerreiro, almas tornadas uma só, no não gritado à tecnocrata cegueira e à desumana imbecilidade e inconsciência dos donos do poder, passado e presente, insuportáveis e desprezíveis ilustrações vivas dessa dicotomia entre a força do ter e do vil metal e a fragilidade confrangedora da mais absoluta ausência de carácter. Gente sem medo que oferece o rosto ao sol do dia quando grita por pão, combatendo as infinitas e cúmplices teias nascidas das subterrâneas e envergonhadas Lojas de venda e partilha de interesses e poder. Gente que sabe o que quer, e sabe e não teme, dizer não. Enraizado no sonho, viemos aqui carregados daquele querer que faz mudar a...

A vingança das cobaias

Com a ajuda de morganhos, ratos, cobaias, rãs e coelhos, não existiu medicamento que eu deixasse por estudar, nas aulas práticas de farmacologia que compunham o curriculum académico do curso de ciências farmacêuticas que frequentei e concluí há muito, ainda no tempo em que os diplomas se obtinham por mérito e trabalho, através da frequência de aulas e aprovações nos exames. Experiências a bem da humanidade e que afortunadamente, e na maioria dos casos, também não punham em risco a saúde e a vida dos animais. Numa caixa de madeira e de cabeça de fora, o coelho depois de rapado o pelo, oferece uma veia que contorna toda a orelha e que é fantástica para a administração endovenosa de fármacos. Esta semana, com ar de cientista louco, o nosso Ministro das Finanças anunciou medidas de austeridade e justificou a sua implementação pelos bons resultados conseguidos na utilização de vários modelos experimentais, e assim, de repente, eu e todos vós, saltámos para os tubos de ensaio e retor...