Cinema: do paraíso ao inferno
Os tempos mudaram, e hoje, quase todos temos em casa uma televisão que por obra das operadoras e mérito das nossas mensalidades, em alguns casos nos oferece a disponibilidade de centenas de canais. Longe estão portanto os tempos que me são narrados pelos meus pais, quando nos anos quarenta do século passado, na minha terra existia uma “barraca de madeira”, improvisada sala de cinema, onde eram projectados os maiores êxitos da sétima arte. Nessa altura, o cinema chegou para ser a janela que permitia ver muito para lá do sítio que a vista alcançava mesmo quando se subia ao monte mais alto, trouxe as imagens do mar e das pessoas diferentes desses lugares que só por fé nas palavras do mestre-escola, acreditávamos que existiam. Por culpa dos elevados índices de analfabetismo, não se conseguia manter a sala em silêncio, pois os afortunados, os que sabiam ler, partilhavam a leitura das legendas com todos aqueles que não o podiam fazer. O meu tio João, que era surdo, exigia dos vizin...