Mensagens

Cinema: do paraíso ao inferno

Os tempos mudaram, e hoje, quase todos temos em casa uma televisão que por obra das operadoras e mérito das nossas mensalidades, em alguns casos nos oferece a disponibilidade de centenas de canais. Longe estão portanto os tempos que me são narrados pelos meus pais, quando nos anos quarenta do século passado, na minha terra existia uma “barraca de madeira”, improvisada sala de cinema, onde eram projectados os maiores êxitos da sétima arte. Nessa altura, o cinema chegou para ser a janela que permitia ver muito para lá do sítio que a vista alcançava mesmo quando se subia ao monte mais alto, trouxe as imagens do mar e das pessoas diferentes desses lugares que só por fé nas palavras do mestre-escola, acreditávamos que existiam. Por culpa dos elevados índices de analfabetismo, não se conseguia manter a sala em silêncio, pois os afortunados, os que sabiam ler, partilhavam a leitura das legendas com todos aqueles que não o podiam fazer. O meu tio João, que era surdo, exigia dos vizin...

Fevereiro

A memória fala-me do amarelo das mimosas nas orlas do caminho, e dos tufos de azedas salpicando a imensidão de verde da planície, disponíveis, sempre, para nos oferecer aquele gosto ácido semelhante a vinagre, quando não resistimos e as pomos na boca, saboreando desde logo e antes de mais, o privilégio das geadas, o fresco sabor das madrugadas no campo. É Fevereiro, o penúltimo degrau no acesso à primavera que já sabemos não tardar no calendário, porque curto é o passo daqui até aos dias do toque feliz dos sinos a anunciar ressurreição. Mas mais do que o calendário, manda o povo e a magna sabedoria dos simples. E só amanhã, da primavera, a distância se saberá, quando pelo sol, pela chuva e pela fé na Senhora das Candeias, acreditarmos que “se Ela rir, o inverno estará para vir, e se Ela chorar, o inverno já está a passar”. É Fevereiro, imposição do tempo no acerto dos anos, que através de um mês assim, breve, nos recorda a urgência de cumprir os sonhos, de viver. Porque, adia...

“Aguenta, aguenta!”

Caro Dr. Fernando Ulrich, sou há muitos anos cliente do seu banco, e por isso um contribuinte activo através de juros, taxas e afins, para o lucro de 250 milhões que a instituição a que preside conseguiu em 2012. Felicito-o pelo facto de o senhor ser das muito poucas pessoas que neste país se pode orgulhar de ter crescido em termos financeiros no ano que passou, ano marcado por inúmeras falências de empresas de maior ou menor dimensão, e por um consequente e desmesurado aumento do desemprego que atirou muitos milhares de Portugueses para patamares bem abaixo dos limiares da pobreza. Tem portanto toda a legitimidade para estar feliz nas suas conferências de imprensa. Porém, permita-me que lhe faça algumas sugestões para que as possa usar, se assim entender, na pose e no discurso. Aprenda o que é o pudor e aplique-o activamente, evitando assim talvez, essa ridícula soberba de quem fala da riqueza que alcançou e reconhece por legítima a austeridade aplicada aos outros. O “Estado...

No tempo do TV RURAL

Levantávamo-nos da cama depois do toque do despertador a que o nosso pai nunca se esquecia de dar corda na noite anterior, abandonando os lençóis cheirosos, invariavelmente brancos, lavados pelas mães nas águas correntes dos ribeiros ou então nos tanques de cimento que tínhamos em casa, com OMO, PRESTO, SABÃO CLARIM ou JUÁ, este último com a vantagem de nos oferecer brindes que poderiam ser Réguas Mágicas ou copos de vidro. A higiene matinal era feita com a ajuda da PASTA MEDICINAL COUTO e dos sabonetes FENO DE PORTUGAL ou LUX, antes do pequeno-almoço que tinha sempre o leite comprado na véspera na casa do primo João, que criava e cheirava a vacas, em recipientes de alumínio que nós nos encarregávamos de amassar enquanto vazios, fazendo-os bater contra os joelhos. Leite que para nós era acompanhado com TODDY, ou COLA-CAO no caso de alguém ter ido recentemente a Badajoz, e para os nossos pais, com BRASA, TOFINA ou MOKAMBO. Comíamos pão quente comprado na padaria mais próxima e que e...

Viagem a Ítaca

Quando em Agosto de 2007 aportei na ilha Grega de Ítaca, o Juan Blas não se tinha esquecido do CD em que Luis LLach canta a viagem para essa ilha de todos os sonhos de Ulisses, e a saída do ferryboat ao som da voz e das palavras do cantautor Catalão, teve tudo o que têm os momentos perfeitos, aqueles em que é irresistível pensar: - Ganhei à vida. Hoje pela manhã e enquanto escrevia uma mensagem de parabéns para a minha querida amiga Ana Cravo, para todos nós, a Tina, recordei-me desse momento e fui à procura das palavras de Llach, ousando uma tradução do Catalão para o Português: “ Quando saíres para a viagem a Ítaca, ora para que o caminho se te faça largo, cheio de aventuras e experiências (…). Mantém sempre no coração a ideia de Ítaca. Tens de chegar pois é esse o teu destino, mas jamais forces ou tentes encurtar a travessia. É preferível que dure muitos anos e que sejas velho quando aportes à Ilha, rico de tudo o que haverás ganho pelo caminho, sem esper...

Ser estrela e chamar a sorte

Quão vacina altamente eficaz, este post tem o assumido intuito profiláctico de me proteger no futuro contra as abomináveis mensagens que anunciam a sorte e a fortuna através da multiplicação e reenvio dessas mesmas mensagens. Há alguns anos em Vila Viçosa, recordo-me que a metodologia envolvia a colocação de cartas anónimas nas nossas caixas de correio, e não sei porquê, missivas muitas vezes acompanhadas por uma moeda de um escudo. É claro que a moeda patrocinava a compra de uma pastilha elástica e a carta acabava invariavelmente no lixo. Com as novas tecnologias, as contas de e-mail e os telemóveis via SMS’s, passaram a ser verdadeiros lança mísseis ao serviço destes intrépidos crentes na sorte fácil. No caso dos telemóveis, penso que sempre com o natural regozijo das operadoras. Hoje, após uma e hora e meia para percorrer na minha viatura os 15km que me separavam do centro de Lisboa, no exacto momento em que regressava à superfície após o estacionamento nas profundezas do C...

A Batalha da Mealhada

Circulando hoje pela auto-estrada A1, entrei na Área de Serviço da Mealhada quando seriam umas 15 horas, e tive a percepção de ter chegado a um território em guerra, tal a profusão de polícia e veículos de pirilampo azul que ali se encontravam na zona do restaurante. Confesso que estacionei a medo pois não tenho vocação de mártir e mesmo que um dia o possa vir a ser, que na génese desse martírio haja uma causa mais nobre do que apenas e só a ingestão de uma empada de leitão. Maldizendo o hábito e o gosto de conduzir em silêncio e apenas com os pensamentos em on , desconhecendo por esse facto a ocorrência de um qualquer golpe de Estado ou revolução, decidi abordar um dos polícias tentando um registo que não me fizesse parecer em demasia com o Raul Solnado no seu inquirir acerca do Domicilio da Guerra: - Muito boa tarde. É seguro deixar o carro estacionado neste sítio. A resposta pronta elucidou-me logo sobre o motivo de semelhante aparato: - O “xô” não tem qualquer problema....