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Mãe coragem?

Olho as capas dos jornais e vejo uma mãe que corre com o filho nos braços sob o céu de fogo que Israel semeou na Faixa de Gaza. Ocorre-me à lembrança a manhã de domingo, quando na esplanada de um café de Vila Viçosa, uma amiga de sempre não consegue controlar as lágrimas que são tão crónicas nos seus dias quanto a dor eterna pela ausência do filho. Falamos de poesia porque é por aí que ela vai semeando flores sobre momentos com um triste sabor a deserto. Penso na mulher que ainda há dias na consulta externa de Pediatria no Hospital de Santa Maria ajeitava a filha na cadeira de rodas, lhe dava beijos por todo o rosto, e lhe dizia palavras bonitas, ao mesmo tempo que com os gestos mais carinhosos do planeta, lhe ajeitava os tubos que a ligavam à cadeira e a deixavam respirar. Hoje, as mães coragem ainda são em tudo parecidas com a de Bertold Brecht, puxando a carroça com as débeis forças do seu corpo envelhecido pelos anos e pelo cansaço, e arrastando com ela as dores da morte dos...

A nossa “casa”

Nas obras da nossa casa em Vila Viçosa, ali à esquina da rua que consta ter sido a primeira construída fora das muralhas do castelo e a que deu nome D. Pascoela de Gusmão, aia dilecta da Duquesa de Bragança, D. Catarina; o interessante por estes dias tem sido a descoberta de portas e nichos que o tempo e as “vontades” dos Homens foram entaipando. Com “Bilhete de Identidade” a indicar que esta casa era a dependência dos que serviam no Paço Matos Azambuja, a “Casa dos Arcos” ali mesmo ao lado, a expectativa de encontrar potes de ouro é quase nula, mas à medida que cada parede vai sendo arranjada, é possível ir descortinando como em tempos idos, as várias divisões estavam organizadas. Por entre o pó emerge uma história. De aqui a uns dias; muito pouco tempo espero eu; a casa terá internamente uma nova face, mais adaptada a nós e à família que somos. Por fora, tudo será preservado, respeitando a história e a nobreza de um lugar entre o Paço Ducal e o Castelo, porque afinal é por d...

Eu, “cabra”, me confesso

É a hora do almoço e as televisões estão em directo. Há dois casais por entre as brumas da república e da monarquia, que avançam em direcção à opulência rococó do palácio ao gosto de D. Maria I de Portugal; e os cavalos de alta escola enfeitam os jardins fronteiros à fachada de Queluz, saltitando algures entre o buxo e as fontes de pedra. Vantagem da monarquia em jovialidade e capacidade motora, que esta república vai a arrastar as ancas muito alargadas pela opulência, e vai coxa e com uns artelhos visivelmente inchados e estragados pelo tempo. As câmaras de televisão seguem o lento caminhar dos dois líderes ibéricos e suas respectivas damas, e deixam que espreitemos inadvertidamente para as portas de madeira que dão acesso ao edifício que albergou a nossa monarca quando foi atacada de uma muito desagradável loucura. A cor verde das portas há muito desbotou e a madeira desfaz-se em ripas que caem ressequidas na varanda. Para além de me questionar se existirá uma recorrência na s...

Uma manhã triste e um pião que roda

Parece que só o brilhol mantém o mesmo sabor de sempre, nesta manhã anormalmente fria de um domingo de Julho e Verão em Vila Viçosa. Saio de casa para a missa das onze e meia em São Bartolomeu, e no trajecto com um desvio programado até à banca das farturas, no mercado, acabo por passar na casa de três dos meus maiores amigos. Todas estão vazias de gente, as janelas cerradas, e só as paredes parecem ter resistido ao tempo e a essa sua dolorosa inevitabilidade da morte ou da doença que cedo ou tarde faz partir os nossos pais, dando assim uma face bastante mais triste aos recantos que nos serviram de berço. Sinto saudades do tempo em que as janelas abertas deixavam passar o grito com os nomes do Manuel, do João Paulo e do Paulo Geadas, poupando-nos ao uso da campainha ou do martelo da porta nesses instantes de seguirmos juntos até à igreja. Participo na missa no lugar de sempre e no conforto da presença daqueles rostos de onde transparecem os sorrisos e os afectos que me fazem se...

A genética perseverante do diospireiro

O que será que liga os elementos de um conjunto de objectos formado por uma Barbie , uma pequena vara cortada de um diospireiro, uma T-shirt amarela, algumas fotografias tiradas maioritariamente nos anos oitenta do Século XX, e um casaco colorido comprado em Lisboa, nos Porfírios , no final dos anos setenta desse mesmo século? Aparentemente muito pouco ou até mesmo nada, até ao dia de ontem quando nos sentámos à volta da comemoração do meu 48º aniversário e levámos connosco objectos que nos permitissem soltar a memória e contar uma pequena história. Uma história, um pedaço, um detalhe da amizade que tem tantos anos quanto nós, e sempre, no inevitável Alentejo. Nós, os filhos desta terra de horizontes fartos, sabemos que a magia chega sempre no fim das tardes de verão, quando procuramos a brisa por entre as árvores e nos alimentamos de todos os aromas que ela foi recolhendo no seu abençoado varrer da planície. E em Vila Viçosa, com o conforto do olhar dos amigos e com o ar das ...

JOAQUIM FRANCISCO

Quando me pergunto quem sou, cedo descubro junto aos pés o eco do aroma e da cor da terra lavrada pelos meus avós. A terra irmã de todos os meus passos, a terra do trigo em dias de estio... ou o barro molhado que nos dias frios agradece de braços abertos, o fruto maduro da oliveira, o prenúncio da luz. Descubro a fé, herança da oração desprovida de palavras e nascida do ajoelhar da minha avó na carícia às águas límpidas dos ribeiros, oferecendo-lhe o beijo dos tecidos que no regresso do campo sempre traziam em si, o aroma de poejo, o incenso mais nobre do meu povo por sobre o sacrário da mais completa simplicidade. Reencontro o calor do abraço das tias que todas as noites chegavam para o chá e que nos aconchegavam a elas envoltos no xaile que tinha cadilhos com os quais podíamos brincar nos doces instantes imediatamente antes de adormecer. Reencontro-me inteiro e imensamente feliz na memória do amor tecido de infinitos beijos do meu pai e da minha mãe; descubro-me forte nesse ...

Deusas e ninfas da diurese

Substituindo as carteiras da Channel ou Dolce Gabbana , as unhas de gel, o botox, a VIP, a Caras e os brindes destinados à praia e à feijoada das tias, os livros da Guiduxa Rebelo Pinto, as sandálias compensadas ao melhor estilo Drag Queen e Finalmente Club , o cartão de crédito ou as inevitáveis enxaquecas; por estes dias, a melhor amiga das mulheres é uma garrafa de água de um litro e meio, cheia com a própria água no seu estado mais puro recolhido directamente da natureza, ou então cheia com algum líquido com uma coloração que pode variar muito, mas que na grande maioria das vezes se assemelha a uma amostra de urina; detalhe que o aproxima inevitavelmente da pescada pois sendo diurético, pode dizer-se que antes de o ser já o é, pelo menos na aparência. E a constatação desta intima relação entre as mulheres e as garrafas de água de litro e meio beneficia de significado estatístico com um bom valor de p dada a dimensão da amostra, leia-se o número de colegas, amigas, conhecidas,...