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Trago um vestido de linho do mesmo tom da lua, e aqui sentada num Rossio debruado de amoras, vou enfeitando o tempo…

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Trago um vestido de linho do mesmo tom da lua, e aqui sentada num Rossio debruado de amoras, vou enfeitando o tempo… e tudo, com os segredos que guardo em mim com o sentido doce e grená dos bagos de uma romã. De vez em quando passa o inverno que emudece o horizonte. Ressuscitam pássaros pelas manhãs depois de Abril despertar a primavera. O verão queima a campina… Mas o Outono aproxima-nos das tangerinas mais doces que nos fazem trepar às árvores do pomar. Uma casa, um piano, um violino, as telas, as palavras… E as minhas mãos desenhando sobre o tempo… e tudo, uma rua. A minha rua. Com a tinta dos segredos que trago nas mãos. Grená. E eu que visto a eterna essência do linho. Do mesmo tom da lua. A minha querida amiga e pintora Ana Cravo cumpre hoje 50 anos. É a primeira do nosso mega grupo Calipolense de 1966. Pedi-lhe uma das suas pinturas, ela enviou esta e eu escrevi sobre ela. Tina, um beijo de parabéns.

A laca da D. Mariana Aurélio e todos os aromas

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O mundo descoberto pelo desfrutar dos seus aromas. Mais um ranking... Desta vez os dez melhores "perfumes" que nestes cinquenta anos foram registados pelo meu olfacto. AS LARANJEIRAS EM FLOR NAS RUAS DE VILA VIÇOSA Por alturas da primavera, dispensam-se as jarras enfeitando de flores os altares da minha terra, que em cada um dos seus muitos largos tem sempre três igrejas. A Páscoa celebra-se pelas ruas na ressurreição da terra que agradece as bênçãos do sol. O BAZAR DAS ESPECIARIAS EM ISTAMBUL Os olhos perdem-se na imensidão das cores enquanto nós vamos tentando decifrar cada detalhe do aroma perfeito que nos abraça. Em vão... É o Oriente incessante a chamar por nós. OS MORANGOS MADUROS NO ROSSIO DE LISBOA O verão chegara há pouco e trouxe com ele os vendedores e uns triciclos carregados de morangos maduros vendidos ao quilo em cartuxos de papel pardo, depois de terem sido pesados em grandes balanças de metal. Não resisto e compro sempre um ...

A liberdade é muito mais do que apenas o capricho de uma madrugada de Abril...

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A liberdade é muito mais do que apenas o capricho de uma madrugada de Abril... Somos nós pulsando verdade nas mãos e na alma, cumprindo-nos sem reservas e tal qual ousámos sonhar por entre o rubro tom dos cravos... e de todas flores. E voa o pensamento na morte de todas as grades, quando o canto traz para a rua, a voz e a palavra que os poetas insistem em fazer rimar com um novo e louco sentido oferecido ao tempo. Os beijos são transparentes, as carícias calam o preconceito, os modos vestem a paz, a fé não é um preceito mas um caminho. A liberdade... somos nós. E nós somos um país que pulsa pela nossa vontade.

“Tenho um Einstein lá em casa” e outros vícios privados e públicos...

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Quando o sol se ergue a oriente despertando a lusa pátria, cedo se agita a expressão pública dos nossos vícios mais marcados, tão nossos que parecem genéticos. No ano do meu cinquentenário irei partilhar convosco vários rankings, e começo com o Top 10 das coisas que mais me tiram do sério. A ordem de apresentação não estabelece entre eles qualquer hierarquização. A ESCADA ROLANTE Subindo ou descendo, a grande maioria das pessoas pára no espaço imediatamente a seguir ao último degrau, indecisa se vai virar à esquerda ou à direita. Hesita... E os que estão atrás? É tão bonito ver cair uma estrutura de peças de dominó. OS PIANISTAS Na alma de cada Português brilha uma Maria João Pires e nos nossos dedos fervilha um Chopin. Mas como quase ninguém tem piano em casa, para onde é que vamos treinar? Para as teclas do Multibanco. Por cartão, põe código, pede extracto, tira cartão, põe outro, põe outro código, pede extracto, tira cartão, põe outro... A fila atrás v...

Ao desmembrar das arestas da normalidade e da previsibilidade dos dias...

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Ao desmembrar das arestas da normalidade e da previsibilidade dos dias, ruína que a gente designa muitas vezes por solidão, o poeta chama a sua casa. Entorno a liberdade para as horas que vou enfeitando de palavras, e a lareira onde crepitam as máscaras despejadas sem dó, ilumina a sala onde me sento num sofá azul contigo ao lado. Eu aprendi no campo que as flores da primavera são de quem as beija com o olhar, muito mais do que de quem guarda documento de posse da terra onde nasceram. E as pedras do ribeiro são de quem se ajoelha... As pontes são sempre de quem as sonha… A água das fontes é de quem a bebe com as mãos em concha. Aqui onde falamos os dois, tu não és de mais ninguém; e eu apenas na aparência sou um homem só.

Quando chegam as tardes boas, que são aquelas de estarmos juntos, damos apenas dois dedos de conversa; que de mão cheia por ali, só mesmo os beijos

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Quando chegam as tardes boas, que são aquelas de estarmos juntos, damos apenas dois dedos de conversa; que de mão cheia por ali, só mesmo os beijos. E essas muito poucas palavras a que os lábios excepcionalmente cedem, ficam às duas por três a falar de amor, de paixão… com manifesta dificuldade em abordar uma perspectiva histórica: com o amor aqui dois passos (muito pequenos), tudo o de antes tem sabor a léguas de tal sentimento. Mas deixamo-nos sorrir por entre esta doce incapacidade. Depois, quando o sol já dobrou o horizonte e os copos de tinto já repousam vazios na mesa ainda posta, eu às vezes reclino a cabeça no teu colo como se fosse adormecer, e juro que diagnostico a perfeição nesses tão informais instantes. A verdadeira estrada de um Homem despreza o asfalto, e assenta nos beijos e nas palavras que são expressão de quem o ama. Então eu deixo-me ir… a passos largos. Contigo e sem nunca adormecer, pelos instantes que são fruta doce e madura entrelaçada ao inver...

E os egrégios avós à volta nas tumbas

Algures por 1984, quando o Herman José utilizou o seu magnífico programa “O Tal Canal” para parodiar o  “TV Rural” e colocou o saudoso Engenheiro Sousa Veloso a plantar couves numa praia, confesso que jamais julguei possível que um dia visse semelhante cena realizada no âmbito de uma campanha para a Presidência da República. Mas vi num noticiário desta semana. Um tal candidato de nome Vitorino, ou Tino, de nome, que “tino” parece ter efectivamente pouco, apareceu a abrir um buraco na areia de uma praia de Espinho para depois aí colocar um tronco seco. Segundo as suas palavras imitava os Descobridores de quinhentos e os padrões que deixavam nas “novas terras”. Vasco da Gama ainda deve andar às voltas na sua tumba nos Jerónimos e todos os egrégios avós devem ter ficado roucos e loucos. O facto é que estando como está a República, porque é que a campanha para a presidência da dita poderia ser diferente e para melhor? Até a Simone, que nós acreditávamos ter derrotado a Mada...