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Київ або вічна недосконалість миру (Kiev ou essa eterna imperfeição da paz)

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Em paralelo com a eterna condição da mais perversa imbecilidade do Homem, a paz será sempre um processo em curso, e jamais concluído. Desengane-se quem se senta tranquilo num jardim de acácias, para desfrutar, sossegado, desse bem viver connosco e com o mundo. Mais do que a chegada, num sítio rico de aromas aonde o mar nos embala, a paz é um perpétuo desejo que gera compromisso, e que induz o gesto capaz de tecer o amor, no seu mais apurado detalhe de filigrana. De preferência sem distrações, e, sobretudo, sem a mínima tolerância para com a expressão do seu contrário, por mais gracioso, inofensivo e folclórico que nos pareçam a cega ambição pelo poder, a discriminação, qualquer que seja o motivo, e a castração do livre pensamento. Por mais pateta que nos pareça o ditador. E quem diz a paz, diz a liberdade e a democracia, suas indispensáveis aliadas. Sempre inacabadas, mas nunca impossíveis, porque a utopia é mãe da inação, e nos nossos braços ferve um impulso claro de revolução.  D...

O coração e a pele

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A manhã fria de fevereiro leva-me até ao roupeiro grande, e quando dou conta, subo a Rua de Santo António, em Vila Viçosa, abrigado pelo sobretudo cinzento que herdei do meu pai. As memórias criam a pele que melhor nos protege do inverno. A Zinha e o Manel são do meu tempo, ou melhor, são dos meus tempos todos, porque eu me recordo deles desde quando comecei a guardar lembranças de mim. Os dias pareciam, então, muito maiores, porque nada ficava por fazer, ou por dizer. Às vezes a tropeçarmos nalguma dificuldade que traía a fonética, mas sem deixar de exprimir a vontade dos sentidos, e a sede: -Um copo de “aba”, por favor. Escorregávamos pelas caixas de cartão vazias, guardadas no armazém, com a mesma alegria com que, ao longo de outros tempos, soubemos sorrir sobre a gravidade das deceções, que nos puxaram para o chão frio. Palpámos juntos a nossa primeira neve, perfumámos as mãos nos troncos das mesmas estevas, rezámos as nossas esperanças nos mesmos padre nossos, e algu...

Votar

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Votar é ratificar a opção pela democracia, expressando, em pleno uso dos direitos e deveres de cidadania, a anuência à liberdade. É nesse contexto que irei votar no próximo domingo, com a convicção de que a liberdade e a democracia jamais poderão ser dadas por definitivamente adquiridas, e é a nossa atitude que as alimenta, tal qual uma chuva de vontades sobre a terra fértil. A abstenção, surpreendam-se, é tão virulenta quanto o Covid-19, porque tal como ele, nos poderá condicionar, e nos coloca à mercê das “máscaras” e da vida que não queremos. Faço-o sem esquecer o curriculum de honestidade e competência (ou ausência delas) dos intérpretes / políticos envolvidos, sem qualquer amarra que me prenda cegamente aos meridianos ideológicos, mas sobretudo com base nas minhas convicções. Por exemplo… Revejo-me na Constituição da República Portuguesa e sou um defensor das liberdades adquiridas na revolução de 1974. Defendo um Estado próximo dos cidadãos, e que os inclua, com suport...

A manhã de janeiro

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  O aroma do café ainda a pingar, muito quente, deste o filtro zeloso, e diretamente para a cafeteira, oferece-me à sala um toque inquestionável de conforto e de intimidade. Para lá da vidraça, e desde o lugar onde a ponte desmente o Tejo, abraçando as margens, o sol espreguiça-se, ainda ensonado, traçando o céu com linhas encarnadas, azuis, amarelas… Com mais ou menos nuvens em modo e gesto de prisma, não existe dia que não nos traga a tinta de todas as cores. E escrever, ou rabiscar, o tempo a preto e branco jamais será uma inevitabilidade, mas apenas a opção, aparentemente cómoda, da discrição do sofá cinzento e silencioso situado atrás do biombo. Esta demissão de dizer-se é acompanhada, muitas vezes, e desde o lado de fora, pelo juízo dos demais, pela rotulagem que atribui, de modo completamente cego, defeitos e virtudes, vulgarmente, e levianamente, associados ao grupo social, profissional, à confissão religiosa, etnia, ao ponto eleito do espectro político, ao código p...

As rosas… tal qual a vida

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Aos sábados e domingos de manhã, um pouco antes da missa, gosto de visitar o túmulo do meu pai. Não o faço por qualquer traição ao Céu, se é aqui, nesta terra vermelha do barro de Vila Viçosa, que permanece adormecido o colo, assim como os beijos, dos meus tantos instantes de Céu. Faço-o por fé e fidelidade. Nestas alturas gosto de trazer uma flor que tenhamos num dos vasos da varanda, sem qualquer pretensão, às vezes até muito pequena, mas colhida entre mim e a minha mãe, um pouco antes de eu sair de casa. No fim de semana passado não conseguimos ver aberto um muito promissor botão de rosa, que na manhã de segunda-feira nos brindou, finalmente, com todo o seu esplendor. Como na vida poderá faltar tempo para tudo, mas nunca para cumprir os mais simples detalhes de amor, colhemos o botão, e, de saída para Lisboa, fiz um desvio e fui colocá-lo no túmulo do meu pai. Ainda que por entre uma Ave Maria com pouco fôlego, mas aquilo que se diz, e o modo como se diz, perde sempre para o tanto q...

Espaço 2021

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Estaríamos pelos finais dos anos setenta do século passado, e nas salas meio arruinadas do Convento das Chagas, hoje a ilustre Pousada de Vila Viçosa, a nossa catequista pedia-nos para termos cuidado com as brincadeiras, sobretudo, porque aquele hábito de rodopiarmos sobre nós próprios para imitarmos a Maya do Espaço 1999, transformando-nos num animal qualquer, provocava-nos, isso sim, umas valentes tonturas, e nós acabávamos por cair sobre algum monte de entulho que servia de “Eagle 1”, a nossa nave, onde sob as ordens do Capitão Koening e da Doutora Helen Russel, viajávamos pelo espaço. Ontem, vinte e dois anos depois do mítico 1999, e alguns mais desde essas brincadeiras, juntei-me com a minha catequista na missa das onze na igreja de Nossa Senhora da Conceição. Ela, a minha querida Dona Bárbara Elisa, celebrava os seus bonitos 94 anos, e eu, desde o coro, e com a ajuda da minha amiga Madalena Barros, também da leva extraordinária dessas brincadeiras no Convento da Chagas, cuidáva...

A Abelha, a Carocha e o João Ratão

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Esta semana cruzei-me com uma abelha que voava, estranhamente tranquila, entre jarras cheias de flores artificiais. Ignorou-me nesta sua caminhada infrutífera pelo pólen, e o seu sossego será, quiçá, a certeza de que, tarde ou cedo, chegará às flores verdadeiras que a possam abraçar. Nesta mesma semana tive o privilégio de poder viajar com os meus sobrinhos, partilhando com eles alguns detalhes do Alentejo pré e pós barragem do Alqueva. O João viajou ao meu lado, e o Luís atrás, devidamente protegido, como é natural, pelo seu cinto de segurança, que acende uma luz verde no painel de comandos sempre que é ativado. Mas o cinto do meio, ao seu lado, também estava ativado, e verde, porque com o Luís viajou um amigo ou amiga invisível, personagem das muitas histórias de que ele gosta, e que vive intensamente, insurgindo-se, por exemplo, com a imprudência da Carochinha, que, desleixada, deixou um caldeirão ao lume. Direi eu que o dito marido, João Ratão, que nesse caldo morreu afog...