Mensagens

Pensando em ti

Num dos roupeiros da casa de Vila Viçosa está pendurado um casaco de criança num tom cinza escuro e um forro vermelho de uma “escandalosa” pele (artificial, claro). Tem um capuz recortado no seu topo a fazer um muito pronunciado “V”. Oferecido pelo meu tio Joaquim num Natal algures entre 1972 ou 1973, foi por certo ao longo de toda a minha vida, a peça de roupa que vesti que teve mais impacto e sucesso junto dos meus amigos pelo facto de me ter transformado numa autêntica versão porta-chaves de um Pai Natal, para além de que não havia frio algum que por ali entrasse nestas manhãs de inverno carregadas de geada. Vi-o novamente no passado fim-de-semana e achei-o estranhamente pequeno, minúsculo mesmo, quando confrontado com as memórias que tenho de não preencher totalmente o espaço das mangas, e de como ele, assim “enorme”, quase me impedia de colocar às costas a pasta da escola que também tinha cor vermelha e tinha um decalque do Pato Donald. Acontece sempre isto quando o tempo n...

Estes valiosos dias de prata

Não resisti e fui hoje pela manhã revisitar a foto do vosso casamento que guardo religiosamente no meu álbum das preciosidades. Lá estamos todos alinhadíssimos no altar principal de São Bartolomeu, elas com os penteados dos anos oitenta que esticavam os cabelos até ao infinito (à excepção da Béquim que tem o cabelo apanhado e parece estar a esconder uma banana no toutiço), e nós, todos com gel na cabeça e ao melhor estilo “Encontro Nacional dos Amigos do Blazer Azul Escuro”. É interessante olhar em detalhe cada rosto e parece incrível como já passaram 25 anos. Crescemos muito desde essa manhã fria de um sábado solarengo em Vila Viçosa, sobretudo pela forma como fomos preenchendo a vida de coisas importantes e boas, e acho que todos nos recusamos a envelhecer porque o brilho dos nossos olhares carrega ainda hoje esse mesmo de então a que a foto dá verdade. Talvez hoje já não fossemos todos juntos para a Rádio Campanário gravar uma cassete de gemidos e suspiros inspirada na canção...

Retalhos de uma noite fria

O frio era o de sempre, reconheci-o perfeitamente quando saí do carro e atravessei o adro com a minha mãe, aquele sopro gelado que não se atemoriza com cachecóis, gorros ou os melhores e mais pesados sobretudos, o frio do Alentejo que se faz acompanhar de um estranho fumo quente em cada palavra que se solta da nossa boca. A igreja também é a mesma, hoje sem as gigantescas cortinas douradas e azuis que a decoravam por estes dias, mas com malmequeres, um doce e suave toque do campo, a dar verdade e simplicidade ao altar da Senhora da Conceição, a quem viemos no segundo dia da novena que nos irá levar à festa do dia 8 de Dezembro. As pessoas são menos que antes e diferentes sobretudo no trajar, já não vendo eu por aqui os xailes e os lenços que as mulheres usavam na cabeça, adereços que juntamente com as samarras e os capotes dos homens ofereciam ao ar um estranho e intenso aroma de naftalina. Ganhámos em conforto, e isso é um bom presente dos tempos, embora eu não consiga evitar a...

A lição de uma velha árvore já morta

Gosto destes dias em que a visão do sol nos alimenta uma secreta ilusão, mascarando o típico frio de um Outono que a copa amarelecida ou avermelhada das árvores denuncia a qualquer instante. No campo dispensamos o calendário, e pelos aromas, pelas cores e por estas sensações, conseguimos sempre saber qual a estação do ano em que nos encontramos. Na casa de Vila Viçosa, quando olhamos o Terreiro do Paço pela janela da cozinha ou pela varanda, uma velha árvore implantada no quintal da Vizinha Clotilde, sempre nos ajudou nesta tarefa de aferição do tempo, porque no Inverno tinha os troncos à mostra, na Primavera revestia-se de folhas verdes que cairiam depois já amarelecidas no Outono, e nos dava centenas de alperces doces durante o Verão. No quintal todas as árvores tinham uma história: o pessegueiro rasgou-se ao meio por acção dos helicópteros que trouxeram o Papa em 1982, ano em que a nespereira deu fruto que parecia milagre, e esta árvore, contava a vizinha Clotilde, tinha sido...

O aroma intenso da mais perfeita flor do campo

Sei que nunca ninguém me olhará assim na bênção desse amor que me impele a abraçar-te em cada instante, quando sorrimos os dois, e o teu sorriso é cimento da minha fé e o meu sorriso me devolve ao conforto da criança que me recuso sempre a deixar de ser junto a ti. Perfeitos são os dias em que a manhã me traz o teu olhar e ao redor do café e do pão, doces são as palavras que sempre falam de nós e soltam todos os afectos, as palavras que trazem para redor da nossa camilha que tem vista para o Terreiro do Paço, todos aqueles que ambos tanto amamos. Depois gosto quando me vês e comprovas se o meu vestir está alinhado com o frio ou o calor da nossa Vila Viçosa, e mais uma vez me deixo ser menino quando me perguntas: - Levas lenço de assoar? Ou: - Tens moedas para o ofertório da missa? As duas perguntas que nunca falham, e que, peço a Deus, tarde ou nunca me faltem, mesmo sabendo que já só lhes consigo responder com um breve sorriso e sem palavras. Sabe bem regressar a casa q...

Os anjos que ainda respiram

Há uma velha lareira que o tempo e o fumo pintaram de negro, e há um madeiro gigante que se deixa consumir lentamente por um fogo sem chama e perfuma a casa de um conforto alinhado com o sol que brilha intenso para lá das vidraças. O brilho intenso do astro-rei por sobre o Atlântico aqui tão perto e que resplandece de azul na ilusão de um dia que é afinal de frio e de um Outono quase Inverno. As paredes têm a cor de um papel já gasto, e gastas estão as gravuras espalhadas pela sala, mais pelos olhares que dias inteiros repousam e se abandonam sobre si, do que pela acção do sol nos dias em que brilha assim como hoje o faz. Na velha mesa quadrada e com brilho de verniz que está colocada no canto junto à janela, repousa um velho baralho de cartas que tem ar de tudo menos de sorte, e um jornal que ali abandonado já perdeu a altivez da sua melhor cor, e carrega as palavras de tantas histórias de muito antes de hoje. Há muito se perdeu a conta ao número de vezes que as suas páginas fo...

Os abutres na vil caçada ao subsídio

Ao melhor jeito de Lucky Luke, o cowboy que é mais rápido a disparar do que a sua própria sombra, antes da chegada do recibo de vencimento ou de qualquer ida ao multibanco com acesso ao meu extracto bancário, fiquei a saber por uma funcionária do meu banco que na passada sexta-feira me tinha sido pago o subsídio de Natal que eu optei por não receber em duodécimos, um verdadeiro luxo num país com elevados índices de desemprego e onde as claras dificuldades financeiras da maioria da população perspectiva um Natal mais carregado de dificuldades do que de bacalhau ou bolo-rei. Actualmente em Portugal uma das situações mais pornográficas com que somos confrontados (e a “Casa dos Segredos” quando comparada com isto até parece o “Clube das Virgens Inocentes”) é o despudorado ataque aos subsídios de Natal e de Férias, em grande parte pelo Estado que se inspira na Troika e não consegue controlar a sua própria despesa, mas também pela banca e afins. Como se entre Estado e banca existisse as...