Mensagens

De farmacêutico e de louco…

Não haja dúvidas da legitimidade com que me afirmo farmacêutico, situação comprovada aliás pela inscrição há vinte e três anos na respectiva Ordem, antiga Sociedade Farmacêutica Lusitana. Das cinquenta cadeiras que no pré-Bolonha compunham o meu curso, não fiz nenhum exame a um domingo, não mandei aos professores exames por fax, não tive passagens administrativas dadas com base na minha experiência associativa, juro-vos que aulas aos sábados só tive até às 13 horas e nunca para lá de 30 de Junho, que em pequeno muito me ralava nunca ter a oportunidade de convidar os meus amigos e colegas para o meu aniversário a 5 de Julho. Mesmo assim e com todo este percurso, muito pouca importância terei como mensageiro no que à melhoria da saúde dos Portugueses possa dizer respeito. Passo a explicar: A Catarina Furtado apresenta actualmente na televisão e em espaços publicitários, uma fórmula mágica que permite a regulação do peso cuidando em cada uma das semanas dos elementos que derivam ...

Esse tempo magnífico escondido por detrás das Azedas

O sábado não falhou e revelou-me ao longe o Atlântico no seu infinito tom de azul numa alinhada rima com um céu sem quaisquer nuvens, logo que pela manhã espreitei à janela. Depois de tantos dias a chorar, este Janeiro afinal também sabe sorrir, não colocando entraves ao brilho intenso do sol e revelando no imenso campo verde à frente de casa, milhões de pontos amarelos, que nem necessito aproximar-me muito para concluir que de um enormíssimo tapete de Azedas afinal se trata. Não fosse cá por coisas e atravessaria de bom grado a estrada para colher uma ou duas e me regalar com o sabor avinagrado que elas nos oferecem sempre que por esta altura caminhamos pelo campo. Um dia destes, nos tempos mais próximos, não resistirei e irei até lá provar as Azedas. Mas hoje tenho almoço em família e há que fazer as últimas compras. Vou até ao Centro Comercial, e de repente vejo-me numa fila virada para um cubo gigante de acrílico que oculta um robot super inteligente que vende cápsulas d...

Uma noite para guardar “cá dentro”

A fresca brisa que corre do rio chega até mim e beija-me incessante enquanto os passos vagueiam errantes pelo jardim no impulso que o olhar lhes impõe a cada instante. Cheguei mais cedo à Praça do Império e deixo-me ir ao ritmo das cores que a fonte faz pela água erguer ao céu estrelado da noite de Lisboa, num desafio com a luz de recortes manuelinos que emerge dos Jerónimos, duelo único que me põe num estranho slalom entre tripés de turistas numa vasta babel de muitas e diferentes línguas. Caminho como tanto gosto, na aparência de não ter ninguém, mas na efectiva companhia e de “braço dado” com uma intensa profusão de memórias… de muita gente. Sozinhos, ganhamos sempre o extraordinário privilégio de caminhar com quem mais queremos. A Margarida chegará depois para o jantar, que entre Benfica, muitas gargalhadas e umas estranhas bifanas industrializadas, nos alimentará. E que estranho pecado esse o da indiferença e de nem nos termos sequer lembrado de ir comer um Pastel de B...

Os despertares violentos

Se o meu despertar se inicia diariamente às sete em ponto com um toque de telemóvel que me consegue irritar a qualquer hora do dia quando o escuto nos aparelhos alheios... Se prossegue com um duche de água morna que nos “dias sim” consegue arrancar-me algumas notas musicais de “O anzol” dos Rádio Macau e nos “dias não” das “Sete letras” da Simone com poema do Ary dos Santos (“Esta palavra Saudade…”) … Se tem um impulso muito positivo durante a degustação do pequeno-almoço, onde por entre a torrada e o copo de leite invariavelmente frio vou por vezes conversando com um amigo também “madrugador”, trocando mensagens com recurso ao i-pad que coloco religiosamente à minha frente… Verdadeiramente o processo de acordar só se conclui quando me coloco perante o café ao mesmo tempo que vou folheando o jornal que a senhora da pastelaria cedo trouxe do quiosque. E há notícias que conseguem levar-me a um estado adiantado de vigília de uma forma mais rápida do que a trimetilxantina, a conhe...

Por ti… colher a sorte numa triste manhã de inverno

A negra cortina das nuvens, mais até do que o voo alucinado e o choro das gaivotas por sobre nós e por sobre a terra, indicia que lá não muito longe, ali na zona do Bugio onde o farol testemunha a entrega do Tejo ao Atlântico, segue de tormenta a manhã no mar, insaciável sofreguidão no abraço das ondas, muito para lá da sua costumeira fidelidade à areia da praia. Por aqui, na muito rara pausa de chuva num dia tão cinzento de Janeiro, há um homem com uma voz demasiado rouca, indício marcado de uma intensa e longa história, que insiste em apregoar a “sorte” no refúgio dos anónimos convocados pelo aroma e pela promessa de uma bica quente que nos possa confortar o ser. A “sorte”… Saberá cada um qual é a sua nesta roda que é a própria vida no inevitável percurso pelo calendário. E a minha sorte, eu sei, transpiro de certeza… és tu! E não te trocaria jamais por nenhuns quaisquer muitos milhões de nada e do que quer que fosse, se de amor infinito se me enche a alma quando tão-só e ...

A vitória do dinheiro na goleada sobre a dignidade

Há muito sabíamos que os zeros à direita no saldo bancário, e o poder que indirectamente lhe está subjacente são mais eficazes do que a honestidade na definição da importância de uma qualquer pessoa. Na morte da poesia, já não são os sonhos que comandam a vida, como dizia António Gedeão na sua “Pedra Filosofal”, mas é o dinheiro que define todas as prioridades. A essência de Portugal que está expressa na sua Constituição, é ferida de morte para que os números do Orçamento Geral de um Estado que não sabe cortar a despesa onde deveria cortar, se mantenham dentro de determinados valores, criando desde aí um conjunto de propriedades sedativas que mantenham adormecidos os “Mercados”, esses Adamastores do Século XXI que nos perseguem nas Tormentas deste tempo. E o grilhão, o medo dos “Mercados” congela a liberdade e o respeito pelo designado Estado Social, esses mais básicos e justamente expectáveis direitos dos cidadãos que nunca se negaram ao cumprimento dos seus deveres para com o ...

A simplicidade do presépio e o aplauso do povo

A cirurgia às cataratas a que o meu pai foi hoje submetido no Hospital da Luz deixou-me com uma vista privilegiada para o Estádio e para a multidão que se despedia de Eusébio. A cultura dos heróis não se aprende nas universidades, pelo contrário, vive-se na simplicidade que cria a proximidade com todos e que jamais é capaz de dividir algo e/ou alguém. E os heróis até podem beber whisky ao pequeno-almoço, que bem pior são as bebedeiras da vã e balofa vaidade. Não sei se o Senhor Dr. Mário Soares se lembrará da tarde do dia 9 de Março de 1986? Tomou posse para o primeiro mandato como Presidente da República e apesar de ter chamado a Lisboa as estrelas da política internacional, incluindo George Bush pai, na altura Vice-Presidente de Reagan; teve a acenar-lhe a GNR e a PSP que faziam a segurança. A inveja, a sobranceria e a vaidade levam sempre a estas tristes figuras. A multidão continua a mover-se lá fora. O dia ameaça chuva. Estou sentado na Sala de Espera ao lado da Á...