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A tarde de Maio

A primavera sente-se muito para lá da perfeição de cores que nos encantam e prendem o olhar, à medida que os nossos passos avançam pela vereda muito estreita, caminho desenhado pelo calcar insistente da perseverança do Homem, trajecto de terra aqui e ali invadido pela erva ainda fresca que brotou de um inverno generoso de chuva. Sigo pelo campo sem rota Sou dono de mil caminhos Por entre a vida que aqui brota Entre estevas, poejo e pinhos Mais à frente, o rosmaninho impõe a sua cor arroxeada, que brilha intensa por entre o quase monopólio de verde, e o momento impõe que o acariciemos, bebendo então as mãos daquele odor único de uma alfazema brava que me recordará sempre o cheiro da fé espalhada pelas ruas da minha terra em dias de passeio de Nosso Senhor. E aqui parados junto ao tronco de uma árvore sem idade, sentimos e lemos o norte na muito natural e micológica bússola semeada pela brisa fresca. Quem me dera ter-te aqui E ir contigo mão-na-mão Embora tudo me fale ...

“Adsum DEO”

Há não muitos anos contava-se como anedota uma história imaginada numa barraca onde vivia um grupo de gente bastante humilde e com fome, que ao ouvir bater à porta e depois de saber que quem batia vinha da parte da Cruz Vermelha Portuguesa, respondia: - Já demos. Sem pretender discutir aqui a legitimidade desta crítica à organização secular em causa, lembrei-me ontem desta história ao ouvir os ministros a apresentarem o DEO (Documento de Estratégia Orçamental), porque entre o IVA e a TSU lá veio mais um ataque às poucas décimas / migalhas que nos restavam. E a mim e aos outros, por entre esta corrida a "Passos de Coelho" para as "Portas" do inferno parece que nada mais resta do que dizer Adsum Deo , que é como quem diz em latim “eis-me aqui Deus”. E o Deus é aqui a despudorada face dos eleitos que atacam em conferências de imprensa ao fim da tarde, e sempre por entre a mentira de quem diz não aumentar impostos e a hipocrisia de saídas limpas, que o podem se...

A gente e as cores

Na passada segunda-feira e quando se preparavam para concluir as suas compras na minha vizinha loja dos supermercados Pingo Doce, os meus pais foram confrontados com uma operadora de caixa que lhes pediu para identificarem o conteúdo de um dos sacos, o das favas frescas, pois a dita criatura que sabia manipular toda a maquinaria à sua volta e saberia por certo distinguir todo o arsenal de maquilhagem com que se tinha transformado naquela espécie humana de árvore de Natal fora de época; não sabia distinguir favas de ervilhas. Fui “desenterrar” esta anedota urbana da “filha do betão” que se pôs à mercê de um casal de alegres Alentejanos para ilustrar esta minha convicção de que os cérebros humanos (ou em alguns casos, a ausência deles) andam desfocadíssimos naquilo que deve ser ou não alvo de distinção. Até aposto que esta criatura que não distingue vegetais tão diferentes no seu aspecto, sabe distinguir os Homens consoante a tonalidade da sua pele; porque não considero ser um acaso...

As histórias eternas

Desde sempre ouvi contar que uma das minhas bisavós, a mãe do meu avô Francisco, entretinha os filhos e todos os amigos da vizinhança, contando-lhes histórias, ao mesmo tempo em que por acção de um velho candeeiro de petróleo, projectava na alva parede em frente da sua casa, as sombras dos dedos devidamente alinhados para que tomassem a forma dos personagens destes enredos que invariavelmente casavam os mistérios e as lendas que andavam de boca em boca ali pelas redondezas. Em Vila Viçosa e na velha Rua de Évora da qual restam apenas as fachadas da actual Avenida Bento de Jesus Caraça, do lado da Pastelaria Azul, que do outro lado era a Rua do Espírito Santo antes da reforma dos anos quarenta operada por obra do Engenheiro Duarte Pacheco; os serões quentes de verão tinham assim uma animação extra que beneficiava ainda e em muitas noites, da música produzida por alguns instrumentos artesanais que um outro vizinho tocasse ali pelas redondezas. Estas histórias também chegaram aos ser...

As palavras

Indiferente às condições meteorológicas que poderão ser mais ou menos agrestes, às marés, à força das ondas, às estações do ano, à posição dos astros, às fases da lua, aos humores… e sendo muito mais do que apenas duas dúzias de horas oferecidas ao nosso passivo acto de respirar; os dias são fontes inesgotáveis de palavras. De palavras ditas, escritas, cantadas, desenhadas, choradas, soluçadas, subentendidas… De palavras e de silêncios, porque estes, porque as não têm, falam tanto ou mais do que elas. Os dias são então nascentes de palavras sublinhadas ou não pela tinta da melhor verdade, aquela que é dádiva gratuita do espelho generoso que é o olhar. E as palavras são assim e tantas vezes, perfumados detalhes tecidos a letras no tear de uma incessante poesia. Há palavras ocas, estéreis, vãs e sem qualquer sentido; ou palavras recheadas do conteúdo que os gestos e as atitudes sempre lhes oferecem, quando os dias não as pretendem ver abandonadas nesse famoso orfanato das boas...

“O dedo fez-me cócegas”

Há uma fonte em pedra construída pelos Homens, um círio aceso ao lado de um altar debruado a flores; e a fé é água viva que corre pelos tempos atravessando gerações, e luz que alumia caminhos desenhados por inspiração do amor.   Um dia, em 14 de Maio de 1982, em Vila Viçosa e à esquina da Casa dos Cantoneiros, juro que o meu olhar se cruzou com o de João Paulo II. Não foi preciso o dia de hoje para saber que nesse instante, como em muitos outros instantes em encontros com tantos anónimos sem altar, os meus olhos beneficiaram do privilégio do olhar de um santo. E santos são sempre aqueles que nos desafiam a ser maiores. Hoje, à hora em que subia ao altar o dono do olhar que me tocou algures pelos meus quase dezasseis anos; em Lisboa, os meus sobrinhos João e Luís, recebiam o baptismo, e eu, testemunho-o, e sou o mesmo ali entre a fonte e o círio, escutando a água e olhando a luz, reconhecendo em mim a mesma fé numa genética de esperança que me sai directamente da alma. A es...

Esta persistente chuva de Abril

Caem intensas e são infinitamente muito mais do que apenas mil, as persistentes gotas da chuva deste estranho mês de Abril. É primavera, mas sobre o Tejo, as nuvens invejam do meu olhar, a vontade, e abraçam despudoradamente a ponte e um velho cacilheiro, móvel ponto laranja na perseverança da travessia até à bênção do chão de Lisboa. Eu, dono de tantas e tão doces lembranças de um Alentejo ao sol pejado de estevas e giestas, entrego agora os meus passos às calçadas desenhadas da Cidade Branca, que tal como as veredas do campo, também são minhas. E um Homem feliz… É um Homem assim como eu percorrendo todos os caminhos que sente como seus, as “ruas” que lhe são sugeridas pela alma e que são mães e cúmplices de todos os seus sonhos. Nesta manhã, percorro a Avenida com nome e resquícios da festa da Liberdade, e, não tarda, chegarei ao Rossio, a praça que coroada pelo Carmo e pela Trindade, imbatíveis, é estrela maior da velha Olisipo e que, pela genética da própria cidade, não ...