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Um Alentejano na noite de Londres a jantar num restaurante Libanês...

Um Alentejano na noite de Londres a jantar num restaurante Libanês... Dos comensais do género masculino que estão presentes na sala, 90% são morenos e têm barba como eu; a sopa de galinha vem acompanhada com limão, o que me faz lembrar o velho hábito que o meu pai herdou da avó Natividade e que consiste em espremer o dito citrino para a canja; tal como na minha terra, servem-me pão para acompanhar a refeição; a grelhada mista de cordeiro e de frango proporciona-me um sabor algo pascal quando os pedaços do borrego são misturados com as ervas aromáticas que colhemos do campo; entre pratos tenho à minha frente um recipiente com vegetais crus e aproveito para comer cenoura e rabanetes, lembrando-me do meu avô Francisco que era grande consumidor destes últimos; também tenho um recipiente com azeitonas temperadas segundo a “receita” da tia Maria; o sumo de melancia que me é recomendado para acompanhar a refeição, devolve-me a cada gole ao estio fantástico do meu Alentejo ou aos fins de t...

Pela vida que me dás tu merecias uma espera de mil anos

Espero por ti debaixo das árvores do Camões despidas pelo inverno. Encosto-me ao varandim que mira a Rua das Flores, e sinto sem qualquer tom de tragédia, que a hora inteira que tenho de esperar por ti, é tempo ganho. Esta hora é já parte integrante do abraço da tua chegada, e prolonga-o assim, como quem estende o mais que pode, o saborear intenso de um doce perfeito. Há gente sentada na esplanada do Quiosque dos Refrescos que hoje só parece vender chá quente; que muito fresco vai o entardecer depois do sol ter deixado de debruar a laranja a nesga do Castelo que consigo espreitar para lá da Rua Garrett. É desse mesmo lado que depois vejo chegar a lua, primeiro de um modo tímido, e depois intenso sob o céu onde algumas nuvens insistem em “calar” as estrelas. Não resisto e tiro uma foto. Ouço a gente e as vozes de muitas línguas, o passo do eléctrico nas calhas metálicas assentes sobre o asfalto, os sinos que chamam para a missa, a buzina dos impacientes na transfiguração ver...

Nós a sorrimos por sobre a dor, tal qual as mimosas por sobre a chuva e o frio de Fevereiro.

A chuva fria batida violentamente pelo vento forte consegue aumentar ainda mais a solidão na hora em que a morte tem irremediavelmente o ritmo de um adeus ao som do bater triste da terra sobre a madeira. Na encosta do silêncio, atapetada de pedras rasgadas por letras de saudade, consigo ao longe vislumbrar uma mimosa que se prepara para explodir de flor neste início de Fevereiro. Consigo sorrir às mimosas e também mais tarde aos golos do Benfica que me chegam pelo telemóvel. Sob a madeira, o Tio Joaquim adormeceu com o emblema do nosso Benfica na lapela e estará a sorrir algures por entre o “bruá” de festa que nasce da Luz. Entretanto parou de chover e eu estou no Chiado. Passeio com as mãos nos bolsos do sobretudo enquanto espero a Margarida.  O destino hoje roubou-nos a bifana mas servir-nos-á um jantar tranquilo feito à conversa enquanto esperamos a Mousse de Chocolate do Pap’Açorda. Só mesmo nós para escolhermos um restaurante pela saudade de uma sobremesa. Entre ...

Chuva… e silêncio

Há dias em que o corpo nos pede e impõe o silêncio para que a alma tenha oportunidade de ressuscitar eficazmente as palavras, os gestos, os olhares… tudo aquilo que guardou de alguém, atenuando assim a saudade da sua partida ou da sua ausência. E assim, em estátuas erigidas pelo pensamento, se eternizam aqueles que amamos, mesmo por entre a despedida de uma parte de nós que sempre morre com eles. O Tio Joaquim perdeu a conta ao número de vezes que leu os dois livros de memórias que publiquei, e disse-me ter revivido com eles e pelas palavras, um tempo perfeito e bom de sol, afectos e Alentejo, lembranças que foram alento nos dias difíceis da sua longa doença. Dedico-lhe todas essas palavras que por ele ganharam muito mais sentido, mandando-as agora envoltas num beijo directo ao Céu para onde partiu ontem num dia triste de chuva. Chuva… e silêncio.

Um dia tão… “Correio da Manhã”

A manhã de Lisboa está húmida e a exigir impermeáveis e chapéus-de-chuva, estes últimos colocados num recipiente próprio existente à entrada da Pastelaria, para que possam pingar à vontade. Entro, cumpro o ritual do chapéu-de chuva e busco um lugar ao fundo da sala comprida, ficando virado para a porta e para a montra que me revelam os jardins da Gulbenkian. Surpresa… Toda a gente virou costas à porta e está sentada de frente para mim que assim me sinto um verdadeiro maestro a dirigir uma orquestra formada por seis intérpretes femininas. Depois de olhar para a televisão colocada na parede atrás de mim entendo o porquê desta situação: Correio da Manhã TV 6 – Jardins da Gulbenkian 1. Perco por goleada. Enquanto elas se actualizam relativamente ao conflito Bárbara / Carrilho, à guerra Marco Paulo / Kátia Aveiro e absorvem as últimas notícias que chegam da prisão de Évora, eu fico como que parado perante as páginas abertas de uma caderneta em que os cromos divergem pelo desen...

Choverão flores sobre nós nesses dias da primavera que esperamos

A chuva miudinha da manhã de Lisboa molha-nos a todos com independência do estatuto intelectual que assumamos ou nos atribuam; e como tudo o que existe tem sempre um lado positivo, até mesmo o mais negativo, as filas de trânsito que ela patrocina à entrada da cidade têm o condão de nos dar tempo suficiente para desfrutarmos dos detalhes que de outra maneira iriamos ignorar. Vejo as árvores de Monsanto… Estão verdes no benefício das folhas que nunca as abandonam, e em algumas das outras, aquelas que o inverno despiu, já floresceram pétalas entre o tom branco e o rosa, detalhes que lhes dão um ar de festa e nos lembram a primavera. O mesmo tom rosa que brilha com o amarelo nas fachadas ainda mais viçosas depois da chuva que enegreceu o tom dos telhados que as encimam. Percorro a cidade segundo a rota das obrigações, mas é impossível não desfrutar do que vejo, da chuva, e recolher da manhã a poesia da mais intensa das devoções. Lisboa será sempre a minha cidade por ser a pátri...

O sofá de um Homem enamorado é um parapeito de vistas infinitas e ilimitados horizontes

O sofá de um Homem enamorado é um parapeito de vistas infinitas e ilimitados horizontes; que o pensamento jamais se nega a tomar e a fazer suas, as mais ousadas e destemidas oníricas asas que o amor lhe “imponha”, e assim voar para longe. Sem autocensura como privilégio, sem humanas e racionais “portagens” debitadas directamente na conta do bom senso, as noites de aparente silêncio são assim o berço de histórias que alinham o tempo com tudo o que está inscrito na nossa vontade. E rompem qualquer espaço. Às vezes enquanto voo, pego na caneta e no bloco de capa vermelha, e coloco as melhores palavras que conheço na história que nasce em mim, fazendo um Diário de Bordo onde os quilómetros são o caminho por onde me levam as sensações. Bem mais importante do que qualquer outro registo diário; que aquilo que fazemos é o previsível que toda a gente vê, e aquilo que se sente é o que nos define e muito melhor fala de nós. Numa destas noites olhei para a parede onde repousam os teus ...