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ZERO

Há dias com um triste gosto a nada, em que a vida parece ter sido multiplicada por zero; mas pelo contrário, há dias em que nos levantamos da cama ao ritmo de uma contagem em Cabo Canaveral… dez, nove… dois, um, zero… e mais ninguém nos segura por entre a energia de conquistar tudo, e até conseguimos chegar à lua. Tudo sem que o zero deixe de ser zero e sem que a nossa vida também deixe de o ser. Há dias em que nos sentimos um zero sentado à esquerda de qualquer coisa, anónimos e indiferentes personagens numa multidão que passa e para a qual não contamos absolutamente nada; mas há dias em que somos um zero à direita daquilo que ambicionamos, e então valemos por dez com força para mudarmos o mundo. E se for preciso ainda somamos mais zeros porque temos ganas de infinito. E o zero é nada como pode ser o infinito… Tal qual a vida, bastando que nos coloquemos sempre do lado correcto, do lado que nos faz maiores, que nos coloquemos onde, quando e com quem poderemos elevar-nos e el...

YES

Gosto do sim que se pressente numa manhã solarenga e perfumada de Verão quando abro a janela depois de me ter despertado a trautear uma canção daquelas que não esqueço nunca, uma música com latitude e longitude no universo de tudo o que eu já vivi. Gosto tanto do sabor que o sim da decisão deixa à solta na minha boca depois do passo em frente em direcção ao sonho e à minha vontade. Gosto da coragem de um sim honesto e livre mas diferente, sobretudo quando seria expectável o fácil vazio do disfarce de um não. Gosto do sim soletrado pelo eco de um poema que parece semear um canteiro de flores dentro de mim. Gosto do sim expresso por uma rosa, por um entardecer na praia, por um poente… ao tanto da minha fé. Gosto do sim de uma gargalhada, do sim de um copo de tinto, do sim do abraço de um amigo… para a festa de tornar felizes os dias de viver. Gosto muito quando o sim espreita doce à janela do teu olhar e o instante que se segue traz com ele a dimensão perfeita de um beijo q...

WATER

No dia largo de um Julho ainda a começar, o sol a pique sobre as sete colinas, o repicar alegre dos sinos nas torres das igrejas e dos mosteiros, o burburinho da gente nos mercados da cidade, o pregão e a notícia que corre pelas esquinas… Nós tomámos as naus em nossas mãos, e alinhando as águas e os ventos com a vontade, soltámos as velas, deixámos no cais o peito dos amores tolhidos pela mágoa, e contra a voz dos incrédulos, dos “velhos”, e por entre a tão lusa saudade, partimos do Restelo... O Tejo, a barra, e finalmente o mar. De Lisboa, a genética dos heróis inscrita na letra de um fado em tom maior, tão grande quanto a ambição que não cabe aqui; que um povo é do tamanho daquilo que a sua alma sonha, muito mais do que da terra inscrita entre as suas fronteiras. Seguimos com Vasco da Gama; e com uma imensa garra, ao mar nos fazemos… pela fé, pela glória do império, por pimenta, gengibre, cravo, canela e açafrão. Sem temores, desprezando mostrengos e adamastores, na cumpl...

RESILIÊNCIA

Há dias assim, como hoje, manhãs envoltas por esta neblina que não me deixa ver o mar e apreciar-lhe o tom azul, sentir o sol; e depois quiçá avançar pela areia que sinto arrefecer à medida que me aproximo do abraço das ondas, para me oferecer a mim próprio um mergulho nas águas perfeitas do Atlântico. Trouxe a mochila, o guarda-sol, a cadeira que se regula na inclinação das costas para que eu possa ler ou adormecer deitado, trouxe uma toalha colorida, um livro, um caderno, uma esferográfica, algumas maçãs e uma garrafa de água bem fresca. Não desisto. A areia está húmida por efeito de umas pequenas gotículas frescas que caem e eu sento-me na cadeira e debaixo do guarda-sol que para já me protege… da chuva. Ofereci um ângulo de noventa graus às costas da cadeira relativamente ao assento, e estou em óptima posição para escrever. A toalha, pu-la a cobrir-me parte das pernas e a resguardar-me da aragem fria. Puxo do bloco e da esferográfica enquanto reparo que está bandeira am...

VIVER

Vivo por tanto e tão pouco por respirar. Vivo no sim e no não que amordaçam a sensaboria morna de um talvez ou de uma decisão eternamente adiada. Vivo nas páginas de um livro que me traz o mundo, ou então numa viagem para perto ou para longe, mas que me leva sempre até tantos e novos mundos. Vivo nas asas de pássaros de um poema de Pessoa, no mar de Sophia; nos contornos impossíveis da voz de Amália, no timbre e no mel de Bethânia e Caetano, num filme de Almodovar, numa gargalhada do Herman, num passe do Ronaldo, num golo do Benfica. Vivo nos contornos todos do abraço de um amigo, na melodia de um beijo, numa conversa de esplanada, no café com gelo tomado à beira mar, numa pausa à sombra de um sobreiro, na água bebida com as mãos em concha na bênção de uma fonte, nos pés imersos no fresco correr de um rio, numa foto, nas palavras que descubro por entre a magia e os mistérios de um poente. Vivo num serão "ao colo" dos meus pais, no pequeno-almoço à mesa com a famíl...

UNIÃO

Sentado sozinho na esplanada, apercebo-me que há um homem próximo de mim que assobia num tom dolente de suspiro, um airoso modo de disfarce para as palavras que guarda e não pode dizer a ninguém. Ofereço-lhe por momentos o olhar, e vejo como o tom asa de corvo do seu cabelo não cumpre nem de perto nem de longe, o objectivo de calar o tempo. E devolvo-me ao bloco onde escrevo. Algures pelos finais dos anos setenta, o Dr. Manuel Inácio Pestana vai dar uma conferência no salão da Sociedade Artística Calipolense; um serão diferente a que eu e os meus amigos não faltamos de bloco de apontamentos e caneta, não vá o prelector revelar localizações de subterrâneos que guardem tesouros capazes de nos tornar tão famosos quanto os cinco da Enyd Blyton. Já na viragem para os anos oitenta, a Vila pára à hora da telenovela, e nós, já adolescentes da "Turma do Clerasil", encontramo-nos na Corredora, na garagem da Casa Paroquial para as reuniões de um grupo que baptizámos de "S...

TRAVESSEIRO

Na cama dos nossos pais existia um travesseiro a toda a largura da cabeceira, em cima do qual se colocavam depois duas pequenas almofadas individuais que davam uma identidade a cada um dos lados do leito; se bem que a identidade que se impunha era essa indiscutível cumplicidade denunciada por essa muito comprida estrutura cheia de esponja muito colorida e esquartejada em pedaços. E quando pensávamos que um dia iriamos ser felizes ao lado de alguém, sempre acreditávamos que sim, a vida dar-nos-ia a pessoa ideal do outro lado dessa longuíssima almofada que por vezes ajudávamos a nossa mãe a enfronhar na hora de fazer a cama. Enfronhar, uma tarefa que não era objectivamente fácil. Também existiam travesseiros nas camas dos nossos avós e dos nossos tios, e nós também os conhecíamos bem dessas noites que eram especiais porque ficávamos em suas casas para que os nossos pais pudessem ir a alguma festa ou a algum baile, e pudessem regressar depois mais tarde a casa. Tal como os das c...