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PESSIMUS – All together… later

Nunca antes me acontecera em sítio algum mas chegado a Copenhaga no sábado passado e depois de ter desactivado o modo de voo no I-phone , nem sinal de rede. Essa fantástica invenção chamada Roaming desaparecera de vez, de nada valendo as dezenas de vezes que desliguei e voltei a ligar o aparelho. Chegado ao hotel e tendo acesso a um telefone fixo, tranquilizei a família e iniciei a novela Optimus, eu daqui, e amigos e colegas directamente da pátria lusa. O primeiro número que marquei pôs-me em contacto com um individuo que me disse nada poder fazer pois eu teria de ligar para o Serviço Clientes-Empresa. Enquanto um amigo já se dirigia à Loja Optimus do Colombo porque aí, diziam, tudo se poderia resolver, liguei o novo número e fui carregando em todas as teclas sugeridas pela voz irritante da “menina” que nos lê o menu de opções como se estivesse em fase de pré-orgasmo. Chego então à fala com uma nova criatura que me sugere em primeiro lugar que desligue e volte a ligar o a...

Non ho l’età

É enganador este sol que brilha intensamente e que me despertou hoje às cinco da manhã, pois saindo à rua somos atravessados por uma brisa tão fresca, que as pernas abandonadas à frágil protecção das calças de um fato adaptado a uma primavera lusitana, me fazem compreender e desejar a inestética opção por um par de ceroulas que já não constam do meu espólio. Copenhaga no seu melhor… e ali ao longe, a ponte de Oresund com a Suécia à distância de quase oito quilómetros. Talvez por inspiração desta imagem de países unidos no contexto do espaço comum que é a Europa, projecta-se-me a memória para 1964. Foi aqui em Copenhaga, no dia 21 de Março, que Portugal participou pela primeira vez numa edição do Festival Eurovisão da Canção. António Calvário e a sua “Oração” saíram daqui com zero pontos e foram apupados não por demérito musical mas por razões politicas pois os restantes países participantes recusavam “cantar” ao lado de Salazar e Franco. Não há registo do espectáculo para con...

Tio Pastel de Bacalhau

Dispensa-se a aquisição do bilhete de cinema porque basta ir comprar o jornal à papelaria num dia feriado e desde logo, de forma gratuita, Pedro Almodôvar vem ter connosco. A dona da papelaria, duas clientes e o filho de uma delas conversam animadamente. - Coitadinho. Foi horrível a noite que ele passou. Nota-se-lhe na cara. Diz a mãe apontando para uns cerca de dois metros de gente que a acompanha e a quem instintivamente tento ver a tez em jeito de confirmação, o que se torna muito complicado pois a criatura tem a cabeça coberta pelo capuz da camisola, para além de que literalmente abdicou do pescoço mergulhando pelo interior da dita peça de roupa num tom verde alface que não ajuda muito a disfarçar as nesgas de olheiras que vislumbro. - Se calhar abusaste… Avança a outra cliente. - Não, coitadinho… Acode desde logo a mãe. - Só comeu um hambúrguer do MacDonalds. Pois… Era de prever que a dieta fosse essa e só não sei porque é que nas enfermarias dos hospitais ai...

Liberdade

De um imenso e novo sol se faz a madrugada, sonhada primavera, ansiada hora de um tempo que pela esperança já é novo. Os punhos gastos, esses quase mortos pelos tristes adeus de lenços e lágrimas na bruma do cais, renascem no impulso de impor por sobre as cinzas, a flor que do nosso bravo sangue tomou cor. Há heróis no Carmo e em todas as ruas de Lisboa, velhas e gastas calçadas de tantos e tão tristes passos, e ressoa o grito do povo que se reencontra e fervilha na doce alquimia de reinventar o seu destino. Os insubmissos ao fado rasgando as novas madrugadas. E nos campos morenos de Grândola há papoilas que rubras nos imitam o gesto… Há festa, infinitas flores brilhando, e heróicas resistindo ao vento, por entre o verde e o granito das mais altas serranias… E connosco, livre e sem amarras, grita forte o mar nessa ritmada canção trazida aos Homens pela força e pela espuma das marés. Depois de um adeus, a preço de vida…. Erguem-se sublimes as vontades na imposição do s...

Janelas de papel

Era uma vez um rapaz (sim, porque são rapazes e nunca meninos, os rebeldes cavaleiros dos simples entreténs que brincam livres na rua com as cumplicidades do luar) que todas as noites ansiava para que o silêncio da casa que acompanha a escuridão que impõe o repouso das almas, lhe abrisse as portas dos sonhos e por eles o fizesse voar muito para lá daquele ponto onde qualquer Homem julga possível conseguir chegar.   Sem as amarras das faces que nos marcam os dias, cada noite devolve-nos o doce conforto de uma dedicação exclusiva ao pensamento e à verdade de nós mesmos, com esse benefício acrescido das asas que não conhecem, e não se vergam a quaisquer humanos limites. Neste ciclo dos dias simples no campo e dessas noites povoadas por milhões de “viagens”, ansiava o rapaz por um momento em que os sonhos entrassem sem que para isso o ocaso tivesse que ocorrer, na momentânea e previsível derrota do sol que faz reluzir a lua. Dessa esperança se alimentou, e por essa vontade...

A ilustre casa de todos nós

O sol nasceu há pouco e a intensidade do seu brilho que cresce lentamente, impõe um alucinado ritmo de cores à paisagem que a manhã me oferece. Vejo terra, mar, ilhas que intercalam verde com longitudinais extensões de areia, uma infinidade de pequenos barcos fundeados numa competição de garridos tons, e só as gaivotas e um ou outro barco que acelera, quebram a quietude da manhã, quais estrelas cadentes no firmamento de uma noite estrelada. Respiro a maresia ansiando que ela jamais se apague da memória quando eu tomar caminho por sobre o asfalto que privilegiado se estende entre sobreiros, searas e infindáveis matas de giestas. Breve chegarei a casa e fumegará sobre a mesa uma sopa de tomate que também carrega em si a nobreza de um pão de trigo e o gosto único de um ovo fresco cozido manhã cedo agradecido a uma produtiva e poedeira habitante do galinheiro. No final, como sempre, irei sacudir a toalha na varanda que tem vista para o Paço, porque os pardais que chilreiam no cip...

Big Brother Vip

Há muitos anos, quando a TVI ainda era um projecto que sonhava ter inspiração cristã, a Teresa Guilherme permanecia como uma forma desconhecida de poluição sonora e os confessionários eram locais onde as pessoas se ajoelhavam perante o padre e não perante Portugal inteiro, o olho do “Grande Irmão” existia apenas na velada e insistente bisbilhotice exercida ao nível das vizinhanças, sempre tão atentas a ruídos e movimentações estranhas que rapidamente se convertiam no mote para uma boa conversa na mercearia ou no lavadouro público, quantas vezes despoletando esse requintado processo de alta criatividade que é designado por boato. Com o Tony Carreira ainda a jogar ao berlinde na sua “aldeia perdida na Beira”, o José Castelo Branco a brincar com as Nancy’s divertindo-se a roubar o baton da mala da mãe e a Marta Leite de Castro sem sonhar sequer com a alta rotatividade da sua mudança semanal de “encostos” afectivos, as pessoas importantes situavam-se ao nível da rua, da vila ou da esco...