Um beijo no instante em que te encontrei… quando voava sobre a seara
Trato
a noite por tu; conheço-a há muito e até na intimidade desses recantos mais esconsos
que parecem ter nascidos imunes ao luar.
Gosto
da noite.
Sento-me
com ela no sossego do sofá; a televisão desligada, uma música tímida e sem
palavras, um chá de jasmim, o caderno de capas vermelhas que o Carlos me
ofereceu no Natal…
E
ali naquela intimidade e cumplicidade de amigos, eu e a noite vamos tecendo
palavras que escrevo ao ritmo lento de quem dispensou o relógio e se espreguiça
à vontade pelo tempo.
Já
estou definitivamente em casa e não há quaisquer viagens para fazer.
Partilhamos
segredos…
E
a noite sabe há muito como te chamas, que o tanto que és e que eu amo, há muito
mais tempo conhece dos sonhos que lhe fui contando.
Ontem,
já depois de falar contigo, estava eu e a noite nesta costumeira tertúlia, mas com
direito a biscoitos (doces mas sem açúcar), quando ela me contou uma história:
-
Era uma vez um pássaro de asas soltas que vivia algures no cimo de uma árvore
que benzia de sombras uma seara da planície. Saía todas as manhãs de primavera,
cantava uma desgarrada com os grilos, dava os bons dias às papoilas… e fazia
tudo isso ao jeito de quem vasculha o mais íntimo e melhor da vida para poder
encontrar o seu grande amor.
Adormeci
entretanto e já não ouvi o resto da história mas esta manhã acordei com a
certeza de ter sonhado contigo e de te ter dado um beijo…
Um beijo no instante em que te encontrei… quando voava sobre a seara.
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