domingo, 22 de novembro de 2020

Hoje, e uma imensa viagem

Quando terminei de ler as mais de 700 páginas do romance Ulisses, de James Joyce, pude aperceber-me do tanto de “viagem” que cabe num dia apenas, para ser mais preciso, nas 19 horas do dia de Leopold Bloom, personagem principal.

O dia desse romance, 16 de junho de 1904, é, inclusive, celebrado todos os anos, na Irlanda, em Dublin, conhecido, naturalmente, como o Bloomsday.

É um facto indesmentível, de que há ruas que são mares, e gente que é cais aonde se aporta pelos abraços e pelos olhares.

Ruas e gente, espaço e corações que cabem na mais ínfima unidade de tempo, só para nos fazerem acontecer.

Tudo isso por entre o restolho de tantos e tantos desertos.

Para além disso, entre as consequências de crescer, está a perda da dimensão dos espaços, que nos fazem sentir que as salas não são assim tão grandes, e que os armários não são, afinal, tão inacessíveis, juntamente com o aumento da dimensão das pessoas que nos “fizeram”, porque conseguimos vislumbrar que uma simples fatia de pão com manteiga, dada à hora do lanche, é um oceano de beijos de amor, ou que um sim ou não, no momento certo, são pistas fundamentais para chegar ao tesouro.

Ontem, ao passar no “meu jardim”, em Vila Viçosa, cruzei-me com uma rosa vermelha que gritava por cima de todas as outras flores, ressoando, sem dificuldade no silêncio da gente confinada.

Entre uma casa e outra, numa rua apenas, a viagem onde as rosas são sereias e as laranjas, anémonas que sorriem por entre os corais.

Lembrei-me de Ulisses, de mim e da minha gente, e de quão desprezível é o tempo e aquilo que dele guardei, se a vida é, afinal, um dia apenas, e a verdade é esta dimensão do espaço e das pessoas que o hoje me oferece.

“Apega-te ao agora, ao aqui, através do qual todo o futuro mergulha no passado”.

Tem absoluta razão, Mr Joyce.

sábado, 14 de novembro de 2020

Uma outra face do tempo


O sábado amanheceu com o semblante de quem chora, e eu, ainda algo ensonado, enfrentei-o na face das ruas molhadas da minha terra, mas sem o mínimo tom de ressentimento.

Daqui a pouco, pelas treze horas, estarei confinado em casa, mas jamais tomarei esse facto como uma traição do tempo, de Deus, ou do terreiro grande aonde brinquei.

Era no sábado que íamos às compras, sem máscaras, reconhecíamos as pessoas pelo rasgar mais ou menos recortado do sorriso, e nunca mantínhamos uma grande distância, porque tal seria sinal de mal querer.

Depois de ter colocado todas as compras no cesto e de ter feito a conta em papel manteigueiro, com números desenhados a lápis e a prova sempre ali ao lado, o Senhor João de Deus, dava-me uma meia dúzia de amêndoas. Sem qualquer preocupação de assepsia, e de mão para mão.

- Toma lá rapaz, para te adoçar o caminho.

Sabiam muito bem, até porque eu já tinha tirado uma pequena lasca de bacalhau, que estava junto à enorme faca que o cortava às postas, e ia com a boca demasiado salgada.

No caminho, antes das compras ou no regresso a casa, cumpria-se o mandamento que os pais e os avós nos repetiam até à exaustão:

- Ao passares pelos primos ou pelos tios, tens sempre de ires cumprimentá-los com um beijo.

Todos apreciavam esse gesto, e faziam-no sentir com um afago na cabeça, ou então uma moeda reluzente com alguns tostões, para podermos comprar rebuçados envoltos em cromos da bola, ou chupa-chupas de caramelo, na “Sopa dos Pobres”, a caminho da escola.

Mais tarde...

Regressava a Vila Viçosa, e às mesmas ruas, para um pequeno fim de semana, e a Marta, que era mínima, dizia aos pais, os meus amigos Manuela e José Maria, que queria ir ao café, porque estando o Quim, a conversa seria interessante.

Ao lerem conversa interpretem como “palhaçada”, e esse momento após o almoço era do melhor que tinha o sábado.

Hoje...

Enfrento o sábado sem beijos, sem abraços, com máscaras e com distâncias, sem “conversa” e sem amigos no café, mas sem qualquer tipo de ressentimento.

Porquê?

Porque tudo isto é expressão do mesmo amor e do mesmo querer.

O amor abarca todas as faces do tempo, e este sábado, é apenas uma outra, diferente, nos antípodas daquela, feliz e escorreita, dos dias das compras e do café.

Amar como quem cuida, e hoje, ficar em casa, no silêncio opaco e órfão de gargalhadas, é a “conversa” mais interessante.

Lições?

Talvez seja importante viajarmos até às faces opostas àquelas que apontamos como regra, quer sejam do tempo ou da vida, levando na algibeira, e sobretudo na alma, a linguagem, e sobretudo a missão, do mesmo amor.

É preciso fazer desmoronar as convicções cegas e as perceções, assumindo a necessidade de reaprender a ler a vida nos antípodas daquilo que já fomos e que julgámos eterno.

 

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

O meu pai faz hoje 80 anos...


O meu pai faz hoje 80 anos, e digo faz, porque no contexto assumido de um amor, não existe nada de ser e de acontecer, que deva conjugar-se no passado ou no condicional, interrompendo o ímpeto de qualquer sonho.

Para além da firme convicção de que está vivo… nos meus passos.

Há muitos anos, e quando ainda era adolescente, o meu pai não pôde ir a Lisboa, para acompanhar a imagem de Nossa Senhora da Conceição, porque não tinha sapatos com o “mínimo de dignidade”.

Foi ele, pelo seu esforço e pelo seu trabalho, quem conquistou este benefício de nós podermos andar “devidamente calçados”.

Por mérito total, e enquanto eu viva, será ele o “inspirador” de todos os meus passos.

O meu pai persiste na liberdade que “assassina” os estratos sociais, e nos destapa o sol.

Algures no verão passado, sentado numa esplanada de Vila Viçosa, e numa discussão política, alguém argumentou que “pelo facto de eu ser originário de um estrato social superior ao teu, não tens o direito de duvidar das minhas convicções”.

O meu pai, subsiste, e é esta forma livre de afrontar e baralhar os destinos, rasgando sem pudor, os véus da previsibilidade com que tentam ofuscar-nos os amanheceres.

Chamemos-lhe, se quiserem, a genética dos inconformados e dos rebeldes, a respirarem a liberdade por todos os seus poros.

O meu pai vive, e viverá sempre, no meu modo de sorrir.

Teremos todos, mil maneiras de encarar um determinado acontecimento ou circunstância, mas eu poderei sempre reduzi-las a duas principais: a da desgraça e a do meu pai.

E esta, que eu puxo, incessantemente, para os meus dias, sobretudo os mais inquietos, é a raiz daquela tranquilidade e do sorriso que vocês possam reconhecer em mim.

Num Natal de um ano que não consigo recordar com exatidão, o meu pai estava desempregado e não abundavam presentes na noite que passávamos na cozinha da casa da Rua de Três, mas eis que ele, pela varanda, subiu ao telhado, e à meia noite, fez com que os poucos chocolates nos caíssem diretamente da chaminé, envoltos, é certo, nalguma fuligem que encontraram pelo caminho.

O melhor da vida é, sem sombra de qualquer dúvida, aquilo que sentirmos ser bênção do Céu, mas com a sofisticação dos nossos “telhados”, às vezes tão demasiadamente cobertos, só conseguimos vislumbrar muito pouco desse tanto.

O meu pai, vive, e viverá sempre nesta fé de quem se “destapa” a Deus e ao Céu, não deixando apagar a chama de qualquer Natal.

Por mais alta e impossível que seja a chaminé.

O meu pai faz hoje 80 anos, mas eu também mentiria se não vos reconhecesse que choro com a saudade de não o ter aqui, sentindo que o seu olhar me faz sede, e que a ausência dos seus beijos são a fome que emerge com a sede, por entre os trilhos de um deserto, algures por aí.

Presumo que seja coisa própria dos Homens, neste longo processo de aprendermos a encarar o Céu, porque eu rezo ao meu pai, todas as noites, e com esperança, a olhar a lua.

sábado, 24 de outubro de 2020

Resistir


Há ruas nascidas para serem rios de abraços, e olhares, cúmplices de abrigos, que, sem reservas, e de forma gratuita, nos oferecem uma casa, com janelas, aonde possamos morar.

As palavras correm com a generosidade fluida das fontes, e nós guardamo-las em cântaros de barro, ao lado do mel, porque da mesma raiz nasceram para virem matar-nos a fome e a sede.

Coabitam elas, e o nosso saciado sossego, em poiais de laje, erigidos como altares no recanto da casa de onde se avista a lareira, que se acende muito cedo, de madrugada, com restos de azinho, e nos retira as dores ao mesmo tempo que nos aquece o pão.

Em dias eternos, em que nem a chuva consegue distrair-nos, e roubar-nos o sol.

Tentei ser fiel à minha terra, Vila Viçosa, partilhando convosco o tanto que ela é para nós.

Não consegui, por pura insuficiência de jeito e inspiração.

Será muito mais do que tudo isto.

E por este tempo difícil em que as ruas quase secaram, os olhares se “enfeitam” de interrogações, e as palavras, filtradas por máscaras tricotadas pela razão, esgrimem argumentos com um vírus em prol da esperança...

Somos muito mais do que meia dúzia de milhares de almas com assento em praças que nasceram para ser coração e nascente de rios de abraços, somos a fé, no seu estado mais puro, desenhando o sol sobre todos os instantes, tal qual o fazíamos sobre folhas brancas de papel, quando ainda eramos crianças.

O tempo é vulnerável, e tanto avança como recua, mas nós, muito mais valentes do que ele, voltaremos em breve, iguais na génese, mas bem maiores e mais fortes, naquilo que de nós se vê.

Há castelos que nasceram sem outra qualquer razão, que não seja explicar a quem chega, esta pedra e esta raça de que somos feitos: resistir.

sábado, 17 de outubro de 2020

Não existem flores maiores que a esperança


 

O meu saudoso professor de Português, Padre João de Deus, explicava-nos a diferença entre o romantismo e o realismo, nas aulas do 11º ano da Escola Secundária de Vila Viçosa, socorrendo-se do exemplo de um casal.

Em ambiente romântico, e em plena lua de mel, passeavam os dois no campo quando ele a alerta para o perigo de uma poça de água.

- Minha flor nascida do melhor do tempo, procura o nenúfar que te segure o passo para não molhares a beleza desse pé delicado.

Trinta anos depois, já imbuídos do melhor realismo, volta o casal ao mesmo sítio, e a mulher recorda:

- Lembras-te desta poça de água e da frase tão bonita que então disseste?

- Epá, deixa-te lá de parvoíces e não ponhas os chispes na água, porque ainda acabas toda encharcada.

Os dias enfeitados de flores, frente a frente com o pragmatismo absoluto, revestido de alguma rudeza, parecendo-me a mim, que também aqui, nos estilos literários, tal como na vida, que a virtude se encontra no centro.

No centro e no bom senso.

Durante os meses de verão, não existiu criatura que não tivesse virado os presuntos para o mar, fotografando essa visão marítima da nudez dos calcantes, para informar nas redes sociais o lugar onde se encontrava.

Perfeito.

Mas agora que há uma aplicação que poderá ajudar ao próprio e aos demais, protegendo-os da infeção por COVID-19, aqui Del’ rei porque não vá alguém descobrir por onde andaram.

Pois...

Não há dúvida que o romantismo é a moldura mais apetecível para nos apresentarmos aos demais, ao melhor estilo “Cristina Ferreira no país das maravilhas”, mas então não é que a vida é mais realismo do que romantismo? Não é que existem vírus que andam por aí e matam a gente? Não é que esses vírus até atacam nas salas de espera da morte aonde se despejam os pais para que possamos ir “descansados” mostrar os pés para os areais?

Este momento exige andar de braço dado com o bom senso e ter em vista o bem comum, ainda que se nos belisque a possibilidade de andarmos na rua a mostrar o resultado do botox nos lábios e dos aparelhos nos dentes.

O romantismo?

Leiam os poetas, passeiem no campo, vejam a lua da janela, e convoquem a esperança e o sonho para os dias que virão.

Não existem flores maiores que a esperança.

sábado, 3 de outubro de 2020

Não existe viagem que não seja para chegar a casa…


Quem é do campo e desfrutou de andar descalço, sabe ler os instantes em que a terra reza, para que o Céu, que em si mesmo é generoso, possa acudir-lhe sem demora, e matar-lhe a sede.

De um modo suave, com a tranquilidade própria de uma sexta-feira à tarde, intrometo-me neste diálogo, cruzando o altar informal que é o Alentejo.

Para chegar a casa, porque não existe viagem que não seja para chegar a casa, ainda que às vezes, os nossos passos se dirijam para os antípodas do sítio que tem um telhado a proteger-nos o leito, as pantufas e a escova de dentes.

A nossa morada anda rabiscada em tantos e tão díspares lugares, sendo imperioso, tantas, e tão dolorosas vezes, irmos até lá para que se dissipem as dúvidas e afinem as coordenadas.

Tenho inveja do gato e saudades dos dias sem máscaras, e de quando os lábios partilhavam o seu deleite, ou não, com as palavras, embrulhando-as com a festa ou o vazio que a alma lhes ditava.

Tenho saudades do bom senso, da lucidez da partilha, e dos traços de humanidade afinando abraços para lá das diferenças que nos fazem... e que tão bem nos fazem.

A liberdade agoniza nas “fortalezas de intolerância” do extremismo ideológico.

Cruzando o altar, intrometo-me ainda mais na prece da terra e rogo ao Céu, que venha depressa matar-me a sede destas tantas saudades.

E sem demora, entendo-O na mensagem: as mãos que rezam, verdadeiramente, são as que sabem carregar tijolos, construindo abrigos para a água que escorre dos beijos, das palavras e do olhar de alguém, em albufeiras privadas à superfície de cada instante.

Continuamos a morrer de sede, porque estas águas não se retêm, e apenas passam, escorrendo por nós até não sei onde.

Chego finalmente a casa, abro a porta e beijo a minha mãe.

As saudades do meu pai doem tanto nesta hora de chegar...

Mas tenho beijos que guardei, milhões de beijos com que vou matando a sede… e alimentando a esperança.

E invejo os gatos.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Intermitências de “Amigos de Alex”


A nossa geografia, que é gémea siamesa da nossa história, é a soma das coordenadas de todos os lugares que nos inventaram, com destaque, mais do que legítimo, para aqueles onde fomos felizes. E as memórias que desse chão guardamos, desmentem a aridez do pouco, que, às vezes, se vê, elevando-o ao estatuto de templo sagrado.

Hoje, durante todo o dia, fui acompanhando, de forma intermitente, o programa da RTP1 sobre jardins históricos, transmitido a partir do Paço Ducal de Vila Viçosa.

Fiz a foto num desses momentos, não porque o cantor esteja algures entre as casas das pessoas, escravas ou não, que serviam o duque, e mais tarde, o rei, mas porque ele está situado exatamente no ponto que unia a sala 7 com o acesso ao bar e às salas do pavilhão que abrigava a sala de professores da minha escola secundária.

O edifício à esquerda era o ginásio, inventado a partir do picadeiro do Paço, e ao fundo vê-se o portão por onde entrávamos. O lago não existia, porque foi aqui instalado nos anos oitenta, já na transformação do espaço a Museu dos Coches.

Assim, por debaixo do que hoje se vê, consegui vislumbrar a Miss Tokalon, que era mais vamp e ousada de todos nós, a desfilar, e a cruzar-se connosco quando íamos até ao bar onde o Sumol de ananás era uma miragem.

Aí, embora a pretexto de cachorros pincelados de manteiga com uma trincha, ou uma torrada de papo-seco fabricada numa máquina, nunca antes vista, em que o pão se punha num dos lados, e saia no outro, aquilo que verdadeiramente saboreávamos era a liberdade.

Cada conversa era uma jura de mudança, cada sonho era um compromisso, cada vontade uma cor e uma viagem... e existia a fé, o riso, os abraços, a confiança, para além do privilégio de, mais tarde, podermos repousar, sentados, sob o abrigo do olhar dos nossos pais, que, sabemos hoje, eram a nossa verdadeira casa.

Confrontados com as primeiras paixões, surpreendíamo-nos com a sua intensidade, questionando-nos sobre o que seria aquela “doença”.

E atentem ainda eram só uns “resfriaditos”.

Víamos os aviões e tentávamos tomar-lhe a melhor sorte, sempre que pareciam subir, e, nunca, nem por um brevíssimo instante, suspeitámos que esses dias, que pareciam tão monótonos e banais, eram dos melhores que a vida nos poderia oferecer.

Um tempo que foi proteína rica de encontro à carne do muito que hoje somos.

A minha geografia, delimitada hoje pela memória, e com varanda para a saudade... dos sumários, das sebentas, e até das aulas de desenho, que eram as que mais detestava, por manifesta falta de jeito.

Num programa de televisão, o jardim do Paço Ducal, chão de Reis com uma intermitência, breve, de “amigos de Alex”, por onde eu andei e o dia, hoje, vagueou numa rebeldia com aromas de Pink Floyd ou de Chico Fininho.