sábado, 9 de dezembro de 2017

Os beijos que escrevem livros…


Enquanto andamos pela Praça a brincar às escondidas ou aos Jogos Sem Fronteiras, um tio que passe por ali, e para quem corramos a saudar com um beijo, talvez puxe do porta-moedas, guardado ao lado dos cigarros Kentucky ou Definitivos, e nos dê uma moeda de dez tostões que guardaremos no bolso até acabar a brincadeira.
Nas padarias vendem broas de azeite e de manteiga, e eu prefiro as primeiras; sendo quase certo que a dita moeda castanha saltará do meu bolso para a gaveta do balcão que a mulher de bata branca vai abrindo ao ritmo da saída dos papos-secos e dos pães de quilo e meio quilo.
Assim se aguenta a tarde até à hora do jantar, quando a mãe abrir a janela para nos chamar:
- Oh Zé Artuuuuur.
Ao ouvir chamar pelo meu irmão, eu já sei que a duração do "ur" é diretamente proporcional à pressa que devo ter, sabendo assim se deverei ou não correr.
Depois do jantar virão as tias e as avós passar o serão, e nós já de pijama, estafados pela brincadeira e com os dentes já sem rasto de broa, pedimos para adormecer nos seus colos, tapados pelos xailes.
Nunca saberemos qual o final da história que nos contam pois só acordaremos no outro dia, pela manhã, desconhecendo também quem nos ajeitou entre os lençóis e nos deu um beijo.
No salão dos Paços do Concelho de Vila Viçosa, onde hoje apresentarei os "Girassóis" aos meus conterrâneos, as janelas têm vista para a Praça, e talvez eu não resista a espreitá-la, afastando as portadas de madeira pintada de azul.
Não sei se sentirei saudades, mas é muito pouco provável, porque as histórias todas do livro cumprem a genética desses colos ao serão, em que o calor era dos peitos e das palavras, muito mais do que dos xailes.
Talvez o meu olhar "varra" a Praça, mas já sem qualquer pressa, que a idade, parecendo roubar-nos tempo, ensina-nos a distende-lo e a saboreá-lo com ganas de infinito.
As moedas já não saltarão nos bolsos, porque “ter” será sempre um verbo transitório, um detalhe de logística posto ao serviço do cumprimento das mais férreas e doces vontades.
E as broas?
O doce estava nos beijos que as geravam, muito mais do que no açúcar da massa com que as moldavam.
Em Vila Viçosa, onde as ruas têm tetos de laranjas, e onde cada recanto ressuscita os nomes dos donos dos beijos que escrevem livros.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

As paredes encarnadas...


Por mais confortáveis e elegantes que sejam as gavetas das cómodas e os armários, para a vida só contam os instantes passados na cumplicidade do sol... e do luar.
Para comprovar esta minha convicção, desmentindo simultaneamente os que apelam ao hipócrita recolhimento de si mesmos em mobiliário mais ou menos sagrado, apertem o cinto e venham comigo ao norte numa viagem de trabalho.
Na noite gélida do Porto, subindo a escada de acesso a um dos meus restaurantes favoritos, o Mendi, de comida Indiana, apanhei do chão uma camélia caída algures de uma varanda pela força do vento ou da chuva. Era uma flor "de cabeça para baixo" nos degraus já muito gastos de uma velha escada, mas, uma flor é como um Homem e nunca deixa de o ser, nem mesmo quando morre.
Apanhei-a, pu-la no bolso do casaco e deixei-a ficar por ali entre as chaves, enquanto comia o de sempre: uma Samosa de carne e outra vegetariana, o Murgh Karahi Masala acompanhado de arroz branco; tudo acompanhado por um Lassi salgado.
As paredes pintadas de vermelho, a cor mais especial para os hindus, celebram a sensualidade, a pureza e a fertilidade. Entre garfadas, entretenho-me com as sombras que as velas desenham no recanto rubro à minha frente.
No dia seguinte, já pela hora do almoço, e depois de terminado o trabalho, estou em Gaia, e não evito espreitar ao longe uma nesga do mar Atlântico.
Entro no carro e desço a encosta até à esplanada onde o saldado bater das ondas me adoça a bica rápida, mas solarenga.
Definitivamente, o mau tempo também oferece flores, e o doce sabor do café, é dádiva do sol por via dos pensamentos que nos sorriem desde dentro.
O segredo é não fugir à chuva e ao frio que às vezes turvam o luar, e jamais negar o apelo do sol para um abraço recebido junto ao mar.
Juro-vos que é por aí que vou, cantando, alegre, com a liberdade a tiracolo. E mesmo que um dia me sinta no claustrofóbico incómodo de um espaço fechado, juro que direi não às “encíclicas” e imitarei os Indianos, celebrando a vida como quem pinta as paredes com versos em tons de encarnado.

 

sábado, 25 de novembro de 2017

A árvore que namora com a serra


Na auto-estrada um, no sentido Lisboa Porto, do lado esquerdo e quase a chegar ao nó de Torres Novas, há uma árvore “empoleirada” no cimo de um pequeno monte, que há anos namora com a Serra D’Aire e Candeeiros, ali mesmo em frente. Sempre que a primavera escreve versos de urze e giesta, pela encosta acima, ela responde ao cortejar da serra, cobrindo de verde a sua paixão. Chorará depois, bem mais tarde, e folha a folha, quando Dezembro lhe desmanchar definitivamente a esperança de que seria este o ano que lhes “mataria” a distância.
Gosto de entender a linguagem das árvores, sentir o seu abraço distendido e honesto às horas que passam, e prometi a mim mesmo que um dia escreveria sobre este amor tão grande, mas tão impossível quanto o do sol pelo luar, ou o do norte pelo sul no contexto de uma qualquer hipotética, mas irresistível, atração polar.
Mas talvez um dia o vento sopre de um modo tão forte, que a árvore e a raiz possam voar finalmente sobre a auto-estrada, entregando-se no beijo que a sua seiva vai sonhando, ano após ano.
Rasga-se e perde-se a terra do nosso conforto, destrói-se a pose imperial, e, dirão alguns que foi tudo uma imensa tragédia, vendo os seus troncos e folhas pousados sobre os parágrafos de urze e giesta.
Às vezes, aquilo que se vê tem tão pouco do muito que se sente.
A linguagem das árvores é igual à dos Homens, em tudo, e também na vontade que desenha estes instantes de condor, antídotos da distância e da solidão.


(Agradeço a foto ao meu amigo Fábio Almas. Os dias nascem e morrem mas o sol insiste em fazer-nos acreditar.)

sábado, 18 de novembro de 2017

Paralelos ao sol


Quando caminhamos paralelos ao sol descobrimos infinitas linhas informais que alinham os nossos passos com a melhor “caligrafia” do sonho e da vontade. Nus, sem roupas, compromissos ou cintos que nos “atem”, somos apenas nós e a nossa história.
Tempero a manhã fria com o aroma do café que pinga, paciente, desde o filtro de papel e a cafeteira de vidro. Para lá da janela, o vento vai, aos poucos, roubado o ouro que o Outono ofereceu a um velho plátano, enquanto o Atlântico se mantém convictamente azul entre a curva da Caparica e o Cabo Espichel.
Calei a rádio. Já não tolero o relato dos banquetes dos poderosos sobre a dolorosa e jazente morbidez da gente, famosa ou não, já sepultada ou em vias de o ser.
A mediocridade dos intérpretes não acompanha a elevada expectativa dos entusiastas e cegos militantes das ideologias, e eu sinto desprezo pela patética figura destes últimos na hora de defenderem os dejetos, reconhecendo-lhes um “indiscutível” valor, aproveitando para, de caminho, cuspirem sobre a liberdade e a justiça que a sustenta.    
Um Homem poderá parecer maior se tentar esconder-nos o sol para que nos foquemos na sua sombra distendida sobre as colinas, mas o que restará dele perante o cansaço dos efeitos especiais e dos jogos artificias de luz?
Nada, ou muito pouco, sobre a aridez dos caminhos que definem, definitivamente, a ilusão.
A fama é volátil e depende do hiato de luz derramado sobre a dor e a pequenez.
Apenas o coração permanece, dentro do corpo e deste olhar nu que mira o Outono e navega sem medo nas linhas que o sol define sobre o espaço… e o tempo.
Sou eu, o sim, o não e a minha liberdade.
 

(Agradeço a foto ao meu amigo Gil Reis)

sábado, 11 de novembro de 2017

Gosto muito quando a noite põe um vestido encarnado


Gosto muito quando a noite põe um vestido encarnado…
Nas estradas de pó do deserto de areia, ou nas praças também desertas das cidades a que a hora roubou a gente, erguem-se imponentes pirâmides de luz com vértice de encontro ao céu estrelado, escadas informais por onde sobe o olhar e o sonho, sepultadas, definitivamente, as dores e o cansaço.
Não importa nunca o nome das estradas, das ruas ou dos rios…
Tejo, Nilo ou Sena, são irrelevantes detalhes das águas que correm soltas, sem cessar, cumprindo-nos a vontade e levando sem retorno, as mágoas, como quem devolve o sal ao mar.
Na esquina de cada segundo desses ocasos rubros tingidos pela paixão, eu construirei um palácio de pedra, gigantesco, como quem eleva aos altares as coordenadas do destino traçadas sobre o mais improvável chão.
Gosto muito quando a noite põe um vestido encarnado…
Para comprovar esta agonia dos impossíveis, se acaso mais alguma prova fosse precisa, sempre te direi que um abraço teu consegue até desmanchar o tom de enigma que mora no sorriso da Mona Lisa.
 

(Agradeço a foto à minha amiga Carla Antunes)

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Vítor


Debruçadas nos parapeitos das varandas rasgadas sobre a ousadia, as palavras dos poetas, íntimas dos cravos e das sardinheiras, esperam, incessantes, por uma voz que as beije e as faça voar com os pássaros, dobrando sem medos, as esquinas de todas as ruas.
Talvez a voz se aproxime quando a guitarra já tiver acordado o coração, e a saudade, irrequieta, já nos tiver salgado o rosto, colando-nos à pele a fome dos abraços, bem mais dolorosa que a sua homónima relativa ao pão.
Quantas palavras de tantos poetas correrão então pela cidade, e quantos rostos, corpos, trejeitos, quanto choro, riso, quantas gargalhadas, o gesto igual, normal, anormal, diferente… tudo espreitará no palco, que é o que mais se assemelha a uma rua, por poder ser a casa de toda a gente.
Vítor é a arte que resgata do silêncio as palavras dos poetas, e é a poesia toda: dita, respirada, soletrada, mastigada, deglutida, incontida, de corpo inteiro e despida de medo e preconceito.
Como o eco doce que nasce de um incansável amor, nós seremos sempre o seu aplauso, esse músculo cardíaco que bombeia sangue e oxigénio na vida do ator.
Vítor de Sousa, muito obrigado.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

O homem e a montanha


Numa manhã de Outono, o homem saiu de casa muito cedo, abrigando o corpo do frio, e apoiando-se no bordão de tudo aquilo que já viveu no tempo que enfeitou de rugas a sua idade.
Subiu a montanha à sua frente, devagar, a passo curto, conversando, em silêncio, com as ervas do caminho, enquanto o sol penteava o horizonte usando todas as cores que moram na claridade.
Os bolsos grandes, de um e outro lado do fato, guardam pedras colhidas aqui e ali, búzios da terra que contam a história da estrada e do caminheiro.
É forte a tentação de olhar para trás, mas resiste, porque ele sabe que a verdadeira dimensão de um homem é o destino que assume ter à sua frente.
Mais um passo, outro... e finalmente, o topo.
Ali, o vento sopra versos que aprendeu com as árvores e os pássaros, o horizonte espreguiça-se em novos dias para caminhar, e as nuvens, essas que o povo diz trazerem novas de Alcácer nas manhãs da esperança, são os gestos de um céu que se curva só para nos vir beijar.
Mais logo, à noite, as pedras do bolso e o bordão avivarão a memória que sentará com o homem, à lareira, todas as coordenadas de um inédito chão.
Mas, denunciado pela foto que nos enlaça, está um detalhe essencial da história deste dia árduo, mas inteiro.
O homem caminhou sempre envolto pelo abraço maior, a sombra do seu companheiro.


(Agradeço a foto ao meu amigo Paulo Nande)