sábado, 19 de agosto de 2017

O amor enleia-se no fio branco das rendas


A primavera de 1981 foi o período em que a minha mãe produziu mais peças de crochet.
Apanhava a automotora pela uma da tarde na estação de Vila Viçosa, apeando-se duas horas depois na Comenda, já muito próximo de Évora.
Regressava a casa no autocarro das dezassete, numa viagem de cerca de uma hora.
Todos os 27 dias contados a partir de 19 de Março, aquele em que fui submetido a uma cirurgia na sequência de uma apendicite que acabou em peritonite.
Pelo menos, três horas de crochet por dia, porque existia ainda o tempo das esperas.
O verão de 2017 segue quente no Minho, e eu agradeço a brisa fresca do percurso até à fonte do Gerês. A primeira toma de água é às sete e meia, e eu vou sozinho com dois copos na mão, que o meu dorme sempre por lá na prateleira da direita, no número 41.
Depois, mais duas tomas de água, o gelo e os ultrassons no joelho da mãe, o jornal, os livros, a bica, a conversa, a raspadinha com mais ou menos sorte, a escrita, um ou outro e-mail...
Juro-vos que se eu pudesse, faria passar um rolo compressor sobre o tempo, distendendo-o e prolongando a estadia por ali, no sítio onde os olhares nos abraçam mesmo quando os braços repousam.
O amor é o berço e a casa dos Homens, fluindo de modo tão livre, espontâneo, e acelerado, que é impossível reconhecer-lhe o sentido num determinado instante. É ato desnecessário, mirarmo-nos ao espelho da água das fontes, porque jamais saberemos se é de recetor ou emissor, o estatuto que o amor nos cola aos gestos e às palavras. Ou será de ambos?
Para nos fazer crescer, o amor é mais importante que as proteínas da carne, e contra as agressões exteriores, é mais eficaz do que as vitaminas.
O amor não vive de impulsos, é sereno, mas também nunca se desarruma.
De tarde, no Gerês, e neste verão de 2017, apreciávamos o sossego, mesmo sem sesta, repousando sobre os parágrafos de uma conversa desprovida de qualquer pressa, acariciando a face na almofada do riso das melhores memórias... Enquanto a minha mãe fazia crochet.

Na nossa casa, definitivamente, o amor insiste enlear-se no fio branco com que se tecem as rendas.
 

sábado, 12 de agosto de 2017

As férias despenteiam o tempo…


As férias despenteiam, definitivamente, o tempo, possibilitando que, por debaixo da habitual cortina da franja e da rigidez formal da risca ao lado e da marrafa, reencontremos partes de nós que andavam perdidas.
Suspendemos a pressa e a norma, como quem dispensa o pente ou a escova, encerrando-os numa gaveta, e com a cúmplice informalidade do “vento”, revolvemos as memórias, afinando a nossa história pela verdade; tomamos o fresco da manhã nas margens das ribeiras que nos servem de espelho, reabrindo e reentrando nos espaços esquecidos que laqueámos por amor e primavera, mas que acabámos por descurar e abandonar ao pó e às agruras húmidas de um inverno mais ou menos tortuoso.
Quem ama "aluga" muitas salas dessa casa imensa que traz ao peito, espaços que regressarão um dia à sua posse, sabe Deus em que estado de conservação... e ânimo.
Nas férias, descalçamo-nos e beijamos a terra com os pés soltos, saboreando sem reservas e a cada passo, o doce prazer da liberdade. Sentimos intensamente, e a três dimensões, o caminho por onde queremos ir.
Assim, as férias despenteiam o tempo por entre o coma profundo do despertador, não apenas para que descansemos o corpo nos espreguiçares mais ou menos secretos, mas também, e sobretudo, para que o Outono não nos encontre incompletos.
Com a certeza a crescer, verão a verão, de que apesar de despentearem o tempo, as férias não deixam que qualquer minuto se perca por cair no chão.
 

(Agradeço o desenho ao meu sobrinho Luís)

sábado, 5 de agosto de 2017

As árvores são irmãs dos Homens…


O lenhador, de barba cerrada e o suor a dar-lhe um brilho húmido ao peito e aos braços, recolhe o último pedaço da árvore que acabou de cortar.
A raiz abandonada fica imersa no barro vermelho que o vento vai pulverizando, aos poucos, encosta abaixo, até ao rio, enquanto os troncos repousam finalmente em forma de mesa no recanto mais nobre de um salão qualquer.
As árvores são irmãs dos Homens, e só respiram e vivem quando unidos à sua raiz, sentindo a brisa nas folhas e nos troncos, sem disfarces, sem plaina e sem verniz.
No teatro, quando as luzes do teatro se apagam por inspiração de Molière, e a cortina se abre ao som da música, quantas peças ficam suspensas por um par de horas, nas plateias, enquanto os atores oferecem no palco, o corpo à arte.
Há gente que mora à boca de cena, mas do lado de cá, da suposta verdade, debitando as deixas que criou para si, personagens sonolentas, sem interesse e sem verdade, "mesas" e "cómodas" representações, de troncos que abandonaram as raízes ao pó da montanha.
Porquê?
Porque continuam a ser sucesso de bilheteira, que a gente premeia o que quer ver, e quase sempre despreza a autenticidade.
A diferença desafia e a globalização é o amorfo e cinzento repouso onde até o pensamento se agacha.
O lenhador bebe um gole de água fresca depois de ter oferecido generosamente as mãos à fonte, e repousa o corpo forte, mas dorido, sentando-se sobre a raiz amputada da face da árvore.
As montanhas estão repletas de túmulos de árvores e de gente que se demitiu de o ser.
A hipocrisia contrata o lenhador.

 

 

domingo, 30 de julho de 2017

As cidades falam de nós


Mais do que as linhas traçadas pelos arquitetos ou as pedras que o mestre pedreiro alinhou para lhes cumprir a forma e oferecer coerência, as cidades guardam, fiéis, a nossa história, sendo livros de memórias impressos a três dimensões, parágrafos resistentes ao tempo e ao fogo.
A toponímia cede lugar aos beijos que a alma inventou, as praças não têm estátuas ou fontes, guardando os olhares que condenaram a solidão ao cais da partida, e as pontes, sobre os rios ou as pequeníssimas ribeiras, são altares que preservam o culto dos abraços que nos fizeram mudar de vida.
As árvores conservam entre os frutos, as palavras que confidenciámos às suas sombras, as mesas são círculos de amigos à volta do café, das gargalhadas e da liberdade, e por muito que o sol o envolva de luz, persistirá dolorosamente triste, o chão que foi da nossa gente, e onde hoje apenas se pisa a saudade.
As cidades, mais do que tudo o que se regista numa foto tirada de manhã ou ao entardecer, guardam tudo de nós, sabendo que só o tempo tem esquinas, e não as ruas, esquinas “impostas” por nós na mudança que alimenta o tanto querer viver.
Por ti, eu jamais deixarei de cruzar o tempo, deixando à solta em todas as cidades, indícios bem marcados dos instantes em que, por um beijo, eu renasci.

 

sábado, 22 de julho de 2017

Os amigos


Os amigos interferem, definitivamente, com o tempo, distendendo-o na ausência, e encurtando-o nas tardes dos abraços.
Nestas últimas, nós usamos as mãos e a vontade para promover pregas nas horas, tentando que os minutos não fluam tão rapidamente no seu percurso ao encontro da noite. E essas pregas são bancos informais situados no meio dos jardins e dos olhares, refúgios à sombra das palavras que têm as silabas coladas com açúcar.
Os amigos também rasgam janelas nos instantes opacos, desassossegam o silêncio que dói, sendo inimigos das cortinas e dos biombos.
Os amigos têm o peito transparente, e o sol e a claridade, invadem, por eles, todos os segundos, atrapalhando-se às vezes, de um modo saudável, com as gargalhadas que têm raízes na alma e que andam à solta perfumando os lábios, que ganham por essa altura um irresistível tom de morango.
Os amigos são donos dos beijos que “descongelam” o tempo preso em muros que bloqueiam vias sem saída, abrindo, assim, avenidas de encontro ao mar e ao cais de todos os navios.
Os olhares dos amigos penduram flores das horas que parecem não ter muita graça, varrendo aquilo que não importa e que persiste nos dias. Os amigos podem não ter um sangue igual ao que nos corre nas veias, mas são quem melhor sabe aquecer e propulsionar o nosso, o que é infinitamente mais relevante no que à vida diz respeito.
Os amigos são azuis, amarelos, encarnados… de todas as cores, e merecem muito mais do que apenas um dia, porque a vida não tem hora marcada, e porque são, indiscutivelmente, os mais fiéis de todos os amores.

domingo, 16 de julho de 2017

O estado da nação


O estado da nação é, fisicamente, gasoso, envolto pela aerofagia dos líderes, perdão, dos chefes, na sua flatulência farta, no caso de estarem sentados no poder, ou da mais pestilenta ventosidade anal, no caso de tal não acontecer.
O estado de saúde é débil, de patologia crónica, com os “médicos assistentes” a mudarem sistematicamente de diagnóstico ou prescrição, pois assumindo a gestão do hospital, logo tratam de adiar, dolorosamente, as cirurgias ou algum tratamento mais caro ou radical.
O estado civil da nação é, definitivamente, solteiro. Todos a querem para “namorar”, ir a festas e aparecerem nas revistas, até para copular, mas depois, ao fim do dia, permanecerá sempre sozinha e sem qualquer compromisso sério e de facto, deitada à sombra dos plátanos em interação intima com a culpa, irmã que também viverá eternamente neste doloroso celibato.
O estado cognitivo da nação é de demência crónica, ali algures entre o vascular e o Alzheimer, em íntima ligação com o estado de dormência e sonolência da mais apática desistência de lutar.
O estado posicional da nação é de cócoras, tal qual o das suas finanças, e há tanto tempo, que a coluna já não consegue aguentar as dores de tão desconfortável modo de estar.
O estado confessional é laico, apesar do credo sempre na boca, e o estado de conservação também não é lá muito bom, pois persistem guarda-ventos nos palácios e nas catedrais, que impedem a entrada de um tempo novo, e possibilitem que voem para longe, o racismo, a xenofobia, o machismo, a homofobia, e tantos “pecados” mais.
Em termos de meteorologia pouco há para dizer, o estado é uma trovoada seca, sob a qual, afinal, tudo pode arder.
Mas, no meio de tudo isto, negro, que se vê, vale a alma que se sente, e que persiste, rubra, no peito de toda a gente. Rubra, e verde de esperança, da genética boa que nos fez, com um coração que de tão grande, permitirá sempre amar por dois, ou até mesmo por três.

 

sábado, 15 de julho de 2017

Quem brincou e falou com o sol…


Na Rua de Três, em Vila Viçosa, quando a mãe nos chamava desde a janela do primeiro andar, num tom alto que acentuava sempre a última sílaba para que a pudéssemos escutar no perímetro de trezentos metros entre a Praça da República e o Rossio, nós sabíamos que o jantar estava pronto.
Antes de irmos a correr para casa, pedíamos ao sol de verão que esperasse por nós, que não partisse à pressa, brilhando só mais um instante sobre as linhas do castelo ou do jogo que traçáramos na terra.
Mas talvez o jantar tivesse espinhas, por ser sexta-feira e os carapaus terem chegado pela manhã à banca da Dona Natalina, e o sol não tivesse qualquer oportunidade de esperar por nós, deixando em seu lugar, a lua, discreta e magnífica senhora da noite, companheira ideal para jogarmos às escondidas, brincando com as suas sombras.
Bem discreta e desaparecida andaria a brisa fresca, por essa altura de Julho, quando os pais nos deixavam brincar até mais tarde, mas nunca para lá da chegada do vizinho Cristóvão Grilo, que era estafeta e chegava no último comboio, trazendo as encomendas desde a estação num velho mas ruidoso carro de mão.
Quem brincou e falou com o sol não tem medo de nada que lhe possam trazer os dias.
Quem se refugiou nas sombras do luar, sabe que é daí que melhor se vêem as estrelas.
Quem nunca viu e abraçou o mar, pode conhecer-lhe a voz, escutando um búzio, e o gosto a sal, através dos carapaus que foram fritos para acompanhar a salada de tomate maduro.
Quem desenhou no chão, com a ajuda de uma vara, as linhas perfeitas de um castelo, não temerá jamais, o pó que mora nos caminhos.
Quem andou pelos serões, persistente, à procura da brisa fresca, conhece bem o valor da madrugada e da liberdade.
Quem acudiu ao grito da mãe, cantando o seu nome, sabe bem que as sardinheiras floridas não são aquilo que de melhor pode enfeitar uma janela alta, e conhece bem, definitivamente, o superlativo de amar.


Julho de 2017, Ponta Delgada, meia-noite e pouco sono, eu, sentado à janela a brincar com a lua e o mar. Eu, a tirar apontamentos da insónia.