sábado, 17 de fevereiro de 2018

O meu sono...


A minha história, trago-a presa à pele na memória dos amores, trago-a no rosto e no penteado, onde as algas e as rosas se prenderam, emergindo comigo na ressaca dos instantes em que fui até ao mais profundo de mim mesmo.
O meu sono, sempre que ocorre, é apenas aparência sobre o desassossego de agarrar e dar cor aos sonhos, porque os meus olhos fechados à claridade, não repousam, mas olham fixamente a inquietação que mora dentro do meu peito, tentando tomar-lhe a força e a vontade.
O mundo move-se por via da alma da gente que se inquieta, tal qual a música mais inspirada nasce da morte do silêncio às mãos do ruído moldado pelo desassossego do artista.
O certo e o errado respondem apenas à consciência, indiferentes às regras fúteis da moral vazia “eructada” por terceiros.
Em tempo de Quaresma apela-se à esmola, e sobressaem tantos que se enrolaram nas riquezas do universo, mas se esqueceram de juntar os mais elementares pedaços de si.
Transaciona-se o bem parecer sobre os véus ondulantes dos fantasmas.
A minha história foi mestra de tantas cores tatuadas na epiderme, e o meu sono... É vazio deixado à superfície pelos instantes em que falo comigo, como quem se procura, se acerta e acerta o passo na busca de novas cores.

 

(Agradeço a aguarela à minha amiga Maria José Bispo)

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Os malmequeres e o mar


Talvez não exista nada mais intensamente nosso, e tão Lusitano, quanto o assumido namoro dos malmequeres com as ondas do mar.
Portugal, na definição que lhe advém da alma, é o imenso denominador comum entre o campo e o oceano; duzentos quilómetros de intersecção entre um e outro, onde, contrariando o poeta, nem o mar e nem a terra acabam ou começam: vivem ambos, intensa e eternamente.
No alto de uma colina escutando o vento, eu vejo os malmequeres que reluzem imitando o sol, enquanto as ondas se espreguiçam languidamente em espuma, num cortejar constante.
E o vento, que escuta de um e de outro, o desejo, traz-me versos que eu guardo nesse bloco imenso e transparente que é o pensamento.
O desejo que nasce da alma e abraça o corpo, não poderá nunca ser pecado. Pecado, sim, é o juízo humano de distanciar a alma do corpo, separando irremediavelmente aquilo que Deus uniu.
Como as flores tão despudoradamente nascidas dos resquícios do fogo, os versos enaltecem a morte de todas as máscaras, e de como sobre as suas cinzas, guardadas numa quarta-feira, o amor é capaz de eclodir, verdadeiro, contrariando a voz taciturna de qualquer sibila que o ameaça.
As cinzas e amor, como este, perfeito, que une na Lusitânia os malmequeres e o mar; as cinzas e o amor celebrados esta semana no mesmo dia: uma modesta quarta-feira do Fevereiro que ora passa.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Um chá na lua


Algures pelos finais dos anos setenta e princípios dos oitenta do século passado, a taberna do primo "Ai - ai" (sim, fixem mais uma alcunha das muitas que há em Vila Viçosa), local onde a minha avó Natividade ia tratar da matança do porco, preparando-me uns chouriços mínimos para eu brincar; mudou de estatuto, de nome e de dono.
Fecharam-lhe a porta, colocando a dita à mercê de uma campainha, e a "Colmeia" passou a ser o primeiro "pub" da minha terra, com a Rua das Vaqueiras a ganhar ares de Rua da Atalaia e Bairro Alto, as coordenadas do saudoso "Frágil".
Como os bares são como as pessoas, sendo ambos vítimas do velho hábito de preencher aquilo que não se conhece com tudo o que há de mais escabroso, e às vezes, nos antípodas do que é efetivamente a verdade, existiam localmente as versões mais apocalípticas sobre, afinal, quase nada mais do que apenas uma bola de espelhos numa sala na penumbra.
Como é que o comum dos mortais poderia entender facilmente o efeito alucinante e mágico de uma bola de espelhos pendurada de um teto?
Jamais. Mas, para nós que víamos a série "Fame", tal engenho constituía uma verdadeira autoestrada transatlântica até à mais famosa escola de artes de Nova Iorque.
Era atestado e prova de ser moderno, sobretudo para quem vivia a duzentos quilómetros dos “Porfírios”.
No outro dia, folheando uma revista com os personagens da referida série, dei-me conta de que só depois de quase quarenta anos, consegui finalmente encontrar a personagem que melhor me transporta para a dita: sem qualquer jeito para cantar ou dançar, só me restava mesmo o professor Shorofsky, que tinha óculos, barba branca e ensinava literatura.
É verdade, às vezes para cumprirmos o sonho é necessário fechar as portas ao óbvio, sujeitarmo-nos ao mau juízo dos outros, e fazer uma revolução, mesmo que só com uma bola de espelhos. Ainda que possa tardar muito, a gente acaba sempre dentro desse "filme" que a alma pede.
Depois, eu que pássaro me confesso, descanso calmamente entre as estrelas, tomando um chazinho na lua, ali mesmo ao lado dos girassóis que semeei e vou dizendo.

(Agradeço o magnifico desenho ao meu querido amigo Raúl Pestana)

sábado, 27 de janeiro de 2018

Bibliotecas, trincos e Madalena Iglésias


Existe uma velha anedota acerca de um Alentejano, por certo meu compadre, que algures numa aldeia remota, entre sobreiros, esteva, e giesta, se questionava sobre o porquê de ser gratuito, o acesso aos livros na biblioteca itinerante da Fundação Gulbenkian.
A insistência do homem relativamente a tal benefício levou a que, certo dia, o bibliotecário lhe tentasse explicar:
- O Senhor Gulbenkian era um homem muito rico e com muitos poços de petróleo...
Tendo esta frase sido suficiente para o Alentejano concluir:
- Não diga mais nada, que eu gasto pelo menos dois litros de petróleo no candeeiro, para poder ler os três livros que todos os meses levo daqui.
Há já muito tempo que nos habituámos a esgravatar os atos, os gestos ou as palavras boas, acreditando que por detrás de todos eles existe, mais ou menos camuflado, um interesse qualquer.
O amor, na sua vertente mais desinteressada, que é a amizade, parece ser coisa de outras eras. E quem não sofreu já o bombardeamento de "tolo" perante o credo recitado em prol dos amigos?
No tempo em que eu bebia Laranjina C por um copo de vidro estampado com o rosto da Madalena Iglésias, que a Tia Joaquina Rosa me oferecera nos anos, os dias não tinham grades de prudência para os amigos, que ficavam sempre à distância, desprezível, de um trinco aberto por um cordel, quando a mão se intrometia no postigo das portas.
No domingo passado, em Vila Viçosa, e à volta de um chá que "digerisse" as migas, sentei-me à volta da braseira com os meus pais, o Rui, o Álvaro e o Manuel, pouco tempo antes de regressarmos a Lisboa.
Agora, as palavras substituíram os frágeis cordéis que abriam os trincos, mas os amigos persistem como partes bonitas de nós, sem interesses por detrás da festa de sermos apenas um, mas feitos, afinal, de muitos.
Mais tarde, na autoestrada, acho que o Céu, já com a Madalena em alguma nuvem azul a oferecer-lhe um toque semi-pop, fez questão de se alinhar, confirmando-me, sem margem para dúvidas, esta forma de sentir.

 

sábado, 20 de janeiro de 2018

Os rios da minha idade


Aí, onde as águas se fazem espelho e estrada, reinventei-me e reinventei cidades para onde “caminhei”, depois, usando o vento ou os remos, às vezes lutando contra a força da maré.
Esta semana, enquanto regressava ao sul, fui remexendo as lembranças e sentindo os “Mostrengos” que moram na bruma dos dias… e dos rios.
O autotransplante de medula que isola um amigo entre quatro paredes, assépticas, de vidro; a radioterapia de um outro e as máquinas intimidatórias que enfrentamos com máscaras que nos metem medo; a demência e a velhice dos nossos pais, e as fraturas que lhes revelam as debilidades; uma amiga que voou para longe tentando revestir de esperança, a dor da mãe que agoniza…
“Aqui ao leme sou mais do que eu”… muito mais, mesmo, porque todos aqueles que amo são partes de mim, que às vezes me doem, assim, no dilema que divide os cabos entre as tormentas e a boa esperança.
No silêncio do meu carro resgato da fé um assobio, e enquanto me vejo e revejo nas águas do meu rio, vou dobrando as folhas brancas de todas as incógnitas, transformando-as em barcos de papel, subindo, depois, a bordo para remar forte contrariando o vento e a maré.
Se um dia quiserem medir a minha idade, façam-no também avaliando o quanto resisto, para que jamais se apague ou afaste, a minha cidade.
 

(A foto é do José Manuel Marques, meu querido amigo e genial fotógrafo, a quem expresso um especial agradecimento).

sábado, 13 de janeiro de 2018

À conversa com as azedas numa manhã de Janeiro de 2018


A chuva já resgatou as azedas da escuridão da terra, e têm um assumidíssimo tom amarelo quase fluorescente, as bermas do meu caminho de todos os dias.
Não resisto e espreguiço o olhar para longe, para o campo que ainda resta, aqui, um privilégio na periferia operária da cidade…
Quem é pequeno constrói palácios com nichos para guardar do mundo as suas vaidades e o seu poder, e quem é efetivamente grande não cabe entre quatro paredes, por maior que seja o espaço que elas encerram; assumindo o universo como a sua casa, e entretendo-se à conversa com as flores do campo, e com as árvores, desmentindo, dessa forma, o frio intenso das manhãs de Janeiro.
Os tetos elegantemente pintados escondem o sol, e os nichos dificultam o acesso ao mais pequeno dos abraços.
A simplicidade é a antítese das fronteiras e das grades.
Se um dia eu conseguir aproximar-me um pouco da dimensão da gente grande, abandonarei as avenidas onde os mantos opacos do veludo da autoestima exibem o ouro dos seus bordados, correndo então descalço no campo molhado pela chuva, e tomando para mim o acre sabor das azedas.
Cantando, rasgarei claraboias à superfície dos silêncios mais circunspectos, sentindo que as flores tomaram do astro rei, a sua cor, apenas para virem enfeitar o meu caminho.
Quem rodopia sobre si mesmo condena-se a uma prisão, por entre a doce ilusão de que se move, esquecendo-se de que só aquele que corre é capaz de se aproximar da madrugada, e assim, reinventar-se, mudando a História.

sábado, 6 de janeiro de 2018

Quase meio-dia…


Quando Cristo se eleva no altar é quase meio-dia, e o meu ajoelhado silêncio destapa o desabafo do vento que sopra desde o repouso dos meus mortos, à minha frente e atrás da Senhora da Conceição, seguindo depois para lá da muralha do imenso castelo, por onde eu sairei daí a pouco, de braço dado com os meus pais.
Em Vila Viçosa, com o sol a pique, eu serei sempre esta ínfima partícula do tempo, algures entre o Céu e os dias que me esperam.
No final de 1973, a dificuldade em arranjar trabalho levara o meu pai até Lisboa, para a secção de peças da firma Baptista Russo, a Cabo Ruivo.
Se tudo lhe corresse bem, nós juntar-nos-íamos a ele, mais tarde, concretizando a mudança da família para a capital, o que não desejávamos.
Tal não chegou a acontecer, porque a 1 de Junho de 1974, um sábado, o pai iniciava funções de escriturário na Fundação da Casa de Bragança, em Vila Viçosa.
Desse Natal algo amargo de 1973 ficaram as memórias e um brinquedo oferecido pela empresa: um carro de emergência, a pilhas, que, para além de andar para a frente, consegue recuar sempre que bate nos pés de um móvel ou na parede. Uma viatura BMW, claro, igualzinha às donas das peças que o pai geria no armazém.
No último dia útil de 2017, estou com os meus progenitores em Vila Viçosa, quando após mais de 43 anos de serviço e com 77 de vida, o pai Artur finalmente abandona as suas funções no escritório da Casa de Bragança.
Por detalhes de logística, nesse dia, vemo-nos a descer a Rua de Três e a passarmos à porta da casa onde vivíamos então, e aonde eu nasci. Seguimos no meu carro, que por acaso é... um BMW.
Tenho quase a certeza que no longínquo dia 1 de Junho de 1974, entre a liberdade que chegara e a esperança de uma primavera finalmente nossa, talvez nenhum de nós conseguisse antecipar, sonhando, aquilo em que a vida nos tornou. Não o que temos, que isso só é relevante para as coincidências; mas o que somos na família a sete que nos tornámos hoje.
Do saco que o pai trouxe do escritório com os seus pertences nessa sexta-feira fria de 2017, retirei o carimbo com a sua assinatura, para guardá-lo na gaveta das relíquias da minha história, não longe do carro do Natal de 1973. Um carimbo para me recordar como é bonita a honestidade “tatuada”, assim, sobre todas as horas.
Em Vila Viçosa, com o sol a pique...
Eu serei sempre esse ponto ínfimo e azul entre o Céu e o futuro, quando Cristo se eleva no altar para nos lembrar que a fé, afinal, é o antídoto dos impossíveis.