sábado, 17 de novembro de 2018

Regresso...


Um a um, e muito devagar, percorro os quilómetros do caminho com a solenidade de quem venera até a mais pequena pedra.
O meu berço é o sul, tenho raiz de povo, e o espaço onde nasci é um altar caiado a sol e suor, que me oferece, assim, a cada regresso um infinito de sagrado e de peregrinação.
Nos lábios, a música que me assalta tem um tom dolente, pela quantidade imensa de alma que cumpre arrumar no espaço limitado da métrica dos versos.
Sem bordão, com o riso e os amores na mochila, que os desamores já os chorei todos; com as mãos prontas a desenharem uma concha sob o canto fresco das fontes, não vá a força cair na tentação de adormecer.
Mas hoje a água cai intensa sobre o asfalto e os campos que ladeiam a estrada, roubando-me aqui a ali, pela intensidade do nevoeiro, as árvores e os castelos que há anos me servem de referência no começo e no fim de cada jornada.
Respiro fundo, aproveitando essa profundidade para me olhar de frente, de verdade, e descobrir que a essência permanece igual, apesar das mil flores que fui colocando em vasos espalhados por toda a minha idade.
Rosas e malmequeres que fui colhendo da gente que passou enquanto diluía os meus passos nos trilhos de mil outros mundos, e tantas cidades.
Mesmo que me faltem as árvores e os castelos onde o olhar descansa e sorri, eu serei sempre mais eu na genética doce que emerge deste caminho e de cada regresso a casa.
Um Homem será sempre ele e a sua terra.

sábado, 10 de novembro de 2018

Viver


Por vezes, quando me adjetivam de “estranho”, nem se dão conta de que eu apenas me esforço por cumprir o meu compromisso de liberdade.
É verdade, trago-o comigo com intensidade entre os pedaços de barro encarnado, agarrado à pele queimada pelo sol e ressequida pelo vento de todas as estações.
Entre o mundo e um palco, ou entre mim e uma sombra, jamais deixarei de me escolher a mim e à Terra, mesmo que nos seus mais recônditos e imprevisíveis detalhes.
Viver não é esperar pelo tempo da reforma sentado num sofá confortável e com um copo de politicamente correto na mão, muito quieto para não entornar o estatuto e porque os punhos de renda atrapalham o gesto que acompanha o sorriso Monalisa, que não é sim nem não.
Viver não nos permite desprezar os aeroportos de onde partem os aviões para os quais o coração nos “comprou” bilhete.
Neste tanto do que sou, e do que quero, existirão detalhes mais modernos ou não, opções aceites ou não pela maioria, mas sou assim, e, legitimamente, espero dos outros reciprocidade na tolerância que lhes ofereço e que é um traço assumido de carácter.
Um democrata não chama imbecis aos que não pensam como ele, uma pessoa tolerante e inclusiva não atira pedras sobre as expressões da fé e da religião dos demais, só para vos dar dois exemplos. Caso contrário, a vida é um imenso baile de burgueses ditadores travestidos de “tolerantes” na farsa de um fugaz carnaval.
Viver é ser cúmplice do sol e não ter interruptores nem áreas de repouso que suspendam, nem só por um instante, o nosso compromisso de liberdade.
É a esse compromisso a que ofereço corpo e forma de palavras, enquanto acaricio as árvores, mestras de vida, guardando-lhes as memórias entre as minhas próprias memórias e agendas.
Um forte abraço e até para a semana, se Deus quiser.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Hoje sinto-me imortal...



Há dias em que nos despertamos com a sensação de sermos imortais, e outros dias em que colocamos uma bateria de lua no bolso, devidamente guardada da noite, por temermos que se nos fuja a claridade.
Da mesma forma, há instantes em que sentimos a voz e os braços de todos os santos do Céu apoiando-nos num caminhar tranquilo por entre lagos e flores, e outros em que acreditamos que Deus se despediu de nós para ir acudir à Austrália.
Sempre que Novembro nascia, íamos a Borba à feira comprar as botas, as mantas coloridas e os agasalhos, inaugurando oficialmente a época do frio, contrariado também com castanhas e bolotas assadas.
Nessa altura eu acreditava que o frio tingia de negro as mãos das mulheres, quando ao fim da tarde me cruzava com elas na mercearia ou na padaria, antes de aprender que o tom que lhes carregava os dedos era consequência de um dia passado na apanha da azeitona, um dia que começava muito antes de clarear, quando a geada oferecia à Terra uma película vítrea e muito dolorosa.
Nas ruas de Roma e na noite de Todos os Santos, eu caminho só e entretido por uma conversa entre mim e a memória, sentindo saudades das botas de Borba que o avô Joaquim untava com sebo de Holanda, porque as moderníssimas sapatilhas New Balance não garantem uma boa aderência ao piso humedecido pelas chuvas dos últimos dias, e sinto correr o risco de me estirar ao comprido algures entre o Panteão e a Fontana di Trevi, numa performance noturna com muito pouco do glamour de Visconti.
Hoje sinto-me imortal, mas reparo ao colocar as mãos nos bolsos, que trouxe comigo pedaços de mil luas, agrupados em lanternas que vou acendendo aos poucos e quando o tempo estremece. Deus persiste no meu silêncio, muito mais do que nos sinos das catedrais de Roma, e os Santos que me apoiam, adormeceram há muito, mas deixaram ficar comigo as suas mãos enegrecidas pelo frio e pelo pão que alimenta todas as candeias.


sábado, 27 de outubro de 2018

Janelas com vista para o sol…


Quando um colega de um país que não Portugal, se senta ao meu lado na mesa onde iremos trabalhar em grupo durante esse dia e saca da pasta, um coelho de peluche que coloca em cima da dita mesa, fazendo uma foto com o telemóvel antes de o devolver imediatamente à pasta, o meu ar de curiosidade destravada terá motivado uma explicação.
- Sempre que venho trabalhar para fora, o meu filho pequeno, não podendo acompanhar-me, entrega-me o seu boneco preferido para que eu o sinta mais perto e tenha menos saudades. Todos os dias lhe mando notícias do seu coelho.
Ainda existe amor à superfície destes dias cinzentos. Amor e poesia, que são afinal a mesma coisa.
Com um imenso prazer, recorto este momento e colo-o em destaque sobre a minha “agenda”, como fonte guardada no bolso de quem às vezes tem de atravessar ou provar o deserto.
Depois, é à beira de instantes assim que posso garantir a um amigo que o Céu lhe devolve o seu anjo pela madrugada, ou consigo alinhavar três versos (daqueles que fazem cócegas) para fazer sorrir uma outra amiga que anda triste.
Talvez seja um benefício da idade, este jeito de saber vindimar a esperança por entre o sol que desmente o frio nos dias de Outono, ou de poder cortar a hera que nos tapou as janelas com vista para o sol.

 

sábado, 20 de outubro de 2018

As contra-indicações dos beijos dos avós…


Não me recordo se algum dia alguém me ensinou a beijar os meus avós naquela idade precoce da qual não guardo qualquer memória de mim, mas tenho quase a certeza que não foi preciso, porque os beijos são detalhes que fluem naturalmente entre quem se ama.
Recordo-me sim de ter quatro anos e ter caído da escada pela pressa de ir beijar o avô Joaquim que chegava do campo com um saco de limões, e lembro-me bem do aroma dos xailes das minhas avós e tias-avós, que nos ofereciam os seus braços para adormecermos felizes, sempre que vinham a nossa casa passar o serão.
Se eu visse um avô vinte vezes por dia teria de dar-lhe vinte pares de beijos, e nem mesmo assim, seguindo essa regra do coração, eu consegui evitar esta presente saudade de já não os ter.
Os beijos, os afagos, os olhares doces, “o meu Quim” repetido mil vezes com orgulho... semearam o melhor que possam encontrar em mim. Qualquer face lunar é da minha inteira responsabilidade.
Durante um programa de televisão emitido esta semana e em que se abordava o tema do assédio e da violência sexual, um investigador afirmou que “obrigar” uma criança a beijar os avós é um ato emocional e fisicamente violento exercido contra a vontade do próprio, o qual poderá ter reflexos futuros no comportamento do indivíduo.
A “exigência” de ser moderno às vezes conduz ao ridículo de andar a procurar maçãs no fundo do mar e pargos entre os troncos bravos dos castanheiros, por entre nexos de causalidade que fazem cócegas na alma.
Cuidado com a embriaguez provocada por um copo de água, e jamais comam canja de galinha, porque é de facto a sopa mais indigesta.
Na última semana tive o privilégio da companhia dos meus pais em casa, e saindo cedo para trabalhar, só a minha mãe me acompanhava ao pequeno-almoço. Mais dorminhoco, eu só via o meu pai quando regressava a casa ao fim da tarde, e de imediato, ele se ajeitava no sofá para que eu pudesse cumprimentá-lo com dois beijos.
Neste assumido império de beijos onde eu fui criado e onde vivo muito a gosto, eu tenho tudo para ser um serial killer … ou não, porque entre beijos sempre aprendi dos meus pais e dos meus avós que ser homem ou ser mulher é um detalhe irrelevante perante a grandeza de ser gente, e que ser “poderoso” não é ter dinheiro, é ser rico dos valores que se cultivam na alma, que nos fazem felizes e se partilham com os demais sob essa sombrinha tão airosa que é o respeito por tudo e pela sua liberdade.

 

sábado, 13 de outubro de 2018

Músculo e água de fé...


Sempre que o verão partia e a aragem nos convidava a revisitar os guarda-fatos em busca de “abafos”, fechavam-se os postigos das portas e acendiam-se as primeiras braseiras, ao redor das quais ateávamos a conversa nos serões que cumpriam a mesma sina do tempo de então: não existia pressa.
Nas prateleiras altas dos armários da cozinha havia conserva de tomate e taças de compotas de ameixa, abrunhos, melão... para lá da inesquecível marmelada.
Aprendi há muito a tomar o melhor do verão e a guardá-lo de forma eficaz, para poder cruzar o inverno sem deixar de sentir o sol.
O tempo agora é bem diferente, em tudo e também na pressa, mas quando a semana me obriga a atravessar a solidão, vejo sempre que trouxe comigo garrafas de água das melhores fontes que beijei, trouxe abraços guardados em memórias e retratos, e não há fome que me atormente, porque trouxe na mochila o pão que respira entre os milhões de versos que colhi dos dias claros.
Nada nem ninguém é breve ou desprezível, e o todo de um instante não se esbate no instante a seguir, permanecendo como músculo e água de fé que nos permitirão cruzar o deserto.
Tudo e todos importam e permanecem, alimentando-nos do brilho das braseiras de picão enquanto esperamos alegres pelo verão que virá a seguir.

 

sábado, 6 de outubro de 2018

O essencial é a liberdade...


O caminho que trouxemos desde o pranto até à liberdade está pejado do ferro oxidado das algemas que nos prendiam as mãos e os pés, e ainda guarda o cheiro fétido dos cadáveres da gente morta a tiro de opressão, gente mártir mas enorme, de quem a alma voou atando-se à nossa por um nó ousado e rebelde de marinheiro.
Passaram muitos anos, e talvez o vento tenha arrastado terra, e a chuva tenha plantado ervas e flores sobre esses despojos dolorosos, oferecendo-lhe uma enganadora face de paraíso.
Mas eu não quero e não irei voltar a pisar esse caminho.
Aqui onde moramos temos janelas que trazem a brisa do mar, temos o canto livre dos poetas e, por mais desarrumada e suja que esteja esta rua onde moramos, ninguém nos obriga a negar o sangue e o amor que trazemos na alma.
Sim, essa mesma alma que atámos pelo sonho à alma dos heróis.
Poderemos varrer esta rua com ramos de giesta, criaremos novas flores para os vasos das janelas, convocaremos os cantores, os artistas, reinventar-nos-emos em cada dia que nos derem, mas por favor não nos despejem nunca da casa da nossa liberdade.
Há quem esteja a vender a ideia de que a única forma de tratar um arranhão num dedo é fazer a amputação do braço, e há quem acredite e se deixe levar por aí.
São tempos movediços e eu temo pelo regresso do mundo aos becos da dor, da mordaça e do pranto.
Que emerjam as diferenças, que se discutem de forma aberta e honesta, mas que o essencial nunca deixe de ser a liberdade.