domingo, 27 de fevereiro de 2022

Київ або вічна недосконалість миру (Kiev ou essa eterna imperfeição da paz)


Em paralelo com a eterna condição da mais perversa imbecilidade do Homem, a paz será sempre um processo em curso, e jamais concluído.

Desengane-se quem se senta tranquilo num jardim de acácias, para desfrutar, sossegado, desse bem viver connosco e com o mundo. Mais do que a chegada, num sítio rico de aromas aonde o mar nos embala, a paz é um perpétuo desejo que gera compromisso, e que induz o gesto capaz de tecer o amor, no seu mais apurado detalhe de filigrana.

De preferência sem distrações, e, sobretudo, sem a mínima tolerância para com a expressão do seu contrário, por mais gracioso, inofensivo e folclórico que nos pareçam a cega ambição pelo poder, a discriminação, qualquer que seja o motivo, e a castração do livre pensamento.

Por mais pateta que nos pareça o ditador.

E quem diz a paz, diz a liberdade e a democracia, suas indispensáveis aliadas.

Sempre inacabadas, mas nunca impossíveis, porque a utopia é mãe da inação, e nos nossos braços ferve um impulso claro de revolução. 

Demasiadas vezes, fomos criando, falsamente, a ideia, de que os ditadores jaziam em mausoléus, e que o encontro com as maiores atrocidades cometidas sobre a humanidade, só poderia ser conseguido em museus ou sítios guardados como memória. 

Puro engano.

Acabou a guerra fria, mas chegou a guerra nos Balcãs e no Golfo. Surge guerra no Afeganistão, ataques terroristas em Nova Iorque, Madrid…

Porque Elvis morreu, efetivamente, levando com ele as canções de amor, e é Adolf Hitler que continua vivo, com a identidade de tantos rostos e em tantas latitudes.

E a paz, comprova-se, é o perpétuo trabalho das nossas vidas, acordados que fomos pelas sirenes de Kiev, sob o céu negro que de uma vez só traiu o sol, o sonho, Deus e a liberdade.

Ou como se diz em ucraniano…

А мир, виявляється, це вічна праця нашого життя, розбудженого, як і ми, сиренами

Києва, під чорним небом, що враз зрадило сонце, мрію, Бога і свободу. 

sábado, 19 de fevereiro de 2022

O coração e a pele


A manhã fria de fevereiro leva-me até ao roupeiro grande, e quando dou conta, subo a Rua de Santo António, em Vila Viçosa, abrigado pelo sobretudo cinzento que herdei do meu pai.

As memórias criam a pele que melhor nos protege do inverno.

A Zinha e o Manel são do meu tempo, ou melhor, são dos meus tempos todos, porque eu me recordo deles desde quando comecei a guardar lembranças de mim.

Os dias pareciam, então, muito maiores, porque nada ficava por fazer, ou por dizer.

Às vezes a tropeçarmos nalguma dificuldade que traía a fonética, mas sem deixar de exprimir a vontade dos sentidos, e a sede:

-Um copo de “aba”, por favor.

Escorregávamos pelas caixas de cartão vazias, guardadas no armazém, com a mesma alegria com que, ao longo de outros tempos, soubemos sorrir sobre a gravidade das deceções, que nos puxaram para o chão frio.

Palpámos juntos a nossa primeira neve, perfumámos as mãos nos troncos das mesmas estevas, rezámos as nossas esperanças nos mesmos padre nossos, e algures entre a “telepatia” e a “paixão”, aprendemos a dançar nas mesmíssimas canções.

Por maior que se fizesse a distância, jamais deixámos de nos ver, porque todo o coração tem janelas, aeródromos e aviões, para que os amigos jamais sejam gente longe.

Há uma semana tomámos posse para a mesa da Régia Confraria de Nossa Senhora da Conceição, e por nos sentirmos tão bem, assim, juntos, sob a fé que mesma alva guerreira capa exprime, resolvemos fazer uma foto.

A fé é irmã das memórias, unindo futuro e passado na doçura de um presente, que até poderá ter tudo do inverno.

A fé, a memória, e os amigos, que unem pela coerência, o coração e a pele.

 

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Votar


Votar é ratificar a opção pela democracia, expressando, em pleno uso dos direitos e deveres de cidadania, a anuência à liberdade.

É nesse contexto que irei votar no próximo domingo, com a convicção de que a liberdade e a democracia jamais poderão ser dadas por definitivamente adquiridas, e é a nossa atitude que as alimenta, tal qual uma chuva de vontades sobre a terra fértil.

A abstenção, surpreendam-se, é tão virulenta quanto o Covid-19, porque tal como ele, nos poderá condicionar, e nos coloca à mercê das “máscaras” e da vida que não queremos.

Faço-o sem esquecer o curriculum de honestidade e competência (ou ausência delas) dos intérpretes / políticos envolvidos, sem qualquer amarra que me prenda cegamente aos meridianos ideológicos, mas sobretudo com base nas minhas convicções.

Por exemplo…

Revejo-me na Constituição da República Portuguesa e sou um defensor das liberdades adquiridas na revolução de 1974.

Defendo um Estado próximo dos cidadãos, e que os inclua, com suporte financeiro ou outro, possibilitando que todos, sem exceção de etnia, religião, género, orientação sexual, ou outra, possamos beneficiar dos mesmos horizontes e do conforto do mesmo viver.

Nesse contexto, sou a favor de um Serviço Nacional de Saúde tendencialmente gratuito, suportado integralmente pelo Estado, mas em complementaridade com serviços de âmbito privado, sempre que tal se justifique pela situação e acesso do cidadão/paciente.

De igual forma encaro a Educação, defendendo que o Estado deve cuidar de mais e melhor ensino para todos, com exigência e com recurso à principal mais valia da escola pública: os seus docentes.

Considero imperativa a frequência de uma disciplina de cidadania, e a promoção da plena cultura da diversidade e inclusão.

Sou a favor da plena integração dos imigrantes, reproduzindo dentro das nossas fronteiras, tudo quanto defendemos nos anos em que de emigração se fazia o nosso fado.

Defendo o nosso estatuto de Estado membro da União Europeia, assim como a nossa manutenção na zona Euro.

Sou contra a regionalização administrativa e burocrática do país, apoiando sim, a decentralização, e todas as medidas que possam encurtar as distâncias entre o interior e o litoral, entre o espaço rural e o urbano.   

O Estado deverá ser motor e suporte de todas as atividades culturais, muito para lá da existência de um ministério específico.

E sou contra a legalização da eutanásia.

Nestas, e em muitas mais opções, apoiadas em mim e na minha essência, se desenhará o meu voto.

Talvez estranhem porque ilustro este texto com uma foto de junho de 1977, quando no último dia de aulas na Escola Preparatória de Vila Viçosa, eu e um grupo de colegas nos despedíamos da frequência do primeiro ano (agora quinto ano de escolaridade), estando preparados para entrar em cena no ginásio, para uma excelente performance teatral.

Esta semana, uma das minhas queridas professoras de então, pediu-me pelo Messenger do Facebook, que lhe enviasse uma foto para que pudesse identificar um dos colegas que partiu no final do ano passado.

Lembrei-me desta, fiz uma cópia, enviei-a, e ela identificou-o imediatamente.

Quantas vezes temos de voltar à nossa essência mais elementar para que de nós se prove a identidade.

A essência de uma liberdade então ainda muito jovem, mas que bastante nos fazia sonhar.

Por isso, e muito convictamente, eu irei votar no próximo domingo.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

A manhã de janeiro


 O aroma do café ainda a pingar, muito quente, deste o filtro zeloso, e diretamente para a cafeteira, oferece-me à sala um toque inquestionável de conforto e de intimidade.

Para lá da vidraça, e desde o lugar onde a ponte desmente o Tejo, abraçando as margens, o sol espreguiça-se, ainda ensonado, traçando o céu com linhas encarnadas, azuis, amarelas…

Com mais ou menos nuvens em modo e gesto de prisma, não existe dia que não nos traga a tinta de todas as cores.

E escrever, ou rabiscar, o tempo a preto e branco jamais será uma inevitabilidade, mas apenas a opção, aparentemente cómoda, da discrição do sofá cinzento e silencioso situado atrás do biombo.

Esta demissão de dizer-se é acompanhada, muitas vezes, e desde o lado de fora, pelo juízo dos demais, pela rotulagem que atribui, de modo completamente cego, defeitos e virtudes, vulgarmente, e levianamente, associados ao grupo social, profissional, à confissão religiosa, etnia, ao ponto eleito do espectro político, ao código postal, e até à filiação clubística.

A demissão de ver o outro do modo que ele merece, inteiro e com todas as cores… sempre que ele se predispõe a deixar-se ver para lá do “grupo”.

A pertença e a aparência sobreposta à identidade, e os argumentos “fast-food”, e a preço de saldo, em modo campanha eleitoral, transportados à velocidade de uma qualquer “Influencer” em destaque nas redes sociais.

Por entre o completo repouso do pensamento e da inteligência, a “anemia” da generosidade e da clarividência, e sem recurso ao juízo dos mais importantes valores da alma, a vida decorre ao jeito fútil e superficial de telenovela, com a canonização súbita e automática, das figuras eleitas semanalmente para a capa da revista Caras, por exemplo.

A caneca do café acode-me aos lábios, ao mesmo tempo que deixo que as palavras se aproximem, sem filtros ou nuvens, daquele tanto que a alma sente e grita numa manhã de janeiro.

Sem receio do que elas possam confessar, ornadas de todas as cores com que o sol me tingiu a pele dos dedos.

Usam chamar à verdade, delírios e alucinações de poetas, esquecendo-se que o Homem se cumpre nos versos desnudados de pudores e de todos os medos.

E o lugar é apenas um detalhe, porque a pátria do Homem será sempre a liberdade.

sábado, 25 de setembro de 2021

As rosas… tal qual a vida


Aos sábados e domingos de manhã, um pouco antes da missa, gosto de visitar o túmulo do meu pai. Não o faço por qualquer traição ao Céu, se é aqui, nesta terra vermelha do barro de Vila Viçosa, que permanece adormecido o colo, assim como os beijos, dos meus tantos instantes de Céu.

Faço-o por fé e fidelidade.

Nestas alturas gosto de trazer uma flor que tenhamos num dos vasos da varanda, sem qualquer pretensão, às vezes até muito pequena, mas colhida entre mim e a minha mãe, um pouco antes de eu sair de casa.

No fim de semana passado não conseguimos ver aberto um muito promissor botão de rosa, que na manhã de segunda-feira nos brindou, finalmente, com todo o seu esplendor.

Como na vida poderá faltar tempo para tudo, mas nunca para cumprir os mais simples detalhes de amor, colhemos o botão, e, de saída para Lisboa, fiz um desvio e fui colocá-lo no túmulo do meu pai.

Ainda que por entre uma Ave Maria com pouco fôlego, mas aquilo que se diz, e o modo como se diz, perde sempre para o tanto que se sente.

Na manhã deste sábado, sem nada mais do que um ramo de manjerico já florido, do vaso da nossa varanda, voltei ao cemitério, e coloquei-o no lugar do botão da rosa que ali permanecia, resistindo à chuva, à trovoada e ao calor.

Trouxe-a para a colocar entre as folhas de alguns versos.

Perdoar-me-ão por estar a contar-vos a breve história de uma flor que morou no cemitério, ainda para mais, muito pequena, mas achei interessante fazê-lo pela cumplicidade que existe entre a vida e as rosas.

Nos parapeitos das varandas da vida, aquelas onde habitualmente nos debruçamos à espera do amanhecer, as rosas acabarão sempre por florir, ainda que o seu tempo pareça ter-se desencontrado com o nosso.

E as rosas que perderam a cor, e que parecem mortas, fizeram-no para conseguirem ter espaço para guardar o tanto de amor e de história dos gestos que as moveram, que lhes deram sentido, tornando-as eternas entre as páginas de uma nova poesia aonde o Céu se sente e se pressente.

Tal qual a vida.

Um bom fim de semana e um abraço.

  

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Espaço 2021


Estaríamos pelos finais dos anos setenta do século passado, e nas salas meio arruinadas do Convento das Chagas, hoje a ilustre Pousada de Vila Viçosa, a nossa catequista pedia-nos para termos cuidado com as brincadeiras, sobretudo, porque aquele hábito de rodopiarmos sobre nós próprios para imitarmos a Maya do Espaço 1999, transformando-nos num animal qualquer, provocava-nos, isso sim, umas valentes tonturas, e nós acabávamos por cair sobre algum monte de entulho que servia de “Eagle 1”, a nossa nave, onde sob as ordens do Capitão Koening e da Doutora Helen Russel, viajávamos pelo espaço.

Ontem, vinte e dois anos depois do mítico 1999, e alguns mais desde essas brincadeiras, juntei-me com a minha catequista na missa das onze na igreja de Nossa Senhora da Conceição. Ela, a minha querida Dona Bárbara Elisa, celebrava os seus bonitos 94 anos, e eu, desde o coro, e com a ajuda da minha amiga Madalena Barros, também da leva extraordinária dessas brincadeiras no Convento da Chagas, cuidávamos da transmissão da eucaristia nas redes sociais, voando muito mais depressa do que com qualquer “Eagle”, por mais sofisticada e criativa que a inventássemos sobre um monte de entulho.

Não resistimos a comentar, divertidos, estas coincidências.

A idade, de facto, não existe, e o importante será sempre a forma como agarramos o tempo para o fazermos nosso, voando depois, por entre o ímpeto de uma maior ou menor ilusão, até ao cais que o coração nos diga.

À saída da missa felicitei a minha catequista, e pedi-lhe para ter cuidado e não cair, porque as bengalas às vezes resvalam na pedra demasiado polida.

Com quem aprendi eu esta frase e o cuidado que ela pressupõe?

O afeto é uma via com dois sentidos, e os nossos melhores amigos, aqueles que são a gente que permanece porque se constituem a proteína da alma, nunca nos dizem para não “viajar”, preocupando-se, isso sim, em dar-nos alento para não cairmos e podermos chegar, por muito que se vislumbre a vertigem de uma ilusão.

E toda esta tanta vida, quer no Convento das Chagas ou ontem, na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, sob o Olhar o e a “pretexto” da mesma fé que nos convida a sermos maiores e melhores.

Nunca desdenhem do impossível, porque ele só oferece certezas a quem não crê e não ousa sonhar.

domingo, 8 de agosto de 2021

A Abelha, a Carocha e o João Ratão


Esta semana cruzei-me com uma abelha que voava, estranhamente tranquila, entre jarras cheias de flores artificiais.

Ignorou-me nesta sua caminhada infrutífera pelo pólen, e o seu sossego será, quiçá, a certeza de que, tarde ou cedo, chegará às flores verdadeiras que a possam abraçar.

Nesta mesma semana tive o privilégio de poder viajar com os meus sobrinhos, partilhando com eles alguns detalhes do Alentejo pré e pós barragem do Alqueva.

O João viajou ao meu lado, e o Luís atrás, devidamente protegido, como é natural, pelo seu cinto de segurança, que acende uma luz verde no painel de comandos sempre que é ativado.

Mas o cinto do meio, ao seu lado, também estava ativado, e verde, porque com o Luís viajou um amigo ou amiga invisível, personagem das muitas histórias de que ele gosta, e que vive intensamente, insurgindo-se, por exemplo, com a imprudência da Carochinha, que, desleixada, deixou um caldeirão ao lume.

Direi eu que o dito marido, João Ratão, que nesse caldo morreu afogado, não seria também grande figura, pois casou por interesse, após a dita e famosa Carocha ter encontrado dez tostões ao varrer a cozinha.

O João e o Luís já voltaram a casa, mas no banco de trás do meu carro, o cinto do meio continua verde, porque dessa forma, os amigos invisíveis do Luís me farão companhia.

A semana passada, como qualquer unidade de tempo, encerrou em si mesma o côncavo e o convexo, o branco e o negro, o veneno e o antídoto.

Se a abelha se antevê triste por andar numa rota errada, jamais poderei saber quantos amigos invisíveis lhe afagarão o voo, compensando a ausência do pólen com milhares de sonhos.

Acreditar é a raiz mais profunda e generosa de sorrir.

Não procurem ler-me, jamais, nos sítios inóspitos e improváveis por onde andam os meus passos sozinhos, mas perguntem-me pelos sonho que me afaga a alma, e, já agora, pelo Deus que me abraça no banco de trás das minhas viagens todas.

Em segurança e de cinto (ou abraço) apertado.