sábado, 12 de janeiro de 2019

Cinquenta anos...


Ao contrário daquilo que alguns intelectuais da moda andam por aí a afirmar, não conheço nenhuma mulher que tenha ficado mais feia depois de cumprir cinquenta anos, muito pelo contrário, todas elas, tal qual os homens, ficam infinitamente mais bonitas.
Poderia acontecer que esta minha constatação fosse de natureza filosófica, excluindo a componente física e mais visível do assunto, mas nem é o caso, até porque são ténues as fronteiras que carregamos connosco, e se é verdade que “quem vê caras não vê corações”, já o inverso não se verifica, porque quem vê corações consegue ver caras. E se os corações forem grandes, as caras serão invariavelmente bonitas.
Concordo que os cinquenta anos trazem muitas mudanças, mas sempre de encontro ao melhor da vida. Permitam-me que enuncie algumas:
1. Já não damos tempo ao tempo, porque o tempo que temos nos faz imensa falta para o tanto que queremos navegar;
2. Se os salmonetes forem frescos e acabados de pescar, que importa se vêm embrulhados no pedaço velho de um jornal? E quem diz o peixe, diz a gente;
3. Acumular palavras doces causa diabetes, e as palavras amargas criam acidez no estômago. Pelo sim e pelo não, soltamos tudo o que há para dizer aos respetivos destinatários;
4. Aprendemos há muito que o ruído de mastigar pipocas pode beliscar o tom perfeito da voz da Merryl Streep, e, por isso, desbravamos todos os ruídos, e traímos a moda, só para termos o instante gourmet de escutar a quem merece;
5. Gostamos de falar a verdade através dos beijos que damos, não deixando nunca que a alma nos possa desmentir no recato do quarto, quando cai a noite;
6. Pela dor de a chorarmos tanto, e sempre em crescendo, aprendemos a prevenir a saudade, entregando os braços a quem nos faz falta, eliminando a toxicidade contaminante de quem nos faz morrer;
7. Focamo-nos no luar, muito mais do que na noite escura, e sabemos que Deus será sempre maior e mais importante do que qualquer fórmula humana que lhe ofereça uma terrena e sumptuosa embaixada;
8. À medida que vamos ganhando mundo, tomamos consciência do real valor daquilo que até poderia parecer pequeno. A pedra simples da beira do caminho só é desprezível para quem nunca sentiu no corpo as dores de caminhar, e agradece o repouso.
Às vezes olho-me ao espelho no recanto mais iluminado da sala, e por entre a barba branca, descubro em cada ruga, a marca que ficou de todos os rios de onde parti para navegar até às ilhas que sonhei.
O tempo inscreve-nos a história na face e torna-nos muito mais bonitos por entre uma infinita sensualidade.
Mulheres e homens, depois dos cinquenta, todos sopramos diamantes para dentro de um beijo.

sábado, 5 de janeiro de 2019

O ar desenhado pelos pássaros...


Só nos lembramos do ar quando algo ou alguém nos asfixia, interrompendo bruscamente o ato tão natural, e quase desapercebido, de respirar.
No mesmo sentido, há gente que não se dá conta de estar a usufruir dos benefícios da liberdade, mesmo quando, pela sua inexplicável verborreia, atenta contra ela em nome da fantasmagórica autoridade do tempo em que os casacos dos homens eram todos, obrigatoriamente, a preto e branco.
Também os amigos que se entretêm a pendurar palavras e gestos feios no fio de afeto que os une, só se darão conta daquilo que perderam quando essa linha ceder ao peso e se cortar, devolvendo a alma à solidão.
Sempre que estou em Vila Viçosa a passar uns dias com os meus pais, como aconteceu neste período entre o Natal e o Ano Novo, eu sinto de forma muito marcada, que estou a usufruir do ar melhor do universo, e, sentados os três à conversa no serão junto à braseira, eu tenho uma claríssima noção do ouro valiosíssimo e escasso que impregnam esses instantes de que sou feito.
Depois, quando regresso, e porque já não tenho a minha estrada, subo a Avenida em direção à Praça e à variante, fazendo um desvio para entrar no Castelo e na igreja de Nossa Senhora da Conceição.
As portas estão abertas e cheira a mármore lavada, sentindo-se o bulício das mulheres na sacristia. Ali, ajoelhado a rezar, estarei algures, não sei bem, entre um rei que oferece o seu reino, ou a minha avó Natividade, que não saía de Vila Viçosa sem vir despedir-se da Mãe do Céu.
À minha frente e atrás do altar, está o cemitério, e eu nunca saberei quanto doeu a falta de liberdade naqueles corpos que a terra abraça, ou quantos beijos andam por ali a esvoaçar na saudade de infinitamente adiados.
Saio da igreja e regresso ao carro, tão entretido com os meus pensamentos, que até permito que um pombo me assuste, quando resolve voar desde o ramo de uma oliveira até um dos braços de pedra do cruzeiro.
Respiro fundo.
Que nunca me falte a fé, a liberdade, este ar desenhado pelos pássaros, as palavras doces dos amigos, e claro, os beijos perfeitos dos meus pais.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

A meia-noite e o tempo novo…


Jamais declinarei a responsabilidade de fazer velho ou novo, qualquer tempo, endossando a fatura, passivamente, para o calendário.
Aliás, parece-me que esta noção de tempo novo ou velho, segundo o relógio, só existe para alguém poder fazer negócio, comercializando uma espécie de carnaval, e muito “glamour”, algures entre Dezembro e Janeiro.
Acredito que os vendedores de espumante e de cuecas azuis possam contribuir também, decisivamente, para a divulgação do conceito.
O tempo não envelhece, nós é que deixamos apagar a esperança.
O tempo não morre, nós é que nos demitimos de ressuscitar, acomodando-nos à luz fraca que mora nos sepulcros, numa traição impiedosa ao sol que nunca desiste de nos vir trazer a madrugada.
A contagem do tempo feita pelo calendário é importante para efeitos fiscais, para nos caracterizar no Cartão de Cidadão, para cumprir ciclos eleitorais...
Mas os anos, os dias e os minutos novos somos nós que os definimos pela convicção com que lhes oferecemos corpo de “loucura” no grito de todos os sonhos e todas as nossas vontades, reinventando-nos, às vezes, a partir de quase nada, ou a partir da lama que se atravessa na estrada.
Um dia partiremos, e alguém assinalará essa data numa lápide, precedida daquela outra em que nascemos. Farão contas as pessoas para saberem se vivemos muito ou pouco, num exercício fútil e inadequado.
Quantos sonhos de uma vida cabem num segundo, quantos amores cumprem a própria vida no minuto breve do beijo que a alma pede.
E pelo contrário, quantos séculos são desertos de solidão e mal querer.

Um abraço a todos, e, para além de hoje, que nenhuma das vossas meias-noites desminta o tempo novo.

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

O Natal é um beijo


Quando eu era rapaz o Pai Natal não existia, e na manhã de Natal, os avós e os tios chegavam cedo a nossa casa com um presente, anunciando vir trazer-nos o Menino Jesus.
Até há muito pouco tempo eu acreditei que o Menino seria essa camisola ou esse par de meias embrulhado com algumas guloseimas, mas hoje sei que o Menino Jesus era afinal o beijo que nos davam por entre um abraço que desmentia o frio de dezembro.
Porquê?
Porque Jesus não é algo que se vista e que nos adorne, porque Jesus não será nunca um jogo ou um pretexto que nos distraia numa tarde de amigos, e porque Jesus não é o que se embrulha em papel escolhido a gosto e submetido ao gesto de cada um. Pelo contrário, Jesus é o amor, e o amor sente-se e partilha-se na verdade de um beijo.
Para além disso, se a saudade é o filtro que despreza o acessório e retém apenas o que importa, dessas gélidas manhãs Calipolenses ficaram os beijos, como detalhes de um amor incondicional e único, que foi cimento daquilo que sou.
Hoje, tal quando eu era rapaz, o Pai Natal não existe, e, sendo tanto, pode dizer-se de modo breve, que o Natal continua a ser um beijo… com o Menino Jesus a bordo e a brincar com as estrelas.

 

domingo, 16 de dezembro de 2018

Três apontamentos que colhi deste advento…


De tão intensa, esta dor, alguém jamais ousará dar-lhe um nome.
À saída da missa de domingo, em Vila Viçosa, cruza-se comigo a mãe de um amigo que partiu há algum tempo. Traz no rosto aquele jeito de quem chora mesmo sem chorar, e na mão uma rosa branca do andor da Senhora da Conceição, que na véspera tinha saído em procissão.
Entre o Céu e a Terra, ou mesmo só por aqui, todas as mães falam a linguagem das rosas, porque o amor supremo, tal qual a dor onde os seus beijos morrem, jamais conseguirá dizer-se.
 

Estou com um grupo de colegas no parque onde se insere a nossa empresa e vendemos livros para ajudar a associação Cais.
Se interpelamos alguém dizendo que estamos em nome desta associação, pedindo uns segundos de atenção, uma em cada dez pessoas param para nos ouvir.
Se optamos por dizer que somos colegas de uma das empresas do parque, e que estamos ali para ajudar a Cais, param em média seis pessoas em cada dez.
Há uma surdez seletiva que elimina a mensagem de quem tem fome e privilegia, escutando, os seus pares.
Os sem-abrigo da cidade estarão destinados à indiferença que os torna dolorosamente transparentes, vagabundos solitários no meio de uma multidão.
 

Permitam-me que manifeste a minha absoluta intolerância para com as pessoas que não conseguem fixar-se em nada para lá do lado “negro” da vida.
- "Tomara o Natal passado. Não aguento o stress das compras, o bacalhau para comprar, escolher as batatas para fritar em modo palha, o peru é nojento, tanta gente lá em casa"...
Poderemos sempre ver a vida de dois modos: uma festa ou uma batalha.
Na primeira opção, aquela em que a dor dos calos nem se sente por entre a alegria de bailar, vive-se, dando real uso à cara, que foi feita para que possamos sorrir.
Na segunda apenas se sobrevive, arrastando-nos pelo tempo até à morte.

 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

O sol...


Na manhã azul de Dezembro, o sol nasceu com a convicção de derrotar a intensa geada, que por ora, pelas oito, ainda oferece uma vítrea cobertura às ervas que habitam de um e outro lado da estrada.
É com o sol que entretenho o pensamento, e por isso estranho o frio quando chego finalmente e saio do carro, caminhando sozinho, e por entre folhas de Outono, até à capela que hoje me serve de destino.
Passei há pouco à porta da casa do Zé e estranhei o silêncio, não conseguindo estancar a saudade.
Porque é que eu não vim até cá mais vezes? Porque é que só hoje consegui encontrar tempo na agenda?
Definitivamente, os amigos não são gente para adiar, e o Zé repousa agora com o rosto em sossego, naquela capela fria com o altar a oriente, por onde o sol entra de forma intensa através de uma imensa janela, como querendo muito beijar-lhe o sono e a eternidade.
Rezo, desato as memórias, tento articular palavras, e faço intenção de jamais esquecer as gargalhadas e as longas conversas que tivemos enquanto os seus pássaros coloridos desmentiam os dias a preto e branco...
Depois despeço-me com um breve “adeus e até ao Céu”, e rumo a norte, reparando que o sol vencera a geada, perfumando o dia de muito mais azul.
Não quero ouvir música, já rezei o terço, como é meu costume nas viagens, apetecendo-me apagar tudo à minha volta para que as memórias possam eclodir e preencher essa casa vazia a que chamamos saudade.
O sol persiste.
Se eu fosse um homem de fé não me despedia do corpo dos meus mortos para ir procura-los vivos na lembrança. Pelo contrário, sorria-lhes e falava com eles olhando o sol...
Nas manhãs azuis e por entre a saudade que é fria e tem tanto de geada.

 

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Restauração


O povo já não lava no rio porque tem o tanque na marquise ou comprou uma máquina, a prestações, na loja de um Centro Comercial.
Os caixões deram lugar a urnas sofisticadas, e estas já não são talhadas com machados, sendo fabricadas em série, e chegando até nós com o patrocínio da Segurança Social.
Apenas persiste quem diga que nos defende, quem continua, sofregamente, a querer comprar-nos o nosso chão sagrado, e, de forma algo atrevida, resistimos nós perante quem nos queira comprar a própria vida.
A laicidade do Estado ainda não nos livrou do “ai Jesus”, nem de São Bento, que continua a confundir vinho com vinagre, “Salarizando” os Antónios por via da arrogância, muito mais do que por milagre.
O carácter e a honradez estão ausentes mas constam das atas, tal qual a ubiquidade da gente que ousa vir falar-nos daquilo que mais importa: a liberdade.
Por entre a amnésia generalizada e a qualidade de vida cativada, os bois trajarão velcro mas nós não nos livraremos nunca desta dolorosa marrada. Mas, porque do sonho tomámos força e divina centelha, caso não anulemos a “besta” de frente, fá-lo-emos de cernelha.
Vamos sempre ter à mesa vazia, mas que se mantém redonda, rogando à malga, que por via de um beijo de amor, de mão em mão, nos dê o querer onde a coragem não se esquive, e se esconda.
Portugal, entre a angústia e o sal do mar, será sempre apelido de alma, muito mais do que triste fado, valendo-nos Dezembro e esta imortalidade, que por entre aromas de urze e de lama, nos faz caminhar para um tempo doce e restaurado.