sábado, 21 de abril de 2018

Enquanto espero que Abril floresça…


Há muito poucos dias entrei no Panteão Nacional. Parei o carro no Campo de Santa Clara, andei entre tuk-tuks, tomei a bica num café dinamarquês, e esperei depois na fila, calmamente, para poder comprar o bilhete.
Os estrangeiros buscam a varanda e o Tejo, muito mais do que qualquer memória dos lusos heróis, e por isso, caminhei sozinho entre os túmulos “daqueles que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando”.
Sophia repousa em frente de Eusébio, e ali no meio, eu estou entre o sagrado repouso das mãos que ofereceram letra à maior e melhor poesia da alma, e os pés, que em gestos aparentemente simples e banais, semearam gritos de festa e orgulho na alma de um povo que forçavam a ser pobre e triste.
A semana arrasta-se entre tormentos e azias, navegando entre os únicos cabos que restam, os das vassouras e dos trabalhos, em caravelas atafulhadas de influências para cumprirem a vaidade.
A guerra é o desfecho natural da entronização da imbecilidade, e é aroma da indiferença dos que dançam, levianamente, sobre o terreiro onde sepultaram os heróis.
Com as coordenadas aqui tão perto, a gritarem justiça e liberdade desde o lado mais bonito da História.
Preparo-me para sair do Panteão, após uma visita rápida.
Um Português não precisa de subir à varanda do panteão para sentir o mar, porque relê Sophia na memória, e pode treinar a liberdade num golo de Eusébio, enquanto espera por Abril.
Na rua, reparo nas chaminés de um navio, que desde o Tejo, se sobrepõem aos telhados da cidade. É abril, onde já se pressente a liberdade, e Lisboa é toda ela, mar.
Por entre a brisa quente, sou beijado pelas palavras da poesia: “A minha vida é o mar o abril a rua”.
Regresso ao carro por entre o doce cortejar que Lisboa dedica ao sol, sem me aperceber que a esperança é a forma mais simples, mas mais completa de rezar, e esperar que Abril floresça é uma forma de não o deixar morrer.

 

sábado, 14 de abril de 2018

Os dias que nascem a preto e branco, só muito raramente morrem sem qualquer cor…


Por mais que insistam despejar chuva sobre os dias da primavera que sonhámos, nós estaremos sempre tranquilos e felizes, não só por sabermos nadar, mas também porque os beijos são insolúveis na água, tal qual no tempo.
Gosto e não temo os dias que nascem a preto e branco, porque, vencendo aquele possível desconforto inicial, são afinal uma suprema oportunidade de pintar a vida com todas as cores que eu quero e me pede a alma.
Para um assomo de paixão, peço emprestado, por momentos, o vermelho a um morango, convoco um pássaro para rasgar uma nuvem e me trazer uma nesga azul, do melhor céu, e com o pigmento amarelo de um qualquer malmequer do campo, consigo arranjar um tom muito honesto e que não envergonhe o sol.
Multiplico por milhões a folha verde que pedi ao limoeiro, e teço facilmente, um viçoso relvado sobre o cansaço cinzento de uma muito previsível estrada de alcatrão.
Depois de tudo isto, de que sou capaz, deito-me a descansar, recostado sobre um tufo de palha que ficou por ali.
E a chuva?
Apago-a com uma simples borracha que guardei dos meus tempos de rapaz.

sábado, 7 de abril de 2018

O homem e a árvore que fala


Num dia de Abril de um ano qualquer, o homem sem pressa e sem idade, varreu as palavras avulsas que estavam espalhadas no chão de um velho telheiro, juntou-as todas, colocando-as de seguida, na terra fértil que um dia herdara da sua família. Era numa planície imensa, e nas margens da mais generosa das ribeiras.
A vida emerge da esperança, muito mais do que da água ou da fertilidade dos elementos físicos da terra, e por isso, não se surpreendeu, o homem, nem ninguém, quando das velhas palavras surgiu uma árvore frondosa, que lhe ofereceu a alegria de uma sombra imensa, verdadeira bênção da história para os dias mais quentes do ano.
Os “milagres” são consequências da confiança, porque só esta permite ultrapassar tudo aquilo que se julga impossível.
Por ali, sob a copa da árvore, passou a sentar-se, sossegado, o homem, tomando a paz dos entardeceres, e chamando também os amigos, muitas vezes, para juntos saborearem, alegres, e pela noite fora, os frutos desta sua árvore favorita: as maçãs amadurecidas pela primavera.
Às vezes, nos dias frios, desta árvore caiam pedaços secos do seu tronco, que o homem usava para acender o lume, partilhando depois as brasas pelos que moravam perto. Sem dar-se conta, perfumava a chaminé dos vizinhos com a fé de um aroma mais requintado e divino que o próprio incenso.
Descobriu, o homem, em dada altura, que o vento atravessando a folhagem da árvore, contava histórias que ele foi recolhendo e guardando no peito, escrevendo-as depois, nos dias em que tinha mais tempo.
Não há silêncio nem solidão que sobrevivam na alma de quem junta palavras e as semeia na “terra” fértil.

 
(Para esta história agradeço as dicas dos meus amigos Lavínia Bacalhau, São Casco, Mena Rosa, Manuela Barreiros, José Barreiros, Luísa Valente, Zinha Duarte, Guilhermina Sousa e Madalena Barros).

 

 

sexta-feira, 30 de março de 2018

As nossas novas páscoas


Nos quarenta e cinco segundos que o micro-ondas demora a aquecer a caneca do leite, cabem, completas, três Ave Marias.
Sim, aprendi-o nesta quaresma, vivida tão intensamente com o Rui e com o Álvaro, porque as ruas de Jerusalém que ofereceram caminho aos passos de Cristo, têm hoje, as marcas e as cores dos ladrilhos das nossas casas.
A radiação “amiga”, aquela que ao fim de 33 sessões será suposto reduzir as probabilidades de reaparecimento do tumor extraído, começou a atuar, de mansinho, por alturas, precisamente, do carnaval, passou por um pico de intensidade a meio do percurso, apagando-se depois, de seguida e aos poucos, até à última sessão: a que decorreu na passada segunda-feira.
Por mais que acreditemos que a via-sacra termina sempre no domingo de ressurreição, os espinhos, as pedras e os chicotes, agora na forma de náuseas, vómitos, astenia, sonolência… doem muito, marcando o corpo, e sobretudo, a esperança, criando a tentação de desistir, mesmo para quem muito espera essa abençoada madrugada de túmulos vazios.
O jantar, às vezes, não corria muito bem, e o Rui ia deitar-se cedo, deixando-me no sofá a tentar distrair-me com o “Youtube” e “O tal canal”. Pelas onze horas, eu aquecia a caneca cheia de leite, e as tais três Ave Marias, rezadas a olhar o silêncio da noite através da janela da cozinha, nunca me deixaram ficar mal: o leite ficou sempre no estômago, confortando-lhe a noite.
Por mais cansada que ande a lua, ela nunca desiste de se reinventar, cumprindo os ciclos todos que o tempo lhe oferece.
Pedi autorização ao Rui e ao Álvaro para “alinhavar” estas palavras aos quase dois meses que passaram, porque sem elas, eu teria muito pouco para dizer sobre a minha Páscoa, e porque, acredito, talvez elas possam ter algo de Ave Maria sobre o silêncio das noites de alguém.
Quando vos disserem que Cristo caminhou descalço pelas ruas de Jerusalém a carregar a Sua cruz, confirmem-no no desespero de quem se senta ao vosso lado para jantar, sem poder falar claro, porque de repente ficou rouco, ou sem poder comer, porque a boca arde por entre a “morte” de qualquer sabor.
Só as palavras que chegavam, então, dos muitos amigos, continuavam a ser doces, porque o sabor do afeto jamais se perde entre qualquer terapia. As palavras dos amigos, o sorriso e a presença amiga do João Moura na sala de espera… como as mãos da Verónica e as vozes das mulheres de Jerusalém, todas entrelaçadas como lã num cobertor que protege do frio, aqui, no Século XXI, onde tanta gente nos passa pela história, e tão poucos contam para o seu desenrolar feliz.
Os santos não são estátuas enfeitadas no barroco tom dos altares, mas são essa gente que nos abraça e que se apronta a calar-nos o desespero. Os santos são os donos das mãos que apagam a solidão, e o Simão, homem de Cirene, recrutado de entre o povo para ajudar a carregar a cruz, também teve um nome nesta Páscoa: foi o Álvaro. Meia centena de manhãs com sorrisos à janela de todos os segundos, e o gesto que torna impotente, o léxico com que usa agradecer-se.
Quando vos disserem que Cristo ressuscitou numa manhã de domingo, algures nas colinas de Jerusalém, confirmem-no no olhar e na voz de quem segue convosco no carro, de volta a casa, com a máscara enorme e rígida da radioterapia, cúmplice, no banco de trás dentro de um saco de plástico do IPO.
A Páscoa, meus queridos amigos e leitores, é esta imensa ressurreição abençoada pela esteva e pelo rosmaninho, de quem acredita em novas madrugadas e que, insistente, clama por elas, às vezes no brevíssimo instante que o micro-ondas demora a aquecer uma caneca de leite.

sábado, 24 de março de 2018

As paredes de cal são como os nossos dias


Por mais que alguém possa assumir e afirmar o contrário, os dias nascem para nós sermos felizes.
Na semana que passou celebrámos o pai, a primavera, a poesia, a árvore, e a água, lembrando-nos assim, estes “post-its” colocados à superfície do tempo, que os dias nascem para serem compartidos com aqueles de quem mais gostamos e quem nos acrescentam vida, não devendo existir pudor ou medo de deixarmos para trás as demais criaturas, marcos parados e petrificados das estradas que já fomos.
Lembram-nos também que a água limpa todas as mágoas, abraçando-a ou olhando-a, apenas, de perto ou de longe, na corrente de um rio, de uma fonte, ou então, na imensidão revolta ou tranquila que tem o mar.
Para além disso, por mais rigoroso e dificil que seja o inverno, as árvores são iguais a nós no instante em que se cobrem de flores e folhas, reinventando-se sempre que chega a primavera.
E a poesia?
Anda por aí, por todo o lado e todos os dias, embora costumem chamar poetas àqueles que tiram uns apontamentos, partilhando-os depois com o mundo.
No culminar desta semana, ainda registo o facto de a minha avó Natividade, que partiu há já 20 anos, ter nascido fez ontem precisamente 106 anos. Sempre que me ia levar a casa dos meus pais, depois do jantar, eu e a avó íamos pela rua a inventar histórias, aproveitando os “desenhos” que nos eram oferecidos, inadvertidamente, pelas fachadas mal caiadas da nossa Vila Viçosa. Não eram desenhos tão precisos e artísticos quanto os do Vhils, mas a nossa crença fazia o resto.
As paredes de cal são como os dias, quando, por mais feias e desassossegadas, existem para nos fazerem felizes.

segunda-feira, 19 de março de 2018

O meu pai...


O meu pai inventou um assobio só para me chamar, e chamar o meu irmão. Entre milhões de outros sons, que até podem ser parecidos, nós conseguimos saber quando ele nos quer por perto, mesmo sem precisar de dizer os nossos nomes.
O meu pai é adepto e sócio do Sporting, e apesar de nos levar cachecóis e gorros verdes e brancos, de cada vez que vinha a Alvalade ver um jogo, não conseguiu derrotar o Eusébio, evitando que nos tornássemos ferrenhos defensores, e sócios do Benfica. Vingou-se mais tarde, não se convertendo nunca às piadas do Herman José, e mantendo-se fiel ao Cantiflas:
- Como é que podem achar graça aquele “esparvêrado”.
O meu pai só frequentou a escola até à quarta classe, mas foi ele quem me ensinou a fazer contas.
Eu faço cócegas ao meu pai, quando o apanho desprevenido, e ele, impávido e sereno, diz sempre:
- “Nãaa”, podes desistir. Mas se fosse eu a fazer-te a ti...
Gosto de tomar o pequeno-almoço com o meu pai, os dois de pijama, quando estou em Vila Viçosa. No final negociamos quem irá primeiro para a casa de banho, e invariavelmente ganho eu. Ele não se fica, e diz:
- "Nãaaa" me importo. Vou dormir mais um bocado.
O meu pai é quem mais gosto de ter ao meu lado enquanto conduzo. A mãe boceja lá atrás, depois do primeiro quilómetro de vigem, e nós divertimo-nos olhando-a no espelho.
Às vezes dou conta que o meu pai se esquece de algumas coisas, mas como eu tenho boa memória (assim o diz toda a gente), divido-a pelos dois em partes iguais, e então, ambos fazemos boa figura.
Gosto de ir tomar café com o meu pai, caminhando devagar até à pastelaria perto da nossa casa. Mesmo que já conheça muitas das histórias que ele me conta, quando paramos debaixo de uma laranjeira, eu “sorvo-as” como se fosse a primeira vez, prevenindo qualquer saudade que o tempo possa semear entre os dois.
O meu pai refere-se sempre a nós como “os meus gaiatos”, e eu gosto muito.
Também gosto quando o meu pai me diz, ao despedir-se de mim:
- Vai devagar para chegares depressa.
E eu vou sempre devagar.

sábado, 10 de março de 2018

As ruas do trovador


A mãe é costureira, e nos anos da minha infância, quando morávamos na rua de Três, em Vila Viçosa, tinha com ela aprendizes, raparigas nossas conterrâneas dispostas a seguir-lhe os passos na sua arte. A banda sonora dessas tardes longas em que eu brincava nas escadas de pedra que davam acesso à varanda, era a conversa com que elas acompanhavam os chuleios, os alinhavos, o casear e o cerzir, quase sempre, também, na companhia de uma das avós ou de alguma tia, que chegavam para dar uma ajuda em dias de mais trabalho.
Sentadas nas cadeiras baixas com assento de buinho, as suas palavras saltavam como numa dança de roda, oferecendo um coro inspirado à ópera cujo libreto eu ia inventando, como podia, entre casinhas de papel ou carros miniatura, numa cidade só minha.
Às vezes parava para tomar-lhes o sentido de para além do som, e por todas essas palavras que me era permitido escutar, muito cedo aprendi a desmontar a ideia de que esta era a assembleia informal da “gente menor”, esperando que a sua congénere forte e maior, a dos homens, chegasse a casa lá mais pela hora de jantar.
Sim, os homens eram reis sentados num imponente castelo, porque as mulheres, pedra a pedra, tinham o poder de lhes construir as muralhas, com o cimento da generosidade e da suprema honestidade.
É mais forte quem quer do que quem pode, porque o músculo é benefício da alma.
As agulhas, as linhas e os tecidos, não tinham, definitivamente, o toque metálico das ferragens de um campo de ciganos, mas eu, um pequeníssimo Il Trovatore, cantarei sempre a voz de coragem dessas mulheres que enchiam as ruas das cidades que eu inventei.