sábado, 14 de julho de 2018

Os dias que contam…


Os dias que contam são aqueles em que finalmente descobrimos rosas por entre a hortelã, mesmo que há muito tempo nos venham chamando insensatos e loucos à margem da razão.
Como se alguém, a não sermos nós mesmos, pudesse desenhar um GPS que cumpra o exclusivo tom da vontade que trazemos no coração...
Sim, é verdade que às vezes entramos por cavernas escuras, por pura curiosidade, ou tão só porque tentamos fugir da chuva, mas isso não subverte o destino maior inscrito no ADN dos Homens: a liberdade.
Passamos frio, choramos de saudade, sentimos a fome no estômago e a solidão no peito, oramos, se acaso tivermos fé, e quase sempre, beneficiamos da chegada de um amigo que se revestiu de coragem e mergulhou para nos resgatar do medo, por mais estreitos e escuros que sejam os caminhos até nós.
Às vezes as notícias do Telejornal ilustram as nossas vidas e os dias que nos oferecem para sermos nós.
Existirão vantagens no escrupuloso cumprimento da previsibilidade?
O abraço onde se concretiza um beijo longo e sem pressa, desmancha sempre a rota paralela e previsível dos nossos passos sobre a areia, porque um beijo que se preze não dispensa nada da alma e do corpo, nem mesmo os dedos dos pés, envoltos então no aroma das rosas... e da hortelã.

 

quinta-feira, 5 de julho de 2018

No instante em que eu nasci...



No instante em que eu nasci, o relógio da torre de São Bartolomeu já se preparava para assinalar o meio-dia.
Como era hábito numa terça-feira do mês de Julho, ao toque do relógio e das buzinas das fábricas, os homens encetaram o caminho de regresso a casa, para o almoço, descendo a praça num passo tão acelerado que quase parecia irem a acudir a algum fogo.
Nesse mesmo instante, no pequeno quarto interior, mas com duas portas, terá restado uma cova no colchão de esponja, rapidamente apagada pelas mãos enérgicas da avó Chica, empenhada em oferecer à cama uns lençóis lavados.
A avó Dade terá ido “conversar” com Nossa Senhora da Conceição para lhe agradecer a saúde do neto, e a tia Bia terá chegado com um alguidar e um sabão especial, porque as fraldas do menino não poderiam ser lavadas na companhia de qualquer outra roupa.
A tia Joaquina Rosa trouxe uma canja com pedaços de galinha do campo.
Não poderei recordar-me com exatidão, mas estou certo que a minha mãe se comoveu ao apagar-me o choro, entregando-me o lado de fora do seu peito; porque o lado de dentro já me pertencia com a força de mil anos. O meu pai terá disfarçado o nervosismo e a emoção empenhando-se em algumas tarefas domésticas para as quais não tinha qualquer jeito.
Na noite de lua cheia que se seguiu a esse instante, terei adormecido escutando as vozes animadas das vizinhas na rua, e nem terei dado conta da chegada do vizinho Grilo, que era estafeta e que viajava sempre no comboio da noite.
Não sabendo como acabará esta história, sempre poderei dizer que ela começou num instante, em que sem perturbar o universo, Deus resolveu oferecer ao mundo o “grito” de um rapaz, a quem chamaram Joaquim Francisco, em atenção a ambos os avós.
Foi numa casa simples de primeiro andar, em Vila Viçosa, na Rua de Três, numa manhã quente do verão de 1966.
Tudo aquilo que foi acontecendo entretanto teve raízes nos detalhes simples, mas inigualáveis, que existem no lado de dentro do peito de quem me ama.

domingo, 1 de julho de 2018

O caminho de regresso...


Há momentos a que viramos definitivamente as costas para regressarmos a nós, aproveitando a estrada que os nossos pés calcaram sob o peso imenso da ilusão.
Uma pedra projetada sobre a vontade branca e limpa pode parecer um cais e um abraço, mas só até o sol sucumbir ao cinzento tom das nuvens. Nesse instante desmascaram-se as sombras, e a pedra passa a ser aquilo que sempre foi: uma pedra, ainda que possa estar enfeitada de flores na raiz onde beija a terra.
Porque o amor nunca nos pertence, talvez nada seja tão completamente meu quanto o silêncio deste caminhar de regresso a mim pela estrada onde as silvas já não são casas das amoras, e o perfume da esteva se apaga no incómodo da sua resina que nos mancha as mãos.
O caminho de regresso de um amor é a lucidez, invertendo a marcha na rotunda onde alguém inventou uma estátua para “celebrar” a ilusão.
Mas eu sei que nesse caminho de regresso eu já não sou o mesmo que passou ali quando o tempo ainda era azul, e talvez eu só tenha ido lá à frente buscar a perspetiva ideal para poder descobrir a vereda pequena  que se me oferece num quilómetro qualquer que eu nem sequer fixei.
Então, sacudo os pés, benzo-me a Deus que me espreita do ouro de uma giesta, e sigo caminho com toda a força de acreditar, tomando nota das palavras com as quais vou enfeitando, no pensamento, a música que levo no assobio.
Viver é não ter medo de arriscar escolher todas as veredas que desconhecemos, mas que num determinado momento nos provocaram um arrepio.
 
(Agradeço a foto à minha amiga Ana Carvalho)

sexta-feira, 22 de junho de 2018

First family...


Na antecâmara do verão, os últimos dias foram os mais longos do ano, e aqui desde a janela que nomeei “guarita norte” da minha humilde casa, vou espreitando esta luta dos dias, que recusam render-se à noite, por entre as batalhas que tingem o céu de fogo e de cores quase impossíveis.
Era tão bom que todos aprendêssemos a rezar assim, sem fórmulas pré-escritas e reconhecendo Deus na liberdade…
Mas estes também têm sido os dias das gaiolas, com os meninos enjaulados a cruzarem os seus olhares de medo com as grades de ferro e arame em que alguém os fechou. O maior pecado do mundo é cometido por quem troca o mel pelo medo no olhar dos meninos.
Numa recente visita a Washington vi à venda postais com a foto da “First Family”. “Shame on you Mr Trump”, apetece-me dizer. Os primeiros são aqueles que tratam os outros na coerência da dignidade que reclamam para si próprios, sendo deplorável que a “Primeira família” não pratique a regra da “família primeiro”.
“Eu não consigo ver essas imagens e desligo a televisão”, confessou-me uma colega no outro dia antes de voltar a pegar no assunto das férias, a sua maior preocupação por agora que o sol brilha de forma intermitente.
Estes são os dias das gaiolas e também da indiferença.
Eu quero lá saber se o mundo morre, se afinal, Albufeira continua viva e à minha espera.
Olho mais uma vez para o céu de Junho e aprecio-lhe os tons rosa e azul.
Não sei porque é que às vezes insistem chamar-me poeta, se é coisa que eu definitivamente não sou.
Se fosse aquilo que me chamam, eu tomaria do firmamento todos os seus detalhes, daria três passos para trás, respiraria fundo enquanto tomava inspiração e músculo, para ao melhor estilo do Cristiano Ronaldo, fazer com que o mundo ultrapassasse todos os muros e se “encaixasse” no sítio certo.
Embora não pareça, no meio desta nossa apática complacência, ainda persiste o certo e o errado, sendo que o primeiro será sempre aquilo que garante a dignidade.

domingo, 17 de junho de 2018

Todos os livros são cartas de amor...


Tenho não sei quantas histórias guardadas no peito, que um dia escreverei para ti, talvez em segredo, para que tu as possas ler sob o perfume doce das tílias, nas tardes de primavera.
Sim, porque só o amor descodifica os trincos dos pórticos desse sagrado silêncio onde fomos guardando tudo aquilo que o tempo nos fez sentir.
Por isso, se me perguntarem aquilo que sou, manda a verdade que eu diga que por ti me fiz pedreiro, só para poder aprender a melhor técnica de rasgar janelas no peito e no silêncio, depois de devidamente escancaradas as suas portas.
Mas por ser necessário vestir palavras a esse tanto que espreita nos parapeitos dos sentidos, eu assumo que por ti também me fiz alfaiate, de modo a poder ajustar cada letra ao mais ínfimo detalhe, sem necessitar de recorrer a forros ou entretelas.
No jardim onde te sentas a ler, construíram entre as tílias, um cavalo alado, aproveitando a madeira de algumas árvores que o tempo secou.
Quantos beijos abraçaram essas árvores? De quantos amantes foram cúmplices os seus imensos e anónimos troncos?
Na tarde de um sábado de Junho que traiu a primavera, desço o Parque Eduardo VII entre as tendas de livros e a barraca das farturas que as derrotam por goleada de público.
Sento-me numa cadeira de plástico numa praça colorida, porque hoje me pediram para vir aqui falar sobre essa coisa de ser escritor.
Como se eu fosse algo mais que um pedreiro e um alfaiate, que por ti espera a hora de ser carpinteiro para conseguir oferecer a forma de um cavalo com asas, à memória do tanto que guardei e que quero que tu leias sob as tílias.
Porque todos os livros são cartas de amor, mesmo quando deles não se escuta nada mais do que a ausência desse doce sentir.

sábado, 9 de junho de 2018

Quanto tempo existe no espaço de uma hora?


- Quanto tempo existe no espaço de uma hora?
Eu roubei-me à pressa de um fim de tarde de trabalho, mas a enormíssima maioria dos espectadores que comigo se sentaram no teatro, fizeram-no relativamente à dolorosa lentidão dos seus dias.
De início toda a gente me olhou de viés, mas depois das primeiras palmas e dos sorrisos cúmplices, quando se certificaram que eu não me equivocara e que sabia muito bem àquilo que ia, adotaram-me facilmente como um dos deles. Talvez o substituto do neto que se esquece de passar lá no lar.
O meu colega Renato reformou-se há alguns anos, e agora, com a idade já pelos setenta, juntou-se a um grupo de seniores para ensaiarem um espetáculo de Revista à Portuguesa. Ele e a mulher, a inevitável e queridíssima Margarida.
Na semana passada telefonou a convidar-me para a récita:
- O Barreiros não quer vir assistir à minha interpretação de um fado do Carlos do Carmo? Um fado genérico, já se vê.
A terminologia dos nossos muitos anos de trabalho mantem-se nas conversas entre os lançamentos de livros e o Estádio da Luz.
Eu respondi que sim, acertei o dia em que poderia estar, mas aqui para nós que ninguém nos ouve, eu acho que o Renato nunca acreditou que eu aparecesse.
Se foi o caso, enganou-se, pois eu lá me sentei numa das filas do teatro Gil Vicente, em Cascais, para assistir ao espetáculo dos “Cascotas”, ensaiado por um ator profissional.
Continuando pela linguagem própria do nosso meio farmacêutico, eu diria que “Cascotas” é um bom nome comercial para a substância genérica “Cloridrato de nunca desistir de viver”.
O Renato cantou o “Lisboa menina e moça” com uma “bioequivalência” superior, e ele, a Margarida e todos os demais camaradas de tábuas conseguiram divertir-me e comover-me durante mais de uma hora. A mim, a tal “ilha de pressa” no mar da lentidão que foi chegando de autocarro desde os lares e centros de dia do município de Cascais.
Respirar é um detalhe quase desprezível, porque o essencial de viver é sonhar e fazer acontecer aquilo que julgamos impossível.
Sonhar e trazer os outros para dentro do nosso sonho, generosamente, como quem sabe que o amor será sempre o sal e a pimenta para essa vida da qual nunca nos abstemos, mesmo que os dias, por vezes, nos façam passar por um qualquer pedaço de inferno.
- Quanto tempo existe no espaço de uma hora?
- Não sei, tudo depende da solidão – respondi eu ao mar de Cascais depois de deixar o teatro e de me oferecer um passeio breve até à praia.
Subtraí-me à pressa e sentei-me na mesma hora lenta dos meus camaradas de plateia, e de palco.
Não me perguntem porquê, mas senti no regresso, fazendo a marginal, que tinha ido a Cascais aprender uma lição. Numa “sebenta de riso” cabe matéria muito séria e muito útil para os dias… e para os “exames” do futuro.  

 

sábado, 2 de junho de 2018

Uma cadeira na solidão…


Quem pensa pela sua própria cabeça arrisca-se a sentar-se sozinho numa cadeira com aspeto desprezível, à esquina de uma velha rua onde todas as casas ruíram por força da solidão.
Sem o confortável “chapéu-de-chuva” da multidão onde se dilui a identidade, ficaremos por ali sujeitos ao dedo feroz e acusador das intempéries, e de todas as agruras do tempo e das más vontades.
Nos tempos que correm, eu não compreendo os “democratas” que dividem o mundo entre eles e a estupidez, provando que Santa Comba Dão é demasiado próxima da Sibéria e de Pequim.
Também tenho alguma dificuldade em compreender aqueles que veem a vida à luz de uma história onde se confrontam os bons e os maus, com as fronteiras dessa classificação a serem definidas pelas convicções partidárias, as religiões, o estatuto social, o género… ou quaisquer outros humanos agrupamentos.
Confesso que também não tenho muita paciência para a gente ao estilo “Bola de Berlim com recheio de caviar”. Concentrados no elevado valor do seu ego, esquecem-se que são perfeitamente intragáveis para os demais que os têm de “provar” em qualquer interação, por mais pequena que ela seja.
Entre as casas que ruíram crescem flores para nos lembrarem a primavera, e o horizonte saboreia-se melhor desde o espaço onde estamos sozinhos, do que do meio de uma imensa multidão.
Mesmo que nos doa muito a ausência de um abraço, o Homem cumpre-se na convicção e na coerência que se exprime nas palavras e nos gestos.