sábado, 23 de maio de 2020

A vida é bela



Nestas manhãs de primavera tenho o aplauso dos pássaros, quando ainda ensonado, abro as portadas de madeira da janela do quarto.
Nas manhãs, como em tudo na vida, o sol faz a diferença, e sempre para melhor.
Quer falemos do astro rei, quer daquele outro que irradia pelo olhar ou pelas palavras bonitas da gente que gosta de nos mimar.
Esta semana “desconfinei” um pouco mais, e que bem me soube o café matinal tomado na pastelaria Tiborna, aqui bem perto de casa, em Vila Viçosa.
A máscara não nos esconde o sol, e eu acho até, que à semelhança do que Roberto Benigni idealizou no filme “A vida é bela”, eu e os meus conterrâneos resolvemos assumir que isto não é, afinal, uma guerra, mas antes um imenso jogo entre uma espécie de cowboys, de mascarilha, que no final teremos vencer, por arte e empenho, muito mais que engenho.
Não sei se é um modo de estar muito alentejano, mas às vezes parece-me que sim, este de levar a vida pela positiva, e sempre a rir, sem que tal belisque a responsabilidade que nos cabe.
“Muito riso e muito siso”, porque já que agimos devagar, sobra-nos tempo para conciliar aquilo que os outros não conseguem.
Para além disso, o choro embacia a realidade, e cria ruido no espaço onde é suposto emergir a mais doce poesia.
E aqui, na pastelaria, os mesmos que antes soltávamos os beijos, os abraços e os apertos de mão, concentramos agora o sol no olhar, fazemo-lo sorrir e brincamos por nos reencontrarmos já adultos, com esta possibilidade de “mascarados”, termos tudo para vencer.
Quando abro as portadas de madeira da janela, sei como correu a noite, porque durmo sintonizado no respirar do meu pai, no quarto ao lado.
Não sei como será o nosso dia em família, mas ouço o aplauso dos pássaros e deixo-me sorrir, rezando, por acreditar no sol.
“Buongiorno principessa”, repito, como Benigni, numa saudação à vida, essa princesa que nos desposa em cada ato simples de acordar.

sábado, 16 de maio de 2020

Fátima e uma noite vazia mas inteira



Quando era rapaz íamos a Fátima de autocarro, com as amigas e os amigos, mais os pais deles.
Na noite que antecedia a partida, as nossas mães mal dormiam porque havia que terminar de fritar os rissóis de pescada, cozer as empadas de galinha, tostar o arroz no forno, para além de cuidar da arrumação de todas as iguarias na geleira.
Ao contrário do tempo das nossas mães, que era escasso, o nosso mal se movia, e nós também dormíamos mal, mas era com aquela ansiedade de quem ainda vê longe a manhã.
Partíamos antes do sol nascer, e ali por alturas de Ponte de Sôr fazia-se uma paragem técnico sanitária para alívio das bexigas, com o género como critério e a estrada como fronteira.
Rezávamos e cantávamos durante a viagem, socorrendo-nos da Playlist que a Zinha tinha elaborado na semana anterior.
Também existia sempre alguém que enjoava por força das curvas da estrada, mas como não era doença de perigo, a coisa até servia para distrair.
Chegávamos a Fátima...
Ficávamos juntos, repartíamos o farnel em longas mesas improvisadas, bebíamos Sumol, alugávamos quartos numa pensão qualquer e depois íamos rezar... até ao almoço do outro dia.
Talvez nunca tenhamos percebido muito bem porque gostávamos tanto de estar ali, sem que a busca de tal resposta nos ocupasse muito a quota de preocupações.
Era uma paz imensa em dias de família e amigos, à sombra de Deus, no vale fecundo onde correm ribeiras frondosas e o mel silvestre nos preenche de tal forma, que nunca chegamos a sentir fome.
Na noite de 12 de maio, e no silêncio de Fátima com que o D António Marto deu mil a zero à Isabel Camarinha da CGTP, aqui sentado em casa com os meus pais, senti que o recinto do santuário se tinha finalmente rendido à evidência, assumindo ser demasiado pequeno para os tantos que somos Fátima, e de Fátima.
Portugal não cabe, definitivamente, ali.
Porque a paz dos vales fecundos e da sombra de Deus está onde nós estivermos, viaja connosco, e, naquela altura em que eu era rapaz, até viajava de autocarro entre as lancheiras e a playlist da Zinha.
É claro que por entre esse silêncio reouvi o nosso canto, as nossas gargalhadas, o rosto dos que já partiram... com saudade, estão eles e todas as nossas idades, tatuados na memória de um lugar que terá sempre a dimensão da alma de quem o procura, caminhando dia e noite, sem temer os pés.
Uma alma lusitana, imensa como o mar, porque infinitamente cheia de Deus.
O “vazio” de Fátima foi apenas uma pausa para que a sentíssemos imensa dentro de nós.


sábado, 9 de maio de 2020

Frívolas virtudes no país da norma



Há alguns anos, durante uma conversa sobre as religiões e a sua dimensão cultural, um amigo comentou de forma muito natural, que nós, os católicos, seremos confrontados com maior exigência na hora do juízo final, tão só porque nos foi dado conhecer o “verdadeiro” Deus.
Nós já saímos da Idade Média, mas ela insiste em não sair de alguns de nós.
Um outro amigo, e numa outra conversa, confessou-me a sua satisfação por ter encontrado uma médica que lhe solucionou o seu problema de saúde, afirmando de forma muito natural:
- Ela é Brasileira, mas é muito competente.
Já se ela fosse boa a tirar bicas num bar qualquer.
E por acaso em Paris, nós, os Portugueses, também estamos identificados como sendo bons a limpar casas de banho.
Ainda hoje sou questionado sobre se sei cozinhar, limpar a casa ou passar a ferro, dado que vivo só há trinta e seis anos, e a recorrência da pergunta deve-se apenas ao facto de eu ser homem.
“A mulher na sala e na cozinha”, ainda e sempre como no famoso livro da Laura Santos, contemporâneo da revista “Ela, donas de casa”, que escolhia a “mulher ideal” através da qualidade de um bom suflé.
Num mundo onde o conceito de família ainda é o agrupamento de mulher, marido e filhos, alinhados num piquenique em foto de tampa de caixa de bombons, as mulheres solteiras serão sempre as “encalhadas”, que por incompetência não conseguiram cativar nenhum homem, e os homens solteiros são invariavelmente estroinas e sem sentido de responsabilidade.
E a felicidade, o que é? Uma figura de estilo?
E a liberdade? Uma avenida e um spray de modernidade despejado sobre o mês de abril?
Às duas da manhã, numa rua esconsa da cidade, cruzamo-nos mais confortavelmente com alguém da nossa etnia, do que de qualquer outra, mesmo que tal criatura, parecido connosco na sua tez, seja um perigoso serial killer.
Desconheço se algumas vezes se depararam com situações e apreciações destas, mas ouso acreditar, pela recorrência com que as enfrento, que sim.
Nós somos a norma, e os demais são a aberração ou a patologia, que quanto muito, e por generosidade, eu até tolero, mas de longe.
Se o Homem não fosse o seu coração…
Mas a verdade é que é, e a primeira fidelidade que importa é a que deve a si mesmo, por muito que tal possa ferir o “padrão” que não vive nas sebentas e nos catecismos, por onde falam os Homens com pretensões a “deuses”.
Em maio celebra-se o Mês Europeu da Diversidade, que para algumas pessoas, confortavelmente sentadas nas suas cartilhas, será um mero devaneio folclórico de esquerdistas, gays e mulheres que não gostam de usar soutien.
Mas a diversidade, de onde emana a extraordinária riqueza do universo, é a expressão, nas múltiplas faces, da legitima diferença que nos habita o coração.
Ninguém é ridículo ou menor quando se cumpre a si mesmo nas suas mais fortes convicções, e a honestidade e a competência não têm vínculo a qualquer “estatuto”, género, etnia, orientação sexual, ideologia, crença, nação ou condição.
Sem o “nós e os outros”, porque a diversidade aceita-se e vive-se na inclusão, e aí, todos somos orgulhosamente iguais.
Por entre a liberdade que se celebra no peito e na poesia de cada um.
E quando se pede a paz, é urgente a coerência de a cultivarmos pelo respeito absoluto do outro, começando nestes mais pequenos detalhes.
É isto que eu, convictamente, quero para mim, para os meus e para o meu país.


(O desenho é da autoria do meu sobrinho Luís Barreiros)

sexta-feira, 1 de maio de 2020

A noite é a pátria das rosas


A noite é a pátria das rosas, e em Vila Viçosa, quando os sinos se retiram, logo após o bater das dez, só elas se escutam num linguajar com tanto de perfeito como de enigma.
“Quando inerte, na paz do cemitério, o meu corpo matar a fome às rosas”.
Florbela repousa aqui, neste chão que nos pertence desde o berço, e talvez o canto sem frases e sem véus que se escuta à noite, seja o pão dos poetas, tomado docemente num purpuro banquete de sangue impregnado de verdade.
À noite saio para falar com as rosas, e tomo-lhes o prenúncio de maio, no desassombrado espreguiçar das pétalas ao sabor do vento que corre de todos os lados.
Não sei o que sou, e talvez jamais o consiga saber, mas nada poderá ser tão verdadeiro a definir-me, quanto este assumido deleite de um homem que sai à noite para falar com as rosas, e tomar-lhes o perfume que emana dos seus mais estranhos vocábulos.
Porque ao contrário do catastrofismo crónico da voz dos arautos da sensatez, do cinzentismo do traje de prudência usado para travestir o medo dos submissos, e da acidez das sacristias que trai as manhãs de ressurreição... não existe silêncio que não tenha flores.
E quando, pelas sete da manhã, os sinos se devolvem à música que chega aos prados e trepa colinas, ter-nos-emos reinventado segundo as letras e a alma do sonho inédito que há tanto tempo esperávamos.
A noite é a pátria das rosas, como um eterno e repetido maio onde cada um se redescobre mais forte e maior.
Que maio nos devolva o melhor que têm os dias, por entre o perfume do campo e o pão novo.
 
 

 

sábado, 25 de abril de 2020

A liberdade



À pergunta sobre onde me encontrava no dia 25 de abril de 1974, responderei que na Escola Masculina de Vila Viçosa. Com quase oito anos e a frequentar a segunda classe, terei por certo feito um ditado ou uma cópia socorrendo-me de algum dos textos do livro único por onde todos aprendíamos.
O mesmo livro de há muitos anos, onde todos os homens eram honrados e pobres, as mulheres domésticas de avental, e os rapazes e as raparigas, cada um para seu lado, éramos limpinhos apesar dos remendos na farda.
Liberdade?
Não entendi então, e com clareza, sobre o tanto que aquela palavra se ouvia numa quinta-feira que amanhecera húmida e algo fria, para um tão avançado abril.
Entendi mais parte o valor da palavra e do conceito, à medida que fui crescendo sem deixar de poder ser eu.
Tinha muito boas notas, era dos melhores alunos da turma, e era um génio, não por sê-lo de verdade, mas porque muito pouco haveria de esperar do filho de uma modista e de um barbeiro.
Ainda se um dos meus pais fosse dos “ricos” da nossa terra...
A liberdade?
Divorciou o meu destino daquele outro dos meus progenitores, que mesmo sendo alunos de quadro de honra na instrução primária, foram aprender os ofícios que eram próprios da sua condição. E muito agradecidos pelo avanço em relação ao analfabetismo dos meus avós, honrados trabalhadores que, de sol a sol, ceifavam os campos loiros do celeiro da nação.
Eu segui até à universidade, licenciei-me, arranjei emprego por mérito, com a possibilidade de no caminho ter lido na íntegra e sem censura, todos os livros que quis, ter escutado os discos que o gosto me foi ditando, de ter visto os filmes sem qualquer corte induzido pela moral e os bons costumes.
A liberdade?
Saboreei-a sempre nas palavras ditas e escritas por vontade, sem medo ou noção de proibido, e sem represálias.
Alguns anos antes de eu ter nascido, o tio Zé ficará sem três dentes ao primeiro soco dado por um dos agentes da PIDE que lhe bateu à porta, aí pelas três da madrugada.
A liberdade?
Saboreei-a e saboreio-a todos os dias na verdade dos meus beijos dados sem o silêncio ou a escuridão dos biombos.
Ao contrário de antes, não é suposto travestir o desejo, deixando-nos morrer passivamente às mãos pérfidas do bem parecer.
A liberdade?
Abraço-a quando tenho a possibilidade de votar no partido ou na pessoa que me aprouver, quando vou à missa com o mesmo à vontade com que os crentes de todas as religiões o fazem no acesso aos seus atos cultos...
A liberdade?
É a aliada do Homem inteiro, é o elo por onde a diversidade se cumpre de respeito, e a paz pode finalmente acontecer.
A liberdade?
Não é privilégio ou exclusivo ideológico, porque é de todos e da coerência que alinha com a alma, qualquer gesto e todas as palavras.
A liberdade?
É muito mais do que apenas uma madrugada ou uma canção, ainda que às vezes, e para que ela aconteça na agonia dos livros únicos, Lisboa tenha de subir ao Carmo, trajando cravos por sobre o vestido vermelho de uma revolução.


Agradeço a montagem da foto à minha querida amiga Ana Patrícia de Carvalho.


quinta-feira, 23 de abril de 2020

O livro


O livro é a viagem solitária de um Homem nu e descalço, por sobre o barro, as estradas e as ruas que a alma lhe pede, existam elas ou não.
O livro, inevitavelmente, tem o coração desse Homem a bombear sangue para a gente toda que ele diz, incendiando-a de um despudor que não omite chagas, risos, dores, e outros sentimentos que tais.
O livro é o eficaz antídoto da morte, constrói casas, derruba telhados, ressuscita fontes e rios, aproxima-nos do mar, traz areia do deserto, o aroma da savana…
Tendo uma impressionante memória, o livro brinca com as horas, empurrando-as ou aproximando-as a seu belo prazer, ao mesmo tempo que destrói a ordem natural de todas as coisas. À exceção do dicionário, que o faz por obrigação, que outro livro abarca em si a noção de impossível?
Palácio das antíteses, o livro consegue fazer nascer por entre a morte, põe palavras para acalentar silêncios, e oferece a mais irrequieta mobilidade a quem se dispõe a estar quieto.
A maior mentira de um livro é o seu ponto final, porque a estrada poderá sempre continuar um pouco mais à frente.
Apesar da nudez, e independentemente da estação, num livro quase nunca se sente o frio, porque para essa eventualidade ele dispõe dos poemas de amor, que, quanto muito, conseguem produzir um doce e suave arrepio.  

 

domingo, 19 de abril de 2020

Novas aventuras do cerco



É verdade, o cerco continua, e de cada vez que dou título aos meus post sobre o dito, confesso que me sinto a Enid Blyton a batizar os livros da saga de “Os cinco”. Tudo isto porque sou seu fã, e ainda tenho pendente uma visita ao País de Gales em busca dos Rochedos do Demónio, da Quinta Finniston e do Lago Negro.
A registar, amigas Margarida, Patrícia e Sónia, mas só depois da Islândia.
Para quem está sitiado, como eu estou há mais de um mês, a companhia dos melhores pais do mundo, e um céu que muda a cada repelão de sol ou trovoada, dá-me um ímpeto enorme de aproveitar aquilo que não é um castigo, mas apenas uma oportunidade alternativa de ser feliz.
Sim, confesso, sou um indefectível do otimismo.
Também sou indefectível da liberdade, achando por isso que ela deva ser celebrada todos os dias na alma e nos gestos, sejam eles diferentes ou iguais.
Por ser da fé, também considero que a forma mais eficaz de beijar a Cristo é estar próximo e ser aliado de todos os que nos rodeiam.
Tudo o mais é folclore que reduz a liberdade a um ícone ideológico, e a Cruz a um elemento bacoco de uma cruzada de apenas vaidade.
O símbolo não pode trair ou ofuscar a essência.  
Isto hoje vai num tom muito sério, mas não se assustem, porque foi só até aqui.
Lembram-se de um anunciado poema dedicado à tampa do depósito dos resíduos indiferenciados?
Pois, meus amigos, não foi necessário esperar mais duas semanas, tendo bastado apenas uma, e mais sete idas glamourosas a despejar o lixo na estação que fica junto ao lago.
Aqui fica o poema, esperando eu que o apreciem:

Quando à noite a minha mão te afaga
para suavemente desenhar contigo
uma vertical com a lua
sobre o eclipse dos despojos
de qualquer dia
abre-se para o céu
em coerência de prata
a minha rua

Em prol do âmago
e da verdade
as cascas fenecem
entregues à terra
envoltas nas espinhas cruéis
e nas ervas amarelecidas
que o frio queimou

As alvas folhas
que as entranhas traçaram
no aliviado regresso ao respirar tranquilo
são agora apenas fétida memória
por entre o bolor que morrendo
restitui valor ao tempo novo
calando o prazo que caducou

A minha noite ganha então
novo fato
apagado o dia
naquilo que por não ser meu
permaneceu no prato

O meu sonho
correndo sem medo
e com pressa
por essa incansável rua
que desenhei contigo
e por ti
flui sem barragens
liberto que está do pó da casa
das aparas das unhas
dos resíduos das feridas
e da folha de alumínio d’ “A vaca que ri”

Um grande abraço, permaneçam em casa e divirtam-se, porque para nos rirmos só precisamos de nós.