sábado, 20 de abril de 2019

O meu Deus...


O meu Deus ressuscita, tal qual o canto das ribeiras numa tarde de chuva, sempre que eu ofereço ao tempo adverso, o meu rumo e os meus aromas, fazendo do inócuo silêncio, uma canção perfeita que me espelha na rima de cada verso.
O meu Deus foge então dos sacrários e dos altares, para caminhar pelas ruas no peito da gente, espreitando pelo riso e pela esperança que são próprios de quem vive contente.
O meu Deus trocou os mantos de veludo pelos gestos talhados pela vontade, trocou a sumptuosidade dos templos pelas vielas, rejeitou a hipocrisia, trocando-a pelos beijos de amor, que o são de verdade.
O meu Deus passou pela cruz, mas é a alegria que se abraça num sepulcro vazio.
O meu Deus, todos os dias, e não só nas manhãs de Páscoa, é a minha vida inteira a repousar num abraço onde não se sente o frio.

 

domingo, 14 de abril de 2019

Na aparência de estar só...


Na aparência de estar só, o silêncio nunca é a casa de quem escreve. Há gente que canta, que conversa connosco durante muitas horas, há gente que grita, e até há gente que, preparada para tomar corpo de letra, ressuscita.
Quando se escreve constroem-se novas moradas ou reabilita-se a antiga, sempre na coerência de um sonho qualquer que nos persiga, e quem escreve, mais do que manchas de tinta, tem pedaços de terra presos à mão: ele é um agricultor que se empenha em mondar os seus parágrafos, para que não persiste mais nada, para lá das palavras que possam ser pão.
Quem escreve tem o privilégio de baralhar os dias, as horas, as estações... não sendo raro acordar em dezembro para uma manhã de verão, naquilo que poderá soar estranho para quem não souber decifrar a linguagem imprevista do coração.
O escritor tem face de esquizofrénico, de mendigo, de travesti, de marinheiro, de inconsequente, de herói, de vagabundo...
Mas que importância tem isso, se apenas o invisível e universal músculo cardíaco tem força para mudar o mundo.
O escritor não tem um antes nem um depois, porque tudo aquilo que quer muito, e a verdade daquilo que sente, ganha verbo em qualquer uma das formas do presente.

Já anda por aí à solta “O vento a bailar sobre as searas”, um livro que deixou de ser meu para passar a ser nosso.
Porque são os abraços que fazem a primavera.

sábado, 30 de março de 2019

Estes dias sem botox…


A meio de uma tarde de primavera, e vindo de norte para sul, cruzei no outro dia, o vale do rio Douro, comprovando pela milésima vez, que esta é uma das rugas mais extraordinárias com que o tempo marcou a face e a idade da Terra.
Horas antes, tinha entrado numa igreja em Vila Real, e tinha-me deparado com a azáfama de duas senhoras que cobriam com panos, duas imagens de santos já colocadas nos andores.
Correndo o risco de ferir a sensibilidade dos meus amigos mais ligados à teologia, permitam-me que vos confesse não ser particular apreciador do tempo da quaresma. Primeiro porque não gosto dos dias que nos afastam das flores, e depois, porque nunca será no deserto que alguém se poderá encontrar: eu sou aquilo que semeio no coração e na vida dos outros, sendo neles que me revejo e, de caminho, encontro a Deus.
Para além de que esta coisa do silêncio e do ruído é tão relativa…
A cruzar o Douro lembrei-me, inevitavelmente, de Torga e de São Leonardo de Galafura:
É lentamente que o rabelo avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo a mais de cheiro
A terra e rosmaninho
Se algum dia eu fosse poeta deixaria, assim, os meus versos cravejados no peito solitário de um homem que cruza uma ponte muito alta, e bem a jusante de Galafura.
Se algum dia eu fosse santo, romperia as vestes que o calendário me impusesse, para que, qual rabelo buscando a ribeira, acudir descalço à solidão de alguém, plantando aí gargalhadas e rosmaninho.
Não gosto dos dias do botox e da burka, porque as faces e as vidas escondidas e sem rugas são desertos apáticos, que até podem baralhar a idade e a condição, mas que nos privam dos cheiros da terra, da festa das águas, do voo dos pássaros e do canto alegre das raparigas e dos rapazes na margem de todos os rios.

sábado, 23 de março de 2019

O repouso das gaivotas e dos mestres…


Há dias em que as gaivotas se oferecem ao repouso nas colunas do cais, só para que os Homens tenham para si, o rio inteiro, sem desculpas para não navegar.
E nesses dias, os Homens celebram os seus mestres e a partilhada sabedoria, em cada gesto de aproveitar o vento, seguindo mais adiante, para onde o coração manda.
Na tarde do último sábado estive cerca de duas horas à conversa com o meu querido Padre António Simões e o meu amigo Manuel Almas, na sala dos meus pais, em Vila Viçosa.
As palavras dos mestres nunca envelhecem, mesmo quando o corpo possa exprimir algum cansaço, rendido ao inevitável tempo, e as palavras dos mestres, nunca deixando de ser sábias, são simples e pequenas, cabendo com muita facilidade neste espaço restrito que somos nós.
Durante esta semana partiu para o Céu, o Senhor D. Maurilio de Gouveia, Arcebispo de Évora durante 26 anos, exatamente aqueles que cruzaram a minha juventude e a de muitos amigos.
Às vezes descobrimos em nós, detalhes grandes de carácter que têm uma proveniência insuspeita, recebidos das mãos da gente maior que se cruzou connosco. São os nossos mestres improváveis que se retiram pela vertigem da idade, mas sempre por entre o eco dos muitos serões em que a vida ia buscando um tom feliz, tal qual as violas entre a afinação e os travessões.
Ontem passeei sozinho por Lisboa, bebendo a brisa do fim da tarde junto ao rio, e acabando na FNAC do Chiado numa tertúlia com o cantor Fernando Tordo, que nos foi explicando a história das suas canções, com a genialidade de Ary dos Santos a voar por ali, porque os poetas são mestres de liberdade, e as suas palavras serão sempre os cravos encarnados que enfeitam a geografia onde os sonhos se alcançam.
Há dias em que os mestres, tal qual as gaivotas, repousam e nos oferecem rios inteiros, para podermos navegar. É a nossa vez de acontecer, e por isso, a esses dias chamamos primavera.

terça-feira, 19 de março de 2019

As mãos do mesmo amor…


Depois de algumas lições, acho que, finalmente, consegui ensinar o meu pai a fazer selfies com o mínimo de qualidade.
Trazemos enraizado este hábito de apontarmos caminhos e sorrirmos para onde nos pede o coração e a vontade, agora, buscando o “buraquinho” da câmara fotográfica do i-Phone, como antes olhando o céu para sorrirmos juntos, e ao mesmo tempo, para o papagaio de papel que fizéramos de manhã para lançámos ao vento.
Entre nós os dois, quem aponta o caminho a quem, muito pouco importa ou importará, porque as nossas mãos são do mesmo amor.
E quem nos olhar de perto ou de longe, e nos vir como dois corpos separados, talvez não consiga intuir como respiramos a mesma eternidade, tão imune é o nosso amor ao tempo e a qualquer cansaço.
O amor, sim, este sentimento de até permitir-se morrer se sentimos que a nossa essência é o ar que falta no peito do outro.
Quando vamos os dois dar um passeio e eu lhe peço para fazermos uma selfie, vejo pelo sorriso que o meu pai pensa, mas não diz:
- Este gaiato está cada vez mais maluco e “esparvêrado”.
E eu sorrio também por entre este amor que me faz nunca querer crescer, agradecendo a sorte que há neste fado.

domingo, 10 de março de 2019

Uma estrada de terra...


A vida é uma estrada de terra que é fiel a todos os mais pequenos contornos de um rio, e a gente que vive é aquela que caminha descalça, não se resguardando das pedras, das mágoas e das sensações.
De um lado teremos sempre o sal como destino, e do outro, em planícies ou em socalcos, acode-nos o pão e o azeite.
Às vezes, entre a poeira e o cansaço, deixamos de ver o sol, e decidimos sentar-nos numa pedra grande, quiçá cravejada de musgo, afundando o rosto nos braços cruzados, e olhando para nada mais do que apenas o pensamento. Como se pudéssemos encontrar-nos bem e bonitos dentro de uma casa para onde entrámos depois de apagar a luz e fechar todas as janelas?
Com o sol por detrás, como quem não nos quer, se nos abeirarmos da água e nos fixarmos no reflexo, nós seremos sempre maiores do que alguma vez nos julgámos, e os nossos braços erguidos e em pose de guerreiro, acrescentarão força ao argumento da nossa história.
Ilusão?
Nem sempre conseguimos ver aquilo que nos abraça, mas tudo o que nos abraça faz-nos maiores; e bem conhece esse princípio quem tem fé em Deus, nos Homens, na arte, na poesia...
Depois, talvez seja preciso chorar para moldar um copo com o barro do caminho, acudindo às fontes com a certeza de sarar a sede.
E talvez seja preciso ferir-se numa pedra, para conseguir o sangue e escrever a vermelho o argumento de um novo amor.
Um dia morreremos, é certo, mas aí, e sem sabermos muito bem como, já teremos chegado a uma praia deserta onde nos esperam as gaivotas para nos levarem com elas a voar, deixando o corpo em sossego no outro lado da estrada, para alimentar o pão de quem ainda não chegou e segue a caminhar.

 

sábado, 2 de março de 2019

Faces pintadas...


Entre trocas de roupa e faces pintadas, fico sempre na dúvida se a gente se disfarça ou finalmente se revela nos dias de entrudo.
A vida é de facto um imenso baile, e a senha para entrar nos salões mais requintados e virtuosos, reside tão só naquilo que se vê à superfície.
Por isso, para os outros dias, aqueles de entre carnaval, escolhem-se gestos e palavras densas, opacas e alinhadas com a pretensão social, escondendo-se tanto ou tudo dessa essência que da alma emana.
É a “virtude” que esconde a perversão, o “amor de família” que disfarça a violência e o desprezo pelos direitos mais elementares... e assim se poderia resumir, por exemplo, a semana que passou.
Passaram ontem sete anos sobre a partida do meu tio Filipe. No seu último passeio ao campo, comigo e com o meu irmão, cerca de um mês antes de partir, levou-nos até à margem de um ribeiro e mostrou-nos a pedra branca que ali persiste, dizendo ser a preferida da minha avó Francisca, sua mãe, sempre que ia lavar a roupa.
“Pode haver quem te defenda, quem compre o teu chão sagrado, mas a tua vida não”, escreveu Pedro Homem de Mello para Amália cantar. E a vida que não se vende é esta genética de povo e autenticidade.
Que mais e melhor poderei ser eu, para lá desta essência e gesto de esteva que floriu sobre a dor das minhas avós quando lavavam nos rios?
Mesmo que se fechem mil salões e eu fique a versejar sozinho do lado de fora, no terreiro onde usam bailar de roda, os rapazes vadios do bando da madrugada.
Mas o entrudo também pode ajudar-nos a conseguir trazer a alma até à flor da pele, e o meu sobrinho Luís ganhou ontem o gesto e a cor do Super-homem que é.
Lições que cabem numa semana. Uma lição a tempo de não nos deixarmos apagar como cinzas, no fim da festa de longuíssimo carnaval.