sábado, 22 de abril de 2017

Os poetas e a Luz


Nunca conseguirei entender porque colocam o busto dos poetas à porta das bibliotecas. Eles permanecem vivos nos detalhes da alma que deixaram impressos, e que descansam por ali nas prateleiras, abandonados ao pó do tempo. Mais do que as flores colocadas na base polida de uma pedra sob o bronze do seu retrato, os poetas celebram-se em cada palavra que lemos e sentimos nossa.

Também jamais conseguirei entender o porquê de ornarmos as igrejas com lâmpadas mais ou menos coloridas, e o porquê de acendermos velas pelos altares. Se Deus é a Luz maior, nós seremos sempre os recetores dessa graça. Ninguém se lembrará de levar um balde de água fria para oferecer ao rio ou à fonte.

Sentado junto a uma das mesas da esplanada quase vazia, em frente à Matriz de Ponta Delgada, vou desfolhando a memória e semeando versos que entrego à brisa que passa por aqui, correndo desde a encosta do vulcão, e na direção do mar.

Os poetas estão vivos e voam agora com as gaivotas, cruzando a claridade. A cruz foi apenas um brevíssimo instante, e o Céu é esta casa eterna de sorrir, não com os lábios, porque quem tem fé sorri com o coração.

Os versos dos poetas voam entrelaçados na Luz de uma segunda-feira de ressurreição.

sábado, 15 de abril de 2017

A vida é uma imensa festa


Ninguém se recorda já do nome que lhe deram ao nascer, porque aqui, na terra onde vive, todos o conhecem e tratam por Batata, inspirados no pompom que encima o gorro vermelho que traz sempre na cabeça.

O Batata gosta de correr pelo campo nas tardes de primavera, e diz que o mundo é o seu castelo encantado. Tem as árvores como torres e ameias, jarras de flores presas pela raiz, a alcatifa verde que a chuva lhe oferece, e tem um teto azul em dias claros, que se enche de estrelas ao luar, um pouco antes de adormecer.

Quem o vê assim acelerado, procurando as ribeiras e as ervas de cheiro, não imagina que o seu pompom, semelhante ao famoso tubérculo, tem poderes especiais.

É verdade. Se o Batata o apertar uma vez, aparece uma fada com uma vara de condão capaz de contrariar todos os impossíveis. A fada canta ao amanhecer e desperta os pássaros que ficam encantados com a sua voz.

Com a fada Luísa tudo pode acontecer.

Se o Batata apertar o pompom duas vezes, aparece o Mago Rebolim, que até ouro consegue fazer a partir de uma pedra, no breve instante de um espirro.

Atchim.

O Batata gosta de brincar e sabe que o seu castelo se ilumina pela força dos abraços dos amigos.

Chama-os muitas vezes, sentam-se na relva e tocam viola, enquanto alguém desenha letras e chama a poesia.

Mas um dia, numa tarde de sexta-feira, o vento soprou forte e roubou-lhe o gorro, fazendo voar o pompom. O Batata ficou triste e voltou a casa cabisbaixo, pensando ter desaparecido para sempre a magia.

Já o domingo clareava quando ao coçar o nariz, ele reparou que a fada e o Rebolim apareceram de repente.

- Porque estás triste?

- Porque perdi a magia. O pompom voou para longe.

- Não penses nisso. A magia vive sempre em nós, está em ti e em toda a gente.

Reparou então que o céu ficara mais azul, que a alcatifa tinha tufos infinitos de flores e correu para abraçar os amigos.

A vida é afinal uma imensa e perpétua festa.

 

(O meu sobrinho Luís fez o desenho e, sobre ele, eu escrevi uma história para vos desejar uma Páscoa muito feliz)

 

 

quinta-feira, 13 de abril de 2017

O folar doce


No Alentejo, o folar é doce, como estes dias que inventamos.

É doce e anisada, a “erva” que juntamos à massa, em rima com a esteva que aquece o forno e com o alecrim dos ramos de domingo, aquele mesmo alecrim que “prende” os namorados e os padrinhos a um cartuxo de amêndoas, também de açúcar, na manhã de quinta-feira.

A avó Natividade atava um lenço branco na cabeça e, á cintura, um avental da mesma cor, benzendo-se por entre o pó da farinha de trigo que ia deixando cair sobre o enorme alguidar de barro. Depois de mais de uma hora em que não dava descanso às mãos, desenhava uma cruz sobre a massa e dizia:

- Deus te acrescente.

Esta semana não é santa por acaso, mas sim porque a fé transpira do peito da gente. E a massa “deita-se” depois no recanto mais quente da casa, para que “finte” melhor durante a noite, sim, que levede melhor. Bolos fintos, porque no Alentejo sabemos que a fé é o segredo para “driblar” a má sorte.

Quando a manhã se enfeita de sol, polvilham-se as tábuas com farinha, reparte-se a massa que cresceu e transbordou do alguidar, e dá-se-lhe a forma de roscas, estrelas, “padinhas”, ou então, acrescentam-se ovos cozidos e fazemos o folar. Com a avó Natividade aprendi a fazer lagartos, freirinhas e poços, todos recortados à tesoura e enfeitados com laços que guardámos das prendas de Natal.

Os tabuleiros negros de metal levam o nosso nome escrito a giz e entram no forno com os dos demais, porque a amizade é o calor onde tudo ganha forma e sabor.

Talvez a imagem de Cristo jazente percorra já as calçadas de Vila Viçosa, por entre o silêncio e as laranjeiras em flor, quando o forno se abrir para nos devolver os folares quentes e doces, lembrando-nos que a morte é apenas um breve instante nestes dias que inventamos e onde nos vamos descobrindo, enchendo-os de amor.   

domingo, 9 de abril de 2017

Estes dias feitos de flores


Mesmo que não cheguemos ao tempo das cerejas maduras, ninguém poderá acusar-nos de não termos vivido intensamente estes dias feitos de flores.

Ainda que, à porta do forno, não saboreemos o pão de trigo que o azeite beija de paixão, já teremos guardado todos os segredos trazidos pelo vento, as histórias reveladas nestas tardes em que somos seara verde a espreguiçar-se ao sol de Abril.

A idade contada em anos é uma ilusão, porque a vida não é tempo, mas é intensidade e coerência na concretização dos sonhos, até dos mais ousados.

Nós trazemos o céu inteiro no olhar, ao contrário daqueles em que o único detalhe de firmamento é o possível reflexo de alguma nuvem que o dia lhes ofereça gratuitamente às lentes. Porque o céu é o todo da alma que se espreita e extravasa no olhar, ao jeito de um herói.

O céu é o sonho que carregamos no peito.

Ainda que alguém possa dizer que nos falta tempo, nós repousaremos tranquilos, porque não há nada que nos falte fazer.

Repousaremos tranquilos entre as flores.

 

(Agradeço as fotos enviadas pelo Rui Pereira)

domingo, 2 de abril de 2017

OS MENINOS QUE INVENTARAM A PRIMAVERA


Numa tarde de Março, mas com o tempo já a espreitar Abril, os meninos e as meninas saíram juntos para o campo trazendo na mochila os livros de histórias e um montão de lápis de cor.

O céu estava triste, fechado pelas nuvens enormes e cinzentas, e o chão mantinha o tom castanho e seco sem flores que herdara do fim do verão.

Chegados a uma clareira, os meninos pousaram as mochilas e puxaram dos lápis, afiando todos os tons de azul, para poderem pintar o céu, e os verdes para que a terra vestisse uma saia plissada dessa cor, como é uso na primavera.

Mas nada, os lápis gastavam-se aos poucos, e tudo permanecia na mesma cor.

Reparou então um menino, quando dava a mão a outro para o ajudar com as pinturas, que as nuvens se iam rasgando, e o céu até já conseguia espreitar. E quanto deu um abraço a outro menino, o céu já sorria feliz, brilhando na cor do mar.

Uma menina que cantou e outra que se riu, repararam que a voz e a gargalhada plantavam relva no chão de Outono, verde e grande, salpicada de giesta, amarela e quase ouro; e assim, olhando as flores, o sol, toda a gente tocou e sentiu.

Numa roda gigante entre abraços, cantigas e sorrisos, os meninos aprenderam a pintar o campo da primavera. Na verdade, os dias bonitos não se desenham a lápis de cor mas nascem da amizade.

E um pássaro que passava por ali lembrou-lhes ainda que havia livros na mochila, histórias de sonhos e de magia, e que os meninos e as meninas, não tendo asas, pelos sonhos conseguiriam voar.

Batendo as asas antes de rumar a sul, o pássaro lembrou ainda, e mais uma vez, que o céu é de quem voa. E todos os dias se pintam de azul.


Os alunos da Escola Básica da Mata, em Estremoz, sugeriram na sexta-feira que eu escrevesse uma história inspirada neles. Uma história que também falasse de magia e primavera.

Aqui está com um abraço.

sábado, 25 de março de 2017

O amor planta girassóis na lua


Não importa qual a cidade, e nem sequer o nome do rio que a namora, para mim, todas as ruas, as praças e as calçadas, são memórias dos meus passos nas tardes em que saí para te procurar.

Não importa se as torres que me ofereceram sombra foram castelos guardiões de Homens, de Deus ou do tempo; o amor planta girassóis na lua, e não se prende com quaisquer humanos ou divinos detalhes, para além de que jamais necessitará de ver as horas.

Às vezes paro e sento-me para tomar alento, roendo lentamente uma maçã verde colhida na ousadia do pomar onde os corpos tomam a forma de árvores e o desejo nasce tão intensamente que até parece proibido.

Quem tem muitos rostos não tem nenhum, e o espelho por detrás do balcão do café onde depois me encosto, na pausa da bica, tem a sabedoria de milhares de luas, e nega-me um reflexo claro. Eu só serei eu depois de te encontrar no fim da história que os meus passos contam rasgando portas e desenhando as ruas.

Também construirei um barco de madeira ao jeito de uma casa de piso transparente, e afirmo aqui perante toda a gente, que se tu viveres naquelas montanhas que dizem existir no fundo do mar, eu usarei as mãos em concha para lhe retirar a água, até te encontrar.

Dia e noite, tomando alento e fogo de cada pôr-do-sol.

Depois, substituindo com flores a ferrugem de todas as grades, levar-te-ei comigo e adormeceremos juntos sob um sobreiro. Uma manhã, uma tarde, um dia inteiro… ou até mais, enquanto as palavras que dissemos um ao outro, e que até lembram versos desenhados por Pessoa, se entretêm a voar com os pardais.

 

domingo, 19 de março de 2017

Pai


Desmentindo o tempo, salto para um banco improvisado feito de jornais atados por uma corda, e fico sentado à mesma altura onde o teu respirar se mistura com o som inquieto da tesoura que afina os meus caracóis castanhos.

Há cromos de futebol que enrolam rebuçados comprados às meias dúzias com moedas de dez tostões, comemos medronhos maduros na encosta do castelo, recortamos e colamos casinhas de papel, jogamos ao pião, construímos papagaios cruzando canas, e á frente do portão do “Tapum”, construímos repuxos num lago improvisado onde se passeia um pato de plástico, nos dias de Junho e São pedro, quando a nossa rua se enfeita com flores de papel que fomos fabricando nos serões de primavera, imitando o melhor gesto que reveste o campo.

Desmentindo o tempo…

Agora que “O Século” e “A Capital” já não amarelecem juntos no monte dos jornais, que os meus caracóis não sobreviveram à prata que os tingiu, e que os papagaios, as casinhas e as flores de papel subsistem apenas na minha memória; eu ajeito-me à sombra do teu olhar, recuso-me a palpar-lhe o cansaço, e pulo como antes, mas já sem a ajuda dos teus braços, para o sítio onde sou maior, e onde o céu já não tem o ruído de uma tesoura mas continua a ter o teu respirar.

Num beijo, meu querido pai, imitando sempre o melhor que tem a vida.