sábado, 19 de outubro de 2019

As quatro estações...


Em modo de espera, o telefone do hospital deixa-me com as quatro estações, de Vivaldi.
Poderia então ser transportado para o ano de 1996, e para um concerto, algures em Praga, numa igreja barroca onde todas as imagens pareciam ter sido tomadas por uma qualquer surpresa, com o seu ar de espanto a obrigar-nos a moderar o riso, não fosse ele perturbar a excelência da obra do músico veneziano.
Mas não. A espera levou-me até ao início dos anos oitenta, e ao meu grupo de amigos, em Vila Viçosa.
Chamávamo-nos “Sementes de Esperança” e organizávamos saraus onde líamos poemas de Jorge de Sena, e onde uma vez, para nos vestirmos de Outono, usámos uma velha saia de camilha de cor castanha.
Descosemos um pedaço e o João Paulo enfiou por aí a cabeça, ficando com uma capa em tons de entre outubro e novembro.
Vivaldi continua a soar desde o outro lado da linha...
Viver é a arte de desenhar e construir as próprias estações, cumprindo o sonho, tantas vezes a partir de nada mais do que trapos velhos.
Sempre por entre a poesia, é desta massa que somos feitos, e por isso, e por muito mais, continuamos amigos e otimistas, mesmo quando a dor parece querer assaltar-nos os dias.
A voz do outro lado da linha, depois de suspender Vivaldi, dá boas notícias, alinhando a minha esperança com a da amiga de Vila Viçosa com quem troquei mensagens nessa manhã, amiga de sempre a quem o tempo também pregou uma rasteira.
Um dia destes, e de dentro de uma doce primavera, ainda conseguiremos rir-nos do desconforto desta estação alheia e agreste, porque mesmo que não tenhamos terra, água e sementes... a vida ensinou-nos a fazer flores de papel.

sábado, 14 de setembro de 2019

Estes dias de amoras maduras...


Gosto destes dias que nos põem amoras maduras sobre a mesa, ao lado de um caderno aberto e com folhas brancas para escrever.
Poderemos sempre dissertar sobre a memória da dor que as silvas nos impuseram aos braços, ou então inventarmos versos de amora em ponto de açúcar, ao jeito de compota reservada para os dias de chuva que aí vêm.
Confesso que sou fã incondicional da segunda perspetiva.
Em dois dias consecutivos da semana que passou, tive o privilégio de abraçar dois companheiros que passaram há pouco pela sua estrada cravejada de silvas, e esses abraços, de onde emergiram sorrisos e flores, tiveram o jeito de uma mesa com toalha de linho, frutos maduros e tantos versos para o futuro.
Que vão para o inferno todos os arranhões deixados pelo cancro, e que viva a vida, assim, às vezes dolorosa e incerta, sem manuais ou guias, mas sempre assente na fé e na vontade de agarrar o tempo, fazendo-o nosso por imposição, legítima, das vontades que a alma nos dita.
Um abraço a todos com a esperança que cada dia nos merece.

 

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Estes “António´s” de que somos feitos…


As salas de cinema são as únicas testemunhas do nosso sequestro pela arte (que dizem ser a sétima) de um filme.
Apagam-se as luzes e lá se nos foge o tempo e o espaço, baralhando-se o tempo verbal e todos os lugares.
E a gente que se deixa ir sem opor a mínima resistência.
Fui ver o “Variações” na maior sala de um Centro Comercial, às 15.30 de um sábado a chamar para a praia, e só quando as luzes se voltaram a acender, restituindo-nos a idade, é que consegui perceber que éramos muitas dezenas e todos entre a “Febre (de Sábado de Manhã)” e o “Passeio (dos Alegres)”.
A febre doce de uma revolução que não se cumpre no momento em que o lençol cobre os canhões e as chaimites inundadas de cravos, porque a liberdade chega em ondas, aos poucos, ao grito e ao gesto, alinhando-os com o pensamento e a vontade.
O passeio triunfal dos vencedores pelas ruas que lhes oferece a vida, sem temerem mostrar qualquer cor mais “estranha” para onde lhes resvale a alma.
Não batemos palmas ao realizador, aos atores, e a todos os que se empenharam neste projeto brilhante, mas talvez tenha sido melhor assim: aplaudir o filme e António Variações, cantando, sabendo de cor as letras da música que se ouvia ao abandonarmos a sala.
Porque as letras serão sempre reflexo da melhor essência da minha geração, sendo tão eternas quanto nós.
Entre o “Povo que lava no rio” e o “Cansaço”, Amália cruza o filme, tal qual a nossa História:
Por trás do espelho quem está
De olhos fixados no meus?
Alguém que passou por cá
E seguiu ao Deus dará
Deixando os olhos nos meus

Quem dera que jamais seguíssemos ao “Deus dará”, e que o nosso olhar, alinhado com a coerência da memória dos versos, fosse para sempre, o reflexo da liberdade e da vitória do respeito pela diversidade.
Porque de tudo isso, e de muito “António”, somos feitos.  

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Esta água que nos quer...


Estar de férias é virar as costas ao relógio, que ainda assim, manifestando total indiferença para com a nossa atitude, segue no seu ritmo normal, arrancando-nos cruelmente à infância.
Sinto-o sempre de forma clara, mas muito especialmente neste “quem dá o braço a quem”, quando caminho com os meus pais a caminho da fonte do Gerês, algo indiferentes à linguagem açambarcadora dos jerricans.
Fazemos o percurso cinco vezes por dia para que, chegados à base da montanha, tomemos um copo da água morna que o céu deitou sobre ela, apelando a que a enchesse com as suas melhores e maiores virtudes.
E assim, cada gole de água é uma bênção e um padre nosso bebido da Terra, apelando ao céu vida e saúde.
Tão íntima e eficaz se faz esta prece, que às vezes, mesmo sendo agosto, o dia emudece o sol e faz descer o céu até nós, deixando que as nuvens nos abracem de água, tal qual usa fazer com a serra.
Então, no caudal do rio que corre além defronte, para lá dos odores da giesta, do medronho e da hortelã, que são ofertas da terra, juntam-se todos os sabores que trazemos no peito em cada pedaço do que somos.
Para tudo culminar num imenso abraço ao mar.
A verdadeira dimensão do Homem lê-se no coração, e brilha com a liberdade à superfície das águas, assim como da gente que o beija no seu caminho.
Algo indiferentes àquilo que de nós o rio possa ou não cantar, voltamos, eu e os meus pais, para uma pequena mesa quadrada que está ao fundo da sala do hotel.
Cruzamos palavras no jornal e na conversa, e encontrando muito mais do que sete diferenças entre aquilo que a memória guardou de nós mesmos e tudo o que somos agora, aceitamos trair as férias para espreitarmos o relógio, ainda que de forma fugaz, lembrando-o de que o tempo para nós pouco importa, por sermos um caso sério de eternidade.
Definitivamente, acho que o segredo é viver tão intensamente quanto se o mundo acabasse amanhã, mas saboreando a vida com a calma e o detalhe de quem acredita que o mundo nunca acabará.

terça-feira, 23 de julho de 2019

Uma viagem a Jerusalém...


Quando sobre a Caparica, o avião curva para a direita, procurando Lisboa, despeço-me do sol e agradeço-lhe a viagem desta tarde: a bordo da Terra, eu segui-o desde o oriente.
Sei que ao repousar finalmente na minha cama, sentirei o balançar suave do meu barco à superfície doce do Mar da Galileia, olharei bem para o alto, para as montanhas a que fé foi dando nomes e virtudes, e, quase a adormecer, talvez faça renascer na pele das mãos, a textura suave das pedras onde nasceu e ressuscitou o meu Senhor.
E por entre as janelas da memória, chamarei até mim o odor das especiarias que roubei às ruas de Jerusalém, esse incenso despretensioso e improvável que acaricia o passeio dos sacrários: Cristo a caminhar pelo gesto incessante dos nossos passos.
Amanhecer em Jerusalém e adormecer em Lisboa, numa viagem à procura do sol.
Dos meus sete dias na Terra Santa escolhi esta foto que tirei com a Joaquina em Emaús.
Somos há muito amigos no Facebook mas apenas no conhecemos pessoalmente no aeroporto de Lisboa no dia da partida.
Ela diz que começou a seguir-me por eu escrever sobre Vila Viçosa, terra de que gosta muito por aí ter sido professora na Escola Primária, e então apenas masculina, mas nos dois anos que antecederam a minha entrada para a primeira classe.
Talvez a Joaquina, queridíssima companheira nesta viagem, se tenha apercebido de como eu vibrava com a Manuela a cada cidade e a cada recanto.
Era apenas a realidade a celebrar sobre o impossível que guardáramos da infância.
A vida é uma viagem a Jerusalém, mais cedo ou mais tarde, mais longa ou não, conforme a sorte, e a gente que permanece é aquela que nos ampara quando, pelo caminho, pescamos a paz nos lagos da Galileia, buscamos respostas na voz das montanhas, e assentamos os gestos sobre as pedras mais ou menos polidas da História.
Como quem nunca desiste de beijar o sol, perdendo-se e reencontrando-se em Emaús, em casa de Cléofas, à volta da mesa onde Cristo reparte o pão.
Uma viagem onde o incenso é o impossível, e onde essa gente que permanece poderá ter brincado connosco na festa da mesma idade, ou então ser benefício de um modo tão improvável de chegar.

 

 

domingo, 21 de julho de 2019

Um domingo de 2019 em Jerusalém


Nas ruas sombrias de Jerusalém, bem cedo, de manhã, as pedras soletram todos os passos de um homem com uma cruz, exatamente quando o tempo mudou, já passaram duas vezes mil anos.
Ajeito o passo e começo a andar, sentindo que a cidade é o mundo inteiro, e o homem é expressão divina no rosto de um homem que é muito mais do que apenas Ele: somos todos.

I - O Homem é condenado à morte, apenas por querer ser livre e ser ele mesmo, pensando ou não de forma diferente dos demais. 

II - O Homem carrega a cruz das suas noites sem luz e sem beijos, solitário nos recantos mais escuro e inóspitos das cidades.

III - O Homem cai pela primeira vez, e talvez de uma balsa que trai sem pudor, a sua vontade de um porto de paz.

IV - O Homem encontra a sua mãe, desempregado, sem rumo e sem poder corresponder à esperança das tardes em que ela o mimava por sobre todas as penas.

V - A dor é intensa e requisita-se alguém que a alivie. Ainda existem Cirineus nas ruas de Jerusalém.

VI - Uma mulher limpa o rosto do Homem que passa, e que é afinal ela própria, em sua casa, nas madrugadas violentas de um inferno que deveria ser amor.

VII - O Homem cai pela segunda vez, e agora, do cimo de um muro que alguém resolveu construir no fundo da sua rua.

VIII - O Homem encontra as mulheres, encontrando-se dorido no seu choro e no seu lamento pelo desprezo e pela discriminação.

IX - O Homem cai pela terceira vez, do cimo da ilusão de um político que lhe vendeu pedras por pão.

X - O Homem é despojado das suas vestes para morrer de frio no recanto de um inverno qualquer.

XI - O Homem é pregado na cruz por todos os que o exploram e desprezam a sua dignidade.

XII - O Homem morre na cruz ao entardecer, com uma bala que alguém disparou em nome da prepotência da fé, da etnia, da orientação sexual, do género...

XIII - O Homem é descido da cruz perante o cinismo de quem o despreza todos os dias.

XIV - O Homem é sepultado sob a mordaça da sua liberdade e da sua voz. E a pedra que rola sobre o túmulo tem a mão dos poderosos do universo.

Cheira a caril nas ruas de Jerusalém que estão ao redor do Santo Sepulcro. Tantos Homens e tão diferentes por aqui, mas todos dentro da história de um Homem onde cabe toda a humanidade.
Volto a ajeitar o passo. 
Hoje é domingo, e restará sempre o domingo para o Homem ressuscitar, voando sobre a cidade santa, não por ter asas, mas por ninguém poder sepultar a sua capacidade de sonhar.

sábado, 20 de julho de 2019

Às portas de Jerusalém


Os pássaros virão ao fim da tarde, e escreverão em voo, salmos sobre a nossa espera, com a tinta negra das suas asas que parecem ler-nos a prece.
A morte é este repouso breve, doce e anónimo no longo Vale dos Reis, aguardando Deus, que regressará para entrar triunfante pelas portas douradas, levando-nos com Ele até ao Céu.
Nenhuma cidade terá tanto de Céu quanto Jerusalém, sendo também, e estranhamente, a geografia da morte dos profetas.
Nas pedras gastas de Jerusalém há o eco de mil palavras de Deus, por entre o grito da sua dor, e da nossa dor, quando cravejados de balas por termos acreditado que o poder dos Homens partilha o trono com Deus.
É sábado em Jerusalém e eu visito o túmulo do Rei David depois de colocar a Kipá sobre a cabeça, sinalizando que Deus estará sempre sobre mim.
Sobre mim e sobre a minha espera, que todos somos passageiros sentados nos vales ao redor de Jerusalém.
Há homens que rezam ali, na Sinagoga, numa língua tão estranha, quanto os gestos que antes pude contemplar no templo ortodoxo.
Nenhuma cidade terá tanto de Céu quanto Jerusalém, e às suas portas, com a cumplicidade dos pássaros negros, nós somos almas incansáveis entoando salmos e apressando Deus, servindo-nos de quantas palavras e quantos gestos conhecemos:
- Vem Senhor Deus, esperamos-Te às portas de Jerusalém.