sábado, 11 de janeiro de 2020

A personagem e a sua história…


Até à última palavra do último parágrafo, a personagem poderá mudar a história.
Quem pousa o livro, já cansado ou pronto para dormir, assinalando cuidadosamente a página que o devolverá ao enredo no dia seguinte, atribuirá, no uso da liberdade ou da criatividade, um desfecho que depois se irá ou não confirmar.
Mas as personagens, principais ou não, terão sempre a última e decisiva palavra.
Tudo isto se passa connosco no final de um dia triste, quando nos esquecemos que a manhã que sucede ao pranto poderá inverter o rumo da história, restituindo-nos o riso e o otimismo.
A trama ainda não acabou, com a vantagem de o argumento depender, em grande parte, da ação do protagonista que cada um cumpre na sua própria história.
E mesmo reconhecendo que muito do desfecho poderá estar na posse e no poder de outros, acreditar na força de nós mesmos, e do Sol, será meio caminho para podermos vencer, realinhando a história, por oferecermos forte resistência a qualquer triste fado.
Também, e por nada ser definitivo até à última palavra deste nosso “romance”, ninguém é eterno ao nosso lado. Haverá sempre gente que parte e gente que chega.
Talvez não entendamos porquê, mas no final, quando o livro regressar à estante depois de lido, tudo, mesmo o que possa parecer mais inverosímil, acabará por ser entendido.
Uma boa semana para todos, com a força de sete novas madrugadas.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Um ano novo e um lápis


Na tarde do passado dia 24, e muito ansioso para saber se a noite de Natal lhe traria os presentes pedidos ao céu por e-mail, o meu sobrinho Luís, colado à janela, pediu à mãe que lhe desse um lápis para ele poder desenhar a lua, acelerando o tempo até ao momento que sonhava.
Hoje, no início do ano de 2020 desejo que nunca vos falte uma janela, ou pelo menos, que tenhais a força para a poderem inventar em qualquer parede de betão, desejando, ao mesmo tempo, que a vida vos ofereça os lápis todos, e de todas as cores, para que possam, assim, ajudar a alinhar o tempo com a vossa vontade.
De caminho, desenhem rosas sobre os silêncios e as saudades, aproveitem as linhas inóspitas do silêncio, alinhando-as ao jeito de uma pauta, e oferecendo-lhes as notas de uma boa canção, e, esmagando o coro perverso dos imbecis que dizem que o tempo morreu, desenhem gritos, beijos e afagos de todas as cores e de todas as formas, porque só num terreiro de fé e de liberdade, garantimos que ninguém deixará de cumprir-se a si, e ao sonho, dando caminho ao que lhe pede o coração.
Feliz 2020, um ano que por ser bissexto, nos oferece o bónus de mais 24 horas para podermos ser felizes.

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Natal de 2019


Éramos rapazes e raparigas do Sul, mas sempre que chegava o Natal, não nos cansávamos de acariciar o Norte, buscando nessa face mais húmida das oliveiras, o musgo viçoso para o presépio.
A par com as deixas da peça de teatro que ensaiáramos afincadamente, e que emocionaria os nossos pais, nada nos preocupava mais do que os verdes campos de uma Belém imaginada a partir das cores que a chuva de outono já plantara sobre a nossa terra, que por sinal até cumpre esse destino na sua graça: Vila Viçosa.
E o presépio, assim como a peça, saía sempre bem, porque ao contrário daquilo que pensávamos então, mais importante do que tudo o que se vê, é o belo sentido do amor com que tudo se faz.
Este ano, as nossas mãos, que antes tratavam o musgo por tu, acariciam a pequena chávena quente do café, quando no mesmo contexto de amigos, e na nossa terra, discutimos a colocação de uma caixa de madeira que permita eliminar dois degraus da casa dos meus pais, colocando-os em segurança perante as limitações que o novo tempo impõe.
Dezembro, Vila Viçosa, e o Natal que nos acompanha na idade, pela coerência deste zelo que treinámos durante muitos anos, cuidando do conforto da gruta de Belém e do viço por entre o caminho dos pastores, sabendo agora, no entanto, que Jesus não é uma figura de barro resgatada dos caixotes e das folhas de velhas dos jornais, sempre que chega dezembro.
Belém, confirmei-o também, pessoalmente, em julho deste ano numa breve visita à Palestina, é uma terra árida e quente, sendo a gruta do presépio, um espaço pequeno, do tamanho de uma lareira, mas aonde nos vemos a nós, a nossa gente, a história que vivemos... nos poucos segundos em que nos é dado estar ali.
É assim o infinito que cabe na singeleza de um diminuto e inexplicável pedaço de fé.
O meu pai, por quem necessito eliminar os degraus de casa, colocou-me há poucos dias, uma pergunta difícil, daquelas que fogem à razão que a doença lhe foi roubando. Não fui capaz de responder e dei-lhe um beijo, sorrindo.
Um beijo nunca falha, sendo a melhor resposta para o deserto de qualquer pergunta impossível ou para qualquer tempo que nos perturbe.
Afinal, o Natal, hoje como antes, é esta infinita dimensão de Jesus, o Menino Deus, sobre a aridez de qualquer espaço e de qualquer instante, e, Jesus é um beijo.
Sem necessitar de sujar as mãos, acariciando o musgo, o Norte palpa-se então neste suave perfume da fé, por onde seguimos, cumprindo o nosso caminho.
A sorrir.

sábado, 19 de outubro de 2019

As quatro estações...


Em modo de espera, o telefone do hospital deixa-me com as quatro estações, de Vivaldi.
Poderia então ser transportado para o ano de 1996, e para um concerto, algures em Praga, numa igreja barroca onde todas as imagens pareciam ter sido tomadas por uma qualquer surpresa, com o seu ar de espanto a obrigar-nos a moderar o riso, não fosse ele perturbar a excelência da obra do músico veneziano.
Mas não. A espera levou-me até ao início dos anos oitenta, e ao meu grupo de amigos, em Vila Viçosa.
Chamávamo-nos “Sementes de Esperança” e organizávamos saraus onde líamos poemas de Jorge de Sena, e onde uma vez, para nos vestirmos de Outono, usámos uma velha saia de camilha de cor castanha.
Descosemos um pedaço e o João Paulo enfiou por aí a cabeça, ficando com uma capa em tons de entre outubro e novembro.
Vivaldi continua a soar desde o outro lado da linha...
Viver é a arte de desenhar e construir as próprias estações, cumprindo o sonho, tantas vezes a partir de nada mais do que trapos velhos.
Sempre por entre a poesia, é desta massa que somos feitos, e por isso, e por muito mais, continuamos amigos e otimistas, mesmo quando a dor parece querer assaltar-nos os dias.
A voz do outro lado da linha, depois de suspender Vivaldi, dá boas notícias, alinhando a minha esperança com a da amiga de Vila Viçosa com quem troquei mensagens nessa manhã, amiga de sempre a quem o tempo também pregou uma rasteira.
Um dia destes, e de dentro de uma doce primavera, ainda conseguiremos rir-nos do desconforto desta estação alheia e agreste, porque mesmo que não tenhamos terra, água e sementes... a vida ensinou-nos a fazer flores de papel.

sábado, 14 de setembro de 2019

Estes dias de amoras maduras...


Gosto destes dias que nos põem amoras maduras sobre a mesa, ao lado de um caderno aberto e com folhas brancas para escrever.
Poderemos sempre dissertar sobre a memória da dor que as silvas nos impuseram aos braços, ou então inventarmos versos de amora em ponto de açúcar, ao jeito de compota reservada para os dias de chuva que aí vêm.
Confesso que sou fã incondicional da segunda perspetiva.
Em dois dias consecutivos da semana que passou, tive o privilégio de abraçar dois companheiros que passaram há pouco pela sua estrada cravejada de silvas, e esses abraços, de onde emergiram sorrisos e flores, tiveram o jeito de uma mesa com toalha de linho, frutos maduros e tantos versos para o futuro.
Que vão para o inferno todos os arranhões deixados pelo cancro, e que viva a vida, assim, às vezes dolorosa e incerta, sem manuais ou guias, mas sempre assente na fé e na vontade de agarrar o tempo, fazendo-o nosso por imposição, legítima, das vontades que a alma nos dita.
Um abraço a todos com a esperança que cada dia nos merece.

 

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Estes “António´s” de que somos feitos…


As salas de cinema são as únicas testemunhas do nosso sequestro pela arte (que dizem ser a sétima) de um filme.
Apagam-se as luzes e lá se nos foge o tempo e o espaço, baralhando-se o tempo verbal e todos os lugares.
E a gente que se deixa ir sem opor a mínima resistência.
Fui ver o “Variações” na maior sala de um Centro Comercial, às 15.30 de um sábado a chamar para a praia, e só quando as luzes se voltaram a acender, restituindo-nos a idade, é que consegui perceber que éramos muitas dezenas e todos entre a “Febre (de Sábado de Manhã)” e o “Passeio (dos Alegres)”.
A febre doce de uma revolução que não se cumpre no momento em que o lençol cobre os canhões e as chaimites inundadas de cravos, porque a liberdade chega em ondas, aos poucos, ao grito e ao gesto, alinhando-os com o pensamento e a vontade.
O passeio triunfal dos vencedores pelas ruas que lhes oferece a vida, sem temerem mostrar qualquer cor mais “estranha” para onde lhes resvale a alma.
Não batemos palmas ao realizador, aos atores, e a todos os que se empenharam neste projeto brilhante, mas talvez tenha sido melhor assim: aplaudir o filme e António Variações, cantando, sabendo de cor as letras da música que se ouvia ao abandonarmos a sala.
Porque as letras serão sempre reflexo da melhor essência da minha geração, sendo tão eternas quanto nós.
Entre o “Povo que lava no rio” e o “Cansaço”, Amália cruza o filme, tal qual a nossa História:
Por trás do espelho quem está
De olhos fixados no meus?
Alguém que passou por cá
E seguiu ao Deus dará
Deixando os olhos nos meus

Quem dera que jamais seguíssemos ao “Deus dará”, e que o nosso olhar, alinhado com a coerência da memória dos versos, fosse para sempre, o reflexo da liberdade e da vitória do respeito pela diversidade.
Porque de tudo isso, e de muito “António”, somos feitos.  

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Esta água que nos quer...


Estar de férias é virar as costas ao relógio, que ainda assim, manifestando total indiferença para com a nossa atitude, segue no seu ritmo normal, arrancando-nos cruelmente à infância.
Sinto-o sempre de forma clara, mas muito especialmente neste “quem dá o braço a quem”, quando caminho com os meus pais a caminho da fonte do Gerês, algo indiferentes à linguagem açambarcadora dos jerricans.
Fazemos o percurso cinco vezes por dia para que, chegados à base da montanha, tomemos um copo da água morna que o céu deitou sobre ela, apelando a que a enchesse com as suas melhores e maiores virtudes.
E assim, cada gole de água é uma bênção e um padre nosso bebido da Terra, apelando ao céu vida e saúde.
Tão íntima e eficaz se faz esta prece, que às vezes, mesmo sendo agosto, o dia emudece o sol e faz descer o céu até nós, deixando que as nuvens nos abracem de água, tal qual usa fazer com a serra.
Então, no caudal do rio que corre além defronte, para lá dos odores da giesta, do medronho e da hortelã, que são ofertas da terra, juntam-se todos os sabores que trazemos no peito em cada pedaço do que somos.
Para tudo culminar num imenso abraço ao mar.
A verdadeira dimensão do Homem lê-se no coração, e brilha com a liberdade à superfície das águas, assim como da gente que o beija no seu caminho.
Algo indiferentes àquilo que de nós o rio possa ou não cantar, voltamos, eu e os meus pais, para uma pequena mesa quadrada que está ao fundo da sala do hotel.
Cruzamos palavras no jornal e na conversa, e encontrando muito mais do que sete diferenças entre aquilo que a memória guardou de nós mesmos e tudo o que somos agora, aceitamos trair as férias para espreitarmos o relógio, ainda que de forma fugaz, lembrando-o de que o tempo para nós pouco importa, por sermos um caso sério de eternidade.
Definitivamente, acho que o segredo é viver tão intensamente quanto se o mundo acabasse amanhã, mas saboreando a vida com a calma e o detalhe de quem acredita que o mundo nunca acabará.