domingo, 17 de junho de 2018

Todos os livros são cartas de amor...


Tenho não sei quantas histórias guardadas no peito, que um dia escreverei para ti, talvez em segredo, para que tu as possas ler sob o perfume doce das tílias, nas tardes de primavera.
Sim, porque só o amor descodifica os trincos dos pórticos desse sagrado silêncio onde fomos guardando tudo aquilo que o tempo nos fez sentir.
Por isso, se me perguntarem aquilo que sou, manda a verdade que eu diga que por ti me fiz pedreiro, só para poder aprender a melhor técnica de rasgar janelas no peito e no silêncio, depois de devidamente escancaradas as suas portas.
Mas por ser necessário vestir palavras a esse tanto que espreita nos parapeitos dos sentidos, eu assumo que por ti também me fiz alfaiate, de modo a poder ajustar cada letra ao mais ínfimo detalhe, sem necessitar de recorrer a forros ou entretelas.
No jardim onde te sentas a ler, construíram entre as tílias, um cavalo alado, aproveitando a madeira de algumas árvores que o tempo secou.
Quantos beijos abraçaram essas árvores? De quantos amantes foram cúmplices os seus imensos e anónimos troncos?
Na tarde de um sábado de Junho que traiu a primavera, desço o Parque Eduardo VII entre as tendas de livros e a barraca das farturas que as derrotam por goleada de público.
Sento-me numa cadeira de plástico numa praça colorida, porque hoje me pediram para vir aqui falar sobre essa coisa de ser escritor.
Como se eu fosse algo mais que um pedreiro e um alfaiate, que por ti espera a hora de ser carpinteiro para conseguir oferecer a forma de um cavalo com asas, à memória do tanto que guardei e que quero que tu leias sob as tílias.
Porque todos os livros são cartas de amor, mesmo quando deles não se escuta nada mais do que a ausência desse doce sentir.

sábado, 9 de junho de 2018

Quanto tempo existe no espaço de uma hora?


- Quanto tempo existe no espaço de uma hora?
Eu roubei-me à pressa de um fim de tarde de trabalho, mas a enormíssima maioria dos espectadores que comigo se sentaram no teatro, fizeram-no relativamente à dolorosa lentidão dos seus dias.
De início toda a gente me olhou de viés, mas depois das primeiras palmas e dos sorrisos cúmplices, quando se certificaram que eu não me equivocara e que sabia muito bem àquilo que ia, adotaram-me facilmente como um dos deles. Talvez o substituto do neto que se esquece de passar lá no lar.
O meu colega Renato reformou-se há alguns anos, e agora, com a idade já pelos setenta, juntou-se a um grupo de seniores para ensaiarem um espetáculo de Revista à Portuguesa. Ele e a mulher, a inevitável e queridíssima Margarida.
Na semana passada telefonou a convidar-me para a récita:
- O Barreiros não quer vir assistir à minha interpretação de um fado do Carlos do Carmo? Um fado genérico, já se vê.
A terminologia dos nossos muitos anos de trabalho mantem-se nas conversas entre os lançamentos de livros e o Estádio da Luz.
Eu respondi que sim, acertei o dia em que poderia estar, mas aqui para nós que ninguém nos ouve, eu acho que o Renato nunca acreditou que eu aparecesse.
Se foi o caso, enganou-se, pois eu lá me sentei numa das filas do teatro Gil Vicente, em Cascais, para assistir ao espetáculo dos “Cascotas”, ensaiado por um ator profissional.
Continuando pela linguagem própria do nosso meio farmacêutico, eu diria que “Cascotas” é um bom nome comercial para a substância genérica “Cloridrato de nunca desistir de viver”.
O Renato cantou o “Lisboa menina e moça” com uma “bioequivalência” superior, e ele, a Margarida e todos os demais camaradas de tábuas conseguiram divertir-me e comover-me durante mais de uma hora. A mim, a tal “ilha de pressa” no mar da lentidão que foi chegando de autocarro desde os lares e centros de dia do município de Cascais.
Respirar é um detalhe quase desprezível, porque o essencial de viver é sonhar e fazer acontecer aquilo que julgamos impossível.
Sonhar e trazer os outros para dentro do nosso sonho, generosamente, como quem sabe que o amor será sempre o sal e a pimenta para essa vida da qual nunca nos abstemos, mesmo que os dias, por vezes, nos façam passar por um qualquer pedaço de inferno.
- Quanto tempo existe no espaço de uma hora?
- Não sei, tudo depende da solidão – respondi eu ao mar de Cascais depois de deixar o teatro e de me oferecer um passeio breve até à praia.
Subtraí-me à pressa e sentei-me na mesma hora lenta dos meus camaradas de plateia, e de palco.
Não me perguntem porquê, mas senti no regresso, fazendo a marginal, que tinha ido a Cascais aprender uma lição. Numa “sebenta de riso” cabe matéria muito séria e muito útil para os dias… e para os “exames” do futuro.  

 

sábado, 2 de junho de 2018

Uma cadeira na solidão…


Quem pensa pela sua própria cabeça arrisca-se a sentar-se sozinho numa cadeira com aspeto desprezível, à esquina de uma velha rua onde todas as casas ruíram por força da solidão.
Sem o confortável “chapéu-de-chuva” da multidão onde se dilui a identidade, ficaremos por ali sujeitos ao dedo feroz e acusador das intempéries, e de todas as agruras do tempo e das más vontades.
Nos tempos que correm, eu não compreendo os “democratas” que dividem o mundo entre eles e a estupidez, provando que Santa Comba Dão é demasiado próxima da Sibéria e de Pequim.
Também tenho alguma dificuldade em compreender aqueles que veem a vida à luz de uma história onde se confrontam os bons e os maus, com as fronteiras dessa classificação a serem definidas pelas convicções partidárias, as religiões, o estatuto social, o género… ou quaisquer outros humanos agrupamentos.
Confesso que também não tenho muita paciência para a gente ao estilo “Bola de Berlim com recheio de caviar”. Concentrados no elevado valor do seu ego, esquecem-se que são perfeitamente intragáveis para os demais que os têm de “provar” em qualquer interação, por mais pequena que ela seja.
Entre as casas que ruíram crescem flores para nos lembrarem a primavera, e o horizonte saboreia-se melhor desde o espaço onde estamos sozinhos, do que do meio de uma imensa multidão.
Mesmo que nos doa muito a ausência de um abraço, o Homem cumpre-se na convicção e na coerência que se exprime nas palavras e nos gestos.

 

sábado, 26 de maio de 2018

Crescer sem “matar” a Cinderela…


A Maria (chamemos-lhe assim) era minha companheira na Escola Primária de Vila Viçosa, e acreditava que os reis e as rainhas eram seres tão especiais que nem tinham de urinar ou defecar.
Sempre que a contrariávamos, chamando à liça as grandes panelas de cobre existentes na cozinha do Paço, e o óbvio prenúncio da imensa quantidade de comida ingerida pelas reais criaturas, e que seria objeto de um processo digestivo, ela defendia-se dizendo que ao visitar o famoso Paço tinha visto todos os humanos e normais recantos, à exceção de casas de banho.
Estávamos no início dos anos setenta, tínhamos seis ou sete anos, e era tão fácil acreditar nas lendas e nas histórias que os avós nos contavam ao serão, e que, despudoradamente nos treinavam na arte de misturar a realidade com a mais inusitada ficção.
Nesse tempo desconhecíamos o impossível, e ainda nem sequer desconfiávamos das dores implícitas ao crescimento. Talvez só ali pelos catorze anos, nos tenhamos começado a aperceber de tal.
A primeira paixão, platónica (pois claro) corroeu-me as carnes e quase me fez acreditar que tinha enlouquecido: o pensamento já não era meu, e entre o desejo e a ausência morava uma dor que me pôs, inteiro, a sofrer.
Depois desmoronou-se a convicção da imortalidade daqueles que amamos, e por entre o choro dos nossos pais, que acreditámos jamais serem capazes de tal “fraqueza”, sentimos a dor do silêncio na casa dos avós.
No dia em que os bombeiros vieram buscar o corpo da avó Francisca, e o tiraram pela janela da Rua do Poço, eu aprendi, por experiência, que cada um que parte, nos arranca um pedaço e leva-o para o Céu, deixando-nos por aqui mais tristes e mais pequenos.
Aprendemos também, mais tarde, como é difícil procurar o nosso caminho por entre um emaranhado de estradas e ruas, tantas vezes sem mapas, e muito menos GPS, quando a idade nos dissolve as paredes e os telhados da casa dos pais e nos expõe ao vento e ao frio.
A primeira desilusão de amor explica-nos como é terrível morrer, ficando, simultaneamente, vivo e consciente, a sentir o desconforto supremo do corpo que se desfaz depois de abandonado pela alma.
Em Maio, enquanto as cerejas já se espreguiçam rubras e maduras ao sol da manhã, o sabugueiro ainda saboreia o alvo tom das suas flores. De flores e de frutos se faz o campo, e talvez essa seja uma indicação fundamental para seguirmos sem hesitar: maduros, mas também com flor, crescidos mas sem nos despojarmos de tudo aquilo que nos faça sonhar.
Às vezes… muitas vezes, disfarço as rugas com uma gargalhada, invento um poema que fala de uma lua de lata, e falo de uma cidade de beijos. Outras vezes escolho um destino, compro um bilhete de avião, de comboio, ou até de elétrico, e parto sem medo e com tempo, a descobrir as ruas das cidades de que aprendi a gostar através dos livros que li.
As dores?
Levo-as comigo mas sem me focar nelas, tentando que a magia que persiste, as suplante em dimensão e em arte.
O dia da criança deve ser celebrado e vivido por todos, todos os dias e não só a 1 de Junho. Por mim, por mais maduro e realista que a vida me faça, jamais me ouvirão contar a história da Cinderela assumindo que a dita princesa tinha as suas pausas para fazer cocó.
Deixemos falar as flores que trazemos atadas aos dedos.

sábado, 19 de maio de 2018

As viagens e as manhãs com flores…


Das manhãs como esta, com sol e o oceano ao fundo, colho braçadas de flores que coloco junto ao peito, quando me encosto assim, ao parapeito, bebendo sumo de laranja e comendo um pedaço de pão com queijo.
Depois faço-me à estrada com o destino marcado no GPS, e, na lembrança e na voz, uma música qualquer que guardei de outras “viagens”. Hoje rumo a norte, e quilómetro a quilómetro, e rio a rio, vou-me relendo aos poucos em tudo aquilo que o coração vai debitando no pensamento.
Paro numa Área de Serviço para tomar um café, e reparo que chegou uma notícia ao meu telefone, confirmando a imprevisibilidade dos dias. Não há viagens nem caminhos iguais, mesmo que os pórticos das portagens possam ser os mesmos.
Agora acodem-me ao pensamento as tardes de Vila Viçosa, os meus amigos, as empadas de galinha da D. Cesaltina e o capilé que ajudava a repor forças entre as brincadeiras na travessa do Belhuca ou no passeio largo em frente ao café do Sr. Cândido.
Ainda bem que todos os dias me trazem flores, porque já depois do Porto, e no regresso ao sul, preciso de escrever algumas para as enviar a dois dos meus amigos mais especiais. Pego na braçada que guardei e escolho as palavras mais viçosas e com perfume mais intenso.
É relativamente cedo, está calor, e resolvo parar em Fátima para rezar e beber um pouco de água fresca. Fátima estará sempre entre o Céu e a minha sede.
Regresso a casa a tempo de sentir o ouro que o sol, quase de partida, semeou nas paredes da casa, agora, no lado oposto ao da janela de onde antes colhi flores.
Os entardeceres como este, oferecem-nos os primeiros parágrafos das histórias que a lua, em quarto crescente, continuará pela rota mágica das lendas que superam qualquer humana realidade.
Estou cansado e preciso de dormir, mas não resisto e sento-me no sofá para escutar aquilo que me diz a lua.
Um dia, se não souberem o que dizer de mim, digam apenas que eu repouso enquanto escrevo versos de amor.
Depois, já não me recordo qual foi o pensamento que me estendeu o sono para eu adormecer…

 

sábado, 12 de maio de 2018

“Cheirando a feno casado com hortelã”…


Há muito de Ary no instante em que piso a plateia da Altice Arena para assistir à primeira Eurovisão de Portugal: “cheirando a feno casado com hortelã”.
É o campo do qual sempre serei pertença, e eu, o menino que jamais deixarei que se apague em mim, “com um ribeiro à cintura”, tal qual a menina de 1971, porque o género pouco importa nestas coisas de sonhar,
Faço questão de abrir os braços, não só porque o momento me parece enorme para o agarrar, mas porque preciso de reservar espaço para que caibamos todos. Hoje, diretamente do celeiro do Senhor Domingos, em Vila Viçosa, e trinta e oito anos depois de termos acreditado que o Cid venceria em Haia, aqui estou com todos os amigos, mesmo que de todos, só cá esteja eu. É preciso "amar pelos dois", três, quatro...
A partilha dos sonhos cria os amigos eternos.
“Corram descalços rente ao cais, abram abraços”, e eu cumpro essa vontade da Madrugada de 1974 cantada em 1975.
Quem corre descalço, assim, de medos e de preconceitos, saboreia melhor todos os detalhes do caminho e não desperdiça nem o mais pequeno grão da sua história, aproveitando, ainda e sempre, para se despir do peso da idade.
Descalço e de braços despidos, como eu agora neste fim de tarde, porque o cais que muito sonhei e tanto quis, eu sei, está aqui, é meu e tem tudo, até o “vento do deserto acordado em mim”.
Os sonhos persistentes entranham-nos laivos de realidade e de pertença, e por isso eu, agora, olho em volta sentindo que tudo é meu e tudo quero e posso beijar. “Como dizer um coração fora do peito”?
O pavilhão foi-se enchendo, pouco a pouco, mas “às vezes é no meio de tanta gente, que descubro afinal aquilo que sou”, e eu sinto, hoje, de forma clara, e como muito poucas vezes, que sou toda esta gesta de tantos anos que trago impressa nos pés descalços, sou a paixão desembainhada pelos corpos que o desejo atou aos meus braços despidos, eu sou, afinal, irmão desta noite que traz “canções de todas as cores”.
O Homem sem riso repousará sob o benefício de lápides distintas e sérias, jazendo por se ter rendido ao controlo de alguém, e de se ter feito escravo desse juízo alheio.
O Homem completo é aquele que cresce sem se esquecer e sem ter vergonha de brincar.
“Eu em troca de nada dei tudo na vida”, talvez por saber que é destes pequenos nadas que se faz a própria vida.  

domingo, 6 de maio de 2018

A minha mãe...


No tempo em que me levavas pela mão até à missa das seis da tarde em São Bartolomeu, aos domingos, depois de termos preparado, juntos, um pudim Mandarim para o jantar, eu chamava por ti, às vezes, a meio da noite, para que viesses ajeitar-me a cama, porque ela estava enxovalhada.
- Mãe!
Ainda hoje, nos dias e nas noites “amarrotadas”, eu continuo a chamar por ti, e da mesma forma: como quem reza.
Porquê?
Porque o teu abraço me veste o céu.
Continuamos a ir juntos à missa, mas agora sou eu quem te dá o braço, sentindo que, apesar de ter mais vinte e quatro centímetros de altura, jamais te acharei pequena. Pelo contrário, vejo-te gigante, e imagina tu, que, muitas vezes, quando caminhamos assim, penso que todo o melhor de mim são coisas que me deste. O demais, a pobreza onde essa excelência se dilui e às vezes se perde, são coisas que eu inventei.
Mãe, também não me lembro, se alguma vez te disse que tu és a minha casa, que és o amor que não se cala mas onde o silêncio diz tudo...
Diz, é um facto, mas nós também conversamos muito, e um certo dia, confessámos um ao outro que só gostamos de chorar quando estamos sozinhos. É verdade, mas eu sei que tu choras sempre que fechas a janela depois de me acenares um adeus, nos domingos à tarde, e tu também sabes que eu vejo sempre turvo esse fechar da janela, quando olho pelo retrovisor, porque de Vila Viçosa a Borba choro sempre de saudades.
Tuas, do pai, do mano Zé Artur, da minha casa, de mim pequeno, dos “lençóis” que ainda hoje me desamarrotas... Saudades do tanto de mim que fica sempre ao pé de ti.
Mãe, um imenso beijo e um domingo cheio de flores.