sábado, 23 de setembro de 2017

Outono


O Outono tem olhos doces e alaranjados, da cor da marmelada em taças de porcelana que as mães esconderam debaixo de um recorte de papel vegetal, e puseram à janela para que secasse ao sol.
O Outono abraça-nos com uma brisa fresca, envolvendo-nos na lembrança de todas as idades. Veste-nos camisolas, casacos e sobretudos de bolsos fartos onde escondemos a mão, recordando-nos que onde agora cabe a carteira ou o telemóvel, antes vivia a bolsa dos berlindes ou o pião.
O Outono chama-nos para casa, senta-nos em frente a livros que cheiram a novos, e a alvos cadernos que de tão aprumados, facilmente nos arrancam o compromisso de novas histórias escritas com uma excelente caligrafia.
Sim, um caderno em branco é como o nascer do dia.
A construção da cabana de canas e pedra que projetámos para uma das encostas do castelo ficará agora suspensa, e talvez nos deparemos com os seus destroços, daqui a uns meses, quando andarmos em busca de musgo para o presépio.
O Outono toma o canto das primeiras chuvas em dueto com a vidraça; tem o aroma que emana da terra seca, que, agradece generosamente, ser molhada; o Outono dança com as folhas e a ventania.
O Outono puxa uma manta sobre o sonho e o sono, guardando-nos, por saber que a melhor noite é o abraço de quem se ama na forma de pura poesia.
O Outono risca de encarnado e ocre, o horizonte, nas tardes em que resgatamos as castanhas dos seus ouriços, em que provamos os diospiros, os medronhos maduros, as gamboas e a água-pé.
O Outono talvez nos roube em parte aquele sol que se vê, mas em contrapartida, devolve-nos o olhar para dentro, para o melhor que temos no peito e a que usa chamar-se fé.
 

(Agradeço a foto ao meu amigo José Manuel Marques)

 

domingo, 17 de setembro de 2017

JFK


O tempo livre não é muito, mas o metro, aqui mesmo à porta do Centro de Congressos, consegue levar-me de forma célere até ao cemitério de Arlington.
Passo o pórtico da segurança, recolho um mapa, sigo as setas... e os sapatos de sola resvalam no piso polido por onde caminho na companhia dos esquilos, procurando a sombra dos enormes carvalhos. O calor e o tom cinza do céu parecem confirmar a trovoada que a meteorologia já ousara anunciar.
Viro à direita, depois à esquerda, subo uns degraus, e chego finalmente ao túmulo do Presidente Kennedy, cruzando-me com um grupo de turistas que já regressava. Agora, somos cinco pessoas, o silêncio e uma chama.
Do silêncio dos grandes Homens observa-se melhor a repugnante pequenez dos outros, e à luz da chama que persiste na memória sobre as balas de uma tarde de Novembro de 63, em Dallas, conseguimos ver-nos a viver uma imensa, e triste, sexta-feira treze.
Talvez já não tarde a madrugada de um sábado que desminta este tempo e o devolva à condição de mero pesadelo. Eu quero acreditar que os Homens voltarão em breve a derreter os muros, voando com as asas de todos os seus sonhos legítimos.
Olho o relvado em frente, acaricio um pouco mais o silêncio, e devolvo-me às sombras dos carvalhos, parando aqui e ali para oferecer uma bolota a um esquilo mais "conversador" e desinibido.
De repente, recordo-me dos domingos em Vila Viçosa quando me era dado o prazer de estrear uns sapatos. A subir a praça até à igreja de São Bartolomeu, também derrapava assim e tinha que fazer força para não cair.
Eu, pequeno, com uns sapatos novos e uns calções do tecido que sobrara do fato do meu pai, e eu, aqui, a afastar o suor da barba grisalha sob as sombras de Arlington. Nenhum Homem, por mais pequeno que seja, está longe da História e do poder de a reinventar.
Persiste o calor, mas as nuvens dispersaram e a trovoada afinal já não virá.
Oxalá seja sempre assim, e o meu "grito" faça com que o sábado chegue depressa e sem que troveje. Há milhões de silêncios à espera da nossa esperança.

 

sábado, 16 de setembro de 2017

“I have a dream”


O tempo não apaga o eco das palavras incandescentes, fogueiras acendidas pelo ímpeto de liberdade, que persistem, aqui, entre os ramos dos carvalhos e as farripas de sol, que os beijam em êxtase ao fim da tarde.
O sangue, rubro, desenha papoilas que nos afloram ao olhar, candeias em verso, velas que nos limpam os soluços da viagem e nos impedem de naufragar.
Os meninos, que vieram de perto ou de mais longe, e que trajam vestes coloridas sobre os seus corações sem cor, fizeram uma roda gigante onde as mãos e as vozes rimam com o futuro, e com o poema desenhado para uma eterna canção de amor.
Há beijos sentados nos bancos de madeira, detalhes de amores sem género, credo, rótulo, dinheiro ou distância, beijos sem aditivos ou corantes, e que a alma desenhou à sua maneira, como se mais nada tivesse importância.
O homem que salta à corda e a mulher que assobia, passeando-se de mãos nos bolsos por entre a gente, decalcam gestos sobre a verdade que trazem ao peito, esmagando pela igualdade, a repugnante dor de qualquer fobia.
Deus não mata, não condena, não cala, não separa... Qualquer que seja o detalhe sagrado ou religioso, a tefilá, o mantra, a salá ou o salmo que ouvi, Deus apenas sorri.
Derrubámos os muros, como se fossem folhas de papel fáceis de rasgar; substituímos o hidrogénio pelo sonho nas bombas certeiras que cruzam o mar; enchemos os mísseis de pão; pusemos açúcar sobre os caminhos, eliminando as fronteiras e o alcatrão; eliminámos as manchas negras das notícias, impregnando-as de poemas ditados pelo coração.
E voámos com os pássaros por sobre todas as noites, mesmo as mais escuras, juntando pedaços de estrelas e linhas de luar, sabendo que cada madrugada é uma chance única é imperdível para que o mundo se possa reinventar.
"I have a dream".
"Eu tenho um sonho"… que persiste com a força de acontecer.
Há sonhos assim, que não se nos podem morrer.

 
(Washington, 14 de Setembro de 2017, lembrando Martin Luther King e o seu “sonho” de 28 de Agosto de 1963)

 

sábado, 9 de setembro de 2017

Calípolis


Somos alegres, otimistas, e temos, em geral, muita graça. Mesmo que se nos atrase o amanhecer, e não possamos ver o sol, fazemos renascer o sorriso com um chocolate quente na barraca do brinhol. E a graça? Se não a virmos a passear por aí, sabemos que estará, por certo, na Fonte da Praça.
Temos a alma gigante que é raiz de uma fé inspiradora. Por exemplo, jamais assumimos morrer, vamos sempre passar a eternidade, e descansar, para detrás de Nossa Senhora.
Somos uma terra curiosa com os detalhes doces do sul, e outros que são únicos e interessantes. Temos as alcunhas, que por aqui são anexins, e temos a dolência Alentejana presa na voz, mas também temos três aldeias que vão dar ao Rossio, e uma ilha onde se pode chegar andando, bastando cruzar a Porta dos Nós.
Sabemos onde é o paraíso. Quem desce dos Capuchos em direção ao Galandim, vira depois do convento, à esquerda, seguindo sempre pela cerca do Jardim.
Se procurarem a Rua das Escadinhas, a da Freira, a do Poço, a Corredora, a Rua dos Fidalgos ou a Rua da Guarda; a Rua das Pedras, a de Angerino, a de António Homem, a de Três, a de Cambaia, ou a Travessa do Salvador, não procurem nas placas de mármore que as enfeitam, porque esses nomes já não moram lá. Com amor, somos nós que insistimos trata-las pelas graças que lhes deram os nossos avós, e que retratam, afinal, a sua história, seja ela qual for.
Fintamos mais e melhor do que o Ronaldo, por alturas da Páscoa e do folar, comemos sopa de tomate com figos, e desmentimos o embuste dos Elvenses: a Sericaia é uma cópia com ameixa, do verdadeiro Sericá, doce trazido da India por Dom Constantino de Bragança, para o palácio fantástico que temos cá.
Temos orgulho nos conterrâneos famosos, e defendemo-los com afinco, desde a Dona Catarina, que foi Rainha de Inglaterra e inventou o Chá das Cinco, a Florbela, a Espanca, poetisa maior do amor, nos sonetos do Livro de Mágoas, Soror Saudade ou Charneca em Flor.
Somos Calipolenses desde há séculos, por André de Resende ter reconhecido na nossa terra a Calípolis, em hora de inspiração. Sim, essa mesma, a cidade perfeita, a Calípolis, de A República, de Platão.
Gostamos de ser assim e gostamos dos nossos vizinhos, até mesmo quando brincam connosco tratando-nos por Libatus ou dizendo sermos da terra da égua. Relativamente a este último ponto, sempre podemos dizer que é melhor faltar a genitália ao cavalo da estátua equestre do Dom João IV, o Rei Restaurador, do que a qualquer um de nós, mulheres e homens de grande… vigor.
Somos e seremos sempre Vila, por nome, porque por alma temos o mundo inteiro, e Viçosa, também somos por graça e justiça, por sermos em Portugal, o mais florido canteiro.
Hoje é dia de Festa dos Capuchos na nossa terra, e daí este texto entre a prosa e a rima, dedicado aos meus conterrâneos. Os outros amigos não me levem a mal.
Calipolenses ou não, esperamos por todos para bebermos uma ginja, mais logo à noite, sentindo a brisa doce que o Alentejo oferece em Setembro, no Largo dos Capuchos, sob os arcos coloridos do arraial.
 

(Agradeço o desenho da igreja dos Capuchos à inspiração do meu amigo José Barreiros; e à laia de glossário sempre digo que o brinhol é uma fartura e fintar é levedar)

sábado, 2 de setembro de 2017

Setembro despenteia o tempo…


Setembro despenteia o tempo e as árvores, arrastando e prendendo folhas rubras e amarelas na franja de todos os minutos.
Para além disso, Setembro, calça-nos e fecha-nos os pés em sapatos, com os atacadores a prenderem as memórias das tardes passadas no campo ou na imensidão da areia que se enfeita com a espuma do mar.
Dirá quem acordar agora de um sono profundo, que Setembro semeia sombras, projetando os troncos vazios sobre as fachadas das casas; como se o sol morresse definitivamente debaixo das folhas cansadas ou dentro da pele engraxada das botas que Setembro calçou...
Os troncos apenas repousam, saboreando o gosto da sua história, e tomando fôlego para destemidas primaveras. Os troncos são como braços esperando os beijos de outros desejados braços que vivem no condomínio do peito de quem amamos.
Entretido com o aroma doce de marmelos maduros, com a uva que tomou do céu, o sol, e os ouriços que soltarão as castanhas como quem nos beija o paladar, Setembro é esta casa confortável onde tudo aquilo que vivemos se senta e repousa numa sala de sofás em tom grená, com vista para o tempo novo que chegará em cada manhã.
Sofás em tom grená, do mesmo tom maduro da alma que se espreita no espreguiçar dolente de uma romã.
 

(Agradeço a foto ao meu amigo Miguel Cebolas)

 

 

sábado, 26 de agosto de 2017

Novena...


De cada vez que cortamos uma flor, mesmo com o intuito de a levar até à igreja, nós apeamos Deus do Seu altar.
Por isso, é aqui, no campo bravo que o sol queima de Agosto, muito mais do que em qualquer outro lugar, que o nosso riso descalço de prudência, faz ecoar a prece das novenas, no canto feliz de acreditar.
Nós sabemos, Senhor, Deus das Flores e das Fontes, que as massas estranhas que nos rasgam o corpo jamais irão além da superfície e nos atingirão a anatomia da alma, a essência doce apenas acessível ao amor.
A vida é como o vento e nós somos feitos da essência do trigo, que persiste no pão. O mesmo vento que um dia beijou e brincou com as espigas nas tardes de primavera soprará mais tarde, fazendo rolar a mó no cimo de uma serra qualquer.
Sim, Deus da Água, do Pão, Casa da Eternidade… mas nós gostamos tanto do nosso abraço.
Eu sei que nos entendes por entre este medo que ele, o abraço, se desmanche na componente que as árvores podem espreitar e cobrir com a sua sombra. Nós não estamos a fugir de ti, a nossa prece é apenas a saudade a falar por entre um humano cansaço.
Sim, Senhor do Riso e do Tempo, este canto de amigos, colorido e terno, é afinal, a voz enfeitada pela fé de quem espera e deseja um longo e profundo abraço, em festa e trajando as roupas do inverno.

 

 

(Agradeço a foto ao meu amigo César Lopez)

 

 

sábado, 19 de agosto de 2017

O amor enleia-se no fio branco das rendas


A primavera de 1981 foi o período em que a minha mãe produziu mais peças de crochet.
Apanhava a automotora pela uma da tarde na estação de Vila Viçosa, apeando-se duas horas depois na Comenda, já muito próximo de Évora.
Regressava a casa no autocarro das dezassete, numa viagem de cerca de uma hora.
Todos os 27 dias contados a partir de 19 de Março, aquele em que fui submetido a uma cirurgia na sequência de uma apendicite que acabou em peritonite.
Pelo menos, três horas de crochet por dia, porque existia ainda o tempo das esperas.
O verão de 2017 segue quente no Minho, e eu agradeço a brisa fresca do percurso até à fonte do Gerês. A primeira toma de água é às sete e meia, e eu vou sozinho com dois copos na mão, que o meu dorme sempre por lá na prateleira da direita, no número 41.
Depois, mais duas tomas de água, o gelo e os ultrassons no joelho da mãe, o jornal, os livros, a bica, a conversa, a raspadinha com mais ou menos sorte, a escrita, um ou outro e-mail...
Juro-vos que se eu pudesse, faria passar um rolo compressor sobre o tempo, distendendo-o e prolongando a estadia por ali, no sítio onde os olhares nos abraçam mesmo quando os braços repousam.
O amor é o berço e a casa dos Homens, fluindo de modo tão livre, espontâneo, e acelerado, que é impossível reconhecer-lhe o sentido num determinado instante. É ato desnecessário, mirarmo-nos ao espelho da água das fontes, porque jamais saberemos se é de recetor ou emissor, o estatuto que o amor nos cola aos gestos e às palavras. Ou será de ambos?
Para nos fazer crescer, o amor é mais importante que as proteínas da carne, e contra as agressões exteriores, é mais eficaz do que as vitaminas.
O amor não vive de impulsos, é sereno, mas também nunca se desarruma.
De tarde, no Gerês, e neste verão de 2017, apreciávamos o sossego, mesmo sem sesta, repousando sobre os parágrafos de uma conversa desprovida de qualquer pressa, acariciando a face na almofada do riso das melhores memórias... Enquanto a minha mãe fazia crochet.

Na nossa casa, definitivamente, o amor insiste enlear-se no fio branco com que se tecem as rendas.