sábado, 28 de março de 2020

Prece dos Homens sozinhos


Na cruz que os meus passos desenham ao encontrar-se, nos ladrilhos da varanda, com o silêncio, há sementes que saciam o melro. Foram trazidas pelo vento do Sul quando os sinos rezavam o meio dia...
Louvado sejas, Senhor do Pão que não falta.
Por sobre a penumbra dos templos, no repouso das catedrais, emerge ao amanhecer, o eco dos púlpitos nos gestos da gente, o “passeio” dos sacrários e destas ermidas que somos, simples, de sangue e alma, em procissão de vida nas casas, e por todos os recantos de nós...
Louvado sejas, Senhor do coração dos Homens.
As praças não estão vazias, apenas adormeceram, aguardando, solenes, a hora dos abraços reforçados pela vontade que a quietude deste estar só lhes impõe...
Louvado sejas, Senhor da esperança.
A primavera não morreu nem nos traiu a sorte, e nas rosas em botão da quietude destes nossos dias guardados, permanece a essência e a cor que a reinventará intensa e eterna...
Louvado sejas, Senhor da fertilidade das horas.
Na vereda em pedra que sobe para Jerusalém, a multidão de santos anónimos alivia a dor e o pó, sustentando a essência de ressurreição, e devolvendo os sepulcros à solidão.
Louvado sejas, Senhor da Páscoa.
A palavra certa ainda voa como se fosse gaivota, o amor não desistiu de nos oferecer um banco junto à lareira, a noite permanece um instante, as mãos das mães, em corpo ou memória, continuam a afagar-nos a fé, as cidades apenas descansam, e os rios, ainda que à distância, continuam a cumprir-nos a poesia...
Louvor a Ti, Senhor, e novamente a Ti, por Tua Mãe, Maria.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Crónica dos dias do cerco



Começo por vos advertir para o facto desta crónica ser um pouco ao estilo “carapaus fritos com molho de natas”, mas estes dias vão algo estranhos, baralhando-nos os conceitos e ferindo-nos os impossíveis.
Ninguém nos tinha dito, e por isso estamos nós a aprender agora, que existem primaveras inacessíveis, mesmo que as vejamos, perversas, a espreguiçarem-se bem para lá das janelas.
Bem gostaria eu de poder ir brincar para o jardim em frente à minha casa...
Mas não.
Estou em Vila Viçosa em teletrabalho e em funções de escudeiro fiel dos meus progenitores, de 77 e 79 anos.
Não vá o Covid-19 reparar que existimos, ficamos em casa, e só eu é que saio de vez em quando, para fazer alguma compra, na minha terra tão estranhamente deserta.
E aqui um parêntesis para dizer aos meus conterrâneos que a nossa terra é linda de monumentos, praças e casas, mas padece-me a falta dos vossos olhares.
Fazem-me muita falta porque são o melhor de cá.
Neste modo “aprisionado” de estar, a minha mãe é a mais irrequieta e a mais difícil de convencer a ficar por casa. A crueldade dos números que os telejornais foram mostrando deram-me algum apoio na causa, mas o regresso da Cristina Ferreira à antena da SIC, e a forma como ela, muito bem, manda estar em casa, foi decisivo para a mudança de atitude da minha progenitora.
Eu como profeta, cá em casa, e definitivamente, perco em toda a linha para a Tininha da Malveira.
É um facto.
Por falar em televisão, ao fim da tarde vejo o Preço Certo na companhia do meu pai, e não é que até já acho alguma graça àquilo?
Preocupante?
Quiçá.
Uma coisa é certa: reconciliei os meus pais com o meu i-Phone.
Ontem celebrámos virtualmente o aniversário da minha amiga Natália, e reparo que a partir desse momento até já lhe devotam algum carinho e admiração.
Como temos uma varanda, o meu momento mais íntimo com a primavera ocorre no final das refeições ao sacudir a toalha para um pequeno telhado. Os pintassilgos já estão à espera das migalhas.
É um privilégio ter podido voltar a brincar com os pássaros.
Trabalho, escrevo, leio e converso muito com os meus companheiros de “cela”, numa existência algo estranha que toma esperança do facto dos beijos e abraços, lá fora, estarem apenas adormecidos.
Um dia voltaremos para eles.
O meu banco tranquiliza-me todos os dias, provando estar vivo na sua genética de... vampiro, ao enviar-me soluções de crédito imediato.
Tão queridos e tão cínicos.
Para vos dizer a verdade, a mim o que me tranquiliza mesmo, aqui nesta trincheira estranha e inóspita, é saber que estamos todos juntos, e somos todos contra o Covid.
Por isso, por estes dias, não ligo e desprezo as mensagens de ateus contra as religiões, seja a minha ou outra, as caneladas futebolísticas, os ataques políticos, a mesquinhez da crítica barata, o norte e o sul, o interior ou não... e a prova disto, é que eu, que nunca votei em António Costa, e para ser franco não penso vir a votar, estou com ele e com a sua equipa, porque é com eles que temos de vencer o “bicho”.
O resto logo se discutirá quando tudo passar. Porque irá passar.
Hoje iremos jantar pizza, depois de termos almoçado uma belíssima sopa de cação, e é claro que à mesa falaremos daquela vez em que chegámos os três a Veneza e apanhámos um táxi barco. Era tão grande a minha preocupação de não os deixar cair para o canal, que, distraído, quase ia morrendo com uma cabeçada no tejadilho da dita embarcação.
Quer queiramos, quer não, o mundo que fomos colhendo, trazemo-lo dentro, mesmo quando nos fecham, assim, em casa, e eu, entre versos, juro que ainda farei um remoinho de papel para o pôr a rodar junto ao sítio onde brinco com os pintassilgos.
Como se fosse o meu mundo inteiro e colorido.

quarta-feira, 18 de março de 2020

Pai


O tempo muniu-se de uma estranha ventania, e foi-nos levando aos poucos, contra a nossa vontade, as palavras, os nomes certos, os lugares... deixando-nos tristes na aparente aridez de um livro branco de onde voaram as histórias e todas as memórias bonitas que juráramos guardar.
Mas nós seremos sempre o antídoto do deserto e do cansaço, porque as nossas mãos que se conhecem da raiz do berço, atam-se sem cuidarem de qualquer porquê, para inventarem rios e nos levarem juntos até ao mar.
O mar onde um beijo é uma balsa segura que segue as linhas fluorescentes das estrelas, por nada, sem razão, e sem destino algum, apenas na festa de ser cúmplice do céu…
E do amor, este tanto e imenso amor, que é toda a vida que permanece sobre o eclipse dos parágrafos e o voo da consciência.
Pode faltar-te tudo o mais que o mundo vê, mas tu, pai, és e estarás sempre inteiro e perfeito num beijo, no nosso beijo.

 

terça-feira, 17 de março de 2020

Dias que nos dão um ligeiro toque nos ombros…


Num destes dias iremos calar de novo as fronteiras, e poremos no ar, por pura ambição e vontade, os aviões, sentando-nos lá dentro, preparados para voar, sem lastimarmos que alguém atrás de nós, não para de falar, ou de que uma criança chora no banco imediatamente a seguir.
O que importa é que vamos.
Aproveitaremos para celebrar esta tolerância à beira Tejo, comendo dois pastéis de Belém, enquanto escutamos a música de uns saltimbancos, a que antes chamávamos ruído, e apercebendo-nos que os cacilheiros não fazem carreiras para transportar gente entre as margens, mas apenas dançam, muitas e muitas vezes, com as águas do rio, desenhando traços alaranjados aquém ou além da ponte.
Por esses dias, eu já terei acenado à senhora que se cruza comigo todas as manhãs naquela avenida junto à Fábrica da Pólvora, bem como ao rapaz que, encostado à paragem do autocarro, costuma assistir à minha irritação porque o semáforo me parou.
Bem-haja, afinal, o tempo que nos bate nos ombros, roubando-nos à distração, e que nos devolve a capacidade para descobrir gente e afetos, ainda que anónimos e improváveis, atenuando-nos a pressa, e reconciliando-nos com os semáforos da vida.
Acho que quando tudo isto acontecer, eu já terei perdido a capacidade para inventar desculpas e faltar a um jantar ou a uma tertúlia de amigos, já não acharei demasiados, os beijos que se dão à saída da missa, conseguirei saborear um café que não tenha gosto a “urgência ditada pela agenda”, não adirei a ida ao teatro, ao cinema...
Não verei como espera enfadonha, os dez minutos na fila da cafeteria, porque são, na verdade, uma oportunidade feliz para estar com os meus colegas.
Sempre que for à bola, não me sentirei irritado com o senhor que não se cala, e se senta na fila atrás de mim, porque importante, mesmo, é a festa de podermos estar ali.
- Oh Pizzi!
Ele poderá gritar mil vezes que eu não vou ouvir. Estarei concentrado no jogo, porque esse sim, me faz falta e me faz sentir saudades.
Quanto a porta de casa se abrir, e eu puder correr finalmente até ao mar e ao cabo que se vê desde a minha janela, terei aprendido tudo isto, e muito mais, que o tempo parece seguir lento, por forma a dar espaço à sensatez e ao bom julgamento.
Porquê estas lições?
Quiçá porque para os “distraídos” como eu, as lanternas que brilham no olhar da gente se veem melhor quando toda a luz se apaga, e porque, inexplicavelmente, é preciso sentir o peso dos muros sobre o tempo e os caminhos, para aprender o valor infinito de liberdade que tem cada mais pequeno beijo ou cada passo, mesmo que aparentem ser insignificantes, monótonos ou corriqueiros.
Dias que nos dão um ligeiro toque nos ombros…

domingo, 15 de março de 2020

Lições do lado de cá da porta...


#FicaEmCasa
Lá fora, deliciosamente, o sol insiste destapar as linhas de todos os lugares a que chamamos nossos, e quase achamos perverso, o sentimento de lhes associarmos o medo.
Como se o imprevisível não existisse, traindo-nos o sossego, e o bonito não pudesse carregar em si milhões de beijos bomba?
Estamos sentados na sala da casa de Vila Viçosa e assistimos à missa transmitida via YouTube, diretamente da igreja de Nossa Senhora da Conceição.
Eu e os meus pais, com a minha mãe a perceber finalmente que uma pessoa em Nova Iorque ou na Austrália poderia estar a seguir a celebração ao mesmo tempo que nós.
Se não fossem estes dias, como saberíamos atribuir real valor àquilo que por ser tão nosso, quase lhe chamamos banal?
Prometo que jamais chamarei rotina ao ato de sair de casa, tomar a bica e seguir alegremente, caminhando para o castelo, até à igreja.
Se não fosse o dia de hoje, como poderia a minha mãe entender que o mundo já não tem tanto de impossível quanto ela pensava?
Faço a foto e apercebo-me que em cima da mesa pequena, ao lado do PC, ficou um desenho do meu sobrinho Luís, que se entretém a fazê-los sempre que por aqui vem.
Há dias assim, que nos ensinam a puxar o sol para dentro de casa, usando as cores que habitualmente nos destapam o mundo real, para desenharmos sobre as folhas em branco do silêncio e da solidão, o planeta perfeito que cumpre todas as nossas vontades.
Todos os dias trazem lições.
Lições do lado de cá da porta.
 


 

 
 

 

sexta-feira, 13 de março de 2020

Um imenso abraço invisível



Os abraços são muito pouco de ver, e tanto de sentir, e este é o tempo ideal para os soltarmos, em liberdade, desde o jardim onde nos sentarmos na aparência de estarmos sós.
Aparência, porque raras vezes estivemos tão unidos, e jardim, porque todos acharemos em casa, um poema ou um livro que nos plante rosas na sala, por entre muitas outras flores.
Enquanto tivermos pensamento jamais nos faltarão janelas, e o sonho fará o resto, oferecendo-nos as asas para irmos até ao mar, buscando os nossos, para deixarmos por entre a bruma, o canto perfeito da vida, em mil versos que desmentirão o silêncio.
Da vida e do amor que nos faz.
Ainda que tudo nos parece triste, ainda que os dias aparentem ter muralhas de pedra...
É hora de resistir, por muito mais do que cada um. Por todos.
Num imenso abraço invisível, com um poema, e solto o sonho e o pensamento, porque o final desta história será um sorriso imenso a que ninguém poderá faltar.
 
 

 

terça-feira, 10 de março de 2020

Conceição


Por mais que a vida insista puxar o inverno, quem nasceu para ser abril nunca deixará morrer a primavera, em si e em todos os seus.
E a Conceição foi e será sempre um abril de cravos vermelhos, liberdade, frontalidade, honestidade e vida, muita vida, sorvida até à última gota dos dias todos.
Quando nos conhecemos eu ia fazer trinta anos, e tinha acabado de entrar na Pfizer, trabalhávamos com o Pedro Caeiro, nosso colega, e para além das tarefas que enfrentávamos com orgulhoso profissionalismo, íamos partilhando a vida, naquele caminho que começa onde somos colegas, e depois já não termina, porque pelo meio nos fizemos grandes amigos e nos fomos dispersando pelas coisas mais bonitas do mundo.
Fui lá colher essa foto, reparando que na mesa está também o meu saudoso amigo Dr. Pedro Marques da Silva, que partiu há pouco, e de quem guardo as melhores memórias.
Nos últimos anos, é verdade, eu e a Conceição afastámo-nos um pouco por detalhes infinitamente tontos perante a dimensão de quem se quer.
Íamo-nos espreitando pelas janelas do Facebook e felicitando nos anos ou no Natal.
Um dia haveríamos de nos juntar para esclarecermos tudo com a delicadeza própria do cristal, iluminados pela amizade, e, quiçá, por um pôr-do-sol de Lisboa.
“Tu sabes que eu sou feita de cristal, e muito sensível”, repetia-me.
Não houve tempo para nos sentarmos à mesa de um café ou subirmos a um miradouro da Cidade Branca, e de eu lhe pedir desculpa, reconhecendo que, afinal, e contra todas as casmurrices que me caracterizam, não há dia em que em mim não brilhem detalhes dessa sua primavera, onde o otimismo são flores, o riso é o sol, e a liberdade é este Tejo imenso que beija a cidade e procura o mar sem temer quaisquer horizontes.
Até sempre, amiga Conceição, vamos falando entre as sardinheiras mais garridas e o voo das gaivotas, porque por aí será o teu céu.
Um beijo