quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Belas e tecnicamente assistidas


O final de Agosto e a preparação do visual para o regresso ao trabalho após as férias, por certo justificará as dezenas de números à minha frente na fila para cortar o cabelo, que me colocou durante alguns largos minutos em contacto com a componente feminina do cabeleireiro misto que frequento.
Uma janela aberta para o universo feminino e para os segredos que ele encerra.
Gordas, magras, altas e baixas? Não importa, porque todas as clientes ficam iguais depois de cobertas por larguíssimas capas negras semelhantes às que antes na minha terra se fabricavam para cobrir e disfarçar as botijas do gás.
De capa, e sempre de mala ou carteira na mão, a provar que os cabeleireiros de senhora não são espaços desprovidos de amigas do alheio.
Sentadas ou em movimento, porque às dezenas circulavam naquele espaço, as mulheres de capa fizeram com que me sentisse no espaço de uma edição dos Jogos Sem Fronteiras, num jogo de bonecos sempre-em-pé à espera de serem derrubados pelos elementos de alguma equipa de Albufeira ou Gondomar.
Nas capas, reparo, há um bolso onde o funcionário da recepção coloca um papel, por certo com o circuito de beleza e tratamentos a aplicar. Qual processo clínico à entrada para um bloco cirúrgico.
A coisa é mesmo a sério e eu não resisto a fazer circular o meu olhar pelo espaço.
Há uma senhora sentada e com um ar super aborrecido, de mala no colo e com a nuca encostada ao lavatório, que tem a cabeça coberta por uma toalha que só deixa observar uma pilha de materiais metálicos que lhe assentam na testa, quase ao jeito de estar a equilibrar na fronte, dez tabletes de chocolate da Regina.
Reparo numa cabeleireira que com uma só mão segura dois secadores e puxa com tal violência o cabelo da cliente, que se o fizesse assim a mim, confesso, deixar-me-ia morto. Com a ajuda do espelho, procuro o fácies da senhora para ir em seu auxílio com o olhar e dar-lhe algum conforto. Surpreendo-me. Está com um ar tão sereno que parece ir adormecer em breve.
Do outro lado há uma mãe que levou as duas filhas com ela, e o que se assiste é um verdadeiro ritual de iniciação, com a mãe a explicar tudo em detalhe às filhas que não deixam de estar algo assustadas com as investidas da cabeleireira e a sua escova de tortura.
Há mulheres que não satisfeitas com a intervenção nos cabelos, fizeram sentar junto a si uma manicura numa cadeira baixa, e estão assim despojadas de cabeça e mãos, entregues aos tratamentos das funcionárias que se entretêm a discutir a edição da Caras ou a novela da TVI.
Observo então as restantes cabeleireiras e vejo que todas interagem umas com as outras, falando de tudo o que lhes passa pela cabeça, totalmente alheias, de olhar, ouvido e pensamento, das mulheres que depositaram os cabelos nas suas mãos e que sofrem pelos repelões violentos nesta guerra de escova e secador. Repelões dados ao ritmo da conversa com a parceira do lado e, meu Deus, quanto stress descarregado nas melenas alheias.
Na parede ao meu lado está um painel e mal começo a ler encontro justificação para esta confusão: às quartas, 20% de desconto em Trabalhos Técnicos.
A malta veio em massa porque hoje é mais barato e eu sem saber vim meter-me num “Pingo Doce” em Dia do Trabalhador.
Mas, Trabalhos Técnicos?
Socorro-me do precário, que também está no placard, para melhor compreender o que são neste universo, Trabalhos Técnicos, e fico a saber que o Brushing Tissagem, o Penteado Babyliss, o Flash Total, as Madeixas de Touca Cabelo Curto, o Color Touch, a Dose Suplementar de Tinta, o Banho Americano, a Meia Ondulação, a Desfrizagem com 100 ou 50 ml de produto, a Progressiva Intensa com 60ml de produto, a Térmica com 200ml de produto e a Dose Extra Térmica, o serão por certo.
Entretanto chamam o meu número, corto o cabelo e em minutos estou na fila de pagamento, também ela mista e impregnada de mulheres após Trabalhos Técnicos.
Há no ar um cheiro a produtos, mas confesso-vos que nenhum tem o cheiro tão agradável da laca que a inesquecível e fantástica D. Mariana Aurélio colocava no cabelo da minha mãe e que eu não resistia a cheirar sempre que ela chegava a casa.
Mas tenho de confessar, as pagantes que como eu aguardam na fila, estão todas mais bonitas.
Valeu a pena a intervenção técnica ao fim de tarde. 

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Trabalho (O regresso)


É estranha a sensação de voltar a colocar os pés em sapatos formais e não fora o reencontro com as peúgas após quase quatro semanas de férias, e os pés, relaxados e adaptados ao calçado leve e largo dos últimos tempos, não conseguiriam sequer entrar nos ditos.
E então quando ao segundo dia de trabalho nos apanha a chuva? Nós ainda nem reaprendemos a andar com sapatos de sola, quanto mais ter condições para correr e fugir da água que cai.
Nesta rentrée, neste meu “Pontal”, a roupa, esquecida por semanas no armário e derrotada por goleada pelas T-shirts, pólos e bermudas, parece ter encolhido, porque com um despertar assim tão madrugador ao som do toque que não ouvíamos há muito, não há hipótese de nos recordarmos dos petiscos, do vinho, das caipirinhas e sangrias, das sobremesas e de tudo aquilo que pelo facto de estarmos em férias, tornámos excepção acrescentada à nossa regular e equilibrada dieta, promovendo o aumento do perímetro abdominal.
E os cintos são como o algodão: nunca enganam.
Para além disso, como são incómodas as calças para as nossas pernas já habituadas a andar ao léu…
Regressa o ruído do trânsito, as apitadelas, as acelerações e as travagens. E como tudo isso nos fere os ouvidos que calmamente relaxaram durante semanas a ouvir apenas as ondas, numa tranquilidade só ferida à passagem do rapaz das Bolas de Berlim, a gritar em três línguas e a provocar o reboliço nas tumbas de Cervantes e Shakespeare:
- Bolinhas caseiras;
- “Bolinhas caseras recien etchas”
- “Donaaaaatz ó meid”
Pequeno – almoço? Comida é coisa que não apetece porque nos desabituámos de comer tão cedo.
Mais do que nunca, saio de casa com urgência de bica e com intuitos de promoção desta a anti-depressivo. Reparo que o café continua no mesmo sítio e regressaram já os vizinhos com quem todas as manhãs troco simpaticamente os bons dias.
Estamos sentados nas mesas de sempre e a ouvir… as notícias de sempre.
Euro, Grécia, combustíveis, Troika, privatizações, deficit, privatizações, roubos e agressões ao estilo TVI / Jornal do Crime…
Nunca mais repetem os golos da vitória gorda infelizmente rara do Benfica, e por isso saio em direcção ao carro onde a rádio, apercebo-me, dá as mesmas inevitáveis notícias, acrescentando ainda a polémica das touradas que me dá a sensação de estar para este regime como a guerra da Simone e da Madalena, do Calvário e do Garcia, do Diamantino Viseu e do Manuel dos Santos, estavam para entreter a malta nos tempos da ditadura.
E assim, a pensar na dita dura vida dos nossos dias, acelero para trabalhar.
Sabe bem o fresco desta manhã de Agosto que refresca tudo e também a memória.
Afinal de contas para quê lamúrias, se beneficio desse bem raro, valioso e cada vez mais escasso, que é o emprego.
Venha então o trabalho.
E para o ano, que regressem as férias, se ainda as houver, porque por Decreto, tudo muda ou pode mudar.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Portugal 2012


Brava é a gesta de argutos artistas,
Doutores instantâneos e mestres de ilusões
Capados de honra, medonhos alquimistas,
Sorvedouros do erário público, Fundações.

Públicas, as virtudes que de Estado dão pose,
Privadas, as artes de negociatas estranhas,
Parcerias criadas, que a ambição sempre cose,
E nas contas privadas operam façanhas.

Campeões de rotundas, portagens e asfalto,
De Olímpicas manigâncias, mundiais recordistas,
Ganhadores de medalhas sem ter de ir mais alto,
Bastando esperar Junho e mimar “os artistas”.

Mata-se a justiça e cozinha-se nova lei,
Destrói-se qualquer prova: escuta ou impressa,
Porque a corrupção nesta República é rei,
E a salvaguarda das posses, o que mais interessa.

E assim, os governados sucumbem pela dor,
E quem governa, diz sempre não estar mal,
Nesta terra que somos e a que devotamos amor,
O orgulho e a nossa luta. Para sempre, Portugal.

A gordura e o empenho na caça aos mosquitos


Em meados de 2012, a revisão pelas Finanças, dos meus rendimentos de 2010, identifica um erro a favor dos Serviços, consequência de uma má interpretação da não muito clara regra de preenchimento dos Modelos-Armadilha, minas de dúvidas e catalisadores de multas.
O facto de eu ser um contribuinte exemplar, e de ao longo de mais de 20 anos nunca ter infringido qualquer regra ou faltado a alguma obrigação fiscal, torna-se irrelevante e recebo em carta registada (que me exige a deslocação à estação dos CTT), um documento de 16 páginas repletas de artigos, alíneas, decretos e portarias, daqueles documentos que antes de chegar ao segundo parágrafo já gritámos: rendição!
Percebo que o documento foi feito por um “Manuel Toucinho”, escrito por uma “Isabel Banha” e mais tarde superiormente aprovado por uma “Maria Torresmo”, numa sucessão de revisões, carimbos e selos que parece não ter fim.
Há um número de telefone para informações e não resisto a ligar. Passo por minutos de opções e teclas a carregar, e sou atendido por uma “Manuela Courato” que pelo enfado que manifesta na voz, por certo foi por mim interrompida em alguma conversa sobre unhas de gele com a parceira do lado, ou então na escolha de roupas no catálogo de Outono – Inverno da La Redoute.
Não entende o que lhe digo e nem se esforça para o fazer. Aliás, nem me ouve, repetindo apenas e até à exaustão, a sugestão inteligente e prática:
- Isso tem que ser visto nos Serviços. Pegue no papel e vá à sua Repartição.
Agradeço, desligo o telefone e vou aos Serviços.
Tenho 10 números à minha frente na fila para o atendimento que avança a pi-pi-pis do sistema electrónico, espero que as pessoas sejam atendidas a ritmo lento por uma funcionária, “Filipa Manteiga”, que às minhas primeiras palavras me lavra imediata sentença com o olhar:
- Corrupto. Estás condenado e vens aqui com “tangas”.
Tento ser o mais prático possível e vou directo ao meu objectivo: regularizar a situação.
Depois de três bocejos, quatro sopros e cinco olhares de enfado, sugere-me a alteração na Declaração Modelo não sei quantos, o que faço de seguida e sem pestanejar.
Entrego e recebo a informação de que em breve e pelo correio, me serão enviadas as verbas para a regularização.
Passam-se duas semanas e recebo uma nova colecção, agora de “apenas” 10 páginas, em que uma nova sucessão de “Toucinhos”, “Banhas” e “Torresmos”, depois de mais uma infindável colecção de artigos, decretos e alíneas, me felicitam pelo facto de ter colaborado com as Finanças e me condenam à pena mínima de uma multa de 100 Euros, a pagar desde logo num qualquer Multibanco.
Não hesito e pago de seguida, guardando todos os comprovativos, não vá o diabo tecê-las.
Devidamente informado pela “D. Filipa Manteiga” da minha Repartição de Finanças, aguardo agora o novo aviso com o novo código Multibanco para finalmente regularizar a situação.
E tudo porque me enganei e não declarei um valor correspondente a 0,013% do meu rendimento anual.
Não reclamo nem nunca reclamei por pagar impostos. Faço-o no cumprimento dos meus deveres de cidadão aos quais me orgulho, nunca fugi.
Exijo no entanto, e com toda a legitimidade, que todo o dinheiro que entrego ao Estado por esta via, seja devidamente utilizado, com escrutínio, no cumprimento dos deveres do Estado para com os cidadãos, com particular atenção aos comprovadamente, mais desfavorecidos.
Quem como eu cumpre, tem o direito de exigir.
No relato que vos fiz há um aspecto que me revolta e um outro que me deixa sérias dúvidas.
O primeiro tem que ver com a chamada “gordura” do Estado, e a forma como grande parte das receitas dos nossos impostos são utilizados para pagar uma máquina burocrática que exige níveis de funcionalismo público que são inaceitáveis.
Se ao detectar-se um erro no IRS eu tivesse recebido um e-mail com uma declaração idêntica às do monopólio (“Houve um engano no IRS a nosso favor, vá ao Multibanco e pague X Euros”), o que não se pouparia em papel, selos e sobretudo horas de funcionários.
A multa e o que vou pagar a mais de IRS não chegam para pagar tudo isto. Tenho a certeza.
E o Estado está assim condenado a ser “empresa” que dá prejuízo.
E a dúvida que me assiste tem que ver com a eficácia destas medidas de caça à “infracção”.
Os mosquitos, como eu, somos caça fácil. Mas, e os elefantes? Alguém os caça?
Tenho quase a certeza de que não.
Vejo-os passear por aí com tanta ligeireza.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Vencer o maligno no último feriado de Agosto


16.30 Horas do dia em que Portugal celebra pela última vez o dia de Nossa Senhora da Assunção como feriado nacional, à procura de maior produtividade e em busca da famosíssima competitividade das empresas.
A Basílica da Santíssima Trindade está bem composta de fiéis e pelo linguajar, não tenho dúvidas de que são emigrantes regressados a Portugal para o gozo das férias de Agosto, muitas das centenas de pessoas que me acompanham.
Viemos todos aproveitar o último feriado.
O rosto da imagem de Cristo sobre o altar é realmente feio e juntamente com o excesso de ouro na gigantesca parede de fundo, perturbam qualquer alma que aqui chegue à procura de paz.
O destino de martírio na tarde parece completo quando uma freira se agarra ao microfone e o torna seu em exclusivo para dar a maior concentração de guinchos que jamais julguei possível ouvir. Kate Bush, filha, és aprendiz.
Atrás de mim, na assembleia dos crentes, outra septuagenária em busca de fama e por certo perturbada pelo protagonismo da outra, responde aos cânticos também a guinchos e, de repente, vejo-me metido num duelo vocal que me põe os nervos em franja.
Fico sem saber se saia ou se bata nas duas e, compulsivamente, as obrigue a voto de silêncio.
Após as leituras, começa a homilia, e tentarei ser o mais fiel na reprodução das palavras do padre, de quem não recordo o nome, nos parágrafos que se seguem.
“Maria venceu o mal e nós também necessitamos de o vencer. E nos nossos dias, o mal maior vem advém da intervenção dos poderosos grupos económicos que exploram os cidadãos e que sem escrúpulos e para conseguirem os seus fins, põem as famílias em agonia total, promovendo o desemprego e a exclusão social”.
“É necessário derrotá-los com convicção e com uma forte luta”.
“Maria subiu ao Céu em corpo e alma, e a nós, urge velar pela alma e cuidar do corpo, combatendo situações degradantes como a pedofilia, a exploração e o abuso sexual”.
Quando eu menos esperava, eis que me chega esta convicção de estar em casa. Esta é a minha Igreja, esta é a minha visão social à luz da fé que confesso.
Chega o momento do Ofertório e da Comunhão, e a esganiçada dá o palco a um coro do Senegal, que na sua língua, e com a ajuda dos seus simples instrumentos de precursão, cantam a universalidade de uma fé que não tem etnias. Tem pessoas, nas suas diferenças.
E foi também ao som da Banda de África, que definitivamente e para meu gáudio destronou a “Kate Bush da Cova da Iria” que saí da igreja, com um pouco mais de esperança.
E é de esperança que se alimentam os nossos dias.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Santiago


O dia está escuro e de chuva, mas enquanto subimos a estrada ainda conseguimos vislumbrar a paisagem onde domina o verde, testemunhando que a Galiza prolonga o nosso Minho muito para norte e para lá da fronteira.
Santiago é o destino, e é a Praça do Obradoiro que buscamos depois de nos enlearmos na rede de granito feita de arcos e casas baixas, que sendo simples, nos preparam para que ao primeiro olhar possamos reconhecer grande e magnificente, a Catedral.
Há infinitas línguas e dialectos na festa das pessoas que sentem ter chegado onde as trouxe a fé.
Há turistas e gente sem fé.
Espero meia hora na fila para subir ao trono de São Tiago e quando após os meus pais, me abraço à imagem do Santo, faço-o com a convicção de o fazer ao “Pescador de Homens” nomeado por Cristo juntamente com o seu irmão, o discípulo dilecto São João.
A simplicidade dos dois pescadores contrasta com o ouro e as pedras em que toco, mas não deixo de sentir a fé dos que há muitos anos, pela grandeza, pela arte e imponência do granito, quiseram ao mundo expressar a alegria e a intensidade da sua fé.  
Desço do altar por uma escada estreita e devolvo-me à multidão.
Caminho, buscando a saída, e não posso deixar de agradecer o dom da minha fé renovado às vezes em coisas tão simples e tão pequenas.
Penso nas palavras de Cristo e de como o Século XXI as agradecerá, não expressas na magnificência do granito e do ouro, mas expressas pelo coração dos crentes, as catedrais vivas do nosso tempo, que vivendo os valores da paz, da igualdade, da justiça e da liberdade, contribuirão para revolucionar os dias que seguem tristes, vazios e de muito pouca coerência entre intenções e actos.
Peço inspiração e coragem, e sigo caminho.
Com fé.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Doces refeições de dias felizes


Na Vila Viçosa da minha infância, sabíamos que o verão chegara quando o Serviço de Turismo da Câmara Municipal colocava grandes vasos de Hortênsias na placa da Fonte da Praça, no passeio em frente à Câmara e também em mais algum outro local de destaque da Vila. Para além dos bancos de pedra, dos troncos das árvores da Praça e do sempre fantástico cartaz do cinema colocado junto a um tronco na placa central quase em frente à Farmácia Duarte, ganhávamos locais extra para nos escondermos enquanto brincávamos às escondidas.
Estava calor e por isso comprávamos gelados artesanais feitos de pudim ou de refresco, fabricados por alguma vizinha que tinha mais arte para o negócio e fazia os ditos nas formas do gelo, colocando-lhe um palito que servia como suporte para lhe pegarmos enquanto o saboreávamos.
Gelados de marca, “Olá” ou “Rajá”, estes últimos com os bonecos de plástico do Franjinhas, só em dias de festa ou aos domingos, comprados no Framar, ainda sem a bandeira de Espanha na fachada, no Restauração, no Cortiço, no Festival, no quiosque dos Cucos na Mata Municipal, ou em qualquer outro estabelecimento que os tivesse em destaque.
Os gelados concorriam assim com os rebuçados (com ou sem cromos de colecção em anexo), as pastilhas elásticas “Pirata” e os chocolates da “Regina” que comprávamos nas mercearias que tinham nome de gente nossa conhecida, numa altura em que as Lojas Chinesas eram ainda uma miragem: o Joaquim Canhão, a Maria do Acácio, o João de Deus, o Manuel Inácio, o Carola, o Mestre, a Maria do Viegas, o Eduardo Pina, etc.
Tínhamos ainda a opção dos Chupas de Caramelo, 100% artesanais que eram vendidos na Sopa dos Pobres, à Rua das Escadinhas, e que foram desde sempre os melhores amigos do negócio dos nossos dentistas.
Por estar muito calor bebíamos refrescos comprados em pó em pacotes siameses da “Dawa”, ou então em garrafas de Xarope de Groselha. Às vezes bebíamos “Laranjina C” mas na maioria das vezes bebíamos os refrigerantes feitos na nossa terra e que tinham a marca “Calipolense”. Com ou sem o berlinde do pirolito, sempre preferi a Gasosa à Laranjada pois esta última tinha um excessivo sabor a laranjas não muito frescas. Eram feitos na fábrica do Sr. Xico Zé, ao Rossio, que também tinha uma tasca anexa, tinham no logótipo a nossa estátua do D. João IV, e concorriam na região com os refrigerantes “Botas” do Redondo.
Os bolos que comíamos eram Fintos, ou então Broas de Manteiga e de Azeite, que raras vezes tínhamos verba para nos deslocarmos à Pastelaria Azul e comprar um bolo mais requintado, como por exemplo o meu preferido, e que era um simples Pão-de-Ló com cobertura branca de açúcar mas a que davam a forma de um pato.
Eram as padarias que em geral nos forneciam os Bolos Fintos e as Broas, só tendo a concorrência de alguma pessoa habilidosa que montava em casa um negócio de cariz familiar. As Broas e as Empadas da D. Catarina, mãe do meu amigo Manuel, eram sem dúvida as melhores das redondezas.
Há alguns dias, o meu sobrinho João, então de férias em Vila Viçosa, manifestou a vontade de um hambúrguer do MacDonalds e num passeio a Badajoz lá conseguimos adquirir uma “Happy Meal” no restaurante da dita marca global que temos mais próximo da nossa pátria Calipolense.
No caminho de regresso a casa, não resistiu a perguntar-me como tinha sido possível termos sobrevivido na infância sem a possibilidade de alguma vez adquirir o bendito pacote de cartão com hambúrgueres, Coca-cola’s e batatas fritas, igual ao que trazíamos na mala do carro.
Comecei então a falar-lhe de tudo o que hoje aqui partilhei convosco, e a sua reacção de estranheza em relação ao que eu falava, por momentos acrescentou-me anos de vida e carimbou-me “velhice” na alma.
Não o convencia.
Mas como não sou de me deixar vencer, joguei alto, o meu trunfo:
- Sabes João, os rebuçados, os gelados artesanais, os refrescos e os bolos, eram especiais porque eram mágicos.
Fiquei à espera da sua gargalhada que me condenasse ao ridículo, ou então da pergunta seguinte e que seria obviamente qual a natureza da magia.
Nem uma nem outra. Apenas o silêncio.
Será que o convenci?
Fica-me a dúvida e como tem boa memória e como a conversa pode regressar em breve, estou preparado para um destes dias lhe explicar que a virtude das coisas mais simples é a oportunidade que sempre nos oferecem para nos fixarmos no essencial.
E nesse tempo, entre vasos de Hortênsias e resistindo ao calor enorme do Alentejo, o essencial dos nossos verões ou de qualquer outra estação, era a amizade que sempre nos unia a todos, porque tínhamos tempo e disponibilidade para nos conhecermos a todos, e porque tínhamos vontade de com todos fazer uma família gigante, uma família realmente mágica.

sábado, 11 de agosto de 2012

À boleia de um sábado de nevoeiro


Ousadas, as nuvens desceram para nos beijar e de um claro cinza tingiram o mar, fundindo-o com o céu.
Por momentos, morreu a linha do horizonte, e só a intensa brisa com aromas de algas e sal, denuncia a presença de um braço de oceano aqui por perto.
A brisa, e a revelação de um pequeno barco ao longe, sombra escura e uniforme, assim criada pelo contínuo biombo de nuvens que persiste e se eterniza entre a Terra e o Sol.
E há algures no barco, um Homem que lança a rede ao cinza que o envolve, teatro de sombras, ritual de esperança, prece por alimento, mais a Deus do que às águas. Ao Deus da fé, dos pescadores, ao Deus que os sinos recordam no seu repicar compassado a cada quarto de um tempo, que não fosse o soar metálico de um Avé de Fátima, e pareceria eterno.
Na rua por debaixo da minha janela, surge de repente gente, um grupo que passa e ri muito alto, enquanto acelera rumo ao vazio, procurando o mar. É sábado e verão, e eles cumprem por certo o compromisso de festa agendado há muito no calendário dos seus dias de labuta.
E mesmo sem sol, bastam anedotas e gargalhadas para celebrar a chegada ao ponto onde, hoje mais por fé do que evidência, se sabe que se está junto ao Atlântico.
Breves, passam e regressam, restituindo o silêncio que só não resiste ao bater dos sinos, e, entre os quartos de uma hora, ao ruído e ao voo de umas muito poucas mas imponentes gaivotas de longas asas.
E é a paz do privilégio deste momento que me oferece a ousadia de dispensar as reservas e de me deixar ir com elas, as asas, os impulsos mágicos do meu pensamento, para lá de tudo e para lá de todos, para os sonhos, para o espaço onde se bebe a vida e se alimenta a construção do eu pleno, o eu feliz, para o altar onde nos despimos de tudo o que não somos e se operacionaliza o matrimónio da nossa existência com o compromisso indelével da mais fiel felicidade.
É sábado e verão, é um dia sem sol e à minha frente há uma infinidade de cinza que acredito, que sei, ser céu e mar.
É sábado e verão, é um dia sem sol e… juro-vos, vou ser feliz.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Heroína à la minute


Os heróis, agarram-se convictamente aos seus ideais, e enfrentam as ondas e os ventos, quaisquer que eles sejam, não deixando nunca e por nada, de lutar pela defesa de tudo aquilo em que acreditam.
Os heróis maiores emergem na defesa dos valores universais como a paz, a verdade, a igualdade e a liberdade, sobretudo quando o ambiente adverso os belisca ou compromete, não olhando ao preço, que passa muitas vezes pelo seu conforto e até pela própria vida.
Nos antípodas, e a surfar nas ondas do momento, estão os oportunistas. Estes, mestres do facilitismo, são os que se fixam apenas no seu conforto e sobrevivência, não hesitando em “moldar” os seus ideais e a sua fé, tendo em conta a concretização do seu objectivo que é sempre e invariavelmente, de natureza individual.
Hoje, nas páginas de um semanário, uma ex-dirigente comunista, social-democrata recente, levanta suspeitas sobre uma antiga empresa de ares condicionados, afirmando existir a possibilidade de os aparelhos montados em sítios estratégicos, poderem ter estado ao serviço da espionagem comunista.
Porque é que só o fez agora? Porque não denunciou esta situação na altura em que ocorreu?
A ser verdade e guardando-a consigo, foi cúmplice dela durante décadas e por omissão, mentiu e traiu todos os que nela votaram ao longo destes anos.
Quem guarda em si estas verdades e não as denuncia, coloca-se a si próprio nos territórios da ausência de carácter.
Na mesma linha e há alguns anos, uma antiga dirigente política com responsabilidade na Casa Pia, guardou para si a verdade sobre a pedofilia, só vindo a público revelar as informações de que dispunha, décadas depois, quando alguém teve a coragem de denunciar o abuso sistemático de que as crianças eram vítimas. De forma cobarde, preparava-se para morrer com esta verdade guardada em si.
Não gosto e nunca gostei da Zita Seabra e da Teresa Costa Macedo. E como social-democrata e católico confesso, mais à vontade me sinto para o afirmar.
Muitos mais exemplos vos poderia dar aqui, porque infelizmente para nós, estas duas “senhoras” são ilustrativas da maioria da nossa classe dirigente.
Em Portugal tudo de ilícito se faz e permite fazer, e tudo se denuncia, mas apenas e só, confortavelmente, quando se escrevem as memórias, numa altura em que está ganho o estatuto de oportunista e já é muito tarde para se ser herói.
Que avancem então os heróis porque mais do que nunca, urge salvar Portugal. 

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O mar


Perseverante, criativo, é o nosso Atlântico na conquista destas terras do norte da península, surpreendendo-nos em cada recanto com a sua neblina e cheiro a sal, e deixando atrás de si um rendilhado de ilhas e rias, cumplicidade única entre a terra e o mar.
E se das línguas e da cultura nascem as pátrias, mais do que da política vontade dos Homens, inabaláveis e fortes são as raízes comuns que nos sustentam a nós, lusas almas, e à gente do canto celta da Galiza, o povo bravo dos poemas de Rosalía de Castro.
Por baixo da minha janela na Illa da Toxa há hoje uma septuagenária mulher Galega que todo o dia tem apregoado adornos feitos de conchas, na sua língua, que não deixa de ser a nossa.
Vejo-a das janelas e vejo as suas conchas que ninguém compra.
Mas ela não desiste. Aprendeu com o mar, a ser rija e perseverante.
Somos assim, os filhos do Atlântico.
E enquanto ao longe, vejo esse mar a que chamam ria, acode-me à memória o meu menino das conchas.
Já não consigo precisar quem um dia passou por Sesimbra e nos fez chegar a casa, em Vila Viçosa, uma recordação na forma de um rapaz de corpo de conchas e montado num búzio.
Não conseguirei precisar também quantas vezes esse búzio me trouxe aos ouvidos e aos sonhos, um fiel e perfeito som de mar, nesse tempo em que o mar estava tão longe, inalcançável mesmo, às nossas vidas.
Com os meus pais ao lado, continuo a olhar o mar.
Abro o facebook, e vejo que uma das minhas melhores amigas, companheira e cúmplice de sonhos no tempo em que não podíamos ver o mar, celebra o aniversário da sua filha com uma foto em que estão juntas em frente ao oceano, com ar de vitória.
Marta, parabéns. Sou teu fã porque és uma “miúda” incrível.
Manuela, Zé Maria, Pai, Mãe, conseguimos!
A fé e a nossa perseverança trouxeram-nos ao mar.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Portuguese Pride


A cidade da Praia da Vitória está em festa, e a procura de um lugar para jantar, oferece-nos o bónus de um desfile etnográfico com centenas de figurantes, ilustrativo e muito fiel às tradições da gente que diariamente faz pela vida nesta plataforma atlântica.
A rua principal, iluminada a rigor e decorada com tudo o que contribui para um ar de festa Portuguesa, está apinhada de gente que assiste à passagem do cortejo, e é dinâmica a interacção entre todos: público e intervenientes.
Forasteiro, consigo mais disponibilidade para olhar em volta e dou por mim a não resistir “saborear” os conjuntos de azulejos que alguém se lembrou de incrustar nas fachadas, contendo o desenho do rosto dos poetas da nossa língua, assim como alguns trechos da sua poesia.
Terminado o desfile passamos junto à Igreja Matriz. Tem o guarda-vento aberto, exibe o esplendor do seu altar de talha, e não resistimos a sentar-nos pois um quarteto de cordas interpreta música sacra de compositores nacionais.
A fome aperta e ainda não encontrámos um restaurante.
Descendo da Matriz chegamos ao Largo dos Paços do Concelho e num palco ali montado, há homens que interpretam música Açoriana, com a dolência roubada aos ruídos do mar que nos cerca e se avista e sente de qualquer lugar.
E finalmente uma esplanada.
É simples mas tem o essencial para um jantar de festa popular, um frango assado com batatas fritas e salada.
Respira-se festa e o resumo do momento encontro-o tatuado no braço esquerdo de um rapaz alto, louro e com mais de 100kg, que por usar camisola de alças evidencia um escudo Português, com a frase: “Portuguese Pride” (Orgulho Português).
Há uma mesa vazia e chegam três rapazes, louros e esguios.
Pelo à vontade com que se mexem na festa e que é semelhante ao de um tocador de acordeão num velório, deduzo logo que são militares Americanos estacionados na Base das Lajes.
Pelo rótulo de lixo com que carimbam com o olhar o nosso frango, até aposto que serão o Fitch, o Standard e o Poor’s…
Irrita-me o ar de total sobranceria.
Escolhem hambúrgueres com queijo e afogam-nos em ketchup e maionese, e aí está o sabor do Arizona ou do Texas, que levarão de uma festa Portuguesa…
Pedimos a conta e saímos à procura de uma Fartura que nos sirva de sobremesa.
Os Americanos já comem o “dessert” deles, um “donete”, versão Açoriana de Donuts, que é algo que está para a Fartura como a masturbação está para o acto sexual.
Encontramos o Homens das Farturas e compro uma toda polvilhada de açúcar e canela, porque dias não são dias…
Saboreio-a e delicio-me a cada pedaço, enquanto caminhamos de volta entre gente feliz que ri e faz festa.
Na alma, mais marcada do que nunca brilha a tatuagem, “Portuguese Pride”.
Indestrutível.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Açores


Com a cumplicidade da lua cheia, serena dormia ainda Lisboa quando deixei que o avião me raptasse às cumplicidades do seu sono, e, fazendo-me Ícaro feliz, me transportasse ao privilégio de espreitar o primeiro sol de Agosto, para lá das nuvens.
O sol das madrugadas e da eterna luz branca de Lisboa, é meu fiel companheiro no passeio sobre o Atlântico, em busca do ninho verde do açor.
Terra nascida com marca de Céu e baptizada com nome de arcanjo.
Pedaço flutuante do melhor e mais perfeito Portugal.
Duas horas e aí está o avião a romper as nuvens e a entregar-se à beleza irresistível de S. Miguel.
Desço do sonho e olho em redor. Riem, cantam, batem palmas, falam alto num inédito idioma nervoso que casa Camões e Shakespeare com sotaque de América.
Só os olhares os denunciam e os revelam como filhos da bruma, irmãos do canto de Antero ou Natália, são a gente de Nemésio e João de Melo, são eles, a gente feliz com lágrimas.
Heróis de coragem, felizes pelos instantes breves de regresso a casa.
Santos, Cristos do nosso tempo coroados no altar da bravura.
Santos, Espíritos detonadores do impossível.
Sinto orgulho.
Este sim é o meu Portugal, esta é a minha gente.
Gente sem nome, mas mestres de honra, força e dignidade.
É aqui nestes seres, que está o sangue e a alma que nos fazem povo e nação, o segredo que nos garante o cumprir do sonho de um eterno Portugal.