sábado, 31 de janeiro de 2015

Chuva… e silêncio


Há dias em que o corpo nos pede e impõe o silêncio para que a alma tenha oportunidade de ressuscitar eficazmente as palavras, os gestos, os olhares… tudo aquilo que guardou de alguém, atenuando assim a saudade da sua partida ou da sua ausência.
E assim, em estátuas erigidas pelo pensamento, se eternizam aqueles que amamos, mesmo por entre a despedida de uma parte de nós que sempre morre com eles.
O Tio Joaquim perdeu a conta ao número de vezes que leu os dois livros de memórias que publiquei, e disse-me ter revivido com eles e pelas palavras, um tempo perfeito e bom de sol, afectos e Alentejo, lembranças que foram alento nos dias difíceis da sua longa doença.
Dedico-lhe todas essas palavras que por ele ganharam muito mais sentido, mandando-as agora envoltas num beijo directo ao Céu para onde partiu ontem num dia triste de chuva.
Chuva… e silêncio.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Um dia tão… “Correio da Manhã”


A manhã de Lisboa está húmida e a exigir impermeáveis e chapéus-de-chuva, estes últimos colocados num recipiente próprio existente à entrada da Pastelaria, para que possam pingar à vontade.
Entro, cumpro o ritual do chapéu-de chuva e busco um lugar ao fundo da sala comprida, ficando virado para a porta e para a montra que me revelam os jardins da Gulbenkian.
Surpresa…
Toda a gente virou costas à porta e está sentada de frente para mim que assim me sinto um verdadeiro maestro a dirigir uma orquestra formada por seis intérpretes femininas.
Depois de olhar para a televisão colocada na parede atrás de mim entendo o porquê desta situação: Correio da Manhã TV 6 – Jardins da Gulbenkian 1.
Perco por goleada.
Enquanto elas se actualizam relativamente ao conflito Bárbara / Carrilho, à guerra Marco Paulo / Kátia Aveiro e absorvem as últimas notícias que chegam da prisão de Évora, eu fico como que parado perante as páginas abertas de uma caderneta em que os cromos divergem pelo desenho e grau de aprumo das sobrancelhas, os tons impossíveis do cabelo, as unhas de gel que lutam contra as asas das pequenas chávenas do café, os fios e os adereços comprados com cheques pré-datados às vendedoras que passam pelas repartições…
E todas bocejam e emitem pragas sobre o trabalho que as espera, presumo que mais pelas horas que vão dali até dezoito do que propriamente pelo conteúdo do mesmo.
Entretanto, o empregado que assassina a discrição pois grita tudo o que se lhe pede:
- Sai uma sandes de fiambre em forma aparada sem manteiga e um abatanado… sás xafori.
Que é também o mesmo que grita as contas e diz “eirós” e “córenta” em vez de Euros e quarenta; tenta que a mais velha das senhoras, a Dona Elvira, baptizada com um nome que lhe assenta que nem uma luva dado que ela deve ter nascido no tempo em que os seus homónimos veículos ainda atravessavam a capital e os Jardins da Gulbenkian ainda eram terreno da antiga Feira Popular… decida o que vai comer ao almoço:
- Picanhazinha, chocos à algarvia, dobrada à moda da casa…
Mas a D. Elvira que tem uma cara que parece denunciar que ela está há meio ano a inalar os vapores de uma central de resíduos sólidos, nem se manifesta.
Eu tenho a certeza de que ela vai acabar por comer uma salada de alface com queijo fresco para ver se consegue drenar-se e ficar com a mesma cara da menina do Correio da Manhã.
Está na minha hora…
Levanto-me, pago a conta que o “Córenta” apregoou à malta.
Ainda recebo com um:
- O amigo por acaso não tem dez “cêntimezinhos”?
Tenho, facilito o troco e…
- Óbrigadinho amigo e um bom dia.
Dirijo-me à porta, retiro o meu chapéu-de-chuva discreto da amálgama de outros de cabos dourados e prateados que parecem adereços dos travestis do Conde de Redondo, e saio.
Ainda pisco os olhos aos Jardins da Gulbenkian.
Que bom ainda os ter por ali num dia tão… “Correio da Manhã”.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Choverão flores sobre nós nesses dias da primavera que esperamos


A chuva miudinha da manhã de Lisboa molha-nos a todos com independência do estatuto intelectual que assumamos ou nos atribuam; e como tudo o que existe tem sempre um lado positivo, até mesmo o mais negativo, as filas de trânsito que ela patrocina à entrada da cidade têm o condão de nos dar tempo suficiente para desfrutarmos dos detalhes que de outra maneira iriamos ignorar.
Vejo as árvores de Monsanto…
Estão verdes no benefício das folhas que nunca as abandonam, e em algumas das outras, aquelas que o inverno despiu, já floresceram pétalas entre o tom branco e o rosa, detalhes que lhes dão um ar de festa e nos lembram a primavera.
O mesmo tom rosa que brilha com o amarelo nas fachadas ainda mais viçosas depois da chuva que enegreceu o tom dos telhados que as encimam.
Percorro a cidade segundo a rota das obrigações, mas é impossível não desfrutar do que vejo, da chuva, e recolher da manhã a poesia da mais intensa das devoções.
Lisboa será sempre a minha cidade por ser a pátria mãe do meu amor.
Depois de descer a Rua de São Bento, de espreitar a casa de Amália, dou comigo a descer a Avenida D. Carlos I. Os jacarandás oferecem-me um tecto, por estes dias verde, nas folhas que brotaram dos troncos negros que na primavera serão o esqueleto e a fonte que sustentará a mais intensa explosão de lilás.
Choverão flores sobre nós nesses dias da primavera que esperamos.
E não tardo a chegar ao rio.
À minha direita passa acelerado, o comboio, e à esquerda vejo gente que corre em paralelo com as águas como num esforço último para impedir que elas se entreguem ao mar.
O Tejo que hoje está cinzento da cor da chuva.
E antes de deixar Lisboa, despeço-me do tom garrido das fachadas das casas que fazem a guarda de honra ao Mosteiro e a Belém.
A chuva miudinha persiste sobre mim; não são lágrimas, não são tristes, são beijos da cor do Tejo para que paremos um pouco o bulício da manhã e sintamos que já não tarda a primavera.
Os tais dias em que choverão flores na Lisboa que é a casa do meu... do nosso amor.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O sofá de um Homem enamorado é um parapeito de vistas infinitas e ilimitados horizontes


O sofá de um Homem enamorado é um parapeito de vistas infinitas e ilimitados horizontes; que o pensamento jamais se nega a tomar e a fazer suas, as mais ousadas e destemidas oníricas asas que o amor lhe “imponha”, e assim voar para longe.
Sem autocensura como privilégio, sem humanas e racionais “portagens” debitadas directamente na conta do bom senso, as noites de aparente silêncio são assim o berço de histórias que alinham o tempo com tudo o que está inscrito na nossa vontade.
E rompem qualquer espaço.
Às vezes enquanto voo, pego na caneta e no bloco de capa vermelha, e coloco as melhores palavras que conheço na história que nasce em mim, fazendo um Diário de Bordo onde os quilómetros são o caminho por onde me levam as sensações.
Bem mais importante do que qualquer outro registo diário; que aquilo que fazemos é o previsível que toda a gente vê, e aquilo que se sente é o que nos define e muito melhor fala de nós.
Numa destas noites olhei para a parede onde repousam os teus traços, abracei-me a ti na memória do teu cheiro e do toque da tua pele, e sentado no sofá com caneta e bloco, deixei-me levar pelo eco de uma inédita paz, pondo palavras numa viagem contigo.
Voámos os dois num beijo imenso, e na areia de uma praia deserta e sem nome, inscrevemos os passos num caminho desenhado em paralelo que o vento e o mar fizeram questão de guardar em si.
O vento fala destes passos e deste amor quando sopra ao jeito de um cantar que abraça as árvores e as montanhas, e o mar guarda deles o sal, porque tudo aquilo que é grande sempre acaba por nos fazer chorar.
A comoção dos amantes no caminho de areia, num abraço por entre o cantar do vento que quando nos beija sempre traz com ele o aroma que bebeu de uma qualquer flor.
E no final da noite, quando regressei a este tempo e sentado no sofá, continuava a olhar os teus traços na parede, e no caderno vermelho tinha palavras que eu não sei como escrevi…
Mas dizem que é um poema de amor.
É capaz.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

“Não é este o perfil que procuramos”


No país da crise, poderá tardar, mas chega sempre o dia em que o desespero tem o nome, o apelido e o rosto de alguém que conhecemos.
No país da crise, os empresários de sucesso, algures no seu trajecto entre o poder mediático e as garras do Ministério Público, e sempre com uma passagem obrigatória no entretanto pela Sala das Bicas do Palácio de Belém para uma condecoração por bons serviços; envelhecem-nos precocemente e condenam-nos a campa rasa no talhão dos demasiado competentes para o parco salário que nos podem / querem dar.
E aos cinquenta anos, a vida e os planos que legitimamente alimentámos enquanto fazíamos uma formação profissional de excelência e nos treinávamos e crescíamos em trabalhos de elevada responsabilidade, vêm-se subitamente sete palmos abaixo do mínimo compatível com a dignidade.
Por mor da discrição chamo António a um amigo que é arquitecto, que tem uma idade próxima da minha e a rondar os cinquenta anos, que tirou o curso numa escola acima de qualquer suspeita, que trabalhou em gabinetes e empresas reputadas… e que por estes dias termina o período de dois anos de subsídio a que tem direito no calvário do desemprego.
Dois anos de curricula enviados diariamente e de respostas fantásticas recebidas na volta do correio relativamente à qualidade dos mesmos; o que até seria bom para a auto-estima, não fosse a tão demasiado recorrente “condenação” de:
- Não é este o perfil que procuramos.
Pois… já sabemos porquê.
Neste “Pomar das Laranjeiras” vou escrevendo e publicando tudo aquilo que o tempo me vai oferecendo, e hoje pede-me o dia que vos lembre o António, e que vos peça que divulguem esta “laranja”; e se encontrarem ou souberem de algo que o possa ajudar, contactem-me por qualquer das vias ao vosso alcance.
Bem gostaria de hoje ter partilhado convosco algo sobre o amor, até poderia fazê-lo com todos os argumentos, mas o desespero dos amigos suplanta qualquer nosso bem sentir e faz-se a nossa inquietação.
É inerente ao ser amigo.
Muito obrigado por divulgarem.   

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Basta tão pouco para que sejamos resgatados da solidão pela força de invisíveis abraços


Da minha janela vejo uma grua gigante que assenta sobre um terreno de onde há semana retiram terra, uma grua que permite içar todos os pequenos e grandes detalhes daquilo que de aqui a alguns meses será uma enormíssima casa.
Sentimos o bulício, o ruido dos camiões, as vozes de comando e de quem obedece na hierarquia da obra que vista de aqui parece um caos, mas que afinal não o é; porque toda a gente sabe onde deve estar e faz o que é suposto fazer.
Na barra do café e no final de uma solarenga tarde de domingo buscam encosto os solitários, indivíduos perfilados de frente para um espelho já gasto pelo tempo, soldados na ordem unida do silêncio por entre apenas o tilintar das chávenas, o ruido intenso do moinho do café ou o soletrar acelerado do valor da conta a pagar por algum cliente.
Os Homens sós e anónimos parados no chafariz de onde bebem um conforto mais ou menos descafeinado.
Eu estou ao balcão por entre saudades tuas que me impelem a ler a última mensagem do telemóvel, antes de puxar da carteira e pagar a minha conta.
Amor…
Há palavras, pessoas, pensamentos, viagens, beijos… que tecem instantes que se constituem como degraus de uma longa escada que dá acesso ao melhor de nós.
Detalhes às vezes muito pequenos…
Retirada a terra de outras velhas construções, a grua iça-nos para a construção daquilo que será uma nova casa.
E saio do pelotão dos anónimos da tarde de domingo fazendo-me ao caminho a sorrir.
Basta tão pouco para que sejamos resgatados da solidão pela força de invisíveis abraços.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Há murros e murros…


Às vezes os melhores do mundo também se inflamam e, despojando-se das vestes do “divino”, descem dos altares e dos pedestais dourados onde nós prematuramente os colocámos em estátuas, revestem-se da mais humana sina e vêm esmurrar e pontapear os restantes mortais.
O poder inebria e às vezes parece oferecer asas para voar por cima do bem e do mal.
Clara ilusão.
E os socos “fáceis” dos poderosos sobre os mais fracos são manifestações da sobranceria vã e bacoca dos ditadores; e são a autoproclamada morte dos heróis.
Estás a ouvir Ronaldo?
E não chega pedir desculpas por esse gesto tão feio exactamente no dia em que passavam dez anos sobre a morte de Féher em campo.  
Mas às vezes são os fracos que se revoltam e dão socos e murros nos poderosos; e fazem-no tantas vezes por sobre as dores da miséria a que estão condenados.
E os murros dos fracos sobre os “ditadores” são prova e marca de heróis.
São os murros legítimos.
Os poderosos da Europa “brincaram” demasiado com a honra e a dignidade dos cidadãos do Euro, e a bem dos deficits e por culpa da austeridade, há hoje demasiada gente a vasculhar comida no lixo, a dormir ao relento ou a morrer esquecida nas macas à porta dos hospitais.
Syriza vencedor no fim de tarde de um domingo de eleições em Atenas?
Eu estou pessoalmente nos antípodas do extremismo populista de esquerda, mas se sim é um murro do povo que não posso deixar de dizer que assenta que nem uma luva aos exercícios maquiavélicos do experimentalismo económico que nos condenou ao “aguenta, aguenta” que rondou o impossível.
Agora aguentem vocês.
Um dia, algures cinco séculos antes de Cristo, Sócrates afirmou que “não sou Ateniense nem Grego, mas apenas um cidadão do mundo”.
É o assumir a liberdade em pleno na morte das fronteiras e nos “espartilhos” que nos querem oferecer. É a universalidade do Homem.
Mas também há domingos em que a bem da liberdade, nós cidadãos do mundo temos de ser Atenienses e Gregos.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Nós somos da idade do que queremos viver, muito mais do que daquilo que já vivemos


Nós somos da idade do que queremos viver, muito mais do que daquilo que já vivemos.
É novo quem ambiciona e se entrega a um futuro longo e completo, é velho e morre quem não o sonha e não se dispõe a vive-lo assim; e eu nasci na tarde de primavera em que te dei um abraço e tomei desse instante uma vontade infinita de prolongar ao impossível todos os dias que a vida generosamente me oferecer.
E a infinito sabem todos os instantes em que te encontro e me coloco à sombra do teu olhar, esse infinito impenetrável onde as palavras não contam e nem sequer conseguem dar justiça ao que se sente.
Uma Bola de Berlim é o pretexto para uma mesa acesa para dois num corredor onde o chá nos aquece, as mãos e os lábios se namoram…
E eu não me canso nunca de te olhar.
Sim, eu sou da idade desta inédita paz e descubro em mim as forças para viver intensamente, voar por sobre tudo e calcorrear contigo todos os mais ínfimos recantos do universo, na morte dos relógios; que o tempo é nosso e as horas colho-as de ti nesta enorme vontade de jamais querer morrer.
Eu já fui tão mais velho do que sou hoje…  

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Perdi-me tantas vezes em tantos abraços até te encontrar…


Há um não sei quê de irresistível que colho deste instante e tece em mim a vontade de querer voltar sempre aqui.
Há um rio que a noite tinge de negro e abandona à mercê do luar; sente-se a brisa fresca no aroma do vento que terno nos abraça; faz-se de luz o horizonte nas terras do sul, as terras de para lá da ponte e do Cristo-Rei; há o passo dolente e iluminado dos navios que levarão de Lisboa as lembranças da mais perfeita das cidades…
Mas é por ti que se me faz adicto este momento que esboça o abraço terno e eterno do maior amor; este estar em que todo o teu corpo cumpre os mais ínfimos desejos do meu, e se faz a minha sorte.
Perdi-me tantas vezes em tantos abraços até te encontrar…
Mas agora aqui olhando um rio e tomando-lhe a brisa que o denuncia num inevitável destino de mar, eu sou um homem parado no cais onde desembarca o seu destino por entre uma festa de rosas e de aromas, das fanfarras, dos bombos, do fogo… e eu sinto na brisa entre barbas e no nosso respirar, a denúncia de que este é mais do que um instante, é o irresistível e eterno destino de te amar. 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Acho que todos os opositores à adopção por casais de pessoas do mesmo sexo por entenderem que tal impossibilita o desenvolvimento equilibrado do individuo, deveriam hoje explicar o porquê dos concorrentes à “Casa dos Segredos” serem na quase totalidade oriundos de famílias formadas por casais heterossexuais


À porta do IPO de Coimbra estão a três homens à conversa, e discutem questões de fé.
Confesso que o sítio é logo à partida verdadeiramente atentatório para as mais convictas e enraizadas crenças.
Sem me poder parar só consigo ouvir um deles a afirmar que uma das provas da não existência de Deus é o facto de haver guerras. Se Ele existisse viria cá acabar com elas.
Para este homem Deus é pois incompatível com a sua liberdade: seria Deus a mandar de forma absoluta e ditatorial, vindo de vez em quando cá “abaixo” dar um valente par de “sopapos” nos beligerantes ao jeito de “acabou o Carnaval de Ovar”.
Sigo.
Daí a pouco estou sentado na pastelaria que tem a televisão ligada num canal de notícias sem que quase não se escute o que a jornalista diz, abafadas as palavras pelo tilintar das meias de leite, dos galões e afins. No entanto, passa um destaque em rodapé e uma senhora sentada atrás de mim e tão atenta quanto eu ao ecrã, emite um suspiro profundo quando se apercebe que o tema é a discussão na Assembleia da República da adopção por casais homossexuais.
E não resiste a um desabafo:
- Ai credo, onde já se viu tamanha pouca vergonha… e com tanta gente a morrer à fome.
O “credo” dá um toque religioso, a “pouca vergonha” puxa a moral para o assunto… e a ligação com as mortes à fome eu não entendo bem até porque quem é adoptado irá para uma casa onde possa beneficiar de comida, com independência do género das pessoas que o recebam…
Mas fixo-me no “credo” e na “pouca vergonha” para mais uma vez assinalar que Deus é “humanizado” na forma que mais nos convém. No caso desta senhora e por certo de muita gente, Deus é amor, mas só se o amor cumprir escrupulosamente as regras rígidas de uma certa moral que fica bem levarem à igreja com o fato novo.
E em pouco mais de uma hora tenho duas vertentes de Deus: o ditador e o moralista.
Por acaso até são dois conceitos que matam o próprio Deus, mas vá lá esta gente entender que a expressão da sua fé resulta na morte do Divino.
Antes de me levantar e pagar a conta confesso que tive vontade de perguntar à senhora se tinha a noção de que os concorrentes da “Casa dos Segredos” são quase todos oriundos de famílias formadas por casais heterossexuais, por certo abençoados pela Santa Madre Igreja no dia do casamento, sendo a prova de quão importante é ter um modelo feminino e masculino dentro da “casa” onde se cresce para se ser equilibrado e assaz perfeito.
Também a poderia lembrar da violência doméstica, da educação esmeradíssima e do civismo dos jovens com quem ela se cruza todos os dias…
Mas ela já não vai a tempo de aprender.
Paguei e saí.
Valha-nos Deus.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O amor é um eterno abraço sem pausas para a solidão


A noite traz-nos por vezes recantos perfeitos onde por entre a escassa luz partilhamos segredos.
Um afago, uma palavra, o fim do medo de sermos nós… e o deixar que a alma se entrelace na de alguém ao ritmo do assumir de todas as mais confortáveis cumplicidades.
E às vezes nesses recantos assistimos à morte de uma certa solidão, talvez no exacto momento em que as mãos já não sentem a distância de por quem choram, e os sentimentos expressos por palavras ajudaram a construir a casa onde iremos viver, e que é a casa onde mais queremos viver.
A casa onde nunca faltarão os bolos da nossa ilusão.
A casa com vista para a praia onde passearemos todas as manhãs e ao entardecer.
Ali, na praia, desenharemos passos lado-a-lado na areia e bem junto ao mar que os arrancará para si pela espuma e pelas algas que as ondas trazem consigo, fazendo deles um tesouro que percorrerá o mundo inteiro no maior esplendor de azul.
E existirão instantes em que não resistiremos a um abraço, a um beijo que cubra de intenso doce a brisa salgada que a praia interponha entre o nosso respirar.
E as palavras e juras de amor que se soltarão de entre os beijos…
Depois talvez nos deitemos na areia esperando o luar, contando histórias, fazendo planos, mas sempre num abraço; ou não fosse o amor um eterno abraço sem pausas para a solidão.
  

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

A liberdade, a traição à liberdade e o retirar da roupa


Desço a Avenida da Liberdade de braço dado com os meus pais em direcção ao Parque de Estacionamento do Parque Mayer, cruzando-nos com uma carrinha da polícia que faz a troca do agente que garante segurança à porta da Embaixada de Espanha; e vemos passar à nossa frente, uma metralhadora com um ar muito desagradavelmente sofisticado.
Já no interior do Parque, os meus pais recordam, teatro a teatro, as revistas que viam por ali quando vinham de visita a Lisboa, e invariavelmente acabam a falar de uma célebre, “Mostra-me a tua piscina”, a que assistiram no Capitólio num tempo em que a revolução de Abril tinha permitido retirar “oficialmente” a roupa das coristas, e ninguém levava a mal os borrifos de água que chegavam à plateia sempre que elas mergulhavam numa piscina montada no palco.
Já conheço a história que eles temperam de um misto de espanto, algum escândalo e muito riso, mas também já espero que eles a contem sempre que passamos por ali como “gravura” de um tempo em que Lisboa se “vestiu” de uma liberdade que dava mais sentido do que nunca ao nome da vizinha Avenida.
Montamo-nos agora no carro, faz frio e sabe bem o ar condicionado.
Saímos do Parque e seguimos até à Praça da Alegria onde um “stop” à entrada nos deixa ao lado de quatro homens que remexem em dois contentores do lixo abrindo sacos de plástico em busca de comida.
Faz frio agora dentro do carro e o riso rende-se ao silêncio.
A Alegria é apenas nome de Praça na traição à liberdade que voltou a tirar sentido ao nome da Avenida.
E da traição à liberdade nasceu este retirar da roupa e da dignidade da gente num espectáculo degradante para o qual não pagamos bilhete e para onde temos visão aberta em todas as esquinas da cidade.
As esquinas guardadas pelas metralhadoras e onde a dor nos borrifa sem pudor por entre a falta que nos faz uma revolução.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Eu amo-te com a infinita convicção de que jamais te deixarei partir


Revejo-me na foto que está em cima da cómoda da casa da Tia Carlota e do Tio Joaquim. Foi tirada no dia do casamento deles, 1 de Outubro de 1972, e eu estou de mão dada com o meu irmão junto aos noivos no altar da Senhora da Conceição, em Vila Viçosa.
Eu tinha seis anos, a foto é a preto e branco mas eu recordo-me que os meus calções de veludo eram da cor do laço de cetim com uma pérola que levava sobre a camisa branca, e eram num tom bordeaux.
Pela memória, e muito mais pela vontade, nós insistimos e pomos cor sobre o preto e o branco de muitos dias, na forma de uma muito marcada esperança com que enfrentamos o que nos dizem ser as inevitabilidades da vida; e hoje eu acredito que o Tio Joaquim irá melhorar e tento que ele também acredite pela forma como lhe sorrio.
Mais tarde, quando o dia segue pela coerência de um triste tom de cinza, eu viajo no carro com os meus pais. Vamos de regresso a casa e de encontro a um chá que nos aqueça, conversando e sobrepondo os planos das férias de verão ao tom da tarde.
Viver é semear o futuro não assumindo quaisquer pontos finais na “história” que escrevemos para nós próprios.
E não tarda quase nada até ao momento em que tu chegas e me ofereces o azul no olhar aceso que me fala de amor com mais verdade do que todos os poetas do universo.
Na parede do fundo da pastelaria onde conversamos, a televisão passa os golos do Benfica; mas eu troco todos os golos do Glorioso pelo teu olhar.
Lá fora chove no início de uma noite escura, mas o que importa?
A minha noite faz-se da cor da minha vontade: eu amo-te com a infinita convicção de que jamais te deixarei partir.
Tu és a chegada definitiva ao melhor de mim, mesmo por entre domingos (cinzentos) que são tecidos à escala da própria vida. 

domingo, 18 de janeiro de 2015

Basta uma só palavra para matar todos os silêncios do universo


Ontem depois do jantar e aqui na mesa da sala, eu e o meu sobrinho João fizemos uma sementeira de coentros, colocando as sementes num cartuxo próprio e sofisticado que a minha amiga Teresa Lopes me ofereceu como presente de Natal.
Regámos e esperamos agora que junto à janela da cozinha possam nascer os temperos que acompanharão os alhos na festa das nossas açordas.
Depois, mais tarde, adormeci ao som da chuva a bater forte na vidraça com o impulso de um vento de uivos prolongados e intensos de onde às vezes a imaginação consegue retirar palavras que contam histórias.
Mas a noite levou o vento e está muito calma a manhã que trouxe com ela um nevoeiro que não deixa ver quase nada para lá da vidraça; não há árvores, verde, o mar ao longe, e a janela é agora um enorme espelho onde me vejo a mim e vejo tudo o que o pensamento permite, que essa é a vantagem que colhemos dos instantes em que os olhos vêem pouco.
E a revisitar papéis, cedo esta manhã, encontrei algo escrito por mim em Maio de 2013.
Fala sobre o silêncio:
Quem atira as suas palavras para o silêncio
Vê-as morrer
Como o inevitável destino de um papel no fogo que arde

Porque o silêncio é sempre o silêncio

Por mais que queiramos que o não seja
Por mais que imaginemos que o não é
Por muito que acreditemos que o deixará de ser mais cedo ou mais tarde  
Não consigo lembrar-me do contexto em que escrevi isto, mas acredito que possa ter sido quiçá numa manhã em que todas as janelas me devolveram a minha imagem, muito mais do que qualquer outra coisa.
Com uma diferença em relação a hoje…
Na mensagem que me enviaste ontem antes de adormecer dizias que me adoras, e a janela e o nevoeiro hoje mostram-me o mundo todo no detalhe do brilho intenso do meu olhar; sem espaço para o silêncio, pois brotam de mim palavras como do pequeno saco castanho da sementeira de ontem um dia nascerão as viçosas as plantas, das quais prometi ir mandando registo fotográfico para o João.
O silêncio poderá ser sempre o silêncio…
Mas basta uma só palavra para matar todos os silêncios do universo.  
E quando dizes que me adoras… 

sábado, 17 de janeiro de 2015

Com compras, sem preços de saldo, enervado, a baixar o volume do telemóvel… e com vontade de fazer “ensaladilla de gambas” para o almoço de amanhã


Sair do trabalho às 15 horas de uma Sexta-feira e ir fazer compras para o El Corte Ingles para aproveitar os saldos é definitivamente uma doce ilusão.
Em primeiro lugar porque os saldos são uma festa que as lojas organizam para juntar anorécticos e obesos, e em que nós, os dos tamanhos médios (e perdoem-me a relatividade e o bom gosto da expressão… e nem sequer vale rir), ficamos à porta sem direito a constar nas “guest lists”; agarrados às prateleiras e aos preços sem descontos e pré-depressão da “Nova colecção”.
Já não estando muito bem-disposto por esta descoberta, pior fiquei quando descobri que eu por ali e àquela hora resultava numa combinação demasiado contra-natura; é como entrar num mundo que por estas horas não nos pertence, dominado que está pelos reformados e idosos, que à falta de bilhetes para irem assistir às gravações dos programas do Fernando Mendes e da Júlia Pinheiro, foram para ali passar a tarde.
Todos os sítios servem para as suas tertúlias…
À frente das caixas multibanco estacionam a discutir códigos e saldos, e mesmo depois de nós termos manifestado a nossa impaciência com um ligeiro sopro e o cartão a bater ferozmente na carteira, ainda ajeitam as notas e os talões nas suas carteiras com toda a calma do mundo, procurando depois o melhor sítio da mala ou do bolso para só depois então saírem, ainda hesitando se saem pela direita ou pela esquerda, discutindo uns com os outros sobre as vantagens de um e outro lado.
Não há funcionários disponíveis pois estão todos ocupados a responderem às listas infinitas de dúvidas que acodem a esta gente. Primeiro que consigamos que eles nos respondam “46 de calças só na nova colecção”, é de morrer.
E depois há o item “toque do telemóvel”.
Com a surdez que a idade vai promovendo, os toques são num volume para lá de amanhã e com conteúdos tão sugestivos como bebés a chorarem ou cavalos a relincharem num estábulo da Praça de Touros da Moita.
Acho que definitivamente devem patrocinar uma revisão dos ditados populares e decretarem o “diz-me como toca o teu telemóvel e dir-te-ei quem és”.
No fim da saga de compras e estando num território que quase se pode considerar uma embaixada de Espanha, identifiquei no corpo uma vontade louca e algo interessante de “ensaladilla de gambas com una caña y unos picos”.
Em vão. O balcão de Tapas está fechado a estas horas (claro) e tive de ir para um outro com chás, cafés e pastelaria variada.
Onde estava quem?
Exactamente.
Todos os membros inscritos na Associação Portuguesa de Universidades Seniores em passeio anual e excursão ao El Corte Ingles de Lisboa, com lanche incluído.
Confesso que estive para perguntar a três senhoras à minha frente, daquelas que têm más relações com as cabeleireiras e usam cores indefinidas nos cabelos, ali entre o cinzento e o roxo; se não queriam que eu fosse buscar uns banquinhos para estarem mais confortáveis.
É que tanto tempo por ali em pé a discutir esse assunto de crucial importância que é o Pastel de Nata com ou sem canela…
Mas não, contive-me até ao meu chá de camomila com uma empada lusitana que definitivamente não apagou a fome de “ensaladilla”, e saí do parque de estacionamento passado algum tempo, e ainda a tempo de ver os polícias em São Sebastião a controlarem as matrículas dos carros mais antigos e que agora não podem circular na cidade com risco de a Câmara ter de pagar uma taxa à União Europeia por excesso de Monóxido de Carbono.
Não é este Presidente de Câmara que diz querer ser Primeiro-Ministro para ir “bater o pé” e renegociar dívidas?
Pois…
E cheguei a casa à hora a que chego todos os dias.
Com compras, sem preços de saldo, enervado, a baixar o volume do telemóvel… e com vontade de fazer “ensaladilla de gambas” para o almoço de amanhã. 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Benefícios de um poeta em contramão na madrugada de um dia em que não te verei


O drama do poeta é o abismo imenso entre o amor que o tempo permite que vá sonhando e desenhando em si, e a realidade amarga das muitas noites em que só a almofada do outro lado da cama parece querer atenuar-lhe a solidão.
O benefício do poeta é o convívio tão próximo, despudorado e tão íntimo com este amor perfeito, que quando um dia ele finalmente chega e se concretiza dando nome e rosto ao outro lado da cama, não são necessárias averiguações extra ou mesmo quaisquer apresentações.
Chegou.
E os poemas são palavras que como coloridos pedaços de linha de seda preenchem o desenho dos dias passados quase sempre algures entre o drama e o usufruto do benefício, ao ritmo das vantagens de um e outro na expressão real do que é afinal viver.
O dia hoje amanheceu de chuva, mas por ti e apesar da saudade, eu não hesitei nunca em pintá-lo com as palavras que fui buscar ao recanto da minha paleta que tem as melhores e mais intensas cores.
Eu e o céu que tomou de mim a vontade e desenhou um arco-íris.
Benefícios de poeta na madrugada de um dia em que não te verei, mas um dia em que te sentirei aqui muito perto.
Por insistir e te querer assim…
Que os poetas não temem nunca assumir o seu amor perfeito e a contramão na hora de desrespeitar e matar a distância que é fruto da má sorte.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Um beijo e essa casa que faz nossas todas as estrelas que brilham na noite em que o luar generoso não se cansa de nos alumiar


Na história de todos os nós, há instantes que rasgam socalcos, degraus gigantes de uma escada informal e inesperada que nos permite chegar ao cimo da mais alta montanha, aquela que tantas vezes e de longe apelidámos de impossível.
Socalcos como canteiros generosos enfeitados de flores, cores e aromas, para que a subida seja toda ela um prefácio da festa maior de chegar ao topo.
E há fontes de onde jorram palavras, tal qual água fresca para o alento de jamais sequer pensar voltar atrás.
E há o teu corpo como um perfeito bordão.
E há lençóis tecidos de abraços, como relva à sombra de árvores de folhas generosas onde podemos descansar e nem sequer temer algum tropeção maior que nos perturbe o caminho.
Na história de todos nós…
Haverá um abraço inesperado como o nosso na timidez de uma tarde entre palavras escritas, um instante apenas e de quase primavera de onde nasceu a rota feita de socalcos por onde sigo pelos dias, e contigo, montanha acima.
A alegria de nunca me sentir só.
A ousadia.
A paixão certa mas tranquila.
E de tão grande e tão doce, às vezes sabe a completa ilusão esta festa de nos vermos chegar ao cimo… lá onde só existe céu no todo à nossa volta e em rima com o teu olhar; e quando um beijo nos oferece a casa para ficarmos eternamente por ali como coroados reis no mais perfeito e recorrente de todos os sonhos.
Um beijo e essa casa que faz nossas todas as estrelas que brilham na noite em que só luar generoso nos alumia.
Um beijo e uma jura de amor eterno numa casa para dois que vivem como quem sonha um só sonho.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Olhar para trás e… sorrir ou “matar”


Parado num semáforo vermelho à entrada de Lisboa, eu dou conta que no carro à minha frente há um condutor que aproveita aqueles segundos de descanso para se virar e brincar com uma criança sentada na cadeira colocada no banco por detrás dele e da qual eu só consigo ver a parte superior do encosto.
Sorrio inevitavelmente pelo impacto da imagem que tenho à minha frente e os nossos olhares acabam por se cruzar, o meu e o do homem que reparando que eu estou assim a sorrir, me responde com o acenar de um olá.
O semáforo passa depois a verde, nós arrancamos em direcção aos destinos que nos colocaram ali naquela tarde da cidade; e no rádio do meu carro escuto Amália à conversa com João Ferreira Rosa antes de interpretar o fantástico “Foi Deus”.
Às vezes o nosso nervoso miudinho induzido pelo trânsito, o mau humor de horas com quilómetros de filas, “tropeça” assim em gestos que resultam em sorrisos e nos adoçam o humor feito de tantos pensamentos e tantas palavras com elevado grau de uma corrosiva acidez.
Com o benefício da ajuda de uma banda sonora de excelência.
Na missa das seis e meia na Basílica dos Mártires, ao Chiado, estou sentado no último banco e tenho ao meu lado um casal de jovens Japoneses com uma criança que terá uns dois anos e que aproveita o espaço entre bancos para circular de pai para mãe, e vice-versa, e aproveita a acústica do templo para emitir uns sons algo agudos mas para mim completamente imperceptíveis.
Ali à volta quase todos sorrimos para ela e para os seus progenitores, até para lhes passarmos algum conforto que atenue o desconforto que já manifestam pelo facto de a filha estar a aproveitar o momento para aquela performance num misto de canto e ginástica.
Todos, excepto uma senhora que sentada no banco imediatamente à frente e com um gorro de lã enfiado na cabeça já com aspecto de septuagenária, olha para trás com um olhar feroz, daqueles que matam os próprios e os que estão nas redondezas, que é o meu caso.
O padre fala do baptismo de Jesus e das águas do Rio Jordão, do Homem novo, mas a “velha” não o escuta e continua a olhar até ao momento em que eu resolvo intervir e lhe faço uma careta pondo a língua de fora.
Talvez a senhora tenha chegado a casa alguns minutos depois a falar de um psicopata e louco barbudo que lhe pôs a língua de fora na missa… Pois sim.
Às vezes as circunstâncias onde pensamos ir beber paz servem-nos “guerra” e uma desagradável sensação de desconforto.
Essa tão atractiva imprevisibilidade da vida.
E Deus, muito mais do que entre os altares barrocos de uma basílica, mora entre bancos de um automóvel parado num semáforo à entrada da cidade… e na voz de Amália, claro.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Imbatíveis… Sim!


Num destes dias correrei veloz em paralelo a todas as linhas que a vontade me desenhar nos dias, e cruzarei para ti num passe teleguiado que voará sobre todos os “adversários” e obstáculos, acabando por cumprir o objectivo de nos pôr a festejar como que por entre o eco inesquecível de milhões que gritam “golo”.
No final, o resultado será goleada a nosso favor e seremos coroados campeões do mundo, recebendo um prémio que terá o valor inesquecível de uma Terra em tons de ouro, enquanto as orquestras afinam hinos e a História inscreve os nossos nomes na galeria dos imortais.
E neste jogo não se cruzam só esféricos, cruzam-se sonhos, amores, palavras, vontades…
Que de tudo isso se compõe a vida.
E os “golos” às vezes são só um sorriso ou um abraço.
Cristiano Ronaldo foi ontem eleito pela terceira vez o melhor jogador de futebol do mundo, do mundo da bola, provando que ter arte, querer e trabalhar muito são os ingredientes perfeitos para ter sucesso.
Falou em Português para agradecer à família e aos colegas, e para dizer que está obviamente satisfeito e quer mais bolas de ouro. Acho que tem toda a legitimidade para as querer e creio que sim, irá vencê-las.
Quanto ao Português e à família, é assim mesmo: um campeão que seja simultaneamente um Homem grande não perde a sua essência e não corta raízes.
Nós ficamos satisfeitos por ele, copiamos-lhe o modelo e importamos a vontade e a garra para o nosso mundo, que é o que mais nos importa e aquele onde decisivamente nos é pedido que sejamos campeões e sejamos os melhores. Não porque os outros, os “adversários”, sejam realmente maus ou por nos termos esforçado por passar a imagem de que o são; eles são óptimos mas nós somos… imbatíveis.
SIM!

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Like a virgin…


Numa montra da Rua da Misericórdia, do lado esquerdo de quem desce para o Camões; entre almofadas em forma de sardinha, imagens de Santo António de todas as cores e ímans que representam os eléctricos amarelos da Carris, há uns chinelos de lã feitos à mão que nos apetece importar directamente para os nossos serões de inverno.
Do alto do restaurante ao cima da “sétima colina”, em São Pedro de Alcântara, desfruta-se de uma privilegiada vista para a Graça, a Sé, o Castelo, e para uma muito generosa nesga de Tejo…
A partir da aparelhagem do restaurante, o “Like a Virgin” da Madonna inunda toda a sala. Uma versão num tom mais intimista que a original mas que mesmo assim não impede que ressuscitemos a ousadia que herdámos desta música e dos eighties… a ousadia e os sonhos…
Enquanto escutamos a música tu lês uma carta de amor que te escrevi ainda hoje pela tarde, e eu olho-te para ver muito mais do que apenas Lisboa, para ver afinal o meu mundo, e o mundo inteiro que tu guardas em cada detalhe de ti…
Depois, mesmo estando do outro lado da mesa eu percebo que quando terminas a leitura e através da tuas palavras, me dás mil beijos, your heart beats next to mine.
E o meu próprio coração também não poderia estar agora a bater mais próximo do teu.
Apetece-me então dar um tiro no relógio e matar o tempo para que fiquemos eternamente aqui neste instante tecido de ousadia, de um sonho maior, e sobretudo de amor.
Um amor assim que tem a dimensão perfeita e intensa que o torna inédito como uma primeira vez, for the very first time; porque se nasce e renasce em cada amor.
E uma primeira vez que eu quero então tornar última e única com a duração da eternidade.
Sente-se uma certa corrente do frio de Janeiro que a climatização do restaurante não consegue disfarçar e eu ouso sonhar com uma casa de janelas viradas para o rio, e nós os dois de chinelos de lã devidamente calçados, a olharmos juntos cada mais pequeno detalhe das noites todas que a vida nos oferecer.
Os dois por entre o amor deste instante…
Sim, porque só o amor pode perdurar, cause only love can last

domingo, 11 de janeiro de 2015

O meu amor…


O meu amor mora entre os teus braços naquele exíguo espaço definido pelo eterno impulso de fundir o meu com o teu respirar…
O meu amor tem o aroma das palavras que se soltam entre as memórias do rosmaninho e dos juncos que colhemos nas tardes passadas à sombra das glicínias…
O meu amor tem os contornos perfeitos desenhados pelos nossos passos entrelaçados sempre que saímos juntos para namorar pelas ruas e calçadas de Lisboa…
O meu amor é da cor do Tejo naquele tom azul com que o incendeias ao sorrir, por bênção do teu olhar…
O meu amor tem o sabor doce dos beijos que colhemos da noite e de todos os instantes passados com a cumplicidade do luar…
O meu amor tem o toque suave da tua pele, da infinita festa que nasce do impulso de carícias a que se entregam os nossos dedos…
O meu amor não é longe, não é perto, não é tarde, não é cedo… o meu amor é o tempo todo no espaço perfeito e infinito da eternidade…
O meu amor é o côncavo e o convexo, o par e o ímpar, o branco e o preto, o sonho e a realidade, a esquerda e a direita, o sim e o não, o estio e a neve, a noite e a aurora, o tudo e o vazio, a frente e o reverso…
O meu amor é a música nascida das manhãs de onde se solta a poesia… mas o meu amor é também o silêncio onde o pensamento se permite ousar soletrar todas as palavras…
O meu amor tem os detalhes todos dos sonhos com que nos permitimos arquitectar juntos o futuro…
O meu amor…
És tu…
E terá sempre o teu nome.

sábado, 10 de janeiro de 2015

O tempo semeia sempre saudades de quem importa


Existiu um tempo em que éramos imensamente felizes, talvez sem termos bem a noção de que nunca mais voltaríamos a ser felizes da mesma forma, e tão felizes assim.
Comíamos cachorros quentes entre os despojos das manjedouras no bar do velho liceu enquanto sonhávamos o nosso mundo, tocámos viola e cantávamos canções nos sítios onde o cinzentismo de antes as proibia, rezávamos com a cumplicidade das árvores, dos cheiros e das flores do campo, ousávamos falar de amor e de um mundo diferente dissecando as letras dos Pink Floyd, jurávamos eterna fidelidade a nós e a uma fé tão colorida quanto a nossa idade…
Ríamos muito e como se não fosse existir qualquer mais pequeno amanhã.
Às vezes juntávamo-nos para juntos encenarmos peças de teatro que levávamos à cena sem qualquer receio, pois na plateia, como na vida, tínhamos os olhares aplauso dos nossos pais; e nunca nada poderia correr menos bem.
E esses olhares de onde víamos brotar o amor que nos abraçava intensamente nos dias em que crescíamos, era afinal o segredo para um tempo que foi o melhor das nossas vidas.
Passaram-se os anos, décadas; e a “plateia” dos olhares generosos de amor foi-se transformando, foi-se tornando vulnerável e foi tomando o estatuto de receptora do amor que antes muito havia semeado em nós; e a “plateia” foi-se tornando às vezes mais vazia nos instantes da partida dos nossos eternos mestres.
O tempo empurra-nos para a frente na marcha inevitável das gerações e há um tempo em que já não existe mais ninguém entre nós e o destino, mais ninguém que nos cuide e que nos mime.
E por entre essa “orfandade” tão temperada de memórias, às vezes até choramos de saudade.
Hoje soube da partida da D. Margarida, mãe da minha amiga Mena Rosa, a quem ainda dei um beijo de boas festas à saída da missa de Nossa Senhora da Conceição na manhã do último dia de Natal.
É o tempo a semear saudades de quem importa.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O aroma das rosas persiste sempre entre os dedos muito para lá do instante em que as pétalas voam


Nem a proximidade do Atlântico tem conseguido contrariar o destino gelado das manhãs dos últimos dias. O edredão é um refúgio memorável que nem um só pêlo da barba despreza até àquele terrível momento em que o despertador induz a razão e nos faz acelerar para o inevitável duche; destino onde até não se está mal depois da água quente começar a chegar vencendo a congénere gelada que passou a noite nos canos e nas paredes lá de casa.
Depois… as torradas, o copo de leite, o café, a mochila ao ombro, a confirmação do que há nos bolsos, o sair de casa, o elevador, alguma conversa de circunstância com os vizinhos, e a porta da rua a revelar uma brisa só comparada à que recordo de Vila Viçosa quando a geada matava o verde do jardim para nos dar a ilusão da neve.
Ajeito o sobretudo e o cachecol com as mãos e a mesma genética que antes puxava para cima a gola de pele do capote castanho para melhor resistir ao frio que a caminho do velho liceu sempre se cruzava comigo no Terreiro do Paço.
Agora acelero em direcção ao carro.
Vejo o sol a nascer intenso, redondo e em tons de ouro, por detrás da mais resistente das árvores, aquela que entregou todas as folhas ao vento e se manteve assim firme e majestosa na verdade despida dos seus troncos e ramos, isolada no alto do monte fronteiro à porta do meu prédio.
O carro está frio, o rádio liga automaticamente, o volante está gelado e antes de arrancar é necessário um esfregar e um bater de mãos extra… sempre a olhar o sol por detrás da “minha” árvore.
Tenho saudades tuas… mas sinto-te inevitavelmente perto.
O aroma das rosas persiste sempre entre os dedos muito para lá do instante em que as pétalas voam; e o sol não deixa de brilhar mesmo nas manhãs frias do inverno que despiu as árvores e desrespeitou o Atlântico que lá ao longe vou descobrindo azul à medida que avanço pela estrada.
Não sei qual a música que o rádio me ofereceu pelo caminho à medida que as minhas mãos foram aquecendo o volante, viajei com a persistência da lembrança do teu olhar azul como o mar.
Tenho saudades tuas…
Mas és tu quem me vai aquecendo pela manhã.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Je suis Charlie


O terrorismo motivado por extremismos de natureza religiosa é o cuspo dos imbecis sobre a face de Deus mais próxima de nós: os outros Homens.
Fazer-se juiz da atitude dos outros condenando-os irreversivelmente à morte é substituir-se a Deus, matando assim a sua divindade e dando-Lhe um estatuto humano equivalente ao nosso. E negar a divindade de Deus é trair definitivamente a própria fé.
E nunca, mas mesmo nunca, é admissível ferir ou matar a liberdade de cada Homem expressa pelas múltiplas linguagens ao seu alcance. A liberdade e a diversidade são provas da riqueza da humanidade, e para quem tem fé, são motivo para louvar a Deus.
O crente que não for um Homem ao serviço da liberdade é definitivamente um hipócrita.
Os acontecimentos de hoje em Paris são pois a mutilação de Deus e são também e infelizmente, o epílogo natural da história recente de uma Europa que trocou valores como a liberdade, pelos valores expressos em Euros nas bolsas e nos mercados.
Há muito que deveria ter sido dada “tolerância zero” à intolerância de natureza étnica e religiosa, expressa tantas vezes e nas aparentemente mais insignificantes situações. No verão de 2008 enquanto descia os Campos Elísios na companhia de um grupo de amigos, fomos todos interpelados e ofendidos por um grupo de jovens muçulmanos só porque entre homens e mulheres, íamos a passear de uma forma normal e natural como o fazemos ainda hoje em qualquer cidade.
Só porque íamos sem véus e biombos sobre a saborosíssima verdade que a alma determina à nossa forma de amar.
A Europa distraiu-se e traiu de morte a sua genética feita de ser livre.
Os tiros de hoje na manhã de Paris foram pois um atentado sobre todos nós, aqueles que nascemos, que gostamos de ser livres e que não desprezamos qualquer situação para desfrutar dessa liberdade.
Viva a Europa.
Viva a liberdade.
E digo-vos isto por entre a fé num Deus que para mim será sempre vida. 

Algumas notas soltas


Perante uma suspeita, a presunção de culpa é tão legítima quanto a presunção de inocência.
Enquanto os militantes e simpatizantes dos partidos políticos defenderem tão cegamente os da sua “cor”, a política será o biombo mais opaco e eficaz onde os corruptos procurarão abrigo.
A suspeita de corrupção combate-se fazendo prova de honestidade, e nunca pelo refúgio na lamúria e divagação sobre supostas perseguições de natureza ideológica.
Um preso político é alguém perseguido pelas suas convicções ideológicas contrárias ao do sistema vigente. Em Portugal e na política actual, a direita e a esquerda são substantivos, muito mais do que adjectivos, pelo que perseguições, se existirem, não são “batalhas” de natureza ideológica, são guerras de cartéis na luta pelo poder numa vertente muito mais económica do que política.
Gente séria e honesta que a determinada altura da vida tenha que solicitar ajuda financeira a amigos e conhecidos, não faz vida de luxo e não viaja em classe executiva.
Gente séria e honesta já na casa dos cinquenta anos, com vida e filhos para cuidar, e supostamente com parcos recursos económicos, prefere ir trabalhar, muito mais do que ir estudar e ficar à mercê do dinheiro dos amigos (ou de qualquer empréstimo bancário).
Gente séria e honesta não “vende” o irrevogável sentido das suas convicções e decisões.
A existência de um corrupto não iliba outro.
Um escândalo não cala o impacto negativo do outro.
A justiça nunca será cega e isenta enquanto os magistrados forem escolhidos pelos políticos com base inevitavelmente na sua manifesta e comprovada “tendência ocular”.
O cúmulo do ridículo no actual anedotário nacional consta do discurso e dos comentários de pessoas que falam sobre o estado terrível em que o país se encontra, que fazem promessas e dão pistas de futuro, mas pessoas que entre deputados, secretarias-de-estado, ministérios, presidências… não fizeram mais nada para além do exercício do poder.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Gosto da estrela…


De tudo o que envolve a história da epifania confesso que é a estrela aquilo de que mais gosto.
Um detalhe do céu que abre uma rota entre o oriente e Belém, uma estrada revelada aos Reis Magos portadores de ouro, incenso e mirra: Belchior, o ouro que celebra a nobreza de Jesus; Gaspar, o incenso que assinala a sua divindade; e Baltasar, a mirra, erva amarga que sinaliza Jesus como um Homem e se constitui como premonição para o sofrimento que o irá atingir enquanto tal.
Uma história tecida por fragmentos de muitas lendas costurados ao longo dos séculos, muito mais do que por qualquer evidência expressa nos textos sagrados.
Não é verdade minha querida amiga especialista teóloga Manuela Silvério Barreiros?
Gosto da estrela…
E gosto da noite em geral por ser a portadora daqueles instantes em que nada se interpõe entre nós e o pensamento, e os impossíveis definitivamente se apagam.
Tudo pode ser nosso sonhado na vígil contemplação das estrelas do céu: abrem-se rotas, acertam-se os passos, as distâncias podem morrer nos braços de um beijo e não há palavras que não possam nascer até do lado mais obscuro do silêncio.
Podemos ser tudo e ser nós, argumentistas e protagonistas da melhor das histórias, a nossa… e até podemos ser reis e magos unindo oriente e ocidente, sonhos e realidade; unindo-nos à “divindade” suprema da verdade que nos constrói a alma.
A lua tem estado gigantesca por estes dias, irresistível entre mim e as estrelas naquele precioso momento em que antes de ir para a cama, pego na caneca do chá de lúcia-lima e me encosto à vidraça para “voar” por sobre tudo. Às vezes com um bloco e uma caneta ao lado para não “perder” pitada de algo mais apetitoso que se possa soltar do pensamento, talvez pedaços de ouro ou incenso que a noite, generosa, me possa trazer, já que… mirra, amarga… já há que chegue.
E com uma lua assim, com tantas estrelas e com o tudo que se tem do pensamento, quem é que consegue ter saudades do sol?

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

A herança doce dos poentes


Quem se ama jamais teme a intimidade promovida por um pôr-do-sol, quando a pele e os olhares se namoram efusivamente e esvaziam qualquer importância e protagonismo que possam ter todas as mais inspiradas palavras de amor.
O sol ateia o horizonte de um despudorado rubor enquanto morrem capas e tabus na festa de sermos nós mesmos…
E vendo-te assim na “nudez” que te revela mais do que perfeito, eu não consigo nunca deixar de pensar que todos os meus dias tiveram o impulso da esperança de te encontrar.
E no abraço a que nos entregamos eu descubro um sibilino propósito em todos os aromas de flores que me foram oferecidos pela primavera e todas as estações.
O teu aroma num abraço que é uma definitiva chegada.
Nós merecemo-nos e merecemos este instante que se sobrepõe a tudo o que às vezes parece separar-nos, este momento roubado ao desejo e que insufla vida para dentro das nossas histórias.
Este instante é a minha suprema sorte e tu és o amor perfeito que cruzará comigo todo o tempo e todos os anos.
Ao redor de um chá de cidreira, quando o sol já se pôs e o teu olhar brilha mais do que o luar imenso de Janeiro, eu sinto vontade de fazer desta hora uma tenda para nela viver todos os dias…
Contar-te histórias enquanto te acaricio a barriga e tu me dás beliscos entre os dedos da mão; e adormecermos os dois por entre a herança doce dos poentes.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Retalhos e histórias


Quem guarda objectos sem qualquer valor que não o afectivo, mais cedo ou mais tarde, arrisca-se seriamente a ressuscitar histórias e os seus respectivos protagonistas.
Em fim-de-semana de arrumações aqui por casa casa deparei-me com os meus cartões de há exactamente trinta anos, “festivalmente” falando, numa altura algures entre o “Silêncio e tanta gente” da Maria Guinot e o “Penso em Ti” da Adelaide Ferreira, quando vim para Lisboa.
O Passe Social onde colocávamos os selos autocolantes comprados mensalmente ainda tem o de Abril de 1992, o último, mas a foto a preto e branco reporta exactamente a 1984: sem barba, óculos de metal, um penteado de risca ao lado, e uma camisa às riscas (já nessa altura…) mas ainda de uma minha fase pré-Porfírios.
Entre o elevador da Glória, o Metropolitano entre o Restauradores e o fim da linha, em Entrecampos; ou o autocarro 32 para subir a Avenida das Forças Armadas, não sei onde é que mais vezes mostrei aquela face dos meus dezoito anos.
O cartão da Universidade de Lisboa tem uma foto tirada na altura e na própria máquina que imprimia os cartões, e um picotado com as letras “UL” sobre cada ano lectivo dos cinco previstos para concluir o curso. Está todo picotado (e não foi necessário um cartão extra) mas acho interessante recordar-me do primeiro ano em que o utilizei. O primeiro-ministro de Portugal era o Dr. Mário Soares que implementava então um apertado programa de austeridade na sequência de uma ajuda do Fundo Monetário Internacional, tendo existido na universidade um dia de greve contra o aumento do valor das refeições nas cantinas de 55 escudos para 75 (qualquer coisa como de 27 cêntimos para 32), decisão do Ministro da Educação, Prof. Augusto Seabra.
Como o tempo muda e como ele faz mudar os protagonistas da história.
No cartão de leitor da Biblioteca Nacional tenho a mesma foto do Passe Social, e para mim nessa altura ir fazer trabalhos na Biblioteca era fantástico pois permitia ver o sistema “besidróglio” que sugava os pedidos por uns tubos e que mais tarde foi utilizado e baptizado assim num Concurso da RTP apresentado por Júlio César, “Aprender a valer”. Hoje basta ir ao Continente e nas caixas vemos o mesmo sistema.
E por entre os cartões e outros papéis há um bilhete de Abril de 1985 para a peça “O Esfinge Gorda” no Teatro Aberto, de Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, encenado e interpretado por Mário Viegas e com músicas interpretadas pelo Janita Salomé; e há cartas sobretudo do Manuel com relatos fantásticos dos acontecimentos por Vila Viçosa. Algumas cartas têm direito a banda desenhada.
Enfim…
Por entre objectos e histórias convém referir que as arrumações seguem assim a um ritmo muito lento.
Mas saboroso, é claro.