sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

2016


A melhor forma de cruzar o tempo é com a liberdade a tiracolo; porque assim, com ela tão junto ao peito, garantimos que nenhum dos beijos que sonhámos, fica por dar… ou pelo menos por dizer.

Não sei. É mesmo impossível saber quantas palavras desenhei copiando a alma antes e depois de Julho ter oferecido meio século à minha idade: dois livros, milhares de versos, rimas mais previsíveis ou mais ousadas, cartas e mensagens de amor…

Quem não desenha a sua marca no tronco dos dias arrisca-se a morrer sombra, um equívoco atrás de uma idade qualquer.

“Todos os Homens podem voar”, e eu voo, mas o abraço do olhar dos meus pais será sempre o melhor pouso para tudo e para “A noite em que os sonhos não entraram”. Quando a Mãe Inácia sorri e o Pai Artur diz “o meu gaiato”, eu sinto que ainda tenho a minha casa.

Trago comigo de 2016 os brindes com vinhos de muitos sóis, os cafés e os jantares à mesa dos amigos, os dias de “Cozido à Portuguesa” na casa da Mina e da Natália; os golos do Benfica Tricampeão celebrados nas bifanas com a Margarida e os abraços ao mano Zé; as gargalhadas com o Mário ao telefone quando o dia corre mal… ou menos bem, a conversa com o Álvaro no Shopping ao fim da tarde; Portugal campeão; o caril no Mendi; os passeios junto ao Tejo, na Baixa ou em Belém; os Rembrandt no Hermitage; a Praça Vermelha, Vila Viçosa e as conversas no Café Restauração, um desenho do Luís e as conversas com o João; Paris numa noite de verão…

E numa manhã demasiado triste e quente de Setembro, o adeus à Anabela. As lágrimas que choramos na partida dos amigos levam com elas, dissolvido, tanto do nosso medo de morrer.

Um ano também se conta pela saudade.

Com a liberdade a tiracolo e com a fé…

Sabendo que os anos só terminam em Dezembro e que até ao fim tudo poderá acontecer.

Irrequieto, vadio ou gaiato, serei sempre um homem apaixonado cruzando o tempo, saboreando-o sem pressas não vá escapar-me entre os dedos algo daquilo que eu tanto quero ser.

Um beijo e muito obrigado por terem estado sempre aqui.

 

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

“These happy days with happy socks”


Quando a Julie Andrews irrompeu pela RTP1 a entoar melodias, destemida e aos pulos pelas montanhas de Salzburgo, já os meus pais tinham recebido de presente de Natal, um tablet, para poderem falar connosco diariamente por Skype.

O som da música, do coração dos Von Trapp, pois claro, nasceu um ano antes de mim; ali mesmo a tempo de me acompanhar em todos os Natais, desde a era do Telegrama e do Postal dos Correios a este tempo imensamente digital. As falas e os rostos são já tão familiares que será impossível sentir-me “sozinho em casa”.

A mãe melou os nógados quase em cima da hora da ceia e há três fiadas dos ditos sobre a tábua mais velha do que eu, talvez da idade da película. A história dos nossos Natais, ao som da Julie Andrews, poderia escrever-se assim em linhas de mel e massa frita à chaminé.

Antes que os anjos chegassem ansiosos por cear e nos apanhassem ainda de volta da mesa, resolvemos ir dormir quando a Baronesa tentava atrapalhar a história de amor entre a Maria e o Capitão. Amanhã faço a televisão andar para trás e vejo a cena dos túmulos, que é a minha favorita.

O frio do abraço do lençol que sabemos se dissipará em minutos, o silêncio das ruas sem carros, a escuridão em que mergulhou o resto da casa… enquanto alinhavo os meus versos, faz-me perceber que a noite de Natal foi inventada para os anjos e para os poetas, para que juntos celebremos o amor colhendo a paz que nos traz a lua.

Não me recordo de ter adormecido mas acordei com o sino da capela. Um café quente, a missa, o padre que pergunta o sentido da vida, nós a brincarmos como antes na fila para beijar o Menino Jesus.

Beija-se no joelho ou no pé?

À porta da igreja uma amiga diz que está calor. São Aurélio, não há frio de Dezembro que resista ao meio-dia dos nossos abraços e gargalhadas. A nossa amizade contribui para o aquecimento global do planeta.

Deixo a Avenida, baixo-me para não magoar as laranjas com alguma indesejada cabeçada e...

O sentido da vida?

Senhor Padre Francisco Couto, é definitivamente o amor.

O amor que não exclui nenhum “pedaço” do que somos e fazemos, e o amor que concretiza a verdade que trazemos no peito.

Last Christmas I gave you my heart”.

É irónico que o George Michael parta num dia de Natal e por causa de uma crise cardíaca.

O amor, a vida, a fé, o tempo… e a urgência de nos deixarmos acontecer.

Vou ficar por aqui esta semana, entre outras coisas para que os meus pais se familiarizem com o Skype.

E os dias quando são felizes exigem que tudo se alinhe com eles. Até as meias.

É aproveitar porque a vida ainda não imita a televisão na hora de andar até às “cenas” de que pretendemos matar saudades.

 

sábado, 24 de dezembro de 2016

O Natal de 2016


No roupeiro da casa de Vila Viçosa está pendurado um capote castanho que estreei no dia de Natal de 1975.

- Compra-se grande porque o rapaz está a crescer.

Vejo-o agora tão pequeno que custa a acreditar ser o mesmo das abas avantajadas que dificultavam transportar a mala às costas a caminho da escola.

O mundo era imenso quando eu tinha nove anos, e me sentava no velho canapé colhendo o benefício das almofadas para chegar à mesa da ceia de Natal.

Talvez o avô Chico tivesse fabricado uma ronca para cantarmos ao Menino Jesus, e de certeza que haveria Borrachos polvilhados de açúcar que comíamos acompanhados de cacau.

Era o tempo em que não faltava ninguém entre mim e o sonho. Um tempo doce e lento que se espreguiçava enquanto sorriamos sem pressa.

Fecho a porta do roupeiro, desço as escadas, passo pelo canapé, agora envernizado, e devolvo-me à Avenida. Sinto na cara o vento de Dezembro cumprindo a coerência fria do Alentejo interior. Sem esta brisa que gosto poderia ter o meu Natal?

O mundo, reparo, ficou de repente do tamanho do meu capote, estranhamente pequeno; talvez porque viver seja afinal aproximarmo-nos do céu.

As laranjas tão inacessíveis de ontem estão agora tão próximas enquanto o tempo voa e me obriga a travá-lo à esquina de um café onde um vizinho de sempre escuta Alfredo Marceneiro no seu i-phone.

Calaram-se as roncas, mas a mãe pôs Borrachos no prato dos fritos que veio para a mesa ao pequeno-almoço.

Parece que juntamente com o frio e as filhós só o meu sonho parece igual; mas com muito menos gente por ali e o aroma estranho de uma saudade.

O Natal?

A pretexto de celebrar Cristo nascido em Belém, é afinal um tempo para lembrar que tudo muda mas o nosso sonho permanece igual.

Um beijo e boas festas.

 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Quantos lápis e quantas cores...


Quantos lápis e quantas cores seriam necessários para pintar com justiça a cidade guardada num beijo?

Entre a geometria de ruas paralelas, perpendiculares ou diagonais num abraço de ângulos inéditos e improváveis, entre a irregular volumetria das colinas, as praças, as casas, as janelas… há um rio que corre lavando as margens, e que encontra o mar no ponto exacto onde o sol adormece para repouso da tarde e das gaivotas.

O frio de Dezembro não resiste às luzes e às palavras de Natal, e a cidade toma pela fé da gente, as velas e as asas que a fazem partir muito para lá do espaço a que usam chamar seu.

A cidade que mora num beijo é inacessível ao traço dos pintores e às palavras mais ousadas dos poetas, às cores; mas pela descrição que aqui faço, poderá pensar-se assim de repente que será Lisboa.

Pelas pontes, pelo casario…

É natural.

O tempo e o espaço saltam inteiros connosco para dentro do beijo que o desejo inventa ao fim da tarde… junto ao rio.

 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

As luzes de Natal...


As luzes de Natal oferecendo tectos ocasionais às ruas da cidade parecem querer contrariar o tempo que daqui até ao solstício se vai entretendo a distender a noite.

E às vezes estas luzes vencem as portadas opacas das janelas e rasgam as sombras do quarto onde nos rendemos ao silêncio, sem o mínimo gesto de resistência ao entardecer.

Que razões teríamos nós para temer a noite?

Na sala ao lado há um presépio em cama de linho onde um menino de barro repousa sob uma áurea coroa desembrulhada do algodão há não muitos dias.

Que achará Jesus do meu presépio enquanto espreita as luzes assassinas que rasgam a escuridão das noites de Aleppo?

Que dirá da vela perfumada que lhe coloquei aqui quando afagar as faces cansadas dos meninos que tentam ajeitar-se ao recanto mais doce de uma qualquer fogueira improvisada?

Que pensará de nós?

O "pecado" das religiões é a tentação dos Homens "oferecerem" a Deus a face das suas vontades, em vez de tomarem como sua a "face" de Deus. “Ajeitamos” o divino traindo o amor.

Somos ridículos e tontos, imperadores hipócritas tocando as "liras" enquanto o "mundo" arde; porque por mais que O puxemos para o veludo que nos cobre os dias de quase solstício, Jesus morre menino fugindo da noite e do pó das ruas sem tecto do Natal de Aleppo.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Quantas vidas cabem na tarde de quem escreve uma história?


Raras vezes a verdade se mostra muito facilmente a quem manifeste intenção de a espreitar...

Aqui sentado a esta mesa de madeira e virado para o Palácio da Pena que muito ao longe coroa o Monte da Lua, acharia quem voasse frente à minha janela, que um homem mergulhou na Sinfonia Número 4 de Brahms para fugir à solidão.

Quantas vidas cabem na tarde de quem escreve uma história?

Converso com a Gertrudes numa casa grande de Vila Viçosa, vejo-a mais gorda a carregar baldes de água desde o poço do quintal até ao lava-louça, e até decido pôr no ar um aroma a Sericá acabado de sair do forno; só porque aquela cozinha está com um aspecto demasiado frio.

Andei à procura das cores de Agosto no Alentejo e fiz com que o Manuel entrasse numa taberna para beber um copo de vinho.

Desenho o sol, coloco estrelas numa noite de lua cheia, ponho versos na boca de alguém…

Tudo, lentamente e letra a letra num desenho que se lê; por onde também passaram a Mariana, a Filipa e a Aurora, que não é lá muito bem vista no contexto desta história.

Sei que um dia terei saudades de toda esta gente que inventei e do tempo que por aqui passámos juntos.

Um escritor nunca perde o mundo, reinventa mil por sobre o tempo que lhe dão.

E mesmo que baixe a cabeça, pensativo, taciturno, para ver como as letras avançam; não caiam no pecado de ver nesse gesto um pranto de solidão.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Agarro o tempo...


Agarro o tempo que me abraça e me sussurra histórias ao ouvido; cuidadosamente e com as duas mãos, não vá escapar-me entre os dedos, discretamente, aquele segundo que há muito desejo.

Há árvores jazentes na berma da estrada onde as pedras soltas me ferem o passo. Ardem-me os pés, mas se assim não fosse como poderia eu dizer que este é o meu caminho?

Não nos pertence nada para lá daquilo que se sente.

Tomei uma vara ali muito perto da fonte de onde bebi água fresca, e o pó que o meu corpo levanta e o vento arrasta, esmoreceu por instantes deixando claras as palavras.

Ai se eu fosse poeta...

Suspiro na saudade de um beijo no exacto momento em que descanso.

Libertava as asas destes "nãos" que as tolhem e calaria de vez a pequenez dos horizontes, entregaria à sombra das árvores a mortalha das inconsequências, e buscaria o mar que o meu medo insiste em selar nos búzios.

Continuo depois como quem acredita. Eu caminho para não fugir de mim.

No bolso, uma lanterna, a ousadia, e não vá a fé fraquejar; na boca, o respirar doce de uma Ave Maria.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

É a geometria...


Recordo-me bem do tom gélido da noite sempre que saíamos do Castelo pela porta da Torre de Menagem. Acudia-me com pressa o xaile da minha avó, macio e rodeado de cadilhos que davam para entreter as mãos.

Saio da novena da Senhora da Conceição com a minha mãe ao lado, e conduzo o carro que traça uma perpendicular com esse tempo de rapaz, ali por debaixo das alfarrobeiras que ladeiam o Pelourinho.

As mesas são compridas e oferecem um espaço generoso para as gargalhadas, que o riso mais do que o pão, nos envolve numa noite em que os plátanos não resistem mais à nudez e nos enfeitam os carros com folhas da cor do Outono.

Não importa se nascemos no mesmo ano, por acaso, sim, em 1966; não importa se partimos, se ficámos, o que foi que fizemos com o tempo...

Temos a cumplicidade suprema de quem brincou sobre o mesmo chão, e esta noite fria de Dezembro traça uma linha perpendicular ao tempo em que rasgávamos os joelhos nos troncos das árvores do Rossio para conseguirmos comer amoras.

Há instantes que nos cruzam com a nossa história algures pelas ruas onde nascemos... e brincámos.

É a geometria, raiz daquilo que somos.

O domingo de manhã deixou que a chuva descobrisse uma nesga de céu, que vejo desde o cimo da Praça olhando o Castelo.

Não tenho dúvidas, aproveitarei as asas que me ofereça a eternidade, e voltarei aqui para voar, rodopiando alegre sobre a fonte.

Talvez encontre um amigo para brincar, e estou certo, que comprovarei que de céu, já muito tinham todos os dias e essas noites em que as avós nos ensinavam a rezar.

 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

O mundo inteiro…


No nosso quintal há uma gaivota que chega sempre ao fim da tarde para brincar com a giesta e o alecrim, e por isso nunca saberemos se Portugal é um pedaço de terra ou se é tão-só o próprio mar.
Os braços em cruz, pela fé, são mastros de caravelas que tomam do peito a vontade e partem traindo a solidão das praias, tatuando no vento um travo audaz e inédito de liberdade.
Nos espigueiros onde o milho adormece a sonhar o pão, no vinho que o sol aqueceu e escorre fiel dos nossos passos, nas encostas matizadas pelo rubro tom das cerejas, no canto do sul nascido dos abraços…  
O mar? A terra?
Não interessa perguntar o quê ou qual.
Está o mundo inteiro guardado nesta aparente pequenez: Portugal!

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Ter mãe é não envelhecer...


A nossa será sempre a linguagem perfeita dos silêncios onde as palavras não restringem o amor, oferecendo-lhe dimensão.

O nosso amor é a própria vida e jamais se deixará dizer, imune às métricas e a todos os humanos detalhes.

E o que teria um fruto para contar à árvore que o sonhou e de onde a primavera o faz nascer?

Quase nada.

Nós lemo-nos nos gestos, intuímo-nos no respirar, no riso… Sabemo-nos de cor, e o teu olhar desenha-me um banco de ervas na vizinhança de uma fonte de águas frescas. Sentamo-nos por ali, eu no teu colo, enquanto as tuas mãos baralham o tempo e calam todos os medos e os meus cansaços.

Eu sei que contigo aqui tão perto, os dias jamais deixarão de ter flores penduradas pelas esquinas de todos os segundos.

Ter mãe é não envelhecer.

Mãe, um beijo de parabéns.

domingo, 27 de novembro de 2016

É quando os sonhos entram…



No final dos anos trinta do Século XX, a distância entre Vila Viçosa e Lisboa tinha a enorme dimensão de seis horas de comboio e de um Tejo sem pontes que obrigava a navegar. Era o tempo das cartas, e a distância tornava-se cruelmente inultrapassável para quem não sabia escrever.

O meu avô Joaquim falava de um irmão mais velho, de nome Francisco, que partira cedo para a capital e de quem souberam muito pouco: o nome das três filhas, alguns outros detalhes da sua curta história; e a data da sua partida, muito tempo depois de ter ocorrido e sem que conseguissem sequer vir ao seu funeral.

Ontem na sessão de apresentação de "A noite em que os sonhos não entraram", a Marisa, que é utente e funcionária na Associação de Paralisia Cerebral de Lisboa, juntou o apelido Caeiro e Vila Viçosa, lembrou-se de um bisavô de nome Francisco e veio falar connosco. A minha mãe lembrava-se do nome de uma das suas primas, Maria Carolina, a avó da Marisa.

As palavras dão corpo aos sonhos e os sonhos descobrem as pontas perdidas das histórias de todos nós, atando-as de seguida no cumprir de um doce sentido.

Às vezes não sei porque escrevo assim tanto, e outras vezes torna-se tão fácil perceber porquê.

É como se as letras fossem flores que enfeitam os degraus do tempo.

E a noite é afinal uma ilusão que os poetas desmontam facilmente transformando a lua num sol de raios infinitos e empurrando as nuvens que se intrometam entre si e a vontade.

É quando os sonhos entram...

Um abraço especial a todos os que fizeram com que este livro fosse possível e que ontem vestiram de sorrisos uma tarde de chuva.

Muito obrigado.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Na ponte sobre a auto-estrada…


Na ponte sobre a auto-estrada, um homem segura a bicicleta enquanto olha para longe, para o sítio de onde eu venho. O sol alinhou-se momentaneamente com os raios da roda traseira e ganhou o estatuto de uma imensa laranja com gomos de luz.

Eu passo em direcção ao sul, rápido, e este instante intercepciona a minha pressa com a tarde estirada e lenta de um "velho" a quem pouco mais resta do que o horizonte para se entreter.

Cabe tudo no mesmo segundo.

Talvez o homem regresse agora do campo e traga diospiros maduros no cesto de verga que vislumbrei atado à parte traseira do veículo que usa como uma imensa bengala que desliza sobre as pontes e as veredas.

Se o verão não tivesse acabado, jamais os nossos passos se revestiriam de ouro neste caminhar sob os plátanos que Novembro vai despindo lentamente.

Eu juro que um dia porei a pressa no bolso e olharei contigo todos os horizontes que o ocaso pinta de vermelho por sobre o plúmbeo tom das nuvens na premonição de chuva.

Os dois como um "velho" solitário numa ponte da auto-estrada, algures por aí, enquanto os frutos do Outono se espreguiçam ao sol.

Tudo se ajeita num mesmo instante e não existe um fim que não seja simultaneamente um começo...

Basta que a vida se cruze com a liberdade que a reinventa e a seduz, por entre as palavras de amor que ousamos ir inventando, como gomos doces de uma laranja nascida em contra-luz.

sábado, 19 de novembro de 2016

Tanta vida, a minha voz…



A memória veste-me uns calções curtos do tecido castanho que sobrou de um fato do meu pai, e senta-me num banco redondo de madeira encostado à parede por detrás do balcão. A sala rectangular tem livros arrumados nas estantes das suas quatro paredes, e tem duas portas abertas para a rua que arde por bênção da cal e do sol com que o verão beija o Alentejo…
Vila Viçosa. Eu terei talvez uns seis anos, e os livros que vou lendo devagar são as portas para onde se pode de facto espreitar.
Aquela luz lá fora que nos encandeia e que nos empurra para dentro e para o aconchego da alma…
Deixo a memória escorregar depois até à tarde de Dezembro de um ano qualquer da década de oitenta do século que já passou. Cheguei ontem de Lisboa no Expresso que chegou ao Rossio, e vim passar o Natal nas férias da Faculdade. O descanso das Químicas na mesma sala; e eu não me esqueci do lugar de cada uma das “portas”.
Sugiro presentes, faço embrulhos, trocos… e quando não há clientes encosto-me à parte lateral do balção do lado direito de quem entra, virando costa à Banda Desenhada do Asterix e do Michel Vaillant , deixando que a conversa flua e voe para onde se vai espraiando a vida.
Não há palavras proibidas nos instantes em que aprendemos a liberdade, e por entre cravos encarnados ou de qualquer outra cor, o olhar doce de quem nos ama é o espelho onde sempre nos vemos bem e confortáveis na identidade que não trai a essência de que somos feitos.
Tão pouca gente me olhou ou olha assim.
E num dia de Outono, quando os medronhos do Castelo já sorriam maduros e o sol do Alentejo nos enganava disfarçando a geada, a saudade sobrepôs-se às palavras, subitamente, e sem tempo sequer para um beijo fugaz.
Uma partida sem medo, porque só teme a morte quem sente não ter a vida em dia.  
A minha querida amiga Joana Ruivo faria hoje 100 anos e eu contínuo sem saber quanto lhe devo do melhor que existe em mim.
Tanta vida, a minha voz…
Às vezes nos dias de me reinventar, encosto-me por instantes na lateral de um velho balcão de madeira, baralho-me propositadamente na idade e deixo-me ir pelo seu olhar doce, para qualquer lado mas sempre por mim e pela liberdade.
Que nunca nada daquilo que é meu possa ficar por fazer.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

O mar só é distância para quem não se dispõe a navegar...



O mar só é distância para quem não se dispõe a navegar.
Por entre a brisa fresca das manhãs de Novembro, destituímos o medo e a mágoa, e tomámos pela vontade, os nossos corpos, que voltaram assim a ser nossos.
Marinheiros da liberdade. O gesto que ora nos reveste os braços tem mais de nós do que o reflexo dos rostos sobre as águas em espelho de um franco tom de azul. E se o mar terá sempre a coerência salgada de uma lágrima lusitana, quem disse que ela não cruzou o sorriso imenso que da nossa fé emana?
Enquanto navegamos, não sabermos sequer se o horizonte carregará ou não as ilhas que nos possam acudir à prece de um naufrágio. Quem ama nunca sente as dores do caminho, e sente que cada milha que se avança já tem tanto de chegar.
Por maior e impossível que nos digam ser o mar. 

sábado, 12 de novembro de 2016

Aproveitando a ousadia que mora nas madrugadas…



Aproveitando a ousadia que mora nas madrugadas, eu pintarei um dia inteiro de azul e sairei depois a voar contigo.
Sobre os montes, o preconceito, os medos e sobre o tempo, essas horas que os beijos estreitam e a saudade dilata.
Haverá laranjas a espreguiçarem-se maduras, romãs a explodirem grenás no verde matizado do Outono, o voo atento do melro ainda moço na encosta que mira ao sul.
A história de um Homem é a memória dos seus beijos num voo assim tranquilo sobre o tempo como Redford e Streep sobre a savana em brasa.
Talvez nos lembremos mais dos beijos que não terminámos do que dos outros que chegaram aos lábios e fizeram entorpecer as palavras.
Num dia assim tingido de um intenso céu voltemos à casa onde os beijos adormeceram e esperam que os resgatemos desse ser tão só uma intenção.
Talvez o melro já tenha descoberto o tom rubro da romã...
Nunca chegaremos tarde quando se trata de acertar a nossa história. Para isso vem carregada de ousadia cada manhã.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Somos eternos cúmplices e irmãos de todas as flores de entre Abril e Maio…



A poesia não se rende e por isso o nosso sonho persistirá sobre todas as manhãs de Outono, mesmo as mais sombrias.
Quando acreditámos que os muros ruíam e as suas pedras desgastadas morreriam envoltas pela erva de milénios, quando estreitámos o mar na agonia das fronteiras, quando esquecemos os detalhes e nos demos as mãos… cumpríamo-nos pelo compromisso com a liberdade que a alma nos “impunha”.
Fomos cúmplices e irmãos de todas as flores de entre Abril e Maio.
Mas, distraídos, esquecemo-nos que o tempo desenha circunferências moldando a História, e que breve chegaríamos a este dia em que as pedras saltam para novos muros, os Homens morrem afogados na areia fria das novas fronteiras, e até Deus ganha novamente uma perspectiva bélica de cruzadas sem fim e outros “santos ofícios”.
Foram os políticos que desceram até ao circo e se misturaram com os “palhaços”, ajudados por nós que os camuflámos por via da crença e da ideologia.
Inventámos desculpas para os desonestos, idolatrámos os medíocres, tolerámos muito facilmente os imbecis e os incompetentes… demasiado e até ao ponto em que todos são igualmente maus.
Valham-nos então e sempre a poesia e a fé.
Corramos descalços sentindo o toque da terra e das ervas molhadas, de encontro aos beijos que quisermos dar; calemos as pedras que nos devolvem aos guetos onde o superficial divide e mata a mais doce essência da alma, o amor.
Os nossos corpos nasceram para lutar descansando mais tarde nos abraços.
O nosso canto tem raízes de primavera e tom de cravo, de liberdade.
Vivamos e apaixonemo-nos, sabendo que viver é não deixar que alguém um dia nos desmanche o sonho… por mais que nos pareçam sombrias as manhãs de Novembro.

domingo, 6 de novembro de 2016

E a tanta vida que se espreita de ao pé de ti faz-me sentir imortal…



A nossa casa de primeiro andar tinha na sala um móvel onde os vidros tilintavam sempre que passávamos. Recordo-me bem.
Mas nem a estridência desse som me acordava quando ao regressares do cinema me pegavas ao colo transportando-me da tua para a minha cama.
A mãe adormecera-nos depois de rezarmos ao Menino Jesus, enquanto tu estarias de volta da velha máquina de projectar que funcionava bem quando se alinhavam dois pedaços de carvão com a forma de um lápis.
Nas noites simples nessa casa da Rua de Três, em Vila Viçosa, os teus braços deixavam espreitar para o amor a que consigo ser fiel quando sou maior. O amor que transporta em si a força de um castelo de onde se conquista o universo; heróis armados pela vontade, às cavalitas, como num imenso beijo, e com o riso em vez de espada.
Aprendi contigo que o tempo só permite cumprir os sonhos se os nossos passos lhe lembrarem todos os dias qual o sítio para onde queremos ir.
Desfrutámos tantas vezes da agonia dos impossíveis sob o perfume da liberdade; e construímos juntos os papagaios de papel que depois pusemos a voar.
Na mesa da cozinha ficava sempre um bolo em forma de pato que compravas na Pastelaria Azul no regresso do cinema e que eu comia na manhã seguinte ao pequeno-almoço.
O amor mora sempre nas coisas mais simples.
Parabéns pai.
Que bom ter-te aqui para ainda hoje continuarmos a brincar e a ver quem tem mais cócegas.
Continuo a ser um dos teus dois gaiatos, e a tanta vida que se espreita de ao pé de ti faz-me sentir imortal.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

“Alentejanados”



Quando a minha avó Francisca ceifava trigo de sol a sol e a minha mãe, com dez anos e depois de terminar a instrução primária, lhe preparava e levava o almoço ao campo, sobrava-lhe o domingo para ir até ao ribeiro lavar a roupa. Mas quando chegava o inverno e as mãos adormeciam na geada agreste que envolvia as azeitonas que apanhava desde madrugada, sei que poucas vezes deixava de roubar tempo ao descanso para ir rezar na novena da Senhora da Conceição.
A minha avó, que viu o mar pela primeira vez na Nazaré quando íamos a caminho de Fátima, e quando eu, adolescente, já tinha um histórico de banhos na praia, será sempre um dos meus maiores exemplos de fé e de honestidade.
Ali em vila Viçosa, num profundo e doce Alentejo.
A fé é a alma toda e a religião será sempre uma casa de Deus com muitos traços da responsabilidade dos Homens, esses mesmos Homens que definem regras e colocam a moral por cima da honestidade que põe à superfície da pele e na cor dos gestos, o tom da alma e da fé que a perfuma.
E o trabalho é a expressão da fé dos pobres que se fazem heróis e próximos de Deus na genuflexão sobre as pedras frias dos ribeiros ou nas Ave Marias quando a geada que envolve os frutos substitui as pérolas envoltas em ouro dos terços dos poderosos.
O novo Bispo de Beja afirmou hoje que Portugal está “cada vez mais “alentejanado’” em termos de fé cristã, com religiosidade pouco evangelizada, prática dominical muito reduzida e vida moral desvalorizada.
Se fosse mais atento talvez pudesse ver para lá do óbvio e sentir e palpar as expressões da fé do seu “povo de Deus”, que estão onde deveriam estar, muito para lá das janelas das sacristias onde a moral é tantas vezes um exercício de retórica utilizado como pano opaco de veludo sobre a desonestidade e o “pecado”.
Talvez lhe fizesse bem ser mais “alentejanado” e sair do palácio onde habita e descer do púlpito de onde prega para aprender com a simplicidade dos demais.
O Alentejo é um canto da alma nascido das raízes da fé, Senhor Dom João Marcos.

sábado, 29 de outubro de 2016

Nós somos da fé e da alma...


Atrás de mim sinto as estrelícias a espreguiçarem-se ao sol, enquanto um velho tocando acordeão se aproxima da minha espera: o chá de jasmim teima e não arrefece.
O som da moeda sobre o fundo da lata de atum de conserva vazia e já ferrugenta parece alinhado com a partitura transparente deste anónimo Piazzolla que hoje veio rasgar-me o silêncio.
A cidade está cheia de Santos, criaturas improváveis, Anjos erguidos e caminhando assim entre as flores e o sol de um quase meio-dia decalcando letras sobre as folhas vazias dos poetas.
Nós somos da fé e da alma, da eternidade e dos sepulcros vazios…
Que importará o vento que disperse as nossas cinzas e a forma e o género dos corpos que dão gesto ao amor que sentimos?
Nós voaremos sempre para lá do horizonte que os ciprestes desenham em pose triste, para lá do Gólgota onde as cruzes adormecem sob o pó dos entardeceres de Jerusalém.
As capelas onde nos sepultarem encerrarão sempre uma ilusão do Deus que nos abraça em cada entardecer e a quem rezamos com a cumplicidade do mar.
E os nossos beijos serão sempre muito mais do que o pragmático encontro dos lábios que suspenderam por instantes as palavras, serão a casa para onde o amor trouxe a vida toda.
Enquanto os Anjos tocam pela cidade.

sábado, 22 de outubro de 2016

A nossa história...


A nossa história poderá contar-se pelas ruas que pisámos. As calçadas são relicários, e por mais anos que passem eu jamais esquecerei os tons e as sombras do Outono desta "Sétima Colina" de Lisboa.
A Maria Guinot cantara "Silêncio e tanta gente" na Eurovisão há pouco mais de seis meses, melodia que me assolava bastas vezes ao assobio quando passava ali pela Rua da Escola Politécnica e a D. Pedro V. Como se tivesse sido inventada para mim.
Chegava de Vila Viçosa para estudar na Faculdade de Farmácia, e esse Outubro de 1984 ofereceu-me um quarto na sede da Fundação da Casa de Bragança, ao Príncipe Real.
Em casa, o Senhor Francisco e a Dona Engrácia, colegas dos meus pais e até aí meus desconhecidos, iam tornando-se aos poucos meus avós, ao redor das horas que passávamos a conversar e confirmando a pura e perfeita genética dos afectos.
No jardim sentava-se um velho estranho que nos dizia bom dia e conversava com quantos passavam, curioso por ver os livros que transportávamos debaixo do braço. O Professor Agostinho da Silva subia desde a sua Travessa do Abarracamento de Peniche para ficar horas por ali, onde, e com alguma sorte, também me poderia cruzar com o Alexandre O' Neill a entrar no “Tascardoso” ou o Baptista Bastos no “Snob”, à Rua de O Século. No talho encontrava às vezes a Simone de Oliveira.
“Se uma gaivota viesse…”
Não era preciso. Desde o céu de Lisboa, as folhas caiam rubras sobre esse Outubro sempre que eu passava pelo Jardim Botânico para jantar na cantina da Faculdade de Ciências e de caminho comprava iogurtes na mercearia e carcaças na padaria que também vendia Queques e Bolos de Arroz. Se não havia muito para estudar passava pelo quiosque e comprava o vespertino "A Capital" para ler as notícias deixando sempre o melhor para o fim: as Palavras Cruzadas.
Soares era Primeiro-Ministro na altura em que o PS ainda "dormia" com a direita, e nós fazíamos greve porque o Ministro José Augusto Seabra aumentara as refeições de cinquenta e cinco para setenta e cinco escudos. Não tardaria a ser substituído por João de Deus Pinheiro.
Depois do São Carlos, as óperas passavam pelo Coliseu em versão económica e… incómoda; que na geral, as pernas dos que estavam atrás impediam-nos de ter encosto. No Coliseu também cantaria a Bethânia, mas mais para meados de Março. Antes, havia que comprar isqueiros descartáveis para ir ver o Fausto à Aula Magna mas com um certo toque de requinte.
As manhãs de sábado eram perfeitas no Chiado, depois de descer a Rua da Rosa, sem turistas mas com vendedores em delírio de pregões; e com sorte talvez tomasse o café na “Bernard” ao som das gargalhadas estridentes da Graça Lobo.
A “Livraria Bertrand”, a varanda do “Eduardo Martins” na esquina da Rua Garrett com a Rua Nova do Almada, a missa na Basílica dos Mártires, “O Expresso”, uma “Frigideira de Carne” comprada na Pastelaria Suíça… E o regresso a casa no autocarro de dois pisos da carreira 39, que tinha um “Pica” simpático, por certo percursor do agora cantado e famoso do 7.
No domingo talvez desse um salto à Luz para ver o Benfica, chegando cedo para ocupar um lugar central no terceiro anel, então ainda incompleto e com vista para Monsanto. O Maniche, o Dinamarquês, marcava então golos toscos e o Bento voava nas balizas.

Aparco o carro no Camões e ainda há pouco virava no Rato em direcção a São Mamede. Não me lembro desta vez de ter olhado para São Pedro de Alcântara ou para a loja das lâmpadas, agora pastelaria para turistas, cujo dono era parecido com o Mortimore.
Mas neste Outubro de Lisboa, entre duas ruas ajeitei trinta e dois anos, um instante, não fora o espelho do elevador do parque revelar-me as cãs e algumas, muito poucas, rugas.
Já à superfície, Outubro pede castanhas, já se sente o frio; e eu passo do Camões para o Chiado com a música da Maria Guinot presa a mim por via do inevitável assobio.