quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

2010

Descascadas e saboreadas todas as laranjas da colheita de 2010, partilho convosco, aquelas que a memória guardou:

LARANJA DOCE – O Resgate dos Mineiros Chilenos
Para mim, um momento maior. Perante o infortúnio, a humanidade reuniu talento e meios para fazer o que de mais nobre sempre lhe cumprirá fazer: dar ou acrescentar vida.

LARANJA AMARGA – Crise Financeira
A dívida externa, o desemprego, o caos dos mercados, ou pura e simplesmente, a queda das máscaras de quem sempre nos (des)governou na base da ilusão. E seremos sempre os mesmos a pagar por estes PECados, a provar o amargo. Um protagonista: José Sócrates. Porque o seu a seu dono.

LARANJA SUMARENTA – Manuel de Oliveira
102 Anos a jorrar o sumo da criatividade e do talento, com uma lucidez que a todos faz espantar.

LARANJA MECÂNICA – José Mourinho
Excelência na gestão dos Recursos Humanos, índices de motivação elevadíssimos, rigor técnico e táctico, como segredo para as vitórias em todas as provas em que participou com o Inter de Milão. Não restam dúvidas que é mesmo especial.

SUMO GASEIFICADO DE LARANJA – Benfica / Campeão Nacional.
Foi bonita a festa mas alguém se esqueceu da garrafa aberta e o gás… foi todo embora.

SUMO NATURAL DE LARANJA – Fundação Champalimaud
Investigação científica e médica num centro inovador implantado à beira Tejo. Oxalá as Tágides, as ninfas que inspiraram Camões, possam dar inspiração para muitos e bons proveitos.

LARANJA VERDE – Papa Bento XVI
Aguardemos que amadureça mas para já há sinais verdes de esperança. O pedido de desculpas pelos crimes de pedofilia, o assumir da possibilidade do uso do preservativo, parecem indicar que ao contrário do que aconteceu com Galileu, não será preciso esperar séculos para a Igreja emendar os seus erros. A rever na colheita de 2011.

LARANJA PÔDRE – Escutas Telefónicas / WikiLeaks
Vale tudo e tudo se escuta e divulga. A justiça dos tribunais deu lugar à justiça dos “Media”.
O mundo chafurda na lama das suas imensas faces ocultas.

LARANJA CALIPOLENSE – 500 Anos da Santa Casa da Misericórdia de Vila Viçosa
É uma instituição fundamental na vida de Vila Viçosa. A minha homenagem assente nas gratíssimas memórias de um jardim de infância que frequentei quando o estado ainda não reconhecia a importância do pré-escolar, e também no modo exemplar e pleno de profissionalismo e carinho com que vi tratar alguns familiares meus no Lar para idosos que mantém na nossa terra. O irmão Francisco Caeiro continuará orgulhosamente a ser um dos da Casa.

COMPOTA DE LARANJA - 2010 deixará para sempre a saudade de José Saramago, o primeiro Nobel da Literatura em Português, do violoncelista dos Madredeus, Francisco Ribeiro, Mariana Rey Monteiro, a princesa herdeira do Teatro Português, e António Feio, rei supremo na arte de provocar gargalhadas, até quando as conversas eram uma treta.

E despeço-me ao som de Pedro Abrunhosa e de “Fazer o que ainda não foi feito”. É para mim a melhor canção nacional de 2010 e simultaneamente, um bom mote e um excelente propósito para um grande 2011.

domingo, 26 de dezembro de 2010

D. Catarina

É a mãe do meu melhor amigo e conheço-a desde sempre.
Vivia numa casa muito central na Praça da República, em Vila Viçosa, uma casa em que a porta só se fechava à hora de ir deitar. Empurrávamos a porta, chamávamos e entrávamos directamente para a cozinha que era o local onde quase sempre a encontrávamos a fazer as melhores empadas e os melhores bolos secos (as broas alentejanas) que já comi e que, estou certo, nunca mais comerei igualmente boas.
Vendia-as para fora e não chegavam para as encomendas, ou então vendia-as no café do marido, o Sr. Julião, que ficava mesmo ao virar da esquina.
Esta casa de porta aberta era no entanto, e sobretudo, um entreposto de afectos onde ninguém passava sem resistir à tentação de entrar. Era um dos meus locais preferidos para brincar.
Na casa havia um sótão onde sobejava espaço para dar asas à criatividade infantil, terreno ideal para todas as brincadeiras.
E a meio da tarde havia o sempre momento especial do lanche. Comíamos os bolos, as torradas fantásticas e um inesquecível Sumol que vinha directamente do café do Sr. Julião.
Era este o menu ideal de tantas e tantas tardes longas de verão.
Mestra de afectos, a D. Catarina tinha gestos que jamais esquecerei. Recordo-me de em 1981, na altura em que o filho, o Manuel, fazia a festa dos 15 anos e eu me encontrava hospitalizado em Évora devido a uma peritonite, me ter preparado umas dezenas de queques e bolos de arroz, os únicos que a minha dieta permitia, para que apesar de longe, eu pudesse partilhar da festa de aniversário do meu amigo. Fui o rei na enfermaria porque os ditos bolos eram tantos que quase davam para o hospital inteiro.
Também não raras vezes, encontrando-me eu a estudar em Lisboa, me preparava um kit de empadas para eu levar e que tinham sempre para mim, o sabor do melhor manjar, ou não fosse eu um “escravo” das cantinas universitárias.
No dia 24 de Dezembro passado acompanhei o Manuel ao Lar onde a sua doença exige que se encontre para a resgatarmos para um Natal em família.
Vinha feliz, vínhamos felizes, e foi curioso estarmos ali os três, as mesmas três pessoas que tantas tardes passaram juntas. Só que os papéis estavam agora invertidos: a cuidadora de antes é agora o alvo dos nossos cuidados, cumprindo-se assim o ciclo normal da vida.
E hoje, no dia em que se comemora a família, lembrei-me dela e deste momento que vivemos juntos, deste terno momento de família que mais uma vez partilharam comigo.
O amor que o meu amigo dedica à mãe e os cuidados maiores com que a trata, os quais eu pude observar naquele momento, são para mim a prova de que a família é, poderá e deverá sempre ser, uma escola de amor, onde se cultivam e alimentam todos os afectos. É o espaço onde todos vivemos para todos e por todos, porque o todo está sempre acima de nós próprios.
E eu senti-me imensamente feliz por poder estar ali com eles.
Com muito pouco para oferecer, limitei-me a dar um pouco de alegria ao momento, provocando alguns sorrisos à D. Catarina, sentindo-me impotente para dar mais do que estes sorrisos, migalhas tão insignificantes perante o tanto que ela ao longo de tanto tempo me ofereceu.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

É Natal!

Hoje é Natal.

Hoje é Natal e eu sei que voltarei sempre aqui para celebrar a vida, na festa da consoada com os que são e fazem a minha vida, os presentes, os ausentes e aqueles que tendo partido, o meu amor tornará eternos na minha memória.

Hoje é Natal e jamais deixarei de vir aqui aquecer-me na fogueira desta esperança renovada de um ano que se entrega a outro feito de expectativas e sonhos.

Hoje é Natal e preciso deste encontro comigo para que no presépio dos meus dias possa emergir a estrela que por cima das minhas riquezas e misérias, por cima da minha verdade, do nada me faça ver um caminho, o caminho.

Hoje é Natal. É vida. É dor feita alegria, tormenta tornada bonança, esperança arrancada ao desespero, é justiça, paz e tudo o que vale a pena.

Hoje é Natal e eu acredito que em mim como em Belém, nasceu e nascerá sempre Jesus.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Vinte anos



Chegaram hoje ao meu e-mail como presente de Natal e são as fotos de um jantar de curso realizado em Junho deste ano e destinado a celebrar os vinte anos da licenciatura em Ciências Farmacêuticas na Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa.
Por iniciativa de dois colegas que estão actualmente ligados à Faculdade como professores e através da montagem de uma rede de contactos via Internet, conseguimos juntar cerca de 70% dos colegas.
E foi emocionante.
Eu nunca mais tinha voltado á Faculdade e foi feliz a ideia de marcar este reencontro para o espaço onde nos tínhamos conhecido e onde durante cinco anos partilhámos uma infinidade de emoções. Voltámos aos nossos lugares no velho anfiteatro e ainda conseguimos estabelecer a planta com os locais onde preferencialmente nos sentávamos. E quanto mundo se nos abriu daqueles lugares.
Mas foi sobretudo muito bom rever as pessoas, os amigos que não via há vinte anos e que, confesso que em alguns casos, se os encontrasse noutro contexto, dificilmente os identificaria.
Não é que não estejamos todos melhores. É um facto que sim.
Elas estão todas mais louras, evitando por magia os cabelos brancos que nós homens não temos arte ou ousadia para disfarçar e que compõem o peso e o nosso novo volume, que na grande maioria dos casos duplicou.
A nós resta-nos pois o charme de quarentões (desculpem mas é a minha auto-estima a manifestar-se).
Foi uma noite de conversas e em que nos faltou o tempo para dizer em horas tudo aquilo que tínhamos vivido nos vinte anos em que andámos por caminhos tão diferentes.
Foi uma noite de encontros em que foi bom revê-los a todos, mas foi fantástico reavivar a memória dos meus tímidos 18 anos, das angústias e dos medos da minha chegada à cidade grande, tendo bem viva esta percepção de como a vida nos vai moldando passo a passo. Hoje é tudo tão diferente.
Mas confesso-vos que o que mais me impressionou foi o facto de a todos nos parecer quase impossível terem passado tantos anos. Quase como: “vou até ali viver vinte anos e já volto”.
Penso que isso aconteceu porque apesar do tempo e da distância, a vida preserva sempre o que é importante e nós somos todos importantes, somos todos pedaços da história uns dos outros, que nunca nada nem ninguém conseguirá apagar.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Geração “nem, nem…”

Um estudo publicado esta semana refere ser já superior a 300 mil, o número de jovens que em Portugal NEM estuda, NEM trabalha, o que levou já à sua designação como “Geração nem, nem”.
São números deveras preocupantes e com a agravante de terem aumentado muito num passado mais recente. Vai assim muito composto o pelotão dos jovens que relativamente ao futuro, a única atitude que lhes apraz ter é encolher os ombros.
Sabemos que desta inércia até à marginalidade e ao recurso a meios ilícitos de financiamento, é um passo muito curto e, talvez não seja por acaso, olharmos para o lado e vermos como a criminalidade aumenta por todo o país, não poupando já qualquer região. E já não adianta tentar tapar o sol com a peneira, atribuindo as responsabilidades deste aumento da criminalidade aos imigrantes que chegaram ao nosso país, este é um problema mais profundo e com raízes na nossa própria sociedade.
E quando tento perceber como é possível que um tão grande número de gente se disponha a este estatuto de “nem ofício” chego à conclusão de que só pode ser porque não lhes falta o “benefício”.
Os tempos do “nem ofício, nem benefício” já eram, e hoje o lema é outro: “há sempre um subsídio que espera por si”.
Em minha opinião, é o estado que patrocina esta situação não exigindo a todos os cidadãos o cumprimento dos deveres que sempre devem acompanhar os direitos.
Para uns o estado é padrasto mas para outros é um pai demasiado brando e excessivamente benevolente.
Incluo-me no grupo dos que cedo procurámos sustentar a nossa existência através do trabalho, orgulhando-nos de o fazermos cumprindo simultaneamente as nossas obrigações para com o estado através do pagamento dos impostos de forma rigorosa. E o estado tem-nos sempre respondido com a ingratidão de um padrasto.
Somos os professores que têm sido ofendidos na sua dignidade para justificar as incompetências de um sistema de educação gerado pelo próprio estado, somos a gente do interior que para se deslocar dentro dos seus próprios concelhos tem de pagar umas portagens ridículas, somos os pagadores de um serviço nacional de saúde que nos maltrata como utentes, somos os que suportamos os aumentos do IVA, do IRS, os que pagamos as taxas moderadoras, somos as vítimas dos PEC’s com independência de serem 1,2 ou 3, somos os que temos a perspectiva de uma reforma tão ínfima que nos deixe à mercê de qualquer Santa Casa da Misericórdia, somos os que pagamos os submarinos, os carros blindados e as cimeiras da NATO, somos os que financiamos os partidos e suportamos as campanhas eleitorais, somos os que pagamos as rotundas e suportamos o descontrolo financeiro das Câmaras Municipais, somos os que suportamos as obras nos estádios de futebol, e, pasme-se, soubemos esta semana, somos aqueles que o estado até quer ver despedir com mais facilidade.
E ao nosso lado estão os outros, os “nem nem” equilibrando com os seus benefícios os pratos de uma balança que mesmo com os nossos sacrifícios, não aguenta e está cada vez mais tombada e à mercê de todos, dos mercados, da Sra. Merkle ou do Sr. Sarkozi.
Para além da indignação, acho que todos sentimos que é hora de exigirmos uma nova postura e exigirmos um estado que premeie o trabalho e o bom exercício da cidadania.
Com os intérpretes actuais parece-me difícil porque o seu problema é exactamente não terem inscrito no seu código genético: exigência, trabalho e sentido de cidadania.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Compras, livros e dias felizes.

O Natal, por mais crise que se sinta, é também, inevitavelmente tempo de compras, e para mim, é o momento de cumprir este exercício fantástico que é descobrir aquilo que dentro das minhas posses, consiga expressar a quem gosto, todos os meus melhores e maiores sentimentos.
Com efeito surpresa, um cocktail de “pensei em ti”, “gosto muito de ti” e “não te dispenso no novo ano que vai entrar”.
O sítio onde mais gosto de fazer estas pesquisas, confesso-vos, é nas livrarias, pelas melhores razões do mundo e mais uma, o vício que me ficou da infância e juventude.
Passo a explicar.
Quis um dos acasos mais felizes da minha vida que a minha tia avó Maria Teodora, uma das heroínas da minha história, fosse empregada de limpeza na única livraria que existia em Vila Viçosa e me tivesse levado muitas vezes com ela para o trabalho, o que fez com que eu tivesse desenvolvido uma relação de profunda amizade com a proprietária da Livraria Escolar, a D. Joana Ruivo, outra das grandes heroínas da minha história.
E assim apoiado por estas duas mulheres que me ofereceram muito do que sou, comecei a ter o privilégio do convívio diário com os livros. A livraria começou a ser a minha segunda casa, o sítio para passar os meus tempos livres e as minhas férias.
A Vila Viçosa dos anos setenta não oferecia muitas ligações ao mundo mas a sorte ofereceu-me esta casa cheia de janelas com vistas rasgadas para os horizontes mais fantásticos.
E eu aproveitei esta oportunidade, sobretudo nas muitas ocasiões em que lia os livros que a bolsa de outra forma não me permitiria adquirir, não os abrindo demasiado para não deteriorar as lombadas, folheando-os com cuidado para não estragar e amarrotar as folhas e fixando a página onde a leitura tinha terminado, para poder continuar a leitura na vez seguinte.
Quantos livros, quantos heróis, quantas viagens, milhões de sonhos…
Como para além de mestres de vida, os livros também são agregadores de gente e inspiradores de conversas, de debate e troca de ideias, a quantas tertúlias fantásticas pude assistir, e o tanto que pude aprender ouvindo gente interessante a discutir o mundo numa altura de estações quentes por força da primavera memorável de 1974.
Compreenderão portanto o meu vício por livrarias e sobretudo este “síndrome de abstinência” que quase me impele a galgar para o outro lado do balcão, sempre pior nesta altura em que me recordo da fase em que já estudante em Lisboa, sempre voltava à Livraria todos os Natais, para aconselhar, falar, discutir e vender livros.
E tudo isto pela saudade.
A saudade das pessoas e sobretudo destas duas mulheres fantásticas de quem já falei e que sendo solteiras e sem quaisquer filhos, foram minhas mães porque em mim plantaram e fizeram crescer vida.
A saudade de um lugar que deixou de ser livraria para passar a ser salão de cabeleireiro, cumprindo assim a sina deste tempo em que os aspectos exteriores contam sempre mais do que o conteúdo.
As saudades de um tempo simples, moldado por gente simples, mas um tempo imensamente feliz, um tempo a que sempre chamarei “o meu tempo”.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O dia de Nossa Senhora

8 de Dezembro, com independência do ano, é e será sempre o dia maior de Vila Viçosa. Será sempre designado, conhecido e vivido por todos os calipolenses como “O dia de Nossa Senhora”.
Foi no Século XIV que o agora São Nuno de Santa Maria, então o guerreiro e patriota exemplar D. Nuno Álvares Pereira, fundou a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, no Castelo de Vila Viçosa.
Mais tarde, em 1646, um dos meus conterrâneos mais ilustres, D. João IV, coroado rei de Portugal seis anos antes, entregou a coroa que era símbolo da sua realeza, à Senhora da Conceição, fazendo com que mais nenhum monarca português a usasse na cabeça, e nomeando Nossa Senhora rainha e padroeira de Portugal.
A história mais uma vez e sempre a ser a raiz deste orgulho de ser Calipolense, tendo o privilégio único de sermos da terra da Padroeira de Portugal.
Quiseram as circunstâncias da vida que hoje, ao contrário do que acontece na maioria de todos os anos, eu passasse este dia longe de Vila Viçosa, alimentando-o das muitas e grandes memórias que guardo do passado.
E a primeira imagem que me ocorre é sempre a de uma igreja, que para além dos muitos forasteiros, se enche sobretudo com todos os Calipolenses, que ao longo do dia entram para rezar ou apenas para marcar presença. A Senhora da Conceição é sem dúvida o elemento comum mais relevante, o elo mais forte que une todos os Calipolenses, com independência de todas as características e critérios que usemos para identificar pessoas e grupos.
A igreja de Nossa Senhora da Conceição é o lugar onde todos, todo o ano mas sobretudo a 8 de Dezembro, sentimos como a nossa casa, o sítio de onde nunca poderemos nem queremos sair.
E depois há as memórias de âmbito mais pessoal, e talvez a mais forte seja a imagem da minha avó Natividade perante a inevitabilidade de ter de deixar Vila Viçosa no dia seguinte de madrugada e tendo tomado conhecimento desse facto apenas na véspera à noite, se recusar a deixar a nossa terra sem se ir despedir de Nossa Senhora, tendo-me levado como companhia até à porta da igreja então fechada, onde se ajoelhou e rezou a sua despedida.
Jamais se apagará da minha memória esta imagem de mim menino a ser testemunha de um acto de profunda fé, e sempre me acudirá como lembrança nas muitas vezes em que apesar das minhas curtas estadias em Vila Viçosa, sempre reservo um tempo para atravessar as portas do castelo e encontrar-me com Nossa Senhora, jurando-vos aqui que são verdadeiros momentos em que me encontro comigo mesmo e de onde saio sentindo-me melhor pessoa, ou pelo menos com vontade de o ser.Hoje, com a distância, pela cabeça desfilam as memórias, o coração bate ao ritmo da saudade e deste amor maior à Senhora da Conceição que os lábios inevitavelmente expressam: Ave Maria…

Contra-Informação

Ao fim de mais de uma década de presença nas nossas vidas, a RTP resolveu suspender o programa “Contra-Informação”.
Ao longo dos anos sempre me assumi como um entusiasta deste programa, apreciando, para além obviamente da componente caricatural dos bonecos, o facto de quase ao mesmo tempo da notícia, os seus autores conseguirem brincar, ter uma visão humorística de bom gosto, relativamente a todos os acontecimentos, positivos ou negativos, que se iam sucedendo em Portugal ou no mundo.
Por isso vou ter saudades e por isso tenho dificuldade em entender esta decisão, numa altura em que necessitamos todos de uma injecção de boa disposição, numa fase em que ansiamos todos pelo exorcizar de tantas desgraças com que diariamente nos deparamos.
Bem sei que não devia estranhar pois já sei que estes são tempos de informação a favor, tempos em que os políticos reagem muito mal à informação quando ela é do contra, e nem que seja apenas e só para divertir.
E pronto, lá voltaremos nós aquela velha e irritante máxima nacional de “muito riso, pouco siso” e a termos como companhia nos nossos serões televisivos mais uma telenovela de pobres e ricos ou de maus e bons, representada pelos modelos-actores que me fazem lembrar os teatrinhos do meu tempo de catequese, ou então algum concurso a puxar à cultura geral apresentado por algum acéfalo ou alguma galinha, que não fora por um auricular que lhe vomita as perguntas no eco do crânio, e seriam eles próprios a prova da ausência de qualquer cultura.
É esta a regra dos políticos e é esta sobretudo a lei do mercado dos detergentes, refrigerantes e demais produtos de grande consumo, que com os seus investimentos em publicidade conseguem moldar a programação das televisões. E se isto se entende nos canais privados, no canal público é inadmissível.Da minha parte continuarei a ter um livro ou um DVD sempre à mão para o momento em que a televisão me convidar apenas a desligar. Continuarei no fundo a ser do… contra.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

União Ibérica?

370 anos e um dia depois do 1º de Dezembro mais famoso da nossa história, a FIFA, o organismo que rege o futebol a nível mundial, votou contra a união ibérica, feita na perspectiva de trazer para a “jangada de pedra”, o campeonato das nações, a prova maior do futebol mundial.
Quão conjurados, os senhores da FIFA atiraram pela janela os sonhos dos Vasconcelos do século XXI, que hoje têm nomes como Madaíl ou Sócrates, escolhendo a longínqua Rússia onde hoje proliferam milhões e milionários sempre empenhados em “investir” nesta arte do pontapé na bola.
Apesar de não me ser indiferente a perspectiva de uma meia-final de um campeonato do mundo na minha “catedral”, manda o bom senso que me congratule com esta decisão, considerando até ser ultrajante, esta intenção demonstrada pelo estado, de investir milhões numa prova futebolística, quando tantos milhões faltam para equilibrar as nossas contas e quando a milhões de portugueses são pedidos sacrifícios com real impacto na sua qualidade de vida.
O Euro 2004 aconteceu há muito pouco tempo e temos portanto bem presente que apesar dos dias felizes que então vivemos e que quase colocaram no topo a nossa auto-estima como nação, acarretou o pagamento de uma factura demasiado alta, incompreensivelmente alta.
É inadmissível que um país que tem hospitais e centros de saúde em instalações miseráveis e a prestar serviços miseráveis, tenha gasto milhões a construir estádios fabulosos para acolher dois ou três jogos em 2004, estando agora vazios e sem utilização, implicando em alguns casos um acréscimo de custos para as autarquias que estudam até a possibilidade de proceder à sua implosão, como é o caso de Aveiro.
Mas como continuamos a não aprender com os erros, o Sr. Sócrates e o Sr. Zapatero, esquecendo a sua actual cotação na bolsa de líderes mundiais, que as agências de rating puxaram para baixo na inversa proporção das taxas de juro da divida pública, foram bater à porta de um banquete de onde foram corridos como andrajosos mendigos a tentar entrar na festa de um qualquer palácio real.
E assim saíram pelo tapete vermelho por onde mais tarde entrou o Sr. Putin em gesto de agradecimento à FIFA, por certo comentando um para o outro:
- Teria sido porreiro, pá!

sábado, 27 de novembro de 2010

Juan e Angeles

Conheci-os em 2001, são os pais do meu particular e querido amigo Juan Blas Delgado.
Celebrámos o nosso primeiro encontro com uma visita a Mafra, impulsionados pela vontade de ver de perto o Convento de cujo Memorial, Saramago foi autor maior.
Dali fomos até Sintra, fazendo o percurso inverso das grandes pedras, verdadeiras heroínas do livro que descreve os amores de Baltasar e Blimunda.
Acabámos a tarde aconchegados a um chá em Seteais, falando ali, à sombra da Pena e do Castelo dos Mouros, e avistando ao longe o imenso Atlântico, de sete ais, de sete suspiros, de lendas de moiras encantadas e de amores.
Sintra no seu melhor. Como para Byron ou Eça, Sintra também foi para nós nesse fim de tarde de primavera, o mote para falar de amor.
Desde então foram incontáveis os momentos que passei com o Juan e a Angeles, sobretudo na sua casa acolhedora na pequena terra mineira de Riotinto, bem no meio da Serra de Huelva.
E a recordação mais viva desses encontros, será sempre a imagem de uma felicidade perfeita vivida a dois, felicidade cujos olhares e os gestos, sempre mais verdadeiros e fiéis do que as palavras, denunciavam a cada instante.
O Juan, poeta da Serra, das terras e dos rios que o cobre transforma em tintos, partiu em Maio último, ficando imortalizado nos seus poemas e nas memórias indeléveis que gravou em todos nós.
A Angeles, soube-o ontem, está desde quinta-feira internada na Unidade de Cuidados Intensivos de um hospital após ter sofrido um enfarte do miocárdio.
Quando se procuraram os factores de risco, a razão para o enfarte, só se encontrou um: a tristeza.
É o seu coração, esse órgão que universalmente gostamos de associar ao amor, a deixar-se levar pelas ondas do mar da saudade e do vazio criado pela ausência do seu eterno amor.
E o amor é mesmo isto. É sermos um e nunca encontrar em mais nada ou ninguém, compensação para a perda da outra parte de nós.Por mim, voltarei mais vezes a Sintra e sei que para sempre encontrarei por entre as brumas do Monte da Lua e as minhas memórias, a lembrança de um grande amor: Juan e Angeles.

domingo, 21 de novembro de 2010

Viagem a Portugal.


A revista Pública publica hoje uma interessante reportagem sobre a visita a Portugal de um grupo de amigos, todos jornalistas, que se conheceram quando algures no seu percurso profissional se cruzaram em Tóquio como correspondentes de importantes meios ou agências de comunicação: La Stampa, France Press, BBC, CBS News e Associated Press.
Todos os anos se juntam para conhecer um país e 2010 foi o ano dedicado a Portugal, tendo escolhido como guias da sua viagem Saramago, Eça, Byron, Tabucchi, Beckford e Soror Mariana Alcoforado. Um luxo, digo eu.
Inevitavelmente chegaram a Vila Viçosa, fazendo menção da nossa terra nos seus relatos de viagem, não lhe poupando elogios, nem ao Alentejo em geral.
O inglês William Horsley não deixa de referir também o facto de o hábito tão british do chá das cinco, ter sido instituído por uma calipolense ilustre, D. Catarina de Bragança.
Às vezes é necessário que venham assim os forasteiros para nos ensinar a estimar e a apreciar ainda mais o que temos e que deve ser motivo de orgulho.
Para ilustrar este texto escolhi uma foto tirada pelo meu amigo e fotógrafo António Rosendo quando me visitou em 8 de Dezembro de 2009. De entre tudo o que apreciou e fotografou imaginem que ficou deliciado e fez uma colecção fantástica de fotos sobre os medronheiros do castelo de Vila Viçosa.
A nenhum calipolense nos passaria pela cabeça que os medronheiros do nosso castelo, ainda por cima responsáveis por alguns desconfortos somáticos por excesso de consumo em algum momento da nossa infância, pudessem ser o alvo preferencial de um fotógrafo profissional.
Mas foram.
E casei aqui a reportagem da Pública com este trabalho fotográfico para provar como a nossa terra está repleta de tesouros, sendo ela própria um dos tesouros maiores do nosso país.
Sei que sou suspeito ao fazer estas afirmações e peço-vos portanto desculpa pela minha falta de isenção, mas é impossível conter este orgulho de ser Calipolense.
Pode haver excepções, mas no geral, a nossa terra é sempre nossa mãe.

Até que enfim!

O Papa Bento XVI tornou-se o primeiro Papa a “tolerar” o uso do preservativo, nas situações em que esteja em risco a saúde, evitando o contágio de certas doenças sexualmente transmissíveis nomeadamente o VIH-SIDA.
Saúdo a decisão mas não posso deixar de lamentar o tempo que demorou até chegarmos aqui.O tempo aqui representou muitas vidas e muito sofrimento.

sábado, 20 de novembro de 2010

A vertigem da mudança.

As notícias de hoje são dominadas claramente por dois acontecimentos: a cimeira da NATO que decorre em Lisboa e o consistório convocado pelo Papa Bento XVI reunindo no Vaticano todos os Cardeais da Igreja Católica.
Relativamente à NATO, fala-se de uma cimeira histórica, uma cimeira que vai fazer aprovar um novo código de conduta da aliança, adequando-a às realidades dos novos tempos, nomeadamente ao perigo que o terrorismo hoje representa. É a aliança atlântica verdadeiramente a digerir o 11 de Setembro de 2001 e o ataque ao World Trade Center de Nova Iorque.
Longe vão os tempos em que a NATO agrupava as forças contrárias ao bloco de leste, ao Pacto de Varsóvia, sendo um dos actores no palco da chamada Guerra Fria. Os “inimigos” de então estão hoje sentados à mesa desta cimeira a discutir a nova realidade do mundo.
No caso da Igreja Católica, o Papa convida os Cardeais a reflectir sobre os novos tempos e a fazer um exame e uma reflexão sobre os últimos tempos da Igreja, nomeadamente sobre o escândalo da pedofilia que atingiu vários sectores desta mesma Igreja.
Há algum tempo atrás era impensável assistir a este exercício de auto-crítica, este exame de consciência assumido pela Igreja.
O que há em comum nestes dois eventos de hoje?
Em minha opinião há um mundo a mudar a uma velocidade assinalável e os players deste mesmo mundo, a tentar acompanhar esse ritmo vertiginoso ditado pelos novos tempos.
Oxalá que todos eles, e sobretudo cada um de nós, consiga fazer rápido essas reflexões e consiga fazer com que os novos tempos sejam efectivamente tempos novos, tempos de uma nova esperança.
Está difícil! Até eu, optimista por herança genética, o reconheço.

sábado, 13 de novembro de 2010

Haverá sempre estrelas no céu.

Para comemorar os 30 anos de carreira do Rui Veloso, a rádio Antena 1, minha habitual companhia nas viagens pela nossa terra, tem salpicado as suas emissões com uma rubrica a que chamou “Rui Veloso integral”, onde algumas figuras públicas falam do artista e da sua obra ao longo destes anos, culminando sempre com a apresentação de uma canção de algum dos muitos álbuns que foram nascendo da inspiração da dupla Rui Veloso / Carlos Tê.
Sem que alguma vez me tivesse identificado com um fã incondicional do artista, reviver estas músicas tem sido uma experiência interessante que me tem devolvido a lugares, a tempos e a pessoas que foram fazendo e sendo a minha história ao longo destes 30 anos, exactamente 68% da minha existência.
Tem sido pois um reencontro muito agradável com parte da minha “banda sonora”.
O já clássico “Chico Fininho” deu o mote para o Rock Português que animava as minhas festas improvisadas nas salas de aula da velha Escola Secundária, quando arredávamos as mesas e as cadeiras para abrir espaço para a dança, ou quando me entretinha colado à televisão no “Passeio dos Alegres” ou me prendia à telefonia na “Febre de Sábado de Manhã”, marcando os anos 80.
Ainda pelos 80 saboreei o “Auto da Pimenta” numa forma fantástica de sentir os descobrimentos portugueses. Que bela companhia, quando eu me entretinha a descobrir os segredos da farmácia e das infindáveis químicas orgânicas.
Mais tarde, no início dos 90, já havia desgostos de amor que me permitiam entender e sobretudo sentir, “Não há estrelas no céu” ou a “Paixão segundo Nicolau da Viola”, obras de arte do mítico álbum “Mingos e Samurais”, que me fez companhia em muitas noites de vigília, quando recém-farmacêutico, garantia o serviço nocturno da Farmácia Universal, socorrendo Lisboa e as suas doenças e emergências através de um postigo.
Associo também o Rui Veloso a dois dos melhores e mais memoráveis concertos a que me foi permitido assistir: no Coliseu dos Recreios onde o Rui Veloso acompanhou BB King, e também no antigo Estádio de Alvalade, quando fez a primeira parte do concerto de Paul Simon, e empolgou mais a plateia do que o próprio Paul Simon.
E para terminar, porque vai frio e melancólico este Outono, deixo-vos uma música de Rui Veloso como sugestão. Não é das mais conhecidas mas é por certo das minhas favoritas: “As regras da sensatez”, disponível no YouTube.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Reencontro

Quis a vida, e em minha opinião, a sorte, que recentemente e de forma inesperada, me cruzasse ao fim de 26 anos de ausência de total contacto, com alguém que em determinado momento da minha juventude tinha vivido comigo uma aventura de vivência e de partilha Católica, verdadeira tatuagem de virtudes no carácter, que jamais, por muito tempo que passe, poderei apagar da minha existência: os Convívios Fraternos.
A partida foi dada no mesmo local e ao mesmo tempo, a chegada coincidiu também no espaço e no tempo, mas quase nada há em comum nos trilhos que cada um percorreu para chegar ao reencontro.
Para além das diferenças que o espelho todos os dias nos reflecte: mais ruga ou menos ruga, mais cabelo ou menos cabelo; após estes anos, verificamos que falta tempo para contar todas as histórias e tudo o que de marcante aconteceu, e sobram assuntos e vontade de os partilhar.
E em tudo o que mais me impressiona neste reencontro é que tudo pode mudar, os contornos podem ser todos imensamente diferentes, mas os valores de carácter, quando existem são eternos como os diamantes.
As estradas foram diferentes mas os motores que nos fizeram avançar e os GPS’s que nos guiaram, foram sempre os mesmos. Foram e serão sempre essas marcas de personalidade coincidentes na essência que nos unirão na mais profunda amizade.
Vinte e seis anos foi tempo demasiado para estar longe e por isso este desejo firme de apanhar esta boleia da vida e continuar assim sempre unidos, todos os caminhos que houver ainda a descobrir e a percorrer.
Porque nesta fase do percurso nos pode faltar alento e os amigos nunca são demais, nunca são dispensáveis.
Não importa agora quem nos juntou de novo. Eu comecei por dizer que foi a vida, mas pode ter sido Deus...
E qual a diferença?
Não existe.
São a mesma coisa.
O segredo na nossa caminhada foi mesmo esse: Nunca separar Deus da vida!

Vila Viçosa – Pintura a Aguarela


Tive ontem o privilégio de estar presente na inauguração da exposição colectiva que reúne trabalhos de três artistas, no Cine-Teatro Florbela Espanca em Vila Viçosa: Ana Bastos, Vicente Sardinha e o meu particular amigo José Barreiros.
Dou os parabéns aos artistas pela generalidade das obras expostas, onde está bem visível a marca de Vila Viçosa e dos seus inconfundíveis recantos, a que a cada um de nós, Calipolenses, nos une sempre uma história ou um acontecimento.Continuem a dar expressão à vossa arte porque nós agradecemos.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

E se...

A recente discussão do Orçamento de Estado para 2011 apanhou-me a ler a biografia de Adelino Amaro da Costa, Ministro da Defesa no governo de Francisco Sá Carneiro e, juntamente com ele, uma das vítimas de Camarate.
Ao longo das páginas de leitura fácil, descobrimos um homem brilhante, dotado de uma inteligência invulgar, de uma nobreza de carácter e um sentido de dever e patriotismo assinaláveis.
Em suma, um homem que em tudo contrasta com os protagonistas actuais da política, a maioria dos quais nos ofereceu um espectáculo degradante em directo da Assembleia da República, para desprestigio de todos e do país que somos.
Inevitavelmente dei por mim a cair naquele exercício “sebastianista” tão recorrente na História de Portugal e que é o “E se…”.
E se D. Sebastião não tivesse morrido em Alcázer Quibir, e se D. Teodósio, o príncipe educado pelo Padre António Vieira, não tivesse morrido tão jovem e tivesse podido suceder a D. João IV, e se D. Pedro V não tivesse morrido tão cedo, e se Sá Carneiro não tivesse morrido em Camarate, e se…
Não sou muito dado a saudosismos e sou um optimista por natureza, mas o contraste do que lia e do que assistia era tão gritante, que não resisti. Não tendo resistido também a pensar que confundir uns e outros é o mesmo que confundir a Estrada da Beira com a beira da estrada.

domingo, 17 de outubro de 2010

Farmácias da Europa / Farmácia Monte


Ao entrar nas instalações dos Serviços Farmacêuticos do Hospital Garcia de Orta, em Almada, deparei-me com um interessante cartaz denominado “Pharmacies of Europe”, não datado, mas pelas informações que recolhi, com pelo menos 10 anos.
São apresentadas várias farmácias, num conjunto de imagens que ilustram a história da farmácia na Europa ao longo dos séculos, assim como a expressão do gosto e das diferentes culturas, evidenciada na diversidade de soluções arquitectónicas.
Juntamente com farmácias de por exemplo Basileia ou Munique, há uma farmácia Portuguesa, nada mais nem menos que a Farmácia Monte, de Vila Viçosa.
Com o meu orgulho de Calipolense, reforçado com o meu orgulho de farmacêutico, não resisti a tirar uma foto com o telemóvel e a publicar este texto no Pomar.
Afinal de entre tantas pérolas que a nossa terra encerra, esta é mais uma de valor inquestionável e inigualável, que a família de proprietários, os descendentes do fundador, têm sabido preservar, o que nos tempos que correm é facto digno de registo.
A foto não tem grande qualidade mas serve perfeitamente para bilhete de uma viagem ao passado, avivando as memórias de um local onde tantas vezes entrei e que sempre me deslumbrou pela magia dos frascos e dos nomes impossíveis de pronunciar dos bem alinhados e impecáveis rótulos, assim pelas estátuas de homens famosos na área da farmácia, os quais anos mais tarde, já nos bancos da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, conheci e aprendi a respeitar.
E porque as memórias também têm cheiros e sabores. A Farmácia Monte terá sempre para mim o cheiro dos sabonetes ACH Brito dispostos em enormes colunas de vidro, e o sabor do xarope antitússico preparado pelos proprietários segundo uma receita do Dr. Jardim, e que tantas vezes fui comprar avulso em frascos de vidro.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

13 de Outubro / O milagre do subSOLo

A ninguém ficou indiferente a situação ocorrida numa mina algures no Chile, que resultou num grupo de 33 operários mineiros soterrados a cerca de 700 metros de profundidade.
Desde o dia 6 de Agosto que temos acompanhado diariamente os esforços para conseguir chegar aos mineiros, a construção de um longo túnel que os permita resgatar em segurança.
E hoje ao longo do dia temos assistido, um a um, à libertação destes presos da má sorte e de um destino que os transportou para uma profissão dura, de alto risco e tantas vezes exercida em péssimas condições de segurança.
Quando escrevo este texto acabei de ver a saída do 23º mineiro.
À parte a exploração mediática e a já costumeira colagem política, o dia de hoje ficará assinalado nos anais da história como um dia do qual o mundo se deve e pode orgulhar.
Reuniram-se esforços, meios técnicos e humanos, inúmeras vontades, quebraram-se fronteiras e ideologias, para cumprir uma missão nobre: salvar vidas.
Coisa rara num mundo que geralmente se associa apenas e só para fazer a guerra.
Está de parabéns o Chile, está de parabéns a humanidade.

sábado, 9 de outubro de 2010

O Zé, o Pedro, o Paulo, o Xico e o Tio Jerónimo

O jornal Sol de ontem, tal como outros meios de comunicação, titula que os partidos e os respectivos lideres, dão por adquirido o chumbo do orçamento de estado para 2011 e preparam-se já para eleições.
Foi posta de lado toda e qualquer hipótese de diálogo, de negociação, e assume-se a ruptura que trará por certo o agravamento da nossa já muito débil situação financeira.
É a irresponsabilidade a ser levado ao limite.
A situação exigia a maturidade de partir do objectivo assumido como compromisso por todos, fazendo cedências de parte a parte. As pessoas, todos os Portugueses exigiam essa maturidade.
Mas olhando para os intérpretes desta “novela” de cariz rasca em que se tornou o país, já nada nos surpreende.
O terreiro da luta política tem o estilo e o conteúdo das guerrilhas e das eleições para a direcção de uma associação de estudantes de qualquer escola secundária, onde impera a maturidade própria da adolescência. Os actores são maus, sem talento, preocupados sobretudo com a imagem, bem ao estilo “Morangos com Açúcar”.
Ninguém se preocupa em construir algo de positivo, esta gente nunca construiu nada, apenas se especializou em destruir.
Toda a gente quer o poder mas ninguém quer governar e assumir as dores dessa mesma governação. Onde todos estão bem é em campanha eleitoral, nos cartazes coloridos, nas feiras a distribuir canetas e aventais, nos discursos inflamados, etc.
A fazer algo de construtivo? Não sabem nem querem. Não cresceram. Não passaram da adolescência.
Venham então eleições.
Se aumentamos o número de desempregados? Se há pessoas a quem faltam os bens essenciais? Se há um deficit no acesso aos cuidados de saúde? Isso não interessa mesmo nada.
Os problemas do país são graves e nós não temos gente capaz de os enfrentar.
Numa analogia futebolística, temos pela frente uma equipa de craques, temos de os vencer, e a equipa que temos para jogar e nos defender, é uma equipa de juniores que não tem pernas para estar à altura das responsabilidades do jogo, do campeonato.
Quem vai perder? É claro que seremos todos nós.
Quem vai ganhar as eleições? Eu já sei. É a abstenção.
E quando forem confrontados com estes resultados, não assobiem para o lado. Por favor entendam que as pessoas desistiram porque já não vos suportam, porque estão cansadas de poder escolher apenas entre o mau e o péssimo.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Auto de Fé / Acto de Fé

Na passada terça-feira, num dos inúmeros programas existentes nas nossas televisões, que colocam um jornalista desportivo à conversa com 3 “ilustres” adeptos, cada um representando um dos designados três clubes grandes, o adepto do Futebol Clube do Porto abandonou o estúdio quando confrontado com os comentários do adepto do Benfica sobre as últimas escutas telefónicas envolvendo o presidente do clube do norte.
A justificação foi a recusa em participar num “auto de fé”.
Estranha atitude. Que incoerência e como é curta a memória.
Quem é que ao longo dos últimos anos tem sido o grande “inquisidor” no futebol nacional queimando em autos de fé, tudo e todos os que se atravessam no caminho de um percurso cheio de vitórias que não são por certo fruto apenas do mérito desportivo?
Quem é que ao longo dos tempos tem fomentado essa ridícula guerra norte sul, de querer ver Lisboa a arder, num país com unidade cultural, política e social, com diferenças é óbvio, mas com as fronteiras definidas há mais tempo de qualquer outra nação na Europa?
Quem tem sido o perseguidor crónico do Benfica, o inventor da incendiada expressão “campeonato dos túneis”?
Acho que as respostas são óbvias e coincidem na mesma pessoa, aquele que de inquisidor-mor se quer fazer passar agora por vítima.
E o que espanta, é que pessoas que até parecem demonstrar alguma honestidade intelectual se disponibilizem para fazer a sua defesa.
Que Acto de Fé!

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Viva a República!

Comemoramos hoje o 100º aniversário da implantação da república em Portugal.
Embora respeitando as opiniões e as posições dos monárquicos, sou no meu intimo convictamente republicano e tenho por isso motivos para hoje celebrar esta data em que o regime republicano veio substituir uma monarquia que há muito se divorciara do país real e que com frenéticas mudanças de governo, demonstrava não ter já projectos ou soluções para o país.
Também não foi fácil o percurso da república mas com a monarquia em Portugal, não acredito sinceramente que estes últimos cem anos pudessem ter sido melhores.
Apesar de todos os pecados e defeitos do regime, sinto-me confortável por de cinco em cinco anos, ser chamado a manifestar a minha opinião relativamente à primeira figura do estado, e muito dificilmente poderia aceitar que essa liderança fosse entregue por herança a alguém, independentemente da minha vontade e da dos outros cidadãos do meu país.
Acredito pois na república e acredito que ela carrega os princípios que nos farão crescer como nação: liberdade, respeito pela pessoa humana e pelas diferenças, igualdade de oportunidades, etc.
Acredito firmemente que mais importante que a genealogia, é o mérito que deverá ser o principal critério na avaliação de alguém.
Mas há ainda muito a fazer para que este segundo século da república seja marcante e positivo para todos.
Assim haja vontade.
Viva a república!

sábado, 2 de outubro de 2010

José Sócrates – Nova colecção Outono / Inverno 2010

Na passada semana, veio o Senhor Primeiro-Ministro de Portugal, em disputa de audiências com um jogo do Benfica para a Liga dos Campeões da UEFA, dar uma conferência de imprensa em que apresentou um conjunto de medidas de austeridade, medidas muito fortes e penalizadoras para todos nós, digo eu.
Há cerca de um ano atrás, quando se preparava para ganhar as eleições, este mesmo senhor, transmitiu, em coro com a comunicação social que o venera e lhe faz eco, a ideia de que Portugal era o melhor sitio do mundo para se viver, tendo todos eles, o Sr. Sócrates e a comunicação social, ridicularizado a então líder do PSD, Manuela Ferreira Leite, alcunhando-a de mensageira da desgraça, pelo facto de ela não prometer o paraíso aos eleitores, prometendo apenas rigor e verdade na gestão do país, que caminhava para uma situação financeira muito grave.
Em Portugal, falar verdade e ser verdadeiro não dá votos.
Continuamos a acreditar e a deixarmo-nos ir atrás do canto do cisne, continuando a assumir a definição de política como a arte de melhor mentir.
Ou então, tal como há tempos referiu o Ricardo Araújo Pereira e esta seja talvez a única justificação que me dá alguma esperança no povo que somos, esqueceram-se de avisar o povo que as regras quando há eleições são diferentes das regras das expulsões na casa do Big Brother.
Estou pessoalmente cansado do Sr. Sócrates e de tudo o que ele representa, num quadro de valores que está nos antípodas da honestidade.
Esta nova colecção em tons negros que nos reservou para o Outono / Inverno de 2010, só cimenta ainda mais a vontade de o ver desaparecer definitivamente da passerelle da política.
Porque não usar o Magalhães para em conjunto com a Tia Alçada fazer Uma aventura no Facebook e gerir uma quinta virtual? Talvez assim aprenda quanto nos custa a todos comprar um quilo de batatas.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O estado do Estado Social

Motivados pela proposta de revisão constitucional do Partido Social Democrata, em minha opinião inoportuna porque muito longe das prioridades do país no momento presente, temos assistido às mais variadas intervenções de profissionais da política, na defesa do Estado Social em geral, e do Serviço Nacional de Saúde em particular.
Defendem que o estado é que deve garantir os cuidados básicos de saúde à generalidade da população.
Estou totalmente de acordo com esta posição, não podendo porém rejeitar a ideia de haver pessoas que pretendam, tendo meios para isso, socorrer-se de sistemas privados que assegurem esses mesmos cuidados.
Aliás mais do que concordar, exijo que o estado cuide de forma eficaz da saúde da generalidade dos cidadãos, assentando esta exigência na legitimidade de quem paga os seus impostos, de quem colabora com uma elevada percentagem do seu salário, para a manutenção e melhoria do Estado Social.
É pois com perplexidade que mais uma vez assisto à manifestação da mais pura hipocrisia que caracteriza os nossos políticos, assistindo a uma revolução no sistema de comparticipação de medicamentos, a qual obriga a que os mais desfavorecidos ou os portadores de doenças crónicas graves, tenham de suportar uma elevada percentagem dos seus tratamentos.
Afinal, os defensores do estado social são os seus assassinos.
Sem escrúpulos, para tapar a incompetência e todos os erros de má gestão, escolhe-se mais uma vez a via mais fácil, e que é solicitar ao cidadão que abra ainda mais os cordões de uma bolsa que já está vazia.
As regras assumidas no inicio do ano aquando da feitura do orçamento, são assim alteradas a meio do jogo, por incompetência dos jogadores.
Se me permitem a comparação seria o mesmo que parar um jogo de futebol 15 minutos antes do seu final para por exemplo montar balizas mais largas e permitir aos avançados que marquem golos.
No meio de tudo isto, só me assiste uma questão: até onde poderá chegar a falta de vergonha?

domingo, 12 de setembro de 2010

Festas dos Capuchos / Vila Viçosa

Numa tradição que se repete a cada ano no segundo fim-de-semana de Setembro, estamos a viver as Festas dos Capuchos em Vila Viçosa.
O largo fronteiro ao antigo convento dos frades franciscanos, um pouco afastado do centro urbano da vila, transforma-se numa sala de visitas para onde todos convergimos, Calipolenses ou não, para podermos conviver num verdadeiro espírito de família.
Eu, tal como muitos dos que amando esta terra, o fazemos à distância, multiplicando este amor pelo peso da infinita saudade, não falto nunca a esta chamada à “reunião de família”.
Aqui, sob a protecção da Senhora da Piedade, do Senhor dos Aflitos, de S. Luís e S. Tiago (sim, porque em Vila Viçosa cada largo tem sempre três igrejas), encontramos os amigos que não se esquecem nunca mas que se vêem de ano a ano, e contamos, partilhamos, as incidências e os acontecimentos de mais uma etapa de vida que, de Setembro a Setembro, acabámos de cumprir.
Falamos das nossas vidas, e projectamos e partilhamos o futuro.
Aqui, temos também o privilégio de reencontrar com a ajuda da memória que nunca se desvanece, todos aqueles que nos anos passados viveram connosco as festas da nossa história, e que hoje só conseguem estar aqui pela força com que exactamente se impõem à nossa memória.
As tômbolas, o lago da pesca ao pato, a praça de touros, o coreto e as fantásticas bandas filarmónicas, o fogo de artificio, a barraca das farturas, a fonte, o local antes destinado aos bailes, etc., são espaços que nos transportam sempre para os inesquecíveis momentos que aqui vivemos antes, nestes dias que insistimos sempre em tornar especiais.
Fico imensamente feliz por ver que esta tradição das Festas dos Capuchos está mais viva do que nunca, e que são as novas gerações que reforçam essa vontade de não as apagar do calendário dos nossos afectos.
Sob o patrocínio da autarquia, o programa das festas foi sendo actualizado, para que pudesse ir de encontro aos gostos de todos os que fazemos o momento presente. Congratulo-me com esse esforço que reconheço está a ser plenamente conseguido.
E no futuro voltarei sempre aqui onde sou feliz.
Em cada ano que passar, guardarei sempre na memória os ecos do último morteiro, numa lembrança que me fará pedir ao tempo que acelere até estes dias em que passamos para lá do castelo, guiados pela grandeza do arraial que traduz em luz a alegria que nos transborda na alma.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Portugal a arder

A cena repete-se todos os anos.
Do programa de férias, faz parte esta preocupação com o país que arde, com as pessoas cuja vida se encontra em risco, com a floresta que desaparece, com os bens pessoais e bens públicos que são devastados, etc.
Passam os anos, sucedem-se os governos, as câmaras municipais, e nada, mesmo nada, muda.
Recordo-me do ano de 2003. Durante o mês de Agosto, Portugal ardeu de uma forma brutal, era então primeiro-ministro o actual presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso.
As consequências dos incêndios foram tremendas.
Passaram 7 anos. Os protagonistas de hoje são a oposição da altura mas os argumentos são os mesmos.
Em Portugal é sempre assim. Mudam os intérpretes mas a canção é sempre a mesma. E para mal dos nossos pecados, a canção de sempre é um triste fado.
Porque não se obriga os proprietários dos terrenos, a começar pelo estado e pelas suas instituições, a limpar as matas e os terrenos à sua responsabilidade? Porque não se penaliza seriamente quem pratica actos de risco, como por exemplo o lançamento de foguetes? Porque não se colocam os meios do estado, os meios militares por exemplo, a combater os incêndios, e em vez disso, se contratam a peso de ouro empresas privadas para combater incêndios, com base no princípio de que quanto mais arde mais ganham?
Enfim, há muitas questões que ficarão sempre por responder.Daqui a uns tempos, quando terminar a época de incêndios, os presidentes de câmara estarão preocupados com os locais onde irão construir as próximas rotundas, os ministros estarão preocupados com a campanha eleitoral para a presidência da república, e só se recordarão dos fogos, as pessoas em quem eles deixaram marcas e, sobretudo, as famílias daqueles homens e mulheres de alma grande, justamente chamados de “soldados da paz”, que continuam a pagar com o seu voluntarismo e abnegação, o preço da incompetência de quem supostamente nos governa.

terça-feira, 20 de julho de 2010

A memória dos heróis

Com o objectivo de acompanhar uma colega no momento do funeral de um seu familiar, desloquei-me hoje ao cemitério do Alto de S. João, em Lisboa. Mais propriamente ao talhão dos combatentes, um espaço próprio onde repousam os restos mortais daqueles que em alturas diferentes da nossa história, combateram pelos ideais da pátria lusitana.
Fiquei chocado com o estado de degradação e de total abandono deste espaço, numa dimensão que não tenho dúvidas em classificar como sendo de manifesta falta de respeito.
Há ervas daninhas por todo o lado, as placas metálicas enferrujadas, lixo acumulado, terra arrastada pelas chuvas e acumulada em todo o espaço, etc.
Não interessa se as guerras que os tornaram heróis foram mais ou menos aceitáveis e compreendidas, o que importa é que no seu tempo, estes homens levaram ao limite o seu amor à pátria Portugal.
Não interessa se estas pessoas têm ou não têm família. É ao estado que compete tratar dos seus heróis. O estado que é generoso a oferecer subsídios de inserção e de desemprego, tinha toda a legitimidade para recrutar de entre esses beneficiários, mão-de-obra para as tarefas de manutenção destes espaços, evitando simultaneamente a instituída cultura do ócio patrocinado que impera na nossa terra.
Ao lado de alguns colegas estrangeiros que me acompanhavam, e perante tudo o que me era dado ver, senti vergonha pelo país em que nos tornámos.
Perdemos a memória.
E um país sem memória é um país que não gosta de si próprio e que se autodestrói, matando a essência da sua génese.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Ilha do Pico


No mar, a terra se fez ao alto,
P’ra dizer a toda a gente,
Por um Pico, rei de basalto:
“Está aqui Portugal presente”.

Francisco Caeiro
Horta / Faial, 13 de Julho de 2010

domingo, 11 de julho de 2010

Para sempre, ROSA!

Todos nós crescemos beneficiando da inspiração de “ídolos” que podem ser oriundos da área do desporto, da música, do cinema, etc.
No campo muitas vezes apenas dos sonhos, são as pessoas que nos dão asas.
A única pessoa de quem eu posso dizer verdadeiramente que sou fã, é sem dúvida a Rosa Mota.
Num tempo em que Portugal apenas competia para estar presente, foi a pessoa que ensinou à minha geração, que é possível estar presente e ser o melhor, vencer.
Jamais esquecerei as tardes e as madrugadas em que acompanhei esta mulher franzina e cheia de garra, a deixar adversárias para trás e a galgar quilómetros só para ter o prazer de ver subir no lugar mais alto do pódio, a bandeira de Portugal.
Recordo-me de uma maratona em 1987 em Roma, nos campeonatos do mundo, em que a Rosa deu uma volta solitária pela Cidade Eterna e após cortar a meta, cansou-se de esperar pela adversária que chegou para a prata.
E aquela madrugada em Seul em que a Rosa fez quilómetros e quilómetros com uma alemã e uma australiana como sombras, para perto da meta acelerar e provar que era a melhor.
Inesquecível.
Tenho a certeza de que a Rosa não ganhou milhões, o que a movia realmente era vencer por Portugal. Ainda continua a ser nas vitórias e não nos ordenados, que se definem os campeões.
A Rosa reclamava antes das provas, pedindo sempre melhores condições para trabalhar. Nunca reclamava depois para justificar derrotas.
Desconheço a família da Rosa, os contornos da sua vida privada. Isso não interessa mesmo nada para este “campeonato”.
A Rosa era simples e genuína, e nessa simplicidade assentou sempre a sua grandeza. Sem querer ser, era maior do que todas.
Mas, mudam-se os tempos e mudam-se as vontades, já dizia Camões.
Os ídolos agora são outros e bem diferentes e eu temo muito que as novas gerações construam os seus sonhos tendo por base a insensatez e a vergonha de heróis feitos à pressa, movidos apenas a dinheiro e julgados reis não pela sua genialidade mas pela força de dinheiro que tudo compra, até filhos.
Para sempre, Rosa!

domingo, 4 de julho de 2010

A Casa dos Marcos RARÍSSIMOS


Por razões de ordem profissional, há já algum tempo que conheci e tenho vindo a interagir com a associação de doentes “Raríssimas”.
Nesta associação confluem pessoas que carregam consigo as chamadas “Doenças Raras”, assim designadas por atingirem um número muito reduzido de pessoas em todo o mundo. São muitas e diversas estas doenças.
O coração que bombeia vida nesta associação é a Dra. Paula Brito e Costa, mãe de uma criança com uma doença rara, o Marco, que tendo partido há já algum tempo deixou vivo na mãe o seu maior sonho: a construção de uma escola onde ele pudesse viver com os outros meninos raros como ele.
No passado dia 1 de Julho tive o privilégio de estar presente na Moita, na cerimónia de lançamento da primeira pedra deste sonho, designado legitimamente “A Casa dos Marcos”, um edifício que dentro de algum tempo albergará o sonho de mais de 100 Marcos raros, num projecto que confirma que quando confluem as vontades de público e privados, o mundo avança mesmo.
No rebuliço mediático deste evento, não pude deixar de pensar como continua a ser importante ir atrás dos sonhos e de como a garra e o querer fazem a diferença na hora de os concretizar.
Num mundo que cultiva a perfeição e menospreza sistematicamente “os diferentes”, este projecto é a prova de que todos, mas mesmo todos, somos de ter em conta e de que até os “raros” têm a possibilidade de nos dar lições que nós, por mais anos que vivamos, jamais seremos capazes de dar a alguém.A riqueza da pessoa humana vem da diversidade e havendo o respeito por todas as diferenças, o universo seria por certo um local bem mais agradável para se viver.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Força PORTUGAL!


Que a Cidade do Cabo nos traga de novo a Boa Esperança e a força de vencer todos os “Adamastores”.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Bento de Jesus Caraça

Um dos Calipolenses mais ilustres e uma figura de grande relevo no século XX Português.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Cavaco

Ontem, num jantar em Oeiras com a Associação Nacional dos Jovens Empresários, o Presidente da República, reforçou a ideia já transmitida no seu discurso do 10 de Junho, acerca da “situação insustentável” do país e do “excesso de endividamento externo” como a razão primeira para os sérios problemas económicos que o país atravessa.
O Partido Socialista já reagiu a estas afirmações salientando a sua inconveniência, sobretudo tendo em conta a falta de coesão institucional que pode fazer perigar ainda mais a nossa imagem perante os mercados.
Será que em Portugal ninguém tem hoje a possibilidade de manifestar a sua opinião? De se indignar? Teremos todos de alinhar em silêncio no cortejo de solidariedade aos que se apresentam agora como os salvadores da pátria mas que foram os principais agentes neste processo de desgovernação e descredibilização?
Ser patriota, agora e sempre, é defender a pátria, o que neste momento está nos antípodas de defender quem nos governa.
Não terá o cidadão Aníbal Cavaco Silva o direito de criticar a situação? Não terá o Presidente da República o dever de o fazer antes de todos os outros?
Em minha opinião acho que tem o dever e o direito de o fazer. Assim como acho incorrecta esta constante pretensão do partido do governo em controlar a Presidência da República com o “Fala Cavaco”, “Cala-te Cavaco”, ao sabor dos seus interesses.
Aliás, qual seria a postura do Presidente se em vez de Cavaco ele fosse o candidato já anunciado do PS para 2011? Calar-se-ia? Não me parece!

quinta-feira, 24 de junho de 2010

eSCUTas!

Aí está mais uma exibição cheia de glamour dos nossos políticos que na hora de prestar contas apresentam invariavelmente as facturas ao cidadão contribuinte.
Até onde chegará a ausência de pudor?
De assinalar e aplaudir o recurso às altas tecnologias. Somos por certo o país do mundo com maior sofisticação nos métodos de cobrança. Só nós poderíamos ter inventado a Via Verde, os Chips, etc.
Que imaginação, essa das portagens regionais!
Definitivamente, vivam as eSCUTas. As que não dão em nada e as que darão alguma coisa para equilibrar as contas.

domingo, 20 de junho de 2010

José Saramago (1922 – 2010)

Lisboa despediu-se hoje do único Homem que levou a literatura em língua Portuguesa à glória do Nobel.
Tal como em vida, também na morte, Saramago gerou polémica. Acontece sempre assim quando se transportam connosco convicções fortes e quando se defendem sem rodeios todas as causas em que acreditamos.
Para além da discussão em torno da presença ou não do Presidente da República nas cerimónias fúnebres, a polémica maior foi sem dúvida a criada pelas declarações da Santa Sé acerca da personalidade de Saramago. Em minha opinião é um ataque desmesurado e completamente fora de tempo.
Na hora da sua partida, prefiro pessoalmente concentra-me na genialidade do escritor que me prendeu à sua escrita e em muitas horas me ajudou a navegar nas ondas dos sonhos, fazendo-me simultaneamente pensar de forma crítica sobre o mundo onde vivemos e sobre a sociedade na qual somos agentes activos.
Jamais visitarei Mafra sem me recordar de Blimunda e sem sentir nos meus ombros, o peso daquela pedra gigante que tantos transportaram, jamais olharei para o Castelo de S. Jorge sem que recorde aquele revisor de provas que escreveu à sua maneira a história do cerco de Lisboa, jamais deixarei de imaginar a ibéria feita jangada a navegar oceano fora.Jamais esquecerei Saramago como um dos maiores escritores do meu tempo e jamais esquecerei o orgulho que senti quando no Outono de 1998, o meu amigo Juan Delgado me telefonou da sua Sevilha natal para me felicitar porque a minha língua finalmente tinha um Prémio Nobel.

O pomar das laranjeiras

Foi sem dúvida o título da canção dos Madredeus no seu brilhante álbum Existir que me levou a olhar assim para o lugar onde nasci e cresci, e que homenageio assim na hora de baptizar este espaço onde quero partilhar convosco o meu e o nosso mundo: Vila Viçosa.
Na terra calipolense as vias principais estão bordadas com infinitas laranjeiras, e tudo acontece, a vida acontece, à sombra dessa árvore de fruto.
Aprendi a distinguir e a usufruir das diferentes estações do ano ao ritmo definido pelas flores, os frutos e os aromas desta árvore.
Foi à sombra das laranjeiras, sobretudo nos dias quentes de verão e primavera que estabeleci os laços com os amigos no decurso de longas conversas e infinitas partilhas de sentimentos e convicções.
Foi nos ramos mais irregulares dos seus troncos que imaginei os aviões que fizeram parte de todas as brincadeiras e viajei infinitamente pelos quatro cantos do mundo da minha imaginação.
Foi pela regra de não colher uma laranja que reforcei a aprendizagem do valor do respeito pelos alimentos sobretudo tendo em conta quem os não tem, aprendendo simultaneamente a viver e a respeitar a natureza e os mais elementares valores ecológicos.
Quero que à sombra deste pomar agora tornado virtual neste espaço, tudo possa continuar a acontecer e por isso vos dou as boas vindas até ele.