domingo, 30 de setembro de 2012

Ditados - Versão Século XXI


Integrando-se na onda reformadora que nos atingiu neste começo de milénio, na qual se integra o polémico e mediatizado Acordo Ortográfico, e antes que a Troika nos obrigue a faze-lo, tal como aconteceu com a revisão do número nacional de feriados, o Pomar das Laranjeiras toma a iniciativa de apresentar uma proposta de revisão dos Ditados Populares.
A nossa nova realidade impõe claramente este revisitar dos princípios orientadores da nossa cultura e filosofia populares:
ü  Político que roube a nação tem mil anos de perdão;
ü  A culpa morreu solteira… mas andou amancebada com um político;
ü  A eleição faz o ladrão;
ü  Burro velho, por Decreto e só como o Relvas aprende línguas;
ü  Cada um sabe tudo de si e a Merkel sabe de todos;
ü  Contra factos, o político tem sempre argumentos;
ü  De boas intenções… está o Parlamento cheio;
ü  De doutor e de louco todos temos um pouco… e o Relvas também;
ü  Diz o roto ao nu: o Gaspar quase me deixou como tu;
ü  Abril naufragou nas águas mil;
ü  Em casa de ferreiro, veio o ladrão e levou o cobre;
ü  Entre marido e mulher, vem a Brasileira e mete a colher;
ü  Gordura, já não é formosura e exige Becel;
ü  Há males que vêm por…carta registada das Finanças;
ü  Há mar e mar, há o Passos, e temos de ir sem voltar;
ü  Homem pequenino? Anão, Marques Mendes ou dançarino;
ü  Homem prevenido nem vale por um, e a natalidade catrapum…;
ü  Longe da vista… perto da Multiópticas;
ü  Não há bela sem bótox;
ü  O prometido é rapidamente esquecido;
ü  O último a rir… vai para Paris estudar Filosofia;
ü  O seu, a seu dono e às Finanças;
ü  Para grandes males, os genéricos e os baratos e possíveis remédios;
ü  Quando a esmola é muita, o cigano romeno desconfia;
ü  Quem casa, divórcio certo leva para casa;
ü  Quem não aparece…seguiu o conselho do Passos, e emigrou;
ü  Quem o alheio veste, ao Visa o agradece;
ü  Quem tem unhas…foi ao corner do Centro Comercial;
ü  Quem tem telhados de vidro, mandou fazer a casa ao Taveira;
ü  Quem vê caras, também vê VIP’s e Nova Gente’s;
ü  Tristezas não pagam dívidas nem IVA, por enquanto;
ü  Vão-se os anéis… mas fica o cartão fidelidade da loja de compra de ouros.

sábado, 29 de setembro de 2012

Restauro à Espanhola


Há alguns meses, Cecília Gimenez, uma octogenária espanhola, paroquiana activa de uma pequena localidade nos arredores de Saragoça, achando-se com dotes de artista, resolveu “restaurar” um famoso e valioso fresco existente na sua igreja, datado do Século XIX e representando o rosto de Cristo.
O resultado do seu trabalho situa-se nos territórios da caricatura e pode dizer-se que a intervenção ainda conseguiu estar muito para lá das bombásticas plásticas da Manuela Moura Guedes.
Ontem, ao conhecer os resultados da execução orçamental relativos ao primeiro semestre de 2012, entre deficits, PIB’s e demais instrumentos e escalas de avaliação do estado da nossa economia, lembrei-me da Cecília Gimenez.
É um facto de que o país estava a necessitar de uma intervenção e de um restauro, mas os artistas que tomaram em mãos esse trabalho, sobre as ordens e o mecenato da Troika, seguindo uma cartilha teórica e experimental que tem a forma de um memorandum ao estilo das instruções do IKEA (“Faça um móvel sem nunca ter sido carpinteiro pois é tão simples como ser doutor sem nunca ter ido à escola“) deixaram-no no que é hoje: uma caricatura de país.
Aliás, conseguiram ser piores do que a velhota Cecília pois não consta que ela tenha levado à ruína os restantes paroquianos a pretexto de comprar as tintas e os restantes materiais para o restauro. E a ela, o que faltava em jeito sobrava em voluntarismo, coisa que nem por sombras, estes “líderes” desajeitados do nosso tempo, conseguem ter, nem apenas por um pouco que seja.
E não houvesse tanta dor de muitos, e esta caricatura de país, como a do Cristo de Saragoça, até poderia ter alguma graça.
Com urgência venham mestres e pedreiros, e tragam a sua arte, que os serventes e aprendizes, sozinhos, estão a destruir-nos os alicerces e estão a dar cabo de ti, Portugal.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Os boticários


Quando com vinte e quatro anos saí da Faculdade, tive o privilégio de ir exercer a minha profissão para uma Farmácia no centro de Lisboa.
Por ser o único homem no universo de muitas mulheres farmacêuticas, soube desde as primeiras entrevistas de que me estariam destinados os Serviços Nocturnos, e assim, de repente, eu, um jovem alentejano “emigrado” na cidade, passei a dispensar saúde por um postigo muito estreito que, apesar disso, garanto-vos, era a melhor janela sobre a noite de Lisboa.
Durante quase dois anos, entre caixas de medicamentos mais ou menos urgentes, muitas seringas e muitos apetrechos para garantir o sexo seguro, saboreei esse gosto inesquecível de exercer uma profissão que se insere no âmbito do maior valor reconhecido por todas as pessoas: a saúde.
Apesar de ser um especialista na dispensa de fármacos, cedo diagnostiquei entre as receitas, as informações de toma e os trocos, que a solidão dos tristes na noite da grande cidade, é um decisivo catalisador de todas as doenças, e apesar do sono que me invadia noite fora, jamais deixei de entregar os trocos e as “caixinhas de saúde” sem o tempero de um sorriso e aquelas palavras que aconchegam uma alma solitária, mais do que os efeitos terapêuticos de substâncias farmacológicas perfeitas na sua farmacocinética e farmacodinâmica.
Sorrisos e palavras com forte efeito anti-depressivo, autênticas vacinas para evitar as noites longas no desespero da solidão.
E nesta dimensão humana com que completamos as nossas capacidades técnicas, sustentamos a transição de profissionais para o sacerdócio do melhor compromisso com o bem-estar dos outros.
A vocação ultrapassa a profissão e jamais se conseguirá traduzir por palavras, o gosto de sentir que estamos onde fazemos mais falta.
Tenho muitos amigos médicos e enfermeiros, e sei que também comigo partilham da noção deste privilégio.
Mas hoje é dia do farmacêutico, vocação, mais do que profissão, que assumo orgulhosamente.
E aqui deste “postigo” virtual não resisto a saudar todos os colegas que nos seus postigos reais cumprem a sua missão de dispensar saúde e conforto, em medicamentos, saber, mas também sorrisos e palavras.

sábado, 22 de setembro de 2012

Outono


Está renitente o Verão em ir embora, atacando com graus de temperatura a rondar os trinta, mesmo quando o calendário confirma que o Outono já chegou e que só o próximo e longínquo Junho nos devolverá à magia da estação do nosso encontro favorito com as férias e o mar.
Mas não se importa o Outono com os graus extra deste encore do Verão, pois do sol faz uso para amadurecer e tornar mais doces os marmelos, e também para nos encher de cor e brilho, os dias da colheita das uvas que são prenúncio de bom vinho quando Novembro nos trouxer as castanhas para juntos brindarmos a S. Martinho.
Está chegada a hora de eleger e apostar nos melões a pendurar em rede de ráfia por cima das mesas onde brilharão os tons laranja dos dióspiros maduros, para que atravessando os Santos, os Finados, a Restauração e a Padroeira, nos possam dar o prazer do sabor a Verão na noite da consoada.
Em breve se encolherão definitivamente os dias, fechar-se-ão os toldos e os chapéus nas esplanadas dos cafés e dos quiosques, acrescentaremos o número de peças e o peso das roupas que vestiremos, libertaremos da naftalina os edredões de penas que devolveremos às camas, e muito naturalmente retornaremos a casa, procurando a protecção do frio e da chuva que esperamos e desejamos seja intensa.
Entre milhares de tons únicos de laranja e castanho, as folhas dos plátanos prepararão o seu adeus na hora de chegar Dezembro, sendo para já o perfeito cenário e dando a adequada cor a estes dias que parecem ter nascido para nos devolver tranquilamente aos espaços da intimidade de cada um consigo próprio.
O Outono, a viagem de volta ao nosso mundo.
Nos dias de Outono da minha infância em Vila Viçosa, sentíamos por esta altura, o cheiro das malas novas já cheias com os cadernos e as sebentas que a partir de 7 de Outubro, sempre e impreterivelmente, enchíamos com o saber oferecido pelos nossos Mestres-escola.
Os bibes de xadrez azul e branco já estavam pendurados nos guarda-fatos e estávamos prontos para voltar, junto com os amigos, à época do berlinde e do pião, que brincávamos após ter saído da escola e depois de termos comido uma boa fatia de pão com a marmelada feita recentemente e retirada de alguma das muitas taças que, cobertas por papel vegetal, as nossas mães tinham posto a secar ao sol.
O Outono, o passaporte para o regresso ao conforto dos nossos amigos mais amigos.
Viva o Outono.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

De cócoras a perder a guerra


Berlim é uma cidade distendida, repleta de árvores em jardins e praças, de onde emergem em são convívio, os edifícios com história e os edifícios candidatos a entrar na história da arquitectura pela mão dos melhores arquitectos do planeta.
O muro, recordado hoje por uma linha em pedra que sobressai do asfalto, caiu há muito quando parecia querer erguer-se na Europa, a esperança de um tempo novo.
O táxi avança e o motorista, recrutado agente de propaganda da penitência alemã, concentra a conversa em redor dos monumentos que traduzem o assumir da responsabilidade da sua pátria no extermínio dos judeus, preocupado, obstinado mesmo, em que registemos o arrependimento do seu povo.
A penitência, esculpida em pedra pela arte de grandes artistas, uma atracção turística da nova Alemanha.
Logo após o Bundestag com a cúpula de Norman Foster, aparece-nos à esquerda a chancelaria com a sua inacreditável forma de uma gigantesca máquina de lavar.
O taxista aponta o dedo e afirma:
- Aqui trabalha Angela Merkel.
Sinto um arrepio na espinha e quase lhe peço para acelerar, não vá a senhora ver-me por ali e vir à janela receitar-me mais austeridade.
Penso no Pedro e no Paulo, que não se entendem, como se não soubéssemos há muito "casamentos com o Portas acabam em relações mortas":
- De que vale o esforço para se entenderem se algures num dos milhares de gabinetes deste edifício, há alguém que dita as regras e que realmente manda em nós.
Mas nem foi necessário que a Merkel falasse pois estou a ser conduzido por um seu porta-voz, presumo que não oficial:
- Nós trabalhamos muito e estamos a ajudar a Europa. A Grécia e o seu Estado Social vivem à custa do nosso dinheiro.
Penso para mim:
- Depois da penitência só cá faltava a generosidade. Daqui a pouco canonizo-te.
Há coisas que duas gerações não bastam para destruir e a sobranceria está no código genético desta gente que acredita hoje como há 70 anos que há a Alemanha e há o resto da Europa.
A União Europeia e o Euro foram sonhos de grandes líderes que morrerão pela mão de chefes medíocres, incompetentes e sem visão, ao jeito das fortunas familiares esbanjadas pelos filhos esbanjadores dos pais muito empreendedores.
A União Europeia e o Euro foram utilizados pela Alemanha enquanto foi conveniente e morrerão no exacto tempo em que a Alemanha os fizer implodir.
O meu taxista, a Merkel e os alemães em geral sentem-se tão Europeus como eu me sinto Esquimó.
Com a contrição dos falsos e a ilusão dos mágicos, são apenas e só artistas de palco, ardilosos iscos que atraem e condenam os que geograficamente partilham com eles o espaço Europeu.
Por eles, jamais a política e a economia criarão cumplicidades com a geografia.
O problema é a nossa cumplicidade e responsabilidade em tudo isto. É que a vaidade, a sobranceria e as pretensões desta gente, têm raízes na incompetência, na má gestão e no facilitismo com que nos desgovernámos e fomos sendo desgovernados por cá.
A nossa fragilidade é o melhor mote para as suas ambições.
Como os milhares de lojas de compra de ouro que nasceram nas nossas cidades, a Alemanha limitou-se a pôr banca a uma esquina de Bruxelas onde recebe em Euros e com a argúcia dos penhores, as parcelas da nossa independência.
E travar o processo?
Só com exigência, rigor e já agora, com Homens, porque o campeonato é duro e com juniores, em campo e no banco de suplentes, nada mais nos resta do que perder por goleada.
Convém não esquecer que quem perde a guerra, é quem está de cócoras. E está mesmo bem de ver que ao contrário do ditado, a continuarmos assim, jamais a Alemanha perderá esta.

domingo, 16 de setembro de 2012

15 / 09 / 2012


Povo sem cor ou de todas as cores, somos muitos numa maré de gente levantada sem medo, a querer e a lutar forte pelo respeito e defesa da sua dignidade.
Heróis sem nome e sem idade. Heróis, filhos e netos, legítimos herdeiros das progenitoras madrugadas de todas as canções da liberdade.
Gente de paz mas Homens de firmeza e coração guerreiro, almas tornadas uma só, no não gritado à tecnocrata cegueira e à desumana imbecilidade e inconsciência dos donos do poder, passado e presente, insuportáveis e desprezíveis ilustrações vivas dessa dicotomia entre a força do ter e do vil metal e a fragilidade confrangedora da mais absoluta ausência de carácter.
Gente sem medo que oferece o rosto ao sol do dia quando grita por pão, combatendo as infinitas e cúmplices teias nascidas das subterrâneas e envergonhadas Lojas de venda e partilha de interesses e poder.
Gente que sabe o que quer, e sabe e não teme, dizer não.
Enraizado no sonho, viemos aqui carregados daquele querer que faz mudar a História.
Porque ninguém jamais conseguirá destruir um povo assim unido pela firmeza da alma.
E voltaremos sempre aqui e desta forma, porque jamais nos deixaremos morrer.
E tu, viverás alimentado pela força deste querer que te tornará nosso e eterno, Portugal.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A vingança das cobaias


Com a ajuda de morganhos, ratos, cobaias, rãs e coelhos, não existiu medicamento que eu deixasse por estudar, nas aulas práticas de farmacologia que compunham o curriculum académico do curso de ciências farmacêuticas que frequentei e concluí há muito, ainda no tempo em que os diplomas se obtinham por mérito e trabalho, através da frequência de aulas e aprovações nos exames.
Experiências a bem da humanidade e que afortunadamente, e na maioria dos casos, também não punham em risco a saúde e a vida dos animais.
Numa caixa de madeira e de cabeça de fora, o coelho depois de rapado o pelo, oferece uma veia que contorna toda a orelha e que é fantástica para a administração endovenosa de fármacos.
Esta semana, com ar de cientista louco, o nosso Ministro das Finanças anunciou medidas de austeridade e justificou a sua implementação pelos bons resultados conseguidos na utilização de vários modelos experimentais, e assim, de repente, eu e todos vós, saltámos para os tubos de ensaio e retortas das bancadas do mais puro experimentalismo económico.
Sem qualquer proveito que se vislumbre para nós e para a humanidade, esta só pode ser a vingança servida fria pelas minhas cobaias.
Numa caixa de austeridade férrea que não me permite quaisquer movimentos, há agora um Coelho, versão instantânea de primeiro-ministro ao estilo “jota e basta juntar água”, que me rapa o salário e me aplica uma TSU “endovenosa” de 18%, e…
E depois, vamos ver se sobrevivo.
Ontem, ao ouvir a entrevista de permanente rendição ao FMI e à sua gestão, com a Troika a servir para tudo justificar, sentei-me a ver a Gabriela e depois a goleada de 23-1 de Portugal à Inglaterra no desporto que nasceu com o fito apenas de nos consolar, o Hóquei em Patins.
Fui atingido por uma sensação demasiado nítida de um indesejável déjà vu, um regresso a um novo 1977 com mais rotundas, pontes, auto-estradas, dívidas e ilusões.
Até poderemos sobreviver, mas entre incompetência, mentiras e indecentes impunidades, já nos roubaram 35 anos, e pior, já nos comprometeram definitivamente o futuro.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Poder pelo terror


Há onze anos, ao começo da tarde de 11 de Setembro, parei no hall de um hotel em Berlim para assistir em directo pela televisão, à queda das torres gémeas do World Trade Center de Nova Iorque.
E logo em Berlim…
Se no começo da última década do Século XX se sonhou na cidade reunificada com a queda de todos os muros e com uma herança de paz para os anos de dois mil, esse terrível amanhecer de Manhatan, cedo no Século XXI, nos transportou para o território dos pesadelos e nos matou a esperança.
Pior do que alguma vez se ousou imaginar, a guerra chega de forma inesperada e atinge e mata inocentes em actividades tão simples como uma viagem de avião ou uma chegada ao escritório.
E mata aos milhares, e diz-se, que em nome de Deus.
Jamais compreenderei as guerras de motivação religiosa.
As religiões, por influência da cultura, são expressões diferentes do essencial que é a fé, e nesse essencial que a todos une, o Deus em que acreditamos, exprime-se pela vida de todos os Homens que habitam a superfície da Terra.
Matar um Homem é matar Deus e renegar a própria fé.
O problema é que o essencial e o que move o mundo, não é Deus e é sempre e só a ânsia pelo poder, sendo as religiões e os extremismos fundamentalistas, utilizados como campo de recrutamento de “guerreiros” fiéis para a conquista do domínio económico e político.
O 11 de Setembro de 2001, mais do que um dia terrível da história recente da humanidade, é um símbolo muito marcado das guerras do nosso tempo, as lutas cegas pelo poder.
As vítimas do 11 de Setembro de 2001, juntam-se às vítimas da Estação de Atocha, aos mortos da Faixa de Gaza, aos civis inocentes mortos no Iraque, e tantos outros pelo mundo fora, como os mártires do nosso tempo.
E convém não esquecer que não só com explosivos se pratica o terrorismo e se matam inocentes.
Os “mísseis económicos” e de destruição cega lançados pelos mercados financeiros sobre os países mais débeis da União Europeia, que secam o Estado Social e matam as formas de apoio às populações, sobretudo as mais desfavorecidas, são um terrorismo sem armamento mas altamente eficaz.
Não há pois latitudes ou fronteiras que separem inocentes e culpados. Não há zonas isentas de responsabilidade nesta guerra que só acabará no dia em que devolvermos a este tempo os valores da liberdade, da solidariedade e sobretudo do respeito pela vida do Homem.
Então haverá paz e só então falaremos do 11 de Setembro como passado.
Eu alimento essa fé.

domingo, 9 de setembro de 2012

Vai a ginja?


Não tem e nunca terá segredos, esta casa sem paredes mas que é lar de afectos, casa nascida do conforto do encontro dos olhares com nome, que se entregam e se entrelaçam pela cumplicidade das histórias partilhadas, na teia que faz nascer a festa.
A festa de todos, e a festa de cada um.
É sempre assim quando é Setembro e os arcos de luzes nos apontam os caminhos no velho Largo dos Capuchos, em Vila Viçosa.
Foi assim mais uma vez este fim-de-semana.
A Banda Filarmónica União Calipolense tocou ontem no coreto e inovou no reportório, reinventando as canções de António Variações. Inovei eu, e pela primeira vez na vida bebi um “Caipi Melão” (Caipirinha com sabor a melão), que não esteve nada mal para abrir a noite.
Mas porque há coisas que nunca podem mudar, rapidamente me acerquei da roulotte da Rosa Maria para me entregar aos devaneios de uma fartura, de boa dimensão e adequada mistura de açúcar e canela, que me confortou o corpo e a alma.
É que, não fosse a fartura, e o conforto não me chegaria por certo do palco onde actuavam “Os Azeitonas”. Até ir ver os aviões para o Aeroporto de Beja, deve ser mais interessante e dinâmico do que ouvi-los cantar. Esforçados, mas só isso.
Entre beijos, abraços e muita conversa, a frustração maior da noite chegou no entanto no momento em que não fui capaz de identificar uma colega que me acompanhou durante todo o percurso do liceu e que eu não via há quase trinta anos. Olhei e voltei a olhar, e não fui capaz de reencontrar nada do rosto que conservei na memória dos tempos em que na velha Escola Secundária instalada nas cavalariças do Paço, jurávamos fidelidade à rebeldia e a celebrávamos através do canto do Rock novo do inicio dos anos oitenta.
No que o tempo nos transforma!
A necessitar de anti-depressivos, oportuno esteve então o Manuel com a frase que adoptou para a noite:
- Vai a ginja?
Primeiro foi uma “Ginjinha do Padre” na Barraca dos Escuteiros, e depois uma “Ginjinha de Óbidos” em copo de chocolate, numa outra barraca concorrente. Em álcool, ganhou definitivamente a do Padre e em sabor, a de Óbidos.
Com ambas ganhámos nós um especial conforto para assistir ao fantástico Fogo de Artificio, pois não houve qualquer brisa fria que se fizesse notar nos corpos, nem quando após o soar do último morteiro nos pusemos em passo lento na multidão a caminho de casa.
Hoje de manhã, soltaram touros na Praça da República, e o “Grupo da Ginja”, eu, a Manuela, o Zé Maria e o Manuel, juntou-se no Café Restauração para o debriefing da noite e para tomar um café, que é algo que nunca se dispensa após um Festival da Ginja e após a ingestão de umas Caipi-quaisquer coisas.
E nem ousem perguntar-nos qual era a cor dos touros, porque não os vimos nem procurámos vê-los.
Tudo é sempre e só, um pretexto para estarmos juntos.
Ficamos mais felizes quando estamos juntos, e isso é a amizade.
E a amizade é a festa.
Apesar de não haver segredos e jamais aparecer por lá a Teresa Guilherme, o Café Restauração não deixa de ser para nós o espaço do confessionário e assim, após o “conclave” desta manhã, anuncie-se que ficou nomeado o segundo fim-de-semana de Setembro de 2013, para o regresso à nossa casa dos afectos.
Com ou sem ginjas, Capuchos para sempre.

sábado, 8 de setembro de 2012

O enterro da classe média no panteão do liberalismo


A partir de Janeiro de 2013, o meu recibo de ordenado traduzirá uma repartição equitativa entre a verba destinada ao Estado e a verba que ficará disponível para eu gerir.
Se pensarmos que dessa quantia que terei disponível, obrigatoriamente irei pagar os impostos sobre o consumo, as portagens, as taxas moderadoras, o imposto sobre imóveis, a taxa de radiodifusão, a taxa de esgotos… poderemos facilmente concluir que trabalharei para que o Estado viva, restando-me, na melhor das hipóteses, a oportunidade de sobreviver.
E nesta supremacia do estado sobre o cidadão, é fácil observar a morte do liberalismo.
Passos coelho anunciou ontem a nacionalização das nossas vidas, o regresso ao comunismo, o Gonçalvismo revisitado 37 anos depois do verão quente.
E tudo para salvar o emprego?
Mentira. Salvar-se-ia o emprego se os nossos empregadores fossem empreendedores e carregassem um espírito altruísta, coisa que não são, empenhados, isso sim, na construção dos seus impérios individuais.
O desemprego aumenta e vai continuar a aumentar porque com a morte da classe média e a consequente redução do consumo, morrerão também uma quantidade imensa de pequenas e médias empresas que são elas sim, a base do nosso tecido empresarial.
Diga-se a verdade, e assuma-se que tudo isto se destina a sustentar o baronato de políticos e empresários, cúmplices nas orgias económicas patrocinadas pelos seus próprios interesses e operadas no bafond das Lojas Maçónicas, corja de gente sempre empenhada na conquista do poder do dinheiro e jamais interessada no bem-estar dos cidadãos.
É tempo de dizer que já basta e correr com toda esta gente que gravita ao redor do poder.
Urge um tempo novo e com gente nova, gente de mãos limpas.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Capuchos 2012


Com as cumplicidades do azul, confluência de Tejo, mar e céu, pela ponte me faço ao sul, não em busca de uma “Trovante” 125, mas da A6 que me traz de volta ao Alentejo, por entre sobreiros, olivais, vinhas e alguns muito espaçados choupos, único vestígio das ribeiras que o verão matou.
É fim-de-semana de Capuchos e chego para dizer: presente, quando se acenderem as luzes do arraial no velho largo fronteiro ao convento que em Vila Viçosa dá nome às festas anuais.
Sei que amanhã e nos dias seguintes, não me despertarei com uma Banda Filarmónica a passar à minha rua, daquelas que com um efeito semelhante ao de uma mola eficaz, fazia a vizinhança saltar para as janelas e varandas, partilhando os tons dos pijamas e os ares ensonados.
Já não haverá tômbolas e quermesses de venda de rifas em papel picotado, daquelas que colocavam os mais sortudos a passear no arraial com coelhos, galinhas ou patos vivos.
No canto do Largo que fica junto à fonte já não verei a vedação para o baile baptizado de Dancing (em Alentejano, “dancinguim”), onde ao som do grupo calipolense Star Melodia, bailavam os pares de namorados ou então alguns pares de mulheres que decidiam com a solidariedade umas das outras, vingar-se dos maridos que se encostavam toda à noite ao balcão do bar a beber tanto vinho e cerveja quanto podiam.
Sei que já não irei à Praça de Touros ver um espectáculo de Ranchos Folclóricos ou de variedades, daqueles em que os artistas mais em voga na discografia do verão jamais corriam o risco de se engasgar, tal a qualidade do playback com que brindavam o público.
Para ver as largadas de touros, também já não me porei à janela da casa do meu amigo Manuel, aproveitando o facto de o sol nos incidir intenso sobre a cabeça e também o nosso pouco interesse pelo espectáculo taurino, para brincarmos uns com os outros e nos deliciarmos com os petiscos e os bolos que a mãe dele sempre colocava na mesa em dia de festa.
Agora tudo é diferente, mas a festa continua.
Mudaram-se os tempos, mudámos nós, e a festa, obviamente que nos acompanhou nessa mudança. Adaptou-se a nós.
Mas o essencial, a raiz da festa, permanece e permanecerá sempre igual, sendo esta alegria de podermos voltar ao espaço em que crescemos, a celebrar a alegria de estarmos juntos, a festejar com abraços, beijos, sorrisos e olás, a amizade que jamais deixaremos morrer.
É isso que me move estrada fora e rumo ao meu sul.
Já, e sempre, em festa.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Festas de verão


Para além de adorar bacalhau e de nunca resistir a comê-lo acompanhado por um copo de bom tinto, de sofrer com a saudade, de gostar de fado e de reconhecer uma deusa em Amália, de ser do Benfica e sentir tristeza por nunca ter presenciado um golo do Eusébio, de ir frequentemente a Fátima por fé e convicção, eu, de corpo inteiro, Português me confesso: adoro festas de verão.
E este ano, não sei se por temer que os nossos “Troikos Credores” coloquem sobre as ditas as frases que insistem em colocar sobre todos os nossos prazeres: “Liquidação Total”, “Falência” ou “Encerrado”; fui a todas quanto pude.
Depois do carro estacionado nos improvisados parques de terra batida onde as matrículas portuguesas estão em minoria, perdendo por goleada para as francesas, suíças e luxemburguesas, activei o meu GPS Festas Populares, herdado dos anos 80 e armazenado na memória, e deixei-me seguir em direcção à igreja iluminada (ao estilo Trio Odemira), procurando o rasto dos aromas de frango assado no espeto, sardinhas na brasa ou, maravilha das maravilhas, as farturas polvilhadas com açúcar e canela.
E logo aí, pelos aromas, notei as primeiras diferenças. Também há cheiro a pipocas, cachorros quentes com Ketchup e mostarda, crepes com ou sem recheio, waffles, e até as farturas deixaram o seu estado normal para passarem a ser recheadas com uns cremes de cores vivas, que só de olhar nos põem com carência de Kompensan.
É a globalização, expressa de forma tão evidente nesse acasalamento entre a Caipirinha e a Mini na lista do preçário das bebidas das barraquinhas de comes e bebes.
Nem a Mini resistiu às brasileiras.
Depois de identificar uma tômbola onde há umas meninas casadoiras a vender rifas, aproximo-me de uma delas e peço-lhe 10 papelinhos enrolados para ver se a sorte me assiste.
Pergunta-me a pequena:
- E quer rifas para rapaz ou menina?
Não acredito, mas a noção do politicamente correcto chegou às rifas levando ao assumir de medidas tendentes a evitar qualquer violação da identidade de género. Presumo que assim se evitará por exemplo que um qualquer rapaz machão, homófobo e muito homem, possa processar uma Comissão de Festas por lhe ter saído uma Barbie na Barraca da Sorte.
No tempo em que a ASAE permitia sortear galinhas, patos e coelhos vivos, nada disto acontecia.
Peço então as rifas para rapaz, abro papel a papel e… uau. Saiu-me um brinde.
Vou com o número à tômbola e recolhe um yo-yo fluorescente e com uma penugem que brilha a cada movimento, num jeito totalmente Drag Queen.
Não sei quem terá feito a classificação dos prémios entre rapaz ou rapariga, mas fiquei com suspeitas de que poderá ter sido a Belle Dominique.
Aguardo a actuação de um rancho folclórico e não resisto no entretanto, a dedicar alguma atenção à música que vai sendo emitida pela aparelhagem e pelos amplificadores de som espalhados pelo recinto.
Pela batida, pelo ritmo e pela profusão de sintonizadores, é claramente música pimba.
Tenho dificuldade em identificar os intérpretes. O meu contacto com a música pimba cessou quando a RTP deixou de emitir aos domingos o Made in Portugal, programa memorável que eu todas as segundas-feiras não resistia a discutir e analisar com a minha amiga e colega Isabel Pimenta.
Isso foi de facto há muito tempo, numa altura em que a Ágata de costas ainda não se confundia com a Heloísa Miranda ou em que a relação entre a Ana Malhoa e o silicone era unicamente estabelecida através das porções do dito produto que lhe protegiam a banheira de casa dos pais.
Apercebo-me no entanto que embora os ritmos sejam iguais, as letras foram adaptadas aos novos tempos. E nem as Lojas Chinesas escapam:
- Se queres algo que só funcione uma vez, vai ao Chinês, vai ao Chinês.
Não me perguntem quem canta, mas há uma elevadíssima probabilidade de ser uma Vanessa Sofia qualquer com o alto patrocínio de alguma loja de ferragens.
Segue a festa...
O Rancho Folclórico dança bem, fez uma recolha cuidada das músicas da nossa terra e no final até convidou a malta para entrar na roda, no que foi uma boa ideia para passar de aberto a escancarado, o meu apetite por uma fartura.
Peço-a simples, só com açúcar e canela, e vou saboreando a iguaria no regresso ao carro, retomando depois a condução com algum óleo de fritar intrometido entre as minhas mãos e o volante.
Vão oleadas as mãos, e claro, reluzente vai o humor.
Viva o verão e que jamais se nos acabem as festas.

domingo, 2 de setembro de 2012

Fado, pedra e lua cheia


Sei de um rio...
A guitarra portuguesa uniu-se aos grilos e às cigarras, banda sonora de uma típica noite de verão alentejana, para convidar a voz de Camané à perfeição do canto maior da alma portuguesa.
Como em qualquer viela de Alfama ou Bairro Alto, em Vila Viçosa, no fundo da Pedreira D’El Rey entre o mármore e no ventre mais ventre da terra lusa, o fado provou ser o que é desde sempre, a expressão fiel do nosso mais pátrio e próprio sentir.
A lua cheia, cúmplice fiel e maior dos amantes, indutora das sombras mágicas e oníricas das nossas noites perfeitas, uniu-se-nos à alma e brilhou intensamente no silêncio que os muitos ali presentes, quisemos oferecer ao fado.
O silêncio da nossa rendição à própria alma.
E de amores, de vida, de encontros e de nós, se fez o canto que fluiu palavra a palavra na expressão da arte dos poetas.
Do princípio e até ao fim.
Sei de um rio...

sábado, 1 de setembro de 2012

Uma régua e a vida


Na casa que foi sempre sua, estou sentado num longo banco de madeira nascido da sua arte de carpinteiro. Há algum tempo tirámos-lhe a custo a tinta encarnada que o cobria e fizemo-lo regressar ao sítio onde sempre esteve e onde foi ao longo dos anos, o assento preferido por mim e por todos os meus primos quando em visita a este rés-do-chão simples e pequeno que era a casa dos nossos avós.
Hoje, já não tem vista para o poial dos cântaros e dos alguidares de barro, já não serve para que descansemos enquanto observamos a nossa avó Natividade a fazer os mais fantásticos pastéis de massa tenra do universo…
Hoje, tem a melhor vista para a minha colecção de presépios e tem sobretudo esse mágico condão dos objectos da nossa história: a indução das doces e melhores memórias.
Do meu avô Francisco, para nós o avô Chico, mestre de carpintaria, herdei uma infinidade de boas lembranças, daquelas que são únicas dos bons avós, para lá do nome e da… teimosia, ou a arte de levar as convicções aos territórios para lá do normal, se formos mais rebuscados no Português e sobretudo mais benevolentes na avaliação da dita característica.
Guardo as memórias das nossas conversas quando a sua reforma e as minhas férias nos ofereceram muito tempo para estar juntos. Recordo as longas histórias nas lições partilhadas de vida, e sobre a vida.
Recordo os “bombons” de avô…
A nota de vinte escudos com a imagem de Santo António em cada um dos meus aniversários, era um presente memorável, e o leitor de cassetes que recebi como presente quando concluí com êxito a 4ª classe e que me permitia gravar todos os Festivais da Canção com a ajuda de um pequeno microfone colocado junto à televisão depois de exigir silêncio a toda a família, foi por certo uma das melhores surpresas que me preparou.
Mas o melhor presente de todos, foi-me oferecido nas vésperas de eu entrar para a Escola Primária. O avô Chico fez-me uma régua em madeira na qual com cuidado e rigor marcou os milímetros e os centímetros.
Uma régua personalizada e nascida só para mim, privilégio de muito poucos.
Uma simples régua de madeira ou um dos melhores presentes que alguma vez já recebi.
Jamais os poderosos conhecerão este sabor doce e requintado das coisas mais simples, privilégio único de quem tendo pouco, lhe sobra tempo e espaço para valorizar os detalhes e sentir o amor por detrás deles.
Nunca a régua do avô Chico me deixou ficar mal, dando-me sempre as medidas certas e a faculdade de traçar direitas as rectas em qualquer um dos meus desenhos.
Na matemática, no desenho e na vida, jamais as marcas do avô Chico me deixaram ficar mal.
Com 80 anos, o avô partiu em Fevereiro de 1990 nas vésperas de eu começar a trabalhar, nestas passagens informais de testemunho que a vida se encarrega de fazer naturalmente entre avós, filhos e netos.
Partiu sem jamais crer que o Homem alguma vez pisara o solo lunar, com a frustração de nunca lhe ter saído a lotaria, o seu maior vício e a maior das suas “cautelas” nos últimos anos de vida, e com a alegria de poder ir privar no Céu com a Senhora da Conceição que de fé lhe marcara toda uma vida.
Eternizado em mim e na memória de todos os que o amamos, o avô Chico faz amanhã 103 anos.
Marca e marcará sempre com felicidade, os centímetros dos nossos caminhos.