terça-feira, 29 de maio de 2012

As coordenadas da incompetência

A Senhora D. Merkel, Angela para os amigos, que por certo serão muito poucos, teve dificuldade em assinalar num mapa, a localização da cidade de Berlim, indicando um ponto no território da Rússia, como sendo, em seu douto entender, o sítio onde está implantada a capital da Alemanha, local onde supostamente, e por ser Chanceler, habita.
Má vontade colocar esta gafe da senhora no YouTube. Uma pessoa não pode saber tudo, e quem se dedicou a estudar afincadamente a solução para todos os males da humanidade, e quem se dedica à nobre cruzada para salvar o Euro, não pode ter tido tempo para aprender geografia, mesmo a mais básica e doméstica.
E depois, vejam poesia neste gesto:
- Onde está Deus?
- Está em todo o lado.
- Onde está Berlim?
- Está onde está Deus.
Berlim está em todo o lado e dentro de cada um de nós há um Berlinense.
O que pode acontecer é que estejamos do lado errado do muro, mas que Berlim nos acompanha sempre, ai lá isso acompanha.
Perguntem aos Gregos se não sentem o aroma a Berlim na sua economia?
Vão às compras em Lisboa, visitem as filas dos centros de emprego em Portugal, e reparem como se respira um marcado ar a Berlim, devidamente importado pela empresa Sócrates, Passos e companhia, Lda?
“É porreiro, pá”. Berlim está em todo o lado.
E não é pela via das bolas, pelo contrário, será pela ausência delas em alguns, no sítio, pelo menos.
E depois, por favor, não exagerem na má vontade contra a D. Angela.
Sempre houve pessoas sérias, mães de família, “esposas exemplares”, que não foram dadas às letras.
Quando se olha para a senhora com aqueles seus casaquinhos a três quartos, percebe-se claramente que não é uma mulher para nos tempos livres se sentar no sofá a ler livros de geografia.
Percebe-se que é uma mulher que gosta de lavar a loiça, de passar a casa a pano com Dabri e lavar os azulejos com Sonasol verde. Intui-se que é uma mulher que lê a Teleculinária, mas sempre com saudades da Crónica Feminina e da Ela – Donas de Casa. Depreende-se que é boa no chuleio, no cerzir, no aparar das malhas das meias, que é boa a estender a roupa e a trocar umas dicas de marquise a marquise com as vizinhas…
Agora a sério.
Parece que nada acontece mesmo por acaso, e que definitivamente, o exercício da estupidez humana nunca deixou de ter consequências caras e desastrosas.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Ich bin ein Berliner

O avião atrasou-se à saída de Frankfurt mas ainda consigo chegar e ver Berlim com uma réstia de sol. Por aqui, a primavera parece ter-se rendido ao verão, e o tempo está fantástico.
O táxi avança pelos bosques verdes e de repente atira-me com o olhar para a nova cidade: o edifício da Filarmónica de Berlim, Potsdamer Platz…
O meu hotel é por aqui e eu não resisto a sair para passear um pouco, afogar o cansaço numa cerveja e aproveitar para comer algo, quiçá uma salsicha.
No meu percurso de não mais de duzentos metros para a Potsdamer Platz, cruzo obrigatoriamente a linha que assinala no chão o local onde antes se encontrava o muro que separava a cidade, e faço-o no sentido da República Democrática para a República Federal da Alemanha.
Apesar de ter tido antes o privilégio de o ter feito em múltiplas ocasiões, não consigo hoje mais uma vez, camuflar a emoção deste pequeno passo que há pouco mais de vinte anos era perfeitamente impossível.
É um passo oferecido pela liberdade, e dou graças a Deus por ele.
Caíram os muros políticos e a Europa já não tem o muro da vergonha, da nossa vergonha.
Avanço e escolho um lugar numa esplanada. A cerveja Berlinense não tarda e afinal a salsicha deu lugar a um hambúrguer.
Estou sozinho e com tempo para observar, porque em relação a escutar, a única coisa que me é permitida, é ouvir as infinitas histórias de um grupo de espanhóis de Múrcia que estão por detrás de mim, e que naquele seu jeito de falar a gritos, exteriorizam a raiva e o desconforto pelo comportamento dos outros colegas de passeio, obviamente os que estão ausentes da mesa, e que com eles viajam pela Alemanha e pela Áustria.
À minha frente á um grupo de cinco jovens executivos, de fato e gravata, ao estilo montra da Boss, bebem cerveja, claro, e riem-se imenso. Estarão por certo na casa dos vinte.
Observo-os, penso no colega que ainda ontem me telefonou desesperado pelo seu desemprego de um ano e meio, e sinto o desconforto dos novos muros da Europa.
Caíram os muros políticos mas ergueram-se os económicos e os financeiros, construídos dos tijolos da incompetência de quem só se preocupa em governar-se, de quem para se governar, cultiva a diferença, de meios e de oportunidades, que tal como as anteriores divisões políticas, nos condicionam e matam a liberdade.
Penso no Presidente Kennedy quando a 26 de Junho de 1963 afirmou junto às Portas de Bradenburgo: “Ich bin ein Berliner” (“Eu também sou um Berlinense”).
Após estas palavras, o outro muro levou vinte e seis anos para cair.
Espero e tudo farei para que os novos muros não levem tanto tempo.
Viva a liberdade.

sábado, 19 de maio de 2012

Gargalhadas de vida

Sempre esse maldito i-phone colado ao teu ouvido, até parece que já nasceu aí.
Gosto quando o desligas e te sentas aqui comigo na esplanada para tomar um café.
Falamos da vida, falamos de nós sem nos pormos rótulos e sem camuflagens gozando desse prazer supremo que é poder ser nós mesmos e saborear a liberdade e a verdade.
Partilhamos as viagens. Tu não paras e o mundo para ti já é demasiado pequeno, tantas vezes o sobrevoas. Recomendas-me o hotel de Berlim, os restaurantes de Amesterdão. Falamos da Espanha que nos encanta, das Tapas, da Mónica Naranjo, de Almodovar, da Chueca… Falamos dos finais de ano em Time Square.
E trabalhamos muito. Com o Esteves, a Cristina, a Alexandra, a Margarida…
Adoramos o que fazemos e estamos focados no êxito porque não somos feitos da raça de perder. Combinamos as tácticas, os projectos e metemos mãos à obra sem medo e sem perder tempo. Da nossa energia sabemos que nascerá o sucesso do sul, do Alentejo que é meu por berço e teu por adopção.
E é no sul, em Évora, Beja ou Faro, que noite dentro e após o trabalho, nos juntamos ao Santana, ao Vinagre, à Teresa, ao Estevão, ao Amaral, aos Nunos e ao Mário, para celebrar a gargalhadas, o êxito e a amizade fantástica e confortante que nos une a todos.
As tuas gargalhadas insuflam-nos vida.
A vida que tu carregas e de que não desistes nunca.
Encontrámo-nos há pouco quando já há meses os nossos trajectos profissionais tinham sido separados.
Falas-me da vida, do futuro, do regresso à universidade.
Lembramos todos os amigos, para dessa fonte da memória matarmos a saudade dos bons tempos antigos.
Mas meu amigo, jamais nos ocorreu em todo este tempo, que quem vive assim tão intensamente e dessa forma tão entusiasta se entrega à vida, torna-se maior que a própria vida e cedo conquista o estatuto da eternidade, partindo cedo para o destino dos grandes, dos únicos.
Aqui na terra, ficas em nós porque jamais morrerá o eco da felicidade que deixaste em cada um.
Até sempre, até um dia, meu amigo Pedro.
We will miss you!

sexta-feira, 18 de maio de 2012

O historiador, o amnésico e a culpa solteirona

Em Portugal, o desemprego atinge números elevados e nunca vistos anteriormente.
Por não terem emprego nem o vislumbrarem no futuro, só no primeiro trimestre deste ano, mais de cinquenta mil jovens abandonaram o país.
Por estas duas notícias me terem acompanhado hoje ao pequeno-almoço, permiti que o debate parlamentar de hoje sobre economia e emprego me entrasse pelo tempo de almoço, tendo-me dedicado a escutar a troca de argumentos entre o actual governo e a bancada da oposição composta por aqueles que há um ano eram governo.
O circo da miséria e da falta de vergonha e pudor.
O vazio de ideias que nos mata definitivamente o futuro.
Em Portugal, os políticos são actores que alternam ciclicamente entre dois papéis: o governo e a oposição.
São sempre os mesmos, só mudam os papéis e claro, o sítio onde se sentam no hemiciclo.
Ao vestirem a pele de governo, os políticos transformam-se em especialistas de história, invocando-a sem tréguas para explicar um presente que é sistematicamente visto como uma prenda envenenada recebida como herança dos antecessores.
Os actores da oposição cedo aprendem o seu novo papel, muito mais cómodo, diga-se, e de forma despudorada cobram e responsabilizam os do governo, esquecendo-se dos seus desempenhos passados.
E a culpa, a responsabilidade pelo que temos?
Fica solteira e órfã naquele vasto território que abarca o passado e o presente, e que por ser tão vasto, é terra de ninguém e onde tudo se dilui.
Não há responsabilidade e sobretudo não há ideias nem soluções.
Não há coragem nem acção para afrontar os problemas, colocando o cidadão e o bem comum acima de quaisquer interesses pessoais e de grupos.
Mais atentos, descobrimos que neste nosso teatro, dos actores, de uns e de outros, saem cordas que os transformam verdadeiramente em marionetas e que os seus movimentos e ritmos são ditados pelos interesses dos muito poucos que têm muito, dinheiro e poder. E até daqueles que lavam mais branco os estranhos capitais.
É tudo isto que nos esmaga, disto se faz a crise.
É disto que fugimos e é tudo isto que nos compromete definitivamente o futuro.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Lusitanos

Estar só e calado à mesa de um café em Zurique, depois de ter pedido um capuccino, em Inglês, não colocou quaisquer entraves ou inibições, ao diálogo que um casal de Portugueses mantém na mesa ao lado da minha.
Vejo-os pelo canto do olho, discretamente, estarão na casa dos cinquenta, ele ao estilo Mister Restaurador Olex 2012 e ela de cabelo armado e ao jeito muito próprio e eterno da D. Madalena Iglésias, mas num louro tal que aparecido em Fátima daria impressão de novo milagre do sol.
Ele e ela, falam de amores, e eu não posso fugir ao incómodo por estar a escutar. Mas o capuccino está quentíssimo.
Volto a olhar para eles.
Pela conversa tive por momentos a impressão de que se trataria do Tony Carreira e da Ágata, em parceria artística e partilha de letras de canções.
Amor, ciúme, traição, o picante do ilícito…
O Português é romântico e eu já poupei uma ida ao Pavilhão Atlântico.
Pimba.
Regresso a Portugal e talvez mais movido pela curiosidade estilo visita ao Ground Zero de Nova Iorque, do que pela necessidade de compras, entro no Pingo Doce que fica próximo de casa.
O ambiente está calmo apesar das filas longas e dos carrinhos muito cheios.
Vou para a fila mais perto da entrada, a única que tem uma funcionária de bata branca, antecipo que a alva farda será pelo facto de estar situada mesmo em frente do armário dos medicamentos.
A fila avança lentamente até ao momento em que um senhor com o carrinho carregado de gelados, descobre que o preço que lhe estão a cobrar é muito superior ao da anunciada promoção que o levou à sua aquisição.
Dá-se uma réplica do “”Terramoto de 1 de Maio de 2012”, são trocados impropérios entre o cliente e a funcionária, que num ápice, de farmacêutica pré-fabricada passou a “peixeira”, de mão na anca, avental preto e socas.
Olho a cena de longe e aprecio este inolvidável momento de Revista à Portuguesa, improvisado e de qualidade.
Parque Mayer? Para quê?
De facto somos assim, e assim gostamos de gastar energias e libertar-nos das amarras da crise. Dentro de nós há sempre uma Ivone Silva ou um Vasco Santana, em estado lactente.
Somos “pimbas”, gostamos do amor fatal e qual Romeu e Julieta?
O fado é nosso.
Mas também, lusitanos, aqui ou pelos quatro cantos do mundo, se não fossemos assim, não teríamos tanta graça e não seriamos tão bons como realmente somos.
Eu, lusitano me confesso.
E até me chamo Quim Barreiros.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Totus Tuus

Faz hoje precisamente 30 anos que o Papa João Paulo II visitou Vila Viçosa.
Etapa da sua visita a Portugal, um ano após o atentado na Praça de S. Pedro, em Roma, foi à sombra do “Pomar das Laranjeiras” que o Papa falou aos trabalhadores da terra durante uma Celebração da Palavra. Viviam-se ainda primaveras e verões mornos no período pós - Reforma Agrária.
Desde essa manhã de sol de Maio que Vila Viçosa passou a ser a única localidade do continente Português,a sul do Tejo, que foi visitada por um Papa, sendo a “nossa” Igreja dos Agostinhos, o único templo que no mesmo território, mereceu a singularidade da visita da figura máxima da Igreja Católica.
Foi um dia que ficou na história de Vila Viçosa e muito particularmente na história de cada um de nós.
Tínhamos começado cedo a preparar a visita, e sem dificuldade pois há séculos que nós Calipolenses, nos habituámos a receber visitantes ilustres.
Colocámos colchas em todas as janelas, brancas e amarelas, as cores do Vaticano na Avenida dos Duques de Bragança, brancas e azuis, as cores de Vila Viçosa, na Avenida Bento de Jesus Caraça e na Praça da República. Nas restantes janelas, colocámos as que melhores tínhamos independentemente da cor.
Espalhámos rosmaninho pelas ruas da Vila, o que associado à flor das laranjeiras e aos jarros e giestas com que estava decorado o altar, proporcionou a todos o melhor cheiro dos nossos campos.
Tocaram todos os sinos das nossas Igrejas na hora em que pela manhã os três helicópteros aterraram no Terreiro do Paço, num toque efusivo de uma festa jamais julgada possível. Por certo nem os nossos antepassados que fizeram subir os sinos aos campanários, nem nós que há tantos anos os ouvimos tocar, julgávamos possível que um dia as badaladas do seu repicar seriam sinal da chegada de um Papa.
Na véspera houve festa pela noite dentro, e o dormir e o descanso, ficaram para mais tarde quando o Papa já tinha partido. Com os meus amigos de sempre, montámos arraial na encosta do Castelo em frente à Caixa Agrícola e ao Correio, e juro-vos que quase não demos pela noite passar. Toda a noite, rezámos cantando, e fizemos aquilo que mais gostamos de fazer, rir.
Esperava-se uma multidão que afinal não foi assim tão grande, não se tendo concretizado as previamente identificadas oportunidades de negócio. Muita gente pensou que os peregrinos chegariam com fome e vai de montar bancas para vender centenas de sandes. Como a venda se ficou pelas poucas dezenas, houve comida em excesso para os animais nos dias seguintes. A única vítima mortal a lamentar desta visita foi até um célebre burro pertencente ao Senhor Galinho que tendo tido acesso a um grande recipiente onde as sandes amoleciam em água para lhe dar comida nos dias seguintes, as atacou todas de uma vez, tendo morrido embuchado.
Mas deixemos as histórias satélite e foquemo-nos no essencial.
O Papa falou de um altar montado na encosta em frente às Portas de Évora, para onde foi transportado o andor com a imagem de Nossa Senhora da Conceição. 336 anos depois de D. João IV ter coroado esta mesma imagem como símbolo da entrega do seu, do nosso Reino, à Imaculada Conceição da Mãe de Cristo, há uma Papa vindo da longínqua Polónia, o Papa do Totus Tuus a Maria, que lhe repete o gesto, entregando e confiando por certo à Virgem, o mundo nas conturbadas últimas décadas do século XX.
Para que conste na história, recebeu o Papa em Vila Viçosa, a segunda figura do Estado Português, o presidente da Assembleia da República, Dr. Oliveira Dias, tendo sido anfitrião maior e acompanhado Sua Santidade em todos os momentos na nossa terra, D. Maurílio de Gouveia, Arcebispo de Évora.
Foram oferecidos a João Paulo II, uma imagem em mármore da Senhora da Conceição, uma medalha em ouro, um capote, etc. O Papa ofereceu a Nossa Senhora um círio da Basílica Romana de S. João de Latrão.
Eu vi o Papa.
Já na descida da Avenida e no regresso ao Terreiro do Paço, junto à Casa dos Cantoneiros, e porque o carro que transportava o Papa era aberto, tive o privilégio de o ver a uns cinco metros de mim.
Tocou-me o seu olhar, e a serenidade que recordo até hoje.
A vibração do momento não foi dada apenas pelo histórico da ocorrência, é preciso entrar nos territórios da fé para lhe dar a dimensão devida, enorme.
Porque os santos serão sempre a expressão de Deus posta na vida dos Homens.

domingo, 13 de maio de 2012

A laranja nº 200

Esta é a 200ª laranja produzida neste Pomar e por isso quero torná-la especial.
Sumarenta e mais doce que todas as demais, produzo-a directamente para todos vós, os meus queridos amigos, agradecendo por ela e com ela, a vossa amizade, companhia e presença que deu sentido a estes dois anos feitos de partilha, de comentários, escritos ou não, de palavras mais ou menos envergonhadas, dois anos de sentimentos expressos por lágrimas, saudade e risos, dois anos cheios de muitos e bons incentivos e de algumas e legítimas críticas. Será sempre a diversidade a alimentar e a garantir a riqueza da humanidade.
Dois anos em que consegui o que mais queria: estar junto de vós, alimentar os meus dias da vossa amizade e reforçar os elos fortes que a vida, de forma privilegiada, nos ofereceu para que nos mantivéssemos unidos.
Só pela vossa amizade foi possível manter e reforçar as memórias, não deixar morrer a história, da terra, dos nossos e de todos nós, foi possível pensar e repensar o presente, sempre no sentido de sonhar o futuro, que não poderemos nunca desistir de tornar maior e melhor do que tudo.
Porque é esse o nosso inevitável destino, e porque a esperança e a fé a isso nos obrigam.
Pomar das Laranjeiras ou dos Amigos, o encontro da orgulhosa família dos eleitos dos meus afectos.
Estarei sempre por aqui. Prometo-vos e ofereço-vos esta certeza.
Mas contando sempre convosco.

Cuidados paliativos

Confesso-vos que sou por natureza, um optimista, e mesmo quando me sinto cair, acredito sempre que estou a meio de um processo de tendências positivas, num movimento que me oferecerá o balanço para chegar mais alto. Recusando as visões catastróficas e negativas, olho sempre um copo meio de água na perspectiva de meio cheio.
Porém, e apelando ao bom senso, tento temperar de realismo esta perspectiva positiva pois um optimista que não o faça, arrisca-se a ultrapassar a linha da insanidade mental, expondo-se à situação do “totó” e do “parvinho contente”.
O nosso primeiro-ministro é como eu, um optimista, e tem, pelas suas afirmações mais recentes, uma perspectiva positiva do desemprego, reconhecendo que ele carrega a oportunidade para qualquer cidadão mudar de vida e chegar mais longe.
O problema é que se esqueceu de temperar o seu optimismo com o bom senso, e mais do que isso, com o respeito e o sentido de estado.
O desemprego atinge em Portugal números nunca antes vistos e arrasta para situações de pobreza muitas vezes extrema, indivíduos e famílias que lutam desesperadamente pela sua sobrevivência, numa fase da vida em que era expectável, pelo seu curriculum de cidadãos e contribuintes exemplares, não serem beliscados na sua dignidade.
Perante este flagelo do desemprego, exige-se a um primeiro-ministro que aponte soluções, e que congregue os esforços de toda a sociedade civil, para que o emprego cresça de forma eficaz.
No quadro actual, afirmar que o desemprego é uma oportunidade, é uma manifesta falta de respeito por todos os concidadãos, é uma declaração de rendição e é passar a si próprio um atestado de incompetência relativamente à resolução deste problema grave, talvez o mais decisivo na sociedade portuguesa actual.
Assemelha-se esta atitude à de um médico que perante um problema sério de saúde e que implique morte iminente, se limita à prescrição de cuidados que minimizem o sofrimento porque para além disso nada mais há a fazer.
Só que neste caso, os “TACs”, “Radiografias”, “Ressonâncias” e “Análises Clínicas” do meu optimismo e da minha esperança, me dizem que pode haver solução, recusando-me eu a aceitar a inevitabilidade de um desfecho negativo e a alinhar apenas nestes cuidados paliativos.
Talvez tenhamos é de mudar de clínica, de tratamento e muito possivelmente de médico.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Velha Europa


Do Centro de Congressos de Florença, na Fortezza da Basso, até ao meu hotel, a dois passos do Rio Arno, tenho o privilégio de um fim de tarde muito especial, caminhando tranquilamente por uma das cidades da Europa que carrega mais e melhor história.
Avanço por ruas estreitas de bairros muito populares e chego à zona entre o Mercado de S. Lorenzo e a Igreja dedicada ao mesmo Santo, e Panteão dos Médici, deixando de ver as portas das residências porque o meu caminho fica então ladeado por infinitas barracas de souvenirs, oportunidade para comprar couros e tecidos. Paro para comprar uma T-shirt e o rapaz, de Calcutá, na Índia, aproveita para fazer um estudo de mercado sobre os novos modelos de camisolas para a época de verão. Entre uma bandeira italiana e uma vespa, lá lhe dou a minha opinião, pago a T-shirt e sigo.
Estou a chegar à zona da Catedral, a Duomo, e as barracas já desapareceram, dando lugar a cafés e lojas de marcas de luxo, daquelas em que só nos é permitido desfrutar das montras.
Faço slalom entre turistas do Brasil, do Japão e dos Estados Unidos da América e decido afogar as mágoas num gelado, sem açúcar, num dos restaurantes bem situados cuja esplanada tem vista, tal como o quarto de Forster a tinha também para esta cidade de Florença.
Sento-me com o meu gelado e estou rodeado de Americanos que comem pizzas, bebem vinho tinto e se preparam para concluir a refeição com grandes taças de morangos com natas. Estão afogados em sacos das ditas lojas de marca.
Falam alto, num tom que causa arrepios. Penso:
- Venham os Espanhóis que estão perdoados.
Sigo o meu passeio, chego à Piazza della Signoria continuando o slalom, paro e deito uma espreitadela fugaz ao falso da David, ao jeito de:
- Olá Tio David está bom?
E sigo na multidão até à Ponte Vecchio, entregando-me depois à solidão das estreitas ruas do burgo medieval que me trazem ao hotel, não sem antes resistir a entrar na Iglesia de la Trinitá, procurando um pouco de paz para o físico e sobretudo para o espírito.
Fim de tarde em Florença, nesta Europa transformada num parque temático de história onde são explorados os indivíduos do “terceiro mundo” e a que ocorrem os compatriotas da Fitch e da Standard & Poors para se rirem e gozarem com as nossas caras.
Uma Europa em agonia que legitimamente espanta os líderes que a trouxeram até aqui a um ritmo quase idêntico ao que os pacotes de víveres desapareceram no dia primeiro de Maio das prateleiras do Pingo Doce. A propósito, saúdo o Hollande que fez com o Sarkozy descesse dos tacões que lhe davam uma altura “Bruni”.
Uma Europa onde nós Europeus, secos de Euros e à procura de paz de espírito, jamais nos poderemos deixar secar na garra e na vontade de continuar a nossa própria história de progresso e liberdade, e marcar com sucesso, os dias e o destino.

domingo, 6 de maio de 2012

Maria Inácia


Mãe, jamais quero sair daqui, deste abraço doce e perfeito do teu olhar sobre mim, este despojado mirar, meu eterno abrigo, templo do amor maior nascido da abnegação e da força de conseguir amar muito mais do que saber amar-se a si.
Mãe, meu infinito superlativo de amar.
Mãe, a minha paz é o teu sorriso, o meu alento as tuas palavras, as tuas mãos o meu guia, e os teu beijos, esses tantos que te dou em mil abraços, são o insuflar da vida feliz dos meus sonhos tornados realidade.
Mãe, terá sempre o teu nome, o meu grito na noite e nos perigos, será sempre, mãe, que me ocorrerá no medo. Mãe, certeza, segurança, força e esperança deste menino que por ti e para ti, jamais desistirá de o ser.
Mãe, por mais que o tempo passe e por mais que o espelho insista em desmascarar-me o sonho, não quererei nunca deixar de estar aqui sentado ao teu lado, em tardes de estio sem uma brisa mas com marca de eternidade, nesta cadeira pequena de tinta, cor e flores garridas de Alentejo, para que entre os teus infinitos pontos, alinhavos, chuleios e cerzidos, que sabem a pão, me ensines a ser grande, a ser um pouco como tu és, porque, mãe, tu és maior que tudo.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

“Campeon”

José Mourinho, treinador do Real Madrid, é campeão de Espanha.

Para muitos e para mim é o melhor treinador do mundo.
Por ser bom, por ser o melhor, por saber que o é, por ter orgulho em sê-lo e por querer ser sempre ainda melhor, por cá chamam-lhe arrogante, provando esta nossa apetência para conviver melhor com a mediania e a mediocridade do que com a excelência, para além de sermos alérgicos ao sucesso dos demais.
Exemplo de liderança e de eficácia e competência na condução de uma equipa com vista ao sucesso, José Mourinho é afinal um exemplo a seguir que caso se multiplicasse em múltiplas áreas, tornaria Portugal bem melhor.

Parabéns José Mourinho.

Um doce pingo sobre a revolução


Damaia, 1 de Maio de 2012 / 8.30 Horas
Na sua residência na Damaia, Maria da Piedade Faísca acorda ao som do rádio despertador que comprou numa excursão da VEFA a Alcácer do Sal. Sintoniza a Rádio Romântica sempre na esperança de que o “éter” lhe ofereça o som do seu querido Tony Carreira.
Hoje é feriado, o que é pouco relevante para uma reformada como ela, mas por ser primeiro de Maio vai cumprir o seu programa habitual deste dia, sempre em conjunto com a sua amiga Maria Inocência Rebimba, e que há muitos anos consta de uma ida ao Cemitério do Alto de S. João à campa dos seus falecidos, antigos companheiros na Guiné e agora sepultados no talhão dos combatentes.
Como todos os anos, descerão a Morais Soares até à esquina com a Almirante Reis a fim de se incorporarem na manifestação da CGTP, acompanhando-a até à Fonte Luminosa. Aqui ouvirão os discursos, gritarão palavras de ordem e comerão umas farturas, que costumam ser boas nas barracas dos feirantes que se instalam por ali.
Na mesa do hall de entrada lá estão já dois cravos vermelhos comprados numa loja de chineses, que os naturais estão caros e estes sempre podem durar mais tempo.
Há que manter viva a chama da luta anti-fascista em que sempre acompanharam os seus maridos, e este ano, 15% de desemprego está mesmo a pedir muita “gritaria”.


Damaia, 1 de Maio de 2012 / 12.00 Horas
Maria da Piedade e Maria Inocência estão as duas há uma hora numa longa fila à porta do supermercado Pingo Doce. Alertadas pelas notícias não resistiram a vir até aqui e aproveitar as promoções de 50% para compras acima de 100€.
Apesar de não terem grandes reformas, esta é uma oportunidade de ouro para usar algumas poupanças e compor os frigoríficos e as despensas das suas casas.
Ainda estão longe da entrada da loja, manifestam as saudades do Gouxa por terem perdido o seu programa mas estão distraídas à conversa com um casal vindo da Buraca, que chegou um pouco depois delas e que começou logo por comentar que a fila por lá ainda estava maior.
Já falaram dos filhos, dos netos, do custo de vida e do desemprego tendo repetido já por 23 vezes a frase:
-Onde é que isto irá parar?


Damaia, 1 de Maio de 2012 / 15.30 Horas
Sentadas à frente de duas meias de leite e de duas sandes mistas numa das cafetarias do Pingo Doce, as duas amigas e os seus respectivos carrinhos de compras “atacados” de detergentes e comida, esperam pela chegada do filho da Maria Inocência para que este, no seu automóvel, as possa levar às suas casas porque esta quantidade de produtos são impossíveis de transportar à mão por duas senhoras já na casa dos setenta.
Comentam a poupança e lamentam a falta de organização pois no interior da loja não havia espaço sequer para respirar.
- Deveria haver mais polícia.
Sugere Maria da Piedade.
- E também mais caixas para reformadas.
Acrescenta Maria Inocência.
- É verdade amiga Inocência, que aqui estou eu derreada dos quadris por tanto encontrão que levei.
- E as pisadelas que eu levei nos joanetes?


Damaia, 1 de Maio de 2012 / 20.10 Horas
Após o jantar e enquanto espera pela telenovela, Maria da Piedade não tem outro remédio senão ver o telejornal.
Hoje até tem algum interesse, após 10 minutos a darem imagens da “Guerra Pindo Doce” vai matar saudades da manifestação da CGTP na Alameda, a que faltou após tantos anos de participação ininterrupta.
- Está pouca gente.
Pensa para consigo. Continuando...
- O tempo está mau e depois os transportes estão pela hora da morte.
E conclui:
- E depois, este novo líder não parece ser muito forte nos discursos e a motivar a malta.


Damaia, 1 de Maio de 2012 / 23.00 Horas
Acabou a telenovela e Maria da Piedade está a apagar as luzes de casa para se ir deitar.
Vai mais uma vez confirmar que a porta está bem trancada e dá de caras com os cravos vermelhos de fantasia comprados na loja chinesa.
- Vou guardá-los. Para o ano por certo darão jeito.
Ao abrir a gaveta e ao colocá-los dentro, ainda pensa:
- Malditos chineses. Fazem isto numa perfeição.
E continua:
- Um dia Portugal será deles. Até já temos de lhe pagar luz.
Rematando:
- Ai país de Abril, onde é que a gente irá parar?


E agora digo eu:
- De promoção em promoção até à gaveta final.