terça-feira, 30 de junho de 2015

Diário de bordo


Os dois cálices de Porto desentorpecem e soltam as confidências, mas com muito pouco de novidade nas palavras, habituados que estamos os dois à linguagem dos olhares e dos gestos, os infalíveis fiéis à verdade incapazes de respeitarem quaisquer silêncios que lhes sejam sugeridos.
Eu amo-te, e o meu braço que te envolve inquieto desde o Chiado e a mão que te acaricia a cada minuto às vezes incompleto, não se têm cansado de o dizer.
Porque o amor que semeias em mim transborda, suplanta todos os poros e todas as expressões; sinto-o aqui nesta mesa onde estamos frente-a-frente à sombra de uma casa de Lisboa.
E entre nós, o néctar fresco da cor do ouro vai-se sumindo aos poucos nos tragos que enfeitam as palavras que falam de nós.
Vejo-te perfeito e faço-te uma foto.
Como se a minha memória pudesse alguma vez trair a eternidade guardada no teu olhar que abençoa este instante?
Depois voltamos a caminhar...
Não tardamos a sentar o nosso abraço à proa da cidade, olhando o rio e desfolhando uma história que hoje vem enfeitada pela flor de uma sardinheira lilás que atravessou comigo todos os verões.
Sentimos a brisa e sentimo-nos definitivamente heróis desta pátria dos sentidos conquistada após tanto navegar.
Enquanto os Cacilheiros desenham no Tejo uma estrada de espuma, nós damos um beijo e rogamos ao tempo que passe devagar; queremos sentir cada segundo destes quantos que nos levarão juntos até à noite.
A noite mãe de uma tenda que o luar coroa e onde nós entramos, a casa onde desdobramos a alma, decompomos os muros das reservas, e nos aconchegamos por entre a partilha de doces segredos.
Cada tijolo que cai revela-me de ti o desejo nascido em mim pela vontade, e oferece à nossa história todos os anos que eu já vivi.
Depois adormeço a pensar em ti… mas sempre à proa da cidade.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

O velho, o anjo e o paraíso



Diz-se na minha terra que sempre que um anjo parte para o Céu escolhe um velho para lhe ensinar o caminho e seguirem juntos.

A Tia Maria, irmã do meu avô Joaquim, foi uma das mulheres que mais me marcou a vida, e de forma muito positiva.

Companheiros nos serões de muitos anos quando eu ia dormir a sua casa para lhe fazer companhia, acabávamos quase sempre por abdicar da televisão para estarmos os dois à conversa. Foi com ela que aprendi a contar histórias e foi ela quem me ensinou a gostar de Lisboa, a cidade onde tinha vivido muitos anos e que era palco central da "Crónica d'El Rei D. João I", do Fernão Lopes, que líamos em conjunto. Também foi ela quem me provou que o bom é péssimo quando temos condições para ser excelentes, e que sermos exigentes connosco próprios é a raiz de uma árvore que dará bons frutos.

A Tia Maria que tinha nascido ainda nos tempos da monarquia partiu faz hoje precisamente 20 anos no dia a seguir à partida de um anjo que o Céu convocara inesperadamente. E sentados na Igreja de Santo António num dia quente como o de hoje, recordo-me de alguém ter lembrado a viagem conjunta que faziam.

Ontem a minha amiga Maria Vicência lembrou a partida do seu anjo por entre uma dor que é sua e que nós nunca conseguiremos imaginar e eu resgatei da memória esta história.

A Tia Maria seguiu com o melhor anjo, o filho querido da Vicência, e o anjo teve o "velho" mais sábio e fantástico para o acompanhar.

Vejo-os daqui sentados os dois no paraíso à sombra de um limoeiro, na margem fresca de um regato a contarem histórias um ao outro e à nossa espera.

Com flores, sei que a Tia Maria me perguntará na chegada e como sempre:

- O que é que fizeste hoje? Quando nos deitarmos temos de ser melhores pessoas do que quando acordámos.

E o seu anjo sorrirá por certo e passaremos a tarde a contar histórias.

Por entre as flores.

domingo, 28 de junho de 2015

Enquanto as hortênsias da Praça se espreguiçavam de cor ao sol do meio dia

O sol em brasa, quase a pino; não tardará já o instante em que no campanário soem as badaladas do meio dia.

O verão pede incessante a sombra de uma laranjeira, há vasos de hortênsias ao redor da Fonte da Praça, as mesas do Restauração fazem-se tronos de um império de riso e palavras à solta.

Vila Viçosa...

Há recantos e instantes que serão sempre a nossa casa; uma eterna casa, mesmo que o tempo a vá redesenhando, colocando novas varandas, alterando as portas e as janelas, oferecendo-lhe inéditas dimensões...


O tempo e tudo o que dele fomos fazendo nos dias intensos de quem vive e sorve a vida até ao mais ínfimo detalhe.

Estamos sentados, somos quatro, amigos daqueles de sempre e no parapeito de um tempo, de uma nova varanda de onde podemos ver-nos e escutar-nos por ali a brincar nas manhãs de verão iguais a esta.

Foi há muito pouco mas já passaram bem mais de trinta anos; eu já não vou virar para a Rua de Três, a Zinha não vai subir a Praça até à Rua dos Fidalgos, a porta da casa da mãe do Manuel está estranhamente fechada, e a loja do Senhor Domingos, o pai do João Paulo também já não existe.


As dores do tempo são as saudades, muito mais do que as rugas; que essas até as disfarçamos numa gargalhada.

Mas por sobre quaisquer cinzentas saudades existirão sempre  as cores garridas e ousadas do presente, o único tempo verbal capaz de fazer acontecer... e de nos fazer acontecer.

E no parapeito da nossa nova varanda e tendo como som de fundo a banda sonora das manhãs de há décadas, soletrámos vontades, fizemos planos, mas sobretudo vivemos e saboreámos a amizade sem ter outras inquietações.

Um dos maiores benefícios do Alentejo é ensinar-nos a nunca desperdiçar segundos de vida acelerando na pressa.

O tal sorver a vida...

E nós deixámo-nos acontecer em tudo e nas palavras emergindo o melhor de nós enquanto as hortênsias da Praça se espreguiçavam de cor ao sol do meio dia.

Por entre aquilo que nos levaram, os dias têm-nos trazido coisas tão boas... e estamos fantásticos.

Eu desci a Corredora a tecer um poema de amor envolto pelo céu que me abraça.

sábado, 27 de junho de 2015

Milhares de mundos numa noite de insónia

Cabem milhares de mundos numa noite de insónia daquelas em que um mosquito nos assalta o ouvido com o seu voo e em que nos auto-infringimos um estalo que o visa liquidar, um gesto que à posteriori percebemos ter chegado atrasado porque o zumbido cresceu de intensidade... quiçá pela revolta...

O calor e a incessante busca do lado fresco da cama que o nosso corpo esmaga em segundos...

A esquerda e a direita por entre a fé de que a próxima viragem de corpo é que me vai trazer o sono...

O aliviar da bexiga e o crer por momentos que esse órgão é responsável pela ausência de sono...

Um copo de leite frio...

O caderno vermelho...


Há poemas acesos no ar tingido pelo aroma das rosas que o teu olhar beijou, e as palavras tantas que por eles me acodem à lembrança sinto-as tão minhas de verdade.

O sol intenso que a cal reflecte e me envolve no dia quente do sul tomou o jeito dos teus braços que me conhecem de cor, e oferece-me aquele doce desassossego que o meu querer pede por entre um vazio chamado saudade.

O chão das pedras que o verão queima canta agora o eco dos teus passos, as ruas tomaram nomes herdados dos gestos e das novas palavras que nelas semeaste, e as laranjeiras são tectos verdes e informais da vontade incessante de beijos...

Na noite de quente de Vila Viçosa, entre mim e o silêncio interpõe-se o toque de uma gaita de foles que a Feira Renascentista trouxe aqui até à porta; e assim, entre mim e o sono passas tu a caminhar no pensamento que nunca cessa.

Já não me recordo do mosquito.

Tu passas e ficas comigo até eu adormecer.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

À porta da Sala 7


Na minha Escola Secundária em Vila Viçosa, a Sala 7 tinha acesso por uma escada que descia do corredor do primeiro andar, mas tinha também uma porta de madeira pintada de verde que dava acesso directo ao pátio na zona do poço onde muitas vezes nos sentávamos à conversa durante os intervalos.
Ali mesmo ao lado, o Paço Ducal e a torre da capela que dava as horas por sobre o Jardim do Bosque, lembravam-nos sempre que naquele espaço não existia pequeníssima pedra que não contasse uma história da História de todos nós. E pela ousadia dos 15 anos e instigados pela liberdade dos últimos anos da década de setenta, jurámos muitas vezes reescrever a História tornando-a nossa pela expressão da mais acérrima vontade.
E sonhámos tanto entre os limoeiros reinventando-nos em tudo e até nos gestos e nos vocábulos.
No último domingo fui visitar o Paço Ducal e já de saída dei por mim à porta da Sala 7.
Activado o espelho da memória consegui reconhecer-me em tudo.
Na ousadia, na liberdade, na amizade franca e imensa que nos unia a todos e, mesmo tendo passado trinta e tantos anos, ainda consegui recordar-me do sítio por ali que oferecia melhor ângulo para discretamente ver passar a minha primeira paixão quando atravessava o pátio.
- Por onde andaste tu a navegar marinheiro dos olhos castanhos que tantas vezes sobre estas pedras pediste para a sorte te trazer o mar?
- Andei pelo mundo minha boa sorte, percorri serras, continentes, muitas terras... levei muitos anos e encontrei o mar.
- O mar...
- Sim esse mesmo. Prepara-te que hoje é a tua vez... escolhe o melhor ângulo porque eu trouxe-o para te apresentar.
E há manhãs que ganham assim o irreversível tempero do melhor e mais ambicionado destino.
A nossa história que acontece.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Os apaixonados escrevem cartas de amor nos instantes do entardecer


Meu amor
Parado à esquina do entardecer de um dia qualquer, que muito pouco importa qual por ser eterno o sentir que as palavras ditam, escrevo-te feliz uma carta de amor.
Talvez resulte tão patética quanto todas as missivas dos enamorados, barroca no excessivo floreado a ouro de quem se sente num trono imenso; quiçá fique até a dever pouco à criatividade.
Mas hoje... quando ao longe vejo o céu ateado pelo sol em cor de fogo, o mesmo sol que se vai apagando aos poucos num oceano que perde o azul em absoluta rendição à noite; eu senti um impulso e escrevo-te antes que cheguem as estrelas e eu me distraia… a pensar em ti.
Preciso dizer-te que te amo tanto que jamais morrerei de amor por ti, muito pelo contrário, quero deixar-me estar sempre aqui a viver de amor por ti, eternamente.
Não te faço juras de amor pois tal pressupunha a hipótese de um não amar-te, que definitivamente não existe.
Também nunca te direi que me perdi de amor por ti porque realmente me encontrei no amor por ti.
Jamais te amarei cegamente porque tudo neste amor é bom de ver e tu és o mais bonito do mundo.
Não sugiro que por ti vá buscar a lua ou roubar os anéis de saturno porque contigo o universo é tão perfeito que não quero alterá-lo no mais ínfimo detalhe que seja.
Não prometo casar contigo. A forma como te quero, como te desejo e penso em ti dispensa qualquer suplemento legal; e depois, eu sou tanto mas tanto mais do que aquilo que de mim fala o Cartão de Cidadão. E todo esse tanto já é teu.
Não trocarei alianças contigo. Não precisamos. Os nossos olhares expressam a fidelidade de uma forma mais completa e verdadeira do que qualquer detalhe que o ouro possa conter.
Mas sim, sonho ver contigo todos os entardeceres a partir de uma varanda caiada e debruada de azul, sentindo os dois que o sol se apaga na seara rendida à noite.
E de cada uma dessas nossas noites faremos um abraço onde viveremos para sempre.
Já pressinto as estrelas e por isso vou ter de acabar de escrever deixando-te mil beijos por entre dois corações, cada um de sua cor, mas que juntos fazem um país imenso.
Teu para sempre,
Francisco

quarta-feira, 24 de junho de 2015

A saudade parece sossegar a cada palavra que te escrevo


A saudade parece sossegar a cada palavra que te escrevo, palavras colhidas dos instantes que o pensamento vai arquitectando e se sobrepõem ao silêncio aonde me sento.
Instantes que te trazem definitivamente ao meu mundo e à minha história fazendo com que todos os meus silêncios guardem afinal uma face escondida, mas doce e perfeita, onde tu estás.
Onde tu sorris como mais ninguém.
Não há horário, acesso, escada, transporte, túnel… o pensamento faz-te eterno em mim, na verdade e no mundo que a minha vontade desenhou.
Hoje vi-te sentado comigo numa varanda em frente ao mar, vendo ao longe o azul mas sentindo bem perto a brisa que traz sempre o sal até nós. Líamos os dois fazendo uma pausa para mudar de página ou então para um beijo breve… com o olhar.
Sobre a mesa uma limonada ainda fresca e uma jarra de flores garridas mas de nomes indecifráveis colhidas num recente passeio ao campo.
Não fora o chilrear dos pássaros, o vento muito suave a agitar a folhagem e os parágrafos que não resistimos a partilhar um com o outro, e nada mais se faria ouvir.
E por entre este estar assim tranquilo, o corpo pediu-me loucamente um abraço.
Regressei por instantes ao silêncio, reparei nas mãos vazias, vi que não estavas ali; e por entre a saudade escrevi no meu eterno caderno vermelho:
- A fome de te sentir redesenhou as manhãs e fez delas um perpétuo abraço.
E a saudade sossegou enquanto eu regressei à varanda para dar conta de que os dois livros estavam já pousados sobre a mesa e de que eu descansava entre os teus braços.

A revolta dos joanetes


Chegou finalmente o verão, e por estes dias quentes e longos, a moda de 2015 não se fez esperar e chegou intensa, radiosa e... rasteira.
De um momento para o outro reparei que as minhas colegas que antes tinham crescido 10 a 15cm (na altura) se devolviam agora ao seu tamanho original; o de sempre, na ressurreição do ditado que as aproxima da sardinha e da petinga (“a mulher e a sardinha quer-se pequenina”).
Intrigado, fui à procura dos sapatos compensados ao estilo Drag Queen em noite de “Lugar às Novas” no Finalmente Club, e já não os encontrei.
No lugar destas plataformas andantes patrocinadoras do “doping da altura” que aproximou as Portuguesas às Suecas, encontrei umas rasteiras sandálias parecidas com as dos penitentes das procissões da Semana Santa de Sevilha, o que num grupo mais ou menos considerável de mulheres fica a parecer uma concentração de figurantes para uma reinvenção do Ben Hur.
Com saias compridas, também temos a sensação de que a Dulce Pontes sofreu um processo de multiplicação e está em todo o lado pronta a cantar descalça a “Canção do Mar”; ou então de que aquela boneca da Feira Popular que dizia “cinco tostões na mão da Dora que a Dora diz tudo”, se soltou por aí a ler as sinas à malta em ano de eleições.
De facto, foi o “25 de Abril” dos joanetes.
As mulheres Portuguesas fazem dos pés um compêndio aberto de ortopedia e revelam-nos a pujança dos artelhos, dos joanetes, das calosidades, dos dedos mais ou menos encavalitados… ou seja, de tudo aquilo que durante anos viveu nos seus “calcantes” mas de um modo abafado no silêncio discreto dos seus sapatos.
E algumas bem que poderiam continuar a mantê-los em silêncio…
Assim, ganham as pedicuras que têm mais dez unhas como aliadas para ganharem o pão, e ganham os joanetes que se libertam definitivamente de apertos.
Uma vitória dos ditos por goleada sobre nós e sobre o bom gosto numa revolta que em vez de cravos traz unhas (algumas com resquícios de onicomicoses), mas também em geral encarnadas, como manda a tradição.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Procurem-me sempre entre as palavras que escrevo…


Eu sou todas as palavras que escrevo, muito mais do que algo que de mim se possa ver.
Porque se é verdade que o poeta é um fingidor e realmente finge, também é verdade que nunca o faz na alma de onde bebe as palavras e o seu sentido, fá-lo por entre os biombos que os dias tantas vezes lhe impõem.
Por isso eu sou todo o amor que canto...
O amor por ti e só por ti; tu, o único que entendes o sentido de cada letra e o único que pode reconhecer-lhe a verdade.
Não há disfarces e camuflagens para aquilo que se sente e sobre o qual fala o pensamento; e é a essência que nos define, muito mais do que a forma.
Porque também há beijos que são traições, e até os ateus sabem apontar os braços para o Céu.
Por isso as minhas mãos são de quem lhes semeou desejo infinito, muito mais do que de quem lhe possa entrelaçar os dedos nos instantes que o mundo vê. Por isso o meu abraço é infinitamente teu mesmo que às vezes eu chore de saudade estendendo os braços aparentemente vazios, ao silêncio de uma noite de luar em que não estás aqui.
Eu sou todas as palavras que escrevo…
E tendo-te guardado na essência de onde elas nascem, posso dizer que entre nós se calaram as fronteiras; e hoje eu sou o perfume do teu amor sobre todos os dias.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Notas à solta num caderno sem cor

O Primeiro-ministro diz que é um mito urbano, o seu suposto convite à emigração. As mensagens não necessitam ser passadas pelos próprios e o desemprego é tão eficaz a mandar estes recados.

A gente do PS está em choque com o facto das sondagens lhes atribuírem votos em número idêntico ao da coligação do governo. Se estivessem atentos às estatísticas que revelam que em Portugal apenas 1% da população sofre de demência talvez não se espantassem tanto.


No passado 10 de Junho, o Presidente da República condecorou o costureiro da mulher. Aguardo com expectativa o dia em que a minha mãe receberá condecoração pois sendo modista de profissão e estando habituada a fazer saias para mesas redondas de diâmetros avantajados...

O líder do PS diz que nenhum dos seus ministros permanecerá em funções se estiver envolvido em suspeitas de corrupção. Pois... mas gostaríamos que ele dissesse que sobre nenhum dos seus ministros recairiam alguma vez suspeitas de corrupção. Que grande confiança no grupo de potenciais ministeriáveis...

Passos Coelho disse que precisamos de colocar a poesia na nossa vida. À excepção da trasladação do corpo do Eusébio para junto da campa de Sophia, no Panteão, sinceramente não me recordo de qualquer outra aproximação do povo à poesia que ele tenha promovido.

A ex-Ministra da Cultura, a última, afirmou que ao rejeitar a pulseira electrónica, José Sócrates não estava a vitimizar-se, pois estava apenas a pretender ficar numa situação pior. Quem se vitimiza costuma querer apresentar-se numa situação melhor? Parece que Ministério da Cultura já não existe há quatro anos mas o Ministro da Cultura já não existe há muito mais tempo.

Em relação a José Sócrates há quem continue a confundir "Preso Político" com "Político Preso". E os outdoors espalhados pelo país são cá de um respeito pela justiça...

Uma tenda e a nossa casa


No cimo do monte de onde se avistam os campanários, onde os pássaros quase nos beijam no voo das suas asas, e de onde à noite os cachos de luz revelam a geografia que nos rodeia aquém e para lá do Guadiana; construímos uma tenda em lugar seguro.
Sobre o chão da História, por entre as lendas criadas pelo tempo e as árvores que eu conheço de brincar, uma tenda envolta nos aromas das estações do meu calendário de criança.
Depois acendemos archotes para nos alumiarem nas noites mais escuras em que não se sinta a lua, e com a sua chama oferecemos eco e sombra ao abraço eterno e envolto em beijos, que será sempre a nossa forma de lá morar.
A nossa tenda em tons de azul tal qual o céu que se vê nos dias claros e perfeitos.
E que venham tormentas, raios e ventos, que soltem sobre nós ferozes Adamastores em todos os cabos e no dobrar dos dias...
Que venham e nos chamem loucos, infelizes e insensatos.
Resistiremos sempre agarrados à raiz de um amor assim perfeito e eterno.
Até o vento será uma sinfonia.
Esta tenda… este abraço será para sempre a nossa casa.

domingo, 21 de junho de 2015

"NÓS" em Vila Viçosa


Voltarei sempre aqui à minha eterna casa onde a alma se faz maior e transborda de palavras em instantes onde acontece a poesia.

Voltarei e trarei comigo colado aos pés e ao ser, o mundo inteiro que tomei por vontade e ousadia, para me sentar quiçá à sombra de uma laranjeira da Praça e sentir-me perder no tempo e na consciência daquilo que é passado e do que existe e é presente; se tudo isso eu sou em cada instante.

Voltarei para juntar afectos, todos os perpétuos amores, e celebrá-los por entre o abraço terno e constante dos olhares que para mim têm nome e uma história entrançada na minha própria história.

Voltarei para restaurar memórias nas noite quentes do solstício de Junho, beber da paz da água que corre em cada fonte, fazer o olhar tomar cor das sardinheiras que a mãe pôs na varanda e que brilham por sobre o tom alvo da cal...

Voltarei por entre o estio e a calma, mais feliz e completo do que nunca por entre a festa do encontro do berço com o melhor destino.

Voltarei...

sábado, 20 de junho de 2015

Há tanto tempo...



A noite quente denuncia a traição do tempo: já é verão.

Não tardará o solstício, mas este chão em brasa, o forno que o sol todo o dia incendiou, antecipou-se e tem marca indelével de Alentejo e estio.

Conheço-me destas noites e sigo com a mãe e o pai tentando caçar o fresco na esperança das esquinas da próxima rua.

Paramos de vez em quando para dois dedos de conversa; porque nos cruzamos com caçadores de brisa iguais a nós ou então porque os grupos sentados à porta reclamam um beijo enfeitado de palavras.

E tudo começa sempre com um "há tanto tempo".

A Maria aprendeu... ou melhor, tentou aprender a costurar lá em casa quando a minha mãe fazia vestidos, saias e blusas na casa da Rua de Três às clientes que escolhiam modelos de roupa folheando a elegância de uma Burda ou outros figurinos.

- Há tanto tempo... a tua mãe pedia para eu te ir adormecer e tu nunca querias dormir. Eu punha os meus dedos sobre os teus olhos, forçava-te a dormir, mas tu acabavas sempre a abri-los e a falar.

Pois...

Também me reconheço nisto.

Depois paramos os três junto à Fonte Pequena porque o som da água a correr parece que também refresca.

Deixamo-nos estar por ali à conversa.

Os três numa conversa que nunca saberei se é eterna ou se tem a minha idade, porque estas palavras, estas pausas e estes sorrisos... são tão meus quanto o sangue que me percorre carregado da genética daquilo que sou.

E regressamos a casa.

A noite dispensa lençóis, mantas, pijama... e já deitado sobre a velha cama eu escrevo para ti palavras de amor.

Resisto aos dedos fortes do cansaço e mantenho os olhos abertos.

Há tanto tempo...

Eu esperava que chegasses e fui compondo palavras que guardei para ti.

Ao ritmo de uma noite de verão, da minha história, deste estio e deste luar, ao som das fontes... palavras tão minhas quanto as da genética do meu ser.

E nem me recordo do instante em que adormeci.

Ao lado, sobre a mesa de cabeceira há um poema que só hoje escrevi para ti mas com palavras de há tanto tempo.


Falam de amor.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

“O que espero da vida é nascer”


Gosto de temperar o silêncio com a sombra. Deixo acesa a luz do corredor, apago todas as da sala, e reclino-me no sofá para ir escrevendo como se o i-Pad fosse um muito privado écran de cinema onde eu teço histórias usando palavras.
O silêncio dá-me o tempo todo para te ouvir e falar contigo; a sombra apaga o meu espaço real e traz-me todo o universo onde os meus sonhos te veem e te sentem.
E assim não há serão que eu não passe contigo.
Hoje escrevo para ti no mesmo instante em que chega uma mensagem tua. Escutas "Corações sentidos corações" do Fausto e pensaste em mim.
Em 1985 fui com uns colegas de Faculdade comprar isqueiros descartáveis para irmos juntos à Reitoria a um concerto do Fausto e do seu "Despertar dos Alquimistas". Não queimámos os dedos e não consigo recordar-me se fizemos chama na altura da música que escutas agora, e que a determinada altura afirma que "o que espero da vida é nascer".
As tuas palavras chegaram perfeitas na voz de Fausto, e sobrepuseram-se a todos os sonhos com que a minha saudade povoava o silêncio desta noite reservada para pensar em ti.
As tuas palavras...
E eu nasço e renasço em cada confissão de amor.
Tudo faz sentido.
E o que espero da vida?
Continuar a nascer contigo todos os dias.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

As Montanhas Russas e as Alentejanas


O meu sobrinho João concluiu com êxito o quarto ano de escolaridade, e com apenas nove anos experimentou a sua primeira viagem de finalistas; um passeio de autocarro que o levou até Tavira e Sevilha juntamente com os colegas de escola.
Munido de um pequeno bloco Moleskine fez das suas folhas um "livro de bordo" que partilhou comigo num destes serões.
Entre outras coisas, fiquei a saber que um colega queria instituir o Dia Internacional da Directa para que ninguém pudesse dormir, que um outro se perdeu de amores pela paisagem e que uma colega ficou com fama de medrosa por ter chorado numa Montanha Russa da Isla Mágica.
Trouxe trabalho de casa numa encomenda literária que inclua uma aventura com os heróis João, Guilherme e Lourenço, e uma praia do Algarve com vestígios de Vikings.
Fará por estes dias trinta e nove anos que eu concluí o quarto ano, então quarta classe, e fui numa viagem de finalistas à Serra D' Ossa, nessa estonteante distância de vinte quilómetros de Vila Viçosa.
Cada um tem direito à sua montanha e se a colega do João teve a Russa, eu tive a Alentejana; com a vantagem de não ter medo e de beneficiar do fresco infinito das fontes.
Saímos cedo pela manhã e fizemos uma paragem no Redondo para visitarmos uma olaria e a fábrica dos Refrigerantes Botas; depois fomos até à zona do convento e fizemos por lá um piquenique com o que levávamos de casa.
Regressámos ao fim da tarde com o Dia Internacional da Directa a ser comemorado com uma camioneta directa a Vila Viçosa.
Terei feito uma redacção no dia a seguir onde por certo falei da Zarita ter destruído o fundo de uma assadeira de barro que ainda não tinha ido ao forno, que me deram uma garrafa de laranjada, que o Paulo Ratado tinha sido operado ao apêndice e não podia correr, que a avó Chica me tinha oferecido vinte escudos e eu tinha comprado uma chávena de barro que ainda lá está por casa... e que na merenda levava folhados de carne preparados pela minha mãe.
O Manuel não foi porque a professora dele não alinhou na aventura, e ficou triste. Também não sei se a Zinha e a Tina se recordam deste dia…
Perdi o rasto à redacção, por certo afogada entre as folhas de algum Caderno Diário, mas guardei os detalhes na lembrança e ressuscitei-os ao ler o caderno do João.
E para não perder tempo já comecei a pôr mãos à obra e a escrever algo da história da aventura algarvia, apercebendo-me que não conhecendo em detalhe os companheiros de aventura do meu sobrinho, me puxei a mim e aos meus colegas para dentro dela.
A fantasia das crianças é eterna cruzando os tempos todos, e nós tomamos o elixir da eternidade quando deixamos que ela sobreviva em nós, não a deixando vergar ao peso dos anos que passam.
No serão da casa do onze nos Olivais fiquei com a sensação de que só a saudade me denuncia nesse propósito de continuar a sentir-me criança.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Os instantes


Há instantes que fazem emergir a impotência das palavras na tradução da verdade daquilo que se sente.
Talvez os poetas se aproximem mais dessa verdade calando os tabus e matando as reservas na hora em que bebem inspiração da alma para a escolha e alinhamento das palavras certas…
São os instantes que nos fazem maiores, que mudam convicções, destroem convenções, sufocam impossíveis, saram feridas, apagam medos, restauram a fé, recarregam sorrisos; instantes que fazem emergir da vida as mais férreas e acesas vontades de lutar por tudo aquilo que mais se quer e que se sente.
São os instantes em que a alma se liberta das cartilhas e das sebentas que prendem os demissionários de si mesmos, os imbecis que afogam o rosto e a identidade, auto diluindo-se numa multidão apátrida e anónima onde jamais serão questionadas sobre o que quer que seja.
São os instantes da doce coerência entre a nossa génese e o caminho que fazemos.
No silêncio e no recato do carro, existiu um instante no domingo em que nos demos a mão e em que tu me foste dando beliscos suaves.
Desde então que busco as palavras certas para dar verdade ao que a alma me confidenciou nesse instante.
Ainda se ao menos eu fosse poeta…
Muito daquilo que já vivi fez sentido como vereda e viela para esse instante a que cheguei e de onde jamais irei partir.
Sim, venham os acusadores, os “Torquemada’s” em versão genérica, os indefectíveis da moral podre e bacoca…
Deus nunca poderá ter a expressão do amputar do amor verdadeiro que se sente.
E eu jamais apagarei esta força e esta crença.
Não me demito de mim.
E o que é que eu sou para lá desta forma de te amar assim…

terça-feira, 16 de junho de 2015

E apenas o desejo coerente e nosso


Da nossa tarde trouxe palavras infinitas que vou guardando em folhas brancas desenhadas a tinta de cor azul, e trouxe algumas fotos que tirámos e que eu vou revendo, sentindo às vezes por momentos, quase sempre que regresso do voo do pensamento, que as olho a sorrir.
Gosto particularmente daquela em que os nossos pés parecem beijar-se sobre o chão da beira Tejo, e sei bem do que falávamos por ali sentados enquanto um paquete dizia adeus a Lisboa, as ondas se entretinham esforçada e ruidosamente a calar a maré baixa e nós brincávamos com a elegância e a modernidade dos nossos sapatos.
Falávamos de futuro...
O mesmo futuro que nos fez caminhar depois mais um pouco de frente para o sol poente e nos ofereceu o instante de um abraço.
O espaço iluminado pelas paredes num tom lilás a lembrarem os campos da planície onde cresci a sonhar contigo...
O espaço que não consegue abafar o ruído estridente do eléctrico nos carris ousados de uma das curvas do Chiado, e que deixa vir até mim a Lisboa onde as ruas guardam grafitis tatuados pela minha solidão que chamava por ti...
E aquele abraço…
Nós e apenas o desejo coerente e nosso, na ausência total de “espaço” para as convenções e para as alfombras da moral.
Nós na verdade e na confluência vibrante de todos os sentidos.
Nós a voarmos, porque um Homem voa quando prende os braços a quem ama.
Não tive tempo de o dizer, pois breve dissemos o costumeiro até logo com que tentamos amenizar a despedida, e partimos por entre o cheiro a manjerico e a Santo António; mas digo-o agora assumindo-o inteiramente aqui: no domingo dei o melhor abraço de toda a minha existência.
Melhor, não dei, foste tu quem o ofereceu ao infinito desejo que durante toda a vida esperou que chegasses por entre um amor assim… perfeito.
O melhor abraço de sempre. Fica escrito para que sempre seja lembrado assim.
No regresso a casa, o volante já não estranha o gosto a sal que as minhas mãos lhe oferecem sempre que estou contigo. É que os olhos de tão entretidos a sorrir deixam escapar detalhes líquidos de uma alma que transborda felicidade.
E depois, até os meus pés têm saudades dos teus… e da beira Tejo. 

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Varandas inéditas



O teu amor abriu em mim novas varandas, generosos parapeitos rasgados e de primavera com vista para as cidades todas do universo.
Varandas, assentos privilegiados de onde o olhar se solta e voa sem temores ou cansaços trazendo-me a poesia na forma de mil palavras.
Sim, eu ganho o mundo inteiro nessas inéditas perspectivas iluminadas e viçosas que me ofereces em cada beijo, em cada abraço... no sossego infinito e doce de nunca estar só.
E os dias abrem-se de sol e a casa que sustenta este sentir tem sina e genética de Carmo e Trindade, imbatível e eterna colina de Lisboa à prova de dores, de terramotos e tormentas.
Por ti fico rés-vés com a sorte e agarro-a fazendo-a definitivamente minha.
Viverás para sempre aqui comigo na coerência do querer e da liberdade que semeia cravos em todos os amanheceres.
Novas varandas…
Cravos rubros, tal qual o sangue da torrente de um coração que é teu mas que bate em mim.


domingo, 14 de junho de 2015

As manhãs...


Há manhãs tecidas pela genética dos encontros, dealbar da saudade que a noite descobriu e revelou intensa por entre a distância.

Há manhãs de Junho denunciadas apenas pelo grito rubro da taça de cerejas maduras que ilumina a mesa do pequeno-almoço tomado a uma hora tardia.

São as manhãs temperadas de vontade, as manhãs que soubemos inventar em nós e a que legitimamente chamamos nossas pela força com que as desejámos.

E mesmo que o sol de Junho esteja oculto e o não possamos ver, entendemos que o céu vibra com a nossa festa e não resistiu a vir abraçar-nos de chuva.

O céu dos deuses, Olimpo da crença de todos os Homens e de todos os tempos alegra-se connosco e celebra com lágrimas férteis a alegria da madrugada que traz com ela a sina de um beijo.

Há manhãs que jamais deixarei morrer. 

Esta manhã.

sábado, 13 de junho de 2015

A noite de Santo António



São nove e meia da noite e a auto-estrada A5 a caminho de Lisboa vai tão cheia quanto nas manhãs dos dias de labor.
Ao chegar ao túnel nas Amoreiras, viro para Campolide e consigo estacionar no parque do Marquês de Pombal.
Saio para a Feira do Livro, vou até à banca do "Nós" e já de caminho para a Avenida não resisto e compro uma fartura.
Atravesso a rotunda sem trânsito e sem bicampeão a sacudir o açúcar que se aloja na barba juntamente com o gosto a canela, e ainda muito a tempo de ver o aquecimento da Bica na pré-descida da Avenida.
Eu desço pelo lado esquerdo e apercebo-me que já ninguém marcha. As trupes dos bairros dançam debaixo das luzes na zona das bancadas e entre actuações, aproveitam para fumar um cigarro, as raparigas aliviam os calcantes dos sapatos apertados e acode-se ao chamamento da família e dos amigos.
Continuo a descer e oferecem-me uma sardinha de cartão. Os meus sobrinhos irão deliciar-se com ela embora suspirem por um capacete de manjerico ou de sardinha que vemos na cabeça de muita gente.
Passa Alcântara com carteiros, cartas e marcos de correio. Ouço atrás de mim:
- Se isto é marcha... “ganda” porcaria.
Sentado junto ao gradeamento, um homem que cantou o tempo todo e sabia as letras "afina" e atira:
- Isto é moderno. “Nã” percebem nada.
E afinfa para a do contra:
- Ié, ié é é... Alcântara é que é.
Deixo-os a discutirem bravamente a estética “marchante” e sigo entre a multidão procurando um WC. Entro na Padaria Portuguesa e vejo uma fila enorme. Tento confirmar com a última da fila se a espera é necessária:
- Avance que isto é só para a das mulheres. A sua está vazia.
E não resiste ao desabafo para a colega do lado:
- Raios partam isto. Os gajos pelo menos mijam de pé e é só sacudirem e já está.
Ah grande noite de Santo António Lisboa que traz o povo até à Avenida, definitivamente.
Saio e apetece-me uma cerveja.
Os Restauradores estão impossíveis e tento a Rua das Portas de Santo Antão.
A malta veio toda comigo mas vislumbro uma mesa e sento-me:
- Venham imperiais e algo para comer… pica-pau, por exemplo.
O homem aponta-me para o tampo da mesa e para os desenhos do Kebab e das chamuças.
- Venham então as imperiais.
O café é Indiano, o homem será Hindu mas leva com um espontâneo “Feliz Santo António” quando me despeço já com a cerveja tomada. É a universalidade da festa de Lisboa e o homem sorri.
Vou em direcção à Praça da Figueira e tenho dificuldade em seguir na multidão acumulada sobretudo junto às portas das tascas de venda de ginja.
Chego e escolho um manjerico.
- Há de quatro, seis e dez Euros.
Diz-me a vendedora.
- Um de seis mas com um cravo encarnado.
Entre a liberdade e o Benfica…
Mas recomendo:
- Se a quadra falar do Jorge Jesus eu não quero.
- Qual quê… senhor. Hoje somos todos campeões.
E aproveita o balanço para o pregão:
- Olhó o manjerico. É regar e pôr ao “luariiiii”.
À esquina explico a um grupo de estrangeiros qual o caminho para o Intendente. Quando chegarem e se alguém acender um fósforo ao pé deles puxa-lhes fogo.
Já há marchas dentro de autocarros para regressarem aos respectivos bairros. Alfama vai aos gritos e como sardinha em lata.
Sigo…
Subo a Avenida pelo lado direito e passa Benfica.
Uma grita ali ao pé:
- Ié, ié é é... Benfica é que é.
Um ali ao lado avisa:
- Vê lá se te enganas?
- Não engano nada. Olha lá o Tó Mané. E olha a Vanessa que até vem deste lado.
Fujo.
Vejo uma tenda de sandes com presunto serrano e afinfo-lhe na dita com mais cerveja. Sempre é mais luso que a chamuça.
Passa o Alto do Pina com a madrinha Teresa Guilherme.
Esta vai ganhar.
Continuo a subir a Avenida e da Alexandre Herculano para cima é só brigadas de limpeza e carros de lavagem de rua.
Sento-me numa cadeira de uma bancada vazia antes de subir o resto e de passar pela banca das farturas e comer mais uma.
A A5 vai cheia de carros em direcção a Cascais e eu sigo com as barbas polvilhadas de açúcar e canela.
Viva o Santo António.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Sob o luar de Santo António


Hesito entre fazer-te um fado alinhando as palavras de amor com o eco de todas as guitarras pelas vielas e becos de Alfama, ou então pintar de rimas só nossas, a minha marcha, o Bairro Alto, afinando depois o passo com o toque da caixa, e desfilando para ganhar a noite mais longa de Lisboa.
Ou talvez até faça as duas coisas ao mesmo tempo, aproveitando ainda para resgatar também os cravos de todos os manjericos, enchendo-os de quadras só para ti:
Pelas varandas todas da cidade
Espreitei contigo e com o desejo
E o que vimos? Lisboa? A liberdade?
O universo todo num só beijo.
E…
Lisboa com sede de festa e magia
Deu-nos o braço, veio connosco namorar
Nós demos-lhe o canto e a poesia
E ela pôs o seu céu no teu olhar.
Num abraço eterno entre a multidão, comeremos sardinhas e depois o pão para onde elas pingaram generosas ao sair da brasa, partilharemos uma fartura temperada de Licor Beirão, saltaremos a fogueira acesa no asfalto arrendado de basalto e granito de uma rua qualquer, iremos erguer balões ao alto que voarão para lá da Sé e de São Vicente…
E depois, sob o luar e a caminho da madrugada, quando o fogo-de-artifício subir ao céu e acrescentar cor aos luzeiros todos que a noite nos oferece à beira Tejo, entre um beijo e outro beijo, nós piscaremos o olho a Santo António…
Entre o poder dos milagres e o ser casamenteiro só poderá ter sido ele que acabou por nos juntar.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Na pedra mais clara do ribeiro… por entre aromas de poejo e hortelã


Na pedra mais clara do ribeiro, polida pela avó e pelas suas mãos envoltas em sabão nas manhãs quentes de primavera, sento-me a descansar por entre o aroma do poejo e da hortelã.
Escutam-se grilos ao longe, lá mais para o cimo do monte tingido de esteva e giesta, enquanto a água responde com um ligeiro e contínuo suspiro ao afago que a minha mão lhe oferece, tomando de si uma frescura que se agradece.
A planície estendida ao céu e ao sol transformada na minha imensa casa enquanto te escrevo palavras de amor.
E as águas que o inverno guardou, aquelas mesmas das torrentes em tantas manhãs e tardes de tormenta, são agora a bênção do Divino cruzando o estio.
Aqui sentado, coroado poeta por ti e por este amor que me revelas maior a cada instante, eu sou apenas o elo de uma história com raízes de tantos anos, um poeta que tece palavras, tal qual as mãos filhas e mestras da poesia que por entre a espuma e o sabão teceram odes de coragem sem outras rimas que não a de vida com liberdade.
E aqui sentado, tomando alento das águas de tantas tormentas nos meus tempos antigos, eu teço palavras que são tuas e doces, ornada a alma da certeza de que jamais saberia amar alguém como te amo ati; porque há sempre um amor derradeiro por quem a vida procura… e eu encontrei-te.
Na pedra mais clara do ribeiro… vou saboreando lentamente as tuas lembranças por entre os aromas do poejo e da hortelã.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Portugal, pois claro…



Por muito longe que estejamos do mar nunca conseguiremos estar a mais de um par de centenas de quilómetros, um ínfimo passo de formiga no todo imenso do universo.
E por isso somos todos marinheiros, de alma e tecidos da ousadia de navegar, até mesmo quando entre pinhos e carvalhos subimos as serras, desenhados degraus para um infinito em tons de azul, o céu que sempre insistimos chamar nosso…
As serras beijadas pelos mesmos ventos com aroma de sal.
Temos fé, caminhamos como quem reza e acreditamos no destino que cantamos até a chorar.
O fado, o xaile preto, mil equívocos recorrentes numa história que parece sempre querer contrariar a boa sorte; e os heróis que entregam o suor à seara conhecem às vezes a dor de não ter pão.
Não nos falem de impossíveis, e de relógios... no final acabamos sempre a conseguir, “desenrascamo-nos” e bate sempre tudo certo, ainda sobrando tempo para comemorar as vitórias com um copo de tinto.
Do Douro, Alentejo, da Bairrada ou do Dão?
Tanto faz, que o sol aqui é sempre generoso e a terra também.
A mesma terra das laranjas do Sul, das cerejas na Beira e do milho em searas infinitas entre as serras do Minho.
E provem um prato de tripas no Porto para ver se ainda conseguem afirmar que das ditas não somos capazes de fazer coração…
Somos poetas, partilhamos o nosso dia com Camões e a vida com Pessoa; sabendo que as rimas entre sílabas pouco importam, assim se expresse a verdade e o que nos vai no coração.
Por muito amargas que nos saiam as palavras, sabemos sempre que as mãos se estendem e que os corpos se entrelaçam nos abraços precursores das mesas acesas de queijo, de pão e broa… em romarias de amizade.
Rimo-nos de nós, dançamos (e só no baile aceitamos ser mandados), fazemos rimas, marchamos contra as injustiças e no Santo António, fazemos revoluções com flores, despertamo-nos com um café, escrevemos cartas uns aos outros e aos amores.
De brandos costumes, tapamos os vícios privados com janelas de tabuinhas, ali mesmo por cima das públicas e serenas virtudes comemoradas no braseiro com febras, pimentos e sardinhas.
Pelo tanto sentir a dor da espera em cais vazios e de solidão, inventámos a saudade, deixando-nos ir pelos instantes em que à face afloravam os segredos salgados que partilhamos com o mar.
E às vezes praguejamos contra tudo e todos, contra o infortúnio e a má sina:
“Só mesmo neste país”
Sem pensarmos que há coisas que nunca mudam porque serão eternamente nossas, estão no ADN e estão presas à raiz.
Não nos privem da liberdade, chamamo-la sempre nas madrugadas inspiradas nas morenas vilas do sul, e fazemo-la entrar nas nossas casas de granito ou de cal, mas sempre rasgadas por janelas que enfeitamos com craveiros e muitas flores.
Gostamos de futebol, mais de ver do que jogar, e um golo da Selecção é talvez aquilo que mais nos faz vibrar.
Fazemos festas, muitas festas de arraiais, farturas e Zés Pereiras, gambiarras erguidas ao céu que à noite enfeitamos com fogo de todas as cores.
Ingovernáveis, estranhos, únicos, impossíveis, adeptos do caos e da confusão…
Chamem-nos o que quiserem mas há oitocentos anos que somos nação.
Portugal, pois claro.
   

terça-feira, 9 de junho de 2015

Os canteiros que o dia me oferece



O dia oferece-me um canteiro imenso onde eu pela ousadia e com as minhas mãos, rasgo a terra, e deixo explodir de raízes e flores, a memória semente dos beijos todos que me deste nos entardeceres que fizemos nossos.
A fertilidade de tudo aquilo que colhe de nós o suor de um intenso querer...
E é o teu aroma que se solta então das palavras que colho e vou compondo na tarde em que o céu enegrece e a chuva se anuncia para calar o pó do deserto que o vento trouxe com ele.
Palavras como chuva... mas para calar saudades.
Palavras tuas que me abraçam e me resgatam da solidão.
Por ti nunca serei um homem só caminhando assim apressado por entre os canteiros de um jardim de hortênsias e rosas de primavera; dentro do silêncio dos meus lábios mora o canto de todas as palavras mais doces...
As tuas palavras.
O eco eterno e perfeito dos nossos beijos.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

“O bom, o mau e o vilão”


Buffet, cerejas fantásticas, conversa séria, trabalhos, férias, filhos, memórias, boletim clínico, exames...
Mas sim, apesar de tudo isso continuamos super vivos, e mal soou o "Staying alive" na voz eternamente esganiçada dos manos Gibbs, foi como se uma mola interior nos tivesse feito saltar para pista.
Ao jeito de "nós ainda ontem dançámos isto", ninguém diria que esse ontem foi há mais de trinta anos; mas os passos de dança são definitivamente como andar de bicicleta e nunca se esquecem.
Surpreendemo-nos; afinal as barrigas e as celulites (hipotéticas, se não as amigas não me perdoam) não mataram o Travolta que habita dentro de nós.
"Wake me up before you go-go". Sim George, acordadíssimos e eléctricos como um "yo-yo". Mas aquela do "you put the boom-boom into my heart" nunca foi tão verdadeira, apesar de muitos de nós termos tomado o anti-hipertensor logo pela manhã.
O cansaço...
"I will survive". Claro que sim Gloria, mas com menos convicção do que antes.
Mais suor, menos resistência e aquela coisa de andar no centro da pista como se fôssemos primos da linha Alentejana da família da Cleópatra, ressuscita a arte, mas também, e sobretudo, as hérnias discais.
Não podemos arrefecer mas já não temos andamento para a Kizomba. Umas cerejas, mais uma conversa e aí vamos nós... hoje é sábado e isto está a pedir "night fever".
Vamos à "Pensão Amor"? Não se consegue entrar.
Ao lado está "O bom, o mau e o vilão". Entramos.
A média etária dos presentes subiu automaticamente 10 anos, no pedido as águas minerais derrotaram as cervejas por 5 a 3, e as caras de quem entrava e nos via à volta de uma mesa rectangular denunciava a dúvida:
- Estes gajos vieram para aqui fazer a reunião do Apostolado de Oração?
Não tardamos a sair pois a subida da Rua do Alecrim não nos saía da cabeça.
Mas em slalom entre diferentes expressões de álcool etílico numa espécie rara de diálogo entre as ditas e as pérolas super chiques dos colares das minhas amigas... nem custou.
Passámos pela estátua do Eça. "Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia".
Pois sim, os cinquenta ou os quase cinquenta já cá cantam e a "nudez forte da verdade" expressa uns ais reumáticos quando entramos no carro.
São três da manhã e como diriam as nossas amigas Doce, "às duas por três quem sabe onde isto parar...". Sim, porque a uma da manhã com "um toque e um brilho no olhar" já se foi há muito.
"Amanhã de manhã" logo se verá se foi "Bem bom"...
A posteriori confesso que não foi lá grande coisa.
E na festa de aniversário para comemorar os cinquenta anos do nosso amigo, bom ver os amigos, o mau foi não termos ido aos treinos de dança e copos... e o vilão até poderia ser o tempo e aquela coisa das hérnias discais. Mas com o tempo damo-nos nós bem, enfeitamo-lo de abraços, de sorrisos e palavras doces... e qual vilão qual carapuça; o tempo vira definitivamente nosso aliado; porque é eterna esta festa de estarmos juntos.

domingo, 7 de junho de 2015

Era uma vez uma princesa mais bonita que o sol


Era uma vez…
Uma princesa mais bonita que o sol e sempre envolta num intenso gosto a sal.
O seu olhar doce contrariava esse destino e esse aroma, e o seu querer insistia em suster o tempo que parecia empenhado em acelerar e chegar rápido ao fim da história.
Como se a respiração viesse limitada pela força ténue de uns pulmões cansados e cada inspiração e expiração não oferecessem mais um segundo para viver, mas tirassem um precioso e raro instante.
Mas os milagres acontecem na vida de quem os procura e conquista, e Deus exprime-se na excelência do melhor que têm os Homens.
A princesa um dia adormeceu, e tal como a outra bela das histórias de encantar, acordou semanas mais tarde com todo o tempo do mundo para viver.
O relógio passara finalmente a ser seu fiel companheiro e ela viverá assim feliz para sempre.
Há 23 anos que sou amigo da mãe da Alexandra, a princesa de que vos falo e que tinha quatro anos nessa altura em que a conheci.
Como a outra, a mãe da coragem de Brecht, não existiram "carroças" que lhe despenteassem o sorriso e desmanchassem a esperança. É definitivamente minha irmã e um exemplo nessa forma de olhar o mundo de frente e sem receios.
Ontem, no calor intenso de uma tarde de Junho, eu fui de propósito à Feira do Livro para autografar um "Nós" à minha amiga que chegou dizendo trazer-me um presente; a Alexandra, um pouco mais de um ano após o transplante de pulmão.
Acabámos os três em festa ao redor de uma mesa a beber café e águas frescas. A festa de quem sabe ter derrotado a inevitabilidade de dias tristes.
Lá ao longe e sempre, o meu Tejo.
A Alexandra foi folheando o livro durante a conversa, adorou as fotos do Ângelo e foi comentando uma a uma.
Fiquei com a sensação de que nem que fosse só para ela, este livro teria de ser feito assim; um tributo ao doce de uma eterna princesa.
O seu olhar impôs-se definitivamente ao destino triste de sal.
E quando saía do Parque e descia a Avenida lembrei-me que há precisamente um ano neste mesmo dia, choveu copiosamente aqui nesta Feira sobre um especial abraço que me mudou a vida.
Não me perguntem qual era a música, mas fui a assobiar feliz até ao Rossio.
Mãos nos bolsos… e a banda sonora informal dos dias que nasceram para nos fazer acreditar.

sábado, 6 de junho de 2015

A nossa história


O tempo mandou instalar uma mesa para dois na mesma esquina onde um dia a História mudou numa longínqua tarde de Fevereiro.
Mataram o rei.
Viva a República!
E na tarde quente deste Junho, só o Terreiro e o Tejo parecem iguais, abraçando-nos o olhar nos seus respectivos tons de ocre e azul, ao jeito de quem diz:
- Há tanto tempo que esperávamos aqui por vós.
Sim.
Eu também há muito que pedia à sorte para me fazer chegar aqui e a este instante, a esta esquina que parece ter nascido para mudar a História e a história de cada um.
O teu olhar acendido pela brisa quente já devolveu ao panteão as cinzas fúnebres das ilusões que coroaram todos os falsos amores.
O teu olhar é a estrada da minha mais do que segura e verdadeira rota.
Viva o futuro.
E quando já deixávamos a nossa mesa e me deste um beijo que ainda sabia a café, eu senti-me abraçado à história para a qual nasci.
Feliz, olhei de relance para o Tejo e para o Terreiro; sorriam comigo.
E deixei-os então por ali a guardarem por nós as memórias da mais bonita história de amor: a nossa.
Depois subi contigo a Rua Augusta num passo matizado de abraços, os dois beijando a calçada que um dia foi de Mastroianni:
“O segredo a descobrir está fechado em nós
O tesouro brilha aqui, embala o coração
Mas está escondido nas palavras e nas mãos ardentes
Na doçura de chorar nas carícias quentes”