sábado, 30 de março de 2013

Páscoa


Em sexta-feira santa, parou a chuva muito pouco antes de subirmos ao castelo, ao santuário e ao altar da Padroeira, para que ao abrir de um pano negro, espreitássemos o calvário.
E pelas ruas, com a calçada ainda húmida da incessante chuva de todo o dia, ladeámos em silêncio, o Penitente, anónima figura sem rosto e alvas vestes que transporta a cruz de onde também pendem panos brancos e onde Cristo já não está; os Profetas José de Arimateia e Nicodemos, cada um transportando uma escada usada na descida de Cristo da cruz; os andores de São João Evangelista e Nossa Senhora das Dores, filho e mãe, maternidade de toda a humanidade saída das dores de ao pé da cruz; a Verónica, que da sua generosidade faz imprimir a sangue no pano branco, o rosto sofrido de Cristo; o Anjo do Senhor que transporta o cálice da paixão; Maria Madalena, de negro e pela tradição coberta de infinitos ouros, carregando a taça que recolhe o sangue de Cristo dado como herança à salvação da humanidade; e Cristo, morto e estendido no esquife, coberto pelos infinitos palmitos das nossas promessas pelas dores de toda uma vida.
O nosso silêncio na noite em que só se escutam as matracas e a banda filarmónica, que atrás do esquife do Senhor, interpreta marchas fúnebres que nos soam tristes como esta noite em que as luzes se apagaram para que só os archotes e as nossas velas nos acompanhem e nos indiquem o caminho por entre o nosso silêncio.
E ao virar da Rua de António Homem e quando nos fazemos para subir a Praça, mais do que nunca, iluminada e de portas abertas, brilha na noite o ouro da talha de São Bartolomeu, o sepulcro de onde instantes mais tarde sairá o bater seco de uma porta de madeira que se fecha atrás do Cristo sepultado.
A paixão é um doloroso mas breve instante que nos traz à Ressurreição e à Vida.
Hoje é sábado e o dia amanheceu com sol.
Há bolos fintos em cima da mesa e nos fornos estão já os assados de borrego que cheiram a louro e pimenta, o acepipe que nos perfuma a casa e que juntamente com o ensopado, nos acompanhará nas refeições deste dia que sabemos culminará com o alegre tocar dos sinos de aleluia.
Haja sol, e segunda-feira nos faremos ao campo, nos Castanheiros, no Paraíso, no Carapiteiro ou no Vale da Rabaça, para que na cumplicidade do aroma de esteva, alecrim e rosmaninho, façamos a festa da partilha e celebremos a chegada da primavera, da vida e da ressurreição.
Que não falte o cante das nossas vozes casadas em harmonia e o tinto do melhor, bênção etílica de uma terra nascida por capricho de Deus.
E é assim Vila Viçosa, sempre perfeita, nos meus doces e fantásticos dias de Páscoa.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Uma fábula de Páscoa


No tempo em que os animais falavam, ao vivo ou em directo na televisão, existia à beira mar, uma fértil quinta de verdes prados e fantásticos pomares de onde saiam os melhores e mais suculentos frutos.
A vida seguia o seu rumo normal com os diferentes animais a partilharem o imenso espaço e a viverem numa paz muito agradável.
Mas, num belo dia de verão, algures quando a quinta estava como nunca em festa e recebia em estábulos novos e caros, os animais das quintas vizinhas para uma competição, o Cherne Zé Manel, encarregue da liderança, ambicioso, resolveu partir deixando a dita entregue às cigarras mais faladoras e prometedoras… pela conversa.
A Cigarra Pedro avançou primeiro, mas sendo como é um animal em movimento e que só gosta de andar e ser visto “por aí”, cedo abriu vaga para a Cigarra Zé, uma artista que fez com que a quinta virasse uma festa permanente…
As crias já não precisavam de ir à escola e podiam acompanhar os seus pais nas longas filas dos Centros Comerciais, todos prontos para dar brilho a lustrosos e dourados cartões de crédito. Foi porreiro, pá.
Mas o problema foi que um dia, chegou o inverno, e quem o verão passa com Cigarras…
A Cigarra Zé fugiu não sem antes ter de chamar a Águia Ângela que do alto do céu passou a comandar os destinos da quinta através de uns fiéis recrutados discípulos: o Burro Miguel, o Coelho Pedro e o mais fiel de todos, o Pinguim Gaspar.
Na sala de comandos da quinta ainda havia lugar para o Papagaio Paulinho, uma ave colorida que aprendeu a falar na redacção de um jornal de escândalos e que a toda a hora repetia: “eu mato”; e dentro de um aquário com paredes de “marquise” e água BPN (Boa Para Novos-ricos), o Pichelim Aníbal e a Marmota Maria, que muitas vezes se aproximavam do vidro mexendo a boca, mas quase sempre apenas para comer. Falar? Muito pouco.
Na antecâmara desta sala habitava o Cão Tó Zé, muito dado a ladrar mas tão “Seguro” no não morder que nem azulejo de “cuidado com o cão” a quinta teve de implantar pela sua presença.
As vacas, as galinhas e todos os animais de criação foram colocados em processos ininterruptos de produção, sempre motivados pelos capatazes, o Boi Fernando com o seu “aguenta, aguenta”, e o Galo Belmiro com o conhecido “ganhar pouco e trabalhar muito”.
As crias de todos estes animais foram entregues ao Mocho Nuno e quando terminavam o processo de formação, ou tinham arcaboiço e iam com os ovos e o leite, produto do trabalho dos seus pais, para outros territórios vigiados pela Águia Ângela, ou, no caso de serem maus ou assim-assim, iam substituir os seus progenitores na cadeia produtiva, sobretudo na altura em que estes passavam para os cuidados do Macaco Mota, que os despachava para uma espécie de contentores onde esperavam apodrecer alimentando-se de uma cada vez mais pequena “ração mensal”.
E assim iam os dias cinzentos de uma quinta que era agora uma sombra triste da grandeza do passado.
Mas um dia, pela Páscoa e na altura em que a Cigarra Zé voltara para um show e todos estavam distraídos, encontraram-se à “sombra de uma azinheira” umas galinhas e umas vacas sem nome, que muito revoltadas, com as tetas inflamadas e o rabo muito dorido pela excessiva produção de ovos, para tão pouco proveito, combinaram atacar a sala de comandos da quinta e trazer para o terreiro os fiéis “capatazes” da Águia Ângela.
Conversa aqui, conversa acolá, conseguiu delinear-se um plano que resultou em cheio porque não houve vaca ou galinha que não se juntasse à festa.
O Burro Miguel ainda se fartou de zurrar mas a imensidão de animais revoltados, pela sua força, esvaziou o aquário entornando a água, depenou o papagaio, e a “troika” de animais no poder acabou deposta, com todos os seus elementos ridicularizados na praça principal da quinta, no mesmo dia em que voltou a liberdade.
Porque afinal, “a união faz a forca”… essa mesmo, aquela onde se penduram os traidores.
Porque era necessário que vivessem felizes para sempre!

terça-feira, 26 de março de 2013

Os cinco e o São João Evangelista


No tempo em que os andores só andavam aos ombros dos homens, e estes, mais do que em procissões, andavam maioritariamente entretidos pelo Alentejo em múltiplas actividades revolucionárias de natureza laica, cedo nos recrutou o saudoso Sr. Domingos para que nos eventos da Semana Santa, nos encarregássemos, eu e os meus quatro amigos, de transportar o andor de São João Evangelista.
Bastou termos dado aquele avanço na altura que as mães designam por “pulinho” e aí fomos nós, de voz grossa e buço a rebentar por entre o acne, de amêndoas de açúcar nos bolsos, a carregar o andor nas procissões de Terça-feira Santa, devidamente coberto por um pano negro no breve trajecto entre a Igreja de São Bartolomeu e a Igreja de Nossa Senhora, e de Sexta-feira Santa, então descoberto e enfeitado por fúnebres palmitos, na procissão do enterro do Senhor.
Eu, o João Paulo, o Manuel, o Paulo Geadas e o Paulo Quinteiro, inseparáveis, acrescentávamos assim uma actividade nocturna aos dias das férias da Páscoa que compartíamos no celeiro da loja do Sr. Domingos, pai do João Paulo, a jogar ao Monopólio, ao King, ao Cluedo, etc.
E sendo a imagem de São João Evangelista, a mais mártir das imagens processionais do universo Calipolense, vitima de uma decapitação nas grades da Igreja da Esperança, e anos mais tarde, de uma brutal queda em plena Rua da Freira; jamais o nosso quinteto deixou de ser eficaz e seguro na manutenção da compostura exigida por tão solenes eventos da Semana Santa.
É um facto que praguejávamos contra o andar desengonçado do Manuel no seu peculiar jeito de pôr os pés para dentro, ou contra a “arte” de alguns que se agachavam fazendo com que o peso se repartisse apenas pelos outros três; mas jamais deixámos, o quarteto efectivo e o elemento suplente que dava assistência aos demais e ia rodando entre todos, de cumprir o nosso papel. E na história do “transporte” do São João Evangelista, pelo sucesso, poderemos ser considerados uns verdadeiros “Mourinhos do Andor”.
Não é definitivamente pela força das memórias desta minha ligação à sua imagem, que tenho uma particular devoção por São João Evangelista: admiro a forma como se refere a si próprio como “aquele que Jesus amava”, era o mais novo dos apóstolos, acompanhou Jesus até ao momento da sua crucificação sendo simultaneamente o mais veloz na busca do túmulo vazio, escreveu o quarto Evangelho, aquele que é diferente dos outros três, os sinópticos, aquele que mais do que relatos factuais, enfoca o aspecto espiritual de Jesus.
E talvez o “peso” do “discípulo amado” nas nossas cinco histórias pessoais, todas diferentes entre si, não seja apenas a memória das dores de ombros nos dias a seguir à procissão, e seja muito mais, uma inspiração para a amizade que nos une e unirá sempre, a amizade que não assenta apenas no cruzamento das nossas histórias nos dias que vivemos juntos, mas na extraordinária forma como de forma cúmplice, engrandecemos o estatuto de “discípulos amados” e bem-aventurados da criação, saboreando até à última gota, o doce sabor do prazer que a vida contém.
Porque, se até a Semana Santa culmina com a Ressurreição, porquê fazer da vida, uma roxa e sofrida via-sacra para o calvário?
A vida é grande demais para que o nosso destino seja outro, que não o sorriso dos “túmulos vazios”.
Tentando não desacertar o passo com a sorte, equilibrada vai assim a vida, qual andor, sempre que tentamos ser maiores na nossa forma única de ser e estar, jamais “sinóptica” da forma de ser e estar de alguém.
Exigentes na nossa singularidade, a caminho de uma singular vida de excelência.
E a amizade, sempre, como inspiração e suporte, quais mosqueteiros tornados um, nas procissões da Paixão do Senhor.
Na minha sala mantenho numa moldura, uma foto do meu grupo de cinco amigos, esse privilégio dos meus dias de juventude. Tirámos esta foto há quase vinte anos e… muitos quilos, hérnias discais, reumatismo, diabetes e cabelos brancos atrás, no advento dos quarentões avançados e cheios de charme que somos hoje.
E às vezes passam-se anos que não nos vemos…
E depois desta foto nunca mais voltámos a estar todos juntos…
Mas ainda hoje era capaz de pegar com eles no andor de São João Evangelista, e por cima das hérnias e do reumatismo, não desacertarmos nunca o passo na procissão.
Porque nem o tempo consegue matar o que nos está colado á vida.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Um lapso de tempo


Sentado no grande auditório do Centro Cultural de Belém na noite da passada sexta-feira, pela inspiração de Ludovico Einaudi e pela sua interpretação ao piano juntamente com os dez músicos do seu Ensemble, para longe e perto, irrequieto, se me voou o pensamento.
A música é dos maiores e mais eficazes indutores de sonhos, um fiel fornecedor de asas…
E a música que nos é dada assim sem palavras, sem a imposição das palavras de outros, mas a música impregnada da mais perfeita harmonia dos sons, eleva-nos à condição de poetas, convocando-nos a alma a dar letra e cor à maior verdade do fluir do pensamento... e aos sonhos que nos acodem.
À minha frente, um homem passou todo o concerto debruçado sobre um bloco de folhas brancas, e pela arte dos seus traços, por certo tentou registar o seu muito particular roteiro onírico e todos os trajectos por onde o pensamento o levou à boleia da música.
Tivesse eu memória e palavras, e muito vos escreveria.
Einaudi chamou ao seu último álbum “um lapso de tempo”.
E um lapso de tempo pode ser tudo, e pode ser também a vida… esta vida.
Havia sempre a música das violas nos dias que passávamos juntos com os amigos dos Convívios Fraternos. Muitos dias e muitas noites a falar e a partilhar sonhos, elevando o pensamento à ambição e ao compromisso de um futuro de felicidade.
Com muita fé, em Deus e na vida, o Padre Zé Fernando, ainda muito antes de ser um distinto e reconhecido motard, era um dos nossos, nesse desenhar do futuro feito em conjunto, e sempre sob a inspiração da música e da energia dos nossos melhores verdes anos.
Com riso, lágrimas, de impetuosidade e de paz, mas sempre com uma intensidade que nos faz pensar perante a notícia da sua partida ontem pela tarde, de que demasiado breve foi o lapso de tempo em que esteve por aqui…
Recordo-me que as palavras mais inspiradas que ouvi ao Padre Zé Fernando eram sobre Cristo Sedutor. Acredito que a vida e a fé o fizeram “acelerar” até Ele para uma outra vida, aquela que pela fé, é a Vida.
Hoje de manhã ao saber desta noticia questionei-me a mim próprio sobre se a partida dos amigos nos envelhece…
Concluí que não. É que por cima da humana e natural saudade, emerge uma “aceleração” para que a vida, esta vida, não se nos vá e nos deixe os sonhos por cumprir. E isto é rejuvenescer.
Deu-me também a manhã de hoje, o privilégio de me ver rodeado por dezenas de colegas de profissão mas que os afectos já elevaram à sublime condição de amigos, a partilhar as palavras dos sonhos e da vida, as palavras que a memória, a alma e os afectos me vão ditando para este “Pomar”.
Um brevíssimo lapso de meia hora tornado um “bombom de tempo” pela “música” dos sorrisos, pelas cumplicidades dos sonhos e pela partilha que nos torna maiores e mais fortes.
Escurece o dia feito de um sol que apenas se intuiu e jamais brilhou, e já em casa regresso a Einaudi…
Um lapso de tempo, muito breve, a vida, os sonhos, e a urgência de os cumprir nestes dias recheados de afectos… por sobre as nuvens.

domingo, 24 de março de 2013

A avó Dade


Em tempo de inverno, os serões em sua casa tinham sempre o atractivo da braseira acesa e colocada num estrado de madeira, à volta do qual nos sentávamos em cadeiras baixas, também de madeira, com assento de buínho e invariavelmente pintadas de vermelho.
Contavam-se histórias desse tempo, ou de “entigamente”, como insistia dizer o avô Chico, e descansava-se dos dias intensos de trabalho que começavam quase sempre pelas 5 da manhã.
E para a avó Dade, o descanso do dia passado na apanha da azeitona, nas vindimas, nas matanças do porco ou em outras múltiplas actividades, era feito ali à volta do lume mas sempre agarrada a duas agulhas de tricot com as quais tecia botas de dormir para toda a família e amigos. E era eu que quase sempre a ajudava a preparar o novelo para a sua tarefa…
O jantar tinha sempre o privilégio da melhor açorda ou de uma fantástica sopa de tomate carregada de pimento verde, para além de outros acepipes únicos, de entre os quais tenho de destacar os melhores pastéis de massa tenra que alguma vez já provei.
Eu e o avô sentávamo-nos primeiro à volta do lume, enquanto esperávamos que a avó se juntasse a nós depois de arrumar a cozinha e lavar a louça nos alguidares de barro que tinha destinado para esse efeito.
Ficávamos os três à conversa até que o relógio de parede que tinha um pêndulo e batia as meias e as horas certas, nos indicasse que era tempo de eu regressar a casa. E era sempre a avó que se encarregava dessa tarefa.
Enquanto percorríamos as ruas então muito mal iluminadas de Vila Viçosa, os caminhos que o frio tinha silenciado e tornado quase desertos de gente, as calçadas onde ressoavam os nossos passos e onde só nos cruzávamos com alguns casais de jovens namorados, nesse tempo em que os rapazes vinham até à porta das suas donzelas para uma conversa ao luar; a avó aconchegava-me a ela partilhando comigo o seu xaile quente.
Aqui e ali parávamos para uma história ou para tentarmos identificar objectos e pessoas nos desenhos que as fachadas mal caídas nos permitiam imaginar. Na rua de Santo António, no muro das traseiras do Quartel dos Bombeiros, havia uma quase perfeita cara de rapazinho…
E quem assim nos aquece, quem nos mostra os caminhos e nele nos ampara, e quem nos dá asas e nos ensina a sonhar, torna-se mestre e herói nas nossas vidas.
A avó Dade fez ontem 101 anos e guardo-lhe a doce memória de uma heroína fundamental da minha história.
Muitos anos mais tarde ainda tive o privilégio de lhe retribuir uma parte desses mimos extraordinários com que me ajudou a crescer. Era na altura em que ela detestava que eu a transportasse por auto-estradas pois não podia ver casas e gente, e também quando me confidenciava a mim e ao Zé Artur que daquilo que mais tinha saudade era de ir para o campo trabalhar e apanhar azeitona.
Com uma fé inabalável em Nossa Senhora da Conceição e uma admiração pelo Beato João Paulo II que teve o privilégio de ver em Vila Viçosa, reforçou com a idade, uma perspectiva de tragédia para a humanidade, identificando alguns sinais de modernidade como claros indícios do fim do mundo que ela acreditava iria acontecer “no ano dos três noves”, 1999.
Partiu na noite do dia 31 de Dezembro de 1998…
E o mundo não acabou, pelo contrário, ofereceu-nos os anos para que confirmássemos como a avó Natividade se perpetuou em nós.
E não é só pelas botas de lã que ela me teceu e que ainda hoje calço para dormir quando as noites estão mais frias.

sexta-feira, 22 de março de 2013

O regresso do Cancro em tempo de Enfarte do Miocárdio

Fiquei ontem a saber que a Rádio Televisão Portuguesa, estação prestadora do serviço público que é paga com o dinheiro dos meus impostos e dos meus concidadãos, irá em breve apresentar na sua programação um espaço de análise com o ex-primeiro-ministro José Sócrates.

Soubemos desde sempre que Paris seria uma passagem com a duração dos inevitáveis dois anos de “quebra-memória”, e que o regresso à pátria seria o destino final do homem que nos governou durante 6 anos, o homem que criou as condições para termos de pedir um empréstimo externo e que negociou com a Troika o memorando em implementação.

Como é que o homem aguentaria um curso de filosofia numa universidade se ele até o Inglês do seu pseudo-curso de engenharia fez por correspondência a um domingo à tarde?

Sabíamos nós, e sabia ele também, que a governação com base no memorando nos traria a esta situação de desespero, facto que facilitaria o nosso rápido esquecimento sobre a sua pessoa e a sua actividade à frente do governo, nessa tão negativa confluência entre a ausência de carácter e a incompetência.

Só que a dor está a ser forte demais e a memória não se nos varreu. Pelo contrário, está cada vez mais marcada, e tivesse eu algum risco de uma súbita amnésia e ainda ontem o recibo de ordenado me indicou um desconto de 58% para pagar os impostos que ajudarão a suportar os juros da dívida do empréstimo solicitado e negociado pelo Sr. Sócrates.

Para além disso, o facto de Passos Coelho ser péssimo não conduzirá nunca a governação de Sócrates à categoria do estrelato.

Não é pelo facto de existirem Enfartes do Miocárdio que os Cancros deixam de ser maus…

E para Sócrates este parece ser o momento ideal, aquele em que o anunciado chumbo do Orçamento de Estado pelo Tribunal Constitucional faz tremer o governo.

Então, um dos amigos do costume faz o também costumeiro favor e aí está o homem em prime-time a comentar… qualquer coisa.

E é mau demais…

A uma televisão de serviço público exige-se respeito pela diversidade de opiniões mas também se exige rigor e pudor. As opiniões do homem que conduziu o país à bancarrota são neste contexto, perfeitamente dispensáveis e são ofensivas para a maioria dos Portugueses que por ele vivem dias difíceis. Por certo verá a realidade pelo prisma da sua incompetência e a expressão desse seu sentir não merece honras de constar em qualquer estação de televisão que seja paga pelos subsídios de férias ou natal dos funcionários públicos ou dos pensionistas. No Partido Socialista há uma infinidade de pessoas sérias, honestas e com dignidade na sua história, que poderão garantir o objectivo da pluralidade do Serviço Público.

Sócrates fá-lo a custo zero. É habitual. É ele que paga porque é ele que tem interesse num “duche audiovisual” que lhe limpe a imagem.

Também não foi o Figo que pagou o pequeno-almoço no Altis Belém…

Os rendimentos de Sócrates não advêm de coisas tão banais e normais como a prestação de um serviço de comentador. Isso seria demasiado previsível.

Pelas verbas que lhe possibilitam o fausto do seu estilo de vida, estaremos aqui a falar de um outro campeonato… e saberá o diabo de onde vem o dinheiro.

Dir-me-ão possivelmente que a RTP garante com Sócrates boas audiências e boas receitas de publicidade, também as garantiria se pusesse o Cristiano Ronaldo a despir-se integralmente a seguir ao Telejornal. E isso seria admissível?

Espanta-me ainda que a terreiro e em defesa de Sócrates tenham acorrido logo algumas pessoas. Enquanto olharmos para a política e para os partidos políticos da mesma forma que eu olho para o Benfica, jamais o rigor poderá imperar na gestão dos bens públicos e jamais haverá condições para condenar criminalmente quem faça mau uso desses bens.

Em Portugal, a politica e os votos lavam a justiça e o eficaz julgamento, e a filiação partidária esconde e branqueia a “filha da putice” (e desculpem a expressão mas é a única que me ocorre)!

Sócrates na RTP?

Talvez nos falte mais do que dinheiro para pagar as contas, falta-nos vergonha e bom senso.

quinta-feira, 21 de março de 2013

A Poesia


Entregues na noite
soltos
vagabundos cúmplices da lua
os olhos ousam palavras:
amor…
verdade sobreposta à mordaça
grilhões da razão
de lábios mortos
inertes.

Insaciável
a propulsão do olhar
impõe a tua pele
às mãos
navegantes
buscando rumo
astrolábio?
essas linhas
perfeitas
seguras
caminhos do teu rosto.

E acudo a tempo
à lágrima que nasce…
amor?
desejo?
dor?
alma que escorre
pela verdade do olhar.

E o corpo
todo o corpo
anseia louco e trémulo
esse beijo completo
de um abraço teu.

Amor…
a poesia…
o momento.


21 de Março de 2013
Dia Mundial da Poesia

quarta-feira, 20 de março de 2013

Primavera


O ânimo é outro e bem melhor, sempre que ainda ensonado e com o toque do despertador a ecoar-me no cérebro, abro a janela do quarto ao jeito de autómato em deslocação para a casa de banho, e sou brindado com uns intensos raios de sol. E maior é ainda este impacto, depois de semanas carregadas de manhãs de nevoeiro e chuva, motes perfeitos para um intenso “sebastianismo” que quase parece destino para o nosso luso triste fado.

Hoje, como sempre às 7 da manhã, e segundo o rigor dos astrónomos, exactamente 4 horas e 2 minutos antes do inicio da Primavera.

O sol, da forma como é visto a partir da Terra, cruza a linha do equador terrestre que é projectada na esfera celeste, possibilitando dessa forma que no hemisfério norte ocorra o Equinócio de Março, aquele que põe um ponto final no inverno.

Do latim, aequus (igual) e nox (noite), o Equinócio marca o momento em que o dia é exactamente igual à noite, e sabemos que Primavera fora, a luz irá gradualmente impor-se à escuridão dessa mesma noite.
E pela vitória da luz se faz a Festa da Fertilidade.

Os celtas celebravam a Deusa da Fertilidade (Eostre, Ēostre, Ostara ou Ostera) representada por uma mulher com um ovo na mão e um coelho a brincar aos seus pés (piadas com “austera” e “Coelho” são dispensáveis). Os cristãos, celebramos a ressurreição de Cristo como a mais retumbante vitória da luz sobre as trevas.

Mas não admira que os anglo-saxónicos chamem Easter à Páscoa, e que todos a celebremos com coelhinhos e ovos… afinal a nossa maior grandeza está na vivência dessa simbiose perfeita de tudo o que somos com o assumir do que nos foi deixado como herança pelas culturas que nos trouxeram até aqui.
E hoje, teve aroma de primavera, esta manhã que de um lado de casa me revelou um Atlântico em intensos tons de azul, e do outro, a Pena e o Monte da Lua sem a mancha branca ou acinzentada de quaisquer nuvens. Atlântico e Sintra, fantásticas compensações na ausência desse cheiro que intuí, reinará já no Alentejo e no meu campo.

Hoje, assumindo o calendário de uma natureza que se renova continuamente de forma magnífica aproveitando a fertilidade da força catalisadora da luz, e inspirados no saber de todos os que foram e são a raiz da nossa cultura, da nossa história e da nossa fé, talvez seja o dia ideal para o compromisso e para cumprir o propósito da renovação.

E a renovação começa em nós, porque é aí que reside o potencial da esperança, adormecido ou activo, consoante o impulso e a força com que apostamos na sua concretização.

O impulso e a força para sobrepor a esperança a todos os obstáculos, por vezes gigantes, que a vida nos coloca. Concretizando e nunca desistindo.

Vão difíceis os dias e até a ONU sentiu a necessidade de decretar o dia de hoje como Dia Internacional da Felicidade. Como se a felicidade se “impusesse” por decreto…

A felicidade nasce do concretizar da esperança, pela garra e pela vontade de ser maior, renovando-nos e alinhando-nos afinal com a natureza, que jamais deixou de nos trazer a Primavera.

E pela luz se faz a flor, mãe de todos os frutos.

terça-feira, 19 de março de 2013

Pai


O importante será sempre o amor que nos une, esse amor que brilha intenso na expressão dos beijos, abraços, palavras, olhares, silêncios, amuos, nas gargalhadas e em todos os gestos, mesmo os mais pequenos.
E o amor tem o sabor do bolo com a forma de pato que me compravas na Pastelaria Azul em cada regresso do cinema, e que eu comia alegre no meu despertar na manhã seguinte.
E o amor carrega o sonho e as asas desse papagaio de papel que fizemos juntos com o Zé Artur e que depois fomos os três lançar na encosta do castelo.
E o amor tem o conforto da tua mão na minha fronte, peles de uma só pele, nesse meu “regresso ao mundo” no despertar da anestesia na cama do hospital.
E o amor tem a confiança da tua mão na minha, o sentir do teu respirar bem junto a mim, quando estando os dois em frente ao pequeno espelho, me ensinaste as regras do bem barbear, nessa primeira vez que peguei numa lâmina para rapar os pêlos da minha face de catorze anos.
E o amor carrega as cumplicidades desse serão calipolense em que por entre voltas e mais voltas, me ensinaste a fazer o nó na gravata, o qual reproduzo, lembrando-me de ti, em todas as manhãs.
Incalculável, este amor que tem a dimensão de uma herança que é afinal a própria vida, a vida toda.
E este amor existe e tempera a dor de saudade, a distância que por vezes se nos impõe e que eu insistirei em matar, cumprindo esse impulso de te querer sempre junto a mim.
Eternamente, jamais desistirei de ser o menino que brincará entre o Rossio e a Praça, na quietude da nossa Rua de Três onde vivemos com os vizinhos que tornámos família, esperando que chegues e me assobies nesse jeito tão peculiar que eu sei ser só para mim e para o mano… e seguirei sempre para junto de ti, meu querido e muito amado pai.

domingo, 17 de março de 2013

Revolução, precisa-se!


É ainda com os Euros que levantei no multibanco em Lisboa, que em Viena consigo pagar a minha fatia de Sachertorte e o chá que elejo para a acompanhar.
A união monetária persiste sobre os restos mortais da união económica da velha Europa.
Já o sabia mas confirmo-o nas notícias que me chegam de Lisboa em mais uma pornográfica exibição pública de sadismo do Marquês Gaspar no Peep Show de luxo das suas conferências de imprensa.
E não há nenhum, de entre os milhares de assessores, que diga à criatura que quando se saca às pessoas mais de metade do ordenado e se secam as reformas dos pobres, não se conseguindo nunca cumprir os objectivos, neste caso de comprovada disfunção na localização dos testículos que é impeditiva de demissão, o mínimo que se exige é humildade e não arrogância?
Recebo as chicoteadas dos números e deficits e com nitidez, acodem-me à memória as palavras da minha amiga Evdoxia Marinakou, grega de nascimento e por paixão, que quando um dia partilhei com ela os "mandamentos" da Troika, me respondeu:
- O vosso caso é de facto diferente do Grego e a diferença é apenas e só de um ano.
Passou um ano sobre estas palavras que eu ainda cheguei a acreditar não fossem proféticas, e aqui estamos.
A incompetência colocou-nos nas mãos dos credores e a incompetência trouxe-nos até aqui porque não fomos capazes de em circunstancia alguma, pegar no memorando e negociar com arte e tendo em vista o desenvolvimento da economia, e de passagem o bem-estar dos cidadãos.
Na vida aprendi que os inteligentes negoceiam tendo em vista a concretização dos seus objectivos, e os "burros", obedecem cegamente.
A “prescrição” dos credores, o memorando feito pelos consultores das instâncias internacionais, teóricos profissionais que nunca geriram nada nem ninguém, continha erros crassos que “nós” por inépcia não soubemos identificar.
E o "doente" pagou cara a medicação mas está pior, definha, enquanto os medíocres prescritores insistem na mesma receita.
O desfecho parece inevitável...
Infelizmente, só se pode surpreender quem nunca olhou para quem nos governa, para a sua preparação e para o seu curriculum.
Cumpre-se apenas mais uma etapa do ciclo da mediocridade em que há anos estamos envolvidos.
Pela incompetência estamos nestes cuidados paliativos à espera da morte certa, pagando cara a estadia no “hotel da morte”, abandonados por todos e também por um Presidente, pai da geração BPN, mumificada e seráfica criatura que dejecta todos os dias sobre a constituição que jurou, demitindo-se de defender o povo, apenas mandando recados através dessa linguagem encriptada dos prefácios.
E o que vem aí?
15 anos de atraso?
A morte de uma geração?
Demitir mais milhares de professores, médicos e enfermeiros… (sempre os mesmos), deixando na função pública os técnicos superiores do carimbo, a carne da burocracia, que se sentam nas cadeiras douradas patrocinadas pelas suas filiações partidárias?
O estado social a pagar com a vida as facturas da preservação do estado político?
Mais desemprego?
Maior facilidade nos despedimentos?
Alguém acredita que o desemprego reaviva a economia?
Meus amigos, os números falam por si e salientam que se a demissão do governo perspectiva uma crise política, a sua manutenção é garantia de uma crise política, económica e social.
E sem fim à vista.
Mas não basta a rotatividade neste ciclo da mediocridade. Na sala de espera para a tomada de posse já estão os “penicos” diferentes na cor mas iguais no conteúdo.
Há que cortar pela raiz, há que refundar, mais do que o Estado, a política, reformando estes imbecis políticos-proveta nascidos nas incubadoras das juventudes partidárias e a corja de corruptos de púlpito ou de gabinete que os sustentam.
Porque o país assim morre... às mãos da incompetência.
E não há que ter medo porque o que a hora exige é revolução.
Para honrar a história e para garantir o futuro.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Francisco

Em perfeito contraste com os últimos dias, há hoje um sol intenso a brilhar sobre Lisboa, no momento em que o avião descola da Portela e a progressiva conquista da altitude me revela aos poucos esse privilégio do Tejo pintado de um intenso tom de azul.

Vislumbro a lezíria e sei que daqui a pouco, a rota para Munique em escala para Viena, me oferecerá a Beira Baixa, palete de infinitos verdes salpicada de aldeias, monumentos de granito nascidos da mão dos Homens, perfeitas guardiãs dos melhores e mais verdadeiros segredos da nossa história.

Não temo andar de avião, mas rezo sempre que descolo de algum aeroporto.

Não o faço portanto por medo, faço-o por hábito, e questionando-me sobre o porquê da preservação deste hábito, talvez a visão da terra vista no privilégio da perspectiva de um pássaro que voa, e hoje, do Tejo, da Lezíria e da Beira, seja um convite a que eu, crente em Deus, o louve pela magnifica obra da criação.

E invariavelmente rezo como sempre me ensinaram: um Pai Nosso e uma Avé Maria.

Ontem, entre o SMS do Ricardo que me alertou para o Habemus Papam e o aparecimento do Papa Francisco à janela de S. Pedro, durante aproximadamente uma hora, alimentei alguma expectativa sobre o perfil do sucessor de Bento XVI.

E o novo Papa, que surgiu num misto de timidez e alguma descontracção tão típica da terra do tango, causou em mim desde logo uma boa impressão quando me apercebi de que reza como eu: um Pai Nosso e uma Avé Maria.

Ele do alto da varanda mais nobre da Praça mais famosa de Roma, da mesma forma que eu, algures nos aeroportos do mundo.

A simplicidade que se precisa e que é afinal marca da fé.

Desculpar-me-ão o exagero da comparação, mas pelo ar de simplicidade consigo imaginar-me confortável a falar com ele à mesa de um café, algo que jamais sentiria com o Papa Ratzinger.

Quando de seguida pede a benção dos crentes antes de lhes dar a sua benção, e se inclina ele perante o povo que reza, faz-me acreditar que marcará o seu pontificado não pela força e imposição das suas convicções, mas sobretudo pelo atento escutar do clamor do povo crente.

É assim de um líder e não de um chefe, que a Igreja precisa.

Apreciei a escolha do nome Francisco. Para além de ser um dos meus nomes, terá sempre a marca do desprendimento e simplicidade de Francisco de Assis e a "arte" missionária de Francisco Xavier.

E assim, na noite chuvosa de Roma sopraram ares de renovação que importa agora ver concretizados.

E porque saber rir é uma arte e o humor uma benção de Deus, não posso deixar de vos referir que o meu avô Francisco, avô paterno que me deu o nome, tinha em Vila Viçosa a alcunha de Padre Santo. A partir de ontem, 104 anos e alguns meses depois do seu nascimento, um Santo Padre de nome Francisco veio dar mais legitimidade à dita alcunha.
O avô Chico já partiu há 23 anos mas onde estiver já se riu muito à conta desta coincidência. E eu, agora algures entre Madrid e Toulose, segundo informação do piloto da Lufthansa, riu-me também com ele.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Cloreto de potássio, lactose e resina


Quando de repente um empregado de um restaurante no centro de Lisboa me pergunta a medo se eu falo Português, fico chocado e não resisto a olhar em volta, cedo constatando que a crise retirou os Portugueses de alguns territórios da cidade, reservados hoje quase exclusivamente a estrangeiros que deles usufruem como se de um parque temático de história e gastronomia, se tratassem.
E nós ali, tão giros e tão “tugas”, sob os efeitos dos seus intrigados olhares, sentindo-nos quais lontras (e não vale fazer piadas com o peso e/ou o volume), Eusébio ou Amália, atracções de um lugar de entrada barata, para eles, claro. Uma espécie de “Portugário”.
Valha-me o despertar no dia seguinte e o personalizado tratamento da dona da pequena pastelaria junto a minha casa, que me chama pelo nome e a quem já nem preciso de pedir a bica.
E hoje, enquanto falamos do sol e por ele nos deixamos levar até aos ansiados dias de Páscoa que iremos passar no campo, eu no Alentejo e ela na Beira Baixa, a televisão só fala de política, avaliação da troika e a eleição do novo Papa.
Os políticos cumprem o seu ciclo de hipocrisia que os faz assumir o papel de indutores da austeridade, no caso de estarem a exercer o poder, ou de vendedores de promessas e de desafogo, se estiverem em plano de oposição ao poder. A imbecilidade rotativa na construção e manutenção do “Portugário”.
E em Roma há uma multidão que olha ansiosamente para um telhado e para uma chaminé à espera que dela saia o fumo branco que indicará o entendimento de 115 homens relativamente à escolha de um novo líder para a Igreja Católica.
O telhado e a chaminé têm um aspecto medonho. Sem legendas e sem o devido enquadramento eu diria que aquele conjunto seria a cobertura de um barracão algures no meio do nada. Jamais suporia que por debaixo dele está um dos lugares mais fantásticos que já visitei, a Capela Sistina, prodígio da criação do Homem.
A simplicidade que esconde a magnificência e a antítese expressa nos políticos: apregoada magnificência mas com real recheio da mais franciscana pobreza.
E nas duas situações, politica e conclave, em comum, há votos.
Com o papel dos votos e dos apontamentos dos cardeais se faz fumo branco juntando Cloreto de Potássio, Lactose e Resina, ou fumo preto, juntando Perclorato de Potássio, Antraceno e Enxofre.
E o fumo branco faz repicar os sinos na cidade e faz nascer verdadeiramente a festa…
E o fumo preto convida à espera…
Com os nossos votos em eleições se faz fumo branco juntando competência, honestidade e espírito de missão, ou fumo preto, juntando incompetência, desonestidade e arrogância.
Condenados a um perpétuo fumo negro, já desesperamos…
E os sinos não repicam, apenas dobram, sonoro reflexo triste das nossas almas no momento em que até estrangeiros já somos na nossa própria terra.
Cloreto de Potássio, Lactose e Resina, Competência, Honestidade e Espírito de Missão…
Fumo branco, precisa-se.
Por cá, porque em Roma já está.

terça-feira, 12 de março de 2013

“Alentejanês”

Se há quem diga que o Porto é uma nação, não haja dúvidas de que o Alentejo não lhe fica atrás. A cultura e a nossa forma tão própria de ser e estar delimitam as fronteiras de uma terra que sinto minha e que será para sempre a minha casa.

Uma terra de gente bem-disposta e que carrega esse privilégio de saber rir de si própria em infinitas anedotas, naquilo que é prova de uma boa e afinada auto-estima.

É que, mesmo nas dificuldades, do bom tinto e da boa comida, sabemos “sacar” importantes e fundamentais efeitos anti-depressivos.

E entre sobreiros e a imensidão das searas, olhando os horizontes que parecem não ter fim e naquele que é o espaço de todos os afectos, desenvolvemos uma forma única de comunicar. Hoje apeteceu-me partilhá-la convosco.

Atentem então na forma como nos exprimimos e vejam se entendem o nosso linguajar. E ao ler, não se esqueçam de oferecer às palavras aquela sonoridade dolente que nós roubamos ao campo nos dias de intenso estio em que não corre sequer o fresco de uma brisa:

“Antes me tivesse alambazado com uma Açorda de Tomate com capelinhas fritas na sertã, ou mesmo com uma barrinhola de Feijão com Alabaças, seguida de um Bolo Finto, pois logo que saquei o testo e o cace saltou da tigela de fogo e me cheirou a Feijão com Mogango, senti umas ânsias que até tive vontade de abalar...

Mas fiquei, bresuntei um marrocate com pingo e enfardei-o. Estava taronjo e tinha de desenratar.

Ainda havia miolos na laje que tentei apanhar com o vasculho e a ferra mas a cãzinha, sempre de roda de mim, aventou-me com tudo.

Tal tá a moenga, parece que o mundo tá mangando comigo e só me vejo em fezes. Ainda pego numa cachaporra…

Mas não me enrasquei ou assarampatei, havia azeitonas para arretalhar mas antes que as maganas das testalheiras, muito pantomineiras e sempre a dar fé, me pusessem algum anexim, e porque entretanto tinha escampado, peguei no açafate e nas pinças e fui estender a roupa na corda ao pé do bajolo. Mas os piruns não me largavam.

Tal está a porra.”

E então? Fácil?

“Alentejanês” do puro e do melhor.

Como sou amigo, aqui vai uma ajudinha:

“Antes tivesse comido uma Sopa de Tomate com chouriço e toucinho, fritos na frigideira, ou mesmo uma tigela de Feijão com espinafres bravos, seguida de um Bolo Levedado, pois logo que tirei a tampa, a concha da sopa saiu da panela e me cheirou a Feijão com Abóbora, senti uns vómitos que até tive vontade de me ir embora...

Mas fiquei, untei um pedaço de pão com a gordura de fritar a carne de porco, e comi-o. Eu estava tonto e tinha de desenjoar.

Ainda havia migalhas no chão que tentei apanhar com a vassoura e a pá, mas a cadela, sempre de roda de mim, atirou novamente com tudo.

Que aborrecimento, parece que o mundo está a brincar comigo e só me vejo em trabalhos. Ainda pego numa moca…

Mas não me atrapalhei ou assustei, havia azeitonas para cortar mas antes que as horríveis das coscuvilheiras, muito mentirosas e sempre atentas a bisbilhotar, me pusessem alguma alcunha, e porque entretanto tinha parado de chover, peguei no cesto e nas molas e fui estender a roupa na corda junto à pedra grande. Mas os perus não me largavam.

Que chatice.”

Semelhanças? Algumas.

Quanto a mim, basta-me falar ao telefone com algum conterrâneo e o “chip” afina automaticamente: carrego-me da “moenga” ao estilo Grupo de Cantares de Pias, embalo…e lá vai disto.

Com orgulho e sem intuitos separatistas. Afinal são estas diferenças que contribuem para a riqueza da nossa língua.

E em “Alentejanês”? “Tá-se beim!”

segunda-feira, 11 de março de 2013

Olisipo


Por mais que a brisa a tente, e por muito que o inverno, a vento e chuva, lhe assinale as noites, Lisboa jamais se renderá ao frio.
E o luar é acendalha, mote perfeito. E pelo trinar da guitarra e pelo fado, viela a viela, se incendeia a cidade que mais do que cidade, é berço e lugar património de todas as almas. 
Maga maior de entre todas as pátrias do universo, provo-lhe a alquimia num breve instante, numa noite de sábado, olhando o Rossio, de Ginjinha na mão e a tragos adoçando o ser, ali algures entre São Domingos e o Teatro Nacional, à sombra do Palácio da Independência, escutando a voz dorida de um mendigo que troca fado por pão, no caminho que nos leva ao Coliseu.
E a alquimia de Lisboa está nessas palavras que dela brotam, letras nascidas poesia pela verdade que “roubam” à alma da gente.
A alma, a mesma que o teu olhar deixa transparecer e me fala nessa aparente quietude de um sofá embalado pela música de um canto vindo do Pireu, mediterrânicas confluências e cumplicidades na noite da cidade que tem Ulisses na genética do seu nome.
E não sei, nem nunca saberei, se as tuas lágrimas me dizem sim ou expressam um não, nesse momento em que os lábios traem os sentidos e se entregam à terrível e racional consciência, eficácia homicida do percurso das percepções doces dos mandamentos da própria alma.
Sei apenas, isso é certo, que cada sim ou cada não, carrega sempre em si mesmo, a dor da saudade de um adeus.
E um sim ou um não, marcará sempre o principio, o primeiro momento de uma vida qualquer. Outra vida.
Chove em Lisboa.
Não, a cidade não se rendeu ao frio nem ao inverno, apenas chora.
E chora comigo, jamais por mim, cumprindo-se na essência, cúmplice das errâncias que os sonhos dão.
Lágrimas de Lisboa, inevitável choro, nuvens desfeitas, cortina aberta, devolução do luar que incendiará de fado e poesia, os recantos da viela.
E sob o luar, outra vida.
Mas sempre contigo.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Mulheres


Sempre que viajo até à mais profunda das memórias e reencontro aquele exacto momento em que posso começar a contar a minha história, revejo sempre a minha casa, cheia de mulheres. A minha mãe, costureira, desenvolvia a sua actividade no domicílio, e entre as “raparigas” aprendizes que a ajudavam, as clientes que chegavam a todas as horas para fazer as provas diante de um enorme espelho implantado na parede, e as tias e avós que chegavam sempre depois do almoço para ajudar nos alinhavos e nos chuleios, eu cresci, aprendi a falar e a sonhar, embalado por este insuspeito grupo de mulheres com largo espectro etário, pelo mimar sem limites que chegava através do doce das suas histórias, das suas cantigas, dos seus colos e dos seus olhares. Estas tantas e tão fantásticas mulheres foram as minhas mestras na arte dos afectos.
Pouco tempo antes de entrar para a Escola Primária, os meus pais inscreveram-me no Jardim Escola (assim chamávamos à Pré-Primária) que funcionava no Lar Juvenil da Santa Casa da Misericórdia de Vila Viçosa. Ainda hoje guardo os amigos desse tempo e impossível será não guardar a memória da Irmã Celeste, a mulher que me ensinou a ler e a escrever, para além de ter sido a primeira ecologista militante que eu conheci: instruiu-nos nos prazeres do campo e nas vantagens da agricultura biológica que treinávamos na nossa pequena horta.
Em 1989, quando terminei o curso de Ciências Farmacêuticas, fui estagiar durante quatro meses para a Farmácia Ronil, na Rua Rodrigo da Fonseca, em Lisboa. Em Portugal, quem sai de uma Universidade, cedo se apercebe que os cursos, demasiado teóricos, ficam muito a dever ao exercício real da profissão e por isso encontrei na Dra. Valquíria Mandeiro, Directora Técnica da Farmácia Ronil, a minha verdadeira “professora”. Pelo saber, pelo exemplo, pelo rigor, pela arte e sobretudo pelo prazer que se nos exige, saibamos “sacar” de uma actividade profissional.
Hoje é Dia Internacional da Mulher, um dia que a imbecilidade do homem ainda torna pertinente, e com as memórias destas mulheres que me marcaram enormemente a vida, celebro e brindo convosco à vossa / nossa vida e ao vosso / nosso sucesso.
Estou certo que o futuro apagará a discriminação que é prova da insegurança e da fraqueza de alguns homens, os inventores e os praticantes do “machismo”, exercício de auto-convencimento de uma superioridade bacoca e irreal.
O futuro por certo apagará essa injusta ideia de atribuição de quotas e salientará apenas as diferenças de género ao nível do que é nobre e legítimo, nessa complementaridade que é raiz de grandeza na humanidade.
Afinal de contas, e se me permitem brincar um pouco, o que seria o meu café matinal sem as vossas dissertações sobre os casacos “see through”, os tecidos “animal print”, as unhas e os sapatos “louboutin”, as unhas térmicas, as de néon e as que brilham no escuro, as unhas de gel em tom verde jade, as manequins em pose de “broken doll”, essa para mim tão ténue e sempre intrigante diferença entre madeixas e nuances, as drenagens com L-carnitina, os implantes de silicone que protegem contra os ataques das serpentes, e as carteiras e os saldos da Louis Vuitton?
Por certo que o café seria menos “doce” e os dias muito menos coloridos.
Minhas queridas amigas, e se há homens que como diz o filme, odeiam as mulheres, há também homens que sem ser por mais nada, vos podem amar apenas e só, verdadeiramente, tendo por base tudo aquilo, o muito que vocês são.
Sintam-se lisonjeadas com este amor e mantenham-se sempre assim: inteligentes, sensíveis e lindas de morrer.
Um beijo.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Com garra e com fé… à luta e sempre a sorrir

“Sopa Azeda” era a alcunha bem colocada a uma catequista que existiu em tempos na minha terra, mulher de uma corrosiva acidez nas palavras e que por ambição de respeitabilidade, tinha há muito amputado o sorriso.

É assim, geralmente, no país do “muito riso, pouco siso”. Ser optimista é sinal de imaturidade e irresponsabilidade, e ser carrancudo e antipático, pessimista militante, é meio caminho percorrido para atingir a tão desejada e dita respeitabilidade.

Por dever de prudência, por imposição do pudor na auto-castração no reconhecimento do prazer, a perspectiva do “copo meio vazio” impera geralmente sobre a do “copo meio cheio”, que poderia ser aplicada a qualquer igual quantidade de líquido no dito recipiente.

É fado e marca de lusitanidade este receio crónico de que mesmo que estejamos bem e a desfrutar do paraíso, no instante a seguir poderemos morrer…

“Nunca diga que está bem!”.

Não falo aqui obviamente das pessoas, muitas nos tempos que correm, que não vislumbram qualquer motivo para o optimismo, falo daquelas que sem razão vestem essa terrível “burka” da fatalidade.

E no contexto da vivência da fé Católica?

Em tempo de quaresma, é fácil constatar como o roxo nos assenta melhor ao fácies do que qualquer outra cor litúrgica, e de como a escassez de flores nos altares e a ausência de “aleluias”, estão muito mais alinhadas com o nosso ar que cruza o “todos me devem e ninguém me paga” com o “oh para mim, tanto que eu sofro e choro pela humanidade”.

As homilias têm em geral epicentro naquilo que é negativo e que não deve ser feito, e muito raramente no que é positivo. As “descascas” suplantam quase sempre o elogio, jamais se assumindo que a partilha do que é positivo é uma forma mais eficaz de testemunho e de motivação.

E isso “pega-se”.

Se estiverem atentos a uma conversa de “beatas” reparem que se focam apenas no que está mal e que são incapazes de elogiar algo que seja exterior à dimensão da sua própria pessoa. Os outros até podem ser perfeitos mas espirraram uma vez algures no momento errado. Só conta o espirro.

Procura-se um padre para quê? Para contar uma vitória e um momento de prazer?

Não, as conversas centram-se no negativo, falam de “pecados” e desgraças. Em geral, o padre só é chamado para uma casa quando se vislumbra a morte…

Um sorriso e o optimismo seriam muito mais representativos da nossa herança, sendo como somos, testemunhas e “apóstolos” do Cristo que venceu a morte.

E este testemunho pela positiva não deverá ser dado apenas pela coerência que se nos exige e que nos deverá colocar alma e aparência, de felicidade e vida.

Tenhamos a noção de que as pessoas que vivem bem nos territórios do negativo, acomodam-se mais facilmente, resignando-se, ao péssimo que cada momento pode ser ou trazer.

“É a vida. Não há nada a fazer”.

“Já estava destinado para ser assim”.

A força e o espírito de luta nascem da exigência de querer ser maior, e da ambição de estar no espaço do que é positivo, daquilo que nos dá um assumido prazer; ao mesmo tempo que é fermento da felicidade e da arte de saber crescer.

E essa força, devemo-la a nós próprios e devemo-la também a todos aqueles que não se vestem de lágrimas postiças, aqueles que pelo contrário, têm-nas legitima e naturalmente no rosto.

E a nossa luta será a esperança de muita gente, a montante, no combate à ambidextra incompetência de quem nos tem liderado, e a jusante, em tantas organizações que dão pão a quem o não tem.

Contra a depressão e a crise, com garra e com fé, marchar, marchar…

Porque a quaresma, pela força da fé, desemboca sempre na ressurreição. E impõe-se-nos garra, alma, esperança e cara de "ressuscitados".

À luta… e sempre a sorrir.

terça-feira, 5 de março de 2013

Amigos


O domingo amanheceu cinzento, e é de sombras que se me fazem as margens quando cruzo o Tejo rumo a Almada, e depois, pela A6, me entrego ao Alentejo para um breve regresso a casa.
A invernia reserva-me o asfalto só para mim, numa quietude que é desde logo adoptada pelos pensamentos, esses tantos que voam à medida que saboreio a majestade dos sobreiros rasgando o horizonte, nosso conforto e privilégio único de filhos da planície.
Dormi muito pouco, muito menos que o habitual, nas noites de Sexta e Sábado. A inauguração da casa do André e da Catarina, e a comemoração dos cinquenta anos do JP, foram pretextos para jantares de amigos, e entre as gargalhadas, as conversas, as confidências e as cumplicidades, se fizeram muito curtas e voaram, todas as horas destes serões especiais.
E o presente faz-se e adoça-se desta amizade.
Por alturas de Montemor começa a chover de forma intensa, e a estrada é definitivamente só minha enquanto os pensamentos e as memórias me dão o conforto de uma companhia.
O destino, marcado no GPS e que faz com que a “Maria do Amparo” com a sua voz definida como “Amália Metálica” seja a cada cruzamento, a emissora das únicas palavras sonoras que me acompanham, não tardará muito.
À espera em Vila Viçosa tenho trinta anos da minha história, concretizada num enorme e fantástico grupo de amigos com quem partilhei inúmeros dias do meu passado, ali por volta dos vinte anos.
E partilhámos os dias, entrelaçando-os de sonhos e de fé, daquela forma tão especial, que torna eternos, todos os afectos.
Com a bênção do nosso querido Padre Simões, a abraços celebrámos o nosso reencontro, estranhando o facto de as barrigas de forma tão intensa se intrometerem entre nós nesse gesto, oferta dos braços, que tão bem celebra a amizade.
Rita, a frase do dia foi tua:
- “Até as violas parecem estar mais gordas.”
Cantámos, celebrámos a fé que comprovadamente amadureceu connosco, e rimo-nos como nos bons “velhos” tempos, não me escapando eu a um duche de sumo de maracujá vindo da boca de uma dama cuja identidade não divulgo, após um daqueles comentários tolos que por vezes me escapam. O comentário é que é mesmo irrepetível por imposição do pudor.
As cumplicidades eternas na festa da amizade.
A chuva parou quase no preciso momento em que me faço de novo à estrada para regressar a Lisboa, depois de um jantar em família e dessa árdua tarefa de pôr o meu pai a manipular um telemóvel novo. O João Pedro, o Miguel e o relato do Benfica fazem-me companhia, e por entre os lamentos dos falhanços do Cardoso e os ataques perigosos da equipa adversária, lá nos vamos rindo e falando sobre a semana que nos espera e que para eles é mais uma etapa na vivência do primeiro ano dos seus cursos universitários.
A amizade faz-se presente pelas suas inquietações e as suas esperanças, afinal de contas tão iguais às que eu e as mães deles partilhávamos nos domingos à noite quando fazíamos as longas viagens de “camioneta” até Lisboa.
E os sobreiros são agora sombras à mercê da generosidade da lua. E aqui e ali vão-me acompanhando até ao momento em que vislumbro de novo o Tejo.
Para o alentejano, o Tejo, mais do que um rio, será sempre uma corrente de lágrimas ao ritmo das saudades de casa e do campo, por mais que Lisboa nos atraia, bela e sedutora, do outro lado das pontes.
Com urgência, necessito entregar o corpo à cama e pô-lo à mercê dos sonhos.
Adormeço sobre a intemporalidade dos afectos e da amizade.
Jamais saberei se o passado dos afectos me ensinou a viver o presente, ou se pelo contrário, é o presente dos afectos que me permite reconhecer e valorizar o doce dos de antes.
Ou talvez as duas visões sejam verdadeiras e estejam naturalmente presentes nos dias em que nos entregamos à vida, estrada fora, sem medo e sem reservas ao amor.
Não me recordo se sonhei, mas tenho a certeza de que sorri, no outro dia, quando o amanhecer me despertou.

domingo, 3 de março de 2013

Padre António Simões


Nas ORIGENS, o nosso encontro na Quinta de Santo António, em Évora, no primeiro serão do Convívio Fraterno número 147, no qual participei. A sua aparente timidez frente-a-frente com os sonhos dos meus quase dezasseis anos.
As primeiras, poucas, palavras, os mútuos sorrisos, acompanhados do lado dele por um incontrolável rubor, e eu cedo a surpreender-me e a descobrir-lhe a bravura, qual “forcão” raiano nas “lides” do ser maior e melhor, porque bravos, verdadeiros heróis, são os fiéis indiscutíveis aos MANDAMENTOS da alma.
Com as palavras como inspiração, o olhar como cúmplice da sua verdade, e o ser e todos os gestos, como testemunhos, aprendi com ele respostas para muitas das minhas inquietações e provei esse doce gosto de trilhar os caminhos para a verdadeira FELICIDADE.
PECADO teria não ter tentado seguir o seu exemplo, “operacionalizando” a fé, nessa busca constante de CRISTO LIBERTADOR, o Cristo que é a verdadeira resposta para a vida.
Cristo, afinal de contas, o seu e o meu Caminho.
Com a magna inteligência dos humildes, conseguiu em tempos de real adversidade, congregar-nos nas cumplicidades de um CORPO MÍSTICO que bebe nos SACRAMENTOS a força para ser IGREJA, cumprindo com orgulho e alegria, a MISSÃO EVANGELIZADORA DO CRISTÃO, os apóstolos que amam segundo o exemplo de Cristo.
Com a sua verdade e o seu exemplo de abnegação, e sempre, sem olhar a outros objectivos que não o de sermos felizes.
E assim, unindo e potenciando os MEIOS INDIVIDUAIS DE PRESERVERANÇA, na maior e mais intensa cumplicidade com CRISTO SEDUTOR, fizemos tantos e tantas vezes, essa nobre aposta no assumir da herança de fé, de paz e de amor, e tornámo-nos mulheres e homens maiores.
Padre António Simões, o nosso pós-convívio mede-se a décadas mas a nossa admiração por si, pela imensidão, jamais terá medida.
Obrigado por ser essa pessoa fantástica e inspiradora, e por ter sido ao longo de todos estes anos: pastor, exemplo, amigo, cúmplice, companheiro, alento, pai…
E de ter possibilitado com tudo isso, que a nossa fé se fizesse maior.
Por si e consigo damos graças a Deus e à vida.

sábado, 2 de março de 2013

Impõe-me o dever que eu também vá…


Um Povo que não se revolta perante as injustiças e os ataques à sua dignidade, é um Povo que se demite de o ser. A identidade de uma nação não está nas suas fronteiras, está no código genético marcado a garra, força, espírito de luta, orgulho e liberdade, de Gente unida não só pela história, mas também pela alma presente de onde brota a vontade e a fé do melhor destino, um inolvidável futuro comum.
A defesa da minha dignidade e o meu patriotismo exigem pois que eu hoje saia à rua.
Faço-o sem partido, perdi-o algures, não sei onde, neste mar da mediocridade que há muito, há décadas, nos “governa”.
Faço-o pelo passado e pelo presente, e sempre, tendo em conta o futuro. Direita ou esquerda? Antes, agora ou depois? Não me interessa, também o faço como manifestação de total intolerância pelas vãs desculpas típicas da imbecilidade e da incompetência.
Faço-o por imposição da fé, na manifestação de uma total intolerância perante a injustiça dos poderosos, todos unidos, no aniquilar do Povo que querem vencido. Na promiscuidade entre políticos e banqueiros na festa do “aguenta, aguenta”, é o povo que come dos contentores do lixo, e “manda” o meu Deus que eu me revolte.
Faço-o por solidariedade, prestando-me a ser a voz dos que já foram obrigados a partir para lá das fronteiras, para muito longe da terra e da gente que amam.
Faço-o por solidariedade, prestando-me a ser força para os muitos que querem trabalhar e o não podem fazer, gente honesta obrigada a hipotecar a sua autonomia numa imolação imbecil no altar da alta finança.
Faço-o pelos que trabalharam durante décadas, alimentando o Estado Social e sempre na legítima perspectiva de um futuro tranquilo, e que agora, no tribunal da incompetência da política, são identificados como culpados e condenados a uma mísera mensalidade que os ofende em tudo, e sobretudo na dignidade.
Faço-o, exigindo honestidade, competência, sentido de Estado e muito rigor na gestão do muito dinheiro que eu, como muitos mais, invisto todos os meses no meu país. O Estado Social não está agonizante por falta de verbas, assim alguém as soubesse gerir.
Faço-o por todos, e claro, também por mim.
Pelo futuro.
Por Portugal, impõe-me o dever que eu hoje saia à rua e me manifeste.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Olhar o céu


Um helicóptero branco rasga os céus de Roma, transportando um Papa que o deixa de ser, por certo, por inspiração divina, mas objectiva e racionalmente, por expressão da sua própria vontade.
Estranha a imagem da cúpula de São Pedro em momento de “Sede Vacante” no adeus a um Papa que não morre, apenas voa neste visível e humano “céu” por cima das nossas cabeças.
Fala-se de renovação e alimenta-se a esperança.
De facto, não é necessário morrer para mudar o curso da história. Basta querer, basta voar, e a esperança acontece…
É a tarde do último dia de Fevereiro e quis a sorte que o meu olhar se entregasse ao perfeito céu da cor mágica e infinitamente branca de Lisboa. Subo a rua de São Bento e o céu é meu, mesmo sem o desenhado voo da “Gaivota” cantada por O’Neill.
E entre mim e o céu, há rubras sardinheiras nas janelas de Amália e um pouco mais abaixo, numa casa forrada a azulejos azuis, há uma amor-perfeito em tons de amarelo que, em jeito de desafio, me espreita debruçado do ferro forjado de uma varanda.
O céu não existe apenas para que possamos voar…
Contemplando o infinito na legitima ambição de quem segue os sonhos, será por certo de amor que se nos marca o fado nesta festa de existir.
O céu era maior quando após o almoço me deitava de costas sobre as ervas, por esses dias na companhia dos malmequeres, das papoilas, do rosmaninho, da giesta, da esteva e da imponência das dedaleiras, sempre que acompanhava a minha avó ao campo, no Vale da Rabaça, no Carapiteiro ou na Fonte Cebola, para que num ribeiro de águas límpidas e correntes, entre o lavar, o corar e o secar, ela nos trouxesse para o sono todos os aromas perfeitos nascidos da terra e por bênção do céu.
O céu era maior porque tudo é maior quando contemplado por um olhar de criança.
E desde ali, a olhar o céu, viesse alguém e me falasse de impossíveis…
Hoje começa Março, e desde aqui e até à primavera, há apenas a distância de um brevíssimo momento.
Avancemos então ambiciosos para a primavera, a voar ou… pelo menos, ao jeito de quem olha o céu e segue os sonhos.