quarta-feira, 13 de março de 2013

Cloreto de potássio, lactose e resina


Quando de repente um empregado de um restaurante no centro de Lisboa me pergunta a medo se eu falo Português, fico chocado e não resisto a olhar em volta, cedo constatando que a crise retirou os Portugueses de alguns territórios da cidade, reservados hoje quase exclusivamente a estrangeiros que deles usufruem como se de um parque temático de história e gastronomia, se tratassem.
E nós ali, tão giros e tão “tugas”, sob os efeitos dos seus intrigados olhares, sentindo-nos quais lontras (e não vale fazer piadas com o peso e/ou o volume), Eusébio ou Amália, atracções de um lugar de entrada barata, para eles, claro. Uma espécie de “Portugário”.
Valha-me o despertar no dia seguinte e o personalizado tratamento da dona da pequena pastelaria junto a minha casa, que me chama pelo nome e a quem já nem preciso de pedir a bica.
E hoje, enquanto falamos do sol e por ele nos deixamos levar até aos ansiados dias de Páscoa que iremos passar no campo, eu no Alentejo e ela na Beira Baixa, a televisão só fala de política, avaliação da troika e a eleição do novo Papa.
Os políticos cumprem o seu ciclo de hipocrisia que os faz assumir o papel de indutores da austeridade, no caso de estarem a exercer o poder, ou de vendedores de promessas e de desafogo, se estiverem em plano de oposição ao poder. A imbecilidade rotativa na construção e manutenção do “Portugário”.
E em Roma há uma multidão que olha ansiosamente para um telhado e para uma chaminé à espera que dela saia o fumo branco que indicará o entendimento de 115 homens relativamente à escolha de um novo líder para a Igreja Católica.
O telhado e a chaminé têm um aspecto medonho. Sem legendas e sem o devido enquadramento eu diria que aquele conjunto seria a cobertura de um barracão algures no meio do nada. Jamais suporia que por debaixo dele está um dos lugares mais fantásticos que já visitei, a Capela Sistina, prodígio da criação do Homem.
A simplicidade que esconde a magnificência e a antítese expressa nos políticos: apregoada magnificência mas com real recheio da mais franciscana pobreza.
E nas duas situações, politica e conclave, em comum, há votos.
Com o papel dos votos e dos apontamentos dos cardeais se faz fumo branco juntando Cloreto de Potássio, Lactose e Resina, ou fumo preto, juntando Perclorato de Potássio, Antraceno e Enxofre.
E o fumo branco faz repicar os sinos na cidade e faz nascer verdadeiramente a festa…
E o fumo preto convida à espera…
Com os nossos votos em eleições se faz fumo branco juntando competência, honestidade e espírito de missão, ou fumo preto, juntando incompetência, desonestidade e arrogância.
Condenados a um perpétuo fumo negro, já desesperamos…
E os sinos não repicam, apenas dobram, sonoro reflexo triste das nossas almas no momento em que até estrangeiros já somos na nossa própria terra.
Cloreto de Potássio, Lactose e Resina, Competência, Honestidade e Espírito de Missão…
Fumo branco, precisa-se.
Por cá, porque em Roma já está.

1 comentário:

  1. Algo vai mal no reino da Dinamarca, ou melhor no protectorado Portugário, quando alguns dos seus egrégios súbditos, se sentem estranhos no seu próprio rincão pátrio, como de forasteiros se tratassem. Sinais dos tempos meu caro ....

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