segunda-feira, 31 de março de 2014

MANUEL JOÃO

Nenhum dos muitos e felizmente bons amigos que tenho se importará que eu diga que és o melhor de todos esses amigos.
Não aplico aqui nenhuma escala especial de avaliação, digo isto apenas porque sinto que somos afinal muito mais irmãos do que propriamente apenas amigos.
Um irmão extra oferecido pela vida e escolhido por mim por claro mérito teu. És feito da “massa” das pessoas de excelência, e eu por ti, ponho as mãos no fogo pois sei que jamais me queimarei.
Crescemos juntos e a nossa amizade terá sempre a nossa idade, alicerçada nessa partilha que hoje fazemos à mesa do Restauração como antes fazíamos nas salas do teu segundo andar, alinhando os bonecos de um improvisado Jardim Zoológico e uma cidade cheia de carrinhos miniatura da Matchbox com que depois brincávamos.
Brincávamos mas já com a ambição de ser homens quando fumávamos cigarros Kentucky às escondidas e atirávamos as “beatas” para o telhado.
À hora do lanche, a tua mãe chamava-nos sempre para uma torrada e um Sumol que íamos buscar ao café do teu pai, um homem que raríssimas vezes eu consegui ver de outra forma que não a trabalhar.
Herdaste dos teus pais a generosidade e a honestidade, para além de milhões de outros valores de excelência; e isso fui sentindo sempre, mesmo quando apenas as cartas escritas aproximavam Lisboa e Portalegre nos anos em que estávamos a estudar.
Guardo ainda todas essas cartas e às vezes abro uma e releio-a para activar a memória que me reconheces.
Estão lá todas as palavras da partilha que entrelaça definitivamente as vidas e constrói as melhores amizades do mundo, a partilha de dois amigos que apanharam o “vapor da liberdade” e ousaram sonhar juntos construindo vidas que romperam os destinos bem mais modestos que por família nos eram atribuídos.
As cartas falam de uma fé inabalável em nós e em Deus, e transpiram um afecto fantástico.
E às vezes nas cartas até havia direito a banda desenhada (lembras-te das aventuras de “O grande bolo”?). Nem morto direi aqui quais eram as personagens principais do enredo que metia unhas e espátulas.
Quem nos vir hoje terá dificuldade em acreditar que éramos ambos tímidos e que às vezes também tínhamos aqueles arrufos típicos de amigos. Os arrufos passavam sempre rapidamente e a timidez foi sendo vencida aos poucos e muito por mérito desta amizade.
E o que a gente se ria?
Quando imitaste a Filipa Vacondeus a fazer panquecas na versão Herman José; quando fizeste de Jesus com uma alva para uma criança dez anos mais nova do que tu e ficaste com 40 centímetros de perna ao leu junto às peúgas brancas; quando enfiaste o vestido de noiva da tua tia Jeca e casaste com a Juca que ia de rapaz; quando fizeste de Ti Maria do Monte na festa da Zinha Duarte e levavas uma enorme saia de nazarena…
Os dias sorriem despudoradamente, e cresce e consegue ser muito maior quem tem amigos como tu.
Manuel, muitos parabéns pelos 48 anos e sobretudo, muito obrigado por me teres composto e recheado os dias dessa felicidade e ternura que te saem da massa de melhor amigo de que definitivamente és feito.

sábado, 29 de março de 2014

A essência eterna das estevas

Brilha intenso o sol da primavera quando cruzo o Douro saindo do Porto, e estrada fora, a manhã de sábado me oferece a tranquilidade de uma viagem no privilégio dos meus pensamentos.
Sigo embalado pelo silêncio e pelas cores do campo que a manhã me vai revelando.
É pelas bandas de Santarém que encontro o Tejo e não tardo a ver-me entre sobreiros na estrada que cruza a lezíria e me leva até à Branca.
O caminho está agora repleto da perseverante nobreza dos sobreiros e um pouco mais à frente, depois de uma curva da estrada, não resisto a parar junto a uma esteva enfeitada de uma infinidade de flores brancas que me sorriem.
É cedo e há tanto tempo que não acaricio o resinoso pé de uma esteva. Toco-lhe e arrasto depois os dedos até ao nariz oferecendo-me o aroma das ruas da minha terra quando a esteva secava à porta dos fornos antes de oferecer ao pão, chama e aroma; e assaltam-me as recordações do avô Joaquim a explicar-me a paixão de Cristo nos traços das pétalas, e de como a sorte pode mudar e ficar a nosso favor quando encontrarmos um pé de flores de raras quatro pétalas, que bem mais comuns são as de três.
Quem não for do campo jamais compreenderá esta necessidade de um homem parar no seu caminho apenas para beijar as flores.
Só vi flores de três pétalas mas a sorte chegou de aí a muito pouco nos abraços e nos sorrisos dos amigos.
A Natália fez esta semana sessenta anos e quis reunir-nos a todos.
Na pequena ermida soam cânticos, muitas palavras e lembranças ao redor da fé que será sempre a raiz mais profunda da nossa amizade.
Ouço o Padre Simões, que fez oitenta anos há muito poucos dias, e descubro que o conheci há precisamente 32 anos, tinha ele então a idade que eu tenho hoje. Oxalá eu possa envelhecer assim, e que as minhas palavras possam então soar baixinho por saírem da boca demasiado carregadas de doçura e verdade.
À volta da mesa do almoço não tardarão a sair canções, gargalhadas do melhor rir de nós próprios, lembranças, palavras, emoções fortes e as lembranças de décadas de cumplicidade e amizade.
Afinal conhecemo-nos todos há 32 anos e que bem enchemos cada dia deste período em que fomos mais felizes por nos termos uns aos outros.
Despedimo-nos e eu devolvo-me à estrada que pelo mesmo Ribatejo me levará agora até casa.
Já é tarde e o sol ameaça pôr-se de aí a muito pouco.
Sigo mais uma vez entre sobreiros e passo pela minha esteva da manhã. Está diferente com o sol a incidir-lhe agora de uma outra forma.
Já não paro mas acredito que se saísse do carro e lhe tocasse, a sua essência estaria igual.
A esteva é afinal como nós. O tempo deu-nos um ar diferente mas conservámos a essência que nos uniu e unirá sempre.
Somos os melhores amigos e somos eternas flores do campo.
A estrada conduz-me agora de encontro ao sol que parece dizer-me adeus por detrás de uns montes, no instante em que volto a cruzar o Tejo.
E não sei bem porquê… talvez seja apenas porque sou um pouco tonto, mas dou comigo a chorar um pouco.
Há dias assim, dias repletos de momentos que de tão perfeitos, nos deixam imediata saudade na hora do pôr-do-sol.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Acção de graças

Num dos dias desta semana chegou-me um pedido inédito e nada fácil: escrever a oração de acção de graças para uma eucaristia.
Andei a matutar no assunto, e dei-lhe voltas até me decidir sentar e rezar, com a diferença em relação às demais vezes, de ter o i-pad na mão e ir escrevendo.
Mandei o resultado ao meu querido amigo Padre António Júlio e à minha querida amiga teóloga Maria Manuela, para além dos outros amigos envolvidos na “encomenda”. Todos gostaram.
Partilho convosco o que escrevi / rezei, espero que gostem e, se for o caso, rezem comigo.

ACÇÃO DE GRAÇAS

Louvado sejas Senhor das Searas
Senhor do Pão
Alimento eterno
Senhor alento de todos os meus dias
Senhor dos meus sorrisos
Da minha paz
Senhor das minhas mais doces e profundas alegrias

Louvado sejas Senhor Rei de toda a Terra
Senhor das Águas
Saciar da minha sede
Senhor de todos os meus passos
Alívio das minhas dores
Pai das minhas forças
Senhor alento na morte de todos os meus cansaços

Louvado sejas Pai do mais profundo amor
Rocha firme
Alicerce eterno
Senhor do mais intenso querer
Perpétuo companheiro de todas as horas
Raiz da felicidade
Pai inspiração de todo o meu viver

Louvado sejas Senhor dos Campos
Senhor dos mares
Senhor dos rios
Senhor do sol
Senhor da ciência
Senhor do saber
Senhor das minhas angústias
Senhor das minhas vontades
Senhor do meu sonhar
Dos horizontes…
Senhor superlativo infinito de amar

Meu Pai

Pai do universo todo

Senhor…
Louvado sejas

quinta-feira, 27 de março de 2014

Ele há dias…

Estar na cidade do Porto e tomar o pequeno-almoço na mesma sala do Pinto da Costa no dia a seguir a uma derrota do Benfica no Estádio do Dragão, é uma experiência quase tão agradável quanto escorregar por um corrimão de lâminas e aterrar com o traseiro num alguidar de álcool puro.
Foi difícil mas sobrevivi e lá parti com as feridas em processo de acelerada cicatrização até à manhã de trabalho que decorreu sem quaisquer sobressaltos ou recaídas do doloroso processo futebolístico de carácter agudo.
O restaurante do almoço tem ao lado uma loja “A Vida Portuguesa” e não resisto a entrar até porque tenho a incumbência de “espreitar” alguns presentes.
Confesso que gosto do conceito da loja que vem de encontro às minhas memórias através de produtos e marcas eternas como os lápis de cor da “Viarco”, os chocolates da “Regina”, os sabonetes “Feno de Portugal” ou os limpa metais da “Coração”.
Mas a “Vida Portuguesa” já não é definitivamente a mesma, nem com a presença de todas estas marcas. Aqui, nas outras lojas e em todo o país em geral, assistimos a um fenómeno interessante que é o risco de extinção de expressões como “desculpe”, “obrigado” ou “se faz favor”.
Partilho a minha experiência:
Na prateleira dos produtos que me interessam há um letreiro que solicita ao cliente a ausência de qualquer contacto táctil com as peças, devendo chamar um funcionário para o ajudar.
Dirijo-me então ao balcão onde está uma rapariga de avental a arrumar Rebuçados Santo Onofre num cesto e solicito ajuda.
Se eu lhe tivesse pedido para ela me cantar um fado da Amália, acho que me teria respondido com igual expressão macerada de dor e cansaço.
Soprou ao de leve e acompanhou-me com tal “simpatia” que me senti na obrigação de lhe dizer:
- Só a chamei porque segui a recomendação deste painel.
Nem reagiu.
Eu escolhi a peça e ela dirige-se novamente ao seu posto no balcão mas com uma lentidão demonstradora de uma tal astenia que quase lhe recomendei umas ampolas bebíveis de Sargenor para ver se arrebitava.
Fez o embrulho, as contas e depois de eu lhe ter dado o Cartão Multibanco e de ela o ter passado na máquina, o sistema deu erro.
E aí directamente:
- Isto está a dar erro. O senhor não deve ter dinheiro na conta.
E disse bem alto para que ninguém pudesse deixar de ouvir.
O comentário teve para mim o mesmo efeito que o ataque dos Japoneses a Pearl Harbor teve sobre os Americanos, e declarei-lhe guerra.
Gritei então ainda mais alto:
- Tenho sim. Ainda há pouco consultei o extracto.
Ela soprou mais uma vez sobre a máquina e voltou a passar o cartão.
Não deixei passar o sopro em vão:
- Nunca ouvi dizer que estas máquinas sobreaqueciam, talvez não valha a pena soprar.
E quando voltou a dar erro, uma colega armada em ONU resolveu intervir naquele conflito armado:
- Vai com o senhor ao balcão do primeiro andar porque aí o terminal é de outra rede e vai funcionar por certo.
E foi a “Madame ONU” que me pediu por favor para acompanhar a colega dado que a minha “inimiga” nem para mim olhou.
O cartão funcionou finalmente e eu acabei por sair da loja sem que a senhora do avental me dissesse “desculpe”, “obrigado” ou “se faz favor”.
Este episódio não é caso raro, suspeito eu de que se criou na cabeça de uma geração, a ideia de que estas expressões que manifestam tão-só boa educação são sinónimo de menosprezo perante egos superdesenvolvidos e importantes.
Ou eu estou a ficar velho e tudo isto é uma patetice minha, ou seria importante colocar por aí alguns cartazes idênticos àqueles que há alguns anos alertavam para a necessidade de salvar o lince na Serra da Malcata:
“Salvem o SE FAZ FAVOR na Vida Portuguesa”
Caso contrário e assumamos a extinção, será conveniente mandar dizer para Espanha que a expressão “es mas cumplido que un Portugues” está definitivamente desajustada.
E segui então para a minha tarde de trabalho que afortunadamente correu muito bem.
No entanto e como vai de dia, temo pela hora do jantar.
É que com o balanço que o dia leva, não me espanta que se possa sentar ao meu lado o Jorge Jesus a falar com alguém sobre as madeixas californianas que lhe fazem no seu cabeleireiro preferido.
E aí…

quarta-feira, 26 de março de 2014

Douro

A estrada trepa pela alta montanha, e lá no cimo, no instante em que o olhar se entrega em exclusivo ao horizonte, vislumbro as coroas de granito em infinitas montanhas iguais a esta que me dá guarita e de onde eu espreito.
O granito de milénios, cinzelado e feito a voz dos Homens no perpetuar de tantas lendas.
Lá em baixo, a serpentear e a pintar de azul todos os recantos do vale, há um rio baptizado com nome de ouro, que das montanhas recebe a devoção do íngreme declive se deixar morrer, fazendo-se escada longa e de mil degraus por onde os deuses e os céus poderão descer para beijar a bênção destas eternas águas.
E nos degraus expostos sem reservas ao sol e aos aromas do rio, de certo por mérito e privilégio de Baco, cresce o vinho perfeito por entre arbustos e as amendoeiras que o tardio inverno fez tingir de branco.
Aqui e ali, nas curvas do caminho que se fazem mais generosas para o olhar no irresistível contemplar do rio, erguem-se nobres ou simples casas dos Homens, e alvas casas de Deus construídas pelo cimento de uma fé tão forte como o próprio granito.
Casas de Deus... e casas de Maria, Senhora Mãe de tantas devoções do nosso povo.
Caminhante solitário, sigo com o eco das palavras de Torga e com a alma presa ao privilégio do olhar que contempla uma terra assim.
Douro…
Tudo isto é perfeito e muito mais do que apenas um rio.
E talvez não seja necessário morrer para se sentir o paraíso.

terça-feira, 25 de março de 2014

Um fim-de-semana na quinta da Avó Teodora

Com base na minha experiência de tio extremoso, recomenda-me a prudência que jamais deixemos avós e netos num mesmo espaço durante muito tempo, tal o elevadíssimo risco de danos irreversíveis sobre mobiliário, roupas, instalação eléctrica, alimentos, etc. Ou seja, este intercâmbio geracional resulta habitualmente num encontro de rastilho e fósforo, e é capaz de fazer explodir tudo aquilo que com ele coabite na ausência de uma possível e pronta intervenção racional da nossa parte.
Foi pois uma irresponsabilidade terem colocado ontem a “avozinha” Teodora Cardoso, septuagenária Presidente do Conselho das Finanças Públicas e que já deve alguns anos à reforma, em amena “cavaqueira” com o Grupo Parlamentar do PSD, os “netinhos” que adoram brincar aos referendos e que colam cartazes nas paredes como quem cola cromos na caderneta.
Ao melhor estilo “apartamento da Sónia Brazão”, a senhora recomendou que não se taxe mais o ordenado mas que seja aplicada uma taxa sobre cada levantamento que o indivíduo faça directamente da conta onde depositou esse mesmo ordenado.
Diz ela que assim se incentiva à poupança.
Embora eu tenha muito respeito pelas suas células cerebrais cansadas, é triste ver como a pobre senhora já não consegue vislumbrar que a maioria dos Portugueses afortunados por ainda conseguir receber ordenado, não poupa porque não quer mas sim porque não pode.
Os “netinhos” também ainda não cresceram o suficiente para conseguir explicar estas coisas à anciã criatura.
Que tal pegarem no andarilho da lucidez e levarem a pobre senhora a visitar um supermercado em hora de ponta assegurando-se que a graduação das lentes é a indicada?
E depois, que precedente perigoso se poderia abrir com esta medida que taxa tudo a jusante dos processos…
Poderiam aliviar-se os impostos sobre os alimentos mas colocar um sistema ao estilo “Via Verde das Sanitas” que permitisse avaliar o volume de resíduos sólidos e líquidos devolvidos pelo metabolismo de cada família, volume ao qual seria aplicado depois um imposto, o ISM (Imposto sobre a m…).
É possível promover também um alívio das taxas moderadoras no acesso às urgências hospitalares, promovendo de seguida o desenvolvimento de um novo imposto sobre a redução média de febre conseguida por acção dos anti-piréticos prescritos em tal consulta, o ISRMT (Imposto sobre a Redução Média de Temperatura), com uma ligação de cada termómetro aos satélites controlados pelo Ministério da Saúde.
Em Portugal e de forma definitiva, o principal território para o desenvolvimento da criatividade é a cobrança de impostos. É a criatividade associada à eficácia, pois nem um só fica por cobrar.
Há alguns anos, mais precisamente no longínquo ano de 1931, a actriz Corina Freire estreou na revista “O Mexilhão” o grande sucesso “Teodoro não vás ao sonoro”.
Cantava assim:
“Teodoro não vás ao sonoro
Teodoro não sejas ruim
Teodoro repara que eu choro
Se fores ao sonoro não gostas de mim”
Em 2014, o nome da revista pode manter-se porque não poderia ser mais pertinente, mas para a letra eu sugiro:
“Teodora vai-te lá embora
Teodora não sejas ruim
Teodora repara que agora
Se não fores embora não gostas de mim”
Teodora é para teu bem porque se resolvem mesmo criar o ISM tu vais à falência.

segunda-feira, 24 de março de 2014

NATÁLIA JOÃO

Os anjos nunca têm asas e nem sequer precisam saber caminhar para nos guardarem envoltos no conforto dos maiores afectos e nos ajudarem a cruzar os dias de uma forma feliz.
Os anjos ensinam-nos a linguagem perfeita do amor.
Os anjos são mestres, lutadores, destemidos heróis e guerreiros da fé que buscam todos os horizontes e que jamais aceitam os maus destinos como inevitáveis.
Os anjos alimentam-nos da força que transporta os sonhos desde a utopia até à expressão de uma vontade possível.
Os anjos desconhecem a cor da distância e perpetuam-se junto a nós pela força com que nos querem.
Os anjos são poetas que sabem ler a nobreza que existe escondida nos detalhes mais pequenos e mais simples dos dias.
Os anjos sorriem com o olhar, fazem-nos sorrir também a nós e abraçam-nos pelas palavras temperadas de uma inigualável doçura.
Os anjos inspiram-nos a ser maiores, coerentes, honestos, generosos, autênticos, bons, verdadeiros…
Natália, no dia em que cumpres sessenta anos, eu poderia dizer que és uma das amigas mais especiais que guardo na vida, mas isso saberia definitivamente a muito pouco.
Natália…
Os anjos são pessoas como tu.
Um beijo

domingo, 23 de março de 2014

Uma tarde e tantos abraços

Gosto tanto do inesquecível sabor de cada regresso a casa.
Será sempre mágico aquele instante em que o olhar regressa para abraçar as ruas, as pedras, as árvores… todos os detalhes que são cúmplices da minha História.
O velho campanário da Senhora da Conceição “impõe” sempre aos lábios uma Ave-Maria, prenúncio dos beijos perfeitos que me estão reservados no primeiro abraço ao meu pai e à minha mãe.
E os sorrisos e os olhares da gente, a expressão do afecto de tantos amigos, serão sempre um tesouro reservado para cada um dos meus regressos a Vila Viçosa.
A sala que guarda de forma mais nobre todas as marcas da nossa herança, tinha flores sobre uma mesa e duas janelas abertas para a Praça de todas as minhas melhores memórias.
No ar, a envolver os vossos sorrisos e os vossos olhares, soltámos as “palavras” a que eu apenas ofereci letras, porque são a poesia de todos nós no reflexo de um mesmo sentir sobre dias simples, únicos e tantas vezes perfeitos na forma de nos tornar felizes.
Privilegiado, eu senti-me o mais feliz dos Homens pela força do incalculável valor de cada um dos abraços que os vossos olhares me souberam dar.
Muito obrigado à Câmara Municipal de Vila Viçosa na pessoa dos Senhores Vereadores Dr. Luís Nascimento e Dra. Ana Rocha, da Dra. Margarida Borrega e da D. Cipriana. Foram perfeitos como anfitriões.
Muito obrigado às vozes que se entregaram pela amizade ao soltar das “palavras”: Natália João Sousa, Manuela Barreiros, Maria José Duarte, Manuel Almas, Conceição Duarte Aires e Madalena Osório de Barros.
O catering estava perfeito. Muito obrigado Chefes Rui Pereira e Mário Seabra Henriques.
Rui, o bolo ficará na minha história.
Muito obrigado ao Fábio e à Maria Isabel por terem distribuído as flores, à Mina por ter distribuído os livros…
Muito obrigado a todos por terem vindo de perto ou de mais longe.
No final do dia, a Maria Isabel pegou na viola e do alto dos seus onze anos cantou um poema meu que ela própria musicou. Jamais esquecerei este momento.
E o meu amigo José Maria Barreiros ofereceu-me um fantástico retrato a carvão, traços tão perfeitos na arte e tão imensamente valiosos pelo afecto que encerram.
Todos, fizeram com que me sentisse um rei. Afinal, a maior riqueza do universo é ter amigos.
“Estas palavras nascidas dos dias”, um livro com pedaços da minha vida simples que ontem fiz questão de entregar à minha gente.
Voltarei, prometo, a pretexto de um livro ou de qualquer outra coisa, mas sempre porque jamais conseguirei viver sem o calor dos vossos olhares que me oferecem sempre o melhor abraço.
Vila Viçosa, Salão Nobre dos Paços do Concelho, dia 22 de Março de 2014.

PAULO JOSÉ

Os nossos dias eram sempre divertidos e repletos de boas e francas gargalhadas por entre as infinitas brincadeiras, embora algumas vezes sofrêssemos daquele mal de amuos que é típico dos amigos, algo que passava sempre e se resolvia numa questão de uns breves minutos.
Estávamos sempre ali entre a travessa do João Paulo, o Celeiro e a Praça; e nas férias grandes, quando tu ias para o Barreiro, sentíamos saudades tuas que tentávamos compensar com a troca de uns postais dos correios iguais àquele evocado na canção dos Rios Grande. Aí e em meia dúzia de breves linhas, tu falavas sempre das idas à praia e eu contava-te como ia a vida por aqui, e fazia-te um ponto de situação relativamente à caderneta de cromos que estivesse na moda e que poderia ser o “Vickie” ou “Homens, raças e costumes”, etc.
Tu voltavas sempre uns dias antes de as aulas recomeçarem e a tempo de pores em prática a tua grande invenção: as cábulas em harmónio.
Pela quantidade de matéria que tu colocavas em letra minúscula naqueles pequeníssimos pedaços de papel, ainda hoje acredito que tu és o único Português capaz de cumprir essa impossível missão de colocar o Rossio na Rua da Betesga.
Éramos infinitamente felizes, mas os dias mais alegres eram sempre os do Carnaval, que começavam na escolha das indumentárias e das personagens a incorporar. E tu eras o maior porque tinhas uma máscara semi-transparente que era imbatível e até conseguias mudar o andar num exercício perfeito de camuflagem que te tornava irreconhecível quando desfilavas pelas ruas de Vila Viçosa e íamos fazer visitas aos nossos familiares que se riam muito de nos ver assim e que celebravam a alegria da nossa visita com a gentil oferta de uma filhós.
Lembras-te quando fugiste à volta da mesa da casa da D. Catarina porque alguém te queria apalpar os generosos “seios” para comprovar se eras uma rapariga?
E tu a defenderes heroicamente os dois pares de meias que davam volume à caixa do soutien.
Mas nem sempre conseguias fugir com eficácia…
Naquele dia em que fomos celebrar a Eucaristia com o Padre Armando para o Bosque de Borba, tiveste autorização especial para permanecer em tronco nu depois de não teres “fugido” a uma valente queda para dentro do lago.
Existiam também os serões passados debaixo da laranjeira da Praça quando comíamos os “Sameiros” da D. Catarina, o “perfume” das nossas conversas picantes de adolescentes que expostas agora na TVI poderiam passar à hora do almoço de tão inocentes que eram, as idas a Fátima em Setembro para o Animação Nacional com paragem em Abrantes para tu gritares o nome do Manuel por entre o eco do Mercado Municipal…
E um dia partimos…
Eu para Lisboa e tu para Évora seguindo a rota desse amor pela Paula que deu ao mundo e à tua vida, dois príncipes encantados.
Agora vemo-nos pouco e quase sempre começamos as conversas com a contabilidade dos cabelos brancos e das carecas; a propósito de carecas, lembras-te do tratamento à base de tutano de vaca com que besuntavas o coro cabeludo na esperança de voltar a ter cabelo?
Definitivamente não resultou… mas ninguém jamais se poderá esquecer do “aroma” desses dias.
Esses dias simples e simultaneamente perfeitos que tornaram infinitamente cúmplices as nossas Histórias, criando uma raiz profunda que torna eterna a nossa amizade.
Paulo, um grande abraço de parabéns com esta certeza de que até poderemos falar pouco e muito poucas vezes, mas gosto e gostarei sempre muito de ti.

sexta-feira, 21 de março de 2014

A poesia e todos os dias

São seis e meia da manhã quando desço pelo elevador e entrego na recepção a chave do quarto, acertando então as contas com o funcionário que, simpático, me convida a tomar um café e a comer algo do que se encontra numa mesa próxima de nós, compensando dessa forma a ausência do pequeno-almoço que só começará a ser servido às sete.
Bebo sumo de laranja e como um croissant na companhia de um outro hóspede de quem desconheço tudo e inclusive o nome. Por estarmos os dois ali frente a frente, acabamos por encetar uma conversa daquelas que começam com referências às condições atmosféricas e acabam a falar das viagens que nos esperavam a ambos.
E este pequeno-almoço improvisado tem um gosto bem melhor porque as palavras vieram romper o silêncio, e no final houve o breve afecto de um aperto de mão com votos de um bom dia.
O meu carro tem um agradável perfume a café que “salta” directamente do copo com tampa que trouxe do hotel, quando saio da garagem e percebo por entre o nevoeiro que muito em breve o sol irá nascer.
As ruas do Porto estão desertas, e companhia tenho apenas a de uma gaivota que esvoaça por segundos em rota paralela à do meu carro, ali para as bandas da Boavista.
Em Portugal, o mar está sempre presente, tratamo-lo por tu, e o voo das gaivotas desenhando o céu é privilégio lusitano, mesmo quando a costa não está mesmo ali.
Faço-me à auto-estrada e vou percebendo como o sol se vai impondo às nuvens, de tal forma que a Serra do Buçaco já se torna visível lá no alto à minha esquerda quando passo por essas bandas de quase Coimbra.
Paro mais à frente na Área de Serviço de Pombal. Paro eu e um autocarro de peregrinos que vão para Fátima e que bem querem despachar os procedimentos da breve paragem, tal a pressa que lhes percebo nas conversas que têm por entre os detalhes da cumplicidade da fé que deixam escapar atrás de mim na fila do pré-pagamento para uma bica.
Já brilha descaradamente o sol quando regresso ao carro e completo o meu percurso até entrar em Lisboa paralelo ao Tejo que rivaliza em azul com o céu feliz da cidade branca.
São quase dez da manhã.
No meu caminho entre Douro e Tejo, e numa tão vulgar manhã de trabalho, há o afecto das palavras, a liberdade do voo das gaivotas na intuição do mar, há o esplendor do sol, o brilho da fé, e há tantas memórias induzidas pela música e por tudo aquilo que o olhar vai colhendo da beira da estrada, os campos únicos e de primavera do país mais fantástico do universo: Portugal.
A poesia é pois muito mais do que apenas um dia.
A poesia são os segredos e todos os detalhes que estão escondidos por detrás de todos os dias, mesmo aqueles que às vezes até nos podem parecer demasiado banais.
Porque a poesia é tão-só a própria vida, e poetas somos todos sem excepção quando agarramos o tempo e lhe pomos a nossa marca, a nossa verdade, não deixando que ele escoa por entre a vertigem da História sem que façamos de todos os dias, um pedaço único do “nosso tempo”, o tempo em que somos felizes.
Viva a poesia.
Vivam os poetas.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Pai

Sob o céu de um intenso azul, as pedras soltas das desenhadas calçadas de Lisboa “impõem” o meu abraço ao teu caminhar.
Lado a lado, damos passos curtos ao ritmo a que respiras; que pela linguagem única do amor, há muito os nossos corações se habituaram a esta cumplicidade que os torna apenas um, mesmo quando dispensamos as palavras e vamos absortos em outros pensamentos…
Eu sei, as pedras de Lisboa eram perfeitamente dispensáveis como pretexto para caminharmos assim. Há muito que o fazemos, a pé ou até de lambreta naquele tempo em que me seguravas à tua frente e eu me sentia o dono do mundo “cortando” o quente do estio e bebendo a brisa única carregada de aromas do nosso Alentejo.
Já passaram muitos anos e o tempo só mudou aquele pequeníssimo detalhe de quem ampara quem neste “voar” pelos dias, porque entre nós há o eterno destino de um abraço, perpétuo enleio em que os nossos braços copiam a alma, e onde eu serei sempre, por tudo e por minha mais pura vontade, um dos teus dois “gaiatos”.
Sabes, é que apesar de agora já não me pegares ao colo e já não correres descalço pelo chão frio lá de casa para me acudir nas noites em que os pesadelos me atormentam; enquanto eu estiver aqui no calor deste abraço e sentir entrar pela face este amor maior que carregas em tudo e também num beijo, não poderá jamais existir em todo o universo, uma criança tão ou mais feliz do que eu.
Pai, um beijo e este infinito amor.

segunda-feira, 17 de março de 2014

As heranças por entre os “passos” trocados

Sobre o altar e numa folha disponibilizada pelo pároco e pela catequista, o meu sobrinho João assina o nome dele e, na linha imediatamente por baixo, assino eu, assegurando dessa forma que ele está preparado para receber o baptismo.
Um momento muito simples e informal por entre mais oito pares de crianças / padrinhos, mas que não consigo deixar de sentir como uma passagem de testemunho entre a minha e a sua geração, porque a fé fará sempre parte desse pack das heranças da alma.
Na igreja de arquitectura demasiado minimalista e com aquele toque de “provisório” que nós, os “Portugueses suaves”, toleramos como “definitivo”; eu vou jogando cumplicidades com o João através de sorrisos e umas piscadelas de olho. De aí a muito pouco, o padre irá enredar-se e tropeçar nas suas próprias palavras quando tentar explicar às crianças a transfiguração e o rosto de Jesus Cristo.
Não é fácil…
O sol do meio-dia beija Lisboa de uma forma tão despudorada e sensual que, acabada a missa e já sozinho, não resisto e vou até ao Chiado.
Ao ser devolvido à superfície pelo elevador que me resgatou do parque de estacionamento do Camões, vejo-me envolvido por um grupo de Ucranianos que ali à sombra do poeta que um dia escreveu que “lágrimas tristes tomarão vingança”, gritam sem reservas e medos, reclamando a liberdade que lhes permita vingar tantos dias tristes.
Estas pedras e estas ruas conhecem tão bem estes gritos e estas vontades… que sejam para eles um bom prenúncio.
Desço a Rua Garrett por entre artistas, malabaristas, homens estátua, gente sem-abrigo, clamores de ajuda, riso, festa, a babel de muitas línguas, gente que diz ter fome, gente agarrada a gelados em cone de dimensões XL, velhos, novos, trôpegos, gente maltrapilha com os pertences todos em sacos de plástico, ali mesmo ao lado de gente carregada de mais sacos com tanta coisa que até não era precisa mas que não resistiram a comprar…
O sol continua a beijar Lisboa, o Tejo sorri de um intenso azul sempre que o espreito à direita ao dobrar uma esquina, e à mesa do café onde entretanto me sento com dois amigos apaixonados, é inevitável falar de amor, até porque os olhos deles, uns para os outros, não se cansam de lembrar que de amor estão cheios os seus dias.
O café ajuda a soltar a conversa que flui ligeira até ao momento em que me devolvo ao sol de Lisboa e subo novamente a Rua Garrett.
Há polícias nas esquinas a controlar o trânsito e soa forte o bombo de uma fanfarra: a procissão do Senhor dos Passos acabou de sair da Igreja de São Roque e desce e Misericórdia antes de mergulhar nas ruas do Chiado e percorrer o caminho até à Graça.
Desfilam ouros, pratas, vaidades e capas…
E a imagem do Cristo carregando a cruz avança ao ritmo do bombo e também da banda militar que segue imediatamente atrás.
Os Passos de Cristo a cruzarem-se assim com os passos vagabundos das dores de tantos Homens que carregam a cruz do peso da fome em sacos de plástico que têm muito pouco mais do que nada.
Penso no padre da missa dos Olivais…
Gostaria de o ter agora por perto para lhe explicar onde anda por ali o rosto de Cristo e de como é tão fácil encontrá-lo na cidade; não aos ombros da vaidade dos Homens, mas comigo ali na berma do passeio quando o aroma nauseabundo da má fortuna abre uma clareira por entre a multidão mais empenhada em fazer vénias a um sumptuoso detalhe artístico que fala de Cristo, mas que nunca será tão verdadeiramente Cristo quanto o irmão dos sacos de plástico ali ao meu lado, com capa de serapilheira e sem brasão dourado.
Penso agora no João e de como ele à saída da missa fez questão de dar uma moeda a um homem que pedia à porta do Centro Comercial, um homem pobre que lhe beijou as mãos e nos desejou aos dois a maior sorte.
Os papéis estavam afinal trocados e talvez o João esteja mais habilitado e devesse explicar ao padre por onde anda o rosto de Cristo por estes dias dos Passos da Quaresma.
Pisco-lhe o olho mentalmente, sorrio e sigo…
Caminho por entre os “Cristos”, com a alma cheia de palavras de amor e sempre nesse inquieto impulso de quem vive e caminha de encontro à liberdade.
Eternamente, quero que seja essa a minha herança.

domingo, 16 de março de 2014

Nós “Pimba”

No dia em que li no jornal Expresso que o Oliveira e Costa pediu prescrições no caso BPN e vai poupar assim cerca de 9,9 milhões de Euros…
Depois de através do mesmo jornal ter tomado conhecimento de que uma deputada do PSD eleita pelo círculo do Porto, Maria José Castelo Branco, ter chorado em plena reunião do seu grupo parlamentar porque se via forçada a mudar o seu voto e a chumbar a co-adopção porque caso contrário perderia lugar nas próximas listas eleitorais do partido…
Depois de ter lido a afirmação de Pedro Santana Lopes a referir que “José Sócrates foi um Primeiro-Ministro com visão”…
Após ter ouvido António José Seguro afirmar que o PS “sabe governar com rigor, disciplina orçamental e pôr as contas públicas em ordem…
Confesso que nada me surpreendeu a escolha pela RTP, via Festival da Canção e para representar Portugal na Eurovisão, de uma canção assumidamente pimba da autoria do Emanuel.
É que neste país, se não emigraram já, a poesia e a música estão “enterradas” numa campa rasa ao lado de uma outra onde enfiaram a decência, o pudor, a consciência, a honestidade, o bom senso… e tantas outras coisas fundamentais à dignidade das pessoas e das nações.
A RTP foi ao panteão dos verdadeiros festivais, fez uma homenagem ao Ary e ao Eládio, entregou flores ao Calvário e à Simone; e de seguida rendeu-se ao produtor que com músicas pimba lhe anima as tardes de fim-de-semana naqueles indescritíveis programas em que os apresentadores estão reduzidos a máquinas repetidoras de números setecentos e “o raio que os parta”, os números que dão Euros e são apontados como solução para a crise das bolsas de cada um.
E assim estaremos representados na Dinamarca pela Suzi, uma loura que dança de perna aberta porque tem medo de cair dos saltos altos, e que pela voz que apresenta, eu diria que é uma espécie de mulher-a-dias da Madalena Iglésias emancipada por se ter amantizado com o homem do talho, o “fundo monetário” que lhe patrocinou assim esta aproximação ao microfone da patroa. Com todo o meu máximo respeito pelas mulheres-a-dias e pelos homens do talho, que em ambos os sectores de actividade tenho muito bons amigos.
A letra da canção tem uma dimensão que cabe no talão de uma compra no talho e parece ter sido escrita naquele hiato em que na paragem se espera o autocarro, com a inspiração incrivelmente tolhida pelo cansaço de um dia de trabalho, a pressa de apanhar o dito transporte, e também o maldito peso do saco da carne, que hoje foi dia de levar o chispe para o Cozido:
- “Quero ser tua, oh oh oh oh!”.
No resto do país a situação é exactamente igual, e haverá sempre o detalhe de um perverso interesse económico para justificar porque estamos rodeados e condenados ao “pimba” e a este “inestético” fado da miséria que começa na inspiração da ausência de honra de alguns e depois nos mata à fome por entre uma desafinada incompetência.
E como as eleições estão muito próximas, confesso-vos que vou aplicar a estes imbecis o verdadeiro método do Emanuel:
“Se eles querem um abraço ou um beijinho… nós pimba…”
Nós pimba… não votamos neles, seguindo então o conselho do Pedro Abrunhosa:
“Vamos fazer o que ainda não foi feito”.
A escolha até pode ser difícil mas se isto não dá depressa uma cambalhota e não destruímos este arco execrável do poder… não sei, não…
Acho que iremos todos directamente para Berlim, sem direito a passar por Copenhaga e sem direito aos pouquíssimos votos que sempre nos calham em sorte. 

sábado, 15 de março de 2014

O “formol” dos afectos e a eternidade dos amigos

De repente e por conta de uma foto partilhada no Facebook, o serão de ontem acabou por me proporcionar uma agradabilíssima conversa com duas eternas amigas, companheiras de tantos dias de brincadeiras e cumplicidades na rua em que eu nasci em Vila Viçosa, exactamente a rua retratada na foto partilhada.
E a Rua de Três, como sempre chamaremos à nossa Rua Gomes Jardim, juntou-nos aos três numa animada e ciber tertúlia de amigos.
Sem que nos déssemos conta cruzámos as onze da noite a falar sobre o papagaio do Sr. Ezequiel, ave que por estar mesmo em frente à minha janela, cumprimentava a minha mãe com um ruidoso “bom dia” sempre que pela manhã ela abria a dita janela (e por conta dele a minha primeira palavra foi “olá”; a D. Palmira, que tinha nêsperas no quintal e que não era propriamente bem-disposta, um pouco como a vizinha Jerónima que nos molhava com água atirada da janela onde passava os dias, sempre que por brincadeira lhe batíamos à porta; as tardes passadas à porta da Avó Bacalhau, quando ela nos contava as histórias das revoluções republicanas em Lisboa e até nos pedia que palpássemos as balas que guardava como prova dentro da pele das suas mãos…
Eu, aqui desde esta casa que mira o Atlântico, juro-vos que até os cheiros desse tempo me acorreram ao serão, tão bem guardados que estão com toda a herança desses magníficos dias, na parte mais segura da memória.
E sorri muito.
Passaram quarenta e tal anos sobre esse tempo, tatuámos a nossa história de tantas coisas boas e às vezes dores tão fortes que eu nem ao de leve tento descrever aqui por palavras; mas a sensação que eu tive foi a de que pegámos na conversa no exacto ponto onde há décadas a deixámos, quiçá depois de um baptizado de bonecas feito ao portão sempre fechado do “Tap’um” onde se punha um repuxo durante as Festas de São Pedro, ou então quando nos cruzávamos por ter ido pedir um raminho de hortelã, salsa ou coentros a casa da Vizinha Sebastiana ou da Vizinha Marianita Ferreira.
A vida tatuada a festa e dores, mas entre nós, eterna, a essência desses afectos que nos moldaram definitivamente o ser por entre os dias simultaneamente tão simples e tão nobres.
E são os afectos, o “formol” que a tudo é capaz de dar marca de eternidade.
No dia em que fui fazer uma sessão à escola que frequentei em Vila Viçosa, um aluno mais destemido questionou-me:
- Não tem medo de um dia acordar e confrontar-se com a total ausência de inspiração para escrever o mínimo de qualquer coisa?
É pertinente, mas com amigos por perto há sempre inspiração para escrever e…para sorrir naqueles serões em que até não há ninguém em casa.
Basta estar atento e beber dos dias tudo aquilo que eles oferecem, muitas vezes tanta coisa que até nos pode parecer tão pouco importante.
São e Lavinia, muito obrigado. Foi muito boa a conversa no nosso pedaço de serão. 

sexta-feira, 14 de março de 2014

O país perfeito co-adoptado pelo FMI

Portugal é hoje um país socialmente perfeito.
Organizado com base em famílias em que coabitam modelos femininos e masculinos, os filhos são educados de forma exemplar num contexto de respeito; nunca há casos de pedofilia; há a prática de um puro equilíbrio económico; não há quaisquer sinais ou evidência de violência doméstica por entre a riquíssima partilha dos mais puros valores; e não há infidelidades por parte dos pais que apenas se relacionam fisicamente em pura e assumida monogamia em actos sexuais que têm em vista a divina reprodução da espécie humana.
A prostituição masculina e feminina morreu por culpa desta monogamia e da ausência de clientes, não há casas de alterne, motéis e outras pensões de curta permanência.
Nem pensar em haver divórcios, adultérios, traições, abortos, etc.
Por vezes até se torna monótona tão acérrima fidelidade aos mandamentos e a total ausência de depressões porque todos somos efectivamente muitíssimo felizes.
Os filhos perfeitos destes santos matrimónios, que nunca são homossexuais dado que beneficiam de ambos os modelos, masculino e feminino, são assim pessoas muito equilibradas, educadíssimas, indivíduos que nunca apresentam comportamentos violentos e que são incapazes de agredir professores ou colegas de escola, para além de que são alunos com um aproveitamento exemplar num filão inesgotável de “Einstein’s” que em poucos anos nos tornarão uma potência mundial.
São a base de novas células familiares perfeitas sem nunca cometer esse pecado de praticar qualquer acto sexual antes do matrimónio que une sempre e exclusivamente homens e mulheres virgens.
Se não há pais para cuidar dos filhos, as crianças são exemplarmente tratadas em instituições onde não existe violência de qualquer espécie, existindo a garantia de Homens totalmente equilibrados num país onde sobra tempo aos juízes por não haver corrupção e outros quaisquer desvios a uma lei amplamente seguida por todos.
A co-adopção é desnecessária, e por pessoas do mesmo sexo é que nem pensar.
Íamos lá agora estragar este pedaço de paraíso…
Neste contexto familiar exemplar fecharam-se todos os lares da terceira idade porque os idosos são tratados em casa num contexto de afectos proporcionado por filhos e netos. Nem pensar em existir qualquer sinal de abandono de idosos à sua sorte em urgências de hospitais ou paragens de autocarros em sítios isolados.
E ninguém morre sozinho neste perfeito ambiente de amor, respeito e valores tradicionais…
Quem conseguiu chegar até aqui na leitura deste texto por certo estará a chamar-me louco, e até acredito que os amigos mais íntimos estejam já a consultar as Páginas Amarelas no sentido de encontrar um psiquiatra que me possa dar assistência.
Indevidas pretensões de sanidade à parte, não, eu não enlouqueci.
O país que aqui descrevo pura e simplesmente não existe e defender esta descrição como a verdade da pátria é um exercício de loucura, cegueira e hipocrisia.
Mas há quem o faça beliscando os mais elementares direitos dos cidadãos em sede onde a salvaguarda desses direitos deveria ser garantida.
E aquilo que poderia ser um país melhor passa a ser um país mais hipócrita e de loucos com visões idílicas e românticas que não lhes moem as convicções mas matam a felicidade dos outros.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Os dias tristes sem as flores

O meu amigo António disse-me hoje pela manhã que em Trás-os-Montes e por estes dias de um sol de quase primavera, as flores das amendoeiras já estão de partida.
O esplendor branco e rosa que enfeitou as árvores, despede-se agora beijando despudoradamente a terra e oferecendo aos nossos pés um alvo e inédito tapete, o manto que por terras do sul bem se ajusta às lendas e às saudades da neve de uma Princesa Moura.
Mesmo racionalmente sabendo que num destes dias chegará o fruto e que esta despedida cumpre o inevitável ciclo da vida, jamais deixaremos de sentir saudades dos dias mágicos das flores.
É normal.
De forma mais ou menos marcada, todos nós carregamos na alma as virtudes e a sensibilidade de um poeta.
E um poeta sempre se condói na hora de dizer adeus às flores, mesmo quando elas são assim brevíssimos detalhes do tempo e carregam em si mesmas, um intenso sabor a lendas e gosto de ilusão.
Mesmo sabendo que as flores acabam sempre por voltar.
Também por estes dias têm estado bem presentes em mim aquela amiga que se fortalece na cama do hospital para lutar contra um estúpido tumor, e também aquela outra muito mais nova que aguarda ansiosa a hora de um transplante que lhe devolva os dias com melhor respirar…
“Impõe-me” a fé e a amizade que as lembre todos os dias naquele Padre-nosso e nas Ave-Marias que quase sempre o cansaço já não me deixa terminar na hora em que adormeço.
As duas, lindas como as pétalas das amendoeiras, seguiram a rota das flores e saíram por momentos das janelas desses olhares de onde sempre me sorriem, tão-só para que pela sua dor me ofereçam o fruto benefício de um exemplo e uma lição de coragem e infinita bravura.
“Impõe-me” também a fé acreditar que passados estes dias, ambas em breve voltarão a abrir sorrisos nos olhares depois de as suas dores me terem ensinado a ser um pouco melhor... e maior.
Deus ou ciclo do tempo jamais nos levam os dias das flores.
Mesmo que a espera por vezes aparente ser o infinito e mesmo que haja sobre a dor, lágrimas impostas pela nossa assumida alma de poetas; esses dias acabam sempre por voltar.
A saúde voltará em breve minhas queridas, doces e inesquecíveis amigas.
É que se o Céu precisa de anjos, o que seria de nós se eles não continuassem também por aqui a alegrar-nos os dias, a sorrir-nos generosos desde as varandas lindas de uns tão perfeitos olhares. 

terça-feira, 11 de março de 2014

“Barriga cheia não acredita em fome alheia”

No dia em que recebi pelo correio um sobrescrito com alguns cupões de desconto em cartão para compras nos Hipermercados Continente, o patrão da SONAE, grupo detentor dessa cadeia de lojas, e personalidade com direito a nome na FORBES na lista das pessoas mais ricas do mundo, defendeu a legitimidade para os baixos salários em Portugal, tão-só porque eu e os meus e seus concidadãos, somos afinal “malandros” e não produzimos tanto quanto os Alemães, uma atitude supra-patriótica capaz de fazer muito pela economia nacional e atrair investidores, uma atitude “generosa” a justificar no fundo aquela ideia de que “com amigos assim, para quê ter inimigos”?
Mas de repente, e perante esta inevitabilidade da minha pobreza, os cupões fizeram lembrar-me as senhas das Conferências Vicentinas que permitiam receber o pão dos pobres; e o cartão de fidelidade à marca Continente que tenho na carteira passou simplesmente a ser um adereço de acesso à caridade do seu iluminado e endeusado patrão através de um processo certificado e com recurso a banda magnética.
E confesso que já não suporto ouvir os ricos a opinar e a falar da legitimidade da pobreza dos outros…
A senhora do Banco Alimentar que pode comer bifes todos os dias e que é heroína da generosidade por mérito dos sacos cheios de comida e da solidariedade que eu lhe despejo nos carrinhos de supermercado, fala de cátedra sobre a impossibilidade dos outros poderem ambicionar a comer o que quiserem.
O banqueiro presidente da instituição onde tenho as minhas contas e que alimenta as suas através das infinitas taxas bancárias que me “sorve”, vem dizer que o povo ainda aguenta mais austeridade, mesmo havendo gente que se depara já com gravíssimas dificuldades para sobreviver.
O empresário que detém a rede telefónica do meu telemóvel e que é dono destes supermercados onde faço grande parte das minhas compras, e onde deixo grande parte do meu ordenado ao pagar a comida para a satisfação das minhas necessidades mais básicas, chama-me “malandro” e diz que não posso ambicionar a mais ordenado.
Tudo se assemelha ao sádico prazer do conforto de estar com os pés bem firmes na terra, e não dispensar o atar de uma pedra aos pés dos que se afogam, quiçá para que desapareçam mais depressa.
E Portugal é hoje assim definitivamente uma terra onde impera o pecado da soberba lado a lado com o da hipocrisia, esta última expressa pela imbecil dicotomia e bipolaridade entre o parecer e o ser: políticos incompetentes a apontar a incompetência e a irresponsabilidade dos outros; descarados e perversos travestidos de moralistas e a vender avulso e barato, a moralidade aos outros; pretensos defensores dos pobrezinhos a banquetearem-se descaradamente com os prazeres do fausto e da riqueza, etc.
Sem pudor e sobretudo sem a manifesta vontade de alterar este ciclo e o seu ritmo que tanto convêm a quem está bem e confortavelmente sentado no paraíso.
A crise de muitos é a passadeira vermelha para o sucesso e conforto de poucos, sendo que o poder desses poucos é infinitamente maior que o dos muitos que agonizam “surfando” pela crise.
O poder dos Euros é muito superior ao poder da dor de qualquer Homem.
E se o povo diz que “barriga cheia não acredita em fome alheia”, acrescento eu que também não as respeita nunca.
Voltando à SONAE e relativamente aos cupões e ao cartão, talvez os utilize quando tiver mesmo que ser, até porque o respeito pelos patrões das outras lojas também não é lá grande coisa, mas descanse o senhor em causa porque nunca farei qualquer escândalo nos seus hipermercados. Afinal, os meus interlocutores por lá, seus funcionários e nossos concidadãos, merecem a minha total solidariedade pois para além de terem um ordenado baixo e de serem alcunhados de malandros pelo seu chefe mor, têm uma enormíssima desvantagem em relação a mim: têm um patrão sem vergonha. 

segunda-feira, 10 de março de 2014

“Estas palavras nascidas dos dias”

Há tardes que nos abraçam pela força do afecto que transparece do olhar dos amigos, são as tardes que valem a pena e que passam directamente para o sector “inesquecível” da memória dos momentos mais especiais.
Eu confesso-vos comovido que jamais poderei esquecer a tarde de ontem, dia 9 de Março de 2014, e o calor desse vosso tão grande abraço.
Há trinta anos, quando cheguei a Lisboa e descia o Chiado a sentir ao redor de mim os passos do Carlos da Maia e do João da Ega na descrição única de Eça em “Os Maias”, ou quando entrava na Bertrand para matar a saudade e o vício do aroma do “pó dos livros”; estava muito longe de sonhar que algures numa tarde de Março de um ano qualquer, eu iria estar por ali envolto na atenção e no carinho de centenas de amigos, todos ao redor das palavras simples que os dias me vão ditando.
“Estas palavras nascidas dos dias” é um despretensioso livro de afectos escrito por inspiração das coisas mais pequenas de todos os meus dias, quando os sonhos oferecem a convicção de que a fé é muito maior do que qualquer religião, que o amor é o sentimento maior de todos; e a liberdade é o condimento perfeito para um tempo vivido com o máximo do sabor de nós próprios.
Com fé, amor e liberdade… e quando os sonhos nos conduzem à esperança de que um pequeníssimo detalhe de um dia banal poderá tornar-se no “Minuto Zero” de uma história inesquecível ou do mais perfeito amor.
Na minha tarde maior, estas palavras simples ganharam uma dimensão fantástica na voz inconfundível do actor Victor de Sousa e no embalo perfeito dos andamentos de Bach “arrancados” ao violoncelo pela arte da Rita Ramos.
O Filipe Valentim traduziu os dias pelos traços e cores que me ofereceram pela amizade, a capa do livro; o fotógrafo Miguel Quesada captou-me o olhar ao sol de uma tarde de Outono; e a Ana Torres falou da amizade de uma forma fantástica e superior. O Dr. Ângelo Rodrigues e a equipa da Minerva foram companheiros fundamentais no percurso até à concretização deste sonho tecido a palavras.
E de todos vós… a amizade expressa por esses olhares que sempre me abraçam.

sábado, 8 de março de 2014

Mulheres de A a Z

AMIGAS – São muito amigas e generosas, e por isso, estou certo que não levarão a mal esta brincadeira.
BALANÇA – A evitar. É o objecto mais odiado.
CALÇADO – Nunca é demais.
DIETA – O destino eternamente adiado.
ENXAQUECA – A maior cúmplice.
FOFOCA – “Eu odeio… Olha, não digas a ninguém mas parece que…”
GORDA – Lê-se FORTE.
HIDROGINÁSTICA – A esperança para a tão aguardada reconciliação com o bikini.
INTEGRAL – O pão da fé em deixar de pedir o XL na Zara.
JÓIAS – Pequeníssimos detalhes capazes de comprar boas vontades.
KGs – Aquilo que sobra sempre do peso das outras.
LÁGRIMAS – Tão fáceis e um trunfo tão grande.
MALAS – Labirintos para telemóveis ou “o insustentável peso do ter”.
NUANCES – É inútil tentar distinguir de Madeixas.
OPINIÃO – “Cada um tem direito à sua desde que no final a minha prevaleça”.
PLÁSTICAS – O segredo para o desenhar de bocas geneticamente impossíveis.
QUÍMICA – A sua ausência é a melhor desculpa para não passar à componente FÍSICA.
ROSAS VERMELHAS – O passaporte dos maridos.
SOGRA – Será que os maridos não poderiam ser todos órfãos de mãe?
TONY CARREIRA – “Faz-me um filho”.
UNHAS – “United colors” ou o único assumir de “mão estendida” num Centro Comercial à mercê de uns secadores existentes no “corner”.
VESTIDOS – “Tenho os roupeiros completamente cheios e não sei o que vestir”.
WC – Atelier de pintura e zona própria para socialização.
XL – O tamanho odiado (em roupa, claro!).
YES – A resposta ideal dos maridos após uma reivindicação feita muitas vezes sob a forma de simples sugestão.
ZARA – “Porque qualquer trapinho me assenta bem”.
Em conclusão, vocês são realmente únicas e fantásticas.
Um beijo imenso para todas com esta esperança de que um dia terminará a comemoração do Dia Internacional da Mulher, por já não ser necessário e todos os dias serem nossos.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Senhora D. Liberdade

Quando cheguei a Lisboa em 1984 vindo de Vila Viçosa, a Liberdade tinha dez anos e veio comigo.
Com os meus dezoito anos de então, esta espécie de irmã mais nova tornou-se muito próxima de mim, de tal forma que fomos os dois crescendo e fortalecendo simultaneamente a nossa relação de família por via da tolerância, do respeito pelo Homem e pelas diferenças que lhes são inerentes, por via do livre pensamento, pela força e união no derrubar das desigualdades, das injustiças, etc.
Passeávamos juntos no Bairro Alto e de vez em quando tomávamos um copo de tolerância em algum dos muitos bares que iam abrindo por ali; íamos juntos ao Quarteto ver os filmes na ausência total de censura política ou de mercado; apanhávamos o mesmo autocarro para ir comprar livros do Saramago, do Cardoso Pires, do Garcia Marquez, do Vargas Llosa… à Barata, à Buchholz e a tantas outras livrarias da cidade; fomos ouvir a mesma música ao coliseu, ao Pavilhão dos Desportos, à Reitoria da Universidade de Lisboa ou à Fundação Gulbenkian; frequentávamos os debates na Aula Magna do ISCTE em vésperas de eleições e transportávamos as discussões para a mesa das cantinas universitárias onde não existiam praxes e o menu tinha sempre a conversa e a Liberdade…
E fomos crescendo juntos.
Um certo dia e ainda nova qual Lolita, a Liberdade resolveu tornar-se amante da Europa. Ao invés de um matrimónio de papel passado e igualdade garantida, esta situação que nem União de Facto conseguiu ser, traduziu-se por casa montada, cartão de crédito, luxo, auto-estradas, rotundas, muito dinheiro e facilidades.
Ao sol do Algarve e da Caparica, a Liberdade vendeu a sua alma ao mais vil diabo e passou a ser uma “Teúda e Manteúda” ao dispor dos senhores do dinheiro, uma nova-rica de vida demasiado fácil para tão nobre berço e herança genética.
Foram passando os anos e a Liberdade foi envelhecendo e deixando de ser tão apelativa para a amante Europa, muito mais virada agora para a “carne fresca” que foi surgindo a leste.
Eu fui acompanhando sempre esta minha irmã, mas a partir de certa altura com um afastamento que me doeu muito mais a mim do que a ela, estou certo disso.
Hoje eu tenho quase 48 anos e ela está prestes a cumprir os 40. Temo-nos visto pouco mas sempre que a encontro vou notando a sua transformação e registando que não está a amadurecer bem. São demasiado evidentes os sinais de um envelhecimento doloroso.
A pouco e pouco foi transformando a sua beleza natural: colocou madeixas e nuances de corrupção ao estilo BPN; pôs na boca a mordaça do aparelho metálico dos Mercados que lhe alinha os dentes (e as contas) mas “dói para caraças”; quis tornar-se importante pela via mais fácil e conseguiu uma licenciatura sem aprender nada por via das “Novas Oportunidades”; trocou as ideias por uma fácil e muito desinteressante conversa cheia de calão ao estilo do “porreiro pá”; interesseira, perversa e madrasta, abandonou todos os “filhos” que a vida lhe foi dando e fê-los partir seguindo as mesmas vias dolorosas que os seus próprios pais já tinham utilizado nos anos sessenta muito antes de ela ter visto a luz do dia…
Esquecida pela Europa, abre agora as portas da sua casa a Chineses, Angolanos e outros, sobrevivendo à custa da venda dos seus bens mais preciosos, aquela nobre herança que a faz aquilo que realmente é, a Liberdade.
Por estes dias, até a avenida que tem o seu nome, já carrega em si tão pouco de Liberdade.
Está irreconhecível a minha irmã.
Mas, na expressão de um claro apego de alma e de sangue, juro-vos que jamais desistirei dela, e levem para onde levem a “minha” Liberdade, e pode ser até para os antípodas da sua essência; eu irei sempre lá para a resgatar e a devolver a si mesma.
Porque eu sei que vou morrer cumprindo a minha condição humana, mas ela é eterna.
A nossa eterna Liberdade.
Lisboa, 6 de Março de 2014. Não consigo jantar e escrevo enquanto assisto a uma manifestação de polícias em frente ao parlamento.