sábado, 29 de março de 2014

A essência eterna das estevas

Brilha intenso o sol da primavera quando cruzo o Douro saindo do Porto, e estrada fora, a manhã de sábado me oferece a tranquilidade de uma viagem no privilégio dos meus pensamentos.
Sigo embalado pelo silêncio e pelas cores do campo que a manhã me vai revelando.
É pelas bandas de Santarém que encontro o Tejo e não tardo a ver-me entre sobreiros na estrada que cruza a lezíria e me leva até à Branca.
O caminho está agora repleto da perseverante nobreza dos sobreiros e um pouco mais à frente, depois de uma curva da estrada, não resisto a parar junto a uma esteva enfeitada de uma infinidade de flores brancas que me sorriem.
É cedo e há tanto tempo que não acaricio o resinoso pé de uma esteva. Toco-lhe e arrasto depois os dedos até ao nariz oferecendo-me o aroma das ruas da minha terra quando a esteva secava à porta dos fornos antes de oferecer ao pão, chama e aroma; e assaltam-me as recordações do avô Joaquim a explicar-me a paixão de Cristo nos traços das pétalas, e de como a sorte pode mudar e ficar a nosso favor quando encontrarmos um pé de flores de raras quatro pétalas, que bem mais comuns são as de três.
Quem não for do campo jamais compreenderá esta necessidade de um homem parar no seu caminho apenas para beijar as flores.
Só vi flores de três pétalas mas a sorte chegou de aí a muito pouco nos abraços e nos sorrisos dos amigos.
A Natália fez esta semana sessenta anos e quis reunir-nos a todos.
Na pequena ermida soam cânticos, muitas palavras e lembranças ao redor da fé que será sempre a raiz mais profunda da nossa amizade.
Ouço o Padre Simões, que fez oitenta anos há muito poucos dias, e descubro que o conheci há precisamente 32 anos, tinha ele então a idade que eu tenho hoje. Oxalá eu possa envelhecer assim, e que as minhas palavras possam então soar baixinho por saírem da boca demasiado carregadas de doçura e verdade.
À volta da mesa do almoço não tardarão a sair canções, gargalhadas do melhor rir de nós próprios, lembranças, palavras, emoções fortes e as lembranças de décadas de cumplicidade e amizade.
Afinal conhecemo-nos todos há 32 anos e que bem enchemos cada dia deste período em que fomos mais felizes por nos termos uns aos outros.
Despedimo-nos e eu devolvo-me à estrada que pelo mesmo Ribatejo me levará agora até casa.
Já é tarde e o sol ameaça pôr-se de aí a muito pouco.
Sigo mais uma vez entre sobreiros e passo pela minha esteva da manhã. Está diferente com o sol a incidir-lhe agora de uma outra forma.
Já não paro mas acredito que se saísse do carro e lhe tocasse, a sua essência estaria igual.
A esteva é afinal como nós. O tempo deu-nos um ar diferente mas conservámos a essência que nos uniu e unirá sempre.
Somos os melhores amigos e somos eternas flores do campo.
A estrada conduz-me agora de encontro ao sol que parece dizer-me adeus por detrás de uns montes, no instante em que volto a cruzar o Tejo.
E não sei bem porquê… talvez seja apenas porque sou um pouco tonto, mas dou comigo a chorar um pouco.
Há dias assim, dias repletos de momentos que de tão perfeitos, nos deixam imediata saudade na hora do pôr-do-sol.

2 comentários:

  1. Não é um comentário,é um pensamento.Se eu tivesse arte, este quadro que acabou de pintar,podia ser da minha autoria. Eu sinto assim o Alentejo,eu sinto assim um campo de estevas, um campo de papoilas,os sobreiros,o pôr do sol...É tão lindo o nosso Alentejo!...O Padre Simões é um doce, Deus o ajude a ficar entre nós por muitos anos.Parabéns pelos seus textos. Espero mais.

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