quinta-feira, 27 de março de 2014

Ele há dias…

Estar na cidade do Porto e tomar o pequeno-almoço na mesma sala do Pinto da Costa no dia a seguir a uma derrota do Benfica no Estádio do Dragão, é uma experiência quase tão agradável quanto escorregar por um corrimão de lâminas e aterrar com o traseiro num alguidar de álcool puro.
Foi difícil mas sobrevivi e lá parti com as feridas em processo de acelerada cicatrização até à manhã de trabalho que decorreu sem quaisquer sobressaltos ou recaídas do doloroso processo futebolístico de carácter agudo.
O restaurante do almoço tem ao lado uma loja “A Vida Portuguesa” e não resisto a entrar até porque tenho a incumbência de “espreitar” alguns presentes.
Confesso que gosto do conceito da loja que vem de encontro às minhas memórias através de produtos e marcas eternas como os lápis de cor da “Viarco”, os chocolates da “Regina”, os sabonetes “Feno de Portugal” ou os limpa metais da “Coração”.
Mas a “Vida Portuguesa” já não é definitivamente a mesma, nem com a presença de todas estas marcas. Aqui, nas outras lojas e em todo o país em geral, assistimos a um fenómeno interessante que é o risco de extinção de expressões como “desculpe”, “obrigado” ou “se faz favor”.
Partilho a minha experiência:
Na prateleira dos produtos que me interessam há um letreiro que solicita ao cliente a ausência de qualquer contacto táctil com as peças, devendo chamar um funcionário para o ajudar.
Dirijo-me então ao balcão onde está uma rapariga de avental a arrumar Rebuçados Santo Onofre num cesto e solicito ajuda.
Se eu lhe tivesse pedido para ela me cantar um fado da Amália, acho que me teria respondido com igual expressão macerada de dor e cansaço.
Soprou ao de leve e acompanhou-me com tal “simpatia” que me senti na obrigação de lhe dizer:
- Só a chamei porque segui a recomendação deste painel.
Nem reagiu.
Eu escolhi a peça e ela dirige-se novamente ao seu posto no balcão mas com uma lentidão demonstradora de uma tal astenia que quase lhe recomendei umas ampolas bebíveis de Sargenor para ver se arrebitava.
Fez o embrulho, as contas e depois de eu lhe ter dado o Cartão Multibanco e de ela o ter passado na máquina, o sistema deu erro.
E aí directamente:
- Isto está a dar erro. O senhor não deve ter dinheiro na conta.
E disse bem alto para que ninguém pudesse deixar de ouvir.
O comentário teve para mim o mesmo efeito que o ataque dos Japoneses a Pearl Harbor teve sobre os Americanos, e declarei-lhe guerra.
Gritei então ainda mais alto:
- Tenho sim. Ainda há pouco consultei o extracto.
Ela soprou mais uma vez sobre a máquina e voltou a passar o cartão.
Não deixei passar o sopro em vão:
- Nunca ouvi dizer que estas máquinas sobreaqueciam, talvez não valha a pena soprar.
E quando voltou a dar erro, uma colega armada em ONU resolveu intervir naquele conflito armado:
- Vai com o senhor ao balcão do primeiro andar porque aí o terminal é de outra rede e vai funcionar por certo.
E foi a “Madame ONU” que me pediu por favor para acompanhar a colega dado que a minha “inimiga” nem para mim olhou.
O cartão funcionou finalmente e eu acabei por sair da loja sem que a senhora do avental me dissesse “desculpe”, “obrigado” ou “se faz favor”.
Este episódio não é caso raro, suspeito eu de que se criou na cabeça de uma geração, a ideia de que estas expressões que manifestam tão-só boa educação são sinónimo de menosprezo perante egos superdesenvolvidos e importantes.
Ou eu estou a ficar velho e tudo isto é uma patetice minha, ou seria importante colocar por aí alguns cartazes idênticos àqueles que há alguns anos alertavam para a necessidade de salvar o lince na Serra da Malcata:
“Salvem o SE FAZ FAVOR na Vida Portuguesa”
Caso contrário e assumamos a extinção, será conveniente mandar dizer para Espanha que a expressão “es mas cumplido que un Portugues” está definitivamente desajustada.
E segui então para a minha tarde de trabalho que afortunadamente correu muito bem.
No entanto e como vai de dia, temo pela hora do jantar.
É que com o balanço que o dia leva, não me espanta que se possa sentar ao meu lado o Jorge Jesus a falar com alguém sobre as madeixas californianas que lhe fazem no seu cabeleireiro preferido.
E aí…

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