sexta-feira, 24 de junho de 2011

Museu do Côa


Só as oliveiras e as amendoeiras, que insistem em entrecortar a verde o imenso mar de bege e castanho que parece irradiar fogo neste dia de canícula, nos acompanham pela estrada fora quando procuramos que cada curva nos revele a anunciada grandiosidade do museu.
Não fossem as placas de estacionamento e jamais julgaríamos ter chegado.
Está desde logo conseguido o primeiro dos critérios para ser grande: ser simples.
Umas escadas íngremes convidam-nos a ir fundo numa gigantesca estrutura de linhas direitas que sendo enorme é igual a tudo o que a rodeia, permitindo que só o rio no seu correr azul continue a ser o elemento que se destaca quando olhamos em redor.
Segunda virtude: discrição.
E depois, percorrendo as sucessivas salas imensas pintadas de negro, entramos na vertigem do tempo para chegarmos às linhas que marcaram a pedra do paleolítico até hoje.
Não sabemos se o que é actualmente oferecido aos nossos olhos foi em outro tempo comunicação, arte, entretém ou religião. Pode até ter sido tudo ou não ser nada.
A nossa imaginação compõe o enquadramento, como o faz sempre que olhamos para a História.
O que importa é a emoção pelo privilégio de estarmos aqui a olhar de frente os desenhos perpetuados na pedra, feitos pelas mãos de Homens que viveram há tanto que temos dificuldade em identificar qual o ponto na longa estrada do tempo.
Terceira virtude conseguida, e por certo a mais importante: eficácia na viagem pelo tempo.
E no final saímos felizes, mais completos e orgulhosos por termos sabido resistir à submersão da memória que o avanço das tecnologias nos convidava a fazer.
Um povo que afoga a sua História é um povo que mata a sua identidade no futuro.
Vale do Côa. Vale a viagem.

domingo, 19 de junho de 2011

Lisboa eterna

O calor de um domingo de verão põe os carros em fila compacta para a margem sul, e eu fico com o Viaduto Duarte Pacheco livre e por minha conta para mergulhar em Lisboa.
Passo pelas Amoreiras e espreito Campo de Ourique, desço ao Rato, faço a Politécnica, atravesso o Príncipe Real, sempre e só ao meu ritmo e ao ritmo dos semáforos, porque na cidade assim tão vazia não há nada mais que me detenha ou me faça avançar mais velozmente.
Desço a Misericórdia e antes de virar à direita para o Camões, espreito a Rua do Alecrim com o Pórtico da Lisnave ao fundo e o Tejo de permeio num azul fortalecido pela luz do meio-dia.
Quem um dia se sentir triste venha aqui e saboreie esta vista, garanto-vos que não há melhor “doping” para a alma.
Deixo o carro, desço o Chiado e vejo Lisboa entregue a grupos de turistas altos, louros, inicialmente brancos mas já convertidos a cor de lagosta pelos efeitos do nosso sol, todos de mapa e guias na mão como que competindo numa grande caça ao tesouro.
A Brasileira convida a um café. Não resisto, entro e peço um que desfruto ao som de um grupo de Castelhanas cujo timbre elevado, como é seu hábito, abafa qualquer outro som.
À porta da Brasileira, Pessoa é um herói e a sua estátua sentado, obra do Mestre Lagoa Henriques, nunca é ponto de passagem, sendo sempre porto de chegada de todos os que vieram de perto ou de longe à procura da verdadeira poesia de Lisboa.
Tiram fotos, sentam-se, abraçam-se ao poeta, mas o que mais me chama à atenção são dois rapazes aí pela casa dos trinta e aspecto estrangeiro, que aqui chegados selam o momento com um beijo.
Lisboa convida permanentemente a alma à autenticidade e depois, não há nada melhor do que um beijo vivido com quem se ama para tornar eternos e especiais, os momentos e os lugares.
É domingo mas a Bertrand está felizmente aberta e eu percorro sem pressas os seus corredores e sucessivas salas, folheando livros e revistas, qual espeleólogo descobrindo a mais fantástica das grutas.
Saio da livraria e entro na vizinha Basílica dos Mártires para participar na missa de domingo. O Chiado cosmopolita oferece esta infinidade de igrejas, recantos perfeitos que nos permitem tratar do espírito e atestá-lo de paz.
A viver uma manhã assim perfeita, quase sem dar conta, vejo-me depois a subir a Trindade e a afogar-me num bife inundado de molho e com um ovo estrelado em cima a escancarar-se para mim sorridente.
Pelas melhores razões, faço uma trégua na guerra ao colesterol elevado.
É tempo de regressar a casa e por isso aproximo-me novamente do Camões apreciando de longe a nobreza dos edifícios desta Praça onde tudo respira a Eça.
Mas no centro da Praça e por ser Santo António, há uma banca de venda de manjericos com os cravos de papel de cores bem garridas e as suas quadras de sabor bem popular.
O pregão da vendedora ecoa pela Praça em despique com o ruído do eléctrico 28, não só para fazer de nós compradores, mas também e sobretudo para nos recordar que Lisboa é nobre mas as suas raízes mais profundas estão e são povo.
Já regressado ao carro, desço a Rua do Alecrim, atravesso o Cais do Sodré e coloco-me paralelo ao Tejo, acompanhando-o nos seus últimos metros antes de se entregar ao imenso Atlântico.
Espreito para a minha direita e vou bebendo mais uma vez os tons rosa e ocre da cidade que por ser assim tão luminosa, um dia alguém chamou de Cidade Branca.
Cidade Branca e digo eu, Cidade Perfeita.
Lisboa é única nesta singularidade de ser Atlântica e ser toda ela um presságio de Mediterrâneo.
E assim num domingo quente de verão, eu, Ulisses navegando pelos mares da vida, saio de Lisboa com a certeza de que a ela, a minha Ítaca, quererei sempre e terei sempre de um dia voltar.

sábado, 18 de junho de 2011

O primeiro Governo da minha geração

Quando o novo governo tomar posse na próxima terça-feira, a média etária dos seus ministros cifrar-se-á nos 47 anos, apenas mais dois do que os meus quase 45.
Sinto pela primeira vez e de forma clara, que a minha geração chegou ao poder em Portugal, e, confesso-vos, tenho esperança que possa ser ela o motor que puxe o país para a frente, retirando-o da enorme crise, política, social e sobretudo financeira em que se encontra.
Não alimento esta esperança por mera solidariedade e filiação geracional, faço-o sobretudo com base do reconhecimento do tempo maior em que tivemos o privilégio de crescer e fazer-nos Homens.
À geração anterior à nossa devemos a gratidão eterna da conquista da liberdade que nos permitiu viver a segunda década das nossas vidas, os nossos tempos de liceu e entrada nas universidades, sem tabus, com visões alargadas, sem medos de pensar e agir diferente. Aprendemos línguas, começámos a viajar mais, vimos filmes e lemos os livros sem os cortes da censura, exercitámos sem castigo o confronto das ideias, ninguém nos oprimiu para que tivéssemos de deixar de ser nós.
Fizemos grande parte do nosso percurso académico como membros de pleno direito da Comunidade e depois União Europeia, com acesso a estágios e programas de formação que até então não existiam e que tornaram de repente as nossas universidades mais modernas.
Crescemos, tornámo-nos adultos ainda a tempo de celebrar a queda do Muro de Berlim, a libertação de Mandela e o fim do Apartheid, e com a consciência do valor da liberdade, solidarizámo-nos com os jovens estudantes Chineses quando a reclamaram em Tianamen.
Mais tarde chegou a Internet e as novas formas de comunicar e tudo se tornou mais fácil. O mundo ficou mais pequeno, na inversa proporção da nossa possibilidade de acesso à informação.
Mas não pensem que tudo era fácil.
A maioria das famílias não tinha grande desafogo económico e vivíamos um tempo pré era dos subsídios, em que a muitos de nós se exigia que trabalhássemos enquanto estudávamos, fazendo sempre os nossos cursos com essa perspectiva de o mais rapidamente possível poder trabalhar e ganhar com isso a autonomia financeira.
Por estas razões, pela força da liberdade, o acesso à informação, a comunicação, a superior formação e o reconhecimento do valor do trabalho, sinto que fomos privilegiados no tempo que vivemos e em que nos foi oferecida a capacidade de desenvolver em nós, tudo o que ao país faz falta para poder avançar: conhecimentos técnicos e consciência social.
Um político profissional daqueles a quem não se conhece outra profissão que não a política, afirmou há pouco na televisão que a falta de perfil político nestes ministros será um grande risco para o país.
Não sei qual a definição que ele me daria para “perfil político”, mas se ela coincidir com o perfil dos muitos de todos os partidos que nos trouxeram até aqui ao momento que vivemos, devo dizer que ele está redondamente enganado. Os políticos tribunos da mentira, os “self-made men” dos telepontos e da argúcia no esgrimir de argumentos, mas vazios de conteúdo, coerência e obra, não farão falta absolutamente nenhuma.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Nada acontece por acaso

Num curso de formação de magistrados a decorrer no Centro de Estudos Judiciários, todos os 137 alunos matriculados foram apanhados a copiar num exame.
Nesta situação em que seria “justo” e razoável a anulação do teste e a realização de um outro, a direcção do Centro resolveu atribuir a todos a nota de dez valores, afirmando não encontrar uma segunda data para que essa repetição ocorresse.
Numa instituição em que são formados agentes da justiça, a desonestidade é premiada com nota positiva, embora no seu limite inferior.
Excelente treino para o futuro no exercício da profissão.
Se os cábulas continuassem ainda hoje a ser brindados com um zero e com a anulação das suas provas, talvez aprendessem mais facilmente a distinguir o bem do mal e a separar o que está certo do que está errado, contribuindo dessa forma para um mundo onde imperassem valores como a honestidade, a justiça e a verdade, em suma tudo aquilo que constitui a grandeza e a nobreza de carácter.
E neste caso talvez ganhassem também legitimidade para julgar os outros porque quem julga e quem pune com base nesse julgamento, deverá sempre cultivar a exigência nos seus comportamentos. Se não o faz, alguém lhe deveria ensinar a faze-lo.
Ainda haverá quem afirme não saber porque vai mal a Justiça em Portugal?

terça-feira, 14 de junho de 2011

Morte em directo

Um multimilionário Inglês, vítima de uma doença neurológica que lhe comprometia os movimentos, recorreu aos serviços de uma clínica Suiça, pelos vistos já muito famosa, que o assistiu num suicídio gravado e transmitido em documentário pela BBC no inicio desta semana.
Nesta história polémica e com contornos macabros há desde logo dois pensamentos que me assolam ao espírito: a legalidade / legitimidade da morte assistida e o papel dos meios de comunicação no contexto actual deste nosso mundo.
Relativamente ao primeiro, considero-o uma questão muito sensível, para a qual as respostas se atolam sempre nos terrenos movediços da legitimidade ou não para decidirmos sobre o fim da nossa própria vida ou então sobre a vida de outrem.
Mesmo admitindo que a vivência de diferentes contextos nos podem fazer mudar de ideias, confesso-vos que sou convictamente contra a eutanásia e qualquer forma de legalização da morte medicamente assistida.
Identificar um conjunto de pressupostos a preencher pelos candidatos à morte e fazer deles letra de lei, é algo que como cidadão não consigo aprovar.
Como profissional de saúde, também só consigo imaginar a minha actividade de farmacêutico no sentido de encontrar soluções para a doença que possibilitem uma melhor vida, e nunca soluções que destruam definitivamente essa mesma vida.
Pessoalmente já fui confrontado muitas vezes com doenças difíceis e prolongadas de familiares, ou não tivesse sido a minha casa um ponto de encontro de avós e tios-avós, situações de desfecho de morte inevitável e onde às vezes me questionei sobre se estas situações de dependência total não eram atentatórias da dignidade que qualquer vida nos merece, mas confesso-vos, instintiva e naturalmente, seria incapaz de em qualquer circunstância autorizar a morte de um meu dependente, concentrando antes as energias no sentido positivo da vida.
No entanto, porque respeito as liberdades individuais e porque como já referi admito que as circunstâncias nos moldam o espírito, jamais terei uma atitude de censura perante a decisão consciente de um suicídio.
Relativamente à questão dos meios de comunicação social, tenho que dizer-vos que batemos literalmente no fundo, chegando a territórios de ausência de total falta de dignidade e respeito pela vida humana.
As audiências são o diabo a que os meios de comunicação social venderam há muito a alma, e concretamente a televisão, é hoje a fechadura que nos arrasta o olhar para o que há de mais íntimo em cada um, fazendo disso um pérfido e inadmissível espectáculo de profundo mau-gosto.
E não falamos de um canal qualquer, falamos apenas e só de um canal público, a BBC, talvez a mais conceituada estação em todo o mundo.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Viva o Santo António

Com manjerico e balão
Santo António vou festejar
Dizendo às tristezas que não
E mandando a crise marchar.

Uma sardinha assada em Alfama,
Num pão bem quente a pingar
Dá-nos força e activa a chama
Na hora da Troika enfrentar.

Santo António presta atenção
Que esta gente não é para brincar
E não deixa qualquer tostão
Sem IVA ter de pagar.

O nosso povo já escolheu
E optou pela mudança,
O incrível Zé perdeu
E vai estudar para França.

Os Passos estão bem ensaiados
E as Portas abertas para entrar
Será que estamos tramados,
Ou a boda nos vai salvar?

Façam o que têm de fazer
Nunca faltando à verdade
Sabendo que o que importa é ter
Paz, amor e liberdade.

domingo, 12 de junho de 2011

Viagem ao interior da Terra ou… a outra face do Ouro Branco

Na revista “Notícias Sábado” que acompanhou o “Diário de Notícias” de ontem, vem publicada uma muito interessante reportagem, denominada “A Pedreira”, que mais não é do que um relato de uma visita às pedreiras de mármore de Vila Viçosa.
São histórias contadas por palavras e imagens que carregam a verdade que nós Calipolenses conhecemos melhor do que ninguém, de como é duro o dia-a-dia no interior da terra em busca da valiosa pedra, há muito apelidada de Ouro Branco.
Quando se contar a história de Vila Viçosa nas últimas décadas do século XX, teremos de colocar o mármore no centro da nossa narrativa, tal a influência que as actividades associadas à sua extracção e transformação tiveram na nossa terra, substituindo a agricultura que até aí ocupava um claro lugar de destaque.
Desde logo, mudou a paisagem, e se antes chegávamos a Vila Viçosa por estradas ladeadas por alvos muros caiados que delimitavam olivais e quintas, hoje, se chegarmos de Borba, Bencatel ou do Alandroal, verificamos que o verde das árvores foi substituído pelo branco da pedra, do seu pó e dos seus resíduos, com o recorte do horizonte a ser feito pelos gigantescos guindastes e pórticos onde as diversas empresas orgulhosamente colocam as suas designações comerciais. Só a estrada de S. Romão conserva o seu aspecto de outros tempos.
A paisagem humana também mudou consideravelmente. Os “senhores da terra”, até então invariavelmente os latifundiários, viram o seu poder ser deslocado para uma classe emergente de industriais do mármore empenhados em comemorar o seu poder recente com a construção de sumptuosas casas e a aquisição de bólides com super potência. Vila Viçosa passou a ser uma terra de “novos ricos” mas também de “novos pobres”, com as famílias mais tradicionais do império agrícola, sobretudo as que não foram a tempo de fazer a sua “revolução industrial”, a tentarem camuflar os sinais do seu declínio.
O desemprego no concelho foi a níveis baixíssimos e dá-se uma explosão do poder de compra e a consequente mudança de comportamentos e hábitos. É o tempo em que “explode” a Quinta Augusta como local de construção de habitações próprias, com a maioria das pessoas a deixar as casas alugadas em que até aí viviam no centro da Vila, casas que foram sucessivamente ficando vazias e a deteriorarem-se com o tempo, a falta de uso e sobretudo de cuidados.
As pedreiras e a exploração do mármore marcam também de tragédia a vida de muitas famílias Calipolenses. Numa altura em que a segurança no trabalho e a prevenção de acidentes laborais era bastante rudimentar, poucas pessoas poderão afirmar não ter um familiar morto ou marcado irreversivelmente por algum episódio menos feliz ocorrido nas pedreiras ou nas serrações de mármore. Vivendo eu então na Rua do Hospital, tenho dificuldade em recordar-me se alguma semana existiu sem que eu assistisse à chegada de um ferido mais ou menos grave.
O poder político, que vive de braço dado com o poder económico e que inevitavelmente e sistematicamente a ele se rende, passa a girar também em redor da nova actividade, com os novos fazedores de opinião a saírem agora das empresas ligadas ao mármore, relegando os “velhos senhores da agricultura” para funções mais ou menos decorativas pois o que apenas têm agora para oferecer é nome e estatuto.
Sobretudo nos anos oitenta e noventa, “cheira-se” muito dinheiro a circular, e as novas gerações, os nascidos dos pais empreendedores do mármore, salvo algumas excepções que sempre existem, são em geral criados no facilitismo e na abundância, não desenvolvendo hábitos de trabalho e centrando o seu estatuto mais no ter que no ser, o que é péssimo quando chega a crise e o ter se esvai como grãos de areia entre os dedos, fazendo com que daí à frustração e à depressão vá um passo demasiado curto.
Com os ovos todos metidos no mesmo cesto, com o concelho totalmente cativo do mármore, se um dia ocorre um acidente, se a crise mundial nos ataca por todos os lados, os ovos partem-se todos, e o concelho fica sem salvaguarda.
La Fontaine há muito que falou de cigarras e formigas, mas mesmo assim em Vila Viçosa todos nos esquecemos que um dia iria chegar o “inverno”.
Quanto a mim, só me resta dizer-vos que uma reportagem interessante e um fim-de-semana super prolongado, são extraordinários para nos fazer pensar e recordar.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

PORTUGAL

Tornámos nosso o sonho do Rei Afonso e em cruzadas de coragem, muito querer e fé, unimos norte e sul, dando espaço à identidade e ao ser, nascidos das cumplicidades da alma desta gente brava que habita o cais onde a Europa se entrega ao imenso mar Atlântico.
Com o sangue nascido de uma esperança restaurada em cada dia, bordámos as fronteiras que deram e dão forma ao sonho.
Preenchemos as serranias, os pinhais, as planícies e as longas praias com a forma tão nossa de ser simples, vestimo-nos com sete saias, capotes ou varinos, e nos dias que quisemos tornar maiores, criámos romarias bailadas a malhões, viras, chulas ou corridinhos, entoadas a fados, desgarradas e canto chão, saboreadas a caldo verde, chanfana, alheiras, bacalhau e açordas, e regadas com o vinho que não importa de onde é, porque sendo nosso é melhor que qualquer outro.
Mas por querermos sempre ser mais e ir mais longe, ousámos sair pelo mar fora, tornando pequenos os Adamastores e Mostrengos dos medos dos Homens, pela força da coragem dos Gamas, Dias ou Cabrais, os indutores da boa esperança e os inspiradores de uma prole de heróis anónimos e maiores que pela bravura mostraram ao mundo qual a forma do próprio mundo.
Nos porões das naus, mais do que tudo, transportámos para longe a cultura e esta língua que fizemos nossa, sabendo buscar sempre nessa lonjura de outros mundos, mais do que ouro ou pimenta, a cultura da diferença que nos faz únicos e maiores, com a tolerância que só a inteligência sabe construir.
E assim, século a século, fomos de ousadia construindo a nossa História, cantada na arte de Camões, Pessoa, Bocage, Florbela ou Sophia, e contada na prosa de Camilo, Eça, Herculano ou Saramago, os Deuses maiores do Olimpo da nossa arte, todos perfeitos descodificadores desta alma infinita que jamais se apagará em nós.
Porém às vezes trememos. A sorte parece querer abandonar-nos e o mundo desabar sobre as nossas cabeças, mas nós os que demos nome à saudade, não vergamos, e se for preciso e deixando sempre a alma por cá, partimos para além Pirinéus ou para lá do mar, dispostos a pagar em suor a esperança que nos leve para um dia novo.
Porque somos assim feitos à imagem do granito das Serras de Viriato e jamais nos entregamos aos “Alcáceres-quibires” do triste fado, porque sabemos que em tempos de nevoeiros intensos, é quando mais brilha este querer genético que nos marca o ser.
Porque nada nem ninguém será alguma vez capaz de matar este sonho que nos une e nos faz maiores: PORTUGAL!

domingo, 5 de junho de 2011

Passos & Portas, Lda - Uma aventura no país da Troika

Cerca de 60% dos eleitores votaram hoje e promoveram a mudança de governo em Portugal. Do dia e da noite, registo:
PASSOS – É o vencedor. O intérprete mais improvável concretiza 31 anos depois da morte de Sá Carneiro, o seu desejo de um governo, uma maioria e um presidente. Não tem o poder absoluto mas parte para a negociação com Portas com o conforto de um bom poder relativo. Parte com a vantagem de nunca ter dito que os próximos tempos seriam fáceis.
SÓCRATES – O grande derrotado que apresentou a demissão de todos os cargos no PS. Disse adeus com o suporte do seu inseparável teleponto num discurso a apelar ao sentimento e em que pretendeu realçar o seu lado mais humano de pai e patriota. Cinismo até ao fim. Da plateia de militantes fez um biombo atrás do qual se escudou das questões mais polémicas dos jornalistas. Vergonhosa a forma como a plateia censurava com vaias as perguntas dos jornalistas, mas a demonstrar bem o que foi o respeito pela liberdade de expressão no país de Sócrates.
PORTAS – O Vitória de Guimarães da política. Fica sempre no topo da tabela mas sem estatuto e sem energia para disputar o título. Chega ao poder mas sem a força relativa que imaginou poder ter na aliança com Passos.
CDU – A arte de nunca assumir as derrotas e dar a volta por cima. Um discurso recheado de tédio para explicar a derrota da direita e a sua vitória muito própria. Sem comentários e sem paciência. Um conselho que lhes dou é de que nunca desvalorizem a inteligência das pessoas a quem se dirigem no discurso, poupando-se assim a figuras tristes.
BLOCO – A esquerda também assume derrotas e Louça fê-lo bem. Foi cara a factura da aliança com o PS no sonho de eleger Alegre para a presidência.
ABSTENÇÃO – É enorme e indicadora de um preocupante desinteresse pela política numa altura em que o país deveria estar a cerrar fileiras para enfrentar os ataques que por via da guerra da economia e dos mísseis das agências de rating, está em risco a sustentabilidade do país. Os políticos lamentam mas deveriam antes olhar-se no espelho para verem que nos últimos tempos muito têm contribuído para este divórcio dos Portugueses com a política. Olha-se para a campanha que passou e entende-se a abstenção.
SONDAGENS – Foram muitas e péssimas. Há uma semana falavam em empate técnico. Sem comentários.

sábado, 4 de junho de 2011

Viagens


Era uma manhã de Agosto de 1992 de um dia que já não recordo, e eu e o João Paulo acabávamos de chegar a Madrid depois de uma noite no comboio a percorrer a distância entre as duas capitais ibéricas.
Com as malas às costas, calcorreámos as ruas à procura de um poiso limpo, seguro, central e sobretudo económico, tendo acabado os dois numa pensão a dois passos da Puerta del Sol, onde montámos o quartel-general para não deixar por ver nem um cantinho da capital castelhana. Nem o calor de Agosto, que sistematicamente nos empurrava para o ar condicionado do El Corte Inglês, nos impediu de “bater a cidade” de ponta a ponta, de museu a museu, de palácio a palácio, de igreja a igreja.
Nos anos seguintes e depois de Madrid, aterrámos juntos, e pela primeira vez em ambas as vidas, em Londres, Edimburgo, Inverness, Barcelona, Montpelier, Avignon, Viena, Praga, Budapeste, Nova Iorque, e também nos Açores.
Destas viagens trouxemos milhares de fotos, guardámos milhões de recordações e histórias, e nestas viagens tivemos sempre a certeza de estar a cumprir juntos os sonhos que partilhámos durante os anos da nossa infância na pátria calipolense.
Entre a Livraria da D. Joana Ruivo e a Loja de Tecidos, Camisas, Lãs e Capotes, do Senhor Domingos, pai do João Paulo, encontrámos os territórios de todos os sonhos, que foram sempre infinitamente maiores que a travessa entre a Corredoura e a Rua de Santo António, e o Celeiro / Armazém da Loja do Sr. Domingos, onde nos entretínhamos horas a fio com o Manuel, os Paulos e o Pedro.
Em época de Jogos Olímpicos a Travessa virava estádio e até os tubos de ferro que o Sr. Castro, latoeiro e canalizador, colocava na rua à porta do armazém, serviam de paralelas assimétricas para os nossos exercícios de ginástica desportiva.
Quando a moda era a “Visita da Cornélia”, do Celeiro fizemos o palco para com as nossas performances conquistarmos um júri que nos levasse ao estrelato. Cantávamos, representávamos, dançávamos…
Na primavera da Eurovisão, por alturas das férias da Páscoa, o Palco do Celeiro recebia o Festival da Canção, com votações por distritos e cada um de nós escondido atrás das caixas para que na hora de votar, o som abafado das nossas vozes se tornasse idêntico aos das más ligações telefónicas dos anos setenta, sempre que cada distrito dava o seu parecer quanto ao vencedor do dito festival.
Porque os livros de “Os Cinco” e “Os Sete” eram um vício e a Enid Blyton uma heroína, não desperdiçámos nenhuma oportunidade de constituir clubes de amigos para andarmos em busca de tesouros escondidos. E Vila Viçosa, com o seu Castelo, Palácio e inúmeros Conventos, bem se presta a criar a ilusão de que poderá haver um cofre mágico e rico escondido a cada esquina.
Por tudo isto, quando aterrámos em Madrid ou em qualquer uma das outras cidades do mundo, sabíamos que há muito viajámos juntos, sem avião, mas com a velocidade estonteante que só o sonho e a ilusão nos oferecem.
E quem partilha sonhos e ilusões, cria as raízes mais profundas da amizade, que nem o tempo, nem a distância, nem nada mais conseguirá jamais separar.
O João Paulo faz amanhã 46 anos e aproveitando o facto de todos sermos cidadãos e eleitores responsáveis, e nos deslocarmos a Vila Viçosa para votar, convidou-nos para um lanche em sua casa.
No mesmo espaço onde há trinta ou mais anos nos sentávamos para jantar em dia de aniversário, viveremos a saudade do Sr. Domingos que há muito partiu, e teremos presente na lembrança os que nunca faltavam ao repasto: o Padre José Luís Francisco que foi pároco e sobretudo nosso mestre na arte de saber ser exigentes connosco próprios, e a nossa eterna catequista Bárbara Elisa que com a sua doçura e afabilidade superiores, nos ensinou sempre que ser Homens de fé, é ser Homens positivos, alegres, Homens que expressam a cada olhar, mais do que tudo, a alegria da Ressurreição.
Todos os que estivermos na festa, com mais cabelos brancos, mais barrigas, mais rugas, mais ou menos desilusões na mochila da vida, sentiremos por certo o conforto da verdadeira amizade e sentiremos que jamais partimos ou partiremos deste espaço de sonhos que nos entrelaçou definitivamente e fez de nós os melhores companheiros nessa longa e por vezes difícil viagem que é a vida.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

O circo desceu à cidade

Arruadas, feiras, mercados, bandeiras, panfletos, cartazes, as histéricas do costume, bombos, bandas, aventais, jantares e almoços de carne assada, gritos, empurrões, ofensas, afonia, palcos, caravanas, megafones, beijos, abraços, apertos de mão, saudações às criancinhas, fábricas, padarias, escolas, lares de idosos, creches, futebolistas, cantores, paquistaneses, africanos, quilómetros, peixeiras, mulheres da fruta, cravos, rosas, declarações de amor, o verbo dizer sempre no passado, o verbo fazer nunca conjugado no futuro, acusações, casos, especulação, sondagens, jornalistas, microfones, câmaras, troika, FMI, dívida, demagogia, insinuações…
Os políticos andam em tournée pelo país real, sem ideias, sem convicção, e sobretudo sem tempo para se aperceberem de como as pessoas a quem tentam caçar votos, gostariam de um dia poder voltar a acreditar no futuro.
O exemplo, a honestidade e o empenho seriam o maior fermento para a nossa fé.
Mas estamos tão longe…