terça-feira, 14 de junho de 2011

Morte em directo

Um multimilionário Inglês, vítima de uma doença neurológica que lhe comprometia os movimentos, recorreu aos serviços de uma clínica Suiça, pelos vistos já muito famosa, que o assistiu num suicídio gravado e transmitido em documentário pela BBC no inicio desta semana.
Nesta história polémica e com contornos macabros há desde logo dois pensamentos que me assolam ao espírito: a legalidade / legitimidade da morte assistida e o papel dos meios de comunicação no contexto actual deste nosso mundo.
Relativamente ao primeiro, considero-o uma questão muito sensível, para a qual as respostas se atolam sempre nos terrenos movediços da legitimidade ou não para decidirmos sobre o fim da nossa própria vida ou então sobre a vida de outrem.
Mesmo admitindo que a vivência de diferentes contextos nos podem fazer mudar de ideias, confesso-vos que sou convictamente contra a eutanásia e qualquer forma de legalização da morte medicamente assistida.
Identificar um conjunto de pressupostos a preencher pelos candidatos à morte e fazer deles letra de lei, é algo que como cidadão não consigo aprovar.
Como profissional de saúde, também só consigo imaginar a minha actividade de farmacêutico no sentido de encontrar soluções para a doença que possibilitem uma melhor vida, e nunca soluções que destruam definitivamente essa mesma vida.
Pessoalmente já fui confrontado muitas vezes com doenças difíceis e prolongadas de familiares, ou não tivesse sido a minha casa um ponto de encontro de avós e tios-avós, situações de desfecho de morte inevitável e onde às vezes me questionei sobre se estas situações de dependência total não eram atentatórias da dignidade que qualquer vida nos merece, mas confesso-vos, instintiva e naturalmente, seria incapaz de em qualquer circunstância autorizar a morte de um meu dependente, concentrando antes as energias no sentido positivo da vida.
No entanto, porque respeito as liberdades individuais e porque como já referi admito que as circunstâncias nos moldam o espírito, jamais terei uma atitude de censura perante a decisão consciente de um suicídio.
Relativamente à questão dos meios de comunicação social, tenho que dizer-vos que batemos literalmente no fundo, chegando a territórios de ausência de total falta de dignidade e respeito pela vida humana.
As audiências são o diabo a que os meios de comunicação social venderam há muito a alma, e concretamente a televisão, é hoje a fechadura que nos arrasta o olhar para o que há de mais íntimo em cada um, fazendo disso um pérfido e inadmissível espectáculo de profundo mau-gosto.
E não falamos de um canal qualquer, falamos apenas e só de um canal público, a BBC, talvez a mais conceituada estação em todo o mundo.

Sem comentários:

Enviar um comentário