domingo, 30 de junho de 2013

Um leque e as pequenas coisas que fazem os dias

Há alguns bons anos fui com um grupo de amigos ao Teatro Nacional D. Maria II assistir à representação da peça “O leque de Lady Windermere”, de Oscar Wilde.
Para que o argumento desta comédia de costumes se desenrole na total fidelidade ao escrito pelo genial autor, é necessário que o leque, precisamente o de Lady Windermere, permaneça em cena algures esquecido num sofá.
Nessa noite porém, o leque resolveu sair de cena agarrado às vistosas rendas do vestido da actriz Lurdes Norberto, que antes de o levar consigo rodopiou tanto à boca de cena que nos ofereceu a todos a oportunidade de comprovar que o fundamental acessório iria desaparecer do seu sítio.
Bastou um leque prender-se às rendas de um vestido e o argumento perdeu sentido, criando-se um alvoroço mental entre os actores que chocavam no deliberado abandono das marcações, e nós acabámos por ver uma comédia dentro de outra comédia.
E o teatro é sempre como a vida…
E basta tão pouco para mudar um argumento.
Um simples leque… como um sorriso que travámos e matou a alegria no outro, como um silêncio que criou distância, como uma tão simples palavra que alimentou a esperança, um gesto que deu força, uma palmada amiga e carinhosa que injectou ânimo num desanimado…
E temos sempre na mão estes aparentemente insignificantes “átomos” que constroem e alimentam a vida no sentido de ser feliz, e o controlo das grandes conquistas está na arte de saber jamais desprezar todos estes tão pequenos passos.
Sempre alinhados com os sonhos, porque morre sempre quem deixa de sonhar, e sabendo que um dia que nos seja oferecido e que deixemos morrer sem o rechearmos de uma acção nossa, cirúrgica, fundamental e concreta, é uma terrível demissão de viver.
Um domingo quente de verão, um prato de cerejas, eu, uma janela que mira o mar e onde procuro em vão uma brisa fresca…
E os pensamentos são como as conversas, e ambos como as cerejas.
Faz hoje anos a minha amiga e colega Helena Novais e há pouco dei-lhe os parabéns. Talvez não seja por acaso que hoje os pensamentos se façam de sonhos, aqueles mesmos das gargalhadas e dos sorrisos das nossas cumplicidades que nunca têm fim.
Nada mesmo acontece por acaso.
Sorrio.
E a brisa que não se sente.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

A dinâmica da promoção no ataque ao subsídio

Na hora mágica em que o tabuleiro do jantar está pronto e eu me sento tranquilamente para saborear a comida que preparei com base nos meus apetites diários, virando costas às notícias e olhando ao longe o Atlântico num exercício particular de relaxação a que me ofereço, há muito que me habituei ao som da campainha da porta.
Não esperando visitas e sabendo que as Testemunhas de Jeová “atacam” sempre cedo pelas manhãs de fim-de-semana, já sei que entre o gás, a electricidade e a televisão, o meu momento será ferido de morte.
Ontem foi como sempre assim e abrindo a porta deparei-me com um casal em que a rapariga tinha um porte que denunciava a reforma após anos de prática de halterofilia. Vinham para me vender o serviço de televisão da Optimus e chegaram no dia ideal pois estive toda a manhã sem receber SMS’s no meu telefone cuja operadora é a Optimus.
Abri a porta e tentei ser simpático dizendo que estava satisfeito com o serviço de televisão que tenho contratado.
Resposta da rapariga em tom de desafio:
- Então gosta de pagar mais.
Respirei fundo, pensei no jantar, sorri e respondi-lhe:
- Nem sei quanto pago, mas agora pagava mesmo para poder jantar.
A halterofilista chegou-se à frente (o rapaz pelos vistos era só acólito da “sacerdotisa”):
- E nós quando é que fazemos o nosso trabalho? Tá a ver?
Antes que ela me levantasse no ar e eu já não pudesse jantar, atalhei o assunto, despedi-me simpaticamente, desejei-lhes boa sorte e voltei ao meu jantar com vista de mar.
Finalmente.
Começa então a soar o telefone:
“Aproveite as promoções DECÉNIO e dê as boas vindas ao Verão: NOVOS DESCONTOS até -50% a partir de 27 de Junho. Visite a nossa DCN SHOP.”
“TUDO a 60% desconto. Apenas QUINTA, SEXTA, SÁBADO e DOMINGO. Sacoor Brothers: por Si, tudo!”.
“Dias aderente Fnac! Sexta e sábado, 20% DESCONTO IMEDIATO em Livros, Música e Filmes e até 35% em Tecnologia. Descubra mais descontos na Fnac! Consulte condições”.
“Caro Membro, receba duas chávenas exclusivas Nespresso na encomenda de 250 cápsulas em nespresso.com ou aplicação móvel Nespresso (oferta dos portes de envio) ”.
O continente também se chega à frente e lembra que tenho um cupão de 5€ para usar até dia 30 de Junho.
A minha gestora de conta do BPI manda um SMS a questionar-me sobre a oportunidade de uma reunião durante a próxima semana.
Tudo isto depois de na área de serviço a senhora que me vendeu o combustível ter tentado que eu trouxesse uma caixa de cerejas do Fundão, do ginásio ter tentado vender-me aulas de Body Pump e Hydro Basket, da farmacêutica me ter tentado impingir um conjunto completo de produtos cosméticos para a praia com a oferta de um saco especial para transportar as toalhas, e até a senhora da pastelaria onde vou todos os dias, me ter tentado acrescentar à bica uma comestível colher de chocolate pela módica quantia de cinquenta cêntimos.
Começo então a acreditar que isto é obra da Teresa Guilherme e do Big Brother que descobriu que eu não aceitei receber o subsídio de férias em duodécimos…
Ou então é esta a dinâmica do mercado a que se refere o Ministro da Economia quando diz que a dita está a voltar aos tempos áureos.
A dinâmica do saldo e da promoção.
Eis que me apetece então responder à Excelência e a todos os meus “caça níqueis” com o comentário de uma senhora com ar de “Made in Bolhão” que estava há dias sentada no átrio do Hospital de Santo António, no Porto, ao lado de uma máquina de Multibanco a que eu me dirigia e que encontrei desligada.
Vendo-me recolher o cartão pô-lo de volta ao bolso, não resistiu:
- “Untão o senhor num sabe que o Gaspar secauu tudo?. Carago, que já nem as máquinas dãooo dinheiroo”.
Nem mais.
Entretanto, o guarda-roupa do ano passado está óptimo e eu quero mesmo é desligar a televisão, pegar nos livros que acumulei durante o ano e ir de férias praticar Sun Rest & Relax debaixo de uma sombrinha algures no campo ou na praia, em boa companhia e… com o alto patrocínio de uma bebida qualquer (outra que não um café da Nespresso).

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Poema sem uma letra

Para a festa que na vida é mel e sorte
Hora de sorrisos largos soltos no ar
Notas e letras vieram sem norte
Do Homem esperando, um feliz agrupar.

A obra parte do sonho, que nos faz o dia
Que, inspirado, o Homem torna realidade
Foi rápido então o soar da melodia
Porque às notas, o artista deu tom de verdade,

E da poesia, a palavra brotou,
Rima que à música se pudesse juntar
Mas logo nas letras, o Homem notou
Haver uma delas que estava a faltar.

Varreu-se todo o grande universo,
Dos horizontes da terra ao profundo mar
Mas a letra número três, era assaz perverso
Jamais alguém a pôde usar. 

Triste o trovador se viu então,
Não havia forma de o ultrapassar
Melodia, poema e a eterna questão
De jamais esta obra a poder… trautear. 

terça-feira, 25 de junho de 2013

A sorte e as tômbolas numa noite quente de verão

Em Vila Viçosa, o segundo fim-de-semana de Setembro convida-nos sempre para ir além do Castelo e fazermos a festa à sombra do Convento dos Capuchos.
Foi sempre assim e o arraial é ainda o melhor ponto de encontro para a reunião dos amigos.
Durante muitos anos, ao certo desde 1975 e até algures no final dos anos oitenta, o meu pai pertenceu à Comissão das Festas e, de uma forma espontânea, toda a família se envolvia na preparação das mesmas.
A mim, por vezes com a ajuda dos meus amigos, cabia-me a monótona tarefa de escrever 100 vezes o mesmo número, numa folha picotada e em que se destacavam 100 pedaços de papel, cada um tendo impresso um número de 00 a 99.
O número que eu repetia 100 vezes em cada folha era o número de série que permitia controlar a venda das rifas e os vencedores dos prémios que se habilitavam nas quermesses e nas tômbolas que existiam no arraial.
Durante a festa, lá ia eu para uma dessas “áreas de jogo”, verdadeiros casinos ao estilo rural e que mais não eram do que quadrados de terreno delimitados por umas frágeis grades de madeira, participando nessa festa de, através da sorte e por obra de duas improvisadas roletas, distribuir patos, coelhos, galinhas, garrafas de vinho ou de anis escarchado, sendo que todos os animais se encontravam vivos e capazes de ir fazer criação para os quintais e hortas dos mais afortunados.
Apoiava nesta tarefa um dos companheiros do meu pai, o homem que relatava o girar da roda e os números premiados, com quem acabava sempre a noite a contar literalmente tostões e a agrupá-los em rolinhos que envolvíamos em papel.
Vibrávamos com a verba apurada pois tal contribuiria decisivamente para a saúde financeira da Comissão e ajudava a assegurar as festas do ano seguinte.
E a festa continuaria sempre.
Este amigo do meu pai, e meu, partiu recentemente.
Soube-o ontem, um pouco antes da morte do pai de uma amiga e colega de Faculdade nos ter convocado para um serão diferente, ainda com a cumplicidade de uma lua gigante e com a noite de Oeiras a ter uma indiscutível marca de verão.
E deste duplo encontro com a morte numa segunda-feira quente de Junho, no silêncio da capela, entre Pais-Nosso ou mesmo há conversa com os colegas que, passada há muito a fase dos casamentos, só revemos nestas ocasiões, me brotaram estas memórias.
Não sei se envelhecer é adquirir esta noção, mas é um facto que começamos a não ter a cobertura da geração que nos antecedeu e somos nós os mais próximos da roda, aqueles que a fazem verdadeiramente girar para ditar a sorte.
Já não somos os que fazemos a primeira parte, somos a banda que dá nome ao concerto.
E a sorte impõe-nos sempre uma dupla missão: urgência e a selecção daquilo e daqueles que verdadeiramente importam.
Isso nos pede o tempo e nos exige a vida que merece ser sempre coroada com a glória dos nossos melhores sorrisos.
Para que a festa nunca se acabe.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Noite de São João

Onde moram as palavras doces que fizemos nossas, letras agrupadas por inspiração da alma e fiéis companheiras dessa festa nascida dos beijos que parecem sempre não ter fim?
Procuro-as nesta noite, cúmplice da magia da lua, que por nós, de brilho, hoje, mais do que nunca, se agigantou.
É noite se São João.
Sobem no ar centenas de balões levando sonhos de encontro à lua e ao infinito, mas as palavras, essas, permanecem em mim pela força da memória que as fez enraizar por este querer com dimensões de vida.
Olho fixamente a lua…
E mesmo estando longe ouço as gargalhadas da gente que por cima das fogueiras que têm aroma de alecrim, salta feliz pedindo sorte, mas só até ao instante em que a chama se eleva bem mais do que aquela outra da fogueira do bairro ali ao lado.
Bebe-se água na bênção de todas as fontes, e o Baptista, à luz do mais intenso luar, brilha assim, no lume aceso sobre a lenha que, zelosos, apanhámos tarde fora.
E a aldeia é uma festa a que não faltam jamais as flores dos vasos “roubados” nos viçosos quintais de todos os vizinhos.
Passa a Maria, trigueira, e canta:
É noite de São João
Há fogo e alegria no ar
Abre-se-me hoje o coração
E o meu destino é amar.
Há música: adufes, cavaquinhos, braguesas, ferrinhos e tambores… na festa de todos, que nasce no coração da gente.
E por cima de tudo, elas persistem e brilham ao luar… as palavras.

sábado, 22 de junho de 2013

Uma peregrinação quente e as cumplicidades dos amigos

Acabei de me instalar com os meus pais num hotel em Fátima. Desde Vila Viçosa percorremos esta manhã, todas as estradas que bem conhecemos das peregrinações que fazíamos nesta altura do ano, no final da catequese, as mesmas que mais tarde também percorríamos para participar no Encontro Animação Nacional dos Convívios Fraternos, então todos envergando uma camisola amarela, da cor do trigo, da cor da Diocese de Évora.
Ao longo da viagem, e porque não somos da raça de promover silêncios, falámos sobre os nossos assuntos mais actuais, não deixando também de reviver algumas histórias que ligam muitos e bons amigos, amigos de sempre, aos locais por onde íamos passando.
E desde que escrevo neste Pomar, estou em dívida para com os meus amigos relativamente à crónica da Peregrinação a Fátima mais especial das nossas vidas, o que obviamente não invalida que todas as outras tenham sido também especiais.
Saímos de Vila Viçosa num sábado de Julho de 1981, cedo pela manhã, numa carrinha Peugeot cor de vinho com três filas de bancos conduzida pelo saudoso Padre Armando Tavares.
Vim eu, o João Paulo, o Manuel, o Paulo Quinteiro, a Zé Bexiga e a Zinha Duarte, então todos pelos 15 anos de idade, com o objectivo de participar num encontro nacional de jovens.
Na viagem para Fátima e para não nos deixarmos dormir resolvemos iniciar um jogo em que cada um adoptava uma marca de automóvel, contabilizando-se o número de viaturas dessa marca que circulavam em sentido contrário. A marca com mais viaturas ditava o vencedor.
Interrompemos o jogo para rezar o terço, ou melhor, interrompemos mais ou menos pois quando terminámos de rezar, o Manuel actualizou o marcador partilhando connosco instintivamente quais os “mistérios” em que meditou durante o dito.
Trouxemos farnel e como sempre, abundava na lancheira o que mais tínhamos em casa. Sendo Julho e estando um dia de canícula, as ameixas que a Zé trouxe na mochila foram óptimas pois todos nós regularizámos os intestinos e fizemos uma limpeza super eficaz.
Dormimos na carrinha algures debaixo de um alpendre e junto a uma torneira. A meio da noite o Manuel julgou ouvir a torneira e foi verificar se alguém a tinha deixado aberta, pois… era uma senhora agachada atrás do carro a aliviar a sua bexiga, julgando que a viatura não tinha ninguém.
Regressámos a Vila Viçosa depois de um passeio por Proença-a-Nova pela aldeias ao redor da casa do Padre Armando e porque as gentes da Beira Baixa são do mais generoso que existe no universo, acabamos por fazer um roteiro de “buchazinhas” com bom presunto e com o João Paulo a demonstrar a sua masculinidade ingerindo de um trago um cálice de aguardente, o que o pôs a fazer o resto da viagem de língua de fora.
Com tantos desvios acabámos por beber toda a água de Fátima que a Zé trazia a pedido da avó para tratar as suas maleitas. Por não querermos desiludir a senhora, voltámos a encher o garrafão em Nisa algures num fontanário público, milagroso por certo porque a idosa senhora ao ingerir a água reconheceu que já sentia melhoras.
Se Deus está em todo o lado porque é que as graças de Nossa Senhora não poderão estar em todas as fontes?
Todos comprámos uma regueifa para levar de oferta aos papás e todos as entregámos inteiras na chegada a casa, excepto o Manuel, o único que a transportou no colo e com todos os cuidados. Acabou por fazer a sua entrega ao jeito de pão ralado tal a volta que pelas cócegas o dito pão doce levou.
Nunca poderei precisar o número de vezes que revisitámos esta viagem e são incontáveis as gargalhadas que já demos quando nos recordamos de algum detalhe mais escabroso, mas sei que foi por esta como por tantas outras que fizemos juntos, com estes e outros amigos, que somos e seremos o melhor grupo de amigos do mundo.
Para sempre.
Criámos nas cumplicidades deste crescer juntos, as raízes para um amor de irmãos que nunca se apagará, o amor de irmãos de quem partilha a vida e de quem partilha… e para o fim deixei o mais importante… a fé.
Se é que vida e fé alguma vez se poderão dissociar.
Em Fátima, para além das peripécias que nos fazem rir, estivemos juntos a reunir sonhos e a pô-los activos nos projectos que nos fizeram como hoje somos.
Viemos juntos a aprender a ser melhores.
Quanto a mim, já paguei o prometido relatando a viagem, faltando-me apenas dizer que estou por aqui muito bem mas sentindo muitas saudades de todos estes amigos. Reconhecendo no entanto nessa saudade o quão indispensáveis eles são para os meus dias.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Verão

É o sul que busco passando a Ponte, o campo preenchido de um já alourado trigo, o infinito horizonte bordado pela nobreza dos sobreiros, a terra a que sempre chamarei a minha casa.
O sol queima e o calor turva-nos o olhar sempre que miramos mais além, neste dia mais longo, tempo e privilégio de solstício, amanhecer único e raro que nos trouxe o verão.
Mas foi muito generoso o inverno e fez ressuscitar todas as fontes…
Detenho o passo numa raríssima sombra do caminho (que cúmplice do sol é esta terra mais do que todas), bebendo da água por um coxo, nó de sobreiro, marca de Alentejo que me acompanha e que de aroma de cortiça tempera sempre, o saciar da minha sede.
Sei que há uma casa branca que espera por mim, fresco tesouro revelado na tarde, pelo banal gesto do abrir da porta. E mesmo não sabendo quais, sei que cheirarão a campo, todas as flores que a mãe mantém viçosas na jarra grande que tem lugar cativo naquele canto reconhecido por todos como o mais nobre da casa.
E a noite cairá por sobre a memória dos serões passados no convívio de todos, na rua, espaço de vizinhos tornados família, quando sentados entre portas, ou até deitados nas mantas tecidas de todas as cores, esperávamos que a noite nos oferecesse uma rara brisa que viesse dar um patrocínio ao sono e ao descanso.
Um dia, no privilégio de uma viagem de amigos, passeei entre as pedras que alimentam em Inglaterra, a magia de Stonehenge. Aqui, no meio de um campo que não tem mais nada, mas que se respira imortal, sabemos que o sol rigorosamente se alinha por sobre o monumento, no despertar de um dia assim.
E a magia do tempo, comprova-se, cruzou todos os tempos.
Prometi voltar a Wiltshire num solstício, para beber da magia.
Ainda não cumpri a promessa, mas vou cumprir. Por certo feliz.
Sei no entanto que essa manhã não substituirá jamais este “rasgar” estradas rumo ao sul, saboreando a magia única do meu Alentejo numa tarde quente de um recem nascido verão.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Gaivota

A neblina envolve cerrada, o casario da cidade, estranho amanhecer de uma intermitente primavera que pelo calendário se despede e inevitavelmente se rende ao verão.
Busco em redor, mas nem a minha ocasional e muito alta janela de hoje, me traz o Atlântico, a Foz, aquele ponto onde o Douro, encaminhado pelos Rabelos que estancaram e se renderam à Ribeira, prova o mágico e inédito sabor de ser oceano.
Há manhãs e dias assim…
Mas jamais a neblina, manto ocasional e indomável motor de saudade, nos faz descrer que além, longe ou perto, no horizonte, há o doce azul da eterna grandeza do mar.
Dita o coração as certezas que suplantam saudades e neblinas, e do coração se nos faz a fé de manter rota, e se nos nasce a garra de nunca deixar de perseguir horizontes.
Cerro os olhos e saboreio o mar nessa memória que se me não apaga nunca, mas rápido os reabro ao impacto do som de uma gaivota que chegou ao parapeito.
Traz-me o céu, e traz-me mais do que tudo, a certeza do mar, este voo de uma perdida gaivota que se encontra na manhã frente-a-frente com o meu olhar.
Não controlo o sorriso e mais do que nunca… sinto-te, mar da terra que faz a neve, terra das fontes que não têm fim.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

As olimpíadas da esperteza

Qual futebol, atletismo, hóquei em patins, bilhar, ciclismo ou matraquilhos?
Os nossos verdadeiros desportos de eleição, aqueles onde verdadeiramente somos imbatíveis, são os que constam das “Olimpíadas da Esperteza”.
Sem necessidade de infra-estruturas específicas, qualquer sala de espera de um consultório com as suas cadeiras dispostas ao redor de mesas recheadas de revistas do social de há cinco anos, fornece condições para que, reunido um grupo de pessoas, se eleja o mais dos mais espertos, o chamado “Chico”.
A primeira modalidade em acção nestas olimpíadas é invariavelmente o combate pela “Patologia de Ouro”, a escolha do mais doente de entre todos os presentes. Todos os participantes apresentam os seus argumentos, cada um pior que o anterior e sempre com vantagem para o último a falar pois mesmo que tenha um diagnóstico idêntico a algum dos que já intervieram, sempre acrescenta aquele rol de médicos que não conseguiram identificar a sua “doença” ou aquela TAC que a definiu como estranha forma e muito complicada. Por vezes a competição leva a momentos de fúria e até à exibição de algum osso saído, de fístulas, de manchas corporais, dos joanetes ou outras formas visíveis de uma patologia.
Do programa consta também quase sempre a “Genética da Inteligência”. Aqui, todos os presentes colocam em cima da mesa um caso raro de inteligência que exista na sua família, invariavelmente um filho ou um neto. Contam-se os prodígios do ser fantástico e sobredotado, que até pode ter reprovado no ano lectivo anterior, mas claro, sempre porque o seu excesso de inteligência o torna incompreendido pela mediania existente no sistema de ensino e na sua avaliação.
É altura então de passarmos ao “Momento McGyver”. Existiu um momento algures na História da humanidade em que a salvação da própria humanidade esteve na mão das criaturas aqui em competição. Com mais jeito ou não para contar histórias, com mais ou menos emoção, todos partilham a sua experiência, aquele dia em que a sua perspicácia fez toda a diferença.
E diferença é também o que sobressai em mais duas modalidades: “A minha casa é melhor que a tua” e “Eu consigo comprar mais barato do que tu”.
Na primeira e ao fim da primeira ronda já perdemos a noção do número de assoalhadas do “palácio” de cada um dos presentes, e na segunda modalidade, e mesmo que apenas por cêntimos, o que fala a seguir consegue sempre comprar mais barato que os anteriores, quer falemos de bens ou serviços.
E nestes verdadeiros “jogos florais de sala de espera” quase nunca falha também o “Momento Trânsito”. Todos conduzem bem e segundo as regras, mas quase todos já viveram também um momento de pânico por culpa de terceiros, momento do qual se saíram bem pelo brilhantismo da sua decisão tomada em tempo recorde.
Para reforçar os argumentos e ir ganhando vantagem, sempre se pode propagandear o relacionamento de proximidade com uma figura pública muito influente, do tipo Cristina Ferreira, Fátima Lopes ou Júlia Pinheiro, usar um tom de voz que sobressaia por cima dos restantes, utilizar a emoção e, lembrando algum ser que já partiu, verter alguma lágrima em pose estudada.
Tudo isso pode ajudar a fazer a diferença.
A apreciação de cada candidato e a sua classificação final é sempre atribuída pelos restantes na altura em que o nome do dito é chamado para entrar em consulta, sendo muito fácil de nos apercebermos se o ser que recentemente se ausentou do “ringue” de competição, leva o rótulo de exagerado, assim-assim ou verdadeiro mártir.
Por vezes há também uns seres que não falam, recusando a competição e não emitindo quaisquer sons quando os olhares dos restantes incidem sobre ele e se faz um silêncio momentâneo que tem efeitos de passagem de microfone.
Hoje fui eu quem cumpriu esse papel, e não falei sobretudo porque estava entretido e divertido a registar a história.
Acho que se não fossemos como somos, não teríamos por certo tanta graça.

terça-feira, 18 de junho de 2013

O carpir da surpresa no velório do bom senso

Uma andorinha não faz a primavera mas o subsídio de férias dos funcionários públicos parece fazer o verão, e caso o Gaspar não pague rapidamente o dito, arriscamo-nos a ter calor só lá para Novembro, “gozando” da possibilidade de em Agosto trocar o Algarve pela neve da Serra da Estrela, aproveitando para ver o pelotão da Volta a Portugal em Bicicleta com uma inédita aplicação de correntes metálicas.
Mas que surpresa poderá isso causar num país que pára aos domingos à noite para ver em directo o José Sócrates a apontar o rumo para o país ou o José Castelo Branco a beijar na boca a sua Betty ao estilo “filho não gostas mas come a sopa que ela faz-te bem” (neste caso, à carteira, claro) antes de se atirar maquilhado e de saltos altos da prancha de cinco metros de uma piscina?
Em Portugal, a noção de surpresa está a sofrer uma estranha e rapidíssima mutação, sendo previsível que ela possa mesmo eclipsar-se de vez às mãos homicidas deste rótulo de normalidade atribuído ao comportamento esquizofrénico das figuras públicas, dos governantes e dos líderes de opinião.
Nesta linha e também na do “passa a culpa ao outro e livra-te imediatamente dela” que caracteriza a nossa cena política, o ministro recordista da austeridade, das olheiras e do discurso pausado, indicou recentemente que o excesso de chuva é causa para grande parte dos problemas que a nossa economia enfrenta pelo impacto negativo na construção civil.
Maldita chuva!
Nós com tanto dinheiro para gastar na construção de casas e ela a não deixar trabalhar os pedreiros.
No discurso político como nas conversas de circunstância, a meteorologia é sempre um bom recurso quando não há mais nada de jeito para dizer. Só que no âmbito da política, pela pertinência e pelo impacto na vida dos cidadãos, ela motiva desde logo uma resposta positiva a todos os critérios indicados para o diagnóstico de esquizofrenia que constam do DSM-IV (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders).
Em condições normais, claro.
Pelo contrário, aqui tudo é possível, não deixando de estar implícita a urgente necessidade de um colete-de-forças.
E é neste contexto que soa estranho que de vez em quando alguém faça apelo ao bom senso em questões polémicas como a greve dos professores aos exames ou então relativamente á aplicação razoável dos recursos de forma a manter a prestação de cuidados de saúde de qualidade.
Bom senso?
Morreu há muito e quem não o tem para oferecer, nunca terá legitimidade para o reclamar.
Haja alguém que dê o tom pelo exemplo e permita afinar a orquestra onde para já ninguém se entende… ou pode entender.

domingo, 16 de junho de 2013

Uma janela com vista para a revolução

Istambul, 15 de Junho de 2013. Passa pouco das vinte horas.
Quando regressei ao hotel, o Point Taksim Hotel, há cerca de duas horas constatei que a Praça Taksim, a cinquenta metros, continua ocupada pelos manifestantes e que definitivamente se transformou numa atracção turística, tal a quantidade de “mirones” e de vendedores ambulantes a comercializar pão, fruta, gelados e... capacetes e máscaras.
Verifico também que a polícia se perfila com Homens e viaturas em todas as ruas que desembocam na praça.
Por estas estranhas movimentações, resolvo adiar a minha saída do hotel para lá das vinte horas e deixo-me ficar no quarto para “espreitar” os noticiários. Não entendo Turco, mas não há estacão de TV que não dê um claríssimo destaque a uma manifestação gigantesca de apoio ao governo ocorrida nessa tarde em Ankara.
O contra-ataque do “fundamentalismo”.
Estou em frente à TV mas o barulho intenso das sirenes atrai-me até ao hall do hotel onde encontro os meus companheiros de viagem: a polícia já não deixara sair ninguém para jantar.
Pelas paredes de vidro do piso imediatamente por cima da recepção temos vista privilegiada para o Parque e rapidamente começamos a ver a multidão em fuga, à frente da polícia que dispara jactos de tinta e gás lacrimogéneo.
Estamos com os jornalistas e os operadores de câmara junto a nós e bem antes do director do hotel nos mandar sair daquele sítio por razoes de segurança, começamos a sentir o gás que venceu as portas apesar de elas estarem fechadas.
Sentimo-lo nos olhos e na garganta e surge o natural mecanismo de tosse perante aquele ataque de uma espécie de pimenta em estado gasoso.
Subimos ao piso nove para comer algo mas antes constatamos que as ruas foram postas às escuras e já há pessoas a expressarem algumas dificuldades respiratórias e a serem assistidas no espaço da recepção do hotel.
O restaurante está a abarrotar mas ainda conseguimos comer algo no conforto de oito amigos e descer depois aos quartos, maioritariamente com janelas para um pátio interior que não nos dá a visão da rua.
Adormeço ao som de sirenes e na expectativa do que a manhã seguinte nos reservará.
Conseguirá o autocarro aproximar-se do hotel para nos recolher e conduzir ao aeroporto às sete da manhã?
Conseguiu e chegámos ao aeroporto em segurança não deixando de ver uma série de carros ardidos ao longo do percurso, prova dos focos de luta na noite anterior.
E cheguei a Lisboa.
Nunca me tinha visto num cenário de "guerra" de cidadãos contra cidadãos, filhos de uma mesma terra, com a violência à solta de uma forma tão louca.
Reforço perante tudo o que vi que sou um adepto da não-violência, um Homem de fé no diálogo que respeita e confronta as diferenças de uma forma positiva e construtiva.
Sinto uma verdadeira repulsa por esta violência.
Sei que há intensas motivações religiosas por detrás desta luta e isso ainda agudiza mais o meu sentir.
Que estranha forma esta, a de glorificar a Deus orando intensamente e cumprindo todos os preceitos, alguns, reconheço, demasiado incompreensíveis, e depois violentar o próximo numa atitude acéfala e medieval.
A manifestação de Deus mais próxima de cada Homem é o outro Homem. Todos os Homens que connosco se cruzam nos caminhos da vida e que por razões étnicas, religiosas, orientação sexual ou outras, são diferentes no acessório, nunca deixando de ser Homens e uma expressão da grandeza de Deus.
E a paz, a liberdade e o exercício activo de ambas, serão sempre as formas mais eficazes de louvar a Deus, qualquer que seja a religião que se professe. Infelizmente o “pecado” da intolerância é transversal às diferentes religiões.
Foi uma noite difícil embora a visão da “guerra” tenha sempre este condão de tornar requintado e gourmet o doce sabor da paz que se ambiciona.
Espero que Istambul volte aos dias de sol que me acolheram e que o fundamentalismo não mate a liberdade e a tolerância perante a diversidade.

Porque espero voltar um dia, breve, ao perfeito sol da tolerância que une Ásia e Europa numa cidade única e verdadeiramente mágica.

sábado, 15 de junho de 2013

A velha Constantinopla e o brilho da liberdade

A noite de Esmirna convida a um passeio nocturno junto ao Mar Egeu, do qual o hotel está muito próximo, e nem a hora perversa para o despertar na madrugada seguinte, nos demove de concretizar tal apelo.

Cruzamo-nos com vendedores de bandeiras Turcas e com as palavras de ordem da manifestação dos que defendem a manutenção do seu país como um estado desprovido das inspirações religiosas que em muitas situações limitam a vontade e a liberdade dos cidadãos.

Caminho lentamente em conversa com o Sr. José que é um homem das geração dos meus pais. Somos ambos alentejanos, de localidades próximas mas conhecemo-nos nesta viagem onde ele está com a sua mulher.

A conversa, que também abrange o feijão com mogango, a açorda e o ensopado de borrego, faz-se sobretudo da partilha das nossas vidas, vividas ao redor de uma revolução que nos abriu à liberdade.

Não entendemos as palavras dos Turcos mas conceptualmente, estamos com eles.

Chove copiosamente quando na manhã seguinte aterramos em Istambul, a eterna Constantinopla, mas cedo verificamos que a chuva não demoveu os manifestantes que estão na Praça Taskim que dista cinquenta metros do hotel onde estamos alojados.

É a primeira vez que estou na cidade e a visita começa pelo Topkapi. A sumptuosidade instalada numa colina e posta ao serviço dos sultões, senhores de muito poder e muitas mulheres.

A chuva pára pela hora do almoço e é já sob sol escaldante que aguardamos na fila para entrar na Mesquita Azul. Descalço-me e sento-me por momentos na alcatifa que atapeta o piso deste edifício fantástico que deve o seu nome à cor dos milhares de azulejos das suas paredes interiores.

Aqui como nas outras religiões, o Homem empenhado em revestir os espaços de oração com a verdadeira grandeza que reconhece em Deus.

Atravessamos a praça e rapidamente entramos na Mesquita de Santa Sofia, ou da Santa Sapiência, que Sofia não é nome de alguém posteriormente canonizado.

Antiga Igreja Bizantina que acabou como Mesquita mas com os Muçulmanos a preservarem todos os ícones de Cristo e dos Santos. E no ponto mais nobre de uma Mesquita: Maria e Jesus.

Passamos pela cisterna e retemperamos forças bem necessárias para o dia seguinte.

Sábado amanhece com sol e à medida que o barco rasga as águas do Bósforo, fazemos o olhar alternar entre a Europa e a Ásia, dois continentes aqui tão próximos e partes complementares de uma mesma cidade.

Após a visita ao Patriarcado de Constantinopla, o "Vaticano" dos Ortodoxos, mergulhamos no Mercado das Especiarias e no Grande Bazar.

Quilómetros de lojas num comércio ao estilo Turco e com muito regateio, num labirinto ordenado e limpo onde até eu que não gosto de feiras e mercados, não dei por terem passado duas horas.

Após mais um Café Turco, o regresso ao hotel. A praça continua ocupada e respira um ar de festa, enquanto ao redor há milhares de policias que intimidam logo pelo elevado número.

Compreendo os manifestantes de Istambul da mesma forma que os de Esmirna.

Istambul é definitivamente uma das mais fantásticas cidades que já visitei. É imponente, majestosa, é tolerante e exemplo de liberdade na forma de em si congregar dois continentes e de conciliar religiões e diferentes culturas.

Istambul junta-se a Paris ou Londres no grupo das cidades que nos fazem querer muito escrever sobre elas.

Insinua-se ao escritor e ao poeta.

Istambul impõe-nos à alma o desejo de um dia voltar para a partilharmos com a pessoa a quem o coração elegeu. A beleza e a grandeza da cidade induzem-nos suspiros de amor a cada instante. As ruas convidam-nos a namorar.

E a luta?

Por muito grandes que sejam as suas convicções políticas ou religiosas, nenhum líder político eleito líder de uma nação tem o direito de matar a liberdade e a tolerância, quer falemos de uma terra ou da gente que a habita.

A liberdade e a tolerância são valores universais cuja defesa valida esta como tantas outras lutas.

E eu que espero voltar um dia a Istambul, quero reencontrá-la assim: livre e tolerante.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Figos, laranjas e romãs

Acordo às quatro e meia da manhã com o canto propagado pelo sistema de som do minarete da Mesquita mais próxima do hotel.

Este matinal convite à oração prova claramente que os portistas não fazem mesmo a mínima ideia do que é ser Mouro.

Nem eu faço e sou tantas vezes apelidado de o ser.

Viro-me para o outro lado da cama e quando estou quase a adormecer, o grupo de Japoneses prepara-se para sair do hotel e como entretanto amanheceu, resolvem alinhar o seu riso com o chilrear dos milhares de pássaros que habitam na trepadeira que passa pela janela do meu quarto.

Tento adormecer mas já falta pouco para que o telefone me desperte pelas seis.

Mas depois do Japão, o Brasil...

O grupo de Brasileiros prepara-se para o pequeno-almoço e como se acham muita graça e como acham que todos lhes achamos muita graça, resolvem oferecer ao hotel uma micro instalação da Rede Globo em formato "telenovela muito perto de si".

E eu?

Entre Árabes, Japoneses e Brasileiros ainda consigo concluir antes do toque do telefone que a Assembleia Geral das Nações Unidas se juntou hoje à minha volta para não me deixar dormir.

Estou muito mais do que acordado quando finalmente dão as seis e pulo da cama. 

Mas o bom humor continua.
Éfeso é hoje o meu objectivo no percurso até Izmir, a terceira cidade da Turquia.

Os primeiros quilómetros do caminho levam-nos ao centro de pequenas aldeias sempre situadas ao redor de uma Mesquita onde vemos as mulheres já nas suas tarefas diárias e muitos homens trabalhando no campo ou então à conversa nas mesas muito simples das improvisadas esplanadas dos cafés.

Entre aldeias, mergulhamos nos mares de figueiras, laranjeiras e pomares de romãs. Uma festa em tons de verde a caminho do Mar Egeu.

Há uma multidão de turistas a visitar Éfeso, cidade que a profusão de línguas transformou momentaneamente numa Babel, mas a confusão instalada não consegue mesmo assim abafar o eco das palavras de São Paulo que emergem por entre todas as ruínas Romanas desta cidade que foi fundada pelos Gregos.

Passo pelos Banhos de Escolástica, a mulher que gostando de ensinar deu nome a todas as escolas, e lentamente e pela multidão chego à Biblioteca de Celso. Pela majestosa fachada não será difícil imaginar que algum dia aquele edifício abrigou 12.000 livros.

A visão do teatro com capacidade para 24.000 pessoas é imponente e um bom ponto para dizer adeus à cidade e começar a subir para a casa de Nossa Senhora.

Assumindo o pedido de Jesus no calvário, São João Evangelista, que comprovadamente viveu e morreu em Éfeso, passou desde esse momento a viver com Maria, acreditando-se que o fizeram num casa situada no cimo de uma alta montanha junto a uma fonte inesgotável de água fresca.

A casa é simples num estilo que não nos custa associar à simplicidade de Maria, embora a identificação deste lugar como sendo o da casa da Mãe de Jesus seja demasiado suportada por lendas.

Uma certeza e bem agradável é a forma como os Turcos se referem a Nossa Senhora, Meryem Ana, em Português, Mãe Maria.

Descendo do monte e já na companhia do Egeu, inicio o caminho para Esmirna, Izmir para os Turcos, percorrendo a antiga Jónia, a região da Grécia Antiga que foi berço de Homero, o autor dos poemas épicos Ilíada e Odisseia, aproximadamente um milénio antes do nascimento de Cristo.

É comovente pensarmos a riqueza cultural que floresceu por entre estas pedras e estes caminhos e como a Europa e a Humanidade deveriam estar gratos a estes "artífices" sonhadores e criadores do pensamento moderno.

O caminho ainda é longo e permite-me recordar a noticia que li ontem sobre o encerramento da estação de televisão estatal da Grécia pelas mãos da imbecil austeridade "troikiana" de inspiração alemã.

Talvez a História pudesse ser um bom principio para nos dotarmos de mais respeito e implementarmos um melhor futuro e que nos abrangesse a todos.

Assim, talvez acabemos todos um dia num museu como o Pérgamo de Berlim, elementos mortos de civilizações antigas a dar brilho e cor ao poderio dos eternos senhores da guerra.

Hoje de manhã, antes de sair do hotel e tomando o pequeno-almoço que me foi preparado pelos Homens que oraram na madrugada, sorri para todos os Japoneses e Brasileiros com quem ainda me cruzei porque a diversidade de culturas é uma das maiores provas da riqueza da humanidade.

E quando queremos, há sempre uma forma de nos encaixarmos todos na paz sem perdermos a identidade.

Pela minha parte, dormi pelo menos uma hora na viagem de autocarro.

Perdi a visão de muitas laranjas, figos e romãs mas brindei à tolerância.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Mediterrâneo

As oliveiras não desmentem que chegámos ao Mediterrâneo descendo do longo planalto que há dois dias nos acompanhava e que é berço de infinitas searas de trigo.

Do percurso retenho Konya e esse choro das mulheres no Mosteiro de Mevlana lutando por poderem respirar o "ar santificado" por um pêlo da barba de Maomé, elemento capilar que se encontra dentro de uma pequena arca de madeira que por sua vez está protegida por uma caixa de acrílico que oferece o tal orifício à santa respiração.

Diz-se que os monges se libertavam dos respectivos egos para estarem mais próximos de Deus. Se bem tentaram, não o conseguiram concretizar na morte pois as sepulturas têm dimensões diferentes atribuídas consoante a sua importância na hierarquia do mosteiro. 

Os egos a fazerem a diferença. Antes como agora.

E foram já as oliveiras que nos trouxeram até ao Castelo de Algodão (Pamukkale) onde a água encosta abaixo deixa um rasto branco de calcário que contrasta com os tons de verde da paisagem.

A água escorre desde Hierapolis, cidade grega onde um dia, Filipe, Apóstolo de Cristo, foi feito mártir e santo.

Das ruínas, admiro ao fundo o teatro e deixo-me embalar pelo som da água que escorre límpida alimentando o branco calcário do Castelo.

Há nuvens carregadas sobre nós mas até se agradece este correr de cortinas sobre um sol intenso que nos seguiu durante todo o dia.

Percorro o topo do Castelo sentindo a brisa fresca da tarde que traz até mim os aromas que bem conheço do Alentejo, pátria vizinha do Atlântico mas carregada de Mediterrâneo.

Impossível não me sentir em casa no privilégio de percorrer estas pedras que há muitos séculos sustentaram os passos dos Homens que sonharam fazer da Terra um espaço maior de liberdade, justiça e verdade, fazendo com que o Homem se tornasse muito mais Homem.

E o fim da tarde é a hora maior para a nostalgia de todas as saudades.

E o vento, que sopra forte, levará por mim, estou certo, voando por sobre os vales, os mares e as mais altas serranias, os beijos que emanam do pensamento e de um querer assim tão forte ditado pelo coração. 

Um querer que nunca caberá nas palavras escritas no alvor de cada amanhecer.

Um querer eterno como o mar...

Mediterrâneo.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Capadócia

Numa festa em tons de encarnado, o sol nasce por detrás do vulcão que há milénios repousa, justo descanso do arquitecto que um dia pela sua lava esculpiu estes montes e vales, entregando-nos à imaginação as formas únicas de infinitas rochas.

E de cada rocha, a mão do Homem fez abrigo, rasgando-as de portas e pequenas janelas. E da pedra nasceu uma casa.

Um dia Cristo chegou para virar o tempo e mudar a História, e nestes abrigos plantados no exacto ponto em que a Ásia e a Europa se encontram, se reuniram os discípulos congregados pela fé no Nazareno, o Ichtus, Jesus Cristo Filho de Deus Salvador. E as paredes dos abrigos onde nasceram igrejas e onde a mão do Homem louvou a Deus, encheram-se de peixes, o Ichtus na língua dos Gregos.

É meio dia, o sol está a pique e aqui sente-se bem que é verão. Fico para trás e por momentos vejo-me só na simplicidade de uma destas Casas de Deus nascidas na rocha. Respira-se uma simplicidade que definitivamente nos aproxima mais de Deus.

A sumptuosidade das catedrais tem demasiada mão do Homem e do seu poder tão terreno e tão pouco divino. 

Saio enfrentando a luz do sol, muito a tempo de escutar o canto que emana do minarete de uma mesquita próxima.

Momentos, sons, pinturas e vozes diferentes mas de um só Deus.

Aqui não há tumultos por nada e por Deus e, por falar de paz, até consigo ouvir o voo das pombas entrando e saindo dos seus abrigos na rocha, esse local onde o Homem recolhe os dejectos das aves para acrescentar fertilidade à terra.

Reencontrarei mais tarde as pombas servindo-se de alimento num campo de trigo cumprindo o ciclo do dar e receber que a natureza todos os dias ensina ao Homem.

Os longos vales têm rochas e searas de trigo, mas em alguns lugares, a benção da água tingiu de verde a paisagem onde também brilham damascos e cerejas.

Foi nesses "oásis" que nasceram as pequenas aldeias.

O autocarro passa acelerado mas consigo vislumbrar no modesto alpendre de uma casa, uma criança que interrompe a sua brincadeira para nos acenar e dizer adeus.

E aqui onde a Europa e a Ásia se encontram, onde voam pombas por sobre as diferentes faces de uma só fé, há o sábio gesto de uma criança a ensinar-nos como é afinal tão simples preencher os dias com o inigualável sabor que advém da paz.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Portugal

Heróis de todos os tempos, cúmplices do mar, incansáveis construtores de paz, Homens de fé, predestinados conquistadores da liberdade.

Herdeiros de Afonso e de Henrique, ínclito Infante, navegadores que pelo astrolábio e pela garra se entregaram bravos à rota de todos os sonhos...

Que o destino é sempre nosso, cantado na voz dos poetas eternos: Camões, Pessoa, Sophia... mestres da alma e donos das palavras de um fado que ambicionamos maior.

Do granito das serras nos inspirámos na bravura, dos avós recebemos esse sábio gesto de rasgar a terra e colher dela o pão...

Conquistando horizontes alimentados pela esperança e pelo querer... e sem desistir jamais.

Portugal.

Mais do que um país.

Língua, pátria, terra, gente, um sonho...

Um destino doce e eterno que nos urge saber cumprir.

sábado, 8 de junho de 2013

Ainda se ao menos houvesse sol…

Acordo para um sábado de Junho nessa natural expectativa de que o abrir do estore faça com que a janela compartilhe comigo a vista da Caparica e toda a curva de costa até ao Cabo Espichel.
Pois, pois…
Nuvens negras, chuva e só com alguma imaginação consigo vislumbrar o mar aqui pelos lados do Bugio.
A gaveta dos pólos e das bermudas permanece inviolável qual Porta Sagrada aguardando o Ano Santo, e a roupa de inverno não tardará a fazer greve e a imitar os funcionários públicos, tudo pela sobrecarga de horas de serviço que lhe exijo.
Mas os catorze graus definitivamente exigem mangas e pernas de calças.
Faço-me a Lisboa e mergulho no mar de cartazes da batalha eleitoral de Oeiras. Há um homem que se chama Vistas, que tem a pretensão de pôr o concelho mais à frente e que não tem partido, tendo apenas, pelos vistos, uma referência que utiliza na promoção, Isaltino.
A “referência” está encarcerada por má gestão, depois de ter tentado todo o tipo de recursos que os tribunais oferecem.
Mas isso, para o Vistas, parece ser um detalhe desprezível.
Chove na A5, entro em Lisboa avistando as Amoreiras, e o ambiente é tal que mato saudades das manhãs de Dezembro em que me acerco ao Centro Comercial para fazer compras de Natal.
Sigo pelo Rato, Politécnica, Príncipe Real…
E já há um arraial em São Pedro de Alcântara. Finalmente vejo um sinal de Santo António.
Abro o vidro do carro na perspectiva de escutar alguma marcha cantada pela Fernanda Baptista ou quiçá o “Cheira a Lisboa” interpretado pela inevitável Anita Guerreiro.
A aparelhagem “vomita” samba.
Lisboa derrotada pelo Rio de Janeiro e aposto que todos os balões que pendem do festão, verdes porque patrocinados pela Sumol, foram fabricados na China.
Finalmente o Chiado, o sítio que pela enorme nobreza dá sempre a Lisboa um ar de festa.
Calçada abaixo, faço slalom entre milhares de turistas a tiritar de frio e que pela forma patética como se vestem, aposto que tiveram de improvisar um guarda-roupa na hora de sair dos hotéis.
Facilmente reconhecíveis, olham para nós nativos com o ar feroz com que se exige o livro reclamações ao gerente de uma loja:
- Mas afinal onde está o tão prometido sol.
Tomo um café.
O troco mete cêntimos e o empregado da Brasileira faz uma piada com o Euro.
Perdeu-se definitivamente o respeito pela moeda única do espaço Europeu.
Continua o mau tempo e eu sinto o apelo para voltar ao conforto de casa.
Faço-o conduzindo em ar de passeio e cruzo-me de repente com umas carrinhas de caixa aberta que transportam os arcos de uma Marcha de Lisboa. Desperta-me a atenção, um par de carrinhos de supermercado decorados com laços prateados ao estilo “Barbie Minipreço”.
O manjerico também já foi derrotado pela Hello Kitty.
Acelero para o meu refúgio, instalo-me no sofá, ligo a televisão e eis que de repente um dos canais anuncia o seu melhor show semanal exibindo um tonto de braçadeiras a atirar-se de rabo para uma piscina.
A televisão está possessa e necessita urgentemente de um exorcismo.
Aparelhagem, Antena 2…
Fecho os olhos, relaxo…
Até eu que sempre recuso a catastrofista perspectiva do copo meio vazio, começo a pensar que passámos para os antípodas da razoabilidade, do bom senso e do bom gosto aterrando numa patética estação espacial ao estilo de manicómio especializado em esquizofrenia aguda.
Ainda se ao menos houvesse sol…