quarta-feira, 12 de junho de 2013

Mediterrâneo

As oliveiras não desmentem que chegámos ao Mediterrâneo descendo do longo planalto que há dois dias nos acompanhava e que é berço de infinitas searas de trigo.

Do percurso retenho Konya e esse choro das mulheres no Mosteiro de Mevlana lutando por poderem respirar o "ar santificado" por um pêlo da barba de Maomé, elemento capilar que se encontra dentro de uma pequena arca de madeira que por sua vez está protegida por uma caixa de acrílico que oferece o tal orifício à santa respiração.

Diz-se que os monges se libertavam dos respectivos egos para estarem mais próximos de Deus. Se bem tentaram, não o conseguiram concretizar na morte pois as sepulturas têm dimensões diferentes atribuídas consoante a sua importância na hierarquia do mosteiro. 

Os egos a fazerem a diferença. Antes como agora.

E foram já as oliveiras que nos trouxeram até ao Castelo de Algodão (Pamukkale) onde a água encosta abaixo deixa um rasto branco de calcário que contrasta com os tons de verde da paisagem.

A água escorre desde Hierapolis, cidade grega onde um dia, Filipe, Apóstolo de Cristo, foi feito mártir e santo.

Das ruínas, admiro ao fundo o teatro e deixo-me embalar pelo som da água que escorre límpida alimentando o branco calcário do Castelo.

Há nuvens carregadas sobre nós mas até se agradece este correr de cortinas sobre um sol intenso que nos seguiu durante todo o dia.

Percorro o topo do Castelo sentindo a brisa fresca da tarde que traz até mim os aromas que bem conheço do Alentejo, pátria vizinha do Atlântico mas carregada de Mediterrâneo.

Impossível não me sentir em casa no privilégio de percorrer estas pedras que há muitos séculos sustentaram os passos dos Homens que sonharam fazer da Terra um espaço maior de liberdade, justiça e verdade, fazendo com que o Homem se tornasse muito mais Homem.

E o fim da tarde é a hora maior para a nostalgia de todas as saudades.

E o vento, que sopra forte, levará por mim, estou certo, voando por sobre os vales, os mares e as mais altas serranias, os beijos que emanam do pensamento e de um querer assim tão forte ditado pelo coração. 

Um querer que nunca caberá nas palavras escritas no alvor de cada amanhecer.

Um querer eterno como o mar...

Mediterrâneo.

1 comentário:

  1. Mais um belo texto. Obrigado com eles todos podemos dar largas à imaginação. Um abraço. AR

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