sábado, 22 de abril de 2017

Os poetas e a Luz


Nunca conseguirei entender porque colocam o busto dos poetas à porta das bibliotecas. Eles permanecem vivos nos detalhes da alma que deixaram impressos, e que descansam por ali nas prateleiras, abandonados ao pó do tempo. Mais do que as flores colocadas na base polida de uma pedra sob o bronze do seu retrato, os poetas celebram-se em cada palavra que lemos e sentimos nossa.

Também jamais conseguirei entender o porquê de ornarmos as igrejas com lâmpadas mais ou menos coloridas, e o porquê de acendermos velas pelos altares. Se Deus é a Luz maior, nós seremos sempre os recetores dessa graça. Ninguém se lembrará de levar um balde de água fria para oferecer ao rio ou à fonte.

Sentado junto a uma das mesas da esplanada quase vazia, em frente à Matriz de Ponta Delgada, vou desfolhando a memória e semeando versos que entrego à brisa que passa por aqui, correndo desde a encosta do vulcão, e na direção do mar.

Os poetas estão vivos e voam agora com as gaivotas, cruzando a claridade. A cruz foi apenas um brevíssimo instante, e o Céu é esta casa eterna de sorrir, não com os lábios, porque quem tem fé sorri com o coração.

Os versos dos poetas voam entrelaçados na Luz de uma segunda-feira de ressurreição.

sábado, 15 de abril de 2017

A vida é uma imensa festa


Ninguém se recorda já do nome que lhe deram ao nascer, porque aqui, na terra onde vive, todos o conhecem e tratam por Batata, inspirados no pompom que encima o gorro vermelho que traz sempre na cabeça.

O Batata gosta de correr pelo campo nas tardes de primavera, e diz que o mundo é o seu castelo encantado. Tem as árvores como torres e ameias, jarras de flores presas pela raiz, a alcatifa verde que a chuva lhe oferece, e tem um teto azul em dias claros, que se enche de estrelas ao luar, um pouco antes de adormecer.

Quem o vê assim acelerado, procurando as ribeiras e as ervas de cheiro, não imagina que o seu pompom, semelhante ao famoso tubérculo, tem poderes especiais.

É verdade. Se o Batata o apertar uma vez, aparece uma fada com uma vara de condão capaz de contrariar todos os impossíveis. A fada canta ao amanhecer e desperta os pássaros que ficam encantados com a sua voz.

Com a fada Luísa tudo pode acontecer.

Se o Batata apertar o pompom duas vezes, aparece o Mago Rebolim, que até ouro consegue fazer a partir de uma pedra, no breve instante de um espirro.

Atchim.

O Batata gosta de brincar e sabe que o seu castelo se ilumina pela força dos abraços dos amigos.

Chama-os muitas vezes, sentam-se na relva e tocam viola, enquanto alguém desenha letras e chama a poesia.

Mas um dia, numa tarde de sexta-feira, o vento soprou forte e roubou-lhe o gorro, fazendo voar o pompom. O Batata ficou triste e voltou a casa cabisbaixo, pensando ter desaparecido para sempre a magia.

Já o domingo clareava quando ao coçar o nariz, ele reparou que a fada e o Rebolim apareceram de repente.

- Porque estás triste?

- Porque perdi a magia. O pompom voou para longe.

- Não penses nisso. A magia vive sempre em nós, está em ti e em toda a gente.

Reparou então que o céu ficara mais azul, que a alcatifa tinha tufos infinitos de flores e correu para abraçar os amigos.

A vida é afinal uma imensa e perpétua festa.

 

(O meu sobrinho Luís fez o desenho e, sobre ele, eu escrevi uma história para vos desejar uma Páscoa muito feliz)

 

 

quinta-feira, 13 de abril de 2017

O folar doce


No Alentejo, o folar é doce, como estes dias que inventamos.

É doce e anisada, a “erva” que juntamos à massa, em rima com a esteva que aquece o forno e com o alecrim dos ramos de domingo, aquele mesmo alecrim que “prende” os namorados e os padrinhos a um cartuxo de amêndoas, também de açúcar, na manhã de quinta-feira.

A avó Natividade atava um lenço branco na cabeça e, á cintura, um avental da mesma cor, benzendo-se por entre o pó da farinha de trigo que ia deixando cair sobre o enorme alguidar de barro. Depois de mais de uma hora em que não dava descanso às mãos, desenhava uma cruz sobre a massa e dizia:

- Deus te acrescente.

Esta semana não é santa por acaso, mas sim porque a fé transpira do peito da gente. E a massa “deita-se” depois no recanto mais quente da casa, para que “finte” melhor durante a noite, sim, que levede melhor. Bolos fintos, porque no Alentejo sabemos que a fé é o segredo para “driblar” a má sorte.

Quando a manhã se enfeita de sol, polvilham-se as tábuas com farinha, reparte-se a massa que cresceu e transbordou do alguidar, e dá-se-lhe a forma de roscas, estrelas, “padinhas”, ou então, acrescentam-se ovos cozidos e fazemos o folar. Com a avó Natividade aprendi a fazer lagartos, freirinhas e poços, todos recortados à tesoura e enfeitados com laços que guardámos das prendas de Natal.

Os tabuleiros negros de metal levam o nosso nome escrito a giz e entram no forno com os dos demais, porque a amizade é o calor onde tudo ganha forma e sabor.

Talvez a imagem de Cristo jazente percorra já as calçadas de Vila Viçosa, por entre o silêncio e as laranjeiras em flor, quando o forno se abrir para nos devolver os folares quentes e doces, lembrando-nos que a morte é apenas um breve instante nestes dias que inventamos e onde nos vamos descobrindo, enchendo-os de amor.   

domingo, 9 de abril de 2017

Estes dias feitos de flores


Mesmo que não cheguemos ao tempo das cerejas maduras, ninguém poderá acusar-nos de não termos vivido intensamente estes dias feitos de flores.

Ainda que, à porta do forno, não saboreemos o pão de trigo que o azeite beija de paixão, já teremos guardado todos os segredos trazidos pelo vento, as histórias reveladas nestas tardes em que somos seara verde a espreguiçar-se ao sol de Abril.

A idade contada em anos é uma ilusão, porque a vida não é tempo, mas é intensidade e coerência na concretização dos sonhos, até dos mais ousados.

Nós trazemos o céu inteiro no olhar, ao contrário daqueles em que o único detalhe de firmamento é o possível reflexo de alguma nuvem que o dia lhes ofereça gratuitamente às lentes. Porque o céu é o todo da alma que se espreita e extravasa no olhar, ao jeito de um herói.

O céu é o sonho que carregamos no peito.

Ainda que alguém possa dizer que nos falta tempo, nós repousaremos tranquilos, porque não há nada que nos falte fazer.

Repousaremos tranquilos entre as flores.

 

(Agradeço as fotos enviadas pelo Rui Pereira)

domingo, 2 de abril de 2017

OS MENINOS QUE INVENTARAM A PRIMAVERA


Numa tarde de Março, mas com o tempo já a espreitar Abril, os meninos e as meninas saíram juntos para o campo trazendo na mochila os livros de histórias e um montão de lápis de cor.

O céu estava triste, fechado pelas nuvens enormes e cinzentas, e o chão mantinha o tom castanho e seco sem flores que herdara do fim do verão.

Chegados a uma clareira, os meninos pousaram as mochilas e puxaram dos lápis, afiando todos os tons de azul, para poderem pintar o céu, e os verdes para que a terra vestisse uma saia plissada dessa cor, como é uso na primavera.

Mas nada, os lápis gastavam-se aos poucos, e tudo permanecia na mesma cor.

Reparou então um menino, quando dava a mão a outro para o ajudar com as pinturas, que as nuvens se iam rasgando, e o céu até já conseguia espreitar. E quanto deu um abraço a outro menino, o céu já sorria feliz, brilhando na cor do mar.

Uma menina que cantou e outra que se riu, repararam que a voz e a gargalhada plantavam relva no chão de Outono, verde e grande, salpicada de giesta, amarela e quase ouro; e assim, olhando as flores, o sol, toda a gente tocou e sentiu.

Numa roda gigante entre abraços, cantigas e sorrisos, os meninos aprenderam a pintar o campo da primavera. Na verdade, os dias bonitos não se desenham a lápis de cor mas nascem da amizade.

E um pássaro que passava por ali lembrou-lhes ainda que havia livros na mochila, histórias de sonhos e de magia, e que os meninos e as meninas, não tendo asas, pelos sonhos conseguiriam voar.

Batendo as asas antes de rumar a sul, o pássaro lembrou ainda, e mais uma vez, que o céu é de quem voa. E todos os dias se pintam de azul.


Os alunos da Escola Básica da Mata, em Estremoz, sugeriram na sexta-feira que eu escrevesse uma história inspirada neles. Uma história que também falasse de magia e primavera.

Aqui está com um abraço.

sábado, 25 de março de 2017

O amor planta girassóis na lua


Não importa qual a cidade, e nem sequer o nome do rio que a namora, para mim, todas as ruas, as praças e as calçadas, são memórias dos meus passos nas tardes em que saí para te procurar.

Não importa se as torres que me ofereceram sombra foram castelos guardiões de Homens, de Deus ou do tempo; o amor planta girassóis na lua, e não se prende com quaisquer humanos ou divinos detalhes, para além de que jamais necessitará de ver as horas.

Às vezes paro e sento-me para tomar alento, roendo lentamente uma maçã verde colhida na ousadia do pomar onde os corpos tomam a forma de árvores e o desejo nasce tão intensamente que até parece proibido.

Quem tem muitos rostos não tem nenhum, e o espelho por detrás do balcão do café onde depois me encosto, na pausa da bica, tem a sabedoria de milhares de luas, e nega-me um reflexo claro. Eu só serei eu depois de te encontrar no fim da história que os meus passos contam rasgando portas e desenhando as ruas.

Também construirei um barco de madeira ao jeito de uma casa de piso transparente, e afirmo aqui perante toda a gente, que se tu viveres naquelas montanhas que dizem existir no fundo do mar, eu usarei as mãos em concha para lhe retirar a água, até te encontrar.

Dia e noite, tomando alento e fogo de cada pôr-do-sol.

Depois, substituindo com flores a ferrugem de todas as grades, levar-te-ei comigo e adormeceremos juntos sob um sobreiro. Uma manhã, uma tarde, um dia inteiro… ou até mais, enquanto as palavras que dissemos um ao outro, e que até lembram versos desenhados por Pessoa, se entretêm a voar com os pardais.

 

domingo, 19 de março de 2017

Pai


Desmentindo o tempo, salto para um banco improvisado feito de jornais atados por uma corda, e fico sentado à mesma altura onde o teu respirar se mistura com o som inquieto da tesoura que afina os meus caracóis castanhos.

Há cromos de futebol que enrolam rebuçados comprados às meias dúzias com moedas de dez tostões, comemos medronhos maduros na encosta do castelo, recortamos e colamos casinhas de papel, jogamos ao pião, construímos papagaios cruzando canas, e á frente do portão do “Tapum”, construímos repuxos num lago improvisado onde se passeia um pato de plástico, nos dias de Junho e São pedro, quando a nossa rua se enfeita com flores de papel que fomos fabricando nos serões de primavera, imitando o melhor gesto que reveste o campo.

Desmentindo o tempo…

Agora que “O Século” e “A Capital” já não amarelecem juntos no monte dos jornais, que os meus caracóis não sobreviveram à prata que os tingiu, e que os papagaios, as casinhas e as flores de papel subsistem apenas na minha memória; eu ajeito-me à sombra do teu olhar, recuso-me a palpar-lhe o cansaço, e pulo como antes, mas já sem a ajuda dos teus braços, para o sítio onde sou maior, e onde o céu já não tem o ruído de uma tesoura mas continua a ter o teu respirar.

Num beijo, meu querido pai, imitando sempre o melhor que tem a vida.

 

sábado, 11 de março de 2017

Sou a soma aritmética de todos os beijos que quis dar…


A manhã traz sempre folhas brancas para cima da mesa, e até um lápis pouco afiado que possa andar por ali, meio perdido, servirá para podermos "escrever" a nossa história.

Março já levou a manhã ao cabeleireiro e enfeitou-a de caracóis vermelhos, cor-de-rosa... do pantone das camélias e outras flores, vestindo-lhe depois um traje de ervas com padrão de malmequeres, e pendurando-lhe ao pescoço um cordão de giestas, de fazer inveja ao ouro.

Caíram os biombos de nuvens, secaram as lágrimas de orvalho, e hoje aquilo que se vê de mim tem os contornos claros e definidos de um beijo.

Se nos quiserem conhecer não peçam um retrato, mas espreitem-nos dentro de um beijo que a alma pediu.

A nossa história somos nós e o tempo que nunca envelhece; sou eu que às vezes me sinto velho, sentado por aí num dia qualquer.

Mas o tempo também é redondo e Março cheira sempre a recomeço, quando paramos na berma de uma manhã, nos sentamos à mesa e pedimos um café e uma água lisa, mas já fria.

Depois, o pensamento serve de afia, e entre o desejo e a memória, lá conseguimos escrever, como quem sonha, um capítulo bonito da nossa história que ainda estava por contar.

O que é que eu sou?

Mil palavras rabiscadas sobre uma folha branca para dizer que sou a soma aritmética de todos os beijos que quis dar.

 

domingo, 5 de março de 2017

Estes dias que traem a paz e a liberdade…


Rasgamos a Terra buscando barro e granito para erguermos os muros que nos abriguem do vento sem matarem jamais esta essência de ser Homem.

Sentados na pedra enfeitada de hortelã que o rio beija enquanto conta o tempo, o Homem é a alma, muito mais do que a forma ou o tom daquilo que se espreita ou dele se reflete à superfície das águas.

O Homem é a sua fé, muito mais do que qualquer gesto que a enfeita e a recorta.

O Homem é o amor, para lá do género das faces que se encontram na verdade de um beijo.

O Homem é a voz, o canto e a poesia, muito mais do que a língua mãe das palavras que dele se escutem por entre os choupos que bailam com a brisa das noites frias.

Nós julgávamos ter morto os dias que traem a paz e a liberdade...

Mas eles apenas dormiam aguardando as janelas que a imbecilidade rasga à superfície do tempo.

Há que voltar a desatar as mãos. Estes dias empurram-nos de novo para a luta.

Por nós, pela paz e pela liberdade.

 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Os poetas sonham e tiram apontamentos…


Já há muito que os sinos de Viena assinalam a meia-noite, e no quarto do hotel, com a cortina da janela não completamente corrida, eu pressinto o verde no semáforo dos peões quando as luzes dos carros que percorrem a Ringstrasse desistem por momentos de riscar a parede em frente à secretária.

Recebi os golos do Benfica, escrevi e mandei os beijos todos que o coração ditou, e entreguei-me finalmente à hora do poeta, o silêncio sem pressa que se predispõe a ser tudo aquilo que eu quiser.

A hora dos sonhos em estado vígil, que não se apagam nunca às mãos da madrugada e por capricho da memória; os sonhos que persistem.

Quantos dias habitam na noite dos poetas…

Amanhã será Carnaval e acender-se-ão luzes e máscaras sobre o racional sentido dos dias. Irão impor-se gargalhadas que morrerão depois amarfanhadas no terreiro onde as cinzas de quarta-feira se entregam ao vento.

Como se a espontaneidade feliz morasse obrigatoriamente no inverso daquilo que somos e tivesse o prazo de validade de um modesto fim de semana prolongado.

Quando as luzes suspendem os traços na parede, há Homens de todos os momentos que avançam pelo silêncio da noite cumprindo o seu destino e tomando a cidade.

Sem máscaras e sempre a sorrir, enquanto os poetas sonham e tiram apontamentos.

 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O rapaz que não conhecia a letra “a”


Quase no cimo da colina onde o moinho respira o vento que sopra do rio e onde as gaivotas vêm repousar ao fim da tarde; numa rua muito estreita, de casas com flores nas janelas e rodapé azul ou encarnado, vive um rapaz que todos acham estranho, apenas porque não conhece, e jamais conhecerá a letra “a”.

Nasceu e será sempre assim, mas aquilo que é diferente não é forçoso ser coisa ruim.

Igual a todos os outros rapazes, apenas busca novas palavras, perdão, novas expressões.

Assim, em vez de dizer que gosta de sonhar, diz:

- Eu pinto e invento o mundo. Ofereço-lhe um tom novo, que é só meu e que encontro bem no fundo.

Não se esconde atrás de nenhum biombo ou véu, e para dizer que gosta de saltar, diz:

- Eu gosto muito e brinco com o céu.

Chama a mãe e o pai por mundo, esquece as horas e foca-se nos minutos, uma rosa é uma flor, o pão é sustento, uma bola é um esférico, um desafio é um jogo, e uma derrota é um tormento

No outro dia, na aula de Português, a professora pediu uma quadra sobre a mão, fez um concurso e ele ganhou, mesmo sem poder usar tal expressão:

“Emerjo do solo, em prece,

Sou pelo céu, um grito só

Tronco que o sonho tece

Unindo o mundo com um nó”.

Encarnado é vermelho, o amarelo é desespero, o verde é verde, o azul é céu, e até uma maçã pode sempre ser um pero.

Amar é viver, amor é querer, a alma é um verso, o mar é o horizonte líquido que se une com o infinito, ter valor e ser raro, são sinónimos de ouro, e não têm nada de esquisito.

Vive feliz e contente, mesmo não sendo igual a toda gente.

E agora apenas para terminar, sempre digo que as pessoas ditas normais, e que conhecem todas as letras, nunca terão uma história assim que de si possam contar.

Quase no cimo da colina mais alta, depois de treparem pelas ruas estreitas da cidade, rapazes e raparigas, são pupilos das gaivotas escutando lições de liberdade.

 

Fevereiro é um mês raro e dedicado particularmente às pessoas com doenças raras. Deixo-lhes aqui o meu abraço.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

As cartas de amor não têm data nem hora…


Meu amor,

Escrevo-te esta carta sem data e sem hora, porque a qualquer momento que a leias, tudo aquilo que de mim ela revela, persistirá inteiro; ou não fosse o amor, ele próprio, a eternidade…

A minha vida está nos teus beijos, muito mais do que em respirar, e sobre o instante em que te conheci, eu construí a casa onde moro contigo; tomando, porém, o cuidado de numerar todas as pedras para assegurar que ela jamais se torne vulnerável ao tempo, e continue assim, eterna, cruzando comigo todos os dias do futuro.

Na sua varanda que olha o mar, há sardinheiras que se acendem nas tardes de primavera, e que se entretêm a brincar com as gaivotas que redesenham o céu enquanto beijam o ar salgado. Recostado numa cadeira de assento de buinho, construída pelos meus avós, eu agarro o tempo como se fosse linho, e sobre ele, bordo letras azuis em versos de formas que só o desejo ensina.

Pode ser que o silêncio me revisite enquanto estiveres longe, mas aí eu porei a mesa com essa toalha, e deixarei que a memória se solte e me venha beijar à vontade.

Eu sei, meu amor, que a solidão fala comigo, tal qual as nuvens inscrevem poemas de sombras na superfície do mar.

E se não fosse a saudade, se não existisse em mim esta ânsia de te procurar, como poderia eu saber que o mundo é imenso, mas que é muito maior a vontade de te abraçar?

Por isso, e pelo amor, cruzaremos juntos, Fevereiro e o tempo todo, o Outono, a Primavera das nêsperas maduras; poremos letras de canções, na música do vento e da chuva, bailaremos viras, fandangos, malhões; tropeçaremos na pedra lavada do ribeiro, beberemos a água gelada das fontes e deixar-nos-emos cair entre giesta e rosmaninho nos dias que se espreguiçam pela Páscoa, por Abril e pela liberdade…

Meu amor, e mesmo que demores, eu prometo não chorar por ti, de verdade, e prometo que de todo o meu corpo farei um coração que te espera; até das mãos vazias, para que quando chegues, não percamos tempo e soterremos rapidamente a saudade.

Meu amor, eu amo-te muito para lá de onde só os poetas entram e nascem as palavras de amor.

Mil beijos.

Teu,

Francisco

sábado, 11 de fevereiro de 2017

A minha casa com flores


Trouxemos na mochila uma música de Einaudi, há muito em pausa, tal qual o beijo que pendurámos de um minuto triste e saliente, também lá muito para trás.

Tomámo-nos as mãos para podermos repousar da longa viagem enquanto as nossas palavras se cruzavam com o Chá de Rooibos, que, em contramão, se deixava guiar pelos desígnios do desejo e, aos poucos, nos ia tomando os lábios que sorriam no mesmo tom rubro dos morangos.

Quisera eu agora tocar-te assim como a chávena branca cumprindo o beijo roubado à pausa e trazido a tiracolo entre a "tralha" de tanta história.

Talvez o amor não tenha mesmo contramão por não ter regra, sendo como é propriedade da alma e marinheiro livre a navegar pelo ímpeto dos sentidos; e talvez aquele minuto saliente não seja mais do que uma esquina com que a razão nos tentou querendo rasgar-nos o tempo de sermos nós.

Depois reparo que o chá arrefeceu quando eu já repouso na casa que o teu olhar me oferece. Finalmente a minha casa.

As palavras também adormeceram para nos deixarem a sós com o beijo que maturou em Outonos de saudade.

Lá atrás persiste apenas uma ténue marca no tempo, uma cicatriz da razão e do silêncio, um detalhe que os nossos sorrisos disfarçam agora por entre o amor maior.

O amor és tu, sim, o verde inscrito no amanhecer, a minha casa com flores em vez de um muro…

E aquilo que melhor poderá definir um Homem é a intensidade com que ele se propõe viver todos os dias inscritos no futuro.

 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Ausência


Nós sabemos bem que a ausência impõe a dor que persiste sobre a própria morte, tornando-nos cadáveres dentro do corpo consciente e que ainda respira.

Aquele adeus ao fim da tarde depois de um chá frio no Chiado...

O adeus é uma prece ardente ao tempo, e eu acreditei que ele seria capaz de me resgatar do teu mundo onde às vezes me sentia perdido.

Julguei ser fugaz o silêncio que eu trouxe desse instante, e que a solidão se dissolveria aos poucos nas lágrimas das noites passadas de braços vazios.

Pelo acaso, passei por ti às vezes nas ruas da cidade, e em todas ensaiámos ser desconhecidos, mas sempre por entre a doce traição dos olhares.

Passaram-se anos, demasiados anos segundo a dor, o silêncio e a solidão que persistiram; até há pouco.

Eu nunca deixei de estar sentado no teu mundo, ali sozinho bebendo as palavras de Eugénio e de Sophia nos livros que me deixaste à cabeceira.

O amor quando nos nasce assim do sonho é impenetrável ao tempo. Nada mexe como numa manhã de verão em que não corra o mínimo sopro do vento.

E eu quero ficar para sempre aqui sentado ao pé de ti, porque mesmo que às vezes me sinta perdido pelas horas que parecem não ter fim, eu sei meu amor que quanto mais duro e difícil for o caminho, melhor gosto terá o instante de chegar... a mim.

 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

É hora de resistir


A terra onde brincámos e de onde o limoeiro tomou alento e inspiração para namorar com o sol, guardará para sempre a memória dos traços que lhe oferecemos quando usávamos o pedaço de um tronco ou de uma pedra, para dar forma ao mundo que inventávamos.

No nosso sonho não cabiam fronteiras.

E a casa de tijoleira ao canto do bar da escola guarda ainda o eco dessas tardes em que o pudor sucumbia perante a força dos sentidos, deixando que andasse à solta, um jeito tão nosso e tão livre de falar de amor.

Saltávamos as convenções e jurávamos jamais deixar que as fronteiras se interpusessem entre os nossos beijos.

Quaisquer fronteiras.

E o Deus que levávamos connosco para a margem das ribeiras onde o poejo se espreguiçava de odores pelas manhãs do sul, era afinal a expressão maior da vida e desse mesmo amor.

Um Deus lembrado em palavras e acariciado por Padre Nossos, mas que jamais será bandeira de alguém ou de alguns, porque Ele é o universo inteiro.

Acho que nunca nos passou pela ideia que o vento forte regressaria, como descrito nos livros de História, para apagar os contornos que tomávamos pela liberdade de tudo aquilo que ousávamos sonhar.

Também jamais pensámos que alguém nos traísse os beijos, impondo-lhes regra de género, credo e cor; ou que alguém separasse Deus do Seu projeto único de um eterno amor.

Homens de mão esquerda sobre a Bíblia e a mão direita à solta a matar a liberdade e a trair a fé.

Oxalá a nossa fé persista e consiga galgar connosco este tempo que rasga a terra com os alicerces dos muros e das fronteiras, matando à fome a esperança... e os limoeiros.

É hora de resistir.

 

domingo, 29 de janeiro de 2017

A poesia vive à superfície das horas…


Os poetas não necessitam escavar galerias e andar pela essência mais subterrânea dos dias; a poesia vive à superfície das horas, mesmo até das que parecem mais banais e previsíveis.

Numa manhã como tantas outras, o meu sobrinho João respondeu ao pai, o meu mano Zé Artur, que a noite não tinha sido grande coisa porque os sonhos não tinham entrado.

Peguei nessa ideia e num dos bonecos preferidos do João e do Luís, aquele que dá gargalhadas quando lhe apertamos a barriga e que se chamava PJ, por ter sido oferecido pelo Paulo Joaquim; e construí o conto "A noite em que os sonhos não entraram" que hoje apresento em Vila Viçosa.

Quando a tarde se aproximava do fim e eu estava na Livraria Escolar da minha amiga Joana Ruivo, chegavam às vezes alguns amigos que ficavam connosco à conversa. Uma livraria é uma casa para as palavras, as escritas ou palavras ditas assim em conversa informal.

Um dos amigos que chegava era o Senhor Francisco Lourinhã, o primeiro presidente da Câmara Municipal de Vila Viçosa eleito após o 25 de Abril de 1974, que ontem partiu.

Aqui no mesmo fim de semana da minha terra sobressaem as minhas palavras mas também as memórias das pessoas que informalmente e sem terem a noção disso, me foram ensinando a contar as histórias, por me terem ajudado a descobrir a excelência que existe nas coisas mais simples.

Porque a poesia vive à superfície das horas e os poetas nunca serão os seres mais inspirados, mas sim aqueles que conseguem despir-se do pudor e dizer tudo aquilo que sentem.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

O tempo é redondo…


Para quê lamentar não ter melancias na horta no mês de Janeiro, se as laranjas maduras se interpõem entre nós e o sol para nos trazerem momentos únicos de açúcar?

Como poderíamos sonhar olhando as estrelas se a noite nunca viesse?

Há tantas palavras que eu escrevo depois de as colher do silêncio.

O deserto é o sítio onde melhor floresce a fé.

Se as minhas mãos não tateassem tristes pela solidão jamais te encontrariam no recanto doce de uma festa só nossa, e contigo ao lado, o melhor sítio para espreitar o céu até pode ser um rés-do-chão.

Como o tempo é redondo e o nosso sonho é eterno, o amor nunca se habituará a viver longe do nosso coração.

 

sábado, 21 de janeiro de 2017

A manhã que cheira a tangerina...


Quando a fome destapar o aroma da tangerina, eu seguirei pela manhã, gomo a gomo, como quem te procura vasculhando a memória.

Matámos as convenções logo ali, ao primeiro beijo, deixando depois que o silêncio se fosse impregnando aos poucos das palavras que a ausência de fôlego travou, e não nos deixou dizer.

Mas também, qual será o detalhe de amor que poderá ser soletrado e que este beijo ainda não disse?

As sílabas que os nossos lábios amordaçam quando se dispõem assim, uns de encontro aos outros, diluem-se no desejo, entrelaçam-se na vontade, ficam impregnadas de rosas vermelhas e libertam-se sob a forma de um gesto que sonhámos.

E que bom que é poder saborear as contradições inscritas numa paixão como a nossa…

Os silêncios que falam, o voo de liberdade quando os meus braços se atam aos teus; e o edredão que nos protege do frio parece desenhar o teto de uma casa alta, quente e com janelas, onde se vive de verdade.

A harmonia quando a paixão afinal me desatina, e eu sigo pelo pensamento numa manhã que cheira inevitavelmente a tangerina.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Há dias que são tão cómodos e perfeitos...


Há dias que são tão cómodos e perfeitos, que não resistimos a transformá-los num sofá onde depois nos sentamos tranquilamente.

Podemos puxar para junto de nós, para nos alumiar, aquele pedaço de lua que nos abraçou num beijo; e na memória, como quem desenha letras no chão de terra de uma rua, vamos aos poucos organizando os versos, mas sem que os ajustemos de forma rígida a uma métrica qualquer.

Por isso, se pensaram ver-me algures por aí, investiguem primeiro, escutem com atenção tudo aquilo que eu disser, não esteja o meu corpo a vaguear por um sonâmbulo instante, "adormecido" que estou, e a sonhar, recostado nesses dias a que podem chamar tudo, mas que são afinal a poesia.

E até podem ver-me sozinho e de mãos vazias, mas acreditem que apenas na ilusão de um fantasma errando por aí; os dias onde me sento têm dois lugares e as minhas mãos tomam o mundo enquanto passeiam por ti.

Por isso, digam o que disserem de mim, vejam-me aqui, ali, seja onde for...

Eu estarei sempre abraçado a ti, comodamente ajeitados aos nossos dias doces, meu amor.

 

domingo, 15 de janeiro de 2017

Mestre, até sempre...


Ao longe, muito para lá da minha janela, o sol pinta o Atlântico de sombras cor de prata e vai disfarçando o frio de Janeiro.

Talvez eu logo vá passear no Chiado, e desça do Camões passando pela Brasileira, levando sempre comigo aquele jeito algures entre o Carlos da Maia, distinto, e o louco João da Ega, de "Os Maias".

Hoje, mais do que nunca, depois da Bertrand, onde as estantes têm os meus livros, e como quem desce para a Rua do Carmo, por certo sentirei saudades daquelas manhãs de 1982 na Escola Secundária de Vila Viçosa, ainda à Porta dos Nós, quando um gira-discos tocava Verdi e nós seguíamos por Camões e Homero à procura da imortalidade na Ilha dos Amores.

E as manhãs também traziam Sophia, Antero, Florbela, Pessoa, Jorge de Sena...

E inevitavelmente o Chiado do Eça.

Hoje, mais do que nunca, eu, o discípulo, sentirei saudades do Mestre que um dia me chamou à parte para me dizer:

- Rapaz, ser bom é curto para quem pode ser excelente.

Soube há pouco que à meia-noite de hoje partiu o Padre Mário Aparício, o meu professor de Português, e aquele que considero sem quaisquer dúvidas, o melhor professor de todos os que se cruzaram comigo nas diferentes etapas do meu percurso académico.

- O mundo é de quem não se senta à sombra da mediania e do destino e se torna exigente buscando o melhor de si.

E um Mestre, mais do que os compêndios que nos apresenta, ensina-nos a caminhar e a não desistir.

Talvez o Rossio hoje não tenha guitarras à janela e o Castelo se apague na sombra de uma noite fria de Janeiro.

Mas lá em baixo, onde o Tejo ressuscita em cada canto com que as ninfas pintam os meus versos, eu, rapaz com meio século a pintar-me a idade, coçarei a barba do tom da tarde e sentirei na brisa o eco de uma gaivota que esvoaça.

Mestre, até sempre, um dia destes voaremos juntos pela eternidade.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

E este cais…


Se tu vivesses para lá do mar, eu juro aqui que não faria outra coisa, para além de aperfeiçoar o meu gesto de nadar.

Poderia também, quiçá, pegar em tudo aquilo que é velho e não interessa, e construir uma jangada atada com os nós mais fortes que a raiva conseguisse colher da minha vontade de te abraçar.

E um dia ao fim da tarde, num instante em tudo transparente, celebraríamos a liberdade num beijo sem biombos ou o disfarce de sermos outra gente.

Seria num cais qualquer entre o repouso das gaivotas ou o seu canto no voo matizado pela maré.

Os dois como quem tomou do sonho a convicção e a raiz, por entre cada palavra nua na condição de ser aquilo que é.

Eu amo-te e existo por poder dizê-lo.

E este cais em forma de liberdade é afinal o meu país.

 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Aquilo que se esconde por detrás de uma tarde de nevoeiro…


Ao contrário, talvez, da grande maioria das pessoas, eu gosto dos dias de nevoeiro. Tal não se deve à esperança de que eles me devolvam um rei perdido em Álcácer-Quibir; mas sim porque o tom cinza que encurta o horizonte nos oferece, simultaneamente, um espelho generoso com vista desafogada para dentro de nós.

E assim ao fim da tarde com a casa envolta em bruma, apagam-se as luzes…

Quando Tom Hulce soltou a primeira gargalhada em Amadeus, de Milos Forman, já nós levávamos de avanço, muitos minutos de riso, tal o impacto e a surpresa do “mergulho” no vazio que as cadeiras do Cinema Londres nos proporcionavam após nos termos sentado tranquilamente.

Ali pela Avenida de Roma, em 1985, onde voltaremos outro dia para espreitar no Roma, a bailarina no armazém da padaria de Era uma vez na América, existiam algumas casas de venda de Croissants onde depois poderíamos jantar. Um de cogumelos, outro de fiambre, e para a sobremesa, talvez um Croissants de chocolate ou de doce de ovos.

Já no início de 1986, quando a Meryl Streep e o Robert Redford voavam apaixonados sobre a Savana em África Minha no écran gigante do São Jorge, o nosso jantar tinha sido antecipado com a compra de uma inéditas sandes gigantes de fiambre, alface e tomate que preparavam no Celeiro, à Rua 1º de Dezembro.

Nunca tínhamos visto por cá estas sandes maiores do que a maior carcaça, e nós, muito modernos, lá íamos subindo a Avenida ao jeito dos protagonistas das séries da TV.

As escadas do Eden são terríveis de subir mesmo quando o balcão só nos leva até ao purgatório. Sim, esse mesmo, o Purgatório do Fado num Querido Lilás em que o Herman foi a mãe do filho e o… filho da mãe, num guião “desenhado” pelo benfiquista da luva preta, o Artur Semedo.

O jantar?

Nesse ano de 1987 talvez tenha sido um hamburger grelhado na chapa e coroado com cebola frita, o avô lusitano do Big Mac, comprado ali na Rua das Portas de Santo Antão numa loja muito pequena quase em frente à Casa do Alentejo.   

E antes que os anos oitenta sucumbissem ao ciclo inevitável do tempo, entre a Faculdade de Farmácia e o Quarteto, na Avenida Estados Unidos da América, existia a Gelataria Pindô na Avenida das Forças Armadas, onde um café com natas ficava sempre bem na antecâmara de qualquer filme menos comercial.

Asas do Desejo ou até o Cinema Paraíso, do qual eu já tivera o meu quinhão muito particular quando o meu pai foi projecionista em Vila Viçosa e trabalhava com uma velha máquina gigante onde era fundamental alinhar dois carvões incandescentes, que às vezes cortava as fitas, e que proporcionava até fenómenos de ressurreição de personagens, sobretudo quando por engano se trocavam as bobines.

Viram onde o nevoeiro hoje me foi encontrar?

Os filmes contam histórias e todos juntos, assim, contam a nossa história, mas sempre com os beijos no lugar certo e nunca cortados.

 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Luís


 
A partir de uma folha branca de papel, com múltiplos recortes, cola em stick e canetas de feltro de quantas cores imaginarmos, fabricamos um autocarro imenso, comprido, com gente muito feliz à janela.
E quando as rodas de papel “rasgarem” o tapete da sala, acelerando ao ritmo dos nossos braços, e sobretudo, da imaginação, já teremos desenhado uma história com um inédito argumento, e uma banda sonora tão inspirada que põe toda a gente a cantar.
Quantos mundos cabem dentro deste mundo que se vê e que se conta por minutos na rigidez previsível dos relógios…
Sei-o eu que alinhavo poemas ao amanhecer, e sabe-o melhor que ninguém, o meu sobrinho Luís que cumpre hoje o seu décimo aniversário.
Por entre o privilégio destes dez anos de dias que ele me pintou de um intenso azul, eu ofereço-lhe aqui um barco desenhado por beijos e palavras para que ele nunca pare de navegar.
Porque os Homens que crescem e marcam a História são aqueles que nunca desistem de brincar.
Luís, um beijo de parabéns do tio Quim.
 
 

domingo, 1 de janeiro de 2017

2017


Na saliência de um segundo que um beijo fez emergir, penduro o meu casaco, e mais à frente, num outro segundo a que a ousadia ofereceu um plano inclinado, sacudo os pés, preparando-me assim para seguir viagem.

Olhar no horizonte, sorriso a meia-lua, o pensamento alado, como usa ser, e as mãos entregues às mãos que as perfumam do gesto verso, sem palavras, que fala de amor.

Não existe um tempo novo, existe apenas a vontade de desmanchar o previsível encolher de ombros que deixa o tempo ser aquilo que for.

Desassossegar a letargia do destino mais apático, anónimo e genérico.

Por estes dias, o Menino fugiu com José e Maria para o Egipto com a ajuda do burro, os reis regressaram a casa, a estrela foi brilhar para outro nascimento, e até os pastores tiveram que ir à sua vida, pois são muitas as ovelhas para apascentar.

No casebre de Belém resta a palha, e a vaca, que pela magreza, ofereceria adjectivo ao ano todo que aí vem

Desarrumar o previsível sem desmanchar a esperança que mora no presépio. Para isso existe Janeiro.

Ano novo?

Tomando os segundos de assalto, de mão dada, “fato” novo… e sabendo que para nos deixarmos acontecer, o amor que nos dita a alma terá de vir sempre em primeiro.

Feliz 2017.