sábado, 18 de novembro de 2017

Paralelos ao sol


Quando caminhamos paralelos ao sol descobrimos infinitas linhas informais que alinham os nossos passos com a melhor “caligrafia” do sonho e da vontade. Nus, sem roupas, compromissos ou cintos que nos “atem”, somos apenas nós e a nossa história.
Tempero a manhã fria com o aroma do café que pinga, paciente, desde o filtro de papel e a cafeteira de vidro. Para lá da janela, o vento vai, aos poucos, roubado o ouro que o Outono ofereceu a um velho plátano, enquanto o Atlântico se mantém convictamente azul entre a curva da Caparica e o Cabo Espichel.
Calei a rádio. Já não tolero o relato dos banquetes dos poderosos sobre a dolorosa e jazente morbidez da gente, famosa ou não, já sepultada ou em vias de o ser.
A mediocridade dos intérpretes não acompanha a elevada expectativa dos entusiastas e cegos militantes das ideologias, e eu sinto desprezo pela patética figura destes últimos na hora de defenderem os dejetos, reconhecendo-lhes um “indiscutível” valor, aproveitando para, de caminho, cuspirem sobre a liberdade e a justiça que a sustenta.    
Um Homem poderá parecer maior se tentar esconder-nos o sol para que nos foquemos na sua sombra distendida sobre as colinas, mas o que restará dele perante o cansaço dos efeitos especiais e dos jogos artificias de luz?
Nada, ou muito pouco, sobre a aridez dos caminhos que definem, definitivamente, a ilusão.
A fama é volátil e depende do hiato de luz derramado sobre a dor e a pequenez.
Apenas o coração permanece, dentro do corpo e deste olhar nu que mira o Outono e navega sem medo nas linhas que o sol define sobre o espaço… e o tempo.
Sou eu, o sim, o não e a minha liberdade.
 

(Agradeço a foto ao meu amigo Gil Reis)

sábado, 11 de novembro de 2017

Gosto muito quando a noite põe um vestido encarnado


Gosto muito quando a noite põe um vestido encarnado…
Nas estradas de pó do deserto de areia, ou nas praças também desertas das cidades a que a hora roubou a gente, erguem-se imponentes pirâmides de luz com vértice de encontro ao céu estrelado, escadas informais por onde sobe o olhar e o sonho, sepultadas, definitivamente, as dores e o cansaço.
Não importa nunca o nome das estradas, das ruas ou dos rios…
Tejo, Nilo ou Sena, são irrelevantes detalhes das águas que correm soltas, sem cessar, cumprindo-nos a vontade e levando sem retorno, as mágoas, como quem devolve o sal ao mar.
Na esquina de cada segundo desses ocasos rubros tingidos pela paixão, eu construirei um palácio de pedra, gigantesco, como quem eleva aos altares as coordenadas do destino traçadas sobre o mais improvável chão.
Gosto muito quando a noite põe um vestido encarnado…
Para comprovar esta agonia dos impossíveis, se acaso mais alguma prova fosse precisa, sempre te direi que um abraço teu consegue até desmanchar o tom de enigma que mora no sorriso da Mona Lisa.
 

(Agradeço a foto à minha amiga Carla Antunes)

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Vítor


Debruçadas nos parapeitos das varandas rasgadas sobre a ousadia, as palavras dos poetas, íntimas dos cravos e das sardinheiras, esperam, incessantes, por uma voz que as beije e as faça voar com os pássaros, dobrando sem medos, as esquinas de todas as ruas.
Talvez a voz se aproxime quando a guitarra já tiver acordado o coração, e a saudade, irrequieta, já nos tiver salgado o rosto, colando-nos à pele a fome dos abraços, bem mais dolorosa que a sua homónima relativa ao pão.
Quantas palavras de tantos poetas correrão então pela cidade, e quantos rostos, corpos, trejeitos, quanto choro, riso, quantas gargalhadas, o gesto igual, normal, anormal, diferente… tudo espreitará no palco, que é o que mais se assemelha a uma rua, por poder ser a casa de toda a gente.
Vítor é a arte que resgata do silêncio as palavras dos poetas, e é a poesia toda: dita, respirada, soletrada, mastigada, deglutida, incontida, de corpo inteiro e despida de medo e preconceito.
Como o eco doce que nasce de um incansável amor, nós seremos sempre o seu aplauso, esse músculo cardíaco que bombeia sangue e oxigénio na vida do ator.
Vítor de Sousa, muito obrigado.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

O homem e a montanha


Numa manhã de Outono, o homem saiu de casa muito cedo, abrigando o corpo do frio, e apoiando-se no bordão de tudo aquilo que já viveu no tempo que enfeitou de rugas a sua idade.
Subiu a montanha à sua frente, devagar, a passo curto, conversando, em silêncio, com as ervas do caminho, enquanto o sol penteava o horizonte usando todas as cores que moram na claridade.
Os bolsos grandes, de um e outro lado do fato, guardam pedras colhidas aqui e ali, búzios da terra que contam a história da estrada e do caminheiro.
É forte a tentação de olhar para trás, mas resiste, porque ele sabe que a verdadeira dimensão de um homem é o destino que assume ter à sua frente.
Mais um passo, outro... e finalmente, o topo.
Ali, o vento sopra versos que aprendeu com as árvores e os pássaros, o horizonte espreguiça-se em novos dias para caminhar, e as nuvens, essas que o povo diz trazerem novas de Alcácer nas manhãs da esperança, são os gestos de um céu que se curva só para nos vir beijar.
Mais logo, à noite, as pedras do bolso e o bordão avivarão a memória que sentará com o homem, à lareira, todas as coordenadas de um inédito chão.
Mas, denunciado pela foto que nos enlaça, está um detalhe essencial da história deste dia árduo, mas inteiro.
O homem caminhou sempre envolto pelo abraço maior, a sombra do seu companheiro.


(Agradeço a foto ao meu amigo Paulo Nande)

sábado, 21 de outubro de 2017

O abraço do velho sábio


Há um velho sábio sentado na torre do edifício mais alto que ladeia a praça, ali, entretido à conversa com os outros pássaros, que vão e vêm no seu voo de mil anos.
A morte, que apenas soterra as mãos e os lábios, liberta-nos do desconforto das forças centrípetas e desata-nos as asas para que toquemos, bem lá no cimo, as palavras todas que os heróis lançaram ao céu no seu grito de liberdade.
Esta semana pedi ao meu querido amigo José Manuel Delgado que me enviasse desde a sua Andaluzia, um desenho dos muitos que vai fazendo e eu vou espreitando pelo Facebook.
Pedi-lhe um desenho que contasse uma história.
Este que recebi e encima o texto carrega em si a memória de um facto real ocorrido no dia 4 de Fevereiro de 1888, quando na sua terra, Riotinto, na serra de Huelva, uma grande manifestação reclamava contra os baixos salários praticados pela companhia mineira, e também contra a poluição da queima do minério a céu aberto, indutora de gases que roubavam a fertilidade dos solos e matavam Homens e animais. Foi considerada a primeira manifestação ecologista da História da humanidade.
Na aliança sempre perversa ente o poder político e o económico, nesse dia de Fevereiro, a carga das forças policiais matou mais de 100 pessoas, heróis anónimos sepultados depois, algures no fundo de uma mina encarnada, de cobre, mas sobretudo, de sangue.
Nem de propósito, este desenho, numa semana em que só ouvi falar de fogo e de fronteiras, de poder e de interesses sectários, de incompetências, responsabilidade, de direita e esquerda...
A História é, definitivamente, um caminho em círculo, e a dor de antes, infelizmente, parece não deixar anticorpos que previnam novas “batalhas” onde o fogo e o poder esmagam a liberdade, roubando o ar por onde respira e brilha a nossa dignidade.
Há um velho sábio sentado na torre do edifício mais alto que ladeia a praça que ficou de Fevereiro de 1888, lição da memória a espreitar por entre a bruma dos dias.
É um poeta, velho no rosto mas imortal no ímpeto de liberdade que reveste todas as palavras com que a sua alma perfuma o vento da serra. Um dia, eu conheci-o e fui tocado pelo seu abraço.
 

(Agradeço pois o desenho à arte do meu amigo José Manuel Delgado)

sábado, 14 de outubro de 2017

Buscando o inverno


Quando Outubro nos rouba a fina subtileza dos trajes de água, emergem na tarde quente, e como que em íntima prece ao céu, as marcas da história que trazemos coladas ao peito.
Pessoas, beijos, deceções, desapegos, encontros, silêncios, ilusões, crenças e mágoas… Tudo registado e perene, no coração, moldando por dentro, a epidérmica orografia que lhes oferece um teto e uma casa.
Passos que tomaram matrícula das vontades da alma descansam agora sonolentos na berma das rugas, essas estradas que foram nossas e secaram pelo desamor ou pela má sorte.
Mas o inverno talvez não tarde e cubra de fontes os dias que virão, semeando flores e pão sobre este esqueleto que a idade, aos poucos, foi tecendo.
Quem olha para o passado, não vive, limitando-se a rodopiar num círculo fechado, sucumbindo pela vertigem, e magoando-se ao tropeçar nas lápides que jazem por ali.
Vive quem toma o tempo e bebe o fôlego das suas águas soltas, caminhando sem temer o desconhecido que existe para lá do horizonte para onde o olhar nos puxa.
E o resto… são raízes sob a nova pele que o inverno teceu, a pele que importa, a pele dos beijos.
Se pelo ar se respira e se vive, apenas os beijos de hoje carregam oxigénio. Os demais, resquícios de outros invernos, são memórias cansadas e entregues ao pó.
 

(Agradeço a foto ao meu amigo Horácio Santos)

 

sábado, 7 de outubro de 2017

O açúcar


Engana-se quem pensa que a vida é o caminho para uma cova apertada e escura.
Abraçados pelo sol no conforto de um velho banco de madeira, que é o próprio tempo, cada livro que lemos, cada cidade a que oferecemos os pés e o olhar, cada beijo, cada verso, as palavras todas, as paixões, as praias onde falámos, sós, com o mar... Oferecem-nos troncos, ramos e folhas que encurtam a distância para o céu; e é por aí que vamos.
Esta semana partiu um velho amigo de Vila Viçosa, vizinho da mesma rua em casas frente a frente, rapaz da minha idade, colega de escola e de muitas brincadeiras.
No inevitável revisitar das memórias desse tempo, deparei-me com os curtos passeios que fazíamos às vezes entre a nossa Rua de Três e o Convento da Esperança, onde vivia a sua avó, a D. Ascensão, que nos dava de lanchar: pão barrado com banha e depois polvilhado com açúcar.
Nós, os que não precisamos de perfumar a nossa existência com os aromas de povo, porque o somos verdadeiramente na essência e no gosto pela liberdade, aprendemos a colocar um doce sentido sobre tudo aquilo, pouco, que temos, acrescentando troncos à árvore que sonhamos, e no cimo da qual é tão mais fácil partir a voar.
Às vezes, numa tarde quente de Outono.


(Agradeço a foto ao meu amigo José Marques – Kirstenbosch National Botanical Garden / Cidade do Cabo)

 

sábado, 30 de setembro de 2017

As praias


Despojei o corpo, do medo e dos arquétipos, entornando depois sobre um instante qualquer, a areia toda das praias onde brinquei descalço, e que transportei, alegre, com a crucial ajuda dos bolsos das calças.
Sobre essa ampulheta informal que carrega todas as eras da minha história, há um velho búzio que tomou o canto das ondas e o guardou com religiosa fidelidade, e há árvores entretidas a desenharem sombras que perfumam a matiz alourada das dunas.
Desse instante em que me sentei no chão cruzando as pernas e descruzando a liberdade, afastei os contentores e a lama, varri o pó, o eco das promoções e das promessas de produtos, serviços e candidatos, sacudi as ervas já mortas, e agitei o ar impregnado de monóxido de carbono, fazendo nascer a praia que sonhei; muito a tempo de sair a navegar.
Hoje, e sempre, eu sou este encontro de cor indefinida, mas muito minha; eu sou a história entrelaçada nos sonhos todos que guardei e trouxe do mar, repousando e tomando fôlego da brisa fresca que há sob os lençóis de folhas que se interpõem entre mim e o sol, ou entre mim e o luar.
Por vezes chamam-nos loucos, tontos e inconsequentes, tão só porque rimos entre a sorumbática pose dos importantes, ou porque ousamos falar de esperança, rasgando violentamente, os panos negros das sacras vias de quem não sabe ver o Céu que há para lá da cruz; mas viver, definitivamente, é a arte de construir praias nas retas ou nas curvas que nos oferece o tempo.
Sem medo e sem modelos, sabendo que o mar, que até pode parecer uma parede, é uma estrada infinita e larga para quem ousa navegar.
 

(Agradeço a foto à minha amiga Margarida Garimpo. Timor, praia de Jaco)

sábado, 23 de setembro de 2017

Outono


O Outono tem olhos doces e alaranjados, da cor da marmelada em taças de porcelana que as mães esconderam debaixo de um recorte de papel vegetal, e puseram à janela para que secasse ao sol.
O Outono abraça-nos com uma brisa fresca, envolvendo-nos na lembrança de todas as idades. Veste-nos camisolas, casacos e sobretudos de bolsos fartos onde escondemos a mão, recordando-nos que onde agora cabe a carteira ou o telemóvel, antes vivia a bolsa dos berlindes ou o pião.
O Outono chama-nos para casa, senta-nos em frente a livros que cheiram a novos, e a alvos cadernos que de tão aprumados, facilmente nos arrancam o compromisso de novas histórias escritas com uma excelente caligrafia.
Sim, um caderno em branco é como o nascer do dia.
A construção da cabana de canas e pedra que projetámos para uma das encostas do castelo ficará agora suspensa, e talvez nos deparemos com os seus destroços, daqui a uns meses, quando andarmos em busca de musgo para o presépio.
O Outono toma o canto das primeiras chuvas em dueto com a vidraça; tem o aroma que emana da terra seca, que, agradece generosamente, ser molhada; o Outono dança com as folhas e a ventania.
O Outono puxa uma manta sobre o sonho e o sono, guardando-nos, por saber que a melhor noite é o abraço de quem se ama na forma de pura poesia.
O Outono risca de encarnado e ocre, o horizonte, nas tardes em que resgatamos as castanhas dos seus ouriços, em que provamos os diospiros, os medronhos maduros, as gamboas e a água-pé.
O Outono talvez nos roube em parte aquele sol que se vê, mas em contrapartida, devolve-nos o olhar para dentro, para o melhor que temos no peito e a que usa chamar-se fé.
 

(Agradeço a foto ao meu amigo José Manuel Marques)

 

domingo, 17 de setembro de 2017

JFK


O tempo livre não é muito, mas o metro, aqui mesmo à porta do Centro de Congressos, consegue levar-me de forma célere até ao cemitério de Arlington.
Passo o pórtico da segurança, recolho um mapa, sigo as setas... e os sapatos de sola resvalam no piso polido por onde caminho na companhia dos esquilos, procurando a sombra dos enormes carvalhos. O calor e o tom cinza do céu parecem confirmar a trovoada que a meteorologia já ousara anunciar.
Viro à direita, depois à esquerda, subo uns degraus, e chego finalmente ao túmulo do Presidente Kennedy, cruzando-me com um grupo de turistas que já regressava. Agora, somos cinco pessoas, o silêncio e uma chama.
Do silêncio dos grandes Homens observa-se melhor a repugnante pequenez dos outros, e à luz da chama que persiste na memória sobre as balas de uma tarde de Novembro de 63, em Dallas, conseguimos ver-nos a viver uma imensa, e triste, sexta-feira treze.
Talvez já não tarde a madrugada de um sábado que desminta este tempo e o devolva à condição de mero pesadelo. Eu quero acreditar que os Homens voltarão em breve a derreter os muros, voando com as asas de todos os seus sonhos legítimos.
Olho o relvado em frente, acaricio um pouco mais o silêncio, e devolvo-me às sombras dos carvalhos, parando aqui e ali para oferecer uma bolota a um esquilo mais "conversador" e desinibido.
De repente, recordo-me dos domingos em Vila Viçosa quando me era dado o prazer de estrear uns sapatos. A subir a praça até à igreja de São Bartolomeu, também derrapava assim e tinha que fazer força para não cair.
Eu, pequeno, com uns sapatos novos e uns calções do tecido que sobrara do fato do meu pai, e eu, aqui, a afastar o suor da barba grisalha sob as sombras de Arlington. Nenhum Homem, por mais pequeno que seja, está longe da História e do poder de a reinventar.
Persiste o calor, mas as nuvens dispersaram e a trovoada afinal já não virá.
Oxalá seja sempre assim, e o meu "grito" faça com que o sábado chegue depressa e sem que troveje. Há milhões de silêncios à espera da nossa esperança.

 

sábado, 16 de setembro de 2017

“I have a dream”


O tempo não apaga o eco das palavras incandescentes, fogueiras acendidas pelo ímpeto de liberdade, que persistem, aqui, entre os ramos dos carvalhos e as farripas de sol, que os beijam em êxtase ao fim da tarde.
O sangue, rubro, desenha papoilas que nos afloram ao olhar, candeias em verso, velas que nos limpam os soluços da viagem e nos impedem de naufragar.
Os meninos, que vieram de perto ou de mais longe, e que trajam vestes coloridas sobre os seus corações sem cor, fizeram uma roda gigante onde as mãos e as vozes rimam com o futuro, e com o poema desenhado para uma eterna canção de amor.
Há beijos sentados nos bancos de madeira, detalhes de amores sem género, credo, rótulo, dinheiro ou distância, beijos sem aditivos ou corantes, e que a alma desenhou à sua maneira, como se mais nada tivesse importância.
O homem que salta à corda e a mulher que assobia, passeando-se de mãos nos bolsos por entre a gente, decalcam gestos sobre a verdade que trazem ao peito, esmagando pela igualdade, a repugnante dor de qualquer fobia.
Deus não mata, não condena, não cala, não separa... Qualquer que seja o detalhe sagrado ou religioso, a tefilá, o mantra, a salá ou o salmo que ouvi, Deus apenas sorri.
Derrubámos os muros, como se fossem folhas de papel fáceis de rasgar; substituímos o hidrogénio pelo sonho nas bombas certeiras que cruzam o mar; enchemos os mísseis de pão; pusemos açúcar sobre os caminhos, eliminando as fronteiras e o alcatrão; eliminámos as manchas negras das notícias, impregnando-as de poemas ditados pelo coração.
E voámos com os pássaros por sobre todas as noites, mesmo as mais escuras, juntando pedaços de estrelas e linhas de luar, sabendo que cada madrugada é uma chance única é imperdível para que o mundo se possa reinventar.
"I have a dream".
"Eu tenho um sonho"… que persiste com a força de acontecer.
Há sonhos assim, que não se nos podem morrer.

 
(Washington, 14 de Setembro de 2017, lembrando Martin Luther King e o seu “sonho” de 28 de Agosto de 1963)

 

sábado, 9 de setembro de 2017

Calípolis


Somos alegres, otimistas, e temos, em geral, muita graça. Mesmo que se nos atrase o amanhecer, e não possamos ver o sol, fazemos renascer o sorriso com um chocolate quente na barraca do brinhol. E a graça? Se não a virmos a passear por aí, sabemos que estará, por certo, na Fonte da Praça.
Temos a alma gigante que é raiz de uma fé inspiradora. Por exemplo, jamais assumimos morrer, vamos sempre passar a eternidade, e descansar, para detrás de Nossa Senhora.
Somos uma terra curiosa com os detalhes doces do sul, e outros que são únicos e interessantes. Temos as alcunhas, que por aqui são anexins, e temos a dolência Alentejana presa na voz, mas também temos três aldeias que vão dar ao Rossio, e uma ilha onde se pode chegar andando, bastando cruzar a Porta dos Nós.
Sabemos onde é o paraíso. Quem desce dos Capuchos em direção ao Galandim, vira depois do convento, à esquerda, seguindo sempre pela cerca do Jardim.
Se procurarem a Rua das Escadinhas, a da Freira, a do Poço, a Corredora, a Rua dos Fidalgos ou a Rua da Guarda; a Rua das Pedras, a de Angerino, a de António Homem, a de Três, a de Cambaia, ou a Travessa do Salvador, não procurem nas placas de mármore que as enfeitam, porque esses nomes já não moram lá. Com amor, somos nós que insistimos trata-las pelas graças que lhes deram os nossos avós, e que retratam, afinal, a sua história, seja ela qual for.
Fintamos mais e melhor do que o Ronaldo, por alturas da Páscoa e do folar, comemos sopa de tomate com figos, e desmentimos o embuste dos Elvenses: a Sericaia é uma cópia com ameixa, do verdadeiro Sericá, doce trazido da India por Dom Constantino de Bragança, para o palácio fantástico que temos cá.
Temos orgulho nos conterrâneos famosos, e defendemo-los com afinco, desde a Dona Catarina, que foi Rainha de Inglaterra e inventou o Chá das Cinco, a Florbela, a Espanca, poetisa maior do amor, nos sonetos do Livro de Mágoas, Soror Saudade ou Charneca em Flor.
Somos Calipolenses desde há séculos, por André de Resende ter reconhecido na nossa terra a Calípolis, em hora de inspiração. Sim, essa mesma, a cidade perfeita, a Calípolis, de A República, de Platão.
Gostamos de ser assim e gostamos dos nossos vizinhos, até mesmo quando brincam connosco tratando-nos por Libatus ou dizendo sermos da terra da égua. Relativamente a este último ponto, sempre podemos dizer que é melhor faltar a genitália ao cavalo da estátua equestre do Dom João IV, o Rei Restaurador, do que a qualquer um de nós, mulheres e homens de grande… vigor.
Somos e seremos sempre Vila, por nome, porque por alma temos o mundo inteiro, e Viçosa, também somos por graça e justiça, por sermos em Portugal, o mais florido canteiro.
Hoje é dia de Festa dos Capuchos na nossa terra, e daí este texto entre a prosa e a rima, dedicado aos meus conterrâneos. Os outros amigos não me levem a mal.
Calipolenses ou não, esperamos por todos para bebermos uma ginja, mais logo à noite, sentindo a brisa doce que o Alentejo oferece em Setembro, no Largo dos Capuchos, sob os arcos coloridos do arraial.
 

(Agradeço o desenho da igreja dos Capuchos à inspiração do meu amigo José Barreiros; e à laia de glossário sempre digo que o brinhol é uma fartura e fintar é levedar)

sábado, 2 de setembro de 2017

Setembro despenteia o tempo…


Setembro despenteia o tempo e as árvores, arrastando e prendendo folhas rubras e amarelas na franja de todos os minutos.
Para além disso, Setembro, calça-nos e fecha-nos os pés em sapatos, com os atacadores a prenderem as memórias das tardes passadas no campo ou na imensidão da areia que se enfeita com a espuma do mar.
Dirá quem acordar agora de um sono profundo, que Setembro semeia sombras, projetando os troncos vazios sobre as fachadas das casas; como se o sol morresse definitivamente debaixo das folhas cansadas ou dentro da pele engraxada das botas que Setembro calçou...
Os troncos apenas repousam, saboreando o gosto da sua história, e tomando fôlego para destemidas primaveras. Os troncos são como braços esperando os beijos de outros desejados braços que vivem no condomínio do peito de quem amamos.
Entretido com o aroma doce de marmelos maduros, com a uva que tomou do céu, o sol, e os ouriços que soltarão as castanhas como quem nos beija o paladar, Setembro é esta casa confortável onde tudo aquilo que vivemos se senta e repousa numa sala de sofás em tom grená, com vista para o tempo novo que chegará em cada manhã.
Sofás em tom grená, do mesmo tom maduro da alma que se espreita no espreguiçar dolente de uma romã.
 

(Agradeço a foto ao meu amigo Miguel Cebolas)

 

 

sábado, 26 de agosto de 2017

Novena...


De cada vez que cortamos uma flor, mesmo com o intuito de a levar até à igreja, nós apeamos Deus do Seu altar.
Por isso, é aqui, no campo bravo que o sol queima de Agosto, muito mais do que em qualquer outro lugar, que o nosso riso descalço de prudência, faz ecoar a prece das novenas, no canto feliz de acreditar.
Nós sabemos, Senhor, Deus das Flores e das Fontes, que as massas estranhas que nos rasgam o corpo jamais irão além da superfície e nos atingirão a anatomia da alma, a essência doce apenas acessível ao amor.
A vida é como o vento e nós somos feitos da essência do trigo, que persiste no pão. O mesmo vento que um dia beijou e brincou com as espigas nas tardes de primavera soprará mais tarde, fazendo rolar a mó no cimo de uma serra qualquer.
Sim, Deus da Água, do Pão, Casa da Eternidade… mas nós gostamos tanto do nosso abraço.
Eu sei que nos entendes por entre este medo que ele, o abraço, se desmanche na componente que as árvores podem espreitar e cobrir com a sua sombra. Nós não estamos a fugir de ti, a nossa prece é apenas a saudade a falar por entre um humano cansaço.
Sim, Senhor do Riso e do Tempo, este canto de amigos, colorido e terno, é afinal, a voz enfeitada pela fé de quem espera e deseja um longo e profundo abraço, em festa e trajando as roupas do inverno.

 

 

(Agradeço a foto ao meu amigo César Lopez)

 

 

sábado, 19 de agosto de 2017

O amor enleia-se no fio branco das rendas


A primavera de 1981 foi o período em que a minha mãe produziu mais peças de crochet.
Apanhava a automotora pela uma da tarde na estação de Vila Viçosa, apeando-se duas horas depois na Comenda, já muito próximo de Évora.
Regressava a casa no autocarro das dezassete, numa viagem de cerca de uma hora.
Todos os 27 dias contados a partir de 19 de Março, aquele em que fui submetido a uma cirurgia na sequência de uma apendicite que acabou em peritonite.
Pelo menos, três horas de crochet por dia, porque existia ainda o tempo das esperas.
O verão de 2017 segue quente no Minho, e eu agradeço a brisa fresca do percurso até à fonte do Gerês. A primeira toma de água é às sete e meia, e eu vou sozinho com dois copos na mão, que o meu dorme sempre por lá na prateleira da direita, no número 41.
Depois, mais duas tomas de água, o gelo e os ultrassons no joelho da mãe, o jornal, os livros, a bica, a conversa, a raspadinha com mais ou menos sorte, a escrita, um ou outro e-mail...
Juro-vos que se eu pudesse, faria passar um rolo compressor sobre o tempo, distendendo-o e prolongando a estadia por ali, no sítio onde os olhares nos abraçam mesmo quando os braços repousam.
O amor é o berço e a casa dos Homens, fluindo de modo tão livre, espontâneo, e acelerado, que é impossível reconhecer-lhe o sentido num determinado instante. É ato desnecessário, mirarmo-nos ao espelho da água das fontes, porque jamais saberemos se é de recetor ou emissor, o estatuto que o amor nos cola aos gestos e às palavras. Ou será de ambos?
Para nos fazer crescer, o amor é mais importante que as proteínas da carne, e contra as agressões exteriores, é mais eficaz do que as vitaminas.
O amor não vive de impulsos, é sereno, mas também nunca se desarruma.
De tarde, no Gerês, e neste verão de 2017, apreciávamos o sossego, mesmo sem sesta, repousando sobre os parágrafos de uma conversa desprovida de qualquer pressa, acariciando a face na almofada do riso das melhores memórias... Enquanto a minha mãe fazia crochet.

Na nossa casa, definitivamente, o amor insiste enlear-se no fio branco com que se tecem as rendas.
 

sábado, 12 de agosto de 2017

As férias despenteiam o tempo…


As férias despenteiam, definitivamente, o tempo, possibilitando que, por debaixo da habitual cortina da franja e da rigidez formal da risca ao lado e da marrafa, reencontremos partes de nós que andavam perdidas.
Suspendemos a pressa e a norma, como quem dispensa o pente ou a escova, encerrando-os numa gaveta, e com a cúmplice informalidade do “vento”, revolvemos as memórias, afinando a nossa história pela verdade; tomamos o fresco da manhã nas margens das ribeiras que nos servem de espelho, reabrindo e reentrando nos espaços esquecidos que laqueámos por amor e primavera, mas que acabámos por descurar e abandonar ao pó e às agruras húmidas de um inverno mais ou menos tortuoso.
Quem ama "aluga" muitas salas dessa casa imensa que traz ao peito, espaços que regressarão um dia à sua posse, sabe Deus em que estado de conservação... e ânimo.
Nas férias, descalçamo-nos e beijamos a terra com os pés soltos, saboreando sem reservas e a cada passo, o doce prazer da liberdade. Sentimos intensamente, e a três dimensões, o caminho por onde queremos ir.
Assim, as férias despenteiam o tempo por entre o coma profundo do despertador, não apenas para que descansemos o corpo nos espreguiçares mais ou menos secretos, mas também, e sobretudo, para que o Outono não nos encontre incompletos.
Com a certeza a crescer, verão a verão, de que apesar de despentearem o tempo, as férias não deixam que qualquer minuto se perca por cair no chão.
 

(Agradeço o desenho ao meu sobrinho Luís)

sábado, 5 de agosto de 2017

As árvores são irmãs dos Homens…


O lenhador, de barba cerrada e o suor a dar-lhe um brilho húmido ao peito e aos braços, recolhe o último pedaço da árvore que acabou de cortar.
A raiz abandonada fica imersa no barro vermelho que o vento vai pulverizando, aos poucos, encosta abaixo, até ao rio, enquanto os troncos repousam finalmente em forma de mesa no recanto mais nobre de um salão qualquer.
As árvores são irmãs dos Homens, e só respiram e vivem quando unidos à sua raiz, sentindo a brisa nas folhas e nos troncos, sem disfarces, sem plaina e sem verniz.
No teatro, quando as luzes do teatro se apagam por inspiração de Molière, e a cortina se abre ao som da música, quantas peças ficam suspensas por um par de horas, nas plateias, enquanto os atores oferecem no palco, o corpo à arte.
Há gente que mora à boca de cena, mas do lado de cá, da suposta verdade, debitando as deixas que criou para si, personagens sonolentas, sem interesse e sem verdade, "mesas" e "cómodas" representações, de troncos que abandonaram as raízes ao pó da montanha.
Porquê?
Porque continuam a ser sucesso de bilheteira, que a gente premeia o que quer ver, e quase sempre despreza a autenticidade.
A diferença desafia e a globalização é o amorfo e cinzento repouso onde até o pensamento se agacha.
O lenhador bebe um gole de água fresca depois de ter oferecido generosamente as mãos à fonte, e repousa o corpo forte, mas dorido, sentando-se sobre a raiz amputada da face da árvore.
As montanhas estão repletas de túmulos de árvores e de gente que se demitiu de o ser.
A hipocrisia contrata o lenhador.

 

 

domingo, 30 de julho de 2017

As cidades falam de nós


Mais do que as linhas traçadas pelos arquitetos ou as pedras que o mestre pedreiro alinhou para lhes cumprir a forma e oferecer coerência, as cidades guardam, fiéis, a nossa história, sendo livros de memórias impressos a três dimensões, parágrafos resistentes ao tempo e ao fogo.
A toponímia cede lugar aos beijos que a alma inventou, as praças não têm estátuas ou fontes, guardando os olhares que condenaram a solidão ao cais da partida, e as pontes, sobre os rios ou as pequeníssimas ribeiras, são altares que preservam o culto dos abraços que nos fizeram mudar de vida.
As árvores conservam entre os frutos, as palavras que confidenciámos às suas sombras, as mesas são círculos de amigos à volta do café, das gargalhadas e da liberdade, e por muito que o sol o envolva de luz, persistirá dolorosamente triste, o chão que foi da nossa gente, e onde hoje apenas se pisa a saudade.
As cidades, mais do que tudo o que se regista numa foto tirada de manhã ou ao entardecer, guardam tudo de nós, sabendo que só o tempo tem esquinas, e não as ruas, esquinas “impostas” por nós na mudança que alimenta o tanto querer viver.
Por ti, eu jamais deixarei de cruzar o tempo, deixando à solta em todas as cidades, indícios bem marcados dos instantes em que, por um beijo, eu renasci.

 

sábado, 22 de julho de 2017

Os amigos


Os amigos interferem, definitivamente, com o tempo, distendendo-o na ausência, e encurtando-o nas tardes dos abraços.
Nestas últimas, nós usamos as mãos e a vontade para promover pregas nas horas, tentando que os minutos não fluam tão rapidamente no seu percurso ao encontro da noite. E essas pregas são bancos informais situados no meio dos jardins e dos olhares, refúgios à sombra das palavras que têm as silabas coladas com açúcar.
Os amigos também rasgam janelas nos instantes opacos, desassossegam o silêncio que dói, sendo inimigos das cortinas e dos biombos.
Os amigos têm o peito transparente, e o sol e a claridade, invadem, por eles, todos os segundos, atrapalhando-se às vezes, de um modo saudável, com as gargalhadas que têm raízes na alma e que andam à solta perfumando os lábios, que ganham por essa altura um irresistível tom de morango.
Os amigos são donos dos beijos que “descongelam” o tempo preso em muros que bloqueiam vias sem saída, abrindo, assim, avenidas de encontro ao mar e ao cais de todos os navios.
Os olhares dos amigos penduram flores das horas que parecem não ter muita graça, varrendo aquilo que não importa e que persiste nos dias. Os amigos podem não ter um sangue igual ao que nos corre nas veias, mas são quem melhor sabe aquecer e propulsionar o nosso, o que é infinitamente mais relevante no que à vida diz respeito.
Os amigos são azuis, amarelos, encarnados… de todas as cores, e merecem muito mais do que apenas um dia, porque a vida não tem hora marcada, e porque são, indiscutivelmente, os mais fiéis de todos os amores.

domingo, 16 de julho de 2017

O estado da nação


O estado da nação é, fisicamente, gasoso, envolto pela aerofagia dos líderes, perdão, dos chefes, na sua flatulência farta, no caso de estarem sentados no poder, ou da mais pestilenta ventosidade anal, no caso de tal não acontecer.
O estado de saúde é débil, de patologia crónica, com os “médicos assistentes” a mudarem sistematicamente de diagnóstico ou prescrição, pois assumindo a gestão do hospital, logo tratam de adiar, dolorosamente, as cirurgias ou algum tratamento mais caro ou radical.
O estado civil da nação é, definitivamente, solteiro. Todos a querem para “namorar”, ir a festas e aparecerem nas revistas, até para copular, mas depois, ao fim do dia, permanecerá sempre sozinha e sem qualquer compromisso sério e de facto, deitada à sombra dos plátanos em interação intima com a culpa, irmã que também viverá eternamente neste doloroso celibato.
O estado cognitivo da nação é de demência crónica, ali algures entre o vascular e o Alzheimer, em íntima ligação com o estado de dormência e sonolência da mais apática desistência de lutar.
O estado posicional da nação é de cócoras, tal qual o das suas finanças, e há tanto tempo, que a coluna já não consegue aguentar as dores de tão desconfortável modo de estar.
O estado confessional é laico, apesar do credo sempre na boca, e o estado de conservação também não é lá muito bom, pois persistem guarda-ventos nos palácios e nas catedrais, que impedem a entrada de um tempo novo, e possibilitem que voem para longe, o racismo, a xenofobia, o machismo, a homofobia, e tantos “pecados” mais.
Em termos de meteorologia pouco há para dizer, o estado é uma trovoada seca, sob a qual, afinal, tudo pode arder.
Mas, no meio de tudo isto, negro, que se vê, vale a alma que se sente, e que persiste, rubra, no peito de toda a gente. Rubra, e verde de esperança, da genética boa que nos fez, com um coração que de tão grande, permitirá sempre amar por dois, ou até mesmo por três.

 

sábado, 15 de julho de 2017

Quem brincou e falou com o sol…


Na Rua de Três, em Vila Viçosa, quando a mãe nos chamava desde a janela do primeiro andar, num tom alto que acentuava sempre a última sílaba para que a pudéssemos escutar no perímetro de trezentos metros entre a Praça da República e o Rossio, nós sabíamos que o jantar estava pronto.
Antes de irmos a correr para casa, pedíamos ao sol de verão que esperasse por nós, que não partisse à pressa, brilhando só mais um instante sobre as linhas do castelo ou do jogo que traçáramos na terra.
Mas talvez o jantar tivesse espinhas, por ser sexta-feira e os carapaus terem chegado pela manhã à banca da Dona Natalina, e o sol não tivesse qualquer oportunidade de esperar por nós, deixando em seu lugar, a lua, discreta e magnífica senhora da noite, companheira ideal para jogarmos às escondidas, brincando com as suas sombras.
Bem discreta e desaparecida andaria a brisa fresca, por essa altura de Julho, quando os pais nos deixavam brincar até mais tarde, mas nunca para lá da chegada do vizinho Cristóvão Grilo, que era estafeta e chegava no último comboio, trazendo as encomendas desde a estação num velho mas ruidoso carro de mão.
Quem brincou e falou com o sol não tem medo de nada que lhe possam trazer os dias.
Quem se refugiou nas sombras do luar, sabe que é daí que melhor se vêem as estrelas.
Quem nunca viu e abraçou o mar, pode conhecer-lhe a voz, escutando um búzio, e o gosto a sal, através dos carapaus que foram fritos para acompanhar a salada de tomate maduro.
Quem desenhou no chão, com a ajuda de uma vara, as linhas perfeitas de um castelo, não temerá jamais, o pó que mora nos caminhos.
Quem andou pelos serões, persistente, à procura da brisa fresca, conhece bem o valor da madrugada e da liberdade.
Quem acudiu ao grito da mãe, cantando o seu nome, sabe bem que as sardinheiras floridas não são aquilo que de melhor pode enfeitar uma janela alta, e conhece bem, definitivamente, o superlativo de amar.


Julho de 2017, Ponta Delgada, meia-noite e pouco sono, eu, sentado à janela a brincar com a lua e o mar. Eu, a tirar apontamentos da insónia.


sábado, 8 de julho de 2017

No tempo em que eu nasci…


No tempo em que eu nasci as fotos eram a preto e branco, e embora os fotógrafos se esforçassem dando-lhes um retoque, ao jeito de maquilhagem, as verdadeiras cores guardávamo-las connosco na memória.
Ficaram para sempre ali sentadas num recanto confortável, em ameno convívio com os olhares, os trejeitos, as histórias, as frases completas e os beijos que nos fizeram.
Porque sim, um Homem é feito de beijos, essa mágica expressão de amor, muito mais do que daquilo que qualquer aporte proteico ou vitamínico lhe possa acrescentar.
Guardei estes dias ao redor do meu quinquagésimo primeiro aniversário para passá-los com os meus pais em Vila Viçosa.
Será sempre neste sul que encontrarei o meu norte, mesmo agora que os meus braços se sobrepõem aos deles, fragilizados pela idade; mas a ordem pouco importa, porque somos feitos dessa "carne" dos beijos infinitos do mesmo amor, do mesmo imenso amor.
Esta será sempre a casa dos meus instantes de renascer, onde os nossos serões têm a forma de um triângulo desenhado pelos olhares, e eu, entre o sono e o amor, me perco no tempo, não sabendo se é infinito o que já vivi com eles, ou pelo contrário, infinito é o tanto que ainda me apetece viver.
Aqui, onde nunca envelheço, por entre as palavras sonolentas mas doces, escapam-se sempre as cores dos instantes que o fotógrafo captou a preto e branco, mas solta-se também o azul dos dias que virão, azul como o céu da liberdade das asas de um condor.
Porque os Homens são feitos de beijos, e gozam das asas oferecidas por esse tanto amor.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Ser


Eu sou a semente desatada pela coragem dos meus avós
Sou a raiz envolta na esperança que choveu da ousadia
Sou o inverno fértil
O dia quente
Eu sou a flor e o fruto do sonho de tanta gente

Eu sou a voz
Sou a palavra à solta por entre o eco de uma manhã de liberdade
Sou a rima rebelde
O romance inédito
Sou o verso em forma de verdade

Eu sou o passo certo e o incerto
Sou o previsível e a diferença
Sou água e sou vinho
Sou riso
Sou o nada e sou tudo no tudo da minha vontade

Eu sou um rio buscando o mar que o abraça
Sou barco
E às vezes sou apenas jangada
Sou uma ilha inesperada
Sou um Gama buscando as “Índias” que o seu querer lhe traça

Eu sou o grito que rasga os silêncios que doem
Sou o abraço na morte da solidão
Sou a gargalhada
A piada
Sou o sim e o não que mudam o tempo
Sou a Coragem e a festa
E às vezes sou uma revolução

Eu sou o beijo que não mente
O abraço que é meu e coerente
Sou o gesto e a esperança nas laudes sem letras nascidas da alma de um Homem crente

Eu sou a fonte de água fresca
As cerejas maduras
Sou o tom grená da romã
Eu sou hoje
E sou amanhã

 

 

sábado, 1 de julho de 2017

Balas ou flores



Podem ser balas ou flores, mas todas as palavras que escrevo me nascem da alma.
O poder é a vaidade onde os “valentes” se acobardam, agachando-se no mais vil silêncio, ao canto da incoerência; assim como o pudor, mais do que bom senso, tem raízes no medo e é o rosto postiço, o jazigo arrendado e lindo onde os fracos se sepultam por entre as exéquias da sua verdade.
O previsível tem o mesmo tom da cinza.
Eu tenho janelas e claraboias rasgadas no meu peito, varandas de liberdade por onde se soltam sílabas alinhadas pelo desejo, ao sabor feliz e ousado da brisa que cobre as madrugadas.
Nada me poderá definir melhor do que o amor que trago em mim e se espreita no meu peito, e que poder, para além da suprema morbidez, teria eu se amarrotasse a mais pura essência do meu ser?
Podem ser balas sobre guerras mais ou menos antigas, ou serem flores nascidas na terra sobrevoada pelas aves da primavera, mas eu sou, orgulhosamente, todas as minhas palavras.

sábado, 24 de junho de 2017

Pedrogão


As árvores, que insistem morrer de pé, permanecem como guardiãs do silêncio que deixámos atrás de nós.
Sim, nós partimos com a urze e os pássaros para a viagem dos poetas, dos Homens que se agarram ao sol e não o deixam fugir no fim de um sábado qualquer, preferindo puxar sobre sim o manto de um céu azul e permanente.
Quando olharem a cinza que deixámos sobre os montes, não solucem jamais os nossos nomes, o fogo que se vê e se cola à pele, não incendeia e não queima a alma, apenas o outro, o fogo feito das chamas transparentes do amor, consegue fazê-lo, mas sempre para nascer e para poder voar.
Nós somos a alma, e a alma permanece.
Quando olharem as fontes, não as culpem de omissão no juízo de um qualquer tribunal, nós trouxemos o canto fresco das águas atado aos versos dos poetas, e sentimo-lo enquanto rasgamos o tempo batendo as asas.
Não chorem por nós, e nem de saudade da urze, da copa verde das árvores e do canto dos pássaros. Se disso sentirem tentação, olhem o céu e pensem que ninguém morre, a ausência e o silêncio são tão-só uma ligeira dissonância impressa no tempo, desfasamento que será sempre breve e transitório no contexto da eternidade do universo.
Logo o tempo se acerta para nos sentirmos num abraço… com aroma de urze.

sábado, 17 de junho de 2017

Capri


Os traços são cúmplices das palavras, cumprindo o desígnio comum de pintores e escritores, no "desenhar" das suas muitas histórias e do eclodir da poesia.
Henrique Pousão, pintor Português da segunda metade do Século XIX, é um dos meus favoritos, e o facto de ambos termos nascido em Vila Viçosa, terá por certo facilitado essa minha aproximação aos seus trabalhos, mormente uma série pintada nos anos que viveu na ilha de Capri, algures por 1882.
Para mim, essa ilha Italiana próxima da costa de Nápoles, foi e será sempre a ilha de Pousão, e esta semana, visitando-a, levei na lembrança os quadros, indo em busca do artista.
O barco entre Sorrento e Capri é muito veloz, deixando atrás de si uma estrada branca de espuma, que enfeita o mar no seu esplendor azul.
Acerto o tempo retirando cento e trinta anos à velocidade do barco, para poder imaginar um homem magro, de chapéu de abas largas e calças de linho, a desembarcar num cais onde imperam pescadores e vendedores de limões.
As bancas onde agora se oferecem passeios aos turistas, “pisam” o mesmo chão onde um carro puxado por animais transporta o pintor pela encosta acima, até à casa onde ficará instalado.
O empedrado das ruas, os cheiros do campo, e sobretudo, as casas brancas de Capri, lembrar-lhe-ão por certo, o Alentejo, e a casa que o primo Matroco tem na Rua de Santa Luzia, em Vila Viçosa.
Nesta manhã quente de Junho de 2017, o escritor traz no i-Phone a reprodução dos quadros, e cedo pede ajuda ao Guia Turístico:
- Consegue ajudar-me a encontrar esta rua?
- É a Via Le Botteghe, e eu levo-o lá.
Mas o Guia ainda confirma com o dono do restaurante:
- Que rua é esta?
- A Via Le Botteghe. Não pode ser outra.
Tinha a pista certa.
Passo a manhã em Anacapri e aproveito para visitar a Casa Museu de Axel Munthe, médico e escritor Sueco que aqui viveu na sua "Villa Saint Michelle", depois de se instalar ali em 1888.
O silêncio no jardim, imune aos vendedores que cativam turistas com roupas, sandálias e Limoncello, faz-me regressar ao Século de Pousão, e eu consigo "encontrar" o artista, por ali, tomando a luz imensa que assalta todas as janelas e as varandas rasgadas para o mar.
Dali vejo bem as casas brancas de Capri enfeitadas pelas catos que habitam estas terras do sul.
Depois, já ao princípio da tarde, chego finalmente à "minha rua", a Via Le Botteghe, e vou-me guiando pelos arcos e as janelas, procurando os ângulos certos guardados nas obras do meu conterrâneo.
Esta rua, que tem uma largura pouco maior que a dimensão do meu corpo com os braços esticados, é preciso ser despejada dos turistas e dos comerciantes de agora, para que eu consiga olhar o pintor com o seu inevitável chapéu, pintando uma menina descalça que brincava por ali sob os arcos brancos da rua onde nasceu.
O homem da fruta passara de manhã, e avisara que o dia está bom para um passeio até ao topo da ilha. Oferecera-se como guia, e sairão esta tarde depois do almoço.
As gentes do Sul nunca usam ter pressa, e a rapariga deixa-se estar assim, quieta, enquanto o pintor roga às tintas que façam justiça à luz e às sombras perfeitas das ruas de Capri.
Vejo claramente o Henrique Pousão, por ali, e sorrio-lhe. Os pintores e os poetas partilham o mesmo chão, enquanto enfeitam as tardes com os traços e as palavras das suas histórias.
Os pintores e os poetas desmancham o tempo, no privilégio que advém da poesia que partilham: a eternidade.

(Os quadros de Pousão que aqui reproduzam entre as minhas fotos podem e devem ser contemplados no Museu Soares do Reis, na cidade do Porto).