sábado, 22 de julho de 2017

Os amigos


Os amigos interferem, definitivamente, com o tempo, distendendo-o na ausência, e encurtando-o nas tardes dos abraços.
Nestas últimas, nós usamos as mãos e a vontade para promover pregas nas horas, tentando que os minutos não fluam tão rapidamente no seu percurso ao encontro da noite. E essas pregas são bancos informais situados no meio dos jardins e dos olhares, refúgios à sombra das palavras que têm as silabas coladas com açúcar.
Os amigos também rasgam janelas nos instantes opacos, desassossegam o silêncio que dói, sendo inimigos das cortinas e dos biombos.
Os amigos têm o peito transparente, e o sol e a claridade, invadem, por eles, todos os segundos, atrapalhando-se às vezes, de um modo saudável, com as gargalhadas que têm raízes na alma e que andam à solta perfumando os lábios, que ganham por essa altura um irresistível tom de morango.
Os amigos são donos dos beijos que “descongelam” o tempo preso em muros que bloqueiam vias sem saída, abrindo, assim, avenidas de encontro ao mar e ao cais de todos os navios.
Os olhares dos amigos penduram flores das horas que parecem não ter muita graça, varrendo aquilo que não importa e que persiste nos dias. Os amigos podem não ter um sangue igual ao que nos corre nas veias, mas são quem melhor sabe aquecer e propulsionar o nosso, o que é infinitamente mais relevante no que à vida diz respeito.
Os amigos são azuis, amarelos, encarnados… de todas as cores, e merecem muito mais do que apenas um dia, porque a vida não tem hora marcada, e porque são, indiscutivelmente, os mais fiéis de todos os amores.

domingo, 16 de julho de 2017

O estado da nação


O estado da nação é, fisicamente, gasoso, envolto pela aerofagia dos líderes, perdão, dos chefes, na sua flatulência farta, no caso de estarem sentados no poder, ou da mais pestilenta ventosidade anal, no caso de tal não acontecer.
O estado de saúde é débil, de patologia crónica, com os “médicos assistentes” a mudarem sistematicamente de diagnóstico ou prescrição, pois assumindo a gestão do hospital, logo tratam de adiar, dolorosamente, as cirurgias ou algum tratamento mais caro ou radical.
O estado civil da nação é, definitivamente, solteiro. Todos a querem para “namorar”, ir a festas e aparecerem nas revistas, até para copular, mas depois, ao fim do dia, permanecerá sempre sozinha e sem qualquer compromisso sério e de facto, deitada à sombra dos plátanos em interação intima com a culpa, irmã que também viverá eternamente neste doloroso celibato.
O estado cognitivo da nação é de demência crónica, ali algures entre o vascular e o Alzheimer, em íntima ligação com o estado de dormência e sonolência da mais apática desistência de lutar.
O estado posicional da nação é de cócoras, tal qual o das suas finanças, e há tanto tempo, que a coluna já não consegue aguentar as dores de tão desconfortável modo de estar.
O estado confessional é laico, apesar do credo sempre na boca, e o estado de conservação também não é lá muito bom, pois persistem guarda-ventos nos palácios e nas catedrais, que impedem a entrada de um tempo novo, e possibilitem que voem para longe, o racismo, a xenofobia, o machismo, a homofobia, e tantos “pecados” mais.
Em termos de meteorologia pouco há para dizer, o estado é uma trovoada seca, sob a qual, afinal, tudo pode arder.
Mas, no meio de tudo isto, negro, que se vê, vale a alma que se sente, e que persiste, rubra, no peito de toda a gente. Rubra, e verde de esperança, da genética boa que nos fez, com um coração que de tão grande, permitirá sempre amar por dois, ou até mesmo por três.

 

sábado, 15 de julho de 2017

Quem brincou e falou com o sol…


Na Rua de Três, em Vila Viçosa, quando a mãe nos chamava desde a janela do primeiro andar, num tom alto que acentuava sempre a última sílaba para que a pudéssemos escutar no perímetro de trezentos metros entre a Praça da República e o Rossio, nós sabíamos que o jantar estava pronto.
Antes de irmos a correr para casa, pedíamos ao sol de verão que esperasse por nós, que não partisse à pressa, brilhando só mais um instante sobre as linhas do castelo ou do jogo que traçáramos na terra.
Mas talvez o jantar tivesse espinhas, por ser sexta-feira e os carapaus terem chegado pela manhã à banca da Dona Natalina, e o sol não tivesse qualquer oportunidade de esperar por nós, deixando em seu lugar, a lua, discreta e magnífica senhora da noite, companheira ideal para jogarmos às escondidas, brincando com as suas sombras.
Bem discreta e desaparecida andaria a brisa fresca, por essa altura de Julho, quando os pais nos deixavam brincar até mais tarde, mas nunca para lá da chegada do vizinho Cristóvão Grilo, que era estafeta e chegava no último comboio, trazendo as encomendas desde a estação num velho mas ruidoso carro de mão.
Quem brincou e falou com o sol não tem medo de nada que lhe possam trazer os dias.
Quem se refugiou nas sombras do luar, sabe que é daí que melhor se vêem as estrelas.
Quem nunca viu e abraçou o mar, pode conhecer-lhe a voz, escutando um búzio, e o gosto a sal, através dos carapaus que foram fritos para acompanhar a salada de tomate maduro.
Quem desenhou no chão, com a ajuda de uma vara, as linhas perfeitas de um castelo, não temerá jamais, o pó que mora nos caminhos.
Quem andou pelos serões, persistente, à procura da brisa fresca, conhece bem o valor da madrugada e da liberdade.
Quem acudiu ao grito da mãe, cantando o seu nome, sabe bem que as sardinheiras floridas não são aquilo que de melhor pode enfeitar uma janela alta, e conhece bem, definitivamente, o superlativo de amar.


Julho de 2017, Ponta Delgada, meia-noite e pouco sono, eu, sentado à janela a brincar com a lua e o mar. Eu, a tirar apontamentos da insónia.


sábado, 8 de julho de 2017

No tempo em que eu nasci…


No tempo em que eu nasci as fotos eram a preto e branco, e embora os fotógrafos se esforçassem dando-lhes um retoque, ao jeito de maquilhagem, as verdadeiras cores guardávamo-las connosco na memória.
Ficaram para sempre ali sentadas num recanto confortável, em ameno convívio com os olhares, os trejeitos, as histórias, as frases completas e os beijos que nos fizeram.
Porque sim, um Homem é feito de beijos, essa mágica expressão de amor, muito mais do que daquilo que qualquer aporte proteico ou vitamínico lhe possa acrescentar.
Guardei estes dias ao redor do meu quinquagésimo primeiro aniversário para passá-los com os meus pais em Vila Viçosa.
Será sempre neste sul que encontrarei o meu norte, mesmo agora que os meus braços se sobrepõem aos deles, fragilizados pela idade; mas a ordem pouco importa, porque somos feitos dessa "carne" dos beijos infinitos do mesmo amor, do mesmo imenso amor.
Esta será sempre a casa dos meus instantes de renascer, onde os nossos serões têm a forma de um triângulo desenhado pelos olhares, e eu, entre o sono e o amor, me perco no tempo, não sabendo se é infinito o que já vivi com eles, ou pelo contrário, infinito é o tanto que ainda me apetece viver.
Aqui, onde nunca envelheço, por entre as palavras sonolentas mas doces, escapam-se sempre as cores dos instantes que o fotógrafo captou a preto e branco, mas solta-se também o azul dos dias que virão, azul como o céu da liberdade das asas de um condor.
Porque os Homens são feitos de beijos, e gozam das asas oferecidas por esse tanto amor.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Ser


Eu sou a semente desatada pela coragem dos meus avós
Sou a raiz envolta na esperança que choveu da ousadia
Sou o inverno fértil
O dia quente
Eu sou a flor e o fruto do sonho de tanta gente

Eu sou a voz
Sou a palavra à solta por entre o eco de uma manhã de liberdade
Sou a rima rebelde
O romance inédito
Sou o verso em forma de verdade

Eu sou o passo certo e o incerto
Sou o previsível e a diferença
Sou água e sou vinho
Sou riso
Sou o nada e sou tudo no tudo da minha vontade

Eu sou um rio buscando o mar que o abraça
Sou barco
E às vezes sou apenas jangada
Sou uma ilha inesperada
Sou um Gama buscando as “Índias” que o seu querer lhe traça

Eu sou o grito que rasga os silêncios que doem
Sou o abraço na morte da solidão
Sou a gargalhada
A piada
Sou o sim e o não que mudam o tempo
Sou a Coragem e a festa
E às vezes sou uma revolução

Eu sou o beijo que não mente
O abraço que é meu e coerente
Sou o gesto e a esperança nas laudes sem letras nascidas da alma de um Homem crente

Eu sou a fonte de água fresca
As cerejas maduras
Sou o tom grená da romã
Eu sou hoje
E sou amanhã

 

 

sábado, 1 de julho de 2017

Balas ou flores



Podem ser balas ou flores, mas todas as palavras que escrevo me nascem da alma.
O poder é a vaidade onde os “valentes” se acobardam, agachando-se no mais vil silêncio, ao canto da incoerência; assim como o pudor, mais do que bom senso, tem raízes no medo e é o rosto postiço, o jazigo arrendado e lindo onde os fracos se sepultam por entre as exéquias da sua verdade.
O previsível tem o mesmo tom da cinza.
Eu tenho janelas e claraboias rasgadas no meu peito, varandas de liberdade por onde se soltam sílabas alinhadas pelo desejo, ao sabor feliz e ousado da brisa que cobre as madrugadas.
Nada me poderá definir melhor do que o amor que trago em mim e se espreita no meu peito, e que poder, para além da suprema morbidez, teria eu se amarrotasse a mais pura essência do meu ser?
Podem ser balas sobre guerras mais ou menos antigas, ou serem flores nascidas na terra sobrevoada pelas aves da primavera, mas eu sou, orgulhosamente, todas as minhas palavras.

sábado, 24 de junho de 2017

Pedrogão


As árvores, que insistem morrer de pé, permanecem como guardiãs do silêncio que deixámos atrás de nós.
Sim, nós partimos com a urze e os pássaros para a viagem dos poetas, dos Homens que se agarram ao sol e não o deixam fugir no fim de um sábado qualquer, preferindo puxar sobre sim o manto de um céu azul e permanente.
Quando olharem a cinza que deixámos sobre os montes, não solucem jamais os nossos nomes, o fogo que se vê e se cola à pele, não incendeia e não queima a alma, apenas o outro, o fogo feito das chamas transparentes do amor, consegue fazê-lo, mas sempre para nascer e para poder voar.
Nós somos a alma, e a alma permanece.
Quando olharem as fontes, não as culpem de omissão no juízo de um qualquer tribunal, nós trouxemos o canto fresco das águas atado aos versos dos poetas, e sentimo-lo enquanto rasgamos o tempo batendo as asas.
Não chorem por nós, e nem de saudade da urze, da copa verde das árvores e do canto dos pássaros. Se disso sentirem tentação, olhem o céu e pensem que ninguém morre, a ausência e o silêncio são tão-só uma ligeira dissonância impressa no tempo, desfasamento que será sempre breve e transitório no contexto da eternidade do universo.
Logo o tempo se acerta para nos sentirmos num abraço… com aroma de urze.

sábado, 17 de junho de 2017

Capri


Os traços são cúmplices das palavras, cumprindo o desígnio comum de pintores e escritores, no "desenhar" das suas muitas histórias e do eclodir da poesia.
Henrique Pousão, pintor Português da segunda metade do Século XIX, é um dos meus favoritos, e o facto de ambos termos nascido em Vila Viçosa, terá por certo facilitado essa minha aproximação aos seus trabalhos, mormente uma série pintada nos anos que viveu na ilha de Capri, algures por 1882.
Para mim, essa ilha Italiana próxima da costa de Nápoles, foi e será sempre a ilha de Pousão, e esta semana, visitando-a, levei na lembrança os quadros, indo em busca do artista.
O barco entre Sorrento e Capri é muito veloz, deixando atrás de si uma estrada branca de espuma, que enfeita o mar no seu esplendor azul.
Acerto o tempo retirando cento e trinta anos à velocidade do barco, para poder imaginar um homem magro, de chapéu de abas largas e calças de linho, a desembarcar num cais onde imperam pescadores e vendedores de limões.
As bancas onde agora se oferecem passeios aos turistas, “pisam” o mesmo chão onde um carro puxado por animais transporta o pintor pela encosta acima, até à casa onde ficará instalado.
O empedrado das ruas, os cheiros do campo, e sobretudo, as casas brancas de Capri, lembrar-lhe-ão por certo, o Alentejo, e a casa que o primo Matroco tem na Rua de Santa Luzia, em Vila Viçosa.
Nesta manhã quente de Junho de 2017, o escritor traz no i-Phone a reprodução dos quadros, e cedo pede ajuda ao Guia Turístico:
- Consegue ajudar-me a encontrar esta rua?
- É a Via Le Botteghe, e eu levo-o lá.
Mas o Guia ainda confirma com o dono do restaurante:
- Que rua é esta?
- A Via Le Botteghe. Não pode ser outra.
Tinha a pista certa.
Passo a manhã em Anacapri e aproveito para visitar a Casa Museu de Axel Munthe, médico e escritor Sueco que aqui viveu na sua "Villa Saint Michelle", depois de se instalar ali em 1888.
O silêncio no jardim, imune aos vendedores que cativam turistas com roupas, sandálias e Limoncello, faz-me regressar ao Século de Pousão, e eu consigo "encontrar" o artista, por ali, tomando a luz imensa que assalta todas as janelas e as varandas rasgadas para o mar.
Dali vejo bem as casas brancas de Capri enfeitadas pelas catos que habitam estas terras do sul.
Depois, já ao princípio da tarde, chego finalmente à "minha rua", a Via Le Botteghe, e vou-me guiando pelos arcos e as janelas, procurando os ângulos certos guardados nas obras do meu conterrâneo.
Esta rua, que tem uma largura pouco maior que a dimensão do meu corpo com os braços esticados, é preciso ser despejada dos turistas e dos comerciantes de agora, para que eu consiga olhar o pintor com o seu inevitável chapéu, pintando uma menina descalça que brincava por ali sob os arcos brancos da rua onde nasceu.
O homem da fruta passara de manhã, e avisara que o dia está bom para um passeio até ao topo da ilha. Oferecera-se como guia, e sairão esta tarde depois do almoço.
As gentes do Sul nunca usam ter pressa, e a rapariga deixa-se estar assim, quieta, enquanto o pintor roga às tintas que façam justiça à luz e às sombras perfeitas das ruas de Capri.
Vejo claramente o Henrique Pousão, por ali, e sorrio-lhe. Os pintores e os poetas partilham o mesmo chão, enquanto enfeitam as tardes com os traços e as palavras das suas histórias.
Os pintores e os poetas desmancham o tempo, no privilégio que advém da poesia que partilham: a eternidade.

(Os quadros de Pousão que aqui reproduzam entre as minhas fotos podem e devem ser contemplados no Museu Soares do Reis, na cidade do Porto).

sábado, 10 de junho de 2017

Nós



Nós, os Portugueses, somos poetas que negociamos com as gaivotas, trocando frutos maduros por lições da arte de bem voar.
Sentados nas praias beijadas pela brisa salgada do fim da tarde, o nosso sonho projeta-se no oceano, como que abrindo as asas, e aquilo que de nós se vê nesse espelho imenso e azul, são corpos ao jeito de caravelas, cumprindo a vontade que se nos atou ao peito.
Quando as gaivotas se entregarem finalmente às ameixas que cumprem a nossa parte do acordo, e que as esperam no areal, nós já estaremos muito longe dali, provando que é herói quem se deixa acontecer, seguindo pelo amor e pela liberdade, mesmo sabendo que na distância, e sozinhos, o tempo é sinónimo de saudade.
Por muito querermos o céu, nós, os Portugueses, somos irmãos das gaivotas e de todos os pássaros do universo, e também somos poetas, por via da alma e do desejo. Nós jamais saberemos definir a fonteira entre um verso e um beijo.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Vou ter saudades suas


Existia uma muralha de beijos entre mim e o medo, uma fortaleza transparente e gosto a caramelo, em cuja sombra brincava, alegre, colhendo palavras doces nos canteiros em forma de abraços, e olhando o céu muito azul, que sentia sempre tão demasiado perto.
Ria-me muito e quase achava ridículo quando alguém me falava em envelhecer.
Mas o tempo é o mestre que consegue vergar a nossa teimosia. Beijo a beijo, foi passando e fragilizando esta muralha, expondo-me ao medo e à ventania, ensinando-me também, e pouco a pouco, o que é a saudade e como ela dói.
“Atão filho…”. 
Era com estas palavras que o meu tio António recheava o beijo com que sempre nos saudávamos, e elas ecoaram em mim por entre mil memórias, enquanto o acompanhava na sua última subida ao castelo, em Vila Viçosa. A última viagem dos Calipolenses quando morrem.
Sentimo-nos envelhecer quando os beijos se nos apagam assim, e o medo vai ficando tão próximo de nós.
“O mê Quim”.
Sinto-me tão mais pobre por entre este silêncio que vai devorando as vozes de quem me quer e me sente verdadeiramente seu.
O silêncio numa manhã quente, daquelas em que o Alentejo rouba a essência da esteva e a casa com a do alecrim, espalhando-as depois pela solidão das ruas. 
“Atão, tio”.
Até sempre, e um beijo. Vou ter saudades suas.

sábado, 27 de maio de 2017

Manchester by the…sky


O vento recortou as nuvens de forma certeira, e pô-las a contar-me a história do cavalo alado que resgata uma princesa de tranças, cansada de estar presa na torre mais alta do castelo.

Um homem que entretanto passa por entre as mesas, aproveitando a ausência do empregado da esplanada do café, utiliza as suas unhas e uma velha lata, para emitir um som estridente, apelando às moedas, para que saltem dos bolsos alheios e venham adensar o ruído deste batuque improvisado.

Não reconheço a melodia que ele toca, mas não hesito, e promovo-a a banda sonora da história da princesa.

Não fossem os meus braços pousados sobre a mesa, como oferecendo guarida à pequena chávena da bica, e não fossem os pelos brancos que os envolvem, a denunciarem a idade, eu juraria estar em Vila Viçosa, algures pelos anos setenta do Século XX, repousando de barriga para cima sobre a erva de um qualquer campo de Maio.

Nesse tempo, com dez ou doze anos, ninguém me desmanchava o gosto de ler histórias nas nuvens e nas manchas dos tetos das casas, porque não havia bombas cheias de pregos, e Deus era apenas sinónimo de amor, num céu com estrelas e silêncio, onde não havia sirenes nem o sangue dos sonhos a esvair-se pelas ruas.

Trouxe esse gosto de então, comigo e até aqui, porque viver é nunca desmanchar os sonhos. É sobre os seus recantos que eu decalco parágrafos nas tardes de Maio e de todo o ano.

Manchester foi traída por esse falso céu sem Deus, e quando "matamos" uma criança asfixiamos o mundo e o tempo, privando-os do poder de se reinventarem.

Quando "matamos" uma criança… morremos todos.

domingo, 21 de maio de 2017

As sombras na floresta


Na floresta, quando o sol se despede, ao entardecer, levando com ele a bênção dos corvos, que lhe fazem sempre sete vénias, persistem sombras negras e imunes à lua.

Os homens e as mulheres que por ali passam nesse instante, recostam-se então como podem sobre a folhagem, adormecendo num pesadelo povoado por medos e monstros nunca antes vistos, enquanto os relógios parecem desatar o tempo numa vertigem até ao abismo.

Nesta agitação, valem-lhe os poetas, que são seres irmãos da noite, e que colhem palavras das árvores mais altas, em poesia ou em prosa, como bagas de cor vermelha com que enchem todos os seus abraços.

Um a um, entrelaçam o seu corpo com o das mulheres e homens adormecidos, e a esperança acontece no despertar suave e no caminhar dolente até às clareiras que brincam com o luar.

Nos últimos tempos, algumas pessoas muito próximas de mim sentiram o pesadelo destas sombras feias, escrevendo-lhes eu estas palavras para que não lhes falte nunca o abraço dos poetas.

Para vocês, aqui fica o entrelaçar amigo num abraço cheio de morangos ou bagas encarnadas.

Neste recanto da floresta onde os medos não entram, estamos juntos e confortavelmente sentados, preparados para em breve podermos celebrar as novas e doces madrugadas.

 

domingo, 14 de maio de 2017

Afinal coube tudo numa só noite


A fé, tomamo-la das estrelas com que o céu nos enfeita a noite, ou então das luzes que, generosamente, alguém vai acendendo sobre a nossa cabeça.

No tempo dos meus bibes de xadrez e dos calções de pano, o tio Zé e a tia Joaquina, levavam-me a ver os arraias ao redor de Vila Viçosa, as "luzinhas", sob as quais comíamos uma fartura, comprávamos uma rifa, tentando a sorte, e falávamos sobre os golos do Eusébio.

Mesmo com o meu pai Sportinguista, foi assim, e por eles, que eu nasci para o Benfica.

Não me recordo de ser eu sem sentir o Glorioso.

Ontem, sob o céu de Lisboa enfeitado de estrelas e lua cheia, fui da Luz até ao Marquês para celebrar o tetracampeonato, levando comigo toda essa gente grande, os meus heróis, a minha gente da pátria da fé.

O tio Zé finalmente celebrou um tetracampeonato, e logo assim, a brilhar sobre Lisboa.

Cumprindo todos os sonhos, estive ali com todos os que me fizeram Benfica, envoltos num mar vermelho, e explicando ao mundo que lampião, sim, isso mesmo, lampião, é ser gente que acendeu a esperança e tem sina de campeão.

Também no tempo do bibe de xadrez, quando a Tonicha e a Simone ganhavam o festival, eu juntava-me com os meus amigos no celeiro do Senhor Domingos e brincávamos à Eurovisão.

Ainda não entendíamos bem os poemas do Ary, mas pressentíamos-lhes a fé, algures entre a Desfolhada ou o Portugal no Coração.

Fizemos subir balões, fomos à tourada vestidos de mosqueteiros, cantámos o silêncio, falámos muito e não dissemos quase nada num estranho dai-li-dou, mas ninguém parecia querer entender-nos neste nosso grande, grande amor.

Na noite de ontem, os acordes simples de uma canção com um poema na língua de Ary e perfumado pela voz de um rapaz simples, como usa ser a gente grande, fizeram acordar finalmente a Europa, que nos deu todos os 12 pontos que lá tinham guardados.

Telefonei ao João Paulo e vi o Juan Blas numa chamada no Watshapp. Para nós que sempre sonhámos, este serão sabe a mel.

É da nossa idade, este sonho de Portugal vencer a Eurovisão.

Às duas e meia da manhã resolvo finalmente ir dormir. Já revi os golos do Benfica, não sei quantas vezes ouvi o Salvador Sobral, e vi todos os programas em directo do Marquês.

Ainda espreitei as estrelas antes de fechar a janela.

Afinal coube tudo numa só noite.

São incontáveis as coisas que se podem ajeitar nas noites de quem não permite que o tempo lhes desmanche os sonhos de rapaz.

domingo, 7 de maio de 2017

Mãe


As tuas mãos protegem-me do vento frio, construindo uma casa invisível onde eu gosto de adormecer sob a luz ténue, mas perpétua, de um beijo.

Sem que se espreite, eu sinto que é de linho bordado, o leito que me oferece o teu olhar, enquanto a voz pendura favos de mel das esquinas de todos os segundos.

Então, eu sorrio e navego, enleado nas histórias doces que, mesmo sem lápis de cor, tu me desenhas no pensamento. Invariavelmente, sou um herói sem lágrimas e impossíveis, um rapaz que voa com os pássaros num campo de trigo.

O amor é assim, do reino de sentir, e tu, mãe, vives aqui tão perto, como quem é tanto de mim, os dois envoltos por uma só pele.

O amor é assim, foca-se na essência, e quem oferece a vida, oferece-a todos os dias no respeito pela nossa identidade. 

O amor não tem pressa por não temer o tempo, e tu, mãe, és a palavra, o poema que nunca se esvai, a certeza de eu nunca envelhecer.

És a eternidade.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Maio


Com os dias que me ofereceram, construí uma torre, onde encarcerei o medo, reservando, no entanto, o ponto mais alto, para rasgar uma varanda onde me sento a brincar com os papagaios de papel que as crianças lançam ao entardecer.

Ali, acendo velas aromatizadas com a minha vontade, faço rimas com as palavras que me são gratas, e rasgo as notícias velhas e desinteressantes dos jornais, dobrando depois cada pedaço, e juntando-os, até fazer hortênsias que espalho pelo parapeito.

Quando o tempo vestir uma saia curta de verde trigo, bordada a ponto cruz com papoilas e malmequeres, saberei, mesmo dispensando o calendário, que Maio finalmente chegou.

As tardes espreguiçar-se-ão pedindo ao sol que fique mais um pouco, e da torre aonde eu moro, soarão liras e alaúdes em tom de festa.

O tempo é sempre de quem o vive de verdade, assim, calando o medo, e Maio, o mês das flores, é de quem não deixa passar sequer um segundo, sem o pespontar de liberdade.

 

terça-feira, 25 de abril de 2017

A liberdade


Quando entrelaçarmos os nossos braços, imitando as cerejas, as conversas correrão alegres, e sem cessar, pelas ruas, desapertando o sorriso dos rostos ainda molhados dos meninos.

Dizem que há cravos guardados no sol de Abril, que se libertam, vermelhos, às primeiras horas da madrugada, para se misturarem entre as letras todas dessas palavras, chegando aos recantos mais secretos do silêncio, que possa persistir, triste, nas praças e nas vielas da cidade.

A música, dispensará outros instrumentos, para lá da nossa voz, e juntar-se-á a este Tejo de canções, um rio sem margens, sem norte e sem sul, um rio de todas as cores, e não apenas azul.

Os nossos braços entrelaçados, assim, em poesia enfeitando a claridade, vestirão Lisboa com um tempo novo, sem choro e silêncio, um tempo onde os cravos serão da cor da ponte, e do sol que desponta, em Abril e liberdade.

 

(Obrigado ao meu sobrinho Luís pelo inspirado desenho)

sábado, 22 de abril de 2017

Os poetas e a Luz


Nunca conseguirei entender porque colocam o busto dos poetas à porta das bibliotecas. Eles permanecem vivos nos detalhes da alma que deixaram impressos, e que descansam por ali nas prateleiras, abandonados ao pó do tempo. Mais do que as flores colocadas na base polida de uma pedra sob o bronze do seu retrato, os poetas celebram-se em cada palavra que lemos e sentimos nossa.

Também jamais conseguirei entender o porquê de ornarmos as igrejas com lâmpadas mais ou menos coloridas, e o porquê de acendermos velas pelos altares. Se Deus é a Luz maior, nós seremos sempre os recetores dessa graça. Ninguém se lembrará de levar um balde de água fria para oferecer ao rio ou à fonte.

Sentado junto a uma das mesas da esplanada quase vazia, em frente à Matriz de Ponta Delgada, vou desfolhando a memória e semeando versos que entrego à brisa que passa por aqui, correndo desde a encosta do vulcão, e na direção do mar.

Os poetas estão vivos e voam agora com as gaivotas, cruzando a claridade. A cruz foi apenas um brevíssimo instante, e o Céu é esta casa eterna de sorrir, não com os lábios, porque quem tem fé sorri com o coração.

Os versos dos poetas voam entrelaçados na Luz de uma segunda-feira de ressurreição.

sábado, 15 de abril de 2017

A vida é uma imensa festa


Ninguém se recorda já do nome que lhe deram ao nascer, porque aqui, na terra onde vive, todos o conhecem e tratam por Batata, inspirados no pompom que encima o gorro vermelho que traz sempre na cabeça.

O Batata gosta de correr pelo campo nas tardes de primavera, e diz que o mundo é o seu castelo encantado. Tem as árvores como torres e ameias, jarras de flores presas pela raiz, a alcatifa verde que a chuva lhe oferece, e tem um teto azul em dias claros, que se enche de estrelas ao luar, um pouco antes de adormecer.

Quem o vê assim acelerado, procurando as ribeiras e as ervas de cheiro, não imagina que o seu pompom, semelhante ao famoso tubérculo, tem poderes especiais.

É verdade. Se o Batata o apertar uma vez, aparece uma fada com uma vara de condão capaz de contrariar todos os impossíveis. A fada canta ao amanhecer e desperta os pássaros que ficam encantados com a sua voz.

Com a fada Luísa tudo pode acontecer.

Se o Batata apertar o pompom duas vezes, aparece o Mago Rebolim, que até ouro consegue fazer a partir de uma pedra, no breve instante de um espirro.

Atchim.

O Batata gosta de brincar e sabe que o seu castelo se ilumina pela força dos abraços dos amigos.

Chama-os muitas vezes, sentam-se na relva e tocam viola, enquanto alguém desenha letras e chama a poesia.

Mas um dia, numa tarde de sexta-feira, o vento soprou forte e roubou-lhe o gorro, fazendo voar o pompom. O Batata ficou triste e voltou a casa cabisbaixo, pensando ter desaparecido para sempre a magia.

Já o domingo clareava quando ao coçar o nariz, ele reparou que a fada e o Rebolim apareceram de repente.

- Porque estás triste?

- Porque perdi a magia. O pompom voou para longe.

- Não penses nisso. A magia vive sempre em nós, está em ti e em toda a gente.

Reparou então que o céu ficara mais azul, que a alcatifa tinha tufos infinitos de flores e correu para abraçar os amigos.

A vida é afinal uma imensa e perpétua festa.

 

(O meu sobrinho Luís fez o desenho e, sobre ele, eu escrevi uma história para vos desejar uma Páscoa muito feliz)

 

 

quinta-feira, 13 de abril de 2017

O folar doce


No Alentejo, o folar é doce, como estes dias que inventamos.

É doce e anisada, a “erva” que juntamos à massa, em rima com a esteva que aquece o forno e com o alecrim dos ramos de domingo, aquele mesmo alecrim que “prende” os namorados e os padrinhos a um cartuxo de amêndoas, também de açúcar, na manhã de quinta-feira.

A avó Natividade atava um lenço branco na cabeça e, á cintura, um avental da mesma cor, benzendo-se por entre o pó da farinha de trigo que ia deixando cair sobre o enorme alguidar de barro. Depois de mais de uma hora em que não dava descanso às mãos, desenhava uma cruz sobre a massa e dizia:

- Deus te acrescente.

Esta semana não é santa por acaso, mas sim porque a fé transpira do peito da gente. E a massa “deita-se” depois no recanto mais quente da casa, para que “finte” melhor durante a noite, sim, que levede melhor. Bolos fintos, porque no Alentejo sabemos que a fé é o segredo para “driblar” a má sorte.

Quando a manhã se enfeita de sol, polvilham-se as tábuas com farinha, reparte-se a massa que cresceu e transbordou do alguidar, e dá-se-lhe a forma de roscas, estrelas, “padinhas”, ou então, acrescentam-se ovos cozidos e fazemos o folar. Com a avó Natividade aprendi a fazer lagartos, freirinhas e poços, todos recortados à tesoura e enfeitados com laços que guardámos das prendas de Natal.

Os tabuleiros negros de metal levam o nosso nome escrito a giz e entram no forno com os dos demais, porque a amizade é o calor onde tudo ganha forma e sabor.

Talvez a imagem de Cristo jazente percorra já as calçadas de Vila Viçosa, por entre o silêncio e as laranjeiras em flor, quando o forno se abrir para nos devolver os folares quentes e doces, lembrando-nos que a morte é apenas um breve instante nestes dias que inventamos e onde nos vamos descobrindo, enchendo-os de amor.   

domingo, 9 de abril de 2017

Estes dias feitos de flores


Mesmo que não cheguemos ao tempo das cerejas maduras, ninguém poderá acusar-nos de não termos vivido intensamente estes dias feitos de flores.

Ainda que, à porta do forno, não saboreemos o pão de trigo que o azeite beija de paixão, já teremos guardado todos os segredos trazidos pelo vento, as histórias reveladas nestas tardes em que somos seara verde a espreguiçar-se ao sol de Abril.

A idade contada em anos é uma ilusão, porque a vida não é tempo, mas é intensidade e coerência na concretização dos sonhos, até dos mais ousados.

Nós trazemos o céu inteiro no olhar, ao contrário daqueles em que o único detalhe de firmamento é o possível reflexo de alguma nuvem que o dia lhes ofereça gratuitamente às lentes. Porque o céu é o todo da alma que se espreita e extravasa no olhar, ao jeito de um herói.

O céu é o sonho que carregamos no peito.

Ainda que alguém possa dizer que nos falta tempo, nós repousaremos tranquilos, porque não há nada que nos falte fazer.

Repousaremos tranquilos entre as flores.

 

(Agradeço as fotos enviadas pelo Rui Pereira)

domingo, 2 de abril de 2017

OS MENINOS QUE INVENTARAM A PRIMAVERA


Numa tarde de Março, mas com o tempo já a espreitar Abril, os meninos e as meninas saíram juntos para o campo trazendo na mochila os livros de histórias e um montão de lápis de cor.

O céu estava triste, fechado pelas nuvens enormes e cinzentas, e o chão mantinha o tom castanho e seco sem flores que herdara do fim do verão.

Chegados a uma clareira, os meninos pousaram as mochilas e puxaram dos lápis, afiando todos os tons de azul, para poderem pintar o céu, e os verdes para que a terra vestisse uma saia plissada dessa cor, como é uso na primavera.

Mas nada, os lápis gastavam-se aos poucos, e tudo permanecia na mesma cor.

Reparou então um menino, quando dava a mão a outro para o ajudar com as pinturas, que as nuvens se iam rasgando, e o céu até já conseguia espreitar. E quanto deu um abraço a outro menino, o céu já sorria feliz, brilhando na cor do mar.

Uma menina que cantou e outra que se riu, repararam que a voz e a gargalhada plantavam relva no chão de Outono, verde e grande, salpicada de giesta, amarela e quase ouro; e assim, olhando as flores, o sol, toda a gente tocou e sentiu.

Numa roda gigante entre abraços, cantigas e sorrisos, os meninos aprenderam a pintar o campo da primavera. Na verdade, os dias bonitos não se desenham a lápis de cor mas nascem da amizade.

E um pássaro que passava por ali lembrou-lhes ainda que havia livros na mochila, histórias de sonhos e de magia, e que os meninos e as meninas, não tendo asas, pelos sonhos conseguiriam voar.

Batendo as asas antes de rumar a sul, o pássaro lembrou ainda, e mais uma vez, que o céu é de quem voa. E todos os dias se pintam de azul.


Os alunos da Escola Básica da Mata, em Estremoz, sugeriram na sexta-feira que eu escrevesse uma história inspirada neles. Uma história que também falasse de magia e primavera.

Aqui está com um abraço.

sábado, 25 de março de 2017

O amor planta girassóis na lua


Não importa qual a cidade, e nem sequer o nome do rio que a namora, para mim, todas as ruas, as praças e as calçadas, são memórias dos meus passos nas tardes em que saí para te procurar.

Não importa se as torres que me ofereceram sombra foram castelos guardiões de Homens, de Deus ou do tempo; o amor planta girassóis na lua, e não se prende com quaisquer humanos ou divinos detalhes, para além de que jamais necessitará de ver as horas.

Às vezes paro e sento-me para tomar alento, roendo lentamente uma maçã verde colhida na ousadia do pomar onde os corpos tomam a forma de árvores e o desejo nasce tão intensamente que até parece proibido.

Quem tem muitos rostos não tem nenhum, e o espelho por detrás do balcão do café onde depois me encosto, na pausa da bica, tem a sabedoria de milhares de luas, e nega-me um reflexo claro. Eu só serei eu depois de te encontrar no fim da história que os meus passos contam rasgando portas e desenhando as ruas.

Também construirei um barco de madeira ao jeito de uma casa de piso transparente, e afirmo aqui perante toda a gente, que se tu viveres naquelas montanhas que dizem existir no fundo do mar, eu usarei as mãos em concha para lhe retirar a água, até te encontrar.

Dia e noite, tomando alento e fogo de cada pôr-do-sol.

Depois, substituindo com flores a ferrugem de todas as grades, levar-te-ei comigo e adormeceremos juntos sob um sobreiro. Uma manhã, uma tarde, um dia inteiro… ou até mais, enquanto as palavras que dissemos um ao outro, e que até lembram versos desenhados por Pessoa, se entretêm a voar com os pardais.

 

domingo, 19 de março de 2017

Pai


Desmentindo o tempo, salto para um banco improvisado feito de jornais atados por uma corda, e fico sentado à mesma altura onde o teu respirar se mistura com o som inquieto da tesoura que afina os meus caracóis castanhos.

Há cromos de futebol que enrolam rebuçados comprados às meias dúzias com moedas de dez tostões, comemos medronhos maduros na encosta do castelo, recortamos e colamos casinhas de papel, jogamos ao pião, construímos papagaios cruzando canas, e á frente do portão do “Tapum”, construímos repuxos num lago improvisado onde se passeia um pato de plástico, nos dias de Junho e São pedro, quando a nossa rua se enfeita com flores de papel que fomos fabricando nos serões de primavera, imitando o melhor gesto que reveste o campo.

Desmentindo o tempo…

Agora que “O Século” e “A Capital” já não amarelecem juntos no monte dos jornais, que os meus caracóis não sobreviveram à prata que os tingiu, e que os papagaios, as casinhas e as flores de papel subsistem apenas na minha memória; eu ajeito-me à sombra do teu olhar, recuso-me a palpar-lhe o cansaço, e pulo como antes, mas já sem a ajuda dos teus braços, para o sítio onde sou maior, e onde o céu já não tem o ruído de uma tesoura mas continua a ter o teu respirar.

Num beijo, meu querido pai, imitando sempre o melhor que tem a vida.

 

sábado, 11 de março de 2017

Sou a soma aritmética de todos os beijos que quis dar…


A manhã traz sempre folhas brancas para cima da mesa, e até um lápis pouco afiado que possa andar por ali, meio perdido, servirá para podermos "escrever" a nossa história.

Março já levou a manhã ao cabeleireiro e enfeitou-a de caracóis vermelhos, cor-de-rosa... do pantone das camélias e outras flores, vestindo-lhe depois um traje de ervas com padrão de malmequeres, e pendurando-lhe ao pescoço um cordão de giestas, de fazer inveja ao ouro.

Caíram os biombos de nuvens, secaram as lágrimas de orvalho, e hoje aquilo que se vê de mim tem os contornos claros e definidos de um beijo.

Se nos quiserem conhecer não peçam um retrato, mas espreitem-nos dentro de um beijo que a alma pediu.

A nossa história somos nós e o tempo que nunca envelhece; sou eu que às vezes me sinto velho, sentado por aí num dia qualquer.

Mas o tempo também é redondo e Março cheira sempre a recomeço, quando paramos na berma de uma manhã, nos sentamos à mesa e pedimos um café e uma água lisa, mas já fria.

Depois, o pensamento serve de afia, e entre o desejo e a memória, lá conseguimos escrever, como quem sonha, um capítulo bonito da nossa história que ainda estava por contar.

O que é que eu sou?

Mil palavras rabiscadas sobre uma folha branca para dizer que sou a soma aritmética de todos os beijos que quis dar.

 

domingo, 5 de março de 2017

Estes dias que traem a paz e a liberdade…


Rasgamos a Terra buscando barro e granito para erguermos os muros que nos abriguem do vento sem matarem jamais esta essência de ser Homem.

Sentados na pedra enfeitada de hortelã que o rio beija enquanto conta o tempo, o Homem é a alma, muito mais do que a forma ou o tom daquilo que se espreita ou dele se reflete à superfície das águas.

O Homem é a sua fé, muito mais do que qualquer gesto que a enfeita e a recorta.

O Homem é o amor, para lá do género das faces que se encontram na verdade de um beijo.

O Homem é a voz, o canto e a poesia, muito mais do que a língua mãe das palavras que dele se escutem por entre os choupos que bailam com a brisa das noites frias.

Nós julgávamos ter morto os dias que traem a paz e a liberdade...

Mas eles apenas dormiam aguardando as janelas que a imbecilidade rasga à superfície do tempo.

Há que voltar a desatar as mãos. Estes dias empurram-nos de novo para a luta.

Por nós, pela paz e pela liberdade.

 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Os poetas sonham e tiram apontamentos…


Já há muito que os sinos de Viena assinalam a meia-noite, e no quarto do hotel, com a cortina da janela não completamente corrida, eu pressinto o verde no semáforo dos peões quando as luzes dos carros que percorrem a Ringstrasse desistem por momentos de riscar a parede em frente à secretária.

Recebi os golos do Benfica, escrevi e mandei os beijos todos que o coração ditou, e entreguei-me finalmente à hora do poeta, o silêncio sem pressa que se predispõe a ser tudo aquilo que eu quiser.

A hora dos sonhos em estado vígil, que não se apagam nunca às mãos da madrugada e por capricho da memória; os sonhos que persistem.

Quantos dias habitam na noite dos poetas…

Amanhã será Carnaval e acender-se-ão luzes e máscaras sobre o racional sentido dos dias. Irão impor-se gargalhadas que morrerão depois amarfanhadas no terreiro onde as cinzas de quarta-feira se entregam ao vento.

Como se a espontaneidade feliz morasse obrigatoriamente no inverso daquilo que somos e tivesse o prazo de validade de um modesto fim de semana prolongado.

Quando as luzes suspendem os traços na parede, há Homens de todos os momentos que avançam pelo silêncio da noite cumprindo o seu destino e tomando a cidade.

Sem máscaras e sempre a sorrir, enquanto os poetas sonham e tiram apontamentos.