sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

As paredes encarnadas...


Por mais confortáveis e elegantes que sejam as gavetas das cómodas e os armários, para a vida só contam os instantes passados na cumplicidade do sol... e do luar.
Para comprovar esta minha convicção, desmentindo simultaneamente os que apelam ao hipócrita recolhimento de si mesmos em mobiliário mais ou menos sagrado, apertem o cinto e venham comigo ao norte numa viagem de trabalho.
Na noite gélida do Porto, subindo a escada de acesso a um dos meus restaurantes favoritos, o Mendi, de comida Indiana, apanhei do chão uma camélia caída algures de uma varanda pela força do vento ou da chuva. Era uma flor "de cabeça para baixo" nos degraus já muito gastos de uma velha escada, mas, uma flor é como um Homem e nunca deixa de o ser, nem mesmo quando morre.
Apanhei-a, pu-la no bolso do casaco e deixei-a ficar por ali entre as chaves, enquanto comia o de sempre: uma Samosa de carne e outra vegetariana, o Murgh Karahi Masala acompanhado de arroz branco; tudo acompanhado por um Lassi salgado.
As paredes pintadas de vermelho, a cor mais especial para os hindus, celebram a sensualidade, a pureza e a fertilidade. Entre garfadas, entretenho-me com as sombras que as velas desenham no recanto rubro à minha frente.
No dia seguinte, já pela hora do almoço, e depois de terminado o trabalho, estou em Gaia, e não evito espreitar ao longe uma nesga do mar Atlântico.
Entro no carro e desço a encosta até à esplanada onde o saldado bater das ondas me adoça a bica rápida, mas solarenga.
Definitivamente, o mau tempo também oferece flores, e o doce sabor do café, é dádiva do sol por via dos pensamentos que nos sorriem desde dentro.
O segredo é não fugir à chuva e ao frio que às vezes turvam o luar, e jamais negar o apelo do sol para um abraço recebido junto ao mar.
Juro-vos que é por aí que vou, cantando, alegre, com a liberdade a tiracolo. E mesmo que um dia me sinta no claustrofóbico incómodo de um espaço fechado, juro que direi não às “encíclicas” e imitarei os Indianos, celebrando a vida como quem pinta as paredes com versos em tons de encarnado.

 

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