sábado, 28 de fevereiro de 2015

E o tempo acelera…


Mesmo que o dia insista em pintar-se do tom cinzento de nuvens muito carregadas, nós sabemos que o tempo acelera já irreversivelmente para a primavera; e até Fevereiro trai e mata a previsível duração que têm os meses.
Por todo o inverno, a chuva semeou flores rebeldes que por estes dias rasgarão de amarelo, o verde intenso das ervas do caminho.
Até os choupos se despiram para que as águas chegassem mais depressa ao leito das ribeiras, fazendo com que estas ganhassem uma renovada voz e se revestissem de um intenso e indisfarçável aroma de poejo.
Por todo o inverno…
Senti a chuva a bater forte na vidraça da casa aonde moro, e me aqueci das lembranças dos beijos que de ti trago sempre comigo.
E tantas vezes adormeci escutando o vento, e decifrando no seu sopro as palavras de amor que por ti desejei sussurradas no íntimo mais íntimo do meu ouvido.
Hoje enquanto tomo o café e espreito lá fora o cinza de um dia de inverno em agonia, quase que tenho a certeza que o vaso de amores-perfeitos que comprámos juntos no mercado, já estará perto de dar flor.
E olho para o calendário…
Último dia de Fevereiro… e o tempo acelera.
Eu sigo com ele à boleia para os teus braços; é lá que na cidade eu sinto sempre o campo…
O perfume das flores e o canto sereno das ribeiras por estes dias em que chega a primavera.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

PORTO


Entre nós há um rio que de ti tomou nobreza e nome
E de mim a sina que faz correr para o azul
O tom que tu carregas nos olhos tal qual o mar...

Douro

E num degrau de granito que a cidade me oferece lá para os lados da Ribeira
Eu espero por ti ao pôr-do-sol entre todas as pontes
Sabendo que a vida é como o Porto

Um rio que fala de nós
Uma escada de granito que sobe ao Céu
Uma encruzilhada traçada pela sorte à esquina do tempo para que eu te encontrar
 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Há muito me habituei a não desperdiçar quaisquer palavras…


Há muito me habituei a não desperdiçar quaisquer palavras, e se não estás à minha frente para que de viva voz as possa transmitir, registo-as e guardo-as escritas no caderno vermelho que anda sempre comigo e que um dia um querido amigo me ofereceu num pequeno-almoço no Chiado.
Sobre o restaurante paira em tom baixo, a banda sonora que acaba por resultar numa jangada ou bote salva-vidas para os solitários, salvação a que nos agarramos por pensamento para nos abstrairmos e sobrevivermos ao mar de gritos dos grupos de gente que estão sentados ao nosso lado.
E de repente por entre algumas melodias mais ou menos conhecidas e interpretações mais ou menos “de elevador”…
África Minha, um voo de Redford e Streep no Quénia enquanto dão corpo às palavras e à paixão de Karen Blixen; e aí estou eu indiferente às ruidosas gargalhadas que culminam as piadas da gente presente na sala, a voar contigo naqueles territórios tão generosos em palavras pela intensidade do que se sente.
O vento bate-me forte na face mas eu agradeço-o à sorte, tal o aroma de ti que ele me oferece; o voo acelera por entre as árvores e as aves de todas as cores e tem um toque marcado de perfeição, quando até as vertigens se apagaram porque todos os medos, excepto um, morrem quando eu estou contigo.
Esse um… o medo de te perder.
E a vida é como um serão de onde eu vou colhendo palavras que registo no caderno vermelho estrategicamente colocado do meu lado direito na mesa do jantar; os recados que guardarei para te transmitir quando te reencontrar, sem qualquer desperdício de palavras e de sentimentos.
De repente dou conta de que algures na zona das gargalhadas histriónicas, uma senhora me olha com ar espantado; acredito que seja por me ver sozinho, a escrever e a não conseguir travar o sorriso em alguns momentos; sorriso que não está alinhado com a cadência de piadas da sala.
Definitivamente não me entende; mas estivesse ela a viver uma paixão e a voar assim como eu o faço contigo...

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

A luta continua…


O Homem é um ser competitivo e não há território que esteja isento de luta; reconheço-o desde que assistia às discussões entre as minhas tias-avós Maria e Joaquina relativamente ao estatuto de mais doente.
- Toda a semana me tem doído um dedo.
- Um dedo… A mim há meses que me dói um braço.
E aprendi desde cedo que a vida é uma competição…
Ainda na Escola Secundária de Vila Viçosa, e porque no 11º Ano e na disciplina de Socorrismo, tanto eu como os meus dois competidores para o título de melhor aluno, tínhamos vinte; disputávamos quem é que conseguia o vinte em menos tempo.
E um dia quando o primeiro acabou e o comunicou a toda a turma:
- Já acabei!
Ouviu-se:
- Puxa o autoclismo.
E hoje…
Assistimos quase diariamente às disputas entre pais ou entre avós relativamente às performances escolares dos filhos ou netos naquilo que parece a eleição do Mr. Einstein 2015; as mulheres competem relativamente à eficácia dos drenantes e outros produtos dietéticos que utilizam, dos efeitos dos cremes anti-estrias, disputam as roupas, as marcas das carteiras, as unhas de gel, o cabeleireiro… e até a simpatia e profissionalismo do ginecologista; as crianças fazem campeonatos informais sobre os brinquedos, as idas à Eurodisney, as festas de aniversário e os jogos da playstation; os povoadores de sacristia sobre a autoproclamada santidade que esmaga desde logo a devida humildade de um crente; os vizinhos dos prédios disputam o mês e o ano das matrículas das viaturas, para além das raças dos cães que passeiam de manhã, em roupão e entre remelas; as “bichas” discutem a qualidade do hotel em que ficaram alojados na Gran Canária durante o verão passado, para além do jeito especial para cozinharem Bacalhau Espiritual; os condutores competem por um lugar mais à frente na fila da ponte; os homens frequentadores de ginásio competem pela expressão dos seus músculos, e nos balneários e de forma informal, sobre outras inevitabilidades genéticos que se expressam em centímetros; os condóminos utilizam as reuniões para elegerem a habitante do prédio com estatuto de “mais badalhoca”; os supermercados competem supostamente pelo preço; os políticos disputam os votos pelos outdoors onde até é possível observar cartazes bilingues do Bloco de Esquerda em Alemão e Português, ou cartazes do Partido Socialista com a palavra “Confiança”, a lembrar-nos que há gente que nem “com fiança” consegue estar fora da prisão e ir a votos…
Ontem ao princípio da tarde partilhei elevador num edifício de Lisboa com dois indivíduos que disputavam as performances dos carros. A métrica era a aceleração na subida de Monsanto na A5. A minha presença ainda os espicaçou mais e quase vi jeitos de ter de intervir como árbitro de boxe. Quando a porta se abriu e saí antes deles fiquei claramente que ainda se iam pegar ao estalo.
Depois de me ter sentado numa esplanada e ter disputado o lugar na mesa com um casal, tomei um café e tomei estas notas.
A luta continua…
Ah… é verdade, no 11º ano fui eu que consegui o prémio para o melhor aluno uns meses depois de ter mandado puxar o autoclismo. 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

O que é a saudade de um beijo quando comparada com o mar de girassóis que tu semeias em todos os silêncios de uma noite escura?


A lua sulca veredas no breu da noite, e é hoje um imenso e prateado gomo de laranja entretida a brincar com as nuvens no céu por cima do meu caminho.
O rádio do carro emite palavras envoltas no toque de fado de uma lusa guitarra, mas esta noite pede-me silêncio para que dele possam emergir as minhas próprias palavras, as palavras todas que tu me ofereces.
Desligo o rádio.
Quase ao mesmo tempo a lua vence a cortina de nuvens, e assim nesta posição, parece sorrir-me sem o mínimo detalhe de pudor.
E o silêncio já é por esta altura, o campo imenso onde palavra a palavra, eu vejo brilhar girassóis, e onde numa clareira aberta à cumplicidade de uma fonte, eu te abraço à sombra de um choupo enquanto teço versos de amor.
A lua esconde-se novamente atrás do biombo que as nuvens lhe oferecem, talvez por não querer espreitar o momento em que eu não disfarço a saudade de um beijo.
Mas depois aparece de novo e vejo que continua a sorrir.
Eu também sorrio.
Afinal, o que é a saudade de um beijo quando comparada com o mar de girassóis que tu semeias em todos os silêncios de uma noite escura?
Em breve chegarei a casa e ainda e sempre a brincar com a lua.
Ela a sulcar veredas e eu a recitar versos de amor numa noite escura em que por não estares aqui, a saudade insiste sempre em espreitar.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Segunda-feira


Abrir a tábua, ligar o ferro e eliminar algumas rugas na camisa; retirar o fato do roupeiro e ver se as calças têm o vinco em condições ou se necessitam passar também pela tábua onde antes esteve a camisa; retirar o cinto que melhor se adequa à cor do dito fato e ao tamanho dos passadores do cós; engraxar e dar brilho aos mocassins que estiveram em descanso…
E a Segunda-feira nasce muito antes da meia-noite, entrando pela tarde de domingo e trazendo com ela aquele estado semi-depressivo que se pode considerar a ressaca da Sexta e do Sábado à noite, estado que tentamos tratar ao serão com um infinito Zapping entre programas de TV que revelam talentos musicais, de dança ou outros, painéis de debate sobre foras de jogo e golos de futebol, os comentários do Prof. Rebelo de Sousa e os programas da RTP Memória em que o Júlio Isidro revisita talentos tão antigos que ficamos ainda mais deprimidos quando nos apercebemos que já passaram décadas desde os tempos em que nos deliciávamos com a modernidade de “O Passeio dos Alegres”.
Nada nos satisfaz e tudo parece agravar definitivamente o estado neuro-psíquico de depressão. Por esse facto, levantamo-nos dezenas de vezes do sofá para irmos até à cozinha tomar um copo de água e de caminho “apanhar” alguma bolacha ou pedaço de chocolate que tenha sobrado do fim-de-semana.
Aproveitamos para contemplar a lua que se vê muito bem desde a janela da Cozinha e reparamos que o Parque de Estacionamento ao redor do prédio voltou a estar repleto de carros.
Amanhã estarão todos em fila com o nosso a caminho dos empregos.
Acabamos sempre por ir para a cama mais tarde e sem sono porque de manhã deixámo-nos estar a dormir até mais tarde, activamos o despertador e sentimos a dor de pensar que muito cedo ele soará para nos despertar naquele exacto momento em que estávamos pegados ao sono. Até já poderíamos ter estado acordados durante uma hora, mas quando soa aquela maldita campainha…
Depois é o espreguiçar entre o amaldiçoar da sorte, o aparar a barba com um olho aberto e o outro ainda a dormir, o acabar de acordar debaixo do duche, o reencontro dos pés com o aperto dos mocassins, a urgência de uma bica, as torradas acompanhas das páginas dos jornais lidas na Banca do Sapo, o elevador e a conversa de circunstância com os vizinhos que descem com um estado de dormência idêntico ao nosso, os bons dias dados ao senhor que se cruza sempre connosco durante o passeio matinal do cão, as piadas da RFM, o trânsito, as buzinadelas, as rotundas que a malta aborda como uma dança de cadeiras, o frio no escritório porque o ar condicionado esteve desligado durante o fim-de-semana, a minha colega Carla e a conversa temperada de bocejos a lamentar o quão injusta é a curta duração do descanso…
E depois toca a trabalhar.
Maldita Segunda-feira?
Não coitada.
O problema não é dela mas dos dois dias de descanso que a antecederam.
Tivesse o fim-de-semana três dias e a ver se nós não detestaríamos a Terça-feira…
O descanso é tão bom.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

O nosso pensamento será sempre a casa fiel de quem amamos


O vento soprou forte durante toda a noite, mas muito mais forte num instante em que sacudiu violentamente a persiana e pronunciou algo imperceptível durante a sua passagem por entre as frestas apertadíssimas das vidraças.
Acordou-me então o vento, e atirou-me irreversivelmente para os braços da memória sob o olhar cúmplice e o patrocínio da saudade.
O vento como louco, e em mim a abrir-se um terreiro iluminado pela lua, um chão cúmplice do querer e sem limites para a fantasia, uma praça onde as fontes em vez de água, vertem as palavras que sustentam a própria poesia.
E dancei contigo sentindo o teu cheiro e o teu olhar fazenda da música o pretexto para a festa de mil beijos.
O nosso pensamento será sempre a casa fiel de quem amamos...
E o dono das nossas noites é quem resgatamos da memória para nos preencher a magia de sonhar acordado.
Às vezes numa noite escura quando o vento nos acorda.
Depois...
Já não me recordo de ter voltado a adormecer, mas fi-lo certamente por entre a dança onde floresciam os beijos.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Eu, irmão de Lisboa.


O Tejo saiu para ir visitar o mar, e no Terreiro, bem junto às colunas do cais, há uma nesga de areal a que não resistimos e entregamos os nossos passos.
E o cais é hoje e assim, um chão que Lisboa atapetou de areia para o regresso do seu amado rio que num só e primeiro abraço a cobrirá dos aromas e de tudo o que o mar tem.
A noite caiu há pouco...
Mas entre a lua e o candeeiro eu encontro a luz que alumia a carta que escrevi para ti e te leio agora.
Um tapete tecido de letras alinhadas para dizer que te amo, ao jeito da areia de Lisboa.
No final damo-nos um beijo por entre um longo abraço.
E o poeta colhe desse instante os aromas e tudo aquilo que a vida tem.
Eu, irmão de Lisboa.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

“Há ou à”


Há janelas no teu prédio
Mas à janela tu não estás
Vem cá buscar um remédio
Para esta “coisa” dos “á’s”?

Há couves frescas na praça
Que à panela vão parar
Há a fome que nunca passa
Até à hora de almoçar

À hora de ponta no Chiado
Ali à porta da Brasileira
Há gente por todo o lado
A tomar café “à maneira”

Há que ter sorte para pousar
Numa foto à beira do Pessoa
Há sempre gente a passar
Ah que bom ver-te assim Lisboa

Se tem algo leva agá
O mesmo no imperativo
Se não tem nada vai só o “a”
Com ar solene e altivo

E se já há tempo, com jeito,
Não te esqueças, tu és capaz
Para quê repetir o conceito
E acrescentar que foi atrás?

Não é nada complicado
E nunca mais te vais esquecer
Com agá, verbo haver conjugado
Não tem nada que saber

Um fado maior…


Sobe o pano, acendem-se as luzes, soa o primeiro acorde da guitarra… mas o fado é sentir-te aqui tão perto matizando o meu perfume com os aromas todos e perfeitos que carregas em ti.
Um fado maior…
O melhor fado num tom colhido directamente do sonho mais persistente em mim.
E há tantos fados que eu esperava que viesses…
Tristes fados que eu tanto insisti temperar de esperança.
A minha perna já namora com a tua e as duas seguem o ritmo da guitarra quando a voz do cantor solta as primeiras palavras, as letras alinhadas no testemunho de uma intensa paixão; mas já há muito a poesia se soltara livre e louca da tua mão no instante em que procurou e se colou à minha.
A rima de pele com pele, a poesia dos versos sem letras que têm o mesmo toque de todos os nossos beijos, a nossa paixão.
Não tardará o momento em que o público se rende, entregando-se a um grande aplauso.
A noite trouxe-nos hoje ao Coliseu para ouvir o fado, mas por entre toda esta gente, aqui sentados e envoltos neste amor; somos nós…
Sim, meu amor somos nós a mais inspirada canção.
E a vida, se é assim como um concerto e esta noite, jamais será para nós um palco com um cantor a falar de paixão e a fazer-nos chorar por entre a tristeza de uma enorme plateia onde nos vemos sós.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Começou a terceira guerra mundial ou a segunda ainda não acabou?


Legítimos herdeiros do imperador Nero Claudius Cæsar Augustus Germanicus e agarrados às suas liras enquanto “Roma” arde, os Portugueses divertem-se ao redor das cervejas Sagres e dos “frangos”, enquanto as Portuguesas sussurram entre amigas os segredos que as “Sombras de Grey” lhes revelaram relativamente ao inóspito universo guardado por detrás da sua genitália.
Eu avanço por entre eles, amigo do ambiente, com as mãos ocupadas pelas compras do supermercado e inspirado pela recusa em pagar dez cêntimos por cada saco de plástico.
“Roma” arde… e a Grécia também.
Quando os homens de Esparta chegaram a Tróia para resgatar Helena que fugira para lá na companhia de Páris, a batalha foi dura. Mas um certo dia os Troianos descobriram que o acampamento dos seus inimigos estava vazio e no meio dele brilhava um enorme cavalo de madeira que pensaram ser um presente.
Assumiram assim que a guerra estava ganha e empurraram o cavalo para dentro das suas muralhas sem saber que transportavam nele os homens de Esparta que saídos do dito animal gigante, os fizeram perder a guerra.
A ideia de Odisseu resultou e Helena fugiu.
Pensarão os Gregos e pensaremos nós que a história se repete, e de que há e sempre existiu veneno guardado na celebração de uma falsa unidade chamada Euro, num acampamento aparentemente vazio e de paz.
A austeridade que saiu de lá de dentro…
Vai dura a guerra, porque serão sempre duras as batalhas entre a “Kratia” (poder) do “Demos” (povo) e todas as “Kratia’s” de tantos interesses.
Começou a terceira guerra mundial ou a segunda ainda não acabou?
Não esteve aparentemente vazio “o acampamento” durante décadas para que os soldados se pudessem realinhar e camuflar?
A Europa e a Democracia ardem e são de cinza todas as sombras e não de Grey, com a agravante de a paz ir sucumbindo também aos “santos” argumentos das guerras entre militâncias nos Olimpos das religiões.
Tenho tanto medo quando os Homens assumem para si próprios a sobranceria que julgam morar nos seus Deuses.
Pouso as compras na mala do carro e ligo o rádio a tempo de à hora certa ouvir o Pontifex Maximus (o pontífice máximo), o político “espartano” na sua esquizofrenia anti-políticos, afirmar que os malandros dos Gregos já muitos “capitéis” montaram à nossa custa.
A amnésia segue sendo a arma preferida dos chefes (e dos não-políticos) de “Roma”.
E quem lhe pagou as vias todas onde inscreveu o nome em placas douradas juntamente com o dos seus “impolutos” soldados entretanto perdidos nas guerras sujas e mundanas do capital?
“Roma” arde por entre a orfandade de não ter líderes.
Até Juncker já diz que pecou contra a dignidade da Grécia… e de “Roma”.
Novo Cavalo de Tróia?
Chego a casa com as mãos ocupadas pelas compras e nem sequer ligo a televisão.
A Teresa Guilherme tem um insuportável toque de lira que me irrita por entre o estalido das chamas.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

A laje de onde varremos as cinzas é a mesma que servirá de chão ao lume aceso que nos aquece


Gosto deste abraço que me oferece o teu cheiro, deste informal repouso do meu olhar sobre o teu ombro, a escuridão com que pinto o mundo para melhor espreitar o melhor de mim.
Ficaria assim a vida inteira...
Mas há um som agudo que me desperta, o prenúncio do movimento de um comboio, e eu entrego-te as mãos para caminhar contigo; estas mesmas mãos, tantas vezes mães do gesto de um adeus
As mãos são como um cais e um cais é como qualquer dia.
O mesmo espaço, uma indefinida sina, um destino solto e à mercê do tempo.
A partida?
A chegada?
A laje de onde varremos as cinzas é a mesma que servirá de chão ao lume aceso que nos aquece.
O cais de onde parte um amor é o mesmo aonde chega outro bem maior e mais feliz.
A laje, o cais… e os dias.
Até as lágrimas parecem coerentes e sempre iguais; sendo afinal tão diferentes como parágrafos líquidos e sem letras na expressão de estar triste ou ser feliz.
Hoje…
Entrego-te as minhas mãos para caminhar contigo enquanto lentamente passa por nós o comboio que me trouxe até aqui.
Depois dou-te um abraço e caminho junto a ti pelo cais e por entre a certeza de que cheguei e não querer partir jamais.
O comboio é a sorte, sinto-o claramente depois de acordar cheio de saudades tuas para um daqueles dias em que é tão fácil escrever sobre o amor.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Hoje eu sei que o teu amor semeou em mim um tesouro …


Os teus abraços têm o dom de me colocar irreversivelmente na rota do melhor sonho, aquele caminho onde as árvores, as flores e toda a gente, testemunham o sorriso de quem segue feliz, fazendo valer a pena o tempo que a vida lhe dá.
O sorriso e a música.
Por entre um céu que tempera de azul a água da generosidade das ribeiras e das fontes, os teus abraços e os teus beijos são o meu caminho e também o alimento e o condimento de que a alma precisa…
E por ti, eu gosto muito mais de mim.
Muito mais do que apenas gostar de alguém, o amor é gostarmos imensamente de nós próprios por entre o doce abraço desse alguém cujo nome só a alma nos segreda.
Hoje eu sei que o teu amor semeou em mim um tesouro, e nestes dias que cumprem o veloz ciclo do tempo, eu apago e pago todos os medos com essa riqueza que há tanto tempo esperava pelo toque de Midas dos teus abraços… e dos teus beijos.
Esperava por ti para a confiança que mata todas as máscaras na festa de ser eu, a festa de muito mais de três dias, a música que nunca cessa nas cinzas de uma qualquer quarta-feira.
Esperava por ti para a liberdade de poder voar por sobre o mundo, as máscaras e os falsos reis monos das carroças de todos os carnavais.
Esperava por ti…
Porque assim envoltos os dois neste amor profundo, nós sabemos que os dias, tal qual as árvores, as flores e as fontes do caminho, mesmo que tenham detalhes de inverno, têm a eterna essência da melhor e mais eterna primavera…
E da liberdade.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Parque temático em versão genérico sem bioequivalência


Num processo de pulverização de qualquer parque temático infantil em versão genérico sem bioequivalência produzido em vão de escada na Índia, o Carnaval semeia pelas nossas ruas uma prole de figuras estranhas e medonhas.
Já não falo das crianças que para estes dias prepararam uma invasão de Violettas, princesas ou Invizimals; e eu na Sexta-feira de manhã fui desde logo atacado no elevador por uma menina envolta em cor-de-rosa, com tiara de plástico prateado na cabeça e um casaco de penas por cima do vestido algo amarrotado, e também por um guerreiro medieval com espada a condizer com uns óculos “super fashion” transparentes…
Mas falo dos adultos.
Assim, na peixaria do Pingo Doce fui atendido por uma senhora que envergava uma bandolete de Coelhinha da Playboy, o que juntamente com o seu avental de borracha ensanguentado pelos Robalos, e também o buço mal aparado, lhe dava um ar de fugir.
Ela própria naquele estado parece ter fugido de algum hospital psiquiátrico onde tratava de uma profundíssima paranóia.
Fugi mas na caixa tive de optar por um rapaz de chapéu de Cowboy e uma senhora tão pintada que mais parecia ter assaltado o equipamento de maquilhagem da mãe. Optei pela segunda e vi jeitos de ela chegar a uma altura em que não conseguia ver os artigos, tal o risco de os olhos ficarem colados pela quantidade industrial de rimmel.
O que ela se esforçava para manter os olhos abertos…
E o Cowboy ali ao lado com o seu chapéu de JR Ewing parecia o neto ilegítimo de algum dissidente dos Village People.
Vou comprar o jornal…
Na banca está uma menina a comprar adereços da Violetta e a ser assessorada pelas avós que mais parecem as bruxas da Branca-de-Neve. Os artigos a que associam os melhores adjectivos são pura violência sobre as crianças; juro que são piores e mais feios do que um par de açoites.
Não aguento.
Vou até à pastelaria para tomar café em sossego e reparo que os empregados envergam perucas e andam a servir às mesas em passe de samba embalados por uma aparelhagem em volume altamente proibitivo.
Só me faltava ter de beber a bica ao som do “meu amigo Charlie” num sambódromo genérico com vista para a Serra de Sintra e entre folhados, Queques e Bolas de Berlim.
E a consciência do ridículo é por estes dias um conjunto vazio.
Voo imediatamente para casa porque um dia de folga do trabalho não pode ser desperdiçado assim.
Entro no elevador do prédio não sem que antes saia de lá um Ninja envergando uma espada fluorescente, uma criatura verde que deve ter aprendido a gritar com a buzina do Farol do Cabo Espichel.
Bolas…
Carnaval?
A quaresma já e em força.
E nem vou dormir a sesta porque com o andamento que isto leva tenho a sensação de que ainda me poderá aparecer a Angela Merkel em bikini à boleia de um pesadelo aterrador.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Desembrulhei o teu presente quando cheguei a casa e depois espreitei para o melhor de mim


Desembrulhei o teu presente quando cheguei a casa, com muito cuidado para não rasgar o papel, tal qual me recomendaste um pouco antes do "até já".
O perfume ficará guardado na gaveta onde tenho as relíquias da minha história e os meus segredos, lado a lado com o fantástico papel de embrulho onde no verso escreveste uma mensagem de amor.
Palavras escritas iguais às que toda a tarde senti soltarem-se do teu olhar, junto a uma das fontes do Rossio, na Rua Augusta, na Casa dos Cafés, no Tejo, na Ribeira... no abraço sob o chapéu-de-chuva com que subimos a Rua do Alecrim.
Eu nunca te saberei dizer àquilo a que sabem os teus beijos.
Mas talvez se somares todas as letras dos meus versos consigas espreitar por entre esta vida que me dás, e perceber que os teus beijos, como o demais que é teu, são e sabem à própria vida.
A minha vida feliz.
Destapo o perfume, releio amor no papel de embrulho, vejo a selfie que tirámos os dois e a que chamo o paraíso, acaricio os lábios que ainda trazem o aroma dos teus usando estas mesmas minhas mãos aonde ainda há pouco semeastes força e audácia, o amor mais profundo...
E sou eu agora quem se espreita no melhor da vida; eu por sobre a campa rasa onde sepultei os silêncios e os resquícios da caridade pobre de todos os falsos amores.
A chuva bate forte na vidraça, eu já sinto saudades tuas, muitas, mas hoje sou definitivamente o homem mais feliz do mundo.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Há manhãs de onde colhemos as palavras e o perfume para uma carta de amor


Meu querido amor,
Sinto aromas infinitos de indecifráveis flores por entre este instante em que penso em ti, e em que busco em vão palavras, por certo entre as mais doces, para te fazer o retrato escrito do homem mais feliz do universo, aquele que só tu soubeste criar em mim.
Serão rosas?
Muitas por certo, rubras de paixão; mas há tulipas, cravos, margaridas, alecrim, rosmaninho… e narcisos amarelos que nos lembram as tardes tristes da solidão.
As tardes que partiram de mim na intimidade desse primeiro abraço; eu, um náufrago sem “Sexta-feira” descoberto pelo navio rei de todos os mares, a nau de todos os meus sonhos e mestra de todos os destinos.
Depois…
O primeiro beijo com a cumplicidade lilás dos jacarandás na primavera, as mãos e as palavras trocadas no banco solitário de um jardim de Lisboa, o Tejo, os poemas, os livros, as cartas, os tesouros para o cofre, as colecções, os jantares por sobre os telhados da nossa cidade, as gargalhadas, as palavras, as Bolas de Berlim, os Bolos Fintos, mais beijos; tantos beijos e tantos abraços…
Tantos e tão poucos comparados com os que eu te queria dar; e a vida toda a soltar-se de tudo aquilo que de mais simples os dias carregam em si.
Os dias… e também as noites, perfeitas porque ao serão chega sempre uma mensagem com mil beijos e a magia de me chamares de “meu amor”.
Sim, ganhamos a mais doce das identidades quando perdemos o nome para passarmos a ser o “meu amor” dessa mesma pessoa a quem também nós trocámos o nome pelo sentimento.
Meu amor…
Sei que um dia a casa da D. João V será nossa, tomada pelos beijos que iremos dar nos dias todos em que o Tejo nos sorrirá azul; mas um pouco menos azul que o teu olhar.
Talvez então os nossos rostos estejam muito mais grisalhos do que hoje; mas que importa isso, se todos os anos que entretanto passarem, os vivermos juntos, assim, apaixonados e a namorar.
Por entre este intenso cheiro a flores, dou-te mil beijos, meu amor querido.
Teu,
Francisco

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Mas que bem-me-quer a minha sorte


Pudesse o malmequer responder ao desespero de um apaixonado
E por entre o irreversível despentear da sua coroa por certo perguntaria:
- O que terão as minhas pétalas a ver com o sentir do teu namorado?

Nada mesmo
Direi eu

Que as pétalas já lá estão
São em número certo
E o final sempre depende do começo
Na flor
Tal qual no amor

Bem…
Malmequer
Etecetera e tal…

Eu no dia em que te encontrei
Quando te prendi no primeiro abraço
Desde logo percebi

Sim
Tu irias ser tudo aquilo que o meu sonho tanto quer
Chegaste para ser um longo e feliz final

Percepção?
Experiência?

Estas coisas do amor não têm nada de ciência

É algo que se sente

Aonde?

Onde haveria de ser?
No peito de toda a gente

E hoje pela manhã
Espreitando à janela e vendo o algodão que a noite semeou sobre os malmequeres
Franzo o olhar para melhor enfrentar o sol
O seu reflexo
E tentar ver alguma nesga do azul que sempre me oferece o mar

Sinto-me bem
Até assobio
Sinto-te tão no meu peito
Tão meu
Tão ao meu jeito

Sinto-me forte

Sexta-feira treze?

Enquanto bebo o café e penso em ti
Sorrio
E não resisto a pensar...

Mas que bem-me-quer a minha sorte

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Planetas em trânsito e adultérios anunciados à mesa da Bénard


Um chá e uma torrada na Bénard cumprindo a ambição de um lanche tranquilo que se esvai rapidamente quando descobrimos que na mesa ao lado da nossa está a decorrer uma consulta de astrologia.
E se a senhora consultada fala baixo, o astrólogo projecta a voz ao jeito de um actor num teatro romano, para que todos escutemos a sua opinião sobre os mais variados assuntos, quase todos ao redor da vida íntima da sua interlocutora.
É impossível não ir seguindo a conversa alheia, facto que me deixa perfeitamente à vontade e sem temor perante uma possível acusação de deficit de educação da minha parte.
"Eu falo alto nos locais públicos porque com dois anos de programas de rádio a colocação e o volume da minha voz já estão incontroláveis"
É uma pena que a voz se tenha associado ao cérebro no descontrolo de volume e colocação, se bem que no que toca ao volume do dito, e ao contrário da voz, o problema seja claramente por defeito.
E quem paga com tudo isto sou eu, é o meu chá e a minha torrada.
"Eu adoro incomodar as pessoas inteligentes. Já afrontei os astrónomos todos deste país e já dei resposta pública a alguns no Correio da Manhã"
A referência ao nome do jornal era perfeitamente dispensável.
Em relação ao incómodo, não é líquido que o inverso seja verdade e eu nem sequer sou astrónomo, mas dado que estou tão incomodado com o senhor, é bem possível que eu não seja completamente burro.
“Sou intolerante perante as pessoas que não crêem em Deus”.
E Deus deve apreciar imenso essa atitude.
E se assumirmos que Deus revela o futuro a algumas criaturas, eu acredito mesmo que Ele escolha este ser anoréctico montado num casaco colorido que parece um genérico dos do Manuel Luís Goucha.
"Nestes dias do final de Fevereiro prepare-se porque a sua vida vai mudar. Saturno e Vénus estão em trânsito (não sei se perdidos na A5 de onde vim), e essa mudança até pode implicar um novo companheiro"
“Ai que bom”, responde a mulher pedindo a repetição das datas em que tudo irá acontecer.
E perante o anunciado adultério a mulher sempre vai dizendo baixinho que o marido é esquizofrénico.
Pois...
Não vá o astrólogo ter razão e ela tenha de se justificar nalguns fóruns sociais. Assim já vai treinando.
Eu não sei de que doença do foro psiquiátrico ela padece, mas aqui assim sentada com este “cromo” e a dar-lhe ouvidos, não é de estranhar que a esquizofrenia possa ser também uma realidade.
“São ... Euros, mas veja lá se fica incomodada. Veja lá. Veja lá”.
O “valentão” só diz baixinho o que eu queria ouvir e que era o valor da consulta. Mas a avaliar pela insistência na questão sobre o possível incómodo, eu deduzo que o preço não seja acessível.
Mas a senhora ainda lhe paga mais qualquer coisa; o anúncio de um adultério é coisa muito cara.
Com a torrada e o chá já consumidos, eu pago e saio da Bénard um pouco antes do estranho “casal”.
Na rua há um homem que desenha imagens de Fernando Pessoa e me questiona:
- O cavalheiro não quer levar o Fernando Pessoa para casa?
Hoje não mais para além dos muitos livros com poemas que por lá tenho.
E que sendo ele dado também a astrologia…

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

E as palavras saltam em catadupa para a folha que já esqueceu o que é estar vazia


Na estrada às vezes longa que liga a solidão ao amor, que é o mesmo caminho que toma quem vem da lágrima triste até ao estar feliz; existe uma “área de serviço” um pouco antes da portagem, onde os amigos nos esperam à volta de uma mesa para nos mimarem e animarem.
Um chá, uns bolos, infinitas palavras, e aquela força que passa num abraço…
Porque a portagem às vezes é cara.
O inverno deixou sem folhas as árvores do campo à frente da minha janela, mas compensou-me pelo verde que semeou na erva farta que então cresceu. E sem a copa das árvores como densa e impenetrável cortina, o sol de inverno pôde beijar a terra e fazer desabrochar um tapete amarelo de infinitas Azedas que hoje me enfeita a vista.
No outro dia e depois de estacionar o carro, não resisti e colhi algumas para voltar a trinca-las e matar saudades do travo ácido que então nos acompanhava a caminho das aulas no velho liceu de Vila Viçosa.
Às vezes estamos mentalmente perante uma folha branca que espera as palavras nascidas do impulso de falar de amor, mas falta-nos aquela primeira que dá o mote e desbloqueia a poesia.
Chega então uma florista com papéis que publicitam a sua arte, e acabamos todos a falar de tulipas vermelhas e da forma como elas expressam a paixão.
E a tulipa dá-me o mote para o poema que escrevo ainda mentalmente enquanto a vendedora de flores se junta e toma um copo connosco na mesa confortável da “área de serviço” onde estamos à conversa.
Depois, dali até à portagem, o caminho goza de um infinito adorno amarelo e eu só tenho olhos para as Azedas.
Nem me lembro que é inverno e as árvores estão despidas de folhas, quando passo a portagem e dou por mim já estacionado no parque onde os sorrisos se soltam por entre o amor maior.
O sol entretanto já se pôs, a noite até está fria, mas eu não consigo calar o sorriso… e as palavras saltam em catadupa para a folha que já esqueceu o que é estar vazia.
A portagem… é claro, foi aquele beijo furtivo dado no brevíssimo instante que roubámos ao namoro intenso dos nossos olhares.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Liberdade, frutos, flores, asas, amor… um rio azul e nós que gostamos tanto de nos ver assim


Quem já andou descalço sobre a lama conhece bem o chão fértil de onde podem nascer frutos e flores.
Quem tomou banho num rio ou numa ribeira à sombra dos choupos nos dias quentes de verão, saboreou já a liberdade na pele e no todo, corpo e alma, quando sentiu a água a correr.
Quem brincou com os pássaros entre as árvores de fruto de um pomar ou de um quintal conhece bem as vantagens de ter asas e saber voar.
Quem tomou uma mochila às costas e ousou desembarcar numa terra nova que fez sua, sabe muito bem o que é renascer.
Quem um dia chorou por amor, conhece demasiado bem, pelo beijo e pelo olhar, o instante em que um novo e maior amor chega e se instala para fazer esquecer os demais da história… e que fizeram chorar.
E a sede acrescenta nobreza às fontes, e a cave dá valor às janelas altas de onde o rio se pode espreitar no seu esplendor azul.
A estrada é longa e cheia de sins e nãos, mas aquele que se constrói a si próprio por inspiração e vontade, aquele que responde conforme a alma; gosta muito mais de si quando se olha ao espelho das águas em qualquer fonte ou ribeira do caminho.
O caminho que nunca terá um fim para o mais ousado e destemido.
A estrada é longa e cheia de gente, de palavras, de cores… dos gestos que moldam a nossa história.
Liberdade, frutos, flores, asas, amor… um rio azul e nós que gostamos tanto de nos ver assim.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Este lume que acendes conhece-me bem dos anos em que clamei por ele e pus a lenha toda nos dias em que insisti acreditar na sorte


O instante em que todas as cinzas voam muito para lá do mais desprezível e merecido esquecimento e se acende o novo lume com a mais forte e incandescente das chamas, é aquela hora em que o nosso abraço me oferece o teu respirar, o teu cheiro, o toque suave da tua pele… e eu me sinto completo, porque nada me falta.
E o vento que varre as cinzas trata-me por tu por tantas vezes me ter afagado as penas… e a solidão.
E este lume que acendes conhece-me bem dos anos em que clamei por ele, e pus a lenha toda nos dias em que insisti acreditar na sorte.  
Este lume… chamam-lhe amor; e sinto-o agora nas minhas mãos no gesto com que as acaricias por entre o frio de Fevereiro.
Devagar e como que a não dispensar o preciosismo de cada poro.
Este lume… o amor, julgamo-lo tão grande e à medida do imenso desejo de o encontrar, que às vezes nos esquecemos de que se expressa assim de mansinho no fim de uma tarde em que o sol já incendiou o horizonte no poente, e os dois caminhamos por entre os olhares que abraçam e dispensam todas as palavras na hora de falar dele… do amor.
E quando um beijo antecede o “até já” e a lua me acena do seu quarto minguante, eu sou maior pelos tão grandes horizontes que sonho contigo, tenho mais fé por saber que não há temores ou sombras nos dias do futuro e sou muito mais doce pelo amor que me ensinas.
Nas tardes do Tejo e por entre o irreversível voo das cinzas.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Rebuçados mágicos à minha escala de Harry Potter genérico em versão Alentejana


O meu avô Francisco era carpinteiro e trabalhava numa casa grande pintada de amarelo que ficava mesmo ao lado dos silos, dentro da cerca da SOFAL e junto ao antigo Convento de São Paulo, também ele convertido num polo desta unidade fabril, enorme para a dimensão de Vila Viçosa.
As buzinas da fábrica tocavam sempre à hora certa e faziam-nos dispensar os relógios, sobretudo quando eu atravessava o Rossio de mão dada com a avó Natividade para irmos levar o almoço que o avô comia no tempo da pausa que lhe correspondia.
Sentávamo-nos numa pequena mesa, obviamente de madeira, e fazíamos-lhe companhia, voltando depois a casa onde então almoçávamos os dois.
Enquanto o avô comia, eu recolhia aparas e pedaços de madeira com que depois brincava durante a tarde, delimitando com eles os arruamentos perfeitos para os meus carrinhos miniatura da Matchbox, sobretudo para o meu preferido, um Opel descapotável de cor amarela. Pedaços de madeira melhores do que peças originais da Lego, porque estes tinham a capacidade de assumir todas as cores que eu lhe queria dar, aquelas que eu necessitava para a construção da minha cidade inventada.
Às vezes, quando era inverno, recolhíamos também aparas que depois usávamos para melhor acender as braseiras de picão que nos iriam aquecer a casa durante o jantar e o serão.
Sempre que necessário, e quando deixávamos o avô já com o almoço tomado, passávamos na mercearia onde se aviavam os funcionários da fábrica.
Não ficava longe da carpintaria.
O senhor que nos atendia tinha uma perna de pau e eu nunca conseguia deixar de me lembrar da Pipi das Meias Altas e dos seus amigos piratas; achando curioso que o final da perna tivesse uma borracha que ajudava à aderência mas que definitivamente escondia o ruído da mesma sobre o solo.
Eu achava que ele era um personagem de um conto fantástico com superpoderes na minha cidade inventada.
Havia ainda uma senhora muito loura que estava sentada no cimo de uma espécie de púlpito de madeira e que nos fazia as contas com uns números quase desenhados e muito alinhados.
Vendiam produtos da fábrica, como o azeite em latas e a farinha em sacos de plástico transparente; e não só, pois tinham todos os outros produtos que também existiam numa vulgar mercearia.
Tanto o senhor da perna de pau quanto a senhora loura eram de uma grande simpatia e no final das compras e das contas, ele oferecia-me sempre um par de rebuçados que eu guardava no bolso perante a recomendação da avó:
- Guarda para depois do almoço.
Eram rebuçados mágicos à minha escala de Harry Potter genérico em versão Alentejana.
Em dois dias consecutivos, o meu amigo José Maria resolveu desenhar o que resta da fábrica em completa ruína após a sua falência no início dos anos oitenta, e o meu irmão enviou-me a foto de uma lata de azeite da SOFAL, a Sociedade Fabril Alentejana, que descobriu algures num restaurante em Lisboa.
O desenho das casas e a imagem da lata com a imagem da estátua de D. João IV no Terreiro de Paço de Vila Viçosa deram o mote, e a memória fez o resto para que estas palavras se alinhassem.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Eu diria Desejo… muito mais do que outro nome qualquer


Uma mesa no canto mais discreto do bar
A música de Elis Regina
E estas noites em que só a cerveja parece matar-nos a sede

Como te chamas?

Eu diria Desejo
Muito mais do que outro nome qualquer

Digo-o abertamente…
E sem rede

E entre um gole de cerveja
Uma fava seca e salgada
Um amendoim...

As minhas mãos não se cansam de falar ti

Sei que será assim até de madrugada

Tocando-te rebeldes no final das nossas tardes de passeio
Elas conhecem-te bem melhor do que qualquer outra parte de mim

Agora fez-se silêncio
A cantora foi descansar
E a sede pede-me um gin

As minhas mãos
Donas do céu
Muito mais do que tudo o que vi...
Ou vejo

Vou continuar pelo bar
Acho que um sítio mais quente não se arranja

E quero continuar por aqui a pensar em ti
Meu querido Desejo  

Ah claro
E amanhã vou ter de acordar num sumo de laranja 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Hoje sinto-me invencível… e já não vou precisar de me espreguiçar


Amo-te com a convicção de jamais deixar de te oferecer o primeiro pensamento no despertar de todos os dias.
Quando o sol irrompe timidamente pelas frestas da persiana entreaberta e o relógio acabou de tocar e de me arrancar do sono, espreguiço-me como que procurando-te por ali, como quem te quer abraçar… e penso em ti.
Depois o duche quente oferece-me alento, acaba o prolongado processo do despertar e cria uma acústica perfeita para eu cantar de John Grant:
I must have felt invincible in your arms
Like I could take the whole world on
It’s easier”, é sempre tudo tão mais fácil quando o mundo parece ser nosso num abraço.
Hoje sinto-me invencível… e penso em ti, quase jurando ver-te a sorrir do outro lado das gotículas de água quente que me beijam nesta manhã.
Da minha janela espreito o Atlântico por entre o gosto de um café e o pão do Alentejo, o gosto áureo do trigo nascido da terra de onde sou; eu, discípulo na reverência a um Deus maior por onde sempre consigo ver-te espreitar.
Depois, a estrada paralela ao mar…
Ser Português é caminhar paralelo ao mar, que mesmo estando mais além onde o campo luso se encosta a Espanha, duzentos quilómetros são um ínfimo passo na incalculável dimensão do universo.
A estrada, o eterno mar, a gente, o destino que mora em Lisboa… e ali tão próxima aquela pastelaria onde no outro dia tomámos um chá mas com saudades dos jesuítas que já não havia.
Sorrio…
E esta manhã onde o sol se faz meu cúmplice e cala o frio, é um retábulo de instantes desenhados no tom que me oferece o pensamento, que traz de ti, o nome, o olhar, os abraços… tudo.
Num destes dias caminharei de braço dado contigo num jardim onde as camélias de todas as cores rasgaram ruas só para nós. Talvez paremos para um beijo por entre as palavras de amor que a alma possa deixar transpirar.
Será tudo tão perfeito e tão igual a estas manhãs em que penso em ti…
Talvez só exista uma diferença que é uma enorme vantagem: já não vou precisar de me espreguiçar.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

“Custe o que custar”


O Primeiro-ministro de Portugal afirmou ontem a propósito da morte de uma cidadã que não beneficiou de todas as opções de tratamento disponíveis para a patologia que a atingia, que “os Estados devem fazer tudo o que está ao seu alcance para salvar vidas humanas, mas não custe o que custar”.
Nós sabemos que os recursos disponíveis não são ilimitados, mas há prioridades; afinal de contas a vida de uma mulher ainda vale mais do que um outdoor das campanhas eleitorais que o Estado vai patrocinar muito em breve, e só para dar um exemplo.
Porque quando se trata da vida de alguém, é mesmo “custe o que custar”, digo eu.
Digo eu e esperaria eu que o dissessem os deputados dos partidos que apoiam esta maioria e que gritaram a defesa da vida sempre que o parlamento discutiu a interrupção voluntária da gravidez, por exemplo. Onde estão essas vozes?
Onde está o Professor João César das Neves e os movimentos que fazem vigílias à porta da Clínica dos Arcos nas Amoreiras?
Já alguém se manifestou em Massamá?
O que disse a Conferência Episcopal Portuguesa a propósito destas declarações?
Acaso a expressão de vida de um feto no seu contexto intra-uterino seja mais relevante do que a de uma mulher com cinquenta anos?
Ou será que encontrámos no desequilíbrio orçamental uma justificação para assumirmos e legalizarmos a eutanásia?
Onde está a coerência?
Será que ela é tão ténue que não consegue vencer os ícones imbecis do que se convencionou chamar esquerda ou direita no desenhar de um espectro politico onde o cidadão só conta para o financiamento e para uma cruz num boletim que dá acesso ao poder?
O respeito pela vida deve ser transversal a todas as suas dimensões e expressões; e os heróis, os que ficam com nome inscrito na História dos povos são os que se guiaram pelo “custe o que custar” que tantas vezes lhes “custou” a própria vida para que a dos outros pudesse emergir da dor da morte anunciada.
A vida deve ser o mote supremo no guião de quem comanda um Estado, e eu… não gosto e nem voto em quem pensa e diz o contrário.

Eu vou definitivamente para ti na mais verdadeira consciência dos meus próprios passos


Passei pelo Harrods e comprei-te umas meias quentes e coloridas, um pouco antes de percorrer a pé algumas ruas de Londres e sentir na cara a aragem agreste de um dia que “semeou” neve em Hyde Park.
Sentado numa mesa junto à montra de um velho pub onde as pessoas se anunciam pelo tilintar de um espanta-espíritos estrategicamente colocado atrás da porta, vejo uma das abas do parque e entretenho-me a observar a azáfama da gente, enquanto me aqueço com o café servido numa caneca de tamanho gigante.
No mais completo anonimato e no silêncio que nos oferece o estarmos sós, gozamos desse inquestionável privilégio de sermos e estarmos com quem queremos, à boleia do pensamento.
Eu penso em ti.
E continuo a pensar em ti por entre aromas de café, algures por sobre a Biscaia e quando nem só uma luz vislumbro no breu que me oferece o lugar à janela do avião.
Depois adormeço… e quando acordo já vejo infinitos pontos de luz em tom dourado, e não tardo a sentir que descemos para Lisboa.
Reconheço a margem sul, o Cristo-rei… e a lua cheia temperou de prata a noite do Tejo que é hoje e como nunca, um abraço de água que me une a Lisboa.
E Lisboa és tu, muito mais do que qualquer detalhe em pedra que sobressaia do casario…
E o ar de Lisboa que respiro quando aterro é o mesmo ar que tu respiras… e por isso chamo a Lisboa a minha casa.
Depois sigo no carro.
Continuo e continuarei sempre a pensar em ti; e às vezes sinto que cada segundo, cada partícula de tempo é menos um quanto na distância que nos separa.
“Só vou por onde me levam meus próprios passos…”
O “Cântico negro”.
O avião onde hoje viajei chamava-se José Régio e na bagagem trouxe umas meias coloridas que te oferecerei num destes dias por entre beijos de amor.
Eu vou definitivamente para ti na mais verdadeira consciência dos meus próprios passos.