quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

A luta continua…


O Homem é um ser competitivo e não há território que esteja isento de luta; reconheço-o desde que assistia às discussões entre as minhas tias-avós Maria e Joaquina relativamente ao estatuto de mais doente.
- Toda a semana me tem doído um dedo.
- Um dedo… A mim há meses que me dói um braço.
E aprendi desde cedo que a vida é uma competição…
Ainda na Escola Secundária de Vila Viçosa, e porque no 11º Ano e na disciplina de Socorrismo, tanto eu como os meus dois competidores para o título de melhor aluno, tínhamos vinte; disputávamos quem é que conseguia o vinte em menos tempo.
E um dia quando o primeiro acabou e o comunicou a toda a turma:
- Já acabei!
Ouviu-se:
- Puxa o autoclismo.
E hoje…
Assistimos quase diariamente às disputas entre pais ou entre avós relativamente às performances escolares dos filhos ou netos naquilo que parece a eleição do Mr. Einstein 2015; as mulheres competem relativamente à eficácia dos drenantes e outros produtos dietéticos que utilizam, dos efeitos dos cremes anti-estrias, disputam as roupas, as marcas das carteiras, as unhas de gel, o cabeleireiro… e até a simpatia e profissionalismo do ginecologista; as crianças fazem campeonatos informais sobre os brinquedos, as idas à Eurodisney, as festas de aniversário e os jogos da playstation; os povoadores de sacristia sobre a autoproclamada santidade que esmaga desde logo a devida humildade de um crente; os vizinhos dos prédios disputam o mês e o ano das matrículas das viaturas, para além das raças dos cães que passeiam de manhã, em roupão e entre remelas; as “bichas” discutem a qualidade do hotel em que ficaram alojados na Gran Canária durante o verão passado, para além do jeito especial para cozinharem Bacalhau Espiritual; os condutores competem por um lugar mais à frente na fila da ponte; os homens frequentadores de ginásio competem pela expressão dos seus músculos, e nos balneários e de forma informal, sobre outras inevitabilidades genéticos que se expressam em centímetros; os condóminos utilizam as reuniões para elegerem a habitante do prédio com estatuto de “mais badalhoca”; os supermercados competem supostamente pelo preço; os políticos disputam os votos pelos outdoors onde até é possível observar cartazes bilingues do Bloco de Esquerda em Alemão e Português, ou cartazes do Partido Socialista com a palavra “Confiança”, a lembrar-nos que há gente que nem “com fiança” consegue estar fora da prisão e ir a votos…
Ontem ao princípio da tarde partilhei elevador num edifício de Lisboa com dois indivíduos que disputavam as performances dos carros. A métrica era a aceleração na subida de Monsanto na A5. A minha presença ainda os espicaçou mais e quase vi jeitos de ter de intervir como árbitro de boxe. Quando a porta se abriu e saí antes deles fiquei claramente que ainda se iam pegar ao estalo.
Depois de me ter sentado numa esplanada e ter disputado o lugar na mesa com um casal, tomei um café e tomei estas notas.
A luta continua…
Ah… é verdade, no 11º ano fui eu que consegui o prémio para o melhor aluno uns meses depois de ter mandado puxar o autoclismo. 

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