quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Um eléctrico chamado Lisboa


Apesar de hoje percorrer a distância entre Vila Viçosa e Lisboa pela Auto-estrada A6 em pouco menos de 2 horas, jamais me esquecerei das minhas primeiras viagens a Lisboa, feitas de comboio e que duravam cerca de 6 horas. Na parte final destas viagens, tinha o privilégio de entrar em Lisboa pela sua porta maior, o Tejo, fazendo a travessia desde o Barreiro até ao Terreiro do Paço, mais propriamente até à estação de Sul e Sueste.
Pelo facto dos meus tios viverem na Ajuda, chegados ao Terreiro do Paço, apanhávamos o eléctrico 18 e aí seguíamos nós passando por S. Paulo, Santos, pelo Calvário, Alcântara e Santo Amaro.
Sempre apreciei estas viagens e apesar dos autocarros de dois andares também serem uma tentação para um rapazito Calipolense chegado à cidade, os eléctricos foram sempre o meu meio de locomoção preferido em Lisboa.
Os populares “amarelos da Carris”, de bilhete e acesso mais económico, predispuseram-se desde sempre a receber a gente do povo mais genuíno de Lisboa, e, sentados ou em pé, mais ou menos apertados, esta gente que faz a cidade pulsar em cada dia, coloriu desde sempre este espaço com o seu jeito de ser, andar, estar e falar, transformando-o em pedaços móveis de uma Lisboa sobre carris.
O eléctrico transportava a peixeira e a mulher da fruta que depois de se abastecerem na Ribeira, levavam os víveres até aos recantos mais ínfimos dos bairros da cidade, transportava o ardina e o cauteleiro, oferecendo a todos a acústica perfeita para os seus pregões típicos, elementos essenciais da banda sonora da cidade. Até os rapazes mais reguilas e sem disposição para pagar bilhete, conseguiam a boleia do eléctrico, agarrando-se a alguma peça exterior do veículo até ao momento em que algum polícia, guarda-freio ou revisor os afastava na paragem mais próxima.
Depois, quem desenhou estes eléctricos fê-lo com Lisboa na lembrança, possibilitando que eles entrem em todos os espaços da cidade, desde as praças até às ruas mais estreitas onde as janelas da máquina se quedam a centímetros dos parapeitos das suas congéneres das casas, em actos de intimidade e cumplicidade maior com a cidade mais típica e popular.
Os eléctricos de Lisboa cumprem hoje o seu 110º aniversário e eu presto-lhes homenagem. Eu e o Google.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O vulcão que não se apaga

Quando entrei no ano de 2011, fi-lo na companhia de um grupo de amigos no qual se encontrava o meu amigo Rogério.
De taça de espumante na mão, a vermos ao longe a imponência iluminada do Mosteiro da Batalha, e quando as aldeias em volta se entretinham numa disputa de cor e estrondo pelo melhor fogo de artificio, brindámos ao novo ano e fizemos votos de prosperidade e dias bons.
Nessa noite, como aliás em todas as outras noites e dias em que estivemos juntos, o Rogério, sempre o mais velho do grupo, para além de cozinheiro-mestre, foi o indutor da boa disposição, o mote para nos rirmos e sentirmos felizes.
O seu invejável sentido de humor associado a uma inteligência e perspicácia superiores, fizeram com que nem eu, nem ninguém acredito, tenha estado alguma vez com o Rogério sem ter a oportunidade de dar das melhores e das mais sentidas gargalhadas da sua vida.
O Rogério nasceu para ser antídoto do silêncio e da tristeza.
O olhar do Rogério, o seu ar tranquilo, o seu falar a sério e a brincar, a sua pose descontraída, acabaram sempre por me revelar o segredo dessa mágica alegria que ele transportava: o Rogério vivia bem consigo próprio e com os demais.
Sem aceitar quaisquer espartilhos sociais, culturais, religiosos ou outros, o Rogério expressava a tranquilidade dos que vivem a vida que acham que devem viver, expressava a felicidade dos que nem só por uma vez deixam de fazer aquilo para que os impulsiona a ânsia de bem viver, expressava o conforto das pessoas boas e generosas que não conseguem olhar para a sua felicidade sem casá-la sempre e automaticamente com a felicidade de todas as outras pessoas que as rodeiam.
No passado dia 13 de Agosto, encontrava-me eu a atravessar o Estreito de Messina, a cruzar esse ponto onde a Sícilia mais se aproxima do continente Italiano e onde apenas por modestos três quilómetros mantém o seu estatuto de ilha, quando um amigo comum me telefonou e informou que o Rogério tinha partido.
O meu ano de 2011 não vai poder acabar assim da forma como começou porque o Céu resolveu recrutar um anjo feliz.
Mas ali de frente para a Sícilia, e inspirado talvez pelo Etna que insiste em manifestar a sua vida emitindo o clarão do fogo pela cratera, eu tive a certeza de que o Rogério não morrerá nunca porque isso só aconteceria se algum dia se apagassem em nós as memórias, as lembranças, os sentimentos da sua presença e do tempo em que tivemos o privilégio de partilhar a nossa com a sua vida, facto que é impossível de acontecer porque a sua grandeza teve o poder de nos marcar para sempre.
E quando um dia nos voltarmos os dois a encontrar para nos rirmos e fazermos festa, farei todos os brindes de ano novo que ficaram por fazer e todos aqueles em que no futuro sentirei saudades dele.

sábado, 27 de agosto de 2011

Bica, pastel de nata, imperial, bom peixe e descontrolo orçamental.

Sempre encarei o regresso de férias com um sentimento misto de lamento pelo fim das ditas e pelo fim dos dias bons de descanso em sítios diferentes dos do meu dia-a-dia, e também de conforto por dar resposta à vontade de voltar que a bendita saudade lusa sempre provoca em nós.
Abrir a janela pela manhã e ver o azul do Atlântico, sair de casa e sentir o nosso calor de verão, comer um simples peixe grelhado acompanhado de batatas e legumes temperados com azeite e vinagre, comer uma açorda de coentros acompanhada por uma posta de pescada e um ovo cozido, tomar um café dos nossos, e, quando podia e não era diabético, acompanhar o café com um valente pastel de nata, essa verdadeira maravilha da doçaria cá do burgo, que não tem igual por esse mundo fora, tratar a cerveja por imperial e acompanhá-la de um prato de tremoços, comprar “A Bola” e saber as últimas notícias do Benfica, poder falar ao telefone com os amigos sem estar preocupado com o maldito “roaming” e as suas taxas elevadas, conseguirmos sem entendidos sem deixar de falar na língua de Camões, acertarmos no caminho daqui até ali sem ter de aturar a voz metálica do GPS …
Tudo isto faz parte do meu conforto no regresso a casa e, pastel de nata à parte por motivos de saúde, acho que já me reencontrei com tudo o resto.
Por ter estado alguns fins-de-semana fora da pátria sem ter quaisquer contactos com jornais, revistas, rádio ou televisão aqui da nossa terra, o que confesso, me agradou sobremaneira, eis que hoje decidi abordar o sábado fazendo a minha actualização, mergulhando no sofá repleto das publicações que habitualmente me fazem companhia.
Não há surpresas.
Está tudo igual ao de antes: o BPN continua um problema, o memorando da troika é a nova Bíblia de onde emerge o mandamento maior que nos manda pagar impostos e, toda a gente se anda a escutar ilegalmente através de serviços que se dizem secretos mas que de secretos têm afinal apenas o nome.
Foi rápida então a minha actualização no regresso ao mundo das notícias de Portugal de tal forma que tive a sensação de que aqui nada muda. Infelizmente, digo eu.
Mas é bom estar de volta.
Soubéssemos nós governar-nos e Portugal, com bicas, pastéis de nata, imperiais e bom peixe, seria de facto o paraíso.
Menos mal que nos resta o conforto do estômago para nos manter viva a alma.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Roma – Messina – Atenas – Éfeso - Creta


O título deste post foi o roteiro da minha última semana, a bordo do navio “Navigator of the Seas”, um verdadeiro hotel de luxo, flutuante, americano, em conjunto com mais de 4000 mil almas, sendo 3200 passageiros como eu.
Mais de 1000 italianos e quase 1000 americanos, pertencendo muitos destes últimos, à parte “burgessa” dos sobrinhos do Tio Sam, aqueles que olham para a Acrópole com o mesmo interesse com que eu vejo na TV o resumo do jogo ente o União da Madeira e o Ponta do Sol, daqueles que com ar inteligente nos perguntam de imediato ao dizermos que somos de Portugal:
- Isso é na Europa, não é?
Mas vizinhanças à parte e, convenhamos que em ambiente de férias, estas “anedotas” até nos divertem, verdade seja dita que o “Navigator” cumpriu exemplarmente a sua missão de fornecedor de conforto e que melhor teria sido impossível para numa semana poder em segurança visitar locais tão importantes e significativos, com eficácia e sem quaisquer incómodos.
Só falharam as comunicações e por isso o meu post anterior foi publicado com atraso e o meu relato de viagem ficou adiado para melhores dias e melhores satélites.
Já o sabia há muito e foi bom poder comprová-lo e sobretudo saboreá-lo, que o Mediterrâneo, para além de um duro terreno de infinitas batalhas e luta pelo poder, foi o núcleo catalizador dos tempos modernos, o cenário que inspirou o Homem a se encontrar consigo mesmo e a estabelecer regras no seu relacionamento com os demais quer seja no âmbito politico, económico ou até familiar, o espaço onde aprofundou saberes para melhor conhecer o mundo e onde se encontrou com Deus e fez da fé uma vivência real.
O Mediterrâneo foi um caldeirão onde se cozinhou modernidade e onde o Homem se pode tornar mais Homem porque mais completo.
Calcorreando todos os caminhos e olhando as pedras, as árvores, as construções, a memória das pessoas que associamos aos lugares, e até o azul tranquilo do imenso mar, registamos que tudo carrega História e tudo ajuda na descodificação do que somos hoje.
A Acrópole em Atenas é um altar à divindade do saber e da liberdade, expressões máximas da humanidade que todos carregamos.
Em Éfeso, nos apenas 10% de cidade que vemos à superfície, todos os recantos parecem replicar os ecos das palavras de Paulo e daqueles que em tempos de grande adversidade pegaram e deram seguimento heroicamente à missão do Ressuscitado.
Mediterrâneo. Património da Humanidade de valor incalculável.

Preciosíssimos construtores de fé


Há precisamente 45 anos, no dia 6 de Agosto de 1966, a ponte 25 de Abril, então Ponte Salazar, era inaugurada, e eu, com apenas um mês e um dia de existência, era baptizado na Igreja de S. Bartolomeu em Vila Viçosa.
Por vontade expressa dos meus pais, nesse domingo dizem que muito quente de Agosto, eu nasci para a fé católica e fiz a “ponte” para a comunidade dos crentes.
Hoje, dia 6 de Agosto de 2011 estou acompanhado pelos meus pais, em Roma, o lugar maior e centro do catolicismo, e assinalo este dia com alegria e já adulto, renovo e reforço os votos de fé que os meus pais então por mim fizeram.
No nosso passeio de hoje, quando íamos da Praça de Espanha em direcção à Fontana de Trevi, mesmo quase a chegar a esse lugar mítico abençoado para sempre pelo romance de Mastroiani e Ekberg, numa pequena igreja, vejo-me com os meus pais ante o túmulo de S. Gaspar del Búfalo, Santo e fundador dos Missionários do Preciosíssimo Sangue, desde há muito os responsáveis pela minha paróquia de sempre em Vila Viçosa, a de S. Bartolomeu.
O padre que me baptizou há 45 anos era Missionário do Preciosíssimo Sangue.
Mas o meu pensamento neste momento de confluência do lugar presente com a memória passada foi para dois Missionários e meus Párocos, duas pessoas de excepção que tiveram uma influência muito grande no crescimento dessa fé nascida nesse dia em que entre Lisboa e Almada deixou de haver apenas Tejo: o Padre José Luís Francisco e o Padre Armando Tavares.
Do Padre José Luís guardarei para sempre a imagem de um Guerreiro da Fé, a coerência, o rigor e a elevada exigência que se impunha e recomendava a todos de que não há “semi-fés”, quando ela existe, tem de ser completa e tem de ter expressão em todos os momentos e opções da nossa vida.
Em tempos quentes, politicamente falando, recordarei sempre as suas homilias de coragem, num tempo em que em Vila Viçosa, muitos dos cristãos que hoje vestem capas de confrarias, eram MRPP’s e praguejavam contra os Cristãos e contra Jesus Cristo.
Os heróis são sempre os coerentes que mesmo em condições adversas nunca desistem dos seus ideais e o Padre José Luís foi claramente um herói e uma referência para a minha fé.
O Padre Armando apareceu depois e numa fase em que eu e os meus amigos, na adolescência e na juventude, mais necessitávamos de alguém que nos ajudasse a alinhar a nossa vida, a nossa fé, com o tempo que vivíamos.
O inicio dos anos 80 foram de mudança na música com a explosão do Rock Português, na forma de rir, com o aparecimento do Herman José, na forma de vestir e falar, com a televisão a cores e as telenovelas e séries de televisão mais ousadas, e nós neste turbilhão de mudança, necessitávamos de alguém que fosse bússola e nos dissesse que a fé cabe em tudo o que fazemos e queremos ser e ter, porque a fé somos afinal nós próprios e Deus.
Formámos com o Padre Armando um grupo a que chamámos Sementes de Esperança e nas noites de quarta-feira, roubávamos o serão ao descanso e à televisão para nos encontrarmos e discutirmos todos os assuntos, polémicos, desconfortáveis, mas para nós importantes, muitos dos quais nem coragem tínhamos para discutir em casa com os nossos pais.
O Padre Armando foi um indutor de maturidade para a nossa fé no momento em que crescíamos como Homens.
Hoje, aqui junto ao túmulo do fundador da congregação que abraçaram, lembrei-me deles, até porque as notícias sobre a saúde de ambos não são as melhores.
Agradeci a sua presença na minha vida e rezei por eles e pelo seu futuro, estando certo que os Homens quando são grandes não necessitam de ver para saber apontar caminhos, nem necessitam de pernas vigorosas para nos ajudar a caminhar até à felicidade.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Veneza - Roma

O comboio deixou lentamente a estação de Santa Lucia, em Veneza, e olhando à direita, a imensidão da água e a infinidade de pequenas ilhas, quase nos dão a ilusão de termos dispensado os carris e estarmos a andar directamente sobre a água.
Apanhando-se em terra firme, o comboio acelera fazendo jus à sua condição de Alta Velocidade. Já que a nossa está agonizante intoxicada pela crise financeira, resta-nos aproveitar a dos que estando também em desacerto financeiro, se anteciparam e aceleraram antes os comboios.
Paramos em Pádua mas sem tempo para ir visitar o nosso Santo António, que descansa aqui mas será sempre da terra onde nasceu, a nossa Lisboa.
Segue-se Bolonha, a cidade que para além da famosa Esparguete à Bolonhesa passou também a ser conhecida pela “encolhe cursos”, e depois, Florença.
E aí está o pecado e crime do dia.
Passar por Florença e não descer do comboio para pelo menos cumprir o mínimo triangulo Catedral / David / Uffizi é motivo para pena capital.
A redenção obriga-me a voltar cá em breve, e como eu não me importo nada de cumprir o veredicto que de castigo não tem nada.
Mas o destino hoje é Roma, e para a Cidade Eterna, o comboio acelera.
De Florença a Roma, nos lugares vagos no conjunto de seis onde estou sentado com os meus pais, sentam-se três pessoas, e a conversa que nos envolve começa exactamente por esta curiosidade de estarmos ali seis pessoas, dois conjuntos formados por um casal e um dos seus filhos. Todos, pais e filhos, com idades idênticas.
E se há muitas semelhanças quanto ao arranjo familiar, as semelhanças quanto à geografia por onde se movem as duas famílias, são as possíveis entre Vila Viçosa e Phoenix, nos Estados Unidos da América.
Com o recurso da língua de Shakespeare falámos de tudo um pouco: política, religião, finanças públicas, trabalhos, ocupações extra trabalho, desporto, cinema…
Não dei pelo tempo passar, tão entretida foi a conversa e, ao chegar a Roma não pude deixar de pensar que as incompatibilidades neste mundo existem apenas quando e onde nós queremos que elas existam, porque se nos guiarmos pela dimensão do encontro, não há diferença que não possa ser entendida como uma cor que avive e enriqueça o todo formado pelo muito que sempre nos une a todos.
Importa que comecemos sempre por nos fixar no que nos une e façamos disso o nuclear das nossas vidas.
E depois, afinal, o mundo é sempre tão pequeno.

Comprovo também a pequenez do mundo com o episódio que vos conto a seguir.
Chegados a Roma, elegemos a Basílica de S. Pedro como primeiro alvo a visitar e ali, parados em frente ao novo altar onde se encontra e venera o Beato João Paulo II, ouvimos uma voz familiar por detrás de nós.
Um nosso conhecido de Vila Viçosa, pessoa que eu não via há muitos anos, mas que muitas vezes brincou comigo na rua onde nasci, estava ali também com a sua família, o que foi motivo para todos nos regozijarmos com a situação.
Então? É ou não verdade que o mundo é pequeno?
É verdade! É um facto!
Mas também vos asseguro que o que faz encolher o mundo são os afectos, que quando existem e se procuram, acabam sempre por matar o longe e a distância.

Veneza


O táxi é um barco que nos traz de uma forma “italianamente” veloz do aeroporto até esta avenida de água, majestosa, que é o Grande Canal.
Por entre palácios, gôndolas e turistas, desembarco após ter passado por debaixo da Ponte de Rialto e mergulho no emaranhado de ruas, excessivamente estreitas por estes dias, tanta é a gente que por elas circula.
É verão e Veneza alugou o rés-do-chão do seu território a comerciantes e turistas, que quão formigas agarradas a uma migalha de pão, se colam a máscaras de Carnaval, cristais de Murano, Pinóquios de madeira, enfim, algo que possam levar para os seus lares de forma a testemunhar que um dia estiveram aqui na cidade onde todos alguma vez sonhámos poder vir namorar.
Para olhar a verdadeira Veneza, a de todos os dias, a dos Venezianos, é necessário olhar para o que fica para lá de cinco metros acima do solo.
Observo um gato que do alto da sua janela não se deixa perturbar e nunca perde a pose altiva mesmo quando as “paletes de Americanos”, os compatriotas das Agências de Rating, lhe passam por debaixo do parapeito e lhe destroem a paz.
- Aprende Europa do Euro. Põe os olhos neste bicho e não vergues nunca!
Mas continuo o meu caminho sem me importar pelos bandos de turistas pois sei que este arrendado de ruas, ruelas, pontes e becos, me levará ao paraíso: a Praça de S. Marcos.
Não conheço infelizmente, todas as praças do universo, mas daquelas em que já estive, esta é de longe a mais fantástica de todas.
Neste lugar, o Homem esteve no topo da sua perfeição e interpretou melhor do que em qualquer outro lugar, os planos do Criador quando pôs mão e fez deste espaço um recanto mágico da Terra.
Os lugares, tal como as pessoas, quando são importantes, marcam a nossa vida com um antes e um depois e garanto-vos que depois de S. Marcos em Veneza, tudo parece menos grandioso.
Saboreados os recantos da Praça, e porque não tenho tempo para ir ao Lido, recordo apenas de longe os trilhos da Morte em Veneza que Thomas Man escreveu e que Visconti transformou em guião para um dos filmes da minha vida.
Resolvo então deambular pela arte, sempre em slalom pela multidão que continua a atacar souvenirs e fatias de pizza, e de igreja em igreja, no soturno de lugares que a uma primeira espreitadela quase nos convidam a virar costas, revisito pinturas que por direito próprio e mérito maior dos seus autores, estão no catálogo das obras mestras da humanidade.
Não perco S. Roque, entre a Academia e a igreja, e esse banho de Tiepolo, porque a cada visita há sempre algo que se nos revela em detalhe até aí imperceptível.
E sem quase dar conta, é tempo de partir, mas com a certeza de regresso rápido, porque para os sítios importantes não é necessário ter pretextos para ir de visita, eles impõem-se no mapa das prioridades das nossas vidas.