segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O vulcão que não se apaga

Quando entrei no ano de 2011, fi-lo na companhia de um grupo de amigos no qual se encontrava o meu amigo Rogério.
De taça de espumante na mão, a vermos ao longe a imponência iluminada do Mosteiro da Batalha, e quando as aldeias em volta se entretinham numa disputa de cor e estrondo pelo melhor fogo de artificio, brindámos ao novo ano e fizemos votos de prosperidade e dias bons.
Nessa noite, como aliás em todas as outras noites e dias em que estivemos juntos, o Rogério, sempre o mais velho do grupo, para além de cozinheiro-mestre, foi o indutor da boa disposição, o mote para nos rirmos e sentirmos felizes.
O seu invejável sentido de humor associado a uma inteligência e perspicácia superiores, fizeram com que nem eu, nem ninguém acredito, tenha estado alguma vez com o Rogério sem ter a oportunidade de dar das melhores e das mais sentidas gargalhadas da sua vida.
O Rogério nasceu para ser antídoto do silêncio e da tristeza.
O olhar do Rogério, o seu ar tranquilo, o seu falar a sério e a brincar, a sua pose descontraída, acabaram sempre por me revelar o segredo dessa mágica alegria que ele transportava: o Rogério vivia bem consigo próprio e com os demais.
Sem aceitar quaisquer espartilhos sociais, culturais, religiosos ou outros, o Rogério expressava a tranquilidade dos que vivem a vida que acham que devem viver, expressava a felicidade dos que nem só por uma vez deixam de fazer aquilo para que os impulsiona a ânsia de bem viver, expressava o conforto das pessoas boas e generosas que não conseguem olhar para a sua felicidade sem casá-la sempre e automaticamente com a felicidade de todas as outras pessoas que as rodeiam.
No passado dia 13 de Agosto, encontrava-me eu a atravessar o Estreito de Messina, a cruzar esse ponto onde a Sícilia mais se aproxima do continente Italiano e onde apenas por modestos três quilómetros mantém o seu estatuto de ilha, quando um amigo comum me telefonou e informou que o Rogério tinha partido.
O meu ano de 2011 não vai poder acabar assim da forma como começou porque o Céu resolveu recrutar um anjo feliz.
Mas ali de frente para a Sícilia, e inspirado talvez pelo Etna que insiste em manifestar a sua vida emitindo o clarão do fogo pela cratera, eu tive a certeza de que o Rogério não morrerá nunca porque isso só aconteceria se algum dia se apagassem em nós as memórias, as lembranças, os sentimentos da sua presença e do tempo em que tivemos o privilégio de partilhar a nossa com a sua vida, facto que é impossível de acontecer porque a sua grandeza teve o poder de nos marcar para sempre.
E quando um dia nos voltarmos os dois a encontrar para nos rirmos e fazermos festa, farei todos os brindes de ano novo que ficaram por fazer e todos aqueles em que no futuro sentirei saudades dele.

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