segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Boa noite e um olhar


A noite caíra há muito sobre a imponência granítica da cidade, e na tarde e noite do Porto, nem apenas por um segundo a chuva dera uma trégua, privando-se de soar intensa nas cascatas promovidas pelos mais altos beirais.
Não se sente frio, mas persiste o desconforto da água…
Paro o carro algures no acanhado espaço do subsolo inventado por um somítico arquitecto e preparo-me para à superfície, iniciar o slalom entre gotas da chuva, nos cem metros que distam entre o parque e o meu hotel, ganhando essa dose de coragem protegido por uma tímida arcada de pedra.
Apercebo-me que não estou só naquele espaço diminuto em que apenas os ladrilhos mais chegados à parede, estão a salvo da incessante persistência da chuva.
Ao fundo à direita, há uma mala de viagem da Samsonite e ao lado umas sapatilhas brancas de uma marca que não distingo.
Próximo, sentado numa esteira de praia daquelas que as revistas do Jet Set nos oferecem em tempo de verão, está um homem que aparenta ter quarenta anos, descalço, de perna trocada e semi-coberto por um edredão, a ler um jornal amarrotado.
Prepara-se para dormir.
Cruzamos os nossos olhares.
O dele é calmo e terno, o meu, confesso, mal disfarça a vergonha que sinto.
O meu fato, a minha gravata, mas sobretudo o meu certo destino confortável de uma cama limpa e quente, faz-me sentir um agressor perante a miséria daquele homem que poderia ser eu.
Hoje em Portugal, a pobreza tem o nosso rosto e o nosso nome, não se limitando apenas às franjas da toxicodependência, do alcoolismo ou da marginalidade.
Somos nós os novos pobres de um velho Portugal que insiste em jamais partir e que parece destino.
O país do betão, de Cavaco, o país das pessoas em primeiro lugar, de Guterres, o país da ilusão de seguir o Cherne, de Barroso e Santana, o país “porreiro” das novas oportunidades, de Sócrates, está aqui deitado ao relento e à chuva, neste tempo que se constitui como mais um Alcácer-Quibir.
Ficamos uns segundos a olhar um para o outro, e sorrio-lhe enquanto da boca apenas me sai um tímido:
- Boa noite.
Retribui-me os votos de boa noite, e volta depois à sua leitura do jornal, enquanto eu sigo rua fora, sem me importar ou sequer me aperceber da chuva que cai.
Arrasto as malas. A memória carrega aquele olhar e o coração transborda de revolta.
Basta!
E este é o mínimo que posso fazer pelo meu compromisso com a dignidade que sendo dos meus semelhantes, é também a minha.
Sempre, e enquanto tiver voz.

domingo, 21 de outubro de 2012

Tarde de Outono


Não fora conhecer de cor todos os contornos da vista da minha janela preferida aqui de casa, e diria que lá ao longe, a curva da Mata dos Medos e da Caparica, que me revela todos os dias o esplendor do Cabo Espichel, jamais existira.
Não há Tejo ou Atlântico no meu horizonte, só o nevoeiro, que há séculos sabemos jamais nos trará de volta “Dons Sebastiões”, mas que nos oferece esta estranha sensação de “paraíso” no outro lado do mundo, da Nicole Kidman como Grace no fantástico “Os Outros”, de Alejandro Amenábar.
Faço um café. Mas de saco, que os dias assim pedem mais do que um sorvo potente de uma Bica ou Cimbalino, pedem uma caneca cheia para prolongar ao limite o conforto do aroma e do sabor.
Passo pela televisão e não consigo que um canal sequer me prenda a atenção, de entre as dezenas disponibilizadas pela minha box Zon,
Desligo assumindo sem pudores que há definitivamente uma linha que me separa dos gostos televisivos da maioria dos meus compatriotas numa tarde de domingo, e por essa linha deixo-me ir até à aparelhagem, hesitando todavia na banda sonora a eleger para o momento.
Uma tarde assim está a pedir definitivamente, fado, e a Kátia Guerreiro há muito não sai da prateleira:
“Talvez tu não conheças mas existe
Um bosque de folhagem permanente
aonde não te encontro e fico triste
Mas só de te buscar fico contente”
Aninho-me no sofá, tapo-me com a minha manta vermelha de mangas, e não coloco reservas a que o pensamento voe pelas palavras dos poetas, desfrutando desse único massajar de alma que só nós lusitanos conseguimos capturar dos acordes da guitarra que fizemos nossa.
A lareira já está acesa e as castanhas assam no forno e não tardam a estalar-me quentes entre os dedos, quando o chá verde da Gorreana com aroma de jasmim vier dar continuidade à cafeína, nas minhas bebidas desta tarde.
Lá fora escurece e o nevoeiro está cada vez mais intenso. Por hoje, o sol desistiu.
Pouco ou nada me importa.
Há dias que são os melhores, apenas e só por nos devolverem a nós.

sábado, 20 de outubro de 2012

Pães de Deus


Lisboa revela-se esplendorosa na manhã de Outono, descortinando-se pela imensidão da luz, à medida que avanço por entre as folhagens ocres, castanhas e vermelhas de Monsanto.
Encontro a Patrícia triste mas carregada de fé, e na capela onde repousa a sua avó, sentamo-nos a falar das memórias que perpetuarão viva esta senhora que eu nunca conheci pessoalmente, mas apenas e só pela demonstração dos afectos que a sua neta, com quem tenho o grato prazer de privar diariamente, infinitamente lhe dedicava.
E de cuidados de mãe, de carinhos, de fofos Pães de Deus na merenda para a escola, de rosas brancas e declarações de amor, se foi fazendo a nossa conversa.
Uns instantes mais tarde, estando com um colega na área que é uma espécie de corredor de acesso às capelas, somos interpelados pelo sacerdote que vem para oficiar o funeral.
Cumprimenta-nos e surpreende-se quando o trato por Senhor Padre, tendo então de lhe explicar que uma cruz na lapela e um saco de papel com uma alva e uma estola de cor roxa, são sinais demasiado fáceis para o “descodificar”.
Explica-nos então que acabou de chegar, que vai presidir à Eucaristia e de que necessita de informação básica que lhe permita enquadrar a sua tarefa no funeral de uma senhora de 97 anos.
Questiona:
- Como era a vida desta senhora?
Nem nos deixa responder e complementa:
- Talvez nem os senhores, que não novíssimos, consigam saber? Esta senhora nasceu em 1915…
Dos presentes ali naquele momento, ninguém é da família, pelo que nos olhamos, hesitamos por momentos, mas acabamos por responder:
- Esta senhora, em 2012, vivia no contexto de uma família que a amava e passou pela doença com o conforto, os carinhos, o afecto, e todas as expressões de amor dos que a rodeavam.
Surpreende-se com a nossa resposta e sente-se na obrigação de se justificar:
- É que muitas vezes estas pessoas estão em lares a viver dias difíceis e a sua partida é quase uma bênção.
Perspicácia, bom sentido de observação e conhecimento da realidade… mas tristes vão os tempos quando até um Padre da Igreja Católica já assume que a regra é a indiferença e que a excepção, a tão pouco expectável ocorrência, é o amor.
Sorri tímido mas sinto-lhe o conforto de estar entre a sua gente, prole dos afectos, e solta-se exactamente pelos afectos. Consigo então e a posteriori ,ler prudência na sua questão inicial que me causou incómodo.
À medida que se paramenta, apresenta-se a todos os que foram chegando, e celebra a Eucaristia com um toque pessoal de intimidade, na palavra e nos gestos, que a todos nos deu o gosto de estar em família.
O amor, sentido e partilhado, jamais deixará de ser o melhor mote para todos os momentos. É e será sempre a suprema inspiração.
E pelo amor, sentido na festa de quase um século de felicidade da Avó Alzira, se lhe solta a fala para dizer vida, a nossa vida, e falar da urgência de olharmos para o positivo das pessoas e pormos de parte a mesquinhez do tão pouco que por vezes nos separa…
E pela vida falamos de Deus, que é Pastor, Pão e… Vida.
Devolvo-me à A5 nesse abraço em que a luz de Lisboa me preenche os ombros.
As cores de Monsanto não conseguem mesmo desmentir que é Outono.
Chegarão ventos fortes do lado da Ponte e as vulneráveis folhas, de castanho forrarão o chão, mas não morrendo jamais, as árvores imponentes a que primavera devolverá o viço.
E a queda das folhas no adeus de Outono, é muito pouco perante a Primavera, que é o que mais importa.
É e será sempre assim, muito pouco e fugaz, o adeus na morte para quem carrega o privilégio da fé.
É a Vida, o que mais importa.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Tuga®


Estão ao meu lado a almoçar metades de Pizza enfeitadas de saladas de alface, verdes descarregares de consciência da dieta que os seus volumes exigem, mas que a sua gula e ansiedade de todo impedem de acontecer. São quatro e falam com um sotaque situado algures entre o da D. Dolores Aveiro e do Joe Berardo.
Cometo o pecado da indiscrição, escuto-as e não haja dúvidas, transpiram “portugalidade” por todos os poros.
Porque há marcas que estão mais coladas a nós do que o Pastel de Nata…
O Português nunca está bem, está sempre menos mal. E vai indo.
Quando afirma “eu não sou de dizer mal de alguém”, preparem-se os interlocutores, porque de seguida haverá pelo menos três horas garantidas da mais pura fofoca e maledicência. Não escapará ninguém e isto é não gostando de dizer mal…
Raramente assumimos o apetite e o prazer de comer, travestindo de sacrifício, o gozo que temos em estar sentados à mesa durante horas, degustando todos os pratos entre o pão com manteiga e a inevitável bica.
Elogios?
Só aos mortos e até o mais santo dos santos, há-de ter um defeito que nós não descortinamos mas que por certo estará lá.
Mas dizendo mal de tudo e todos, o que acontece quando se questiona sobre a necessidade de activar uma revolta:
- Não vale a pena. O que é que ganharíamos com isso? Só nos iriamos aborrecer.
Adoramos entrar no Campeonato da Pechincha e sabemos sempre comprar mais e melhor do que os demais, com uma incrível arte para negociar. “Eu conheço um sítio…”
Somos alérgicos à pontualidade e ai de quem a siga cegamente pois é rude, intransigente e insensível.
Em situações de apuros activamos o “desenrascanço” e sem dor “parimos” o misto de “Chico Esperto” e “Mac Gyver” que há dentro de nós. Numa fila de centenas de pessoas à espera para serem atendidas, não raras vezes convivemos com a “lusa lata” de um ser que ultrapassa todos com a jeitosa e costumeira desculpa:
- Vou lá à frente só para uma perguntinha.
Estamos sempre cansados, trabalhamos mais do que todos e mesmo que a nossa actividade seja vender barquilhos na Praia da Costa da Caparica, com todo o respeito pelos vendedores de barquilhos, todos assumimos que sem nós, a República Portuguesa morreria inevitavelmente.
Nós somos sempre importantes. Mas então e os nossos maridos e as nossas “esposas”? Têm trabalhos espectaculares, conhecem toda a gente, fazem carradas de pós-graduações e são capazes de mover a humanidade toda pela sua arte e influência.
E se para além disso existir pelo meio uma casa com piscina ou um filho a caminho de ser doutor, vai lá, vai…
Depois de muito comer e mais conversar, depois das pizzas, dos gelados, das bicas e das águas com gás na versão “Brisa Tónica”, as quatro “Estrelícias XL” minhas vizinhas de mesa, resolvem pagar a conta com quatro procedimentos de multibanco, em competição de cartões dourados, preparando-se de seguida para o regresso à sua Repartição de Finanças, onde por certo receberão as pessoas já à porta e a fazer fila, com ar de sesta e com arrotos de aroma de anchova, patrocinados pela bendita da água tónica.
Funchal, Ilha da Madeira, Portugal no seu melhor.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O menino de Sacavém


O dia amanheceu solarengo na costa do Barlavento junto a Porches, e apenas o Caldeirão, passara já o meio-dia, me começa a revelar as nuvens, primeiro dispersas e depois aglutinadas num tom cinza escuro, que da Ponte Vasco da Gama me fazem ver a face oriental de Lisboa sob uma chuva intensa.
Há gente e mais gente, em todos os recantos do aeroporto. Para lá da nossa língua pátria, facilmente se escuta Inglês, Alemão, Castelhano...
A zona das partidas é uma Babel que se escoa ao ritmo de chamadas para embarque.
Já no avião, espreito pela janela oval que jamais algum Americano por mais poderoso que seja, poderá mandar abrir, e desperta-me a atenção, no contexto cinza deste dia de chuva, o vermelho da camisola de um menino, acompanhado por um adulto, que junto a um portão de rede algures no extremo do aeroporto junto a Figo Maduro, movimenta a mão direita em jeito de adeus.
Ainda no outro dia à mesa do almoço e na grata companhia das minhas colegas, recordávamos o tempo em que meninos, também nós íamos ver os aviões.
E penso então naquele dia pelo início da década de setenta, em que empenhado em mostrar-me Lisboa, o avô Chico, depois de me levar ao Jardim Zoológico, à Feira Popular e à Fonte Luminosa, me trouxe à varanda do aeroporto, para que eu, pela primeira vez, pudesse ver de perto, um avião.
Recordo-me do espanto de então pela dimensão dos aparelhos. Eram bem maiores do que alguma vez imaginara do cimo do tronco da Oliveira que há muito eu transformara em avião no pátio da minha escola.
E prometi a mim próprio que um dia voaria nas asas metálicas desta ave de produção humana, indo muito para lá da mágica Ponderosa, a terra do meu Bonanza.
O meu avião acelera e descola da pista entregando-se aos céus de Lisboa. Rompe as nuvens, e não consigo tirar da memória o menino de vermelho.
Hoje, serei eu a ir no seu sonho?
Se o tiver, que um dia o possa cumprir.
Que possa mesmo cumprir todos os sonhos, até aqueles que são rotulados de impossíveis por estes dias complicados dos cretinos Orçamentos das Finanças da Nação.
Fecho os olhos traído pelo cansaço mas não adormeço sem pensar como todas as coisas simples, e por mais simples e banais que nos pareçam, têm sempre a dimensão dos sonhos de muita gente.
Viver, ganha a dimensão de um dom.
Desfrutar da vida e de todos os seus ínfimos detalhes, é então um retribuir de gratidão.
Mas só ficamos na posse desta consciência quando nos despimos da vã importância que estamos viciados a atribuir a nós próprios, e quando pomos de lado a bacoca opulência de que gostamos de nos rodear, abrindo espaço à suprema inteligência e arte dos simples…
Quando menos esperamos, quando um anjo nos diz adeus…

domingo, 14 de outubro de 2012

Ana e Ricardo


As pedras do caminho alcatifam-se pela força e pela gana que fazem galgar todas as muralhas e abrir de par em par os guarda-ventos das barrocas talhas, para na festa da gente airosa e perfumada, famílias e amigos vestidos de sorrisos, chegar ao cume, ao pico onde há séculos os ritos celebram a fé, e onde basta um despojado Sim para dizer Amor.
Alvas e rubras são as flores que a cor e perfume nos apontam o caminho.
Alvas e rubras, Paz e sangue de Vida, indissociáveis ou pleonasmos reforços do real e intenso Amor.
E o físico repicar dos sinos, que prolonga e amplia o Sim, faz eco planície fora, desta indescritível química do riso profundo de almas em festa.
Olho para o lado, e vejo a Luísa a chorar.
Recordo-me das noites longas da nossa amizade e da festa de partilhar a fé quando jurávamos a certeza de um futuro de dias diferentes e bons.
A vida, hoje, fez-nos compadres.
Cúmplices, nas mãos cheias de pétalas e arroz, estamos mais do que nunca, nesta solarenga tarde de Outono, a cumprir a jura de um dia nascido para, por especial e bom, jamais esquecer.
A Ana e o Ricardo casaram ontem na Igreja do Alandroal e eu e a minha amiga Luísa, juntamente com a Tânia e o Pedro, fomos os seus padrinhos.
Felicidades aos noivos e… viva o Amor.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Tias nas nuvens


No voo de Barcelona para Lisboa, o avião da Portugália vem cheio que nem um ovo, não sendo necessário ir muito para lá do inicio do embarque dos passageiros, para que se instale a maior confusão. Gente, malas e sacos de plástico, competem ferozmente por um espaço que em turística é realmente muito exíguo.
Numa fila com 3 lugares, instalo-me na coxia, sempre naquela expectativa de ver quem me iria companhia.
Foi necessário esperar quase pelo fim do embarque para que aparecessem duas senhoras louras e atacadas de madeixas, magras e com um tom de pele que quase me convenço que estiveram o verão à beira mar e sempre a dispensar protector, e como ele lhe faria bem para protegerem as cicatrizes das operações que fizeram às respectivas bocas. As plásticas cheiram-se a léguas porque semelhantes bocas não fazem parte do catálogo das ditas disponibilizado por Deus por nascimento.
Falam alto, barafustam com a hospedeira e cedo me apercebo que não podendo sinalizar a sua superioridade com assentos em executiva, porque certamente a bolsa não lhes acompanha o estatuto, todo aquele “arraial” é montado para que nos apercebamos que à nossa aeronave chegaram dois seres especiais.
Levanto-me para as deixar passar, elas ignoram-me literalmente, e sentam-se sempre a praguejar naquele tom de voz desenvolvido algures entre o bagaço, o tabaco e os tiques adquiridos na fila do Santini, em Cascais.
Penso então para comigo:
- Bem-vindo ao mundo das tias.
Começo a observá-las com mais atenção. Discretamente, claro.
Vejo que a altura é falsa e o doping advém de uns sapatos compensados que parecem ter sido roubados a uma Drag Queen à porta do Finalmente.
Com certa atracção pela selva, reparo que uma tem umas calças com padrão de piton e a outra, uma camisola que faz dela um tigre escanzelado. Autênticas feras.
Acompanham as palavras com carícias às madeixas e por isso a conversa sai-lhes com um acompanhamento sonoro e metálico do choque de infinitas pulseiras e anéis.
Entre as carteiras, os adereços e a roupa, reparo que têm mais LV’s espalhados pelo corpo do que flores tem um jardim botânico. Só não consigo confirmar se de verdadeiras peças se trata, ou se andaram loucas pelas Ramblas a correr atrás de contrafacção.
Sabendo eu que não é elegante e educado ouvir as conversas alheias, sempre vos digo que pelo tom de voz das minhas companheiras de viagem, só não as ouviria se estivesse sob o efeito de uma anestesia geral. Aliás, a conversa é para que todos escutemos e é assim mais ou menos semelhante a uma prova de memorização dos locais assinalados no guia do American Express.
Só diminuem o tom de voz para falar de alguém ao estilo fofoca e aí só eu e os mais próximos, ficamos a saber que falam da Picas, da Tochas, da Lupa, da Poupas e da Teka. Esta última deduzo que a mais quente de todas pois para partilhar nome com fornos de encastrar…
Tratam-se por você e reparo que uma delas troca os R’s por G’s, o que lhe oferece uma sonoridade muito particular:
- “Esta guevista está supé desinteguessante”.
A hospedeira serve um gelado que elas rejeitam e pedem mais tarde um sumo de tomate temperado com sal e pimenta, o qual saboreiam enquanto vão o mais longe que podem na análise política do momento:
- Vê-se que o Paulo está nisto a contragosto.
- Ele de facto não pode “fazegue” nada.
Confirma a Miss G’s.
E assim distraído, nem dou pelo tempo passar e quando dou conta já estamos em solo pátrio e banhados pela luz de Lisboa.
Levanto-me, retiro as minhas bagagens e resolvo surpreender as “minhas tias”.
Quando chega a minha vez de avançar para sair do avião, estanco, travo o passo aos que estão atrás e faço-lhes sinal para que se levantem e saiam antes de mim. Talvez embalado pelos gritos de toda a viagem, solto um “faço questão” tão alto que até eu me surpreendo com ele.
E elas não resistem, levantam-se, recolhem as trouxas e saltam felizes à minha frente no seu delírio tilintar de pulseiras, não sem antes sorrirem e me dizerem:
- Obrigadaaaaaaaaaaaaaaaa!
- De nada.
Respondo pensando para mim:
- Obrigado pela companhia e… pela comédia gratuita.
Tias nas nuvens. Caricaturas de Portugal nos céus da Península Ibérica.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Viva a República!


A bem da produtividade e como parte do nosso processo contínuo de “gerrmanização”, celebramos hoje pela última vez a implantação da República como feriado nacional.
Para o ano, para além da República a 5 de Outubro, deixamos também de celebrar com feriado a festa móvel do Corpo de Deus, Todos os Santos, a 1 de Novembro, e ainda a Restauração da Independência a 1 de Dezembro.
Permanecerão feriados, a Fraternidade Universal a 1 de Janeiro, a Sexta-feira Santa da Paixão de Cristo, a Liberdade no 25 de Abril, o Dia do Trabalhador a 1 de Maio, Nossa Senhora da Assunção a 15 de Agosto e Nossa Senhora da Conceição a 8 de Dezembro, para além do Natal a 25 de Dezembro.
Não sei se esta selecção foi estratégica ou um acaso, mas que o resultado está carregado de lógica e se adequa à nossa real situação de país de cabeça para baixo, lá isso está.
Vejamos:
- Da Fraternidade Universal que recebemos dessa coisa chamada Troika, se fez o caminho para o nosso calvário, numa permanente Sexta-feira Santa, que nos feriu definitivamente a Liberdade e nos colocou nesse estatuto de trabalhadores inesgotáveis, a trabalhar mais e mais barato, todos os dias. Só nos resta pois reunir todas as evocações de Nossa Senhora, desde a sua Conceição até à sua Assunção, para que pelo menos, e quando o banco nos levar a casa por falta de pagamento, possamos ir passar o Natal num casebre, aquecidos por um burro e uma vaca.
Por outro lado:
- A Independência já se foi e levou a República com ela. E estamos num estado tal que nem Deus e nem Todos os Santos juntos, nos livram deste estado, de finados, e sem hipótese de Restauração.
Brincadeiras e trocadilhos à parte, sejamos fortes e endireitemos as nossas bandeiras em todas as fotos, que é como quem diz, ponhamos os políticos a fazer o pino e a mergulhar de cabeça para baixo, no vazio já antes testado pelos infiéis à pátria, noutros tempos e noutros regimes.
Viva Portugal.
Viva a República.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Secar as vacas


Presumo que sem pagarem direitos de autor a La Fontaine, andam os nossos políticos muito treinados no uso de fábulas, o que não é de estranhar pois pelo percurso académico expresso nos seus curricula, o ponto mais avançado a que chegaram no estudo da literatura só poderá mesmo ter sido “A cigarra e a formiga” ou quiçá, “Os cinco na Ilha do Tesouro”.
E já que de animais falamos, eu aproveito o mote e sempre vos digo que nesta história não me sinto nem cigarra nem formiga, eu sinto-me e sou, uma verdadeira vaca.
Isso mesmo, uma vaca leiteira, com restrições assinaláveis no acesso a pastagens mas a quem é exigido uma cada vez maior produção de leite.
As minhas tetas servem para dar alimento a meio Portugal, porque o outro meio, está comigo no redil em delírio de produção.
Do meu leite se alimentam assim instituições, organizações e seres, todos essenciais ao meu país. Como é importante alimentar a Fundação do Carnaval de Ovar, a Fundação Porto Gaia que fornece gratuitamente um Centro de Estágios ao Pinto da Costa que todos os dias me chama mouro e imbecil, alimento as manifestações da CGTP através do apoio aos autocarros para transporte de militantes, dou suporte financeiro aos aventais, esferográficas e bandeiras dos partidos políticos, e como seria possível viver sem campanhas eleitorais nas quais também participo suportando a carne assada dos comícios, alimento as reformas dos seres iluminados que um dia passaram pela política e que num processo de cansaço acelerado têm de ir descansar, alimento a leitinho bom, todos os assessores que inundam os gabinetes dos ministros, os carros de alta cilindrada, os seguranças dos senhores ministros, patrocino a boa vida dos meus concidadãos em cursos infinitos de formação profissional e rendimentos mínimos de inserção…
Enfim, Portugal, este Portugal, não seria o mesmo sem o meu leitinho.
Mas, é bom que alguém pense que vaca não dá leite de forma ilimitada e que ainda por cima, vaca mal alimentada vê as tetas ficarem secas mais depressa.
E tetas secas são sinal de dor.
O entediante e monocórdico registo da expressão oral do Ministro das Finanças deve ter sido seleccionado por se considerar que dele derivaria um efeito sedativo ou anestésico, tal estas dolorosas notícias que sua excelência sempre nos reserva nas suas longas conferências de imprensa no período pós-prandial.
Mas isto já não vai lá com anestésicos.
E o nosso contra ataque só pode ser feito com duas armas.
A primeira é o uso das bostas e dos dejectos, mas isso não adianta porque eles estão habituados a eles dado que privam diariamente uns com outros.
Resta-nos o coice. Forte e certeiro, bem no sítio onde impera essa molesta e confrangedora ausência de testículos.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Casinhas de papel


Na casa da Tia Maria e do Tio João, à Rua de Santa Luzia, existia um pequeno quintal onde estava implantado um canteiro, que para além de hortelã, salsa e coentros, era o habitat de um imperial limoeiro que durante todo o ano nos oferecia uns enormes e sumarentos frutos de cor amarela, para além de uma fantástica sombra a todo o espaço rectangular cujo piso era composto por umas enormes lajes, onde eu me entretinha a brincar.
Numa sala de porta sempre aberta para o quintal, havia um pássaro amarelo, o Sarico, que dizia olá e imitava os sons do martelo do Tio João enquanto ele se dedicava ao seu ofício de sapateiro.
No piso de cima existia um enorme quarto rasgado por uma janela, que por ser alta, e pelo facto da casa estar num dos pontos mais altos da Vila, permitia ver toda a fachada da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, no Castelo.
Era neste quarto, com um tecto inclinado mas muito alto, que eu dormia numa das três enormes camas que ele comportava, todas alinhadas ao melhor estilo enfermaria de hospital.
No inverno, o ar do quarto era gelado e então a Tia Maria fazia-me a cama com uma colecção de mantas e cobertores que pesavam toneladas sobre mim e me davam a sensação de estar sob a carapaça de uma tartaruga.
Nessas manhãs frias, o sol enganador convidava a levantar, mas o frio que sentíamos na ponta do nariz, fazia com que a alternativa de permanecer na cama, fosse invariavelmente a escolhida.
E era então, já com a luz do sol a entrar pela janela e a olhar para o tecto alto sobre mim, que eu me entretinha a inventar histórias que contava a mim próprio, socorrendo-me para tal da imaginação e das formas irregulares oferecidas pelos quadrados da tijoleira, que entre as traves de madeira, maiores ou menores, compunham as “madres” do tecto, todo ele pintado de amarelo. Uma gigante banda desenhada implantada no tecto do quarto, e só para mim.
A casa dos tios recebia de tempos a tempos, a visita de uma família composta por vários irmãos, todos eles de Vila Viçosa mas desde há muito radicados em Lisboa, que pelo facto da Tia Maria ter sido a sua ama, tinham criado connosco uma verdadeira ligação de família.
Traziam-nos sempre um presente muito especial. Com jeito para as artes, alguns deles tinham desenhado, impresso e comercializado, umas folhas de cartão em A4 onde estavam implantados os elementos que depois de devidamente cortados, dobrados e colados, nos ofereciam casinhas de papel, todas diferentes e de todas as regiões de Portugal, que eram perfeitas para que sobre a mesa ou sobre as lajes do quintal, pudéssemos construir as cidades onde habitavam os nossos bonecos do Carrossel Mágico que as marcas de gelados de então nos ofereciam.
Para além disso, adoravam conversar connosco, e quando era verão, nas tardes temperadas por uma boa limonada ou saciados por um copo de água fresca do cântaro de barro, à sombra do limoeiro, contavam-nos histórias, daquelas que falam de sítios longínquos, que nos ofereciam recargas de sonhos para os nossos dias simples.
Passaram-se muitos anos, os tios partiram há muito, a casa está diferente e tem novos proprietários e hoje, cedo pela manhã, fui à Igreja de Rio de Mouro despedir-me do último arquitecto das minhas casinhas de papel.
Um breve adeus, um até já…
Quem um dia plantou um sonho no coração de uma criança, ganha definitivamente a imortalidade, a mais certa, a da eterna memória, a imortalidade enraizada nos indestrutíveis afectos.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Música


Dos lados do mar, por onde se vislumbra o Bugio, penteia o Tejo, o vento, que beija a Ponte e o Cristo-Rei, trazendo com ele, a sopros, o ritmado bater das ondas, e esse indício de gaivotas no seu doce voar de liberdade.
De nascente, do sul e do norte, das lezírias, da planície e das serranias, assobia o ar, falando de mil águas, de arrozais, trigo, esteva, urzes e giestas.
E o homem, apregoa jornais e diz-se vender a sorte. É a grande, aquela que por estes dias nascerá no andar da roda. Da roda da fortuna.
Passa então ligeiro, o vinte e oito, e ouve-se o ranger da já gasta e amarela madeira, hoje arrendada às marcas. Escuta-se o tilintar de um sino que o denuncia ao passar, e que, oportuno, dá sinal de paragem, algures nesse eléctrico movimento que um metálico som reproduz no ar, na deslizante entrega aos carris, que há muito rasgaram paralelos e a cor de prata, as calçadas negras do centro das ruas da cidade.
E surge a mulher que bamboleia a anca e que grita lindo, fresco, o peixe posto à cabeça com artes e ares de circo, na simples e plana canastra, nascida do ofício do saber entrelaçar o vime.
Num campanário próximo, ao Chiado, que é onde a cidade se faz perfeita, um sino dá Trindades e repica forte fazendo ressoar a fé. Sonoro convite ao recolher das almas, ao estancar desses passos firmes que soam por sobre a calçada dos passeios, esses quadros a branco e preto, pintados por cubos irregulares de pedra.
A rua estreita que respira povo e saudades de Junho e Santo António, está bordada de varandas que carregam as muitas cores das sardinheiras. Varandas de portais entreabertos que deixam sair sem reservas e para gosto de quem passa, o canto do fado gemido na guitarra e nascido sublime pela voz perfeita de uma Deusa de nome Amália.
É Lisboa. Eterna Lisboa.
Na sua cor e na sua música, num alegre final de tarde de Outono.
Hoje, dia 1 de Outubro de 2012, Dia Mundial da Música.