quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Casinhas de papel


Na casa da Tia Maria e do Tio João, à Rua de Santa Luzia, existia um pequeno quintal onde estava implantado um canteiro, que para além de hortelã, salsa e coentros, era o habitat de um imperial limoeiro que durante todo o ano nos oferecia uns enormes e sumarentos frutos de cor amarela, para além de uma fantástica sombra a todo o espaço rectangular cujo piso era composto por umas enormes lajes, onde eu me entretinha a brincar.
Numa sala de porta sempre aberta para o quintal, havia um pássaro amarelo, o Sarico, que dizia olá e imitava os sons do martelo do Tio João enquanto ele se dedicava ao seu ofício de sapateiro.
No piso de cima existia um enorme quarto rasgado por uma janela, que por ser alta, e pelo facto da casa estar num dos pontos mais altos da Vila, permitia ver toda a fachada da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, no Castelo.
Era neste quarto, com um tecto inclinado mas muito alto, que eu dormia numa das três enormes camas que ele comportava, todas alinhadas ao melhor estilo enfermaria de hospital.
No inverno, o ar do quarto era gelado e então a Tia Maria fazia-me a cama com uma colecção de mantas e cobertores que pesavam toneladas sobre mim e me davam a sensação de estar sob a carapaça de uma tartaruga.
Nessas manhãs frias, o sol enganador convidava a levantar, mas o frio que sentíamos na ponta do nariz, fazia com que a alternativa de permanecer na cama, fosse invariavelmente a escolhida.
E era então, já com a luz do sol a entrar pela janela e a olhar para o tecto alto sobre mim, que eu me entretinha a inventar histórias que contava a mim próprio, socorrendo-me para tal da imaginação e das formas irregulares oferecidas pelos quadrados da tijoleira, que entre as traves de madeira, maiores ou menores, compunham as “madres” do tecto, todo ele pintado de amarelo. Uma gigante banda desenhada implantada no tecto do quarto, e só para mim.
A casa dos tios recebia de tempos a tempos, a visita de uma família composta por vários irmãos, todos eles de Vila Viçosa mas desde há muito radicados em Lisboa, que pelo facto da Tia Maria ter sido a sua ama, tinham criado connosco uma verdadeira ligação de família.
Traziam-nos sempre um presente muito especial. Com jeito para as artes, alguns deles tinham desenhado, impresso e comercializado, umas folhas de cartão em A4 onde estavam implantados os elementos que depois de devidamente cortados, dobrados e colados, nos ofereciam casinhas de papel, todas diferentes e de todas as regiões de Portugal, que eram perfeitas para que sobre a mesa ou sobre as lajes do quintal, pudéssemos construir as cidades onde habitavam os nossos bonecos do Carrossel Mágico que as marcas de gelados de então nos ofereciam.
Para além disso, adoravam conversar connosco, e quando era verão, nas tardes temperadas por uma boa limonada ou saciados por um copo de água fresca do cântaro de barro, à sombra do limoeiro, contavam-nos histórias, daquelas que falam de sítios longínquos, que nos ofereciam recargas de sonhos para os nossos dias simples.
Passaram-se muitos anos, os tios partiram há muito, a casa está diferente e tem novos proprietários e hoje, cedo pela manhã, fui à Igreja de Rio de Mouro despedir-me do último arquitecto das minhas casinhas de papel.
Um breve adeus, um até já…
Quem um dia plantou um sonho no coração de uma criança, ganha definitivamente a imortalidade, a mais certa, a da eterna memória, a imortalidade enraizada nos indestrutíveis afectos.

2 comentários:

  1. Saudade é um sentimento que quando não cabe no coração, escorre pelos olhos.
    Rui Pereira

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  2. Há memórias que ficam para sempre nos nossos corações e são eternas.
    Saudades que ficam marcadas, e morrem connosco.
    M. Pereira

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