terça-feira, 31 de maio de 2011

A Tuberculose e o “Melhoral Infantil”

A justiça é um dos pilares essenciais de uma sociedade equilibrada, velando pelos direitos e deveres dos cidadãos e assegurando de forma eficaz que as regras definidas e assumidas pela maioria, no âmbito de uma democracia plena e activa, são inteiramente cumpridas.
Reconheço à justiça uma função profiláctica com o objectivo de evitar desvios, mas também uma função punitiva sempre que se comprove a ruptura e a violação das regras, devendo existir sempre, nesta última situação, o cuidado de nunca ferir a dignidade da pessoa, dando à punição, simultaneamente, uma perspectiva para além castigo, uma busca de reinserção.
Neste contexto, entendo por essencial que as regras sejam claras, que todo o modelo de justiça esteja adaptado à realidade do momento que se vive, e que a justiça seja eficaz na metodologia e no tempo.
A intervenção da justiça na recente agressão de uma jovem por outras jovens e que foi parar à Internet pela mão de um outro, pelo facto de estarmos perante indivíduos menores de idade, gerou na sociedade Portuguesa uma acesa discussão que como é nosso hábito levou a colocar o acessório no centro das discussões, fazendo passar para segundo plano o essencial: há uma violência inaceitável entre os jovens.
O espectáculo dos agentes da justiça, dos políticos e dos fazedores de opinião, a discutir o assunto de forma violenta, demonstra desnorte, evidencia fragilidades que abrem perigosamente espaços a que episódios semelhantes se sucedam.
Em vez de hesitação exige-se a força da concertação, a convicção na defesa do que está certo e o combate ao que está errado.
Pergunto-me porque é que isto acontece e encontro de imediato algumas óbvias justificações.
A primeira tem a ver com as regras e o enquadramento penal da sua violação. O Portugal de hoje é diferente do de há 20 ou 30 anos atrás, há novas formas de vida, novas tentações, novos crimes, novos medos, novos interpretes, há um entrar mais precoce no crime, mas continuamos a ter uma justiça dos tempos em que éramos um país de mais brandos costumes, dos tempos em que na minha Vila Viçosa, a maioria das casas não se fechavam à chave, era só meter a mão ao postigo e abrir o trinco.
A segunda é o funcionamento da própria justiça que por ser lento e demasiado complexo, composto por uma rede de sucessivas e infindáveis recursos, anula a própria justiça pois nenhum de nós acredita que ela exista.
E se todos acreditamos que a justiça não existe, quem quer violar as regras está atento e sabe que pode intervir, e o crime avança.
A justiça que temos está para o mundo que somos como o “Melhoral Infantil” está para a Tuberculose: o problema é demasiado sério para que em termos de profilaxia ou tratamento seja abordado por um fármaco saboroso mas terrivelmente ineficaz.

sábado, 28 de maio de 2011

À rasca, a tinta e ao pontapé

Passei esta semana pela Praça do Rossio, em Lisboa, e não pude deixar de ler algumas das mensagens veiculadas em cartazes improvisados, que acompanham os jovens ali acampados e que são o rosto em Portugal, de um movimento também presente noutras cidades do mundo, como Madrid, com um acampamento semelhante na “Puerta del Sol”.
Assumem a sua discordância com o modelo actual dos estados, quer seja na perspectiva económica, política ou social. Reivindicam um modelo novo que lhes traga mais oportunidades.
Acompanhando a campanha eleitoral, assisti aos confrontos verbais entre Jerónimo de Sousa e os estudantes da academia coimbrã, quando durante um comício da CDU na cidade do Mondego, os estudantes reclamavam pelo facto das escadarias monumentais da Universidade terem sido pintadas com mensagens políticas da coligação comunista.
Afirmava Jerónimo de Sousa a plenos pulmões que jamais vergaria, associando a manifestação destes estudantes à perseguição de que os comunistas tinham sido alvo no período da ditadura de Salazar.
Não foi necessário estar muito atento às notícias nos últimos dias, para me aperceber da existência de uma agressão a uma jovem feita por outra jovem, filmada e colocada na Internet por um terceiro jovem, num espectáculo degradante de violência gratuita e chocante.
Três episódios distintos, um retrato perfeito do que é hoje o nosso mundo, o casamento entre a superficialidade e o desrespeito total pela Pessoa.
Os jovens do Rossio querem mudar o mundo e era bom que o fizessem, contem comigo para o fazerem, só que o mundo não se reconstrói a partir da estratosfera da sociedade. É quase como querer cultivar o jardim da nossa casa a partir da janela do segundo andar.
É dentro das estruturas da própria sociedade, com ideias novas e assumindo rupturas onde houver que as assumir, que se reformam os alicerces do mundo. É nas escolas, nas universidades, nas famílias, nos partidos, etc, que devem intervir, mais pela acção do que pela voz, ganhando credibilidade na reivindicação, pela responsabilidade e respeito por todas as regras básicas da sã convivência em sociedade.
Vão pelo exemplo e eu irei convosco.
Mas engane-se quem pensa que só os jovens vivem na superficialidade das coisas, Jerónimo de Sousa tem idade para ser avô deles e dando estatuto igual aos heróis da resistência antifascista aos “heróis do gafitti”, beliscou a memória dos primeiros, equiparando o vandalismo e o mau gosto, à nobreza de quem deu a vida pela causa da liberdade, aqueles que ainda hoje deveriam ser os verdadeiros modelos para os acampados do Rossio.
Por último, o filme dos pontapés e a Internet, comprovativo do pouco que hoje vale a vida humana, posta ao nível das coisas sem valor, evidenciando que dar um pontapé numa pessoa vale hoje o mesmo que dar um pontapé numa lata velha que se cruze no nosso caminho.
Vai longe o tempo em que a heroicidade se conquistava pelos feitos positivos, hoje conquista-se pela exibição da agressividade sem sentido e o maior de todos deixou de ser o melhor para passar a ser aquele que consegue ser o pior de todos.
Vivemos hoje no avesso dos valores.
É urgente fazer uma inversão de marcha no rumo que levamos porque acreditem que só com tinta e pontapés, jamais deixaremos de viver à rasca.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Velha Europa

São 11 horas da manhã de um domingo solarengo em Roma e eu estou com os meus companheiros de viagem no bar do hotel.
Falamos em Inglês com o empregado que nos serve um excelente café Italiano e descobrimos que se trata de um Romeno emigrado. Abordamos a situação em Portugal e na Roménia e fixamo-nos nas raízes comuns das nossas línguas.
Pago os cafés com Euros que tinha levantado numa máquina Multibanco no Porto.
Seguimos para o aeroporto e até entrar no avião que nos trará de regresso a Portugal, apenas mostro a identificação por uma vez e só para provar que eu sou o mesmo cujo nome consta do bilhete.
No aeroporto comprei o jornal Espanhol El Pais e é em Espanhol que actualizo as notícias de fim-de-semana enquanto o avião me traz de volta a Portugal, onde desembarco e saio do aeroporto sem que alguém me pergunte quem sou.
No jornal fala-se do patrão do FMI e dos seus devaneios de âmbito afectivo-sexual num hotel de Manhatan, discute-se a possível gravidez da primeira-dama Francesa referindo-se que a mesma se enquadra numa estratégia eleitoral para a reeleição do marido e analisam-se mais uma vez os considerandos feitos pela chanceler da Alemanha sobre os períodos de férias nos países da União Europeia.
Sinto o contraste.
Saboreio o doce de uma Europa sem fronteiras, com uma lógica e legítima diversidade cultural, mas assente na raiz comum da democracia e dos seus valores, uma Europa sonhada por Homens grandes no carácter, na ambição para os seus povos e na visão que lhes permitia ver para além do óbvio.
Provo o gosto amargo da dúvida quanto à sustentação desta mesma Europa, os muitos porquês quanto ao futuro, sabendo que se a União falhar, tal se deverá ao facto de estarmos a ser governados por gente que em termos de carácter, está nos antípodas dos arquitectos que a idealizaram e construíram.
Os líderes Europeus da geração “Porreiro Pá” têm para o futuro uma visão limitada, sendo apenas e só artífices de carreiras políticas, pretendendo a conquista do poder e a sua manutenção durante o maior tempo possível. Tudo, sempre e só, para proveito próprio.
A mediocridade está a vencer os valores.
Está a morrer o humanismo da velha Europa.

sábado, 21 de maio de 2011

Papoilas saltitantes


Não há melhor momento do que a adversidade para temperar de sinceridade e verdade, a declaração de um grande amor.
Por isso, no meio do azul das vitórias sem fim do Futebol Clube do Porto, o que me sai da alma e partilho convosco é de que nasci a amar o Benfica, vivo a amar o Benfica e morrerei por certo a amar o Benfica, sempre com a força das coisas que o nosso coração rotula de eternas e indissociáveis da própria vida.
Quando recordo a infância, e apesar de ter um pai sportinguista que adoro, não me recordo de não ser do Benfica.
Poderão ter sido os golos do Eusébio, as vitórias sem fim nos campeonatos dos anos sessenta e setenta, poderá ter sido o benfiquismo do meu tio Zé Boquinhas nos serões inesquecíveis em que preenchíamos o boletim do totobola com a ajuda de um pequeno pião de plástico com 1X2, mas que só usávamos para os outros jogos porque o Benfica ganhava sempre…
Poderão ter sido os amigos, maioritariamente encarnados na hora de escolher o clube…
É óbvio que todas estas razões poderão ter contribuído para o meu benfiquismo, mas não chegarão nunca para o explicar, porque um amor assim não se entende à luz da razão e não se justifica por coisas tão objectivas e palpáveis.
Está muito para além disso.
Um amor assim, maior do que a razão e enraizado no mais fundo da alma, será sempre imune a presidentes e dirigentes incompetentes, a jogadores sem nível e com falta de aplicação, a treinadores novos-ricos e armados em importantes só porque ganharam uma vez, a Robertos franganeiros ou a Cardosos toscos…
Um amor assim jamais se ressentirá de ondas azuis, verdes ou de outras cores e jamais sucumbirá às mãos dos Pintos da Costa cuspidores de ódio…
Perante um amor assim tudo sempre parecerá demasiado insignificante.
Ninguém nunca destruirá a força das papoilas.
SLB para sempre!

domingo, 15 de maio de 2011

Azerbeijão 2012

Um mega show na Arena de Dusseldorf para a Alemanha mostrar ao mundo que na Eurovisão, como na Europa em geral, é ela que marca o ritmo dos festivais.
A competição foi como sempre depois que a Jugoslávia e a União Soviética desapareceram do mapa: 43 países, 2 meias-finais a apurar cada uma 10 finalistas, e uma final com 25 países, 5 dos quais com assento sempre garantido por serem os maiores contribuintes da Eurovisão: Reino Unido, Espanha, Itália, França e claro, a Alemanha.
Quanto às canções, os mesmos agrupamentos de sempre:
Indutoras de auto-estima: “Eu posso” (Reino Unido), “Novo Amanhã” (Dinamarca), “Uma vida” (Malta), “Tão afortunado” (Moldávia), “Eu continuo vivo” (Eslováquia), “É a minha vida” (Lituânia), “Popular” (Suécia);
Prémio Nobel da Paz: “Nunca só” (Holanda); “O segredo é o amor” (Áustria);
Lamechas: “Sente a paixão” (Albânia), “Com amor, bebé” (Bélgica);
Movimentadas: “Vê a minha dança” (Grécia), “Ninguém me rouba a dança” (Espanha);
O meu filho de seis meses escreveu o poema: “Boom-Boom” (Arménia), “Ding dong” (Israel), “Haba Haba” (Noruega), “Da da dam” (Finlândia);
Metafísicas: “Anjo” (Ucrânia), “Anjo disfarçado “ (Letónia).
As pontuações foram como sempre previsíveis e alinhadas pelas vizinhanças: Portugal deu a pontuação máxima à Espanha, o Chipre à Grécia, a Dinamarca à Suécia, e por aí fora.
Houve coreografias e guarda-roupas para todos os gostos, mas o prémio maior vai sem dúvida para a Irlanda que apresentou uns gémeos saltitões e robotizados de cabelo louro em pé, que pareciam ter acabado de chegar de uma sessão de choques eléctricos.
Se isto é resultado da crise e do FMI, para o ano estamos feitos.
Portugal fez-se representar pelos Homens da Luta, uma espécie de Village People em versão Intersindical que não passou da sua meia-final, como aliás não é de espantar.
“A luta é alegria” já não convence ninguém nestes tempos em que a foice foi-se de vez e o martelo só serve para a construção das novas formas de ser ou estar.
Provou-o o Azerbeijão, que deu a martelada final no comunismo, reinventou uma parelha ao estilo da Olívia Newton John e do John Travolta e a cantar “Correr com o medo”, correu com a concorrência e leva o festival em 2012 até bem a oriente.
Haja petróleo para a festa ser de arromba.

“Pintelhices”

Quando assisti a um ministro do governo de Sócrates a fazer corninhos com os dedos para a oposição em plena Assembleia da República, julguei que a política Portuguesa tinha batido no seu ponto mais fundo e que pior era impossível.
No entanto, e provando que o slogan turístico de há alguns anos, “há sempre um Portugal desconhecido que espera por si”, se já não se aplica ao turismo, é mais do que válido para a política, assisti incrédulo a afirmações de um destacado militante do PSD, por acaso o que se encarregou da elaboração do programa do governo e que até afirma ser amigo, visita de casa e almoçar frequentemente com o Presidente da República, acusando a imprensa de fugir do essencial e prender-se apenas aos “pintelhos”.
Que tirada de nível!
Aqui há alguns anos existia na minha Vila Viçosa um Lavadouro Municipal, que mais não era do que um pavilhão cheio de tanques de lavar roupa, onde as mulheres a troco de um valor simbólico, iam lavar os trapinhos e sempre aproveitavam para desenferrujar a língua, aliviando assim em tertúlia feminina, todo o veneno de uma vida que lhes era muitas vezes demasiado agreste.
Entre as lavagens e secagens da roupa, os dias eram claramente da má língua, acabando muitas vezes com alguma a dar com a roupa molhada na cara da outra, em cenas que o Almodôvar bem se esforça por copiar mas ainda não o conseguiu com tamanha precisão.
Ao ouvir as entrevistas do Prof. Catroga é para o Lavadouro Municipal que me leva a memória.
E se da má-língua de entre barrelas ainda me consigo recordar achando alguma graça, por ter na base coisas tão insignificantes para a humanidade como alguma Maria que deixara o namorado ou alguma Antónia que aproveitara a estância do namorado no ultramar para se aconchegar com outro, à má-língua dos políticos e ao baixo nível das suas intervenções, não consigo achar mesmo graça nenhuma.
Na política está em causa um país e com ele milhões de pessoas, algumas delas a passar por um período muito difícil das suas vidas, e o mínimo que se exige é respeito e dignidade.
Continuo a achar que é importante mudar de rumo e que a 5 de Junho é fundamental que todos votemos mas não estranharei jamais que muitos faltem à chamada ao voto porque os boletins onde nos pedem que assentemos a cruz da nossa escolha mais parece o cardápio da incompetência e da mediocridade, onde se torna difícil dizer sim a algo.
A escolha do melhor tornou-se há muito a escolha do menos mau, mas é tudo tão mau que é difícil escolher qual o menos.
Li hoje no Público que em 2100 haverá apenas 6 milhões de Portugueses a viver em Portugal, havendo 4 milhões que desaparecerão.
Não me parece difícil entender e não só com o recurso a estudos demográficos.
Com políticos assim, até a mim me apetece emigrar.

sábado, 14 de maio de 2011

Milagres

Ontem foi dia 13 de Maio e Fátima voltou a encher-se de peregrinos.
Um halo à volta do sol no momento da procissão do adeus, fez com que se revivesse o 13 de Outubro de 1917, com muita gente a admitir que de um milagre se tratava.
Não pretendo aqui discutir Fátima e dissertar sobre milagres. Se a fé não se discute, manda a prudência que as crenças, e Fátima situando-se nos territórios da fé, está apenas ao nível das crenças, não devam ser alvo dessa mesma discussão.
Se ao longo dos meus 44 anos e na perspectiva da viagem de vida conjunta com os meus amigos Calipolenses de sempre, Fátima foi por certo a estação onde nos apeámos mais vezes, sendo infinitas as histórias que guardamos na nossa memória, associadas a lugares, tempos e pessoas de Fátima, talvez a visita mais completa que fiz à Cova da Iria tenha sido a que realizei na companhia de um amigo, ateu confesso, mas interessado em ver Fátima pelos óculos da antropologia.
Após circular pelo Santuário e depois de ver e sobretudo sentir o ambiente de Fátima, confessou-se admirado por ter sentido que estava num local “estranho” e não ter podido ficar-se apenas pela fotografia totalmente racional que se propunha fazer.
Talvez ele tenha sentido o mesmo que a minha amiga e crente Isabel Marcos há uns anos atrás, quando em passeio pelo Santuário me dizia:
-Quando venho aqui sinto cócegas na alma.
Que energias serão então estas que massajam a alma dos crentes e que não deixam indiferentes os que apostam não ter alma?
Já reflecti bastas vezes sobre isso e não levam por certo a mal, que numa perspectiva meramente de partilha, vos diga que essas energias existem em cada um de nós, e que somos nós próprios que as transportamos para um local que é raro no nosso mundo, por ser um espaço onde se cultiva e exige o silêncio.
Fátima é antes de mais, para mim, um encontro connosco próprios, feito numa dimensão tão profunda e inusual que ganha estatuto de divino e rótulo de sobrenatural.
Para nós, os que temos fé, Fátima e o seu silêncio também nos oferece esse extra que é a dimensão do encontro profundo com Deus e o diálogo através das orações que se virmos bem são também encontros profundos connosco próprios.
A última vez que estive em Fátima, saía da Basílica quando me deparei com um colega da minha empresa que se encontrava com a família no cumprimento de uma promessa. Em apenas 2 minutos de conversa e falando apenas dos motivos porque estávamos ali, fiquei a conhecê-lo melhor do que em 10 anos de trabalho conjunto
O silêncio de Fátima e o encontro connosco, a abrir-nos as portas para uma relação diferente com o mundo e com quem nos rodeia. Ganhamos a dimensão da profundidade.
E os milagres? Existem?
Não sei nem quero saber.
Crenças e convicções à parte, o maior e o melhor milagre de Fátima é ser assim um oásis de paz no deserto dos desencontros que é o nosso tempo, uma fonte onde renovamos as energias para que consigamos cumprir a mais nobre das missões que é mudar e enriquecer o nosso mundo, sendo assim simultaneamente felizes e completos.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

“Quando mal, nunca pior” ou a inexplicável rendição à mediocridade

Como povo, o triste fado está colado ao nosso ser, tornando-nos submissos em relação a um destino que invariavelmente é negro, e que negro aceitamos encolhendo os ombros, recusando reconhecer em nós qualquer poder que de forma activa nos possibilite trilhar caminhos mais positivos.
Habituámo-nos em demasia ao estatuto de pobres e marginalizados e não conseguimos jamais deixar de olhar para o futuro com as lentes do nosso negativismo crónico.
“É a vida”,”não há nada a fazer”, “vamos indo, menos-mal”, “pelo menos haja saúde”, são frases repetidas até à exaustão no exercício diário do conformismo que elevamos ao seu expoente máximo e que até nos faz desconfiar sempre que parece soar algo de positivo.
Mesmo quando nos sentimos bem, temos vergonha de o assumir, temos pudor, porque sabemos que o paraíso para nós é uma fugaz passagem. A perspectiva para um qualquer português é de que a sua viagem irá acabar sempre na estação da desgraça.
Nas sondagens relativas às eleições de 5 de Junho que foram publicadas este fim-de-semana, mais de 70% dos inquiridos classifica a actuação do governo de José Sócrates como má ou muito má, continuando no entanto a dar-lhe uma maioria relativa de votos para que siga no poder.
“Quando mal, nunca pior” ou a inexplicável rendição à mediocridade.
Jamais alinharei neste negativismo e jamais me demitirei de acreditar que o amanhã possa ser diferente., afinal de contas “quem não arrisca, não petisca”.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

E viveremos felizes para sempre?

Fosse a vida uma História da Carochinha e hoje estaríamos a passar à fase pós ponto final, o momento em que descansados, viveríamos felizes para sempre.
Na sexta-feira passada, o príncipe casou com a plebeia e concretizou mais uma vez o conto de fadas. O glamour invadiu as ruas de Londres para juntamente com muitos milhares de pessoas, aplaudir a passagem de William e Kate, naquele que até ao divórcio, será um dos casamentos do século.
Não há nem sequer um republicano convicto que não saiba a cor do vestido da princesa, a cor do uniforme do príncipe e o número de beijos com que brindaram a multidão, e o seu desejo, espero, na varanda principal do Palácio de Buckingham.
Nunca opomos resistência quando algo se propõe devolver-nos aos sonhos de infância.
Mas para completar ainda mais o enredo desta história, verdadeira novela, ficámos a saber que os bons mataram os maus, no caso o mau, Osama Bin Laden.
O presidente dos EUA anunciou hoje a morte de um dos terroristas mais procurados e odiados do mundo, afirmando que Deus ama a América.
Como podem ver não há condimento que falte e nos impeça de passar à fase do “felizes para sempre” dando a continuidade lógica a um fantástico “happy end”.
O pior é o resto, e o resto nesta história é a nossa própria vida que está sempre para além das fantasias e que acaba sempre por ser a vítima de todas as guerras travadas pelo poder, mesmo aquelas que usam Deus como pretexto.
Falta-nos tanto para sermos felizes!

domingo, 1 de maio de 2011

O Beato que nos passou à porta e… entrou.

A minha história familiar está repleta de agradáveis surpresas, chamemos-lhe coincidências, uma das quais ocorreu há 29 anos.
Após longos anos de espera para nos mudarmos para uma casa maior, quis a fortuna que essa mudança para a casa do Largo 25 de Abril, na esquina com o Terreiro do Paço, se efectivasse no dia 7 de Maio de 1982, mesmo a tempo para que uma semana depois, a 14 de Maio, o Papa João Paulo II nos aterrasse à porta, quando peregrino da Senhora da Conceição, veio a Vila Viçosa presidir a uma Celebração da Palavra.
Foi um dia diferente e que jamais esqueceremos, e por certo não será pelo facto de os helicópteros terem passado tão rente do nosso telhado que fizeram cair o pessegueiro, nem sequer pelo facto da família ter tido a companhia nocturna de um policia a guardar-nos o quintal, local identificado como de elevado risco para a segurança do Papa.
O dia foi inesquecível pelo facto de ter superado as nossas maiores expectativas de que um dia um Papa nos passaria à porta.
O dia para mim foi inesquecível sobretudo pela presença e inimaginável dimensão do Homem com quem tive o privilégio de cruzar o meu olhar ali nos sítios diariamente calcorreados na minha pacata vida de estudante de liceu.
Em João Paulo II há uma dimensão histórica que faz dele um dos ícones maiores do século XX, sendo ele próprio por certo o rombo mais intenso que levou à queda do muro de Berlim e ao fim da guerra-fria.
Há uma dimensão humanista, de um Homem de cultura e de um Homem de muitos mundos, sem pátria e com dimensões de universo.
Há uma dimensão de tolerância que ficará para sempre expressa no diálogo inter-religiões.
Em João Paulo II há sobretudo, e isso foi sempre o que mais me impressionou, uma dimensão de fé.
A fé é o centro de toda a sua vida, a inspiração que quão motor o impele a rasgar as paredes do Vaticano e a sair pelo mundo a anunciar as Bem-Aventuranças, a anunciar que é possível um mundo mais justo e onde o amor deixe de ser apenas uma quimera.
Uma das imagens que sempre guardarei associada a João Paulo II é a sua chegada a Cuba. No aeroporto de Havana e ao lado de Fidel Castro, outro dos ícones maiores do nosso tempo, o Papa demonstra de forma bem vincada que a fé tudo suplanta porque terá sempre uma dimensão gigante quando comparada com tudo o que nos poderá separar.
A fé, em Deus mas também a fé nos Homens e nos valores da justiça, da paz, da liberdade e do amor, prova que tudo na vida é conciliável, e que havendo vontade, haverá sempre um ponto de encontro para estarmos juntos.
Hoje, ao tomar o pequeno-almoço com os meus pais e a assistir pela televisão ás imagens da Beatificação em Roma de João Paulo II, ali na mesma sala cuja janela um dia o viu chegar, à medida que íamos folheando os três, o álbum das nossas memórias, provávamos a proximidade da nossa relação com ele e a certeza de que um dia, pelo olhar, pelas palavras e sobretudo pelo testemunho da sua fé, passou à nossa porta e nós fizemos com que entrasse e vivesse connosco em conjunto a nossa história familiar dos últimos trinta anos.
Há muito que para nós é um dos nossos.