sexta-feira, 31 de julho de 2015

Um mês "A GOSTO"


Com a informalidade de quem partilha os seus dias, é natural que muitas das palavras deste Pomar das Laranjeiras tenham tido mote e raiz nos amigos muito generosos que a vida me vai oferecendo; mas desta vez resolvi convidar formalmente trinta e um desses amigos para me darem o mote para o texto de cada um dos dias do mês de Agosto.
Pedi apenas uma palavra e tentei que ela estivesse associada às iniciais dos nomes de cada um desses amigos.
Chamei à iniciativa "Um mês A GOSTO" e tenho a sensação de que acabei por me "meter num grande trinta e um".
Vocês me dirão.
Os desafios e os nomes dos amigos que os lançaram estão indicados abaixo, e eu agradeço a todos por me terem oferecido óptimas dicas.
Um abraço e até amanhã por entre o AMOR.

Dia 1 – Ângelo Rodrigues – AMOR
Dia 2 – Margarida Borrega - BONDADE
Dia 3 – Celso dos Reis Lopes - CRESCER  
Dia 4 – AnDreia Maia - DESTINO
Dia 5 – Ezequiel Coelho – ENCICLOPÉDIA
Dia 6 – Bruno Silva – SE
Dia 7 – José Falcão - FLORBELA
Dia 8 – Gil Reis - GIESTA
Dia 9 – Helena Pereira - HORAS
Dia 10 – Maria e Manuel Baptista – INFINITO
Dia 11 – ZezInha ValInhas - IGUALDADE
Dia 12 – José Fernandes - JÚBILO
Dia 13 – Rita Almeida - KNOWLEDGE
Dia 14 – Álvaro Coelho – DEUS
Dia 15 – Lucinda Almeida - LIBERDADE
Dia 16 – Milton Alonso - MEU
Dia 17 – GuilhermiNa Sousa - NÓS
Dia 18 – Hélio Cândido – UTOPIA
Dia 19 – JOão ROque - OPTIMISMO
Dia 20 – Pedro António – PERMANECER
Dia 21 – Miguel Quesada - QUADRO
Dia 22 – Augusto Castro – SIMPLICIDADE
Dia 23 – Rui Pereira – RAMAGEM
Dia 24 – São Rodrigues - SER
Dia 25 – Carlos Trindade - TRAVESSEIRO
Dia 26 – EdUardo Santos - UNIÃO
Dia 27 – Vítor Rodrigues - VIVER
Dia 28 – Marco António – RESILIÊNCIA
Dia 29 – Manuel e Ana Almas - WATER
Dia 30 – José e Manuela Barreiros - YES
Dia 31 – Zinha Duarte - ZERO

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Crónicas da beira mar II

A proximidade das cadeiras em posição recostada de primeira plateia à sombra para ver o Atlântico é terrível para nos transportar directamente para outros mundos que não o nosso; e eu, que pelas minhas leituras ando pelo campus de uma universidade do Connecticut, sou automaticamente levado para a pielonefrite da minha vizinha Brasileira, em conversa telefónica com a sogra.

Enquanto o "amorre" que é Português e o "molequinho", uma espécie de Enciclopédia Luso-Brasileira em versão de bolso com capa / calções fluorescentes, vão nadar, eu tenho de ouvir as explicações sobre "uma coisa terrível que não tem nada a ver com o Coli que costuma ter na perseguida".

Eu... e uma idosa lusitana que algures na pacatez do seu lar tem pelo telefone uma lição de Bacteriologia sobre os malefícios da Escherichia Coli, mas ao jeito de um episódio do Pantanal ou da Tieta do Agreste.

Mais atrás na "plateia" há alguém que lê as sombras de Grey em Inglês, leitura que feita assim na praia põe em risco a calma de qualquer lugar que a todo o momento poderá ser atingido pela revolta das "perseguidas", mas mais em missão de perseguir.


Sabe-se lá o que passará agora na cabeça da criatura...

Eu bem tento voltar para o Connecticut mas o vizinho casal Alemão ao meu lado não sossega com o abre chapéu, fecha chapéu, troca chapéu, arrasta cadeira... num remake do filme de terror "Alemanha inquieta o sul da Europa", incomodando mais do que as moscas que pousam meladas sobre a minha camada de protector 50.

E a Brasileira segue:

- "Tá vendo?"

A das sombras poderá começar a ficar louca, os Alemães não param...

- See you later Connecticut. Vou ao banho.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

O nome das estradas

Uma estrada ganha sempre o nome do sítio de onde nos trouxe ou para onde nos leva, indiferente aos detalhes que se entrelaçam aos nossos passos enquanto caminhamos por ela.

E a memória dos quilómetros que até podem ser muitos e longos, apaga-se sempre no instante em que chegamos ao abraço doce que sacode a poeira, as adversidades, e até o cansaço da jornada mais ou menos difícil que nos levou ali.

Porque toda a História, mesmo quando tecida pelas feridas de duras batalhas, ganha uma doce marca de sucesso e orna-se das coroas de louros típicas dos heróis, quando desemboca nas latitudes da nossa vontade por impulso do ar que nos beija as asas no usufruto da mais perfeita liberdade.

Não importa o número de vezes que tivemos de parar para descansar, reganhar forças e consultar os mapas e as bússolas de que nos muniu o sonho.

Não importa quais as pedras ou as ervas que me adornam os passos; eu hoje venho de ti e sigo para ti.

As estradas...

São como os meus dias.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Um Portugal dos Pequenitos à beira mar


No topo da encosta há um "altar" envolto pela sombra de um toldo branco onde duas "sacerdotisas" de ancas generosas e vestidas do mesmo tom alvo, aplicam as mãos e massajam os corpos da gente deitada sobre lençóis que esvoaçam.

Os prazeres da antiga Roma sob o sol intenso da Lusitânia no meio de um dia do Século XXI.

À mesma hora na piscina do hotel, um Português de rosto redondo explica as técnicas do mergulho a aplicados Ingleses que devidamente equipados se propõem ir conhecer o mar em tudo e até nas suas profundezas.

O herdeiro da Escola de Sagres ensina a respirar algures no mesmo barlavento mas numa piscina com as marcas organolépticas do nosso tempo... uma piscina pejada de cloro.

Na mesa ao meu lado um grupo de estrangeiros come "green cabagge soup" em malga de barro, um Caldo Verde até com direito a rodelas de chouriço.

A sopa mais Portuguesa de Portugal arrefecida pelos sopros soltos entre "yes's" e "hello's".

Cada uma das Espanholas garridas que gritam no fundo da esplanada, tem um ar de "Lola Flores em versão genérica", ou quiçá de travesti da "Pantoja" à porta do "Finalmente Club", e não fosse lá por coisas, e eu em nome do meu amigo Nuno Zé ia lá declará-las património do Carnaval de Torres Vedras.

Não falta uma mulher para quem as férias só são boas para poder brilhar de bronze na repartição quando voltar, a prometer um par de estalos à filha que grita inspirada na buzina do quartel de bombeiros; e um homem com andar de Hércules patrocinado pelos calções comprados nos saldos da Saccor mas já nos últimos dias e só a disponibilidade de tamanhos abaixo do seu...

Há cartazes espalhados a anunciar para as 19.30 horas de hoje, um "barbecue" com sardinhas assadas e acompanhamento por um Rancho Folclórico especialista em Corridinho, a "dance" mais "folk" da região.

Aqui onde escrevo e me vou inspirando coçando a barba grisalha em pausas para olhar o mar e escutar as gaivotas, todos estes de quem falo poderão dizer que eu sou uma caricatura insuflada e cabeçuda do Pessoa à porta de uma qualquer "Brasileira". Bica à minha frente e um ar entre o sisudo e o misterioso.

Só as ondas do mar parecem indiferentes a tudo isto mas mesmo assim continuam salgadas com as nossas lágrimas, como diz "A mensagem".

Um dia de praia...

"Portugal dos Pequenitos", um parque temático para estrangeiros num hotel perto de si.




segunda-feira, 27 de julho de 2015

Gaivotas



Tenho saudades de um abraço, de um beijo... mas nunca deixa de ser céu esta distância que nos separa.
Há entre nós uma eterna coerência de azul e de infinito; no desejo, no céu tantas vezes tecido apenas pelas palavras com que voamos no sonho e pela liberdade, o infinito tesouro dos sentidos que se esconde nos mil beijos que me escreves por entre a palavra amor.
Sim, somos gaivotas de asas soltas bebendo do vento o impulso de chegar até onde a vontade nos pede que cheguemos, e por entre o rodopiar doce com que moldamos os dias, nós paramos pousando junto ao mar provando-lhe o sal e a poesia que só as ondas sabem cantar, indiferentes aos ruídos sinistros das cavernas que o tempo teceu nas entranhas da Terra.
Paramos pousando junto ao mar…
É quando matamos a fome dos beijos e dos abraços.

domingo, 26 de julho de 2015

São definitivamente azuis os dias do Atlântico

São definitivamente azuis os dias do Atlântico, quando o silêncio se apaga no fulgor das ondas contra a rocha, no terno e prolongado beijo do mar à areia, e também no intenso ruído das gaivotas que nos rasgam o céu no irrequieto e irregular voo das suas asas.

E ao sul, olhando o infinito...

Colhe-se deste azul um espelho que nos devolve o tanto que o pensamento lhe oferece.

Foi pelas saudades que tenho de ti que o mar se revestiu de sal.

Fui eu quem semeou o nome que o mar me canta por entre o bramir das suas ondas; o teu nome.

Sou eu quem faz do pensamento um imenso barco de papel e se deixa ir por ele e pelas ondas até ao destino que alma lhe impõe; o teu abraço.

O pensamento, irmão por vontade das asas irrequietas das gaivotas, o aliado do vento que nos arrasta à superfície das águas; nós, ousados marinheiros nos barcos de papel que construímos por não conseguirmos travar os sonhos.

São definitivamente azuis...

E eu não resisto e vou ter contigo navegando por estes dias do Atlântico.

Enquanto as gaivotas cantam o teu nome por entre o seu baile de céu e liberdade.

sábado, 25 de julho de 2015

Os mais de sessenta segundos da espera num semáforo nas margens do Mondego


O semáforo do Largo da Portagem para a Ponte de Santa Clara, em Coimbra, tem um contador de segundos com um tempo de espera que ultrapassa os sessenta de um minuto, dando-me tempo mais do que suficiente para me ver a atravessar a rua.

Fevereiro de 1981, estaria o Carlos Paião a dar os últimos acertos no Playback para vencer o Festival RTP a 7 de Março derrotando as minhas favoritas Doce com o Ali Babá.

Eu, o Manuel, a Zinha, o Paulo Ratado, a Zé Bexiga... fomos a Coimbra na visita de estudo, a primeira, quando frequentávamos o nono ano.

O autocarro ficou estacionado na margem esquerda do rio e nós atravessámos a ponte para ir jantar a um restaurante que ficava numa cave e tinha o nosso prato favorito: bitoque. 

Já tínhamos ido à fábrica das bolachas Nacional, onde atacámos as de chocolate; à fábrica da cerveja Sagres, ao Portugal dos Pequenitos, a Santa Clara a Velha, e vivíamos na emoção de ir a uma discoteca de nome "etc", numa altura em que qualquer bola de espelhos pendurada do mais simples tecto nos garantia uma definitiva proximidade à série "Fame" que víamos nos sábados à tarde.

Comprámos cigarros, mais pela atracção pelo proibido do que gosto por fumar, porque pelo menos na parte que me tocava jamais soube travar o fumo e limitei-me sempre a ser uma espécie de chaminé.

Vivíamos paixões secretas e nós rapazes já tínhamos a barba a despontar. O meu bigode / buço já era imponente.

Espreitámos o Hotel Astória e achámo-lo o mais chique do mundo, mas fomos dormir ao Seminário Maior na companhia de uma professora de Português com ar depressivo que tomava ampolas bebíveis na altura dos piqueniques e da partilha dos farnéis. Andámos em pijama pelos corredores à procura de fantasmas ou quiçá de tesouros pois a leitura dos livros de "Os cinco" não tinha ocorrido há tanto tempo assim.

E vi-nos passar cada um com o seu "Kispo" de cor garrida. Íamos a rir cumprindo um hábito que ainda hoje mantemos...

Depois o semáforo abriu e eu rumei a Lisboa.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Lá fora chove... mas é verão.


Há dias de Julho em que as nuvens e a chuva parecem trair o verão, mas no fundo e afinal, são apenas frescos repousos, fontes de um incansável fôlego para que não se nos escape nem um só detalhe dos dias de sol que estão a chegar.

Uma pedra no caminho pode ser um banco para nos sentarmos a descansar, uma montanha difícil de subir aproxima-nos definitivamente do "céu" e dá-nos melhores horizontes, uma palavra feia dá lustro de valor às palavras de amor, a saudade faz-nos tão próximos do amor, um silêncio amplifica a música que se liberta de um beijo ou de um abraço...

E os dias da dor são breves passagens para os momentos pelos quais nascemos, são troços da rota para o mar que nos espera sempre por entre uma imensa festa de azul.

Escrevo este texto numa das salas de espera do IPO de Coimbra, e faço-o como quem responde a duas senhoras à minha frente que me "beijaram" com o seu olhar algures entre o triste e a esperança.

Escrevo estas palavras que talvez nunca lerão, porque acredito que enquanto o faço, o meu olhar as vá projectar até elas num beijo doce que lhes avive a esperança.

Lá fora chove... mas é verão.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

“Já viste a lua"?


Por entre a maior cumplicidade e quase ao bater da meia-noite, os poetas mandam mensagens uns aos outros:
“Já viste a lua"?
Estranhas coisas e manias que têm os excêntricos e os loucos?
Não.
Talvez apenas pequeníssimos e naturais detalhes de quem durante o dia falou da vida e dos seus amores, de quem se encontrou na esquina da ousadia com a vontade, o ponto de encontro daqueles que não sabem e não querem frenar nunca os sentimentos, porque jamais se demitirão de si próprios.
Os poetas, vivos e como nunca, sem a restrição de um clube qualquer e da prudência, porque deles será sempre o universo inteiro.
E eu por acaso não vi a lua.
Adormeci cedo com o patrocínio de um cansaço a que não ofereci resistência, embalado e impelido que estava também pela vontade de sonhar e me deixar voar até ao tempo desenhado a cores, um calendário tecido da poesia solta das mãos de quem eu amo com a cumplicidade de todas as luas.
Soube hoje de manhã:
“A lua estava fantástica, a crescer e com um sorriso fantástico”.
Eu não a vi imperial, a crescer e a sorrir no céu estrelado de Julho, mas senti-a inteira e minha em tudo aquilo que a noite me deu; o amor que se abraça a nós e nos segue no instante de acordar; quando passamos pelo espelho e nos apercebemos:
- Olha, estou a sorrir.  
Mandamos uma mensagem de amor a quem nos traça assim um tempo a cores…
E depois manda-se um beijo ao poeta; que ele nunca deixe de partilhar comigo os detalhes que vê na lua.


quarta-feira, 22 de julho de 2015

"Atão"...


Se "a minha pátria é a Língua Portuguesa", e quem sou eu para contrariar Fernando Pessoa; direi que nesta "ditosa pátria minha amada", assumindo também inteiramente a partilha deste sentimento com Luís de Camões, o meu mais íntimo recanto é a fala do sul com um claro sotaque Alentejano.
Numa das salas de espera do Hospital de Évora, enquanto Julho quase puxava a temperatura para os quarenta graus, a D. Joaquina falava dos benefícios de um "capacho" (gaspacho), e eu a começar a sentir-me irremediavelmente na intimidade do meu lar pátrio.
A D. Antónia tem um problema com o feminino, fala na "genra" (nora) e na "canzinha" (cadela), mas disserta de forma escorreita sobre a utilização dos sacos com água na soleira das portas "por mor" (por mercê/por causa) das moscas.
“A modes” (parece) que é uma engenheira.
O Sr. Joaquim tem um problema no "estâmago" (estômago) e não se cansa de dizer que "o Maneli queria vir cómigo".
Eu estou definitivamente em casa e até esta do "cómigo" é cobrança frequente do meu sobrinho João quando a utilizamos no fulgor de uma estadia em Vila Viçosa; para já não falar das ditas cobranças relativas à "mantêga" que pomos nas torradas.
A D. Antónia está morta por meter conversa e resolve perguntar-me finalmente:
- "Atã foi cê pai?"
- Sim. Respondi eu mas já com o contágio a provocar um resvalar para o "simmm".
Assim mesmo, ao ritmo dos quarenta graus: lentamente.
Ninguém disse, mas poderia ter dito que ia "à da nha'avó"; fosse inverno e alguém por certo diria que estava à espera que "escampasse" (parar de chover); existisse por ali uma barraca de feira e alguém sairia para comprar "brinhol" (farturas); quiçá alguém fosse "aventar" (deitar fora) alguma coisa.
E eu sempre a sentir-me em casa até ao momento em que uma voz feminina diz aos microfones:
- Pede-se às pessoas que "estã" na sala de espera o favor de fazerem menos barulho para poderem ouvir chamar “p’los númaros” e “p’los nomiis”.
A D. Antónia ainda me diz num tom baixo:
- "Atão (então)? Tal tá a moenga. Esta hoje acordou com os péiis de fora do camalho (cama). Desde que cheguei aqui que só a vejo andar numa fona (atarefada)"
Eu sorrio e pisco-lhe o olho.
Mas a D. Joaquina tem outra opinião:
- Ai a ver se se calam “q’ê” tenho a cabeça “esvecida” (esvaída). Até parece que levei “c’ um bajoulo” (pedra).
Mas a D. Antónia quer ter a última palavra:
- Oraaa… vamos indo com o que vamos engolindo.
Eu continuo a fingir que leio a entrevista do Schauble ao Diário de Notícias.
Ah ditosa pátria...
E que bom que é estar em casa.

terça-feira, 21 de julho de 2015

A estrada e uma ponte que tem a minha idade

As estradas são como veias, ilustres patrocinadoras de um vai-vem que é raiz da vida e daquilo que a compõe.

O despertador tocou hoje muito cedo e a tempo de ver o sol nascer por detrás do Cristo Rei enquanto atravessava a ponte.

Uma bola de fogo entre o amarelo e o laranja, e lá em baixo, o Tejo; atrás de mim, Lisboa.

A mesma estrada...

Quando Julho se aproximava do fim, eu vinha com a Avó Dade e o Avô Chico passar uns dias de férias a casa da Tia Lucinda.

Vínhamos no autocarro da Setubalense, onde eu me sentava nuns bancos de cor verde depois de pagar meio bilhete, e recordo-me que parávamos sempre em Vila Nogueira de Azeitão numa garagem que ficava mesmo em frente do portão de uma quinta em que a vegetação frondosa galgava os muros.

E depois...

Almada, onde às vezes parávamos para ir visitar a Prima Naíca, que fumava muito e fazia bases para as panelas com as pratas dos cigarros da marca "Porto"... e sempre a ponte e o Cristo Rei.

A ponte também era novidade para os meus avós que nunca perdiam a oportunidade de recordar:

- A ponte é um mês mais nova do que tu. Foi inaugurada no dia em que foste baptizado: 6 de Agosto de 1966.

E enquanto a avó se benzia, eu punha-me em pé para ver aquela estrutura imensa pintada de vermelho e não conseguia deixar de pensar que voava sobre o rio.

E por entre o prazer de quem liga as margens, eu jurava à sorte que um dia iria conhecer todas as ruas da cidade imensa à minha frente.

Na mesma ponte do nascer do sol de hoje. 


Passaram bem mais de quarenta anos, vou ao volante do meu carro, busco a Alentejo e tomarei o pequeno-almoço com os meus pais e comendo o pão igual ao que antes trazíamos nas bolsas de pano... e ainda não consigo deixar de pensar que voo por sobre o Tejo.

As estradas, a ponte, o vai-vem que nos determina a vida, os percursos que alimentam a nossa história, e essa persistência e coerência de voar e unir as margens  enquanto o sol sobe no horizonte e me vai ditando palavras de amor.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

A Rua do Ouro


O comboio chegou há pouco a Santa Apolónia e nem foi preciso buscar a porta de saída da estação, deixei-me caminhar pelo impulso da multidão que desceu comigo para o cais, aqui e ali em slalom por entre abraços ou o carregar difícil de uma mala mais pesada que sai pela janela.
Depois, o átrio, as falas da gente, os pregões dos vendedores, o andar das pessoas que se cruzam apressadas… e aquela inédita luz.
Lisboa oferece luz e um aroma de entre rio e mar na brisa do seu primeiro beijo, e eu deslumbrado deixo-me ir caminhando até ao Terreiro do Paço, mão esquerda dada ao Tejo que me namora desde o primeiro olhar.
Sigo pela irracionalidade da ausência de qualquer mapa, guiado apenas por esta paixão que aos poucos me vai tomando os passos; o instinto doce e rebelde dos apaixonados.
Sigo entre a gente; uma mochila pequena, jeans e a camisa num tom azul forte, os sapatos moldados por amor; sigo com uma história colada às mãos e à alma, a terra fresca e molhada abraçada aos pés descalços nas tardes de verão, o beijo do meu pai, os sonhos maiores do que todas as calçadas da minha cidade…     
Os sonhos e as asas como estas das gaivotas que penteiam o Terreiro no meio dia de Lisboa quando eu sigo pela luz da cidade e espreito ao longe a ponte para lá da curva do abraço que Alcântara oferece ao Tejo.
Paro, respiro fundo, e de mãos nos bolsos sigo depois até à Rua do Ouro subindo-a ao jeito de quem busca o Rossio.
Passam os autocarros, os eléctricos que enfeitam de um amarelo garrido a Rua da Conceição e a Calçada de São Francisco, os táxis que apitam no primeiro segundo de um semáforo verde, os vendedores de cautelas e de jornais, os triciclos carregados de fruta madura pronta a ir para casa em cartuxos de papel pardo…
E esta luz de Lisboa… sempre esta luz.
Ajeito novamente as mãos nos bolsos e não consigo evitar sorrir colocando o meu olhar em rima perfeita com o céu da Cidade Branca… hoje apagou-se o eco de todos os meus velhos amores e cheguei à casa de onde jamais irei partir.
Eu e Lisboa há milénios que esperávamos por este nosso abraço.
Nós nascemos e somos de todos os momentos que nos alinham com o destino que expressa a nossa liberdade.
E continuo a subir a Rua do Ouro.
Lisboa 1982.

domingo, 19 de julho de 2015

Eu, a nossa casa.


Enfeito o meu caminho com uma música das minhas muitas estradas, abraço-me com força ao pensamento e vazo da tarde o impossível, sentando-te ao meu lado no carro que cruza a charneca por entre o calor de Julho.
Agora somos dois e uma velha canção... e de repente o dia vestiu-se de liberdade.
Eu sou cúmplice dos pássaros que correm entre os sobreiros despidos e a giesta que repousa depois da festa do ouro da sua primavera, eu sou do mesmo tom rosado e rubro maduro das ameixas que debruam o muro baixo e cravejado de musgo de uma velha quinta, eu sou como a casa simples e branca com rodapé num tom azul alinhado com o céu...
Eu sou essa casa construída pelo tempo, com os tijolos e as telhas da minha vontade, e onde sentado à soleira passei meia vida à espera que chegasses e outra meia a sonhar contigo; a casa que construí para ti e onde vivemos agora.
Eu, a nossa casa.
Às vezes e por instantes, solto do volante a mão direita e procuro-te no lugar fisicamente vazio. Pela força com que te quero e o pensamento te faz presente, até o meu corpo acredita que estás mesmo ali e que te pode tocar na seda perfeita que te envolve a pele.
A pele do toque que tatua em mim o maior e mais absoluto desejo.
Depois, sem se importar, a mão regressa ao volante e seguimos estrada fora.
Ela sabe que és meu e nunca tardas.
Seguimos…
Eu, tu, e uma tarde perfeita e de liberdade, mas debruada com as saudades de um beijo.
Freddie Mercury continua a cantar:
Every drop of rain that falls in Sahara Desert says it all. It's a miracle”.
A liberdade e a morte dos impossíveis na aparência de um milagre, mas sou apenas eu, tu… e a nossa casa.

sábado, 18 de julho de 2015

A verdadeira história da “Ratazana de Caxinas”


Na carreira para Caxinas
Entre cantigas e gritos
Segue a Tóia da Vicência
De cognome “A Ratazana”
Que é também filha do Alcides
Um Mestre Capataz

Com salão de beleza aberto há pouco tempo
Cabeleireira por bênção das Novas Oportunidades
Desafia todas as regras…
O bom gosto
O charme
A decência...
Com os penteados arrojados que faz
Ataques de Farandol a cabeças de todas as idades

O seu marido
O "João Ratão"
Com quem anda sempre atrás
É polícia daqueles à paisana
Mas pelo bom ar que apresenta mais parece andar sempre disfarçado de ladrão

Galã das dúzias
Que isso tem inscrito nos genes
Dá de olhar arremelgado para a Micas Garoupa que por tão bem nadar Recebeu dos amigos o sobrenome de Phelps

Com a Ratazana atenta à música das Cocktail que escutava no seu MP3
O Ratão seguia na maior

Mas foram tantas as que fez
Que a mulher de repente se apercebe...

Oh meu grande vadio
E tu minha gata nadadora
Ponho-te as unhas de gel no pescoço e tu vais de vez

Ordinária
Gatafunho
Trabant sem uso e sem concerto
Passaporte fora de prazo

A atirar-se ao meu jeitoso…

Jeitoso?
Grita a outra

Oh filha fica com ele
Tão piroso

Avança então uma Brasileira
Loura e cliente da Ratazana
Mais o marido que vem a cambalear
E não acerta logo à primeira no intuito de à Phelps o cabelo puxar

Mas depois consegue e com muita força

A Micas saca então de uma Chaputa
Fresca e enrolada numa folha de jornal
E pegando no rabo do peixe dá com ele na cara da Paulista

Toma lá que assim já não vais mal

E de dentro do MP3
Continua a soltar-se música
Cocktail
Rita Ribeiro
"O que passou passou"
Mais outras do festival

O chefe do sindicato bate as palmas
Uma Ucraniana mostra o dente de ouro

O Ratão está bravo
Investe nas três que nem um touro

Enquanto a malta reclama
Isto vai atrasar-se
Nunca mais chegamos às Caxinas

O motorista faz uma travagem a fundo
E mete conversa com outro com quem se cruza

Vai aqui uma cena que nem tu imaginas

Coisas do fim do mundo?

Uma cena que já não se usa.

E grita para dentro do autocarro
Tudo para a rua

Grita a Ucraniana:
Estás parvooo o meuuu… Qual é a tua?

E a Phelps ainda com respirar cansado também grita do meio da cena

Eu só saio à porta das piscinas.

A Ratazana derrotada sai da cena amarga que nem o fel
Chora e grita para o marido

Estás a ver…
Por causa de ti estou toda desgrenhada e parti as unhas de gel

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Porque um marinheiro nunca deixa envelhecer o seu amor pelo mar...


Como um velho marinheiro, olho o mar de frente sentindo-lhe o sal… e nas mãos pousadas sobre a rocha, sobrevive este tatuado rigor das cordas puxadas como quem chama para si o mundo inteiro.
A pele a denunciar a história de cada um.
Não há sombras para quem está assim sentado na praia, e o sol é meu e bebo-o a cada instante, todo, intenso, forte ao meio dia quando me tinge o olhar de lágrimas na minha persistência de saborear o azul com que desde a madrugada perfumou o mar.
Como um velho marinheiro…
Eu conheço de cor as marés e o tom de todas as luas, tão bem como conheço o coração que vai batendo lentamente enquanto as barbas se tingem de branco… e depois mais branco…
Como um velho marinheiro…
Jamais temerei o tempo mesmo sabendo que ele me encaminha para o ponto final que é destino de todos os Homens; porque o meu tempo, diz-me o coração, é a festa eterna de uma mão que me acaricia com pequenos beliscos, quando estás sentado ao meu lado na rocha enfrentando o mar e bebendo do sol toda a sua luz:
- Gosto tanto do toque da tua pele… do contraste das duas peles assim juntas.
As nossas histórias definitivamente cruzadas.
E eu respondo apenas com um beijo, que é como quem diz:
- Amo-te e amar-te-ei sempre, mesmo sob a possível sombra de qualquer dia.
Porque um marinheiro nunca deixa envelhecer o seu amor pelo mar. 

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Por mais que canela e açafrão


O verão acorda o vento em São Marcos numa recorrência e coerência que o tornam muito próximo e familiar, uma verdadeira e contínua banda sonora dos meus serões neste tempo de calor.
Tenho a noção de que por estar sempre presente, às vezes já nem dou por ele. Mas também é certo que nalguma pausa me paro para o ouvir e seguir pela imaginação no decifrar de algo que me possa dizer.
Fico à janela a escutar o vento e a ver ao longe o mar.
Este ano o condomínio resolveu pintar o prédio, e assim, tenho por estes dias um andaime e panos opacos entre mim e o Atlântico. As persianas agradecidas por não sofrerem os costumeiros abanões estão devidamente corridas até ao máximo da escuridão, por segurança e porque há muito pó no ar.
E parece que só o vento, a melancia do jantar e o ar quente parecem querer oferecer coerência a este mês de Julho.
Ontem, sentado à noite no sofá ao lado da lareira, tomei do vento um painel de sons que agrupei em palavras que tivessem nexo.
Adamastor ou Mostrengo, como respectivamente para Camões ou Pessoa, sonhei-o monstro mas tomei-lhe das tormentas a fé que restaura a boa esperança.
As palavras.
E vi o mar, não porque ele me aparecesse à janela, mas porque o sonhei tão intensamente que o fiz real.
Tal qual como na vida.
Só, mas com uma caravela, “voei” para Calecute para muito mais do que apenas Canela ou Açafrão.
Voei para ti nas palavras de amor que escrevi.
Que venha o mundo e que sopre o vento, eu seguirei pela boa esperança e por onde nada a alma teme.
E a ver o mar.
  

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Passa connosco no Rossio


O teu olhar já matou a imensa sede de beijos que eu trazia em mim, quando nos sentamos os dois à sombra do Castelo e pedimos ao Ginger Ale que nos refresque a tarde que ainda vai quente.
Uma bebida com palavras, muito mais do que com gelo; com o muito que o coração e a saudade nos pedem que digamos a prolongar o tempo até ao instante em que a bebida já se rendeu e colheu do sol o tom quente do verão, e não refresca nada.
E as palavras são pedaços de nós que se soltam, se entrelaçam no abraço que caminha depois pela cidade, na brisa e no tom do rio que se rende ao pôr-do-sol, no voo irrequieto das gaivotas, na cidade inteira que não nasceu para mais nada senão para ser a casa do amor perfeito que os dois lhe oferecemos no superlativo deste querer.
Um pastel de bacalhau, um naco de presunto e um gelado do Santini, um copo de cidra e um brinde à sorte; com o olhar ainda e sempre acendido nos beijos incansáveis que o desejo nos implora.
Regressamos.
A Rua Augusta tem o rendilhado de mil falas que sobrepõem uma Babel imensa aos desenhos a preto e branco da calçada; o Rossio, à sombra do Carmo, o altar da liberdade, canta afinado pelo riso imenso de quem passa…
Lisboa, um serão de Julho.
E o amor que passa por mim…
Passa connosco no Rossio. 

terça-feira, 14 de julho de 2015

Odisseia


Percorrerei quilómetros, a Terra, o universo inteiro... mas voltarei sempre aqui à proa da cidade, a Ítaca que almejo em tantas Odisseias que fiz minhas.

O horizonte colhido entre duas colunas, o Terreiro, Lisboa, o cais onde o Tejo nos beija, e tu, o céu perfeito que me abraça e me adopta, porta aberta para o Olimpo que é a casa dos loucos que ousam sonhar, muito mais do que dos deuses.

Abraço-me a ti, dou-te um beijo que traz com ele os aromas todos do verão da eterna Olisipo, os morangos e os figos maduros na pátria eterna dos amores cantados em todos os fados.

Quero ficar para sempre aqui onde as palavras me acodem aos lábios, as palavras que tu me vais ditando à alma em cada passo, em cada olhar...

Quero ficar para sempre aqui a oferecer ao rio o reflexo do mais perfeito abraço: eu e tu.

Ou quando Lisboa sorri ao entardecer, vaidosa por ser a casa do mais completo dos amores.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Para podermos caminhar só precisamos de ter vontade


A noite de Dubrovnik está quente e há uma multidão entre muralhas como que na expectativa de uma brisa fresca que o mar possa oferecer.
Numa praça há um homem que toca viola, numa outra mais à frente soa uma orquestra, e nós sentamo-nos na esplanada de um bar escavado no rochedo que desce para o Adriático.
Não fora a memória e as luzes dos barcos que passam ou andam por ali a pescar, e não seria pela brisa que descobriríamos ser o mar aquele breu imenso à nossa frente.
Hoje nem a lua veio para nos ajudar.
Mas a realidade está muitas vezes para lá daquilo que nos é permitido ver de uma forma racional.
E ali está o mar à nossa frente.
Tomamos um refresco para animar a última noite da viagem e revivemos alguns momentos...
O motorista que se chama Jelco, que em Português significa desejo, uma guia Croata que adora a palavra Portuguesa Borboleta e que a adoptou como endereço de e-mail, o bar em que a palavra-passe para o Wi-Fi é "findyourway" (encontra o teu caminho), o sol que se banha connosco ao fim da tarde, as farturas que parecem ser universais e sabem muito bem na noite de Split, o Amato Lusitano que foi um dos médicos mais importantes da História de Dubrovnik, as nossas gargalhadas, as palavras mais repetidas: guerra, independência e religião...
E partimos pouco depois porque há malas para fazer e um avião para apanhar cedo e regressar a Lisboa.
Um último olhar, uma derradeira compra... e a meio da rua principal a Sónia rompe a sandália do pé esquerdo, e passa a coxear arrastando a sola.
Um bom resumo para tudo aquilo que vimos e aprendemos nesta viagem por entre uma perfeita sintonia e amizade: para podermos caminhar só precisamos de ter vontade.
Pelo desejo descobriremos sempre o nosso caminho, a rota que nos leva à independência e à liberdade, mesmo que muitas vezes com aquele desconforto que nos obriga a coxear.
E viva a paz por entre a consciência de que a religião, qualquer que ela seja, tem muito mais de humano do que de divino.
Deus é único, é a própria paz e está sempre presente, tal qual o mar numa noite de breu e sem luar. 

domingo, 12 de julho de 2015

CROÁCIA / MONTENEGRO / BÓSNIA DIA 6 Medugorje / Mostar "A paz"

Cruzamos a fronteira entre a Croácia e a Bósnia e sentimos que ela é muito mais do que apenas um detalhe geográfico e administrativo. Há feridas profundas guardadas numa terra aparentemente igual na cor, nos aromas e no sol, até na língua; mas tão diferente no rosto humano com que se veste a fé menosprezando o próprio Deus.

E a guia vai desfiando um rosário de memórias de uma guerra que foi do nosso tempo, os anos em que a amizade e as cumplicidades sucumbiram sob a ambição do poder escondido por detrás de todas essas crenças.

Ironia da viagem e a primeira paragem em terras Bósnias ocorre em Medugorje no local onde supostamente Maria apareceu a um grupo de crianças no dia 25 de Junho de 1981.

O Vaticano não reconheceu estas aparições mas o "clima" ao redor do santuário de paredes modernas já lembra Fátima, e até as lojas e o merchandising parecem decalcados dos da Cova da Iria.

Turismo, hotéis, restaurantes e uma taxa de 20 Euros para entrar numa aldeia que a fé fez crescer até cidade, o sítio onde uma luz trouxe uma mensagem de paz...

Fé, paz, Nossa Senhora... mas não há almoços grátis.

Seguimos para Mostar...

A cidade mais importante da Herzegovina tem um nome que significa "o guarda da ponte" e isso faz todo o sentido quando olhamos para a estrutura de pedra que nos permite cruzar a pé o Rio Neretva. A ponte, o ícone da cidade que os "Senhores da Guerra" deitaram abaixo, e mais tarde reconstruído em 2004.

Mostar, uma cidade dividida?

Digamos antes uma cidade multiplicada... por dois.

Católicos e muçulmanos em áreas distintas, campanários a competirem em altura com os minaretes, e muitas fachadas com as tatuagens dos anos de dor da guerra.

A ponte a multiplicar, muito mais do que a dividir; a gente que em comum parece ter apenas o código postal e, imagine-se, o gosto pelo café.

Sob 42 graus percorro as ruas de pedra polida, a ponte de onde os homens saltam de uma altura de 60 metros até ao rio e onde o arco gigantesco nos obriga a cruzar uns estranhos e sinuosos degraus; e não consigo evitar temer pela paz.

Oxalá o café rompa a tradição e a História, oxalá os Homens não sufoquem e não traiam Deus.


sábado, 11 de julho de 2015

CROÁCIA / MONTENEGRO / BÓSNIA Dia 5 Parque Krka / Trogir "A água"

Descemos a montanha até ao rio seguindo pela estrada estreita rasgada entre pinhos, ciprestes e carvalhos.

Cedo começamos a ver a água que a montanha tinge de verde, e aqui e ali, o céu, de um intenso tom de azul.

Depois de chegarmos percebemos que as águas cantam no seu irresistível abraço às pedras, e que esse canto se une ao das cigarras e dos grilos, incansáveis no louvor ao verão.

Seguimos a pé por uma passadeira de madeira com a solenidade de quem sobe a nave central de uma catedral em dia solene de festa. Aqui sente-se a paz e Deus, para quem acredita, está aqui na honestidade da Terra, muito mais do que em qualquer desenho feito por humanas criaturas.

Aqui e ali paramos porque uma libelinha se nos atravessa ao caminho, ou porque há um recanto que de tão perfeito destapa a saudade de quem queríamos muito ali ao pé de nós.

Depois...

A ponte no final da longa cascata e o irresistível mergulho nas águas que há tanto nos galanteavam através do olhar.

A pele envolta por um beijo da água que corre num instante que jamais regressa. É aqui e sempre o presente que nos molda a vida; onde tudo acontece.

Sento-me numa pedra que água vai polindo aos poucos e há milénios, e perco-me então levando para longe o pensamento com tal intensidade que te sinto ali ao meu lado, à minha direita. Sinto o teu olhar, sei de cor as palavras que diríamos um ao outro, até sinto os meus irresistíveis "musguitos"...

E a vida é um rio que canta entre as pedras dos dias e que tem a cor que o céu lhe dá, um rio que me abraça.

Já no regresso, o barco leva-nos pela serenidade do rio após a ponte. Ao longe os cisnes brincam junto à margem e as cigarras seguem louvando o calor.

A vida contigo é um rio azul que corre na serenidade dos dias desejados e infinitamente perfeitos.


sexta-feira, 10 de julho de 2015

CROÁCIA / MONTENEGRO / BÓSNIA DIA 4 Sibenik / Zadar "O vento"

Continuamos a subir ao longo da costa com o mar a manter-se fiel ao nosso olhar, do lado esquerdo do autocarro.

O Adriático, ou um corredor azul entre o continente e mais de um milhar de ilhas, a servir-nos de referência no caminho de Split até Sibenik.

Recordamo-nos da guerra que passou por aqui há tão pouco, e o zimbório da catedral ainda em reconstrução, aviva-nos definitivamente essa memória.

Um dia algures pelo Século XV, um arquitecto que construiu este templo, Giorgio de Sabenico, resolveu fazer a decoração exterior com uma frisa onde esculpiu os rostos dos seus conterrâneos; dizia ele que assim associava definitivamente os Homens ao divino.

O friso ainda se mantém e os rostos miram-nos lá do alto, a lembrar talvez que a fé,  em Deus e na própria vida, resiste a tudo e às vezes até à imbecilidade da guerra.

Continuamos a subir e paramos em Zadar, a terra onde o vento se sente intenso num abraço forte e contínuo.

É o vento que vem do interior, que ultrapassa as montanhas, a cidade, o mar, e que só pára numa ilha mais à frente: Pag.

Um vento que pela sua perseverança teve direito a um nome, chamam-lhe Tramontana.

E porque o vento passa pelo mar, diz a gente que arrasta com ele o sal até às plantas que as cabras comem, e que esse é o segredo por detrás do melhor queijo da Croácia e que da ilha tomou o nome.

Certo é que por ali por Zadar alguém se lembrou de construir um órgão à beira mar, e são as ondas que o vento desperta, o instrumentista e alma das músicas que ouvimos sentados enquanto olhamos o mar, a ilha em frente e o céu.

A meio da tarde, esta é a melodia que se regista por entre o vento e a fala da gente que passa ou que se senta nas teclas de pedra que as ondas beijam.

E agora permitam ao poeta um desabafo...

Ali sentado, estando eu envolto na paz que o teu amor arquitecta em mim, senti-me irmão das ondas do mar no canto que o vento lhes oferece; a paz do meu canto é a vida toda que me ofereces em cada beijo.

Um beijo com a duração de uma vida, a vida que sabe ao açúcar de ser feliz.







quinta-feira, 9 de julho de 2015

CROÁCIA / MONTENEGRO / BÓSNIA Dia 3 Dubrovnik / Split "O céu"



As tardes de Dubrovnik atraem o sol ao azul intenso do Adriático, e nós que nos entregamos ao mar em busca de um fresquissimo abraço, brincamos com o astro-rei algures na linha tingida a ouro e laranja que a esta hora indica o poente.

Um sol que estando mais longe se faz mais próximo de nós e cabe como nunca nas nossas mãos.

A distância é afinal tão irrelevante para aquilo que brilha e nos atrai.

Às vezes por entre umas braçadas e a conversa contemplamos a costa a partir do mar e oferecemos ao olhar o recorte de um horizonte rasgado de ciprestes. Ao longo da vida cada Croata deve plantar pelo menos um cento destas árvores que apontam deliberadamente para o céu até ao dia em que são cortadas e oferecem a madeira para navegar.

Entendemos esse destino marinheiro quando subimos até Split, a cidade cujo nome homenageia as giestas que a vestem de amarelo em todos os meses de Maio, e quando sentimos o mar que nos acompanha ininterruptamente à esquerda.

Na rota há nove quilómetros de costa Bósnia e nós passamos a fronteira, convertemos Kunas em Marcos Bósnios, mudamos de bandeira... e só o mar e os ciprestes continuam iguais.

Tudo tão igual à pausa dos dias que parecem recuos ou cortes com o céu que sonhamos, mas esses mesmos dias em que o mar nunca nos abandona no querer e no sonho, e está sempre ali a convidar-nos a navegar.

Na Bósnia, o hotel onde paramos tem à porta oliveiras seguras por estacas; tão vulnerável se sente a paz...

Na antiga Jugoslávia não existia a palavra "anjo" e o "céu" era povoado por uma estrela de cinco pontas em tons de vermelho. O tempo fez esquecer a estrela e as crianças hoje já desenham os anjos que imaginam no "céu".

O céu dos Homens tão vulnerável ao tempo quanto a paz.


E depois finalmente Split com um calor tórrido a convidar para um mergulho a que não fugimos.

O sol ainda alto não permite que o agarremos. Mas sentimo-lo nosso entre o azul e o azul, o do mar onde navegamos, e o do céu que sonhamos.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

CROÁCIA / MONTENEGRO / BÓSNIA - Dia 2


As montanhas são imensas e oferecem um eco de tranquilidade ao mar que as beija como se de um lago se tratasse.

Ao fundo uma ilha que o Homem construiu como altar para a Senhora do Rochedo, orago e templo de ex-votos gravados em prata; e na torre sineira, um quadro bordado com os cabelos da mulher de um marinheiro que durante 25 anos rezou pelo regresso do seu amado. O louro e as cãs da espera de um quarto de século.

O amor e as suas múltiplas expressões na incursão em Montenegro, um país regressado à independência em 2006.

A guia Tina, que é Croata, contradiz a paz das montanhas ressuscitando ao microfone do autocarro as memórias da guerra e da Jugoslávia onde nasceu; de Tito, o homem de quem ainda recorda os nomes dos cães, e de quem enumera os atentados à liberdade...

E trai o amor das mais bonitas histórias que contou dizendo ser impossível um casamento ou a paixão entre pessoas do seu país com os Montenegrinos ou os Sérvios.

No banco do autocarro onde nos sentamos, o último, eu afirmo não compreender esta atitude.

A Margarida entende-a e oferece-me uma justificação:

- Tu estás apaixonado e não vês impossíveis no amor. Mas eles existem.

E no resto da viagem, entre montanhas, fortalezas, Kotor, Budva, cafés com gelo, agentes da alfândega com preço de garrafas de água fresca, ferries para travessias ao som de música étnica... e tomando a paz de um mar em tom de "lago" e tantas memórias, eu revejo o quadro que teci pedindo à vida que chegasses.

Dei-lhes milhares de cores, todas as cores que tem uma longa espera.

terça-feira, 7 de julho de 2015

CROÁCIA Dia 1 / Dubrovnik / "A liberdade"

Um velho ditado Croata diz que se colocarmos um dedo no mar tocamos no mundo inteiro, porque os mares se unem e se abraçam para dar um definitivo tom azul ao planeta Terra.

O Homem não aprendeu com o mar...

Para lá das montanhas os Bósnios são muçulmanos enquanto os Croatas são Católicos; a Tina, que é a nossa guia Croata mas que fala Português porque não tinha Fernando Pessoa traduzido para a sua língua, confessa o desconforto pelo facto de amanhã irmos passar a fronteira de um país seu inimigo, Montenegro.

A religião e a política a servirem de pretexto para a guerra na traição ao mar e à poesia.

Olhamos Dubrovnik desde o cimo da colina e o facto de 80% dos telhados serem novos confirma quão próximos estamos da guerra de 1991. Uma guerra definitivamente do nosso tempo a sobrepor-se à memória de uma República em que o "Rei Tor" era eleito por um mês para guardar as chaves da fortaleza. Os telhados do Século XX com marcas da guerra a fazerem sombra às inscrições cravadas na pedra: "A liberdade não se vende nem com todo o ouro do mundo" e "O interesse público deve sobrepor-se a qualquer interesse privado".

E pelas notícias que vamos tendo sempre que o Wi-Fi nos surpreende, parece que persiste a coerência na Europa relativamente à traição à liberdade e ao bem estar do povo.

O sol queima, pede garrafas de água, o Mar Adriático puxa-nos para um mergulho...


Quase saída há um homem que vende corações dourados. Compramos-lhe dois e ele afirma que há dez anos que está por aqui todos os dias a praticar a linguagem universal: o amor.

Paramos para uma foto à entrada das muralhas e reparamos num tronco de uma amoreira de onde rebentam novas folhas.

Saímos felizes.

Talvez um dia o amor floresça como folhas de um velho tronco e a liberdade se instale definitivamente e se multiplique.

Afinal parece que ainda há milagres...

O Santo Padroeiro de Dubrovnik é São Brás. Vimos três relíquias suas: uma perna no Mosteiro Franciscano, outra perna no Mosteiro Dominicano e uma outra perna no Tesouro da Catedral.

Milagres da multiplicação, claro.