sábado, 25 de julho de 2015

Os mais de sessenta segundos da espera num semáforo nas margens do Mondego


O semáforo do Largo da Portagem para a Ponte de Santa Clara, em Coimbra, tem um contador de segundos com um tempo de espera que ultrapassa os sessenta de um minuto, dando-me tempo mais do que suficiente para me ver a atravessar a rua.

Fevereiro de 1981, estaria o Carlos Paião a dar os últimos acertos no Playback para vencer o Festival RTP a 7 de Março derrotando as minhas favoritas Doce com o Ali Babá.

Eu, o Manuel, a Zinha, o Paulo Ratado, a Zé Bexiga... fomos a Coimbra na visita de estudo, a primeira, quando frequentávamos o nono ano.

O autocarro ficou estacionado na margem esquerda do rio e nós atravessámos a ponte para ir jantar a um restaurante que ficava numa cave e tinha o nosso prato favorito: bitoque. 

Já tínhamos ido à fábrica das bolachas Nacional, onde atacámos as de chocolate; à fábrica da cerveja Sagres, ao Portugal dos Pequenitos, a Santa Clara a Velha, e vivíamos na emoção de ir a uma discoteca de nome "etc", numa altura em que qualquer bola de espelhos pendurada do mais simples tecto nos garantia uma definitiva proximidade à série "Fame" que víamos nos sábados à tarde.

Comprámos cigarros, mais pela atracção pelo proibido do que gosto por fumar, porque pelo menos na parte que me tocava jamais soube travar o fumo e limitei-me sempre a ser uma espécie de chaminé.

Vivíamos paixões secretas e nós rapazes já tínhamos a barba a despontar. O meu bigode / buço já era imponente.

Espreitámos o Hotel Astória e achámo-lo o mais chique do mundo, mas fomos dormir ao Seminário Maior na companhia de uma professora de Português com ar depressivo que tomava ampolas bebíveis na altura dos piqueniques e da partilha dos farnéis. Andámos em pijama pelos corredores à procura de fantasmas ou quiçá de tesouros pois a leitura dos livros de "Os cinco" não tinha ocorrido há tanto tempo assim.

E vi-nos passar cada um com o seu "Kispo" de cor garrida. Íamos a rir cumprindo um hábito que ainda hoje mantemos...

Depois o semáforo abriu e eu rumei a Lisboa.

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