domingo, 27 de novembro de 2011

Fado – Património de Lisboa, de Portugal e da Humanidade

Quem um dia te viveu, Lisboa,
Conhece de cor as voltas do teu canto,
E sabe que o fado que a gente entoa,
É o canto da saudade em tom de pranto.

A viela mais estreita do bairro antigo
A que a sardinha vem dar o cheiro a mar,
Oferece-me o eco para o pregão que eu digo
E é palco perfeito para o fado cantar.

Cerro os olhos com alma e com garra
E ofereço ao corpo um ar sério ou gingão,
Para que ao primeiro triste acorde da guitarra
Me salte para voz o que está no coração.

Um dia quis também Deus fazer Seu,
Este canto luso da alma de todos nós
E marca de perfeição então lhe deu
Criando Amália e lhe dando a voz.

E assim com esta marca de divino
O fado ganhou asas e foi pelo mundo
Mostrando que de Portugal é mais que um hino
É saudade, é povo e amor profundo.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O parque temático

Por manifesta falta de tempo no passado fim-de-semana, tenho aproveitado os dias desta semana para ler os volumosos periódicos publicados ao sábado e domingo, que compro religiosamente e que até serem lidos, conservo na sala junto ao meu sofá.
Fico a saber que:

- A presidente do Parlamento Português optou por manter a reforma em detrimento do salário que lhe correspondia pelas actuais funções. É que a reforma, conseguida aos 42 anos de idade e após 10 anos como juíza do tribunal constitucional, tem o valor de cerca de 7.000 € mensais, sendo portanto superior ao dito salário;

- O líder do Bloco de Esquerda afirmou que a Greve Geral de dia 24 de Novembro é, ou poderá ser, o início de um novo 25 de Abril;

- O líder da UGT deixou-se fotografar na piscina de um hotel de luxo em Maputo, onde por certo se encontrava em visita de trabalho, a fumar charuto e com ares de estar no paraíso;

- As sagas BPN e Face Oculta prosseguem a bom ritmo, com renovados argumentos, conseguindo superar em número de episódios as telenovelas-maratona da TVI;

- Na Madeira, o Natal vai ser ter o brilho de muitas lâmpadas pagas com um total de 3 milhões de Euros que irão directamente para uma empresa de um ex-deputado do partido que gere o governo da região.

Ou seja, em Portugal:

- A presidente da Assembleia que aprova o orçamento que corta e congela pensões da ordem das centenas de Euros a indivíduos que tiveram de trabalhar e fazer os seus descontos até aos 65 anos, governa-se com uma prematura e choruda reforma que é cerca de 15 vezes superior ao salário mínimo nacional;

- Um líder partidário escandalosamente agarrado ao poder, que não assume derrotas e não dá a voz e liberdade aos militantes do seu partido, para que digam ou não se o querem continuar a ver na liderança, faz bandeira com a liberdade e exige um novo 25 de Abril;

- Os defensores profissionais dos trabalhadores vivem em condições económicas muito acima dos trabalhadores que dizem representar;

- Os anos no poder de Cavaco, Guterres e Sócrates foram paraísos perfeitos para uma corja de aldrabões que usaram e abusaram do poder sempre em proveito próprio;

- Continua a não haver vergonha relativamente à gestão financeira da Madeira. Na Pérola do Atlântico como em qualquer outra localidade de Portugal, cada lâmpada acesa em iluminações de Natal, constitui uma manifesta ofensa aos trabalhadores portugueses.

Donde concluo que hoje Portugal é um Parque Temático ao jeito de um país, onde tudo o que é visível é irreal e onde a realidade suja se conserva nos bastidores, raramente emergindo e deixando que a observemos à superfície.
Eu estaria mais tranquilo e cómodo se não estivesse a pagar caro o combustível para os motores dos carrocéis desta “Feira Popular”.
A pagar e sem direito a divertir-me.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

TUGAlidades


Não sei se devido ao facto de nos últimos tempos, por acção desses seres poderosos e dominadores do mundo agrupados no designado e abundantemente referido “Mercado”, passarem o tempo a associar Portugal a lixo, ou então por obra de uma tal senhora Merkel oriunda da ex-RDA e filha de um Pastor Evangélico, empenhada em fazer pagar o desrespeito pelas regras da Zona Euro, com perda de soberania, o que é facto, é que hoje acordei rouco depois de ontem ter entoado três vezes o hino nacional a plenos pulmões, durante o Portugal – Bósnia que se jogou no Estádio da Luz, que ganhámos por seis a dois e que nos apurou para o Euro 2012.
Haja pelo menos um Euro em que estamos por mérito, nem que seja apenas e só o do futebol.
Mas voltando ao jogo de ontem, tenho de facto de vos reconhecer que durante o mesmo me apercebi de que este “pisar de calos” ao orgulho lusitano de que temos sido vítimas num passado mais recente, me aguça a garra patriota e ontem, para além do hino cantado por três vezes, confesso ainda que não resisti a abrir a mão e a dizer adeus por alturas do quinto golo da selecção das quinas, a um casal de Bósnios que se encontrava atrás de mim e que legitima e naturalmente se tinham manifestado aquando dos seus dois golos.
Após o sexto golo já não estavam no seu sítio. Ou foram bem mandados e saíram quando eu lhes disse adeus ou então, suspeitando que haveria mais golos, recusaram-se a oferecer-me mais um momento de manifestação exacerbada do meu orgulho de ser Português.
Esteja o patriotismo aguçado ou não, há momentos que a vida nos oferece o privilégio de viver, que são únicos e que nos marcam duplamente. Por um lado pela beleza e arte que têm na sua essência, e por outro pela carga simbólica que carregam, sobretudo quando envolvem figuras cuja genialidade indiscutível ganhou estatuto de marca e afirmação da nação a que pertencem, eles e nós.
Jamais esquecerei a noite em que no Coliseu dos Recreios e durante um concerto dos Madredeus, me foi dado o privilégio de ver tocar Carlos Paredes.
Como eu gostaria de ter podido estar num espectáculo da Amália ou de ter podido aplaudir num estádio um golo do Eusébio.
Ontem, quando o Cristiano Ronaldo correu para a bola, rematou e fez o primeiro golo de Portugal, tive essa sensação de estar a viver um momento mágico e único, um momento destes que não se esquecem.
Porque novo-riquismo e exibicionismos à parte, o rapaz é mesmo o melhor jogador da Europa e quiçá do mundo.
Que ele nos inspire e nos incuta auto-estima na hora de dar um pontapé forte e certeiro na malfadada crise.
Viva Portugal!

domingo, 13 de novembro de 2011

Ai, Timor!

Passaram ontem vinte anos sobre o massacre ocorrido em Dili, Timor Leste, no Cemitério de Santa Cruz, quando as forças militares Indonésias disparam brutalmente sobre civis.
A presença no terreno de alguns jornalistas internacionais, permitiu que o mundo espreitasse a repressão de que os Timorenses eram vitimas desde a ocupação Indonésia ocorrida no período em que Portugal conjugava o verbo descolonizar no presente do indicativo.
Quando comecei a ouvir falar de Timor, recordo-me que a palavra já rimava com guerra.
No final dos anos setenta, chegaram ao Seminário de Vila Viçosa, alguns rapazes que expressando-se no mesmo Português que nós, nos falavam de uma terra distante, em guerra, e a viver o sofrimento e a dor de famílias desfeitas, separadas entre a própria guerra e a miséria oferecida pela pátria da língua mãe, ali algures para os lados do Jamor.
Foi o meu primeiro contacto com Timor.
Anos mais tarde, numa tarde e serão de Julho de 1984, com o objectivo de participar num Convívio Fraterno em Proença-a-Nova, fiz a viagem desde Vila Viçosa no carro do então Padre Basílio do Nascimento, um dos responsáveis pelo Seminário de Évora, numa boleia patrocinada pelo nosso amigo comum, o Padre António Simões.
Durante a longa viagem e também o jantar que fizemos em Portalegre pelas bandas do Semeador, ouvi falar de um povo unido a nós pela língua e pela fé, que lutava com a força das armas e sobretudo pela força da própria fé, para que um dia pudesse ser dono do seu destino, deixando de ser escravo dos poderosos senhores do mundo.
Pela primeira vez ouvi falar de Xanana Gusmão, Ramos Horta ou D. Ximenes Belo, heróis maiores de Timor, respectivamente, pela força das armas, da diplomacia e da fé, unidos pela convicção e pelo muito querer a liberdade.
Comecei a interessar-me por Timor, a ler e a ouvir aqueles que nunca deixaram cair a sua causa no esquecimento, sendo neste campo obrigatória uma referência a D. Duarte de Bragança, de tal forma que as imagens do massacre de Santa Cruz apanharam o mundo de surpresa, mas a mim nem por isso. Confirmavam apenas o que há muito eu sabia.
Mas o mundo despertou para esta causa e o sangue dos heróis de Santa Cruz, foi alerta e a semente da liberdade cuja conquista seria concretizada com a independência a 20 de Maio de 2002.
E talvez até as ave-marias em Português, rezadas em fundo no filme do massacre, tenham sensibilizado o Papa João Paulo II, para a injustiça da ausência do seu gesto de beijar o solo Timorense, distinguindo-o do solo Indonésio, quando visitou Timor em 12 de Outubro de 1989.
Do massacre de 1991 até à independência em 2002, há um longo caminho que é feito de esperança e temperado pelo crescendo da revolta ao nível global para a causa deste pequeno país de heróis.
O Prémio Nobel da Paz atribuído a D. Ximenes Belo e Ramos Horta em 1996, confirma que a causa de Timor jamais iria cair como antes no esquecimento.
Os acontecimentos de 1999 que culminam com a entrada da ONU em Timor-Leste, assumindo os anseios deste povo como um dos seus objectivos e do mundo, oferecem a Portugal a oportunidade da união por uma causa.
Como muito poucas vezes tinha antes ocorrido, colocaram-se de lado as divisões políticas, sociais, religiosas e de qualquer outra espécie, e em vigílias, manifestações, cordões humanos, trajes brancos, velas acesas nas varandas e janelas, Portugal uniu-se por Timor e pela conquista da liberdade, permitindo o acerto da História.
Nunca mais falei com D. Basílio do Nascimento, entretanto nomeado Bispo e também ele num agente activo e herói no caminho para a liberdade do seu povo, mas se um dia o puder fazer não perderei a oportunidade de lhe agradecer o mote que me deu naquela viagem entre o Alentejo e a Beira Baixa, para a lição de que o sonho e a fé são tudo quanto necessitamos para ter força e ganhar a convicção que nos leva ao que queremos ser e até onde queremos estar.
E já agora, não menosprezem qualquer segundo das vossas vidas, porque até aquilo que parece mais simples e vulgar, como uma simples e banal viagem de automóvel, pode vir a transformar-se num dos momentos mais fantásticos e memoráveis da nossa existência.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Luzes, câmara e… imbecilidade.

Segundo os dados da Marktest relativos a Outubro de 2011, o programa com maiores níveis de audiência na televisão portuguesa foi o jogo de futebol entre Portugal e a Dinamarca, transmitido pela RTP1 no dia 11. Este programa teve um Share de 52,5%.
Dos cinco programas mais vistos, quatro são jogos de futebol, havendo também um episódio de uma telenovela.
O sexto programa mais visto foi A Casa dos Segredos, transmitido pela TVI também no dia 11 de Outubro, com um Share de 35,7%.
Daí até ao final do Top 10, nada mais existe para além de jogos de futebol e Casa dos Segredos.
Tendo em conta estas escolhas dos portugueses na hora de manipular o comando da televisão, fica claro que em Portugal quem quiser ser famoso e ter uma elevada notoriedade junto do grande público, tem apenas três opções: jogar futebol, ser actor de telenovelas ou então disponibilizar-se para se enfiar numa casa com um bando de energúmenos a fazer as mais tristes figuras que seja capaz.
Dado que às duas primeiras opções se exige talento, ou, no caso das telenovelas, alguns atributos de natureza física, fica explicado porque é tão procurada a terceira via, a dos “Big Brothers”. É a que resta para quem não sabe jogar à bola e não seja uma estampa.
Fui à procura destes números não por acaso, mas buscando as razões pelas quais mais um grupo de estudantes, desta vez de uma escola dos arredores de Sintra, colocou na Internet imagens de um comportamento anormal durante uma aula da disciplina de Português. Pelo conteúdo filmado, a este filme só será possível atribuir um título do género: “As cuecas cá da malta”.
Não restam dúvidas de que tudo vale a pena, até mesmo a imbecilidade, para conseguir captar a atenção do público e alcançar a tão ambicionada fama.
Numa das raras vezes em que se dispôs a prestar serviço público, a RTP iniciou em Outubro a transmissão de uma série de qualidade, “Portugueses Extraordinários”, que retrata a história de compatriotas nossos que por obras valorosas se vão distinguindo, sendo muitos deles indivíduos notáveis que se despojaram de si para se entregarem a causas fantásticas, pondo-se inteiramente ao serviço dos outros.
Dos programas desta série emitidos em Outubro, o que teve maior audiência foi o de dia 28, com um Share de 17,8%, exactamente metade das audiências das cenas temperadas de estupidez e sexo da Casa dos Segredos.
Assim, em Portugal em 2011, uma pessoa que por exemplo crie uma fundação para ajudar no desenvolvimento de centenas de cidadãos deficientes, tem metade das probabilidades de obter notoriedade pela sua obra, do que uma ninfomaníaca que se rebole com homens debaixo de lençóis e que afirme que a África é um país da América do Norte.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O Paço a bordo


A edição de Novembro da revista de bordo da TAP, traz entre outros temas muito interessantes, uma entrevista com uma passageira frequente, Manuela Saldanha, Directora de Marketing da Loja das Meias.
No conjunto de sugestões apresentadas relativas aos lugares “Made in Portugal” que não esquece e aos quais recomenda uma visita, Manuela Saldanha inclui o Paço Ducal de Vila Viçosa, juntamente com o Museu Nacional de Arte Antiga ou o Museu Berardo.
Nós já sabemos que é um sítio único e que muito nos envaidece que seja nosso, mas é sempre bom ver assim reconhecida a beleza da nossa terra e dos seus lugares, sobretudo por gente que já calcorreou meio mundo e que trabalha e se movimenta em áreas onde se cultiva o bom gosto.

Sementes de Esperança II


Ainda a propósito da partida do Padre Armando, uma vez regressado de Londres, não resisti a “mergulhar” no meu baú das recordações, à procura de uma imagem fotográfica que pudesse juntar às muitas e boas imagens do grupo Sementes de Esperança, que gravei e conservo num dos lugares mais seguros da memória.
Encontrei esta foto que foi tirada na tarde do dia 13 de Maio de 1982, precisamente a véspera da visita do Papa João Paulo II a Vila Viçosa.
Estamos no claustro do Convento das Chagas, que muito antes de ser a Pousada D. João IV, foi o nosso poiso em muitas tardes de convívio e de festa.
Há um palco onde os grupos de jovens das diferentes localidades se preparavam para actuar, estando a usar da palavra, sempre no seu jeito ousado e diferente, o Padre Manuel Barros.
No canto inferior esquerdo da foto, vemos o Padre Armando em conversa com os artistas da viola que nos iam acompanhar. Não se vê o rosto dos músicos mas quase de certeza que um deles é o meu amigo José Maria.
De frente na foto há uma pequena tabuleta que sinaliza Vila Viçosa e lá estamos nós mais do que preparados para o nosso momento.
Eu e a São Duarte líamos o texto, quais Eládio e Zanatti à escala do Pátio das Chagas, e os restantes elementos subiam ao palco, cada um de sua vez, expressando por mímica o sentido das palavras ditas por nós. Se bem me lembro, o texto era relativo aos méritos e virtudes que reconhecíamos na figura do Papa e tinha sido elaborado por todos durante um encontro em que tínhamos participado no Monte da Virgem, na Serra D’ Ossa.
A qualidade da foto não permite identificar todos os amigos mas vejo o Manuel Almas, o João Paulo Silva, o Paulo Quinteiro e o Paulo Geadas, a Zinha Duarte, a Manuela Silvério, a Madalena Barros, a Célia Costa, a Mena Espiguinha e a Zé Bexiga.
Se conseguirem identificar-se ou identificar mais alguém, por favor partilhem por aqui.
Recordo-me que para além desta actuação, eu dei uma entrevista para a RDP e o João Paulo participou no palco, de alva vestida, num momento nocturno de oração.
Lembro-me também que jantámos o inevitável Arroz à Valenciana cozinhado pelas Irmãs do Seminário de S. José, e de que iria já longo o serão quando nos dirigimos para a Avenida com o objectivo de tomar o melhor lugar para ver e estar com João Paulo II.
Com mantas, casacos e muita animação, passámos a noite todos juntos na barreira do Castelo na zona em frente ao Correio e à Caixa Agrícola, naquela que foi uma das mais fantásticas noites que me lembro de ter passado acordado.
E era assim destas coisas simples e pequenas, que fazíamos grandes os nossos dias de há trinta anos.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Sementes de Esperança

Estaria eu a entrar na minha segunda década de vida quando o Padre Armando Tavares chegou a Vila Viçosa à Paróquia de S. Bartolomeu.
Neste final dos anos setenta, o clima político era quente nas terras do sul, e frescas, eram só mesmo as memórias da revolução recente, fazendo-se do combate à Igreja Católica, uma marca forte dos dias da contestação e de uma juventude a crescer para as novas liberdades.
Em contra-ciclo nesta lógica anticlerical, após os anos da catequese da instrução primária, eu e mais uns amigos, tínhamo-nos mantido unidos num grupo dinamizado pelo Padre José Luís Francisco e pela minha querida e eterna catequista Bárbara Elisa.
O Padre Armando chegou e juntou-se a nós para nos conduzir até aos dias mais bonitos e felizes das nossas vidas.
Com uma paciência infinita, uma generosidade sem igual e a humildade que gera as maiores cumplicidades, o Padre Armando “aturou-nos” na idade difícil e insuportável das nossas certezas absolutas, levando-nos pela mão por esses trilhos desafiantes mas certos onde se saboreia a presença de Deus e que desembocam na felicidade.
Reuníamo-nos todas as quartas-feiras à noite na Casa Paroquial de Nossa Senhora, na Corredoura, para aí partilharmos o todo das nossas vidas, sem tabus e olhando sempre tudo pelo prisma da fé e da Palavra de Deus. Por nos sentirmos a crescer e porque o fazíamos com a perspectiva de um futuro grande e bom, chamámo-nos com toda a legitimidade, Sementes de Esperança.
Com a companhia do Padre Armando, fizemos tudo o que faziam os jovens da nossa idade: caminhámos pelo campo, nadámos nas albufeiras, fizemos piqueniques, petiscos, viagens, mas sempre, em todos os momentos, rezámos e unidos uns aos outros, provámos o doce da presença de Deus.
Com o Padre Armando rezámos laudes na Ermida de S. Jerónimo, na Tapada, celebrámos a eucaristia no Monte dos Apóstolos, e celebrámos a penitência e a eucaristia no Bosque de Borba, em momentos que jamais se apagarão da minha memória e que para sempre ficarão gravados a ouro no curriculum da minha existência.
Um dia o Padre Armando partiu de volta a Proença e nós partimos também pelos caminhos que nos fizeram Homens, fazendo germinar a semente e dar corpo à esperança.
Em Março passado, numa tarde escura de um domingo de primavera envergonhada, fui até ao Seminário de Proença-a-Nova com uns amigos, para estar com o Padre Armando, fazer-lhe companhia e dar-lhe um pouco de alento na doença que há muito o atormentava.
Reunimo-nos à volta dele como há trinta anos atrás.
Rimo-nos muito, comovemo-nos, lembrámos os ausentes, recordámos as nossas famílias, falámos da vida, da doença e da morte, falámos de fé, falámos de Deus.
Com tranquilidade, o Padre Armando partilhou connosco a forma como a doença o tinha feito crescer na fé e aproximado de Deus, e deu-nos sinais e provas de como serenamente aguardava a chamada para a viagem dos eleitos, a viagem para a casa do Pai.
O Padre Armando presenteou-me com um raro testemunho de fé e uma das mais fortes lições de vida.
Depois do jantar, despedimo-nos à porta do Seminário com o brilho nos olhos que é prova deste humano sentimento de saudade de quem sabe que só se voltará a ver um dia mais tarde, mas noutro lugar que não sobre a terra.
Recebi hoje a notícia de que o Padre Armando partiu para o Céu, e aqui no meio de Londres a olhar um Hyde Park tingido de Outono, as lágrimas que o coração me faz aflorar aos olhos, são mais do que de saudade, são de comoção por esta bênção maior de um dia Deus me ter feito beneficiário da presença de um seu apóstolo eleito que chegou para me injectar vida e fazer-me feliz.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Feira dos Santos

O dia do ano em que a estrada de paralelos entre Vila Viçosa e Borba se tornava mais curta era sem dúvida o dia 1 de Novembro. E o motivo era a Feira dos Santos na localidade nossa vizinha.
A pé, de bicicleta, de moto, de carro ou de autocarro na versão de permanente vai-vem, tudo servia para nos ajudar a percorrer os cinco quilómetros de um caminho que antes da explosão do mármore, era ladeado por olivais e muros caiados de branco.
Em família, com os meus pais, o meu irmão, os meus tios, os meus avós, e anos mais tarde já com os meus amigos, sempre elegemos o autocarro como nosso meio de transporte. Apesar das filas no Rossio junto ao mercado serem habitualmente grandes, sempre tínhamos a oportunidade de pôr a conversa em dia com algum parente ou amigo que estivesse por perto.
Apesar do Outono, o tempo geralmente ajudava. A excepção terá sido mesmo o ano em que a força da chuva e o peso da água, fizeram com que uma tenda caísse em cima da minha amiga São Duarte.
Não me recordo de uma feira maior do que esta em toda a região, e guardo a imagem das barracas a invadir muitas das ruas de Borba, num cocktail extraordinário de residentes, visitantes e feirantes, não se conseguindo distinguir quem era quem.
Numa época pré centros comerciais e hipermercados, eram dois os atractivos especiais desta sessão especial e anual de compras, fruto da sua boa e estratégica colocação no calendário: as iguarias do Outono e o vestuário para o Inverno.
Imagino eu que para além disso, a extraordinária profusão de tascas e o vinho novo chegado às pipas, também pudessem ser atractivo especial para alguns seres mais empenhados em aconchegar o corpo e a alma com os néctares de Baco.
No geral e para o conforto do estômago, comprávamos castanhas, nozes, passas de figo e peros (desculpem mas eu pertenço a essa categoria de seres raros que conseguem distinguir peros de maçãs). Nunca esquecíamos também o inevitável Torrão de Alicante, o melhor amigo dos nossos dentistas.
Para enfrentar o Inverno, adquiríamos botas, capotes, samarras, blusões, impermeáveis, camisolas de lã, cuecas, ceroulas, camisolas interiores com pelo e meias de lã.
Era ver-nos todos catitas na escola no dia seguinte, de roupinha nova e com as botas de couro a cheirar a sebo, encarregando-se sempre o meu avô Joaquim deste untar das botas para que elas tivessem maior resistência, maleabilidade e melhorassem a sua impermeabilidade.
No final do dia, para regressar da feira, apanhávamos o autocarro de volta a casa, depois de o vermos usar e abusar da marcha-atrás em manobras difíceis na apertada estrada, pois por esse tempo os autarcas ainda não tinham inventado as agora famosas rotundas.
Vínhamos felizes e jamais o cansaço de um dia diferente, nos impedia de ir para o quintal acender o fogareiro de carvão para assarmos as castanhas, que quentes e boas, eram a inevitável sobremesa no jantar desse dia.
Hoje, dia 1 de Novembro de 2011, fui ao Cascais Shopping comprar o presente para o meu pai que faz anos daqui a dias, e no meio da sofisticação das marcas e das lojas, senti saudades desse tempo que aqui decidi partilhar convosco, um tempo que era marcado sobretudo pela simplicidade e pelo facto de termos tempo e arte para saborear as pequenas coisas, tornando-as grandes, e fazendo santos, estes dias de todos e de todos os Santos.