domingo, 30 de julho de 2017

As cidades falam de nós


Mais do que as linhas traçadas pelos arquitetos ou as pedras que o mestre pedreiro alinhou para lhes cumprir a forma e oferecer coerência, as cidades guardam, fiéis, a nossa história, sendo livros de memórias impressos a três dimensões, parágrafos resistentes ao tempo e ao fogo.
A toponímia cede lugar aos beijos que a alma inventou, as praças não têm estátuas ou fontes, guardando os olhares que condenaram a solidão ao cais da partida, e as pontes, sobre os rios ou as pequeníssimas ribeiras, são altares que preservam o culto dos abraços que nos fizeram mudar de vida.
As árvores conservam entre os frutos, as palavras que confidenciámos às suas sombras, as mesas são círculos de amigos à volta do café, das gargalhadas e da liberdade, e por muito que o sol o envolva de luz, persistirá dolorosamente triste, o chão que foi da nossa gente, e onde hoje apenas se pisa a saudade.
As cidades, mais do que tudo o que se regista numa foto tirada de manhã ou ao entardecer, guardam tudo de nós, sabendo que só o tempo tem esquinas, e não as ruas, esquinas “impostas” por nós na mudança que alimenta o tanto querer viver.
Por ti, eu jamais deixarei de cruzar o tempo, deixando à solta em todas as cidades, indícios bem marcados dos instantes em que, por um beijo, eu renasci.

 

sábado, 22 de julho de 2017

Os amigos


Os amigos interferem, definitivamente, com o tempo, distendendo-o na ausência, e encurtando-o nas tardes dos abraços.
Nestas últimas, nós usamos as mãos e a vontade para promover pregas nas horas, tentando que os minutos não fluam tão rapidamente no seu percurso ao encontro da noite. E essas pregas são bancos informais situados no meio dos jardins e dos olhares, refúgios à sombra das palavras que têm as silabas coladas com açúcar.
Os amigos também rasgam janelas nos instantes opacos, desassossegam o silêncio que dói, sendo inimigos das cortinas e dos biombos.
Os amigos têm o peito transparente, e o sol e a claridade, invadem, por eles, todos os segundos, atrapalhando-se às vezes, de um modo saudável, com as gargalhadas que têm raízes na alma e que andam à solta perfumando os lábios, que ganham por essa altura um irresistível tom de morango.
Os amigos são donos dos beijos que “descongelam” o tempo preso em muros que bloqueiam vias sem saída, abrindo, assim, avenidas de encontro ao mar e ao cais de todos os navios.
Os olhares dos amigos penduram flores das horas que parecem não ter muita graça, varrendo aquilo que não importa e que persiste nos dias. Os amigos podem não ter um sangue igual ao que nos corre nas veias, mas são quem melhor sabe aquecer e propulsionar o nosso, o que é infinitamente mais relevante no que à vida diz respeito.
Os amigos são azuis, amarelos, encarnados… de todas as cores, e merecem muito mais do que apenas um dia, porque a vida não tem hora marcada, e porque são, indiscutivelmente, os mais fiéis de todos os amores.

domingo, 16 de julho de 2017

O estado da nação


O estado da nação é, fisicamente, gasoso, envolto pela aerofagia dos líderes, perdão, dos chefes, na sua flatulência farta, no caso de estarem sentados no poder, ou da mais pestilenta ventosidade anal, no caso de tal não acontecer.
O estado de saúde é débil, de patologia crónica, com os “médicos assistentes” a mudarem sistematicamente de diagnóstico ou prescrição, pois assumindo a gestão do hospital, logo tratam de adiar, dolorosamente, as cirurgias ou algum tratamento mais caro ou radical.
O estado civil da nação é, definitivamente, solteiro. Todos a querem para “namorar”, ir a festas e aparecerem nas revistas, até para copular, mas depois, ao fim do dia, permanecerá sempre sozinha e sem qualquer compromisso sério e de facto, deitada à sombra dos plátanos em interação intima com a culpa, irmã que também viverá eternamente neste doloroso celibato.
O estado cognitivo da nação é de demência crónica, ali algures entre o vascular e o Alzheimer, em íntima ligação com o estado de dormência e sonolência da mais apática desistência de lutar.
O estado posicional da nação é de cócoras, tal qual o das suas finanças, e há tanto tempo, que a coluna já não consegue aguentar as dores de tão desconfortável modo de estar.
O estado confessional é laico, apesar do credo sempre na boca, e o estado de conservação também não é lá muito bom, pois persistem guarda-ventos nos palácios e nas catedrais, que impedem a entrada de um tempo novo, e possibilitem que voem para longe, o racismo, a xenofobia, o machismo, a homofobia, e tantos “pecados” mais.
Em termos de meteorologia pouco há para dizer, o estado é uma trovoada seca, sob a qual, afinal, tudo pode arder.
Mas, no meio de tudo isto, negro, que se vê, vale a alma que se sente, e que persiste, rubra, no peito de toda a gente. Rubra, e verde de esperança, da genética boa que nos fez, com um coração que de tão grande, permitirá sempre amar por dois, ou até mesmo por três.

 

sábado, 15 de julho de 2017

Quem brincou e falou com o sol…


Na Rua de Três, em Vila Viçosa, quando a mãe nos chamava desde a janela do primeiro andar, num tom alto que acentuava sempre a última sílaba para que a pudéssemos escutar no perímetro de trezentos metros entre a Praça da República e o Rossio, nós sabíamos que o jantar estava pronto.
Antes de irmos a correr para casa, pedíamos ao sol de verão que esperasse por nós, que não partisse à pressa, brilhando só mais um instante sobre as linhas do castelo ou do jogo que traçáramos na terra.
Mas talvez o jantar tivesse espinhas, por ser sexta-feira e os carapaus terem chegado pela manhã à banca da Dona Natalina, e o sol não tivesse qualquer oportunidade de esperar por nós, deixando em seu lugar, a lua, discreta e magnífica senhora da noite, companheira ideal para jogarmos às escondidas, brincando com as suas sombras.
Bem discreta e desaparecida andaria a brisa fresca, por essa altura de Julho, quando os pais nos deixavam brincar até mais tarde, mas nunca para lá da chegada do vizinho Cristóvão Grilo, que era estafeta e chegava no último comboio, trazendo as encomendas desde a estação num velho mas ruidoso carro de mão.
Quem brincou e falou com o sol não tem medo de nada que lhe possam trazer os dias.
Quem se refugiou nas sombras do luar, sabe que é daí que melhor se vêem as estrelas.
Quem nunca viu e abraçou o mar, pode conhecer-lhe a voz, escutando um búzio, e o gosto a sal, através dos carapaus que foram fritos para acompanhar a salada de tomate maduro.
Quem desenhou no chão, com a ajuda de uma vara, as linhas perfeitas de um castelo, não temerá jamais, o pó que mora nos caminhos.
Quem andou pelos serões, persistente, à procura da brisa fresca, conhece bem o valor da madrugada e da liberdade.
Quem acudiu ao grito da mãe, cantando o seu nome, sabe bem que as sardinheiras floridas não são aquilo que de melhor pode enfeitar uma janela alta, e conhece bem, definitivamente, o superlativo de amar.


Julho de 2017, Ponta Delgada, meia-noite e pouco sono, eu, sentado à janela a brincar com a lua e o mar. Eu, a tirar apontamentos da insónia.


sábado, 8 de julho de 2017

No tempo em que eu nasci…


No tempo em que eu nasci as fotos eram a preto e branco, e embora os fotógrafos se esforçassem dando-lhes um retoque, ao jeito de maquilhagem, as verdadeiras cores guardávamo-las connosco na memória.
Ficaram para sempre ali sentadas num recanto confortável, em ameno convívio com os olhares, os trejeitos, as histórias, as frases completas e os beijos que nos fizeram.
Porque sim, um Homem é feito de beijos, essa mágica expressão de amor, muito mais do que daquilo que qualquer aporte proteico ou vitamínico lhe possa acrescentar.
Guardei estes dias ao redor do meu quinquagésimo primeiro aniversário para passá-los com os meus pais em Vila Viçosa.
Será sempre neste sul que encontrarei o meu norte, mesmo agora que os meus braços se sobrepõem aos deles, fragilizados pela idade; mas a ordem pouco importa, porque somos feitos dessa "carne" dos beijos infinitos do mesmo amor, do mesmo imenso amor.
Esta será sempre a casa dos meus instantes de renascer, onde os nossos serões têm a forma de um triângulo desenhado pelos olhares, e eu, entre o sono e o amor, me perco no tempo, não sabendo se é infinito o que já vivi com eles, ou pelo contrário, infinito é o tanto que ainda me apetece viver.
Aqui, onde nunca envelheço, por entre as palavras sonolentas mas doces, escapam-se sempre as cores dos instantes que o fotógrafo captou a preto e branco, mas solta-se também o azul dos dias que virão, azul como o céu da liberdade das asas de um condor.
Porque os Homens são feitos de beijos, e gozam das asas oferecidas por esse tanto amor.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Ser


Eu sou a semente desatada pela coragem dos meus avós
Sou a raiz envolta na esperança que choveu da ousadia
Sou o inverno fértil
O dia quente
Eu sou a flor e o fruto do sonho de tanta gente

Eu sou a voz
Sou a palavra à solta por entre o eco de uma manhã de liberdade
Sou a rima rebelde
O romance inédito
Sou o verso em forma de verdade

Eu sou o passo certo e o incerto
Sou o previsível e a diferença
Sou água e sou vinho
Sou riso
Sou o nada e sou tudo no tudo da minha vontade

Eu sou um rio buscando o mar que o abraça
Sou barco
E às vezes sou apenas jangada
Sou uma ilha inesperada
Sou um Gama buscando as “Índias” que o seu querer lhe traça

Eu sou o grito que rasga os silêncios que doem
Sou o abraço na morte da solidão
Sou a gargalhada
A piada
Sou o sim e o não que mudam o tempo
Sou a Coragem e a festa
E às vezes sou uma revolução

Eu sou o beijo que não mente
O abraço que é meu e coerente
Sou o gesto e a esperança nas laudes sem letras nascidas da alma de um Homem crente

Eu sou a fonte de água fresca
As cerejas maduras
Sou o tom grená da romã
Eu sou hoje
E sou amanhã

 

 

sábado, 1 de julho de 2017

Balas ou flores



Podem ser balas ou flores, mas todas as palavras que escrevo me nascem da alma.
O poder é a vaidade onde os “valentes” se acobardam, agachando-se no mais vil silêncio, ao canto da incoerência; assim como o pudor, mais do que bom senso, tem raízes no medo e é o rosto postiço, o jazigo arrendado e lindo onde os fracos se sepultam por entre as exéquias da sua verdade.
O previsível tem o mesmo tom da cinza.
Eu tenho janelas e claraboias rasgadas no meu peito, varandas de liberdade por onde se soltam sílabas alinhadas pelo desejo, ao sabor feliz e ousado da brisa que cobre as madrugadas.
Nada me poderá definir melhor do que o amor que trago em mim e se espreita no meu peito, e que poder, para além da suprema morbidez, teria eu se amarrotasse a mais pura essência do meu ser?
Podem ser balas sobre guerras mais ou menos antigas, ou serem flores nascidas na terra sobrevoada pelas aves da primavera, mas eu sou, orgulhosamente, todas as minhas palavras.