sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

A estirpe e as virtudes

Quase sempre sentado no Estádio da Luz, não tenho a percepção de como Lisboa fica tão vazia à hora em que joga o Benfica. Do Conde Redondo e até Alcântara, é meu e só meu, o asfalto que cruza o Rato, a Estrela e a Infante Santo, como se a cidade tivesse sido desenhada só para mim e como se as luzes que “incendeiam” a Basílica estivessem ali apenas para me sorrir no instante em que eu passar.
Não é fácil levar-me a “trair” o Benfica, ainda por cima com um cartão no bolso que me daria livre acesso ao meu confortável lugar e daí aos golos do Gaitan e companhia.
Levo comigo no carro o “móbil do crime”: eu e mais quatro amigos que entre o Castelhano, o Português e o inevitável “Portulhol” ou “Espanholês”, damos integralmente corpo à ideia de uma identidade ibérica que vagueia pelo mundo como hoje pelo asfalto só nosso de Lisboa, qual “Jangada de Pedra” de José Saramago.
O silêncio morreu no instante em que nos abraçámos na recepção do hotel e ficou definitivamente enterrado no momento em que os copos foram preenchidos com o néctar vindo da Amareleja, terra do Alentejo mas sem fronteiras e com tanto… e com o sol da Extremadura e da Andaluzia.
A Maria del Mar está viciada em Eça de Queirós e em “Os Maias” que leu há pouco em Sevilha no clube de leitura em língua Portuguesa. Tem um bloco e vai apontando todos os detalhes dos espaços da obra que insiste em visitar e fica desiludida quando lhe explico que já quase não há quintas em Benfica e nos Olivais.
Mas vai levantar-se cedo para ir sentir o ambiente da Rua das Janelas Verdes onde se situava o Ramalhete, a residência lisboeta dos protagonistas e cujo nome derivava de um painel de azulejos com desenho de um ramo de flores.
O que ainda tornava a vida tolerável era de vez em quando uma boa risada. Ora na Europa o homem requintado já não ri, – sorri regeladamente, lividamente.   Só nós aqui, neste canto do mundo bárbaro, conservamos ainda esse dom supremo, essa coisa bendita e consoladora – a barrigada do riso!
Assim falava Eça.
E por sobre o asfalto ou à mesa com o “calor tinto” da Amareleja e o entretanto chegado, Bacalhau à Brás, que um bom Espanhol nunca dispensa em terras lusitanas; as “barrigadas de riso” acesas por tantas memórias de quase dezasseis anos de amizade soltam-se e invadem sem controlo todo o espaço, provando que se existe uma identidade ibérica, a “barrigada de riso” faz inevitavelmente parte do seu “código genético”.
Rimo-nos de nós; dos amores e dos desamores que vamos coleccionando; da generosidade expressa no aumento da área de nós próprios com que brindamos o universo mesmo pagando mais por um tamanho de roupa XXL; da hipertensão, da diabetes e das maleitas de coluna que nos dificultam o simples levantar da cadeira para ir à casa de banho…
Nem a crise e nem as histórias e aventuras de “Rajoy e Passos na Terra dos Banqueiros” nos conseguem azedar o vinho e calar o riso que continuou à solta na livraria “Ler Devagar” mesmo quando o “devagar” se aplicou mais à ingestão do “Gin Tónico” do que a qualquer outra leitura para lá do que está expresso nas cumplicidades, nos gestos e nas palavras ditas.
Lisboa continua deserta e só nossa quando voltamos ao Conde Redondo pelo mesmo caminho de antes.
Agora, a cidade repousa sobre a vitória por três golos do Benfica e nós continuamos a rir.
Eu, Soraya, Chelo, Luís e a Maria del Mar que na rota de “Os Maias” apanha outra desilusão quando lhe explico que “O Tavares” não é restaurante para gente tão demasiado normal como nós.
O silêncio regressa depois dos beijos e dos abraços à porta do hotel, e Lisboa é agora sim verdadeiramente só minha quando subo às Amoreiras para sair pela A5.
Ouço António Zambujo…
E numa noite ibérica com Eça, assaltam-me as palavras de Miguel de Cervantes:
"A estirpe herda-se e a virtude conquista-se; e a virtude vale por si só o que a estirpe não vale."
O que são as fronteiras e a estirpe perante as virtudes da amizade?
Muito pouco.
Quase nada.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

MARIA JOSÉ

Conhecemo-nos há tanto tempo quanto os anos que chegam até hoje desde os dias quentes em que a sede te impunha que gentilmente pedisses um “copo de aba”.
Andávamos então no Jardim-Escola da Irmã Celeste, comíamos as aparas das hóstias que as Irmãs preparavam para a missa, cantávamos “as mulheres do monte quando vão à vila…” fazendo todos os gestos da “quebra dos ovos e da fuga das galinhas”; e acabávamos sempre a tarde a escorregar de forma radical nos papelões guardados numa velha arrecadação que existia no lado direito do teu quintal, esse espaço mágico que tinha também uns muros que anos mais tarde foram adaptados às paralelas assimétricas da Nadia Comaneci, sempre que a imitávamos no brilho do seu “10” nos Jogos Olímpicos de 1976, em Montreal.
Desde então fomos crescendo, mas sempre uns mais do que outros, que a ti sempre te valeu a grande generosidade da tua fantástica e saudosa mãe que nunca deixava de repetir:
- A Zinha agora deu um pulinho.
Alturas e centímetros à parte, crescíamos mesmo muito e todos juntos, sempre ao ritmo das cumplicidades em tudo e até nas loucuras e no non-sense de adolescentes, dos sonhos sem travões que são típicos de quem é novo, das conversas que falavam de tantas descobertas, da partilha profunda de nós e das nossas vidas, da fé e da força única que ela nos dá, das tuas inesquecíveis gargalhadas que atingiam o auge quando alguém te fazia cócegas, e até dos tons roubados ao arco-íris do teu mais famoso casaco comprado um dia na loja dos Porfírios em Lisboa e que faziam de ti a mais moderna de todas quando atravessávamos o Terreiro do Paço a caminho das aulas no velho liceu à Porta dos Nós.
Com a Tina Cravo, o Paulo Ratado, a Zé Ramalho, a Céu Martins, a Guida Paulino… enquanto comíamos cachorros “fabricados” numa torradeira do bar que tinha para nós uma indisfarçável marca de modernidade porque fazia mover as metades dos papo-secos, ou então enquanto passeávamos em grupo pela Tapada Real sentindo o cheiro e o privilégio de todas as estações; escrevemos juntos e informalmente um firme compromisso de futuro: iríamos ser felizes.
E somos felizes, não traindo nunca e nem apenas sequer por um segundo, esse destino especial temperado de amor que, destemidos, quisemos oferecer a nós próprios.
Eu sei, têm existido muitos dias em que nada parece fácil e em que os ombros parecem levar com o peso incalculável de muita dor. Mas, as vidas previsíveis, simples e banais são apenas para as pessoas que não são tão especiais assim como tu és.
Só as pessoas especiais conseguem ter vidas um pouco mais difíceis e também especiais.
E também sei, seremos sempre felizes, mesmo não dando pelo tempo que passou e nem nos parecendo razoável que estejas hoje a cumprir o 48º aniversário, quatro meses antes de eu cumprir o meu; tal a força com que as cumplicidades, os sonhos, a fé e até as tuas gargalhadas, estão coladas a nós, vivas e presentes em tantos momentos e tantas conversas com que ainda hoje celebramos uma eterna e profunda amizade.
Os momentos em que pela amizade atestamos de coragem essa garra de nunca deixar de ser feliz.
E tu, por teu mérito exclusivo, insistes em tornar proféticas as palavras da tua mãe, pulando por sobre toda a dor para seres grande como és, uma das minhas maiores amigas; maior em carácter e na força da própria amizade.
Os amigos são sempre uma parte muito bonita dos nossos dias e tu és uma das mais fantásticas componentes das vidas dos que não sabemos viver sem ti.
Eu sou apenas um deles.
Agora já entendes porque és insubstituível na Sessão de Lançamento em Vila Viçosa?
É que mesmo que se te seque a boca e fiques sem voz, eu preciso de ti para que as minhas palavras, mesmo que soem roucas, fiquem muito maiores.
Zinha, parabéns!

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O tempo todo

A cidade acordou não há muitas horas e sente-se o bulício da gente em passo acelerado, aqui e ali até com alguma corrida ao jeito de Obikwelo, não vá o autocarro fugir da paragem.
Os veículos motorizados, que são espelho da ansiedade de quem os conduz, aceleram desesperados na ânsia do semáforo passar a verde, instante em que automaticamente soam as buzinas dos que estão ligeiramente atrás.
A cidade mais parece o parque gigante de uns Jogos sem Fronteiras onde todos competem por um troféu que não se percebe muito bem qual é.
À porta do hospital, à beira do passeio e preparando-se para atravessar uma passadeira das que não têm semáforo e em que os peões ficam integralmente à mercê da generosidade (e do civismo) de quem conduz; um homem com uma velha saca de couro a tiracolo, e daqueles que já se perdeu na contagem dos anos, aguarda apoiado nas suas duas muletas, nada mais do que quinze segundos da “generosidade” de quem corre de carro para não sei onde.
Estou ao seu lado, sinto-lhe o desespero e faço uma pergunta que é quase inútil:
- Quer atravessar para o outro lado da estrada?
Responde-me quase sem me poder olhar de frente porque madrasta terá sido a idade para a sua coluna cervical.
- Hoje não está fácil.
Resolvo ajudar…
Dou um passo em frente em direcção à passadeira, um carro pára porque afinal a minha travessia representa apenas um atraso na marcha aí de uns cinco segundos; mas quando o condutor menos espera, eu do sítio onde estou, a um meio metro do passeio, mando avançar o homem e no seu passo acabo por partilhar com ele os quinze segundos da sua travessia.
Á diferença é de apenas mais dez segundos.
Na “corrida” de uma manhã em Lisboa, ninguém dá dez segundos do seu tempo a um pobre velho que vendo-se do outro lado do passeio me agradece e remata com um:
- Agora vou indo devagarinho.
Eu sigo o meu trajecto e lembro-me instintivamente da conversa de há dias com um amigo padre a quem os familiares dos defuntos pedem frequentemente para celebrar a missa de sétimo dia no dia imediatamente a seguir ao funeral.
É que é muito mais prático e já vão descansados para as suas casas encerrando de forma acelerada o fugaz ciclo do luto.
Estes são os dias do egoísmo de agarrar o tempo todo e nada de generosidade para com os vivos e até para com a memória dos mortos.
E correr para quê?
Às vezes por nada ou por muito pouco.
E porquê?
Tantas vezes porque sim e nem sabemos qual a verdadeira razão. Apenas porque nos habituámos a viver assim, à pressa.
Ou talvez o tempo seja apenas um detalhe do mundo todo que queremos agarrar nos nossos braços, tantas vezes também sem sabermos muito bem porquê.
O problema é que o tempo que hoje queremos todo para nós, não se deposita em bancos na forma de contas que nos salvaguardam o futuro.
E um destes dias…

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Palavras

A noite, que caiu há pouco de manso sobre a cidade, devolve-me sempre ao silêncio que pode calar tudo, mas jamais mata as palavras.
Nada no universo pode falar mais do que o silêncio.
Porque há palavras inquietas que são gritos de memórias eternas, palavras com nome de tanta gente e registo de tantos dias, palavras soltas no silêncio como erva a nascer num campo que a chuva beijou.
Há palavras abertas nos braços que acolhem, palavras quantas vezes desprovidas de quaisquer letras e nascidas de olhares que são janelas por onde espreitam sorrisos de alguém.
Os sorrisos doces dos amigos.
Há palavras de amor em beijos dados à sombra do luar com a cumplicidade do bater incessante das ondas do mar, palavras em rabiscados pedaços de papel que dizem dar verdade ao coração; há palavras de amor nas mãos que se entregam sem reservas nesse instante em que sentimos que há muito a alma se deu à magia de um sonho que não é só de hoje, é eterno em nós.
Há palavras de paixão que se soltam às vezes numa tão simples rosa de cor vermelha.
Mas também há palavras de dor nos instantes em que tudo fugiu e ficámos nós envoltos pela solidão.
Tudo, palavras que não são ditas mas que andam loucas e à solta pelo silêncio.
A noite caiu há pouco sobre a cidade…
Não importa.
Se as palavras que o dia não trouxe são agora minhas e abraçam-me pela força com que o sonho as molda no silêncio?

domingo, 23 de fevereiro de 2014

A Desonestidade e Infidelidade nas Guerras do Coliseu

Orgulho-me de nunca ter deixado de votar em eleições legislativas, europeias e autárquicas; votei em todos os referendos; não me inibo de expressar a minha opinião sobre os mais diversos assuntos, fazendo-o publicamente na grande maioria das situações; acredito em causas e em pessoas; porém, muito dificilmente conseguirei filiar-me num partido político.
E sei porquê...
Da esquerda à direita os partidos não se inibem de menosprezar as suas bases e raízes ideológicas, sempre que está em causa o poder e a defesa do clã de amigos reunidos em torno de um interesse algures na órbita desse mesmo poder.
O militante conta muito mais do que cidadão.
Há exemplos para todos: a perseguição aos críticos no PCP, a manipulação na sucessão de Louçã no BE, as guerras surdas entre os herdeiros de Sócrates, Costa e Seguro no PS, as irrevogáveis atitudes de Paulo Portas no CDS; e este fim-de-semana assistimos a mais um triste episódio em directo do Coliseu dos Recreios com a ressurreição de Relvas, que quase não arrefeceu no túmulo onde fugazmente se sepultam os desonestos da política.
O partido que expulsou António Capucho por infidelidade à direcção do partido, que não aos eleitores que nas urnas lhe deram razão; faz emergir Miguel Relvas, comprovadamente e por decreto passado pelo Ministro da Educação deste mesmo governo: um cidadão desonesto.
No PSD de Passos Coelho a desonestidade aceita-se mas a infidelidade à "pandilha" dá pena de morte.
Já aqui escrevi em múltiplas ocasiões que só tem legitimidade para exigir, quem é exigente consigo próprio; e o que tem sido exigido aos Portugueses nem de perto nem de longe tem tido correspondência na prática dos agentes políticos.
Também não me interessa nada se o Relvas é ou não licenciado, o que me interessa sim é que não sendo forjou um diploma para conseguir facilmente aquilo que nunca se esforçou por ser.
É isto que é prova de desonestidade e mau carácter.
Candidato número um à lista do Conselho Nacional do PSD?
O Dr. Passos Coelho demonstra bem o respeito que tem por todos nós e o que deseja para o país (como se fosse necessário mais esta prova), conseguindo no entanto provar que o Coliseu dos Recreios continua a ser uma sala onde ainda há espectáculos de circo, naquele que é o único aspecto positivo deste episódio.
E eu?
Eu vou continuar a não me abster mas confesso que às vezes se me esgota a paciência e se me mói o pensamento para decidir em quem e no quê votar.
Invariavelmente é no menos mau.
Mas... e achá-lo?
Oh triste orfandade do eleitor…

sábado, 22 de fevereiro de 2014

O caminhar feliz de um homem abraçado a palavras de amor

A manhã está húmida e envolta numa espécie de chuva envergonhada que incomoda muito pouco, “borrifos” que parecem até ter trazido o benefício de alguma trégua ao frio que às primeiras horas do dia quase nos consegue enregelar todos os ossos.
Vou em passo seguro e sinto como as cidades se nos entregam e se fazem nossas quando as percorremos assim no pleno gozo da liberdade de uma manhã de sábado.
Caminho há cerca de um quarto de hora e sabe-me muito bem quando transponho as portas e me sento no velho café que tem montra para a azáfama do mercado das flores.
Quando preparava a minha primeira visita a Amesterdão, o meu amigo Pedro Marcelo passou-me uma lista de locais a visitar, e estava lá este café.
Penso no Pedro.
É interessante como as pedras, as cidades e os lugares, nos sobrevivem, não deixando porém de preservar de nós, infinitas memórias guardadas por vezes em mínimos detalhes, memórias que se soltam assim no meio de improváveis dias de passeio.
Acho que da sua nuvem, por certo bem animada, o Pedro também me quis acenar. Sinto-o ao sair e ao dar conta que a torre sineira junto ao mercado dá a hora certa com os sinos a tocarem o hino da Eurovisão, aquela música que antecede os festivais e que é o prelúdio do “Te Deum” de um compositor barroco do Século XVII, Marc-Antoine Charpentier.
Os sinos a tocarem a “Eurovisão” ao jeito de festival, só pode mesmo ser obra do Pedro.
Sigo anónimo em direcção ao Rijksmuseum por entre a multidão que fotografa muito mais do que compra tulipas e outras flores; mas até os anónimos têm direito a afectos quando “navegam” assim pela cidade: da janela de um café onde junto à montra toma o pequeno-almoço com os seus pais, um rapaz faz adeus a quem passa.
Trocamos sorrisos no instante em que lhe retribuo o gesto, algo que parece deixá-lo admirado. Os restantes adultos que passam serão todos demasiado carrancudos…
É cedo e consigo entrar no museu sem grandes problemas, percorrendo as principais galerias sem a multidão que mais para o final da manhã, bloqueia literalmente a visão dos quadros.
Vou no meu ritmo. Os meus amigos perdoam-me por certo este tique de egoísmo, mas visitar museus é das pouquíssimas coisas que prefiro fazer sozinho.
E neste “navegar” calmo pela arte, a determinada altura sou literalmente abalroado por uma senhora, que pelo sotaque deduzo ser dos Estados Unidos, e que anda ansiosa à procura da “Rapariga com Brinco de Pérola”, de Vermeer.
- Vejo “A leiteira” e esse não.
Digo-lhe calmamente que “esse” não mora aqui. A “Mona Lisa do Norte” vive em Haia.
E a Americana lá desaparece entre a multidão, triste por ter menos uma história para contar no regresso a casa.
Os diálogos dos anónimos à sombra da arte.
A loja do museu aguarda-me para os inevitáveis presentes que levo para os meus “mimis”, leia-se sobrinhos; e sabe bem quando me sento para tomar uma bica na cafetaria.
Guardadas no telemóvel, leio e releio as tuas mensagens.
Sou um homem feliz quando me devolvo à rua onde já não chove… e recomeço a caminhar.
Pode lá existir maior felicidade do que a de um homem que caminha livre carregando as suas memórias, a sua história; e que caminha abraçado a palavras de amor?

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

As lusas dores no “país das maravilhas”

Um colega Indiano que nasceu e vive no Reino Unido com a sua família, pediu-me hoje informações sobre as celebrações do treze de Outubro em Fátima, local onde pretende estar juntamente com os seus pais na concretização de uma vontade de há muito.
As suas raízes Católicas, que cruzam o Hinduísmo e a Igreja Anglicana de Sua Majestade, derivam de uma avó nascida em Malaca e que tal como nós falava a língua de Camões.
Numa breve conversa trivial de não mais de cinco minutos, o gosto intenso e único da diversidade e da liberdade, detalhes de um sonho chamado Europa e que tantas vezes parece destinado à marcha atrás.
Uma nação, da mesma forma que um espaço de nações, é definida pelas pessoas, muito mais do que qualquer particularidade geográfica, índice económico ou outro. E são as pessoas e a fidelidade à sua essência num espaço conjunto de desenvolvimento e de respeito, o expoente máximo da liberdade.
Não tardou o gosto amargo da mais triste realidade…
Há pouco li num jornal as declarações de um líder parlamentar da maioria: “A vida das pessoas não está melhor mas o país está muito melhor”.
Pergunto-lhe eu:
- O que há de Portugal para lá dos Portugueses?
Sinceramente acho que não há nada.
Somos nós a essência do país, é por nós que zela a Constituição da República e é pela “vida das pessoas” que qualquer deputado eleito deveria zelar; muito mais do que qualquer outro interesse.
A afirmação é pois imbecil e encerra em si mesma um “atestado de incompetência”. Se o homem pensa assim, não tem condições para representar o “povo”.  
Um dia, quando Camões quis elevar ao Olimpo a glória da nação lusa, cantou “Os Lusíadas” e fez a obra maior da nossa História.
Fernando Pessoa na “Mensagem” fala das “lágrimas de Portugal” e de “um povo que quer o mar que é teu”.
Sempre, os Portugueses.
Mas destas coisas, esta gente sabe mesmo muito pouco. Uma tão triste gente que até será capaz de confundir a Estrada da Beira com qualquer beira da estrada.
O pior é que indiferentes às nossas dores, pela sua mediocridade nos vão matando o pão e esmagando a liberdade, que nos vão matando aos poucos, desprezando e matando Portugal.
E a Europa que cada vez se parece mais a uma ilusão.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

O sonho por entre as sombras

Tem um intenso tom cinza de inverno, o momento em que o avião se faz à pista sobrevoando a costa que denuncia um mar revolto.
O Norte tal qual o Atlântico.
Andam demasiado agitados os mares da Europa, e o tecto de nuvens que persiste sobre Lisboa, estende-se até aqui aos arredores de Amesterdão.
Confirmo-o desde o confortável e inspirador “Fernando Pessoa” da frota da TAP.
Hoje vim a bordo da poesia.
Passo acelerado entre a multidão de gente que parece andar louca e acelerada, mas que afinal segue segura do seu destino entregando-se sem reserva às inúmeras placas que “adornam” todo o espaço.
Não tarda e estou sentado numa carruagem do comboio que tem essa estranha sinalética que impõe o silêncio. Nem conversas, nem telemóveis e nem sequer o ruído das malas de viagem a rolar sobre a alcatifa. No mundo do ruído, o silêncio só acontece se for assim imposto como regra.
E há uma passageira, guardiã do espaço, que faz “xiu” quando o lusitano já não consegue mais e rebenta numa só palavra que até é dita num tom muito baixo.
Mas o silêncio só existe se for absoluto…
O tecto de nuvens é o mesmo de Lisboa, mas a aragem é incomparavelmente mais fria quando paralelo ou cruzando canais, busco já noite o caminho para o hotel.
Passo por entre a multidão que ri alto e sem reservas, como que parecendo vingar-se do silêncio que é imposto por algumas carruagens do comboio.
E porque há destinos assim, onde se vai para estar feliz…
O hotel, a perspectiva de uma reunião que começa muito cedo, a procura de um restaurante próximo e rápido…e a comida indonésia que, com a fome de um almoço a bordo, me sabe pela vida.
Faz menos frio quando regresso ao hotel (ou será da pimenta da iguaria ingerida?); há muito menos gente na rua, e eu mergulho entre as sombras que ladeiam os canais que por ora têm um intenso tom negro, sentindo-se a água apenas em algum rebelde soluço que motiva o roçar de um barco contra as margens.
O ar tem um doce odor a liberdade.
As nuvens, a aragem fria, a água…podem até fazer lembrar Lisboa.
Mas não fosse o sonho e as lembranças de ti que emergem quando caminho por entre as sombras, por entre toda a gente, por entre o riso e o silêncio…e digo-te, morreria de saudades tuas. 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

O triste destino do fiambre numa sandes à mercê do fogo

É Terça-feira, 18 de Fevereiro do ano de 2014.
O dia revela o sol, e ao fim de muitas semanas, consigo fazer-me à estrada sem ser "fustigado" pela chuva ao jeito de um banho em cascata de generoso caudal.
De Lisboa a Coimbra, pela hora do almoço, a rádio conta-me a história de um país de sucesso onde a miséria morreu e é intensa a esperança nos melhores e mais fantásticos dias.
A fonte: Pedro Passos Coelho numa conferência internacional algures na zona de Lisboa.
O dia continua sem chuva e que bom passar as 18 horas ainda com sol, prova de que o tempo está a acelerar de encontro à primavera.
De Coimbra a Lisboa e ao cair da tarde, a rádio conta-me a história de um país triste, falido e a morrer afogado na miséria. Um país de mão estendida a pedir esmola e à mercê da generosidade do mundo.
A fonte: António José Seguro na mesma conferência internacional algures na zona da grande Lisboa.
Duas viagens, duas perspectivas e uma realidade, eu literalmente "entalado" entre as duas faces da mediocridade.
O português é hoje uma pobre fatia de fiambre esmagada entre a esquizofrénica e bipolar perspectiva de governo e oposição, ambos materializados por dois seres criados no laboratório da política, pecadores que em vão evocam o povo não fazendo a mínima ideia do que há de povo para lá dos votos que lhe permitirão concretizar ou não o seu único objectivo: o poder e a consequente sobrevivência.
O optimismo de Passos ofende o povo que sofre, e muito; e a catastrofista perspectiva de Seguro utilizada como jangada para passar incólume por entre o mar da co-responsabilidade, faz exactamente a mesma coisa, desvalorizando a inteligência e a memória do país; quando afinal, o povo, o chamado país real, está algures entre um e outro, a sofrer, a agonizar numa zona em que por ausência do mínimo de bom senso, de inteligência e de boa vontade; eles nunca conseguirão descortinar.
Uma zona triste da qual nenhum deles por incompetência nos poderá resgatar.
Uma zona de muita dor que não aparece nas colunas e nas linhas das folhas de Excel usadas para justificar despudoradamente aquilo que vai de encontro aos seus interesses.
Para acontecer algo...
Seria preciso que os papagaios pudessem um dia ocupar o trono da selva, e não me parece provável.
Ou então que alguém apareça e mande tocar a campainha para o fim do recreio dos "meninos" e os faça desaparecer daqui a "Passos Seguros".
E não é só pelas guerras de meninos armados com a “fisga do discurso”...
Entre Lisboa e Coimbra, e depois no regresso, vou contabilizando hora a hora o número de mortos numa praça de Kiev.
A Ucrânia é já ali, não tão geograficamente próxima quanto a Suíça que hostiliza imigrantes ou a França de Le Pen, mas mesmo assim demasiado próxima, porque por detrás das explosões se ressuscitam velhas guerras económicas e políticas entre leste e o oeste de que, para o bem e para o mal, fazemos parte.
E nós por cá a brincarmos às “fisgas” e vulneráveis ao fogo que não é coisa definitivamente recomendável para “miúdos”.
Nós por cá, “esmagados” como o fiambre entre a mediocridade e à mercê de um fogo que bem nos poderá esturricar.
Quem é que disse que as guerras mundiais são ocorrências arquivadas na história do Século XX? 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Aquele fim de tarde ou um momento especial que me abraça

O resfriado e a chuva persistente convidam ao sofá e à escrita que afortunadamente se suspende para o aroma de um café também temperado por palavras… mas as da conversa do amigo que chegou para que por entre o cheiro a pão quente que a máquina já exala e a vista do Cabo Espichel que a janela ao longe oferece, pela amizade se possa partilhar a vida.
Não tarda que descongele a sopa de feijão que a mãe outro dia lá deixou por casa e eu, entretanto já novamente só, retomo a escrita.
De repente e em sentido inverso há uma mensagem que chega e congela o coração: a saúde de uma amiga poderá estar em risco.
Contactos, telefones, pesquisas…
A coisa afinal pode não ser tão grave quanto aparenta. Tempo de respirar fundo.
As últimas mensagens trocadas já reflectem uma maior tranquilidade e com muita mais paz me entrego à sopa de feijão que, confirmo, tem aquele toque único que é carícia da Mãe Inácia, a única pessoa do universo que me considera magro apesar dos meus 80kg.
Toca o telefone e falo com o grande actor, que privilégio ter aquela voz entregue às minhas palavras no dia do lançamento do livro em Lisboa. Fico feliz.
Quase que nem me dava tempo de desligar, e o telefone soa com as palavras do amigo artista, mas dos traços, que “estava morto” por partilhar o fim-de-semana de Madrid e as cumplicidades que tornam os dias afinal tão especiais.  
Nem tenho tempo de regressar à sopa…
Toca novamente o telefone e é o amigo que sempre me injecta paz e que sem saber é assim informalmente uma espécie de assistente espiritual. Não é usual falarmos a esta hora mas hoje por certo adivinhou que eu precisava de aliviar a tensão pelo susto da saúde da minha amiga, e acabamos os dois a rir.
Toca à campainha e a senhora da Ferro Expresso recolhe a roupa lavada que trará passada a ferro na próxima semana. Diz que guarda a minha casa para o fim porque eu tenho sempre uma palavra que a deixa bem-disposta. E lá levou a dita palavra acabando por beneficiar indirectamente da conversa com o meu amigo que ela nem faz ideia de que existe.
A sopa continua a arrefecer abandonada no tabuleiro que coloquei sobre a mesa da sala…
Toca outra vez o telefone, o pai está muito feliz porque foi homenageado nos seus quarenta anos ao serviço da Fundação. Alegro-me com ele e não consigo deixar de me comover por entre essa alegria, lembro-me perfeitamente do dia em que ele entrou ao serviço.
A sopa está completamente fria.
Volto a aquece-la e ingiro-a com o i-pad à frente e o youtube a “dar-me música”.
“Rosa branca desmaiada”. Hoje apetece-me ouvir música alentejana e melhor condimento não há para a sopa da mãe e a festa do orgulho do pai.
Já é tarde quando me devolvo ao sofá mas ainda tenho tempo para uma conversa no Facebook. E a determinada altura da conversa, o meu amigo envia-me as seguintes palavras: “A tua escrita por vezes está tão bem tecida que bom seria se fosse uma roupa de vestir, transmite conforto. É difícil de explicar, mas à medida que se vai lendo é como estar a vestir devagarinho uma peça de roupa macia”.
É das coisas mais bonitas que já ouvi, que grande abraço dado assim por palavras.
E que me melhor forma de terminar o serão e mergulhar nos sonhos.
É isso que faço, não sem antes espreitar à janela de onde agora não vejo o mar mas onde tenho a certeza de que ele existe e aguarda apenas o sol para se me revelar azul na madrugada.
Por essa esperança se embarca tantas vezes e em tantos dias.
Por vezes com muita vontade de sorrir e outras em que sorrir é definitivamente o que menos nos sai da alma e nos impõe vontade.
E os fins de tarde e os serões são como a vida, porque são especiais pela presença dos amigos e porque nem que só por um instante se consegue vislumbrar algum leve traço da solidão, essa demasiado silenciosa assassina que nos derruba a esperança.
Ao fim da noite não tinham sido escritas muitas palavras no meu velho caderno preto e nem uma nova página do romance tinha sido sequer começada.
Mas o que faltou em palavras sobrou em razões para as fazer brotar agora.
Por mérito da amizade que é como quem diz, do amor. 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Era uma vez…

Depois da revisão da ortografia que gerou mais desacordo do que acordo entre toda a gente que fala Português; depois da actualização do Código da Estrada e do estabelecimento de novas regras para a abordagem de rotundas; depois da avalanche “reformadora” imposta pela Troika que até levou à suspensão de feriados nacionais… Impõe-se que se proceda rapidamente a uma revisão das histórias infantis pois o conteúdo e a “moral” das ditas estão perfeitamente desajustados da realidade.
De facto, todos nós que somos pais, avós, tios, professores, etc; estamos a ser confrontados com um olhar de desdém por parte dos petizes que não conseguem entender em que raio de mundo é que nós fomos buscar semelhantes argumentos e a aprender a tirar tais conclusões. Não entendem porque ficamos felizes com desfechos impossíveis e sem qualquer aplicabilidade.
Por exemplo, na história do Capuchinho Vermelho as crianças têm dificuldade em entender a preocupação com a avó. Porquê vir o lenhador a retirar a idosa do ventre do “lobo”? Para quê? Para continuar a desorganizar o Orçamento do Estado beneficiando da sua reforma? Para sobrecarregar a família com a despesa do lar?
Morreu e acabou, o “Estado Social” até agradece. O Capuchinho tem é de se entender com o “lobo” e com a sua boca “tão grande” carregada de dentes letais (IRS, IVA, Portagens, Taxas Moderadoras…), para também não ser comido logo de uma vez.
Se passarmos para a Cigarra e a Formiga, outro claríssimo desajuste. Quando chega ao inverno quem se “amanha” é quem fala e canta bem. As “formigas” que trabalham arduamente já emigraram entretanto, ficaram sequinhas para alimentar as “cigarras” e muitas delas dormem ao relento.
A sorte premeia quem “dá música” e muito pouco quem trabalha bem. As cigarras até conseguem ser “formigas licenciadas” sem nunca se terem deslocado ao formigueiro.
E o Robin dos Bosques? Se tem alguma lógica roubar aos ricos para dar aos pobres? Os pobres sim, esses desgraçados que só estragam o ambiente e as estatísticas, esses é que têm de “aguentar” e pagar bem para sustentar a saúde financeira do capital, a face visível que cativa e atrai os “mercados”. Se fosse normal, a criatura que cirandava pelas florestas de Nottingham roubava os pobrezinhos para entregar tudo ao tesouro do reino.
Isso sim seria normal.
E a Gata Borralheira?
Alguém consegue entender a intervenção de uma fada que transforma uma criada em princesa? Por favor.
Agora substituam a fada pela Teresa Guilherme e vejam lá se através da “Casa dos Segredos” a história não passa a fazer muito mais sentido?
Essa sim é uma intervenção muito mais eficaz e que até garante capas em revistas de “princesas”.
E depois, com a profusão de plásticas que há hoje por aí, quem é que consegue identificar uma dama por um sapatinho de cristal. Agora cada “lady” tem o pé que quer. E quem diz os pés, diz as mamas, as nádegas, os olhos, os narizes, etc.
Depois, qual é a “Carochinha” que se põe à janela para encontrar marido? Abre uma página em algum site de engates ou publica um anúncio para encontro no Correio da Manhã.
E no mínimo o João Ratão tem de morrer triturado numa Bimby ou entalado na porta do microondas.
No Caldeirão? Isso é uma serra por onde passamos a caminho do Algarve.
Na “Branca de Neve” para além das suposições de âmbito afectivo-social e da perversão que se antecipa na presença na mesma casa de uma rapariga com sete anões, também não parece verosímil que a invejosa tenha de se vestir de velhinha para oferecer maçãs; disfarça-se de “Brasileira” e ataca o príncipe através do Facebook. A outra fica tão “apardalada” que acabará por morrer na casa das criaturas de baixa estatura.
Para além de que não necessita de um espelho mágico, liga para a SIC pela manhã e a “bruxa” que substituiu a Maya até lhe dá as coordenadas GPS da casa onde ela vive.
Depois há ainda uma questão que é transversal a algumas histórias e que está relacionada com o célebre “viveram felizes para sempre”.
Pode continuar a manter-se esta frase mas convém fazer uma adaptação: “viveram felizes para sempre, mas juntos só durante uma ano e meio, porque depois disso divorciaram-se e encontraram a felicidades junto de novos parceiros”.
É importante também não fazer apelo ao “tempo em que os animais falavam”, a criança pode ter inadvertidamente estacionado no Canal Parlamento, pode estar familiarizada com o “conseguimento” e sabe hoje perfeitamente que os “burros” falam.
Revejam-se pois as histórias…
Ou quiçá a História que talvez valha mais a pena.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Amo-te

Amo-te.
Tu sabes.
Repito-o todos os dias sem data ou hora marcadas, mas quase sempre quando o sol já vai alto na manhã.
E também à noite…
Quando se solta a poesia que só fala de ti e não se cansa de cantar uns olhos que me trazem o céu.
Tu sabes, são os teus olhos.
Amo-te.
Às vezes “falamos” pelo silêncio…
E para o amor, o silêncio é sempre mais verdadeiro do que as palavras, aproximações tão redutoras que adjectivam e dão dimensão àquilo que carrega em si a perfeição absoluta e é infinito.
Mais verdadeiros são os beijos e os abraços. Por eles, fizeste do antes de ti, pedaços simples e sem história no contexto da minha própria história.
Amo-te.
Mas nunca trocamos flores.
Mantemo-las vivas por entre as árvores do campo que nos dão sombra e fazem caminho ao sonho de pisar todos os trilhos mão na mão.
Amo-te.
E a mais ninguém poderei um dia voltar a dize-lo, depois de ser teu como sou, e depois de te amar tanto como amo.
Porque, de que vale o depois, como também o antes, se perfeito é o presente e amar-te assim?
Amo-te.
E assim será nos catorzes de todos os Fevereiros, nos catorzes de todos os meses e nos dias todos que a vida ainda tiver para me oferecer.
Amo-te.
Tu sabes, porque te repito isto durante o ano inteiro.
Mas há ainda uma coisa que eu nunca te disse e que hoje te quero dizer:
- Só contigo, mas mesmo só contigo, admito partilhar os cabides que estão pendurados no meu roupeiro.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A minha luta com o anti-ciclone

Escrevo de frente para um mar demasiado inquieto, o Atlântico à mercê de um vento fortíssimo que também parece querer entrar à força pela janela do meu quarto, uma brisa tão violenta, que entre gritos e sussurros, me faz acreditar que o Adamastor deixou o seu “Cabo” e veio para aqui espalhar as suas tão temidas “Tormentas”.
Aqui ao leme da nau deparo-me com uma série de consequências práticas: voo cancelado, mais uma noite em São Miguel, uma ida forçada à Loja Chinesa aqui do lado para comprar cuecas e meias (e a minha mãe que sempre me repete que não devemos trazer a roupa à conta dos dias porque pode acontecer algo…) e lá vou ter de fazer esse tão grande “sacrifício” de comer mais um Bife à Regional carregadinho de “Pimenta da Terra” e uma Morcela com Ananás, quando chegar a hora de ir jantar.
Fosse eu dado a superstições e facilmente diria que num dia treze e à beira de uma Sexta-feira, isto seria mais do que expectável.
Sofresse eu da mania da perseguição ou carregasse em mim uma tendência depressiva para achar que exerço uma atracção pela desgraça, e a coisa seria ainda mais complicada.
É que vou com os meus pais no último sábado ao Politeama para assistir à Revista à Portuguesa do La Feria e sou confrontado com a substituição de uma das actrizes principais por não se encontrar bem de saúde; vou no domingo até ao Estádio da Luz para ver o Benfica – Sporting e começa a cair lã de vidro sobre o relvado, caiem placas da cobertura e adiam o jogo; venho para os Açores e até anulo os efeitos do anti-ciclone com a meteorologia a desencadear um temporal medonho que adia todos os voos…
O Instituto Berlinense que baptiza e dá nome às tempestades ainda se pode lembrar de chamar “Joaquim” a alguma delas; identificado como uma espécie de “Midas das Desgraças” podem começar a impedir a minha entrada em qualquer recinto desportivo ou a bloquear o meu passaporte para alguns destinos mais pacíficos; quem sabe até, com tal anti-clímax à minha volta, se não boicotam a minha entrada no Santuário de Fátima em dia de Procissão das Velas, pelo risco elevado de as ditas se apagarem todas como reacção à minha presença?
Pois…
Mas não estou nada preocupado.
As senhoras da SATA já me deram um Cartão de Embarque para amanhã à tarde, apesar de eu lhes ter dito irritado que sou um bombista perigoso e suicida com a mania de pôr bombas em frascos de doce, quando me avisaram que não há problema com tudo o que comprei há pouco no Free Shop, excepção feita a dois frascos de compota de ananás que são potencialmente perigosos.
Por favor!
São bombas, mas calóricas, claro.
Mas, como sou mesmo um optimista e vejo sempre o lado positivo de todas as coisas: olha que grande oportunidade me deu este mau tempo para sentir as vossas preocupações e a vossa amizade em tantas chamadas e mensagens…
Tudo é sempre bem mais fácil na presença dos amigos e eu estou destinado a gostar muito de todos vós. Mesmo!
E depois, e como dizia o simpático taxista que me trouxe de volta ao hotel ainda há pouco:
- Bem-vindo aos Açores porque isto sim é viver nos Açores.
Pois que seja. Não será por isso que os Açores deixam de ser um dos sítios mais fantásticos de Portugal.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Uma noite e o próprio fado

À frente da minha janela vejo o Atlântico que me enche o olhar de azul até ao horizonte, a linha onde não sabemos se o azul é céu ou mar, mágica ilusão de um beijo na eterna paixão que une a Terra ao infinito celestial.
Atrás de mim os vulcões de São Miguel vestidos de verde e bordados de hortênsias, as histórias e os mistérios guardados em lagoas que num despudor saudável bebem do céu e da Terra, as cores... e às vezes o azul.
Aqui, Português no cais onde as gaivotas matam saudades da terra, o difícil é não ter alma de marinheiro, raro é ter no peito outro suspiro que não o fado.
E do fado carrego a memória de uma noite de há uns dez anos, à conversa nos claustros do Convento de São Francisco, a Pousada de Beja, com José Luís Nobre Costa e o Professor Joel Pina, respectivamente, guitarrista e viola de tantos fados e tantos fadistas do meu tempo e de todos os tempos.
Num dos acasos, num desses momentos inesperados que são bombons que a vida carrega nos bolsos da nossa história, vejo-me a mim em amena cavaqueira com eles e com uma amiga comum, iluminados pelo copo de um bom tinto alentejano e tendo por mote uma paixão que nos une a todos: o fado.
E de repente e ali tão perto: Amália a cantar em Atenas mas a sonhar com o seu restaurante preferido de Paris, a mestria de Alfredo Marceneiro, Lucília do Carmo, João Ferreira Rosa, Carlos Zel...
Todos eles protagonistas das histórias que nos vão perdendo nas horas e nos levam bem para lá do tempo de um serão.
Sem o canto dos fadistas, sem as palavras dos poetas, sem os acordes da guitarra e da viola que repousam a um “canto” do sofá da Pousada, esta foi a melhor noite de fado que eu já tive, e duvido que venha a ter outra igual.
E em pleno Alentejo.
Porque entre a Terra e o Céu só há a distância de um passo para quem vive com o olhar no horizonte, o guitarrista José Luís Nobre Costa partiu ontem para lá da Terra.
Como é costume, a imprensa não deu grande destaque ao facto, talvez porque ele permaneça eterno no dedilhar que dá o tom a milhares de fados que vamos continuar a ouvir por aí.
Na minha memória também permanecerá eterno nesta gratidão de uma noite que jamais conseguirei esquecer.
Que descanse em paz no verdadeiro panteão, o dos Deuses, ali onde o escrutínio do Homem é dispensado e onde têm assento todos os artistas, aqueles que ousam entregar-se para que da Terra possa emergir a sua suprema beleza, e aconteça a arte.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

A voar ao sol para lá das nuvens

Eu sei que é difícil acreditar, mas garanto-vos que o sol ainda brilha radioso por cima destas nuvens que literalmente nos querem afogam.
Vejo-o e desfruto dele enquanto vos escrevo cá de cima cruzando os céus em direcção a Ponta Delgada depois de ter atravessado as ditas nuvens e me ter sentido como o sumo no interior de uma garrafa de Compal agitada pelas mãos de um empregado de café com muita pressa.
E que saudades eu já tinha deste sol cuja ausência me levou inclusive a agendar uma sessão terapêutica anti-depressiva de Bolas de Berlim na companhia da minha amiga Vanda... Antes tomarei o anti-diabético, não se preocupem.
Ainda há pouco a caminho do aeroporto fiz a segunda circular debaixo de uma chuva dissolvente (do que resta da minha paciência) que depois de todos os procedimentos de check-in, bagagem e segurança, me colocou no impulso de um café.
Até chegar a esse "sorvo negro e quente indutor de energia" tive ainda de percorrer toda a zona de lojas, e foi interessante perceber quais os condimentos que na opinião dos comerciantes poderão cimentar relações, casamentos, uniões de facto e afins; na comemoração do dia de São Valentim, na próxima Sexta-feira. Destaco as cuecas e os soutiens em tons de vermelho, ambos com incrustações de penas da mesma cor.
Uma mulher que vista semelhante lingerie até poderá ter sucesso, mas arrisca-se a uma decisiva e indesejada aproximação às galinhas; e apimentar algo com semelhantes artefactos, parece-me a mim que só pelo efeito de indução dos espirros que as ditas penas podem ter no nariz do(a) parceiro(a).
Finalmente chego ao balcão do Harrods e peço um café que me é servido por uma empregada Brasileira com nome inscrito na chapa que traz ao peito: "Greice Kelly" (e não me enganei a escrever o nome próprio).
Os deuses devem estar loucos ou então eu entrei numa Twilight Zone onde tudo tem nome de Grimaldi. A Stephanie quase me afoga na segunda-circular e agora a mãe serve-me a bica...
Nem o café me sabe bem servido assim ao jeito de bebida do Panteão dos Príncipes do Mónaco.
Fujo dali e vou para a FNAC.
Logo à entrada e em destaque o novo livro que coloca em papel uma conversa da Maria João Avillez com o Vítor Gaspar.
Mais panteão...
Detesto este interesse pela fase post mortem dos ministros e dos primeiros-ministros. Para além de que sou incapaz de pagar um cêntimo que seja para ler qualquer palavra que venha da boca do Vitor Gaspar.
Reconheço no entanto o mérito da autora por conseguir fazer um livro com tantas páginas depois de uma conversa com a criatura, o que por certo só terá alcançado depois de um treino intensivo de paciência a contar os grãos de areia num metro cúbico do areal de Carcavelos; e, estou certo, com a ajuda de um consumo exagerado de Red Bull.
Resolvo comprar uma revista, saio da FNAC e fico a aguardar o voo.
O resto já vocês sabem, estou por aqui ao sol a aguardar que me venham servir uma "refeição ligeira".
Garanto-vos no entanto que se a pessoa que me entregar o tabuleiro se chamar Alberto, Rainier ou Carolina, eu irei directamente consultar um padre ou um psicólogo, porque das duas uma: ou me portei muito mal ou tenho "penas de galinha" incrustadas na moleirinha.
É que não há quem aguente...
Bolas!
(Sim, é um facto, também poderei convocar a Vanda para uma sessão extra de Bolas de Berlim... com creme, claro).

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Quando uma criança pede “cocó”

A manhã de Segunda-feira revela finalmente o sol e confirma que a “Stephanie” já “voou” para outras bandas.
Depois da tempestade, a bonança também se manifesta pela ausência de trânsito no IC19, e ao redor do Estádio da Luz parece que já nada de estranho anda pelos ares.
Com o meu pai, chego cedo à Sala de Espera do Hospital da Luz onde aguardamos a vez para uma consulta de oftalmologia.
A sala está repleta.
No silêncio que é quebrado apenas pelo constante e irritante ruído que anuncia a chamada até ao balcão de atendimento do detentor da senha com um determinado número, segundo indicações de um ecrã muito colorido; uma criança com não mais de três anos faz ouvir a sua voz:
- Oh mãe leva-me a fazer cocó.
E a mãe cumpre as “ordens” e atravessa a sala de mão dada com o miúdo por entre os sorrisos das dezenas de pessoas, porque ninguém pode ter deixado de escutar o pedido feito num tom de voz que só tem desculpa pelo facto de se ser criança.
À minha frente e a assistir a esta cena, está sentada uma senhora com mais de oitenta anos. Chegou há pouco e sentou-se com a ajuda de uma filha que a acompanhava pela mão.
As semelhanças do rosto não desmentem o parentesco e mãe e filha persistem de mão dada enquanto assim sentadas em cadeiras lado a lado.
E eu que também estou sentado por ali com o meu pai e com tantos Pedros, Paulos, Marias… tenho de repente a sensação de ver cruzar-se num mesmo espaço, o inicio e o quase fim desse percurso a que chamamos vida.
Eu, os Pedros, os Paulos, as Marias e todos os outros estamos algures por esse caminho que nos vai parecendo tão mais curto à medida que ficamos mais próximos da senhora sentada do que do miúdo que correu com a mãe para a casa de banho que está ao fundo da sala.
E vagabundo como é o pensamento, deixo-me ir pela urgência de viver, pelo amor, pelo prazer das coisas grandes, pela intensidade de preencher os dias com tudo o que conduz efectivamente aos desejos e aos sonhos, pelo conforto dos afectos essenciais a todas as idades, e pela família, essa gente que nos dá a mão quer seja por impulso genético ou não, mas sempre por um impulso de amor.
Já não assisto ao regresso do menino que foi fazer “cocó” pois chamam “Artur” e nós avançámos para a consulta.
Mas continuamos pelos sorrisos com o médico no seu consultório quando ele pergunta:
- O Sr. Artur estava a fazer uma “Prostaglandina” para o tratamento do glaucoma, certo?
Para o meu pai como para a maioria da humanidade, “Prostaglandina” soa a nome de filho da Luciana Abreu e do Djaló.
É sempre bom começar e continuar as segundas-feiras com sorrisos.
A vista do pai está óptima e em breve nos devolvemos à rua constatando que o IC19 continua sem trânsito.
A vida seguirá o seu rumo normal que tantas vezes nos “exige” a mão de alguém, e outras, quando estamos aí algures bem no meio do entre o nascer e o morrer, apenas uma palavra ou o olhar de quem gosta de nós.
Se todos formos generosos a dar as mãos, as palavras, os sorrisos e os olhares, a ninguém nunca faltará a satisfação de tão básica necessidade: o amor.
E assim se comprova tudo o que se pode aprender numa sala de espera quando de forma tão natural, uma criança pede cocó.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

As cúpulas das “Catedrais”

Traindo o seu sofá numa tarde de domingo, sai um homem de casa debaixo de um temporal imenso porque acredita na vitória do seu Glorioso, e em vez de uma chuva de golos (ou da tão previsível água) leva com uma dita de lã de vidro com aspecto peçonhento.
Eu bem sei que quem se mete com “Stephanie’s”, sejam elas tempestades ou princesas, tem sempre uma forte probabilidade de acabar em situações pouco recomendáveis… Mas, enfim…
Definitivamente este não foi um bom fim-de-semana para as cúpulas das “Catedrais”. Agora a cobertura da Luz, mas antes, as cúpulas das verdadeiras catedrais.
Há muito que admiro D. Manuel Clemente, o agora Patriarca de Lisboa, reconhecendo-lhe um toque de uma inteligente subtileza e modernidade no pensamento.
Mas ouvi-lo dizer numa entrevista que “a sociedade é também o conjunto de costumes, tradições, ideias força e valorizações genericamente assumidas”, afirmando simultaneamente que há legitimidade para um plebiscito sobre os direitos das minorias, tudo para justificar a colagem às posições mais conservadoras de uma certa Igreja instalada numa zona cinzenta de confortáveis banqueiros e pensadores da “Obra” que até andam a “cuspir” sobre os escritos do Papa Francisco; foi mau demais. Foi pior que lã de vidro sobre a Luz.
O meu Cristo lutou contra o poder e as tradições instituídas, lutou contra os vícios dos poderosos e não negociou com Pôncio Pilatos para fugir à morte na cruz.
Sem temer o Seu estatuto de minoritário, ensinou-nos a não tolerar o intolerável mesmo que este seja lei dos Homens.
Antes, João Baptista já tinha sido voz a bradar no deserto sem se render ao próprio deserto.
E depois, os seguidores de Cristo, as raízes da Igreja que somos, foram mártires sempre que a sua fé chocou com as “ideias força e valorizações genericamente assumidas” que estavam nos antípodas dessa mesma fé.
Um Cristão deve dizer “sim” ou “não” mas sem desculpas. Esta há muito designada “Diplomacia Vaticana” não é nada, e se fosse era uma estranha e inadmissível submissão ao poder.
Para além de que em questões sobre família, casais, fidelidade e orientações sexuais, manda a prudência que estas “Cúpulas” tenham algum cuidado para não entrar em territórios de uma estranha hipocrisia.
Entretanto venha a bonança…
E o bom senso que também dá sempre jeito em todos os “campeonatos”.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Sábado

A noite trouxe a sonora perseverança do vento no recorrente e estridente empurrar da chuva contra a vidraça.
“Gosto muito de ti”.
As palavras de amor, as que matam os silêncios, sobrepõem-se sempre a tudo e a todas as lembranças; e abraçam-se a nós no solitário frio de uma noite de tormenta.
Sigo pela saudade…
A manhã trouxe o sábado, mas sem que o sol conseguisse romper as densas nuvens que persistem neste choro sobre o nosso inverno.
Da vidraça molhada é hoje impossível espreitar o mar.
Mas há esse beijo matinal da minha mãe, secreto e mágico elixir que pelos dias me faz sentir menino. E há sorrisos e conversa à mesa na hora do pequeno-almoço.
Como sempre que estamos juntos.
Pela rotina do café, do jornal, do folhear dos livros na Bulhosa, das compras… deixo-me ir até à hora em que o Cozido de Grão já se denunciou e invadiu de aromas as escadas do prédio, uma espécie de “passadeira” sensorial para a família que chegará para o almoço, o código de acesso para quem carrega a genética e a paixão por além Tejo.
As nuvens persistem para lá da janela, mas quem repara nelas?
O João e o Luís soltam sorrisos pela casa. Agarramo-los e sorrimos também com eles.
Renascemos sempre no momento em que nos despimos da idade e embarcamos sem reservas no doce sorrir de uma criança.
E segue o sábado.
Segue a chuva.
Mas como chamar triste a um sábado assim?
Siga a vida…
Porque mesmo quando um minuto é triste há ainda 59 outras hipóteses para conseguir ganhar a hora.
E porque mesmo quando te dizem “não és de aqui”… há ainda um universo todo que pode ser teu.
Sempre a sorrir.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

O “centro” e as suas poucas virtudes

Nos poucos anos de liceu em que estudei Francês deparei-me com a dificuldade em escrever as palavras com a acentuação correcta, aguda ou grave, facto determinante para qualquer língua mas que para o Francês é definitivamente crucial.
Assim e sempre que surgia a dúvida, eu recorria a uma técnica que desenvolvi em conjunto com os meus colegas e que consistia em colocar os sinais numa vertical perfeita. Competia depois ao professor escolher qual a inclinação correcta.
De forma mais ou menos consciente eu estava a encarnar e a dar uso à nossa peculiaridade genética que determina que “no centro é que está a virtude”.
E por isso todos nos esforçamos por estar no “centro”, esse ponto confortável com vista para um e outro lado da questão e que nos deixa a um brevíssimo passo do “sítio destinado ao estacionamento das modas”.
À pergunta:
- Como estás?
Respondemos quase sempre:
- Mais ou menos.
O “centro” na resposta que não é carne nem peixe, aliás, não é nada porque o “mais” anula o “menos” e ficamos a zero.
Mas assumir o “mais” é arrogância, e nunca sabemos se no instante a seguir nos cai um vaso de sardinheiras na cabeça e vamos desta para melhor. O “menos” também é demasiado humilhante e nós nunca vamos reconhecer que estamos mal.
Na condução seguimos o mesmo critério e todos viajamos pela faixa do meio. A da direita é para os lentos e nós até temos um “carrinho” jeitoso. A da esquerda é para os inconscientes.
Viajamos então no meio e na companhia da prudência, insensíveis a todos os impropérios verbais ou digitais das pessoas que nos ultrapassam pelas outras faixas.
Também na política todos pretendem situar-se no “centro”, mas aqui com o objectivo de ter maior campo de recrutamento de votantes. De facto, se olharmos bem, o PS só está à esquerda quando descemos da Rua D. João V para o Largo do Rato, e o PSD só está à direita quando subimos a Rua de S. Caetano à Lapa.
E alguns não estão no “centro” mas até deveriam estar lá, neste caso no Centro de Acolhimento para Dementes.
Este luso cortejar do “centro” está no sangue e expressa-se nessa dificuldade em dizer “sim” ou “não” em alturas em que fazemos patinagem verbal pelas zonas cinzentas do “nim”, que é como quem diz, do “assim-assim”.
- O namorado da Maria é giro?
- Bem… É muito simpático… Ia muito bem vestido… e… Sabes? Fala bem… Acho que não é mau rapaz… É de boas famílias… Acho que gostei dele.
Bolas!
Basta dizer “sim” ou “não” e neste caso não é necessário utilizar tanta conversa porque já todos percebemos que a criatura mete medo ao susto.
Mas reparem que mesmo o “gostei dele” tem atrás um “acho” que já nos defende porque o “acho” é bastante volátil e permite uma inversão a qualquer momento se formos contra-atacados. É uma “faixa do meio” e basta dizer que deixámos de achar com base em quaisquer hipotéticos dados.
E mesmo quando alguém ousa romper este gosto pela “mediania” assumindo que “quem não arrisca não petisca” há sempre três indivíduos que chegam para dizer que “quem tudo quer tudo perde”, que “mais vale um pássaro na mão do que dois a voar” e que “prudência e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém”.
Verdadeiramente, acho que a virtude está onde queiramos que ela esteja. Algumas vezes à esquerda, outras à direita e ainda outras, obviamente ao centro.
Por vezes no “sim”, outras no “não”, muito poucas vezes no “banho-maria” da hesitação do “talvez”…
Tudo depende do sítio onde estamos e do sítio para onde queremos ir neste prazer supremo que é o usufruto da nossa vontade.
Muitas vezes quando apostamos cegamente no “centro” seguindo a técnica das minhas aulas de Francês, erramos.
Afinal, um sinal vertical colocado numa palavra Francesa está sempre e objectivamente errado.
Neste momento, o país e as nossas vidas precisam urgentemente dos gritos de “sim” e “não”, conforme o caso e a pergunta.